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História

Desembaraçando a vida

História de: Fernando Tenório de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2010

Sinopse

Nascido em Maceió, Fernando vem de uma família conhecida pelo ramo de cabeleireiro. Durante sua infância, sofreu com preconceito por ser filho de cabeleireiro, assim nunca se imaginando ser um deles. Começou a trabalhar no salão de seu pai e tomou gosto pela coisa, aprendendo a cortar cabelo da clientela. Ficou muito conhecido pelo seu trabalho na cidade. Conta-nos um pouco sobre como encarou o preconceito atribuído à profissão e sobre sua trajetória de crescimento profissional, repleta de histórias divertidas sobre brincadeiras, namoros e causos de seu trabalho.

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História completa

P - Fernando, então, boa tarde. 

R - Boa tarde. 

P - Vou querer que você comece, por favor, falando pra mim o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento. 

R - Eu me chamo Fernando Tenório de Oliveira. Nasci no dia 8 de maio de 1968, meia oito, em Maceió, Alagoas. 

P - Fala pra mim o nome dos seus pais. 

R - A minha mãe é Eudócia Tenório de Oliveira. E meu pai é Paulo Alves de Oliveira. Minha mãe por ser Eudócia era uma pessoa especial, porque sempre batalhou muito. E ela gosta muito da família. Então eu acho que é interessante de falar bem dela também, que é uma pessoa que a gente tem que preservar bastante. Ela, minha mãe, e meu pai. 

P - E o que é que seus pais faziam? 

R - Então, meu pai é cabeleireiro desde a infância, desde o tempo das calças curtas, vamos dizer assim. Ele trabalhava com o meu avô. Meu avô também é cabeleireiro, era cabeleireiro. E a profissão que ele tem é a que ele aprendeu com o pai. E minha mãe não, minha mãe sempre foi, estudou, ela só é pedagoga mesmo. Ela é dona de casa atualmente. 

P - Então vamos começar falando um pouquinho dos teus avós, que eu acho que tem uma história bacana que você pode contar. Como que era o nome dos teus avós? 

R - Meu avô era Oscar Fernandes e minha avó era Nerci. Nerci Alves. E o que eu posso falar que naquela época nos anos 30, né, vamos dizer assim, meu avô era cabeleireiro, minha avó dona de casa. Os dois pais de 11 filhos. Uma vida muito corrida àquela época. Quase ninguém tinha televisão em casa. Que eu escuto muito falar isso, né? Era uma coisa que era um prazer que quase não eram muitos que tinham como ter uma TV em casa. Então eu acho que devido a isso (risos) eles tiveram tantos filhos. Onze filhos, né? Então o que eu posso falar é que era uma vida muito louca, né, corrida. E todo mundo trabalhando. Meu pai mostrou foto do meu avô de terno e gravata. Então eu acho que era outro clima, isso no Nordeste, né? Não sei aqui em São Paulo. Aqui eu acho que devia estar bem adiante, né, mais frio. Mas é isso aí. 

P - E onde que eles moravam, em Maceió? 

R - Não, moravam em Recife. Meus avós são de Recife. Um bairro lá que chamava Engenho do Meio. É um bairro onde tinha escravos no passado. Então por isso que tem o nome de Engenho, porque era um Engenho mesmo. Eram vários engenhos de escravos. Aí o tempo passou, a escravidão acabou, e com isso virou bairro Engenho do Meio. 

P - E você conheceu seu avô? 

R - Conheci meu avô, conheci minha avó. Minha avó ainda é viva. Meu avô já é falecido. 

P - E o que é que você tem de lembrança dessa convivência com seu avô, com sua avó? 

R - É, na época, eles eram pessoas muito boas, tranquilas. E como eu era muito criança não dava muita atenção assim, era já aquela imagem de avô e avó. A minha avó sempre foi uma pessoa muito assim, trabalhava, ela fazia bonecas, ela dava aula de catecismo, ela fazia, ajudava a pregar na igreja. Aquelas pessoas beatas mesmo. Cuidava da família. Todo ano a festa de final do ano era na casa dela. Ela reunia toda a família. Ela fazia questão do réveillon ser lá. Muitas vezes o Natal, réveillon. Que como essa casa no Engenho do Meio era enorme a casa de esquina, então tinham vários quartos. Tinha uma parte grande de árvores frutíferas. Então ficava todo mundo embaixo das árvores ali, com. Então o que eu posso dizer é que ela era muito humana. Que era feito - como aqui em São Paulo fala que é a avó italiana - muito a nonna, né? E ela por ser do Nordeste ela tem muito disso. E meu avô gostava da casa cheia, aquela coisa animada, todo mundo junto. Ele era muito calado. O que eu posso dizer é que ele era muito calado. Ele não, falava muito pouco. Então eu não tenho muito a imagem dele assim, conversando com ele, batendo papo, que ele era muito fechado. Não sei por que, naquela época, né, não sei. Talvez hoje não, hoje as pessoas idosas são mais comunicativas. Naquela época o meu vô era mais fechado. Minha avó é que era mais, ela falava muito dela, da infância dela. Então é isso. 

P - E aí você lembra de você vendo seu vô trabalhar? 

R - Eu não cheguei a vê-lo, não, não. Porque eu comecei a trabalhar com 15 anos, 16 anos de idade no salão e na época ele já era aposentado. Ele não trabalhava. Ele cortava os cabelinhos em casa, das filhas. Como ele tinha filhas que cresceram com ele cortando o cabelo delas, então às vezes eu via, chegava a vê-lo cortando no quintal o cabelo da minha tia. Mas aquela coisa assim, eu acho que eu não tinha interesse na época. Eu nunca parei para pensar: "Meu avô cabeleireiro", entendeu? Porque muitas vezes na vida da gente a gente só dá valor quando a gente perde, né? Hoje eu, assim: "Poxa, se tivesse tido mais atenção a ele, perguntado mais a ele, eu saberia falar mais." Então na época eu não achava, natural, eu nunca tive aquela curiosidade. Talvez o meu erro foi ter sido esse. Mas ele era uma pessoa assim, que ele trabalhava em casa às vezes. Mas não com cliente, só com a família mesmo. 

P - E seu pai você falou que ele começou a trabalhar cedo? 

R – Meu, na época que ele começou a trabalhar, ele trabalhou, eram os anos 40, era época das calças curtas, né? Ele garoto usando calça curta. Não podia usar calça. Calça usa homem e terno. E garoto usava calça curta. Então ele começou de baixo também como eu comecei. Limpando salão, dando cafezinho. Fazendo: "Vai ali no banco, vai fazer não sei o quê." era aquele office-boy da nossa linguagem. E ele foi aprendendo também, ajudando, auxiliando. Porque todo bom profissional, acho que em qualquer área, tem que passar por todas para aprender dar valor, para aprender a como é que você vai liderar um grupo se você não sabe fazer o que vai mandar. Então tem que passar por tudo para poder ser um bom líder. Então meu pai teve que aprender a ser humilde também porque, até eu passei por isso também no começo. Filho do dono do salão e varrendo salão? Eu achava aquilo horrível. Porque às vezes olhava assim: "Mas eu tenho que varrer?" Meu pai: "Varra o salão." Ficava: "Painho..." "Varra o salão." "Tenho que varrer o salão?" E isso eu fui aprendendo a ser humilde. Porque até então eu era filho do dono. E achava aquilo absurdo. Mas, graças a ele, ter me feito passar por tudo isso eu aprendi a dar valor, eu aprendi a ver, a ter uma visão da vida diferente. Não ser hipócrita, não ser metido, como muitos erram com os filhos, né? 

P - Então, descreve um pouco mais a tua relação com o seu pai. Como era o seu pai? 

R - Então, eu vim conhecer meu pai mesmo quando eu comecei a trabalhar com ele. Porque toda a infância era de manhã na hora do café antes de ir para a escola. E a noite quando ele chegava para chamar a atenção, né? Porque eu era muito danado. Eu era assim, eu dava muito trabalho. Então ele chegava em casa, minha mãe: "Olha, Fernando fez isso, aprontou, quebrou, não sei o quê." então ele: pá. Apanhava. (risos) Então passou a ser meu pai mesmo e amigo quando comecei a trabalhar com ele. Porque até então a minha visão de pai era pai, meu pai, minha mãe. Mas não tinha aquela convivência. Só no final de semana que eu ia para o campo de futebol, que a gente saía para passear, ia almoçar fora. Era pai assim, idolatrado, né. Então ele virou pai e amigo quando eu passei a trabalhar com ele. Aí eu comecei a admirar mais ainda meu pai, a conhecer o trabalho dele, a admirar o trabalho dele. Que até então eu não gostava da profissão de cabeleireiro. Que isso é uma outra história que eu conto depois. 

P - E como que era a tua relação com a sua mãe? 

R - Ah, era ótima. Minha mãe sempre foi uma pessoa muito boa que, também na época deles, meus pais, existia uma coisa, não sei se é ciúme, mas eu acho que a mulher não podia trabalhar, não devia trabalhar. Hoje em dia a mulher já está em várias, ela se destaca mais do que naquela época. Então a minha mãe, mesmo formada, o meu pai não aceitava ela dar aula: "Não, você não vai ser professora porque eu não quero. Deixa que eu não preciso que eu trabalho." Não sei se era machismo, talvez, né? Naquela época em Recife a mentalidade. Hoje não, a coisa já é evoluída, já está em outros segmentos. A minha mãe era uma pessoa muito boa, vivia para a gente. Aquela dona de casa, aquela mãezona que cuidava, que ensinava, o colégio, que levava para a escola, que buscava. Então eu vou dizer mãe, aquela mãe que acompanhou toda a nossa infância. Então é isso. 

P - Você sabe como é que eles se conheceram? 

R - Eles se conheceram assim através de amigos comuns em Maceió, que ela é de Maceió. Se conheceram em Maceió. Meu pai nessa época morava em Maceió e tinha um salão em Maceió. Isso ele com 19 anos de idade já tinha salão. E ele era muito conhecido, fazia penteados. Então ele era destacado em Maceió. Ele atendia muitas misses. Todo evento que tinha de miss em Maceió ele que fazia todo, naquela época não era penteado, eram perucas. Então ele além de fazer a peruca ele colocava peruca, criava perucas, para cada modelo uma peruca diferente. Depois com os anos vieram os penteados presos, meu pai fazia muito bem. E minha mãe era estudante. Que era amiga de uma amiga que conhecia o salão e frequentava o salão e se conheceram. Meu pai era solteiro, imagine, 19 anos, solteiro. Naquela época carro era uma coisa assim, não é que era difícil, mas ele todo lugar aonde ia ele ia de taxi. Depois ele teve uma lambreta. Na época dos anos 60, né? Lambreta, que todo mundo tinha lambreta. Até ele cair e machucar, então ele desistiu de lambreta. Então eles se conheceram nessa época, dos anos 60. Onde tudo era diferente de hoje. Onde o beijo era uma coisa que demorava, pegar na mão nem se fala. Então me contou muito a história deles, que foi um namoro mesmo. Foram oito meses de namoro, noivado e casamento. Eles namoraram, noivaram e casaram em oito meses. Porque não era aquela coisa, não tinha aquela paciência que hoje, não tem essa, hoje ninguém tem paciência para esperar oito meses, já casa logo. Já chega aos finalmentes, vamos dizer assim. E naquela época não, não podia nem pegar na cintura. Minha mãe contava que começava a namorar, quando pegava na cintura: "Oxe, o que é isso? Tira a mão da minha cintura. Não pode." Era uma coisa que aquela mulher não podia deixar o homem namorar botando a mão na cintura. Então ele me conta muito isso, que era um namoro mesmo, pegar na mão e sair de mão dada, de se beijar no escurinho. Aquela coisa bem, sabe? Eu acho que foi o fato deles ter apressado o casamento (riso) nesse sentido. 

P - E aí você tem irmãos? 

R - Eu tenho um irmão de 35 anos, que é o Paulo, Paulo Junior. E tenho uma irmã, a Leila, que mora nos Estados Unidos, está lá já há quatro anos. Tenho dois irmãos. Ela que está lá, que estuda. E a gente sempre não foi muito fã de estudo, então meu pai optava: "Você quer estudar ou quer trabalhar?" Porque eu acho o seguinte, você sabe que hoje já é caro o estudo, naquela época também era caro. Hoje está mais ainda. Então você pagava para um filho que não quer estudar, que quer faltar à aula, que quer bagunçar e chegar no final do ano não passar? Não é o meu caso, mas eu nunca fui muito fã. Eu era aquele aluno que eu estudava no final, quando chegava perto do final do ano que eu estudava. E eu ia para a recuperação e passava. (risos) Então já a minha irmã não, dos três foi a melhor. Ela sempre passou de ano. Tanto que quando ela terminou o segundo grau, no mesmo ano fez vestibular, passou. Passou em Comércio Exterior, cursou seis meses, não gostou, trancou. Fez Relações Internacionais, passou. Então é uma pessoa que dá para investir. Tanto que ela é muito, ela é muito assim decidida. Por isso que ela está lá nos Estados Unidos. Está lá trabalhando lá, estuda, mais ainda inglês, para quando voltar ter uma opção melhor de vida. Então é isso. 

P - E aí quando vocês eram pequenos como era a relação de vocês? 

R - Então, no caso, eu e meu irmão a gente é cinco anos de diferença. Então é aquela coisa, era companheiro, saía junto, mas brigava muito. O que é normal, né? Discutir de irmão, né? Mas é assim, naquela época em Recife, já morava em Recife nessa época, eu tive uma infância que muitos não tiveram, e não têm hoje. Então era infância de jogar bola, de caçar passarinho, de passear, de pescar. De jogar bola de gude, aquela bolinha no chão. Pião. Tudo coisa que hoje o moleque não faz. Hoje é tudo internet. Então vídeo game, quando surgiu vídeo game era muito caro, era o Atari. Não era nem o Atari, era um que ficava com aquela base aqui: tu, tu. Você lembra? Uma bola que vinha assim, aí pum, batia. Aí tinha, aí precisava não deixar a bola passar. Uma coisa que era: "Oh" foi o primeiro vídeo game na época, nos anos 80. Então era o primeiro e caro. A gente não podia comprar então a infância foi na rua, brincando, pé no chão, bicicleta. Foi ótima a minha infância. É uma pena que minha filha e as minhas filhas, que eu tenho filha de 12 anos que mora em Recife, não vai ter. Hoje é tudo mais difícil, hoje é perigoso demais na rua. Naquela época não era. Hoje é bem mais. 

P - Mas conta mais das brincadeiras. Qual que era a sua favorita? 

R - A minha era papagaio. Eu gostava de pipa, adorava pipa. Teve uma época, então eu fazia papagaio, preparava tudinho, pegava, subia num pé de coco, água de coco, tirava aquelas talas, cortava, tirava o verdinho. Preparava, lixava. Pegava a linha, fazia toda a armação, cobria com papel, fazia uma rabada e ficava empinando. E fazia dois, três, colocava nas costas e saía com ele na mão. E muitas vezes eu ficava dias, horas, né, ali. Naquele sol escaldante. Eu tinha uma cor de morar lá, não era de praia não, era de sol o dia todo. Teve até uma época que eu estava fazendo papagaio, tinha uns 12 anos, e eu estava empinando aquela pipa num mato assim. Que era tudo descalço. Ninguém anda calçado. E andando e eu vendo aquele sangue lá embaixo, empinando. Que sangue, o sangue foi se aproximando. Quando eu olhei assim, quando eu vi era meu pé. Quer dizer, eu cortei que eu nem senti. (risos) E eu jogava também futebol, fazia as barrinhas de chinelo. Vinha embora e deixava o chinelo lá. Minha mãe: "Põe o chinelo." "Ih, tá bom, deixei o chinelo lá." voltava, não estava mais o chinelo. Então foi muito boa a minha infância. Graças a Deus eu posso falar que não foi tão boa quanto meu pai, que meu pai foi melhor ainda. Que a gente escuta muita coisa do passado, da infância. Meu pai falava que ele também jogava bola. Eu acho que muita coisa eu fiz porque ele me ensinou. Ele ficava comigo, ele era, nesse ponto, muito presente. Ele fazia, fazia os carrinhos de lata, lata de leite, né? Pegava o leite vazio, ele tirava o leite Ninho ou Neston, quando esvaziava ele enchia com cimento, colocava a tampa e prego. Aí enrolava, pegava um, antes dele botar o cimento vinha um ferro, fazia tipo de uma armação assim na lata, uma alça, sabe? Aí colocava o cimento. Quando endurecia aquilo virava tipo um carrinho de lata. Tudo coisa do meu pai que me ensinou. Então ele ficava brincando, eu achava muito interessante isso. Coisa que hoje ninguém tem, ninguém nem vê. Só em eventos fechados de família. 

P - E aí você falou que você era danado, aprontava bastante? 

R - Ah, eu aprontava. Eu andava com o, com estilingue, né? Aquilo lá chamava badoque, aqui é estilingue. Direto no pescoço. Tinha até uma marquinha assim. Então aquilo quando eu via um passarinho eu tirava assim, já colocava uma pedra. Porque, sei lá, acho que, hoje eu não faria isso mais nunca. A gente pensa diferente no adulto. Então eu quebrava vidro da casa do vizinho. Ave-Maria, chegava reclamação lá em casa. Eu aprontava demais. Tirava fruta. Às vezes estava num pé de mangueira enorme, alto, a gente ficava jogando pedra até a manga cair. Fora as brigas. Brigava muito na rua. Até uma vez eu estava apanhava, brigava e aí (bate palma) tocava lá na porta de casa a moça, minha mãe abria: "Pois não?" "A senhora é a mãe do Fernando?" "Eu sou. Que foi que houve?" "A senhora podia vir aqui por favor?" Aí a menina chegava com o sotaque bem carregado, né? "O seu filho bateu no meu filho. Olha o rosto dele." Aí a minha mãe olhava assim: "O que foi que ele fez?" "Ah, eles brigaram e quebrou o óculos do meu filho." Então eu apanhava tanto por causa disso. Porque aí chegava em casa o meu pai, minha mãe falava para o meu pai: "Nando brigou na rua de novo." Então eu brigava muito, por besteira. Porque eu sempre falei muito rápido e eu nunca fui bom de argumento. Então na hora da discussão eu não conseguia responder o argumento. Então às vezes eu: "Você é um filho daquilo." Não, não conseguia falar, que eu era gago. (riso) Aí eu acho que eu brigava mais por causa disso. Porque a gente hoje, depois de adulto a gente consegue argumentar. Então a gente consegue hoje, se eu estiver nervoso eu consigo ouvir e eu consigo falar sem chegar aos extremos. Mas na infância a gente não pensa assim. A gente pensa em resolver logo a parada de uma vez só. Então a gente brigava muito. Graças a Deus que era infância, que hoje em dia eu sou da paz. Eu evito confusão, não vale a pena. 

P - Lembra de alguma outra história boa assim, dessas de brincadeira que valem a pena contar? 

R - Deixa eu ver... Quando a gente pintava o grupo assim, se reunia, era brincadeira individual, quando era em grupo a gente brincava muito de barra bandeira. Você lembra de barra bandeira ou não? 

P - A gente chama de pique-bandeira. 

R - Isso, pique-bandeira, queimado. Adorava brincar de queimado. Quando era a noitezinha que estavam as meninas no meio, aí brincava de pera, uva, salada mista. Era muito gostosa essa brincadeira. Então juntava os meninos e as meninas, aquelas paquerinhas, né? E a gente começava a brincar de pera, uva, salada. Os meninos eram cúmplices dos meninos e as meninas cúmplices das meninas. Quando era uma menina a gente vai: "Essa aí eu quero beijar." Aí apertava assim: "Pera, uva..." Aí fazia assim, já avisava que era a menina que queria, era salada mista, né? Era beijo na boca. Eu adorava essa brincadeira. (risos) Quando era que a gente não queria aí: "Quer pera..." Então pera, beijo no rosto. Ia falando: "Pera." Beijava no rosto. E essa, eu adorava essa brincadeira também. Então foi muita brincadeira. 

P - E você lembra da casa em que você morava? Você consegue descrever a casa onde você morava? 

R - Eu morei num bairro durante muitos anos, no Ipsep. Acho que foi o maior tempo que eu morei lá em Recife. Ele é perto do aeroporto de Recife, o Aeroporto de Guararapes. Agora é Aeroporto Internacional de Guararapes. E lembro que o avião passava por cima da minha casa: vuuum. Em horário de pico eram vários, um atrás do outro. Mas quem mora perto do aeroporto às vezes se acostuma de um jeito que nem escuta mais o avião. No começo é difícil se adaptar àquela zoada: vuuumm. Depois você se acostuma com a zoada, passa despercebido quando passa. Então eu lembro que era uma casa muito boa, e era própria. Então meu pai com aquela mania dele crescer então aumentou a casa, aumentou, o quintal era grande, ele aumentou o quarto. Então ocupou todo o espaço do quintal. Em cima do quarto deles ele construiu uma, levantou uma piscina. Uma piscina de acrílico. Acho que vende por todo canto aí. E é pronta, né? Então ele fez toda a armação, colocou a piscina. E eu lembro que ele tinha, inaugurou a piscina tudinho. Na mesma semana a piscina deu um vazamento, molhou todo o quarto. (risos) Aí chegou o rapaz que instalou e refez todo o serviço. E era muito peso, né? Acho que era 30 mil litros de água, ou era mais. E tinha estrutura, não ia cair. Tanto que não caiu, mas e assim, me lembro que meus pais tinham o maior medo, ficavam com medo de dormir embaixo daquele monte de água cair em cima deles. (risos) Aí então tirou a piscina, ficou só quando ia usar que enchia. Porque antes ficava cheia direto, né? Então as coisas que eu lembro foram isso, uma fase muito boa onde meu pai cuidava das crianças. Meu pai tinha muito conhecimento. Aí ele mandava passar um trator. À frente da minha casa tinha um terreno baldio. Um terreno assim que ninguém cuidava, plano. Então o mato ficava alto, e ficava ali durante um mês alto. Mas quando era época do Dia das Crianças, meu pai com o conhecimento dele, que ele tinha muito conhecimento, aí ele falava com um, com outro. E o trator passava ficava tudo planinho no barro. E na época do Dia das Crianças ele fazia, ele com os outros pais do bairro lá, juntavam e faziam gincana. Faziam o pau-de-sebo, pau-de-sebo é aquele ferro enorme onde o cara passava sebo. Que é o, o sebo é o quê? É o couro do porco, do boi derretido. Então ele passa com margarina misturado, fica uma coisa que você não consegue subir. No topo aí colocava dinheiro, sabe? Isso para a infância, imagina, 100 reais na infância? É bom demais. Aquilo tudo de bala, de chiclete, de tudo, né? Então fazia aquela fila de menino, cada um se jogava na areia, botava areia no corpo para subir. (risos) Ia e tchiii, descia. Ia assim até o último, porque como a pessoa ia descendo ia tirando o excesso. Então até chegar lá era o dia todo. Eu nunca consegui. Então essa do pau-de-sebo foi engraçada. A gente ficava aquilo o dia todo com festividade, fazendo torneio de futebol. Organizava quatro times, jogava um contra, todos contra si. E tinha um prêmio, um troféu, medalha. Então era interessante nessa época, antes de trabalhar. Porque até então eu era criança, como todo mundo, brincava. Tinha o espiribol, que era um tronco assim com uma corda e uma bola no final que a gente ficava brincando. Era o dia todo de festa. Eu cresci numa região onde essa casa era numa região que tinha muita criança. Todo mundo era amigo, todo mundo era o tempo junto: de manhã, à noite, final de semana. Tinha festa, quando não tinha festa, fazia festa na minha casa. Porque a festa era o seguinte: à noite no sábado a gente ficava caçando. Saía aquele grupo de menino e menina atrás de festa: "Ah, tem festa na casa em tal canto." Ia a pé, andava quilômetros. Chegava na festa era barrado porque não conhecia a dona da festa. Aí voltava tudinho a pé. (risos) Era uma coisa. Quando não tinha festa a gente fazia a nossa festa. Eu ligava a radiola, porque era radiola. Hoje é som, né? Ligava a radiola, cada um trazia o seu CD, o seu LP. Aí colocava o LP para tocar, e todo mundo ia dançar. E eu lembro da passagem que naquela época a gente dançava a noite todinha juntinho, rosto coladinho. E quando tinha uma paquera a gente não podia, que não era, hoje é fácil demais, naquela época não. A gente ficava a noite todinha dançando com rosto colado no outro aqui. Quando ia chegando perto da boca assim, que já ia beijar assim, aí virava para o outro lado. A gente ficava a noite todinha, rapaz, dançando. E quando ia chegar aqui assim que ia beijar, virava para o outro lado. Até beijar, rapaz, era uma novela. Era umas três, quatro músicas. Era mesmo. E tem mais, se no caso o menino ficasse meio assim, agitado, vamos dizer assim, excitado, ficava com vergonha. Então era uma coisa que era tudo assim muito puro. Então a paixão da infância naquela época era bem, acho que era diferente da de hoje, acho que deve ser bem diferente da de hoje. Eu lembro que meu pai falava assim: "É, a sua infância é muito boa. A sua geração é ótima." Eu disse: "É, realmente." "Vocês passeiam, vocês têm festa. A minha foi bem diferente aquela época." "Mas por que, pai?" "Não, porque você hoje sai, namora. Já pega a menina vai para um motel, curte. Fica no bom e no melhor. No meu caso era diferente, eu tinha que ir para a zona, a zona. Porque não tinha mulher fácil." "É, isso é mesmo, né, pai?" Aí os anos passaram eu falei: "Ó, pai, bom era minha época, que eu ia para a zona mesmo não pegava nada. Vocês saem com a namorada hoje em dia, pegam doenças fortes como Aids." Então já muda. A história já vem evoluindo de um jeito. Mudou. Então naquela época a gente para ser, para roubar um beijo era um sacrifício, imagina o resto. É bem mais difícil. Então eu posso lhe dizer que eu curti a minha infância. Tive infância mesmo. A gente vivenciou isso aí. O namoro, entendeu? É claro que não foi tão assim difícil como aquela dificuldade dos meus pais, mas não foi tão fácil também não. (risos) 

P - Você lembra de uma paquera em especial nessa época? 

R - Ah, sempre tem uma paixão, né? Eu tive uma paixão de colégio, que eu estudava num colégio lá em Recife e nessa época eu morava em outro bairro em Olinda. E o colégio era Imaculado Coração de Maria. Colégio de freiras, né? E tinha um outro colégio, que ela estudava, era São Bento. Que eram dois colégios. O São Bento é de padres, e a Imaculada de freiras. E eu lembro que eu, a minha paquera, era assim do ônibus, né? Eu ficava olhando para ela do ônibus assim, ela com uniforme amarelo e o meu branco. E eu ficava o tempo todo olhando para ela, você descia no mesmo ponto, os dois desciam no mesmo terminal de ônibus. No último ponto, última parada. E isso eu andei durante meses, mas eu tinha vergonha de chegar perto dela e me apresentar a ela. Aí um dia eu contei a meu pai: "Ah, pai, tem uma menina no ônibus." ele pra mim: "Como é que você está?" "Está tudo bem." "E as paquerinhas?" "Ah, tem uma menina no ônibus que eu paquero ela, mas eu tenho vergonha de chegar perto dela." "Como assim?" "Ah, eu, muitas vezes eu entro no ônibus eu olho e se ela não está eu desço e espero o outro ônibus. Até o de quando ela está dentro aí eu vou. Fico lá sentado olhando para ela." "E você não chegou perto dela não?" Eu disse: "Eu não, eu tenho vergonha." "Que vergonha, tem que chegar perto dela. Aí o máximo que você vai conseguir é a, o seu não está aqui. Você tem que tentar o sim." Aí eu fiquei assim, eu com uma vergonha, nunca ia chegar perto dela. Isso foi durante meses. Até que um dia teve um aniversário na casa de um amigo do meu pai no mesmo bairro, né? A gente foi. Chegamos eu com os meus pais, com minha mãe, né? Eu, meu pai, minha mãe e meu irmão. Aniversário lá. Chegando lá, entramos na festa. A festa era na parte de trás da casa, enorme. Cheio de cadeiras, de mesas. Todo mundo conversando. Quem chega? Chega ela com os pais dela e o irmão dela. Quando eu olhei não acreditei. Falei: "Painho." "Que foi?" lá a gente chama painho e mainha, né? "É aquela menina ali, ó." "É aquela ali, é?" Eu disse: "É." "Hum." Aí começaram a conversar, os pais dela com o pessoal do, os anfitriões apresentaram os meus pais aos pais dela, que é normal. "Esse aqui é Fulano de Tal, Fulano de Tal." Meu pai chegou: "Meu filho estuda num colégio e sua filha estuda em tal colégio, né?" Ele disse: "É." "Então, ele quer muito conhecer sua filha. Você se incomoda de apresentar sua filha a ele? Ele não vai..." Aí o pai dela: "Não, de jeito maneira. Cadê ele?" Aí ele chama: "Nando, venha cá." Eu venho, aí eu fui, né? "Olha, esse aqui é o pai da Patrícia." É, eu nem sabia o nome dela. "E a mãe dela. Esse aqui é o Fernando." A gente se conheceu assim num aniversário comum. Aí foi aquela coisa. Então foi a minha primeira paixão foi a Patrícia. Eu tinha uns 13, 14 anos. Primeira paixão que marcou mesmo, né? Patrícia Ximenes, era o nome dela. Até cheguei a procurá-la em rede (risos) ver se encontrava no Orkut, nunca encontrei. Eu coloquei lá: Patrícia Ximenes. Veio mais de mil Patrícia. (risos) "Meu Deus, até encontrar uma por uma?" Muitas não tinham foto, né? Então eu lembro que eu ficava assim dias tentando encontrar, depois desisti. Porque aí veio aquela parte que não tem foto, aí você vai achar que é e não é, nunca é. Então aquela coisa, marcou em sua história. E no Ipsep eu tive uma outra paquera também, que eu era apaixonado por ela, mas ela não queria nada comigo. Aí eu namorei a irmã dela. (risos) Namorei a irmã dela para ficar perto dela. Namorei durante um tempo a irmã dela. E ela gostava muito de mim, mas eu aquela coisa, gostava da irmã dela, né? Mas achava interessante, eu fui namorando. Até que um dia que eu vi que não dava mais, termino o namoro com ela. O tempo passou eu namorei outras meninas. Até que um dia eu estava numa festa lá e encontrei com ela, a minha paixão, a que era na época do Ipsep. O nome dela é Geraldine. Bonito o nome, né? Geraldine. Nesse tempo a gente começou a conversar, eu já tinha mais maturidade, aí começamos a namorar, eu trabalhava também, já tinha outra cabeça. Porque quem nunca trabalha, assim, eu observo o seguinte: não sei se era naquela época ou se é hoje. Eu digo, eu tinha o quê? 15, 16 anos de idade quando eu comecei a trabalhar. Com 18 anos eu já tinha um carro. Então eu já tinha condições. E meus amigos muitos não trabalhavam, eram só estudantes. Então às vezes: "Fernando, vai ter uma festa, vamos." Eu: "Vamos." Eu tinha carro. Era o único da turma que tinha carro, e tinha dinheiro muitas vezes. Então às vezes ia fazer uma cotinha: "Ah, não tenho." Cotinha é juntar dinheiro para botar combustível no carro. Não tinha, nunca ninguém tinha. Então é aquela coisa, o fato de trabalhar muito cedo você também amadurece. Então você constrói a sua vida em cima disso, que é, você começa, tem uma outra visão da vida. Porque só estudar é bom. Estudar é, acho que é tudo na vida da gente. O estudo é a base de tudo. Quem consegue conciliar o estudo e o trabalho melhor ainda, mas eu não conseguia conciliar. Eu passei até a estudar à noite, mas eu chegava na escola, às vezes eu queria aprender e muitas vezes os meus colegas não queriam aprender. Então ficava aquela algazarra. Então eu percebi que à noite o estudo é muito mais difícil. Não sei em faculdades, mas estudar o segundo grau era terrível. Eu fazia o segundo ano, eu fiz o primeiro, passei no sufoco. Porque eu queria aprender e não conseguia. Até o professor ele assim, não tinha aquela garra do dia, durante o dia. Não tinha interesse nenhum. Ele estava ali só para passar a aula. Então muita gente perguntava um assunto, ele falava: "ah, não, é assim mesmo." "Mas eu não estou entendendo." "Então procura entender. Eu já falei a você aqui." então eu tinha muita dificuldade em estudar à noite. Aí eu comecei a, perdi o gosto também. Aí me dediquei só ao salão. Comecei a trabalhar, trabalhar, trabalhar e deixei de lado. Não cheguei a terminar o segundo grau. Parei no segundo ano do Científico por causa disso. 

P - Mas deixa eu voltar um pouquinho: qual a primeira lembrança que você tem de escola? 

R - Em qual sentido? 

P - Do que você lembra de escola: a primeira vez que você foi, ou uma festa que teve na escola. Qual a lembrança mais antiga que você tem de colégio, de escola? 

R - Eu lembro que quando eu saí do Bairro de Ipsep eu fui morar num outro bairro chamado Piedade. La em Jaboatão dos Guararapes. Então eu tive que transferir a minha escola para essa escola. E no primeiro dia de aula eu cheguei na escola, meus pais já tinham um poder aquisitivo melhor. Porque na vida tudo é conquista, né? Então o Bairro do Ipsep era um bairro assim, não um bairro de pobre, mas era classe média baixa. Quando meus começaram, meu pai tinha salão e começou a crescer o salão dele, aí começou a evoluir. Então é normal isso, você procurar um bairro melhor, dar o melhor para os filhos. Meu pai pegou, tirou a gente de lá e comprou uma outra casa lá em Piedade, nesse bairro, né? Aí eu estudei em colégio melhor. Foi um colégio que eu fui, acho que foi o primeiro colégio que eu estudei enorme, grande. Tinha quadra, tinha banda. Banda assim, todo 7 de Setembro o colégio tinha uma banda que tocava. Que saía desfilando em Pernambuco no centro da cidade. Então tinha uma banda musical. Tocava música, tudo. Eu sempre fui muito fã de instrumento, eu tocava um instrumento. Então no meu primeiro dia de aula eu me sentei na cadeira lá, e um colega chegou e falou assim: "Essa cadeira é minha." Aí eu olhei para a cara dele e disse assim: "Não, não tinha ninguém aqui. Não tinha placa, não tinha nada." E todo mundo: "Cara, você é doido." Aí o cara disse assim: "Não vai levantar?" Eu disse: "Não, eu não vou levantar." e aí ele falou assim: "Na saída eu vou te pegar." Tinha muito disso naquela época de: "Vou te pegar na saída." porque ninguém brigava na sala. Se brigasse na sala era suspenso. E no decorrer das aulas, nesse intervalo, os colegas que eu não conhecia falavam: "Você é louco. Esse cara é assim, assado, ele que manda no colégio." Eu, moleque de Ipsep, deixar um cara querer ser mais do que eu? Então eu já desafiava, que eu vim de um lugar onde eu brigava todo dia. Então para mim era normal brigar mais uma vez, né? Aí eu me sentei lá, eu vi a aula todinha. Quando foi na última aula ele nem compareceu. Aí foi: "Ele está lá fora te esperando." "Tá bom." Eu fui descendo. Naquela época a escola, o uniforme era de botão. Não é como hoje é. Às vezes não tem nem uniforme. Então a gente, eu fui, desabotoei a camisa e coloquei aqui e fui descendo. Quando eu, aquela fila de alunos descendo também, na hora de ir embora. Quando eu, tinha um batente com dois degraus, quando eu fui descendo ele estava embaixo me esperando. Aí começou a briga. E vinha pra cá, briga pra lá. Embolando no meio da rua lá. (risos) Depois de, daquela coisa de empurra-empurra, puxa pra cá, bate pra lá. Separa. No mesmo dia, a gente saiu da briga e fomos para a Coordenação no mesmo horário. Não cheguei nem a ir pra casa. Aí a diretora perguntou o que foi que houve: "Como é que pode?" eu contei tudinho pra ela. Mesmo assim ela mandou eu, só entrava no dia seguinte com os pais. Eu tinha uns 12 anos, 13 anos. Aí eu entrei com meu pai no outro dia, com minha mãe, tudinho. Minha mãe prometeu que eu nunca mais ia brigar na escola. Me deu uma surra em casa de novo, porque eu apanhava demais. Tudo eu apanhava. (risos) Por isso que eu falo que muita gente fala: "Ah, Fulano é assim drogado porque apanhou muito." Gente, é mentira isso. Eu apanhei demais. Apanhei de folha de goiabeira. Sabe o que é folha de goiabeira? Tinha um pé de goiaba na minha casa, minha mãe cortava ela assim, meu pai dava nas minhas pernas. Gente, mas também por que eu apanhei? Porque eu merecia, eu era muito danado. Se eu não tivesse apanhado hoje eu talvez nem, se fosse o que, talvez eu nem seria o que eu sou hoje. Uma pessoa centrada, uma pessoa um bom pai, um bom filho, bom irmão. Porque senão eu acho que, não é que vai acabar, ele nunca foi de tirar sangue do meu corpo. Mas eu levei umas palmadas boas mesmo. Então, voltando ao assunto, eu cheguei em casa à noite, meu pai me deu uma surra porque eu briguei na escola. Porque não queria que eu brigasse: "Você não vai para brigar lá. Se você brigar de novo você sai da escola". E eu deslumbrado com o colégio aprendi a me acalmar. No dia seguinte a gente voltou a estudar, tudinho. E esse mesmo cara foi meu melhor amigo durante todo o ano letivo. Foi tipo um respeito. A gente ficou amigo, e eu comecei, eu convenci ele a mudar isso dele. Com o tempo. Eu era sempre muito bom de conversa. E eu falava: "Cara, não faz isso não." "Vamos dar uma surra no Fulano de Tal." "Cara, não faz isso não, pára com isso." E eu nunca fui de brigar. Então depois dele nunca mais briguei na escola, com medo de sair da escola. (risos) E, ao mesmo tempo, quando eu conseguia evitar a confusão dele, eu falava: "Cara, deixa o cara." Ele falava: "Não, eu vou bater nele." "Não faz isso não". Então eu, a gente ficou tão amigo que ele passou a me escutar." O nome dele era Fábio Borba, o nome dele. Interessante, né? Mas ele morava aqui em São Paulo, a gente não se encontrou ainda, se falou por telefone. Que eu encontrei o irmão dele. O irmão dele é músico, no aeroporto. O menino toca música em bares lá, tem CD, vende CD. Quando eu vi Borba, que é o sobrenome deles, fui chegando perto. Era o irmão dele, que na época de colégio tocava no recreio um violão. Ficava aquela turminha. Aí: "Cara, você é irmão do Fábio Borba?". "Sou." Eu: "Rapaz, seu irmão está morando aonde?", "Está morando em São Paulo." Eu não acreditava. Aí na época eu mantive contato com ele, depois perdi de novo. Porque eu tinha o telefone dele no meu celular e roubaram o meu celular, aí foi embora o meu telefone dele. Eu falei: "Ah, meu Deus." É terrível, né? Quem perde o telefone hoje em dia, se não tiver um backup de telefone você perde todo o contato, né? E eu fiquei assim, como, não tem como achar o cara. Então eu acho que foi uma coisa interessante essa aí. Então não é, eu não fiquei o popular da escola, que naquela época ainda é hoje o popular você chegar, ser a pessoa que todo mundo idolatra. Que eu nunca fui atleta. Mas eu era muito comunicativo. Fazia o pessoal rir, brincar. Eu chegava num ambiente, eu descontraía o ambiente. Eu sempre fui o líder na classe. Então eu passei ser o representante da turma. Tinha uma eleição na turma, eu sempre fui o líder. Eu sempre fui eleito, reeleito. Tanto eu acho que isso me acompanha até hoje. Onde eu trabalho, quando era salão eu sempre fui um bom patrão. Lá em Recife eu tive salão, 10 anos, né? Então eu sempre fui bom patrão, escutava. Quando não dava mais demitia a pessoa. E eu hoje em dia trabalhando com os meus colegas, mesma coisa. Eu acho que eu, eu acho que ninguém pode ser líder se não for um bom amigo. Além de saber entender as pessoas. Entender o problema da pessoa. Porque todo mundo tem problema. Então isso me acompanhou muito na minha vida. 

P - E aí juntando um pouco essas duas coisas do trabalho e da escola, antes aqui da gente começar, você estava contando uma história de como que era para você na escola assumir que seu pai era cabeleireiro. 

R - Ah, é verdade. Eu cresci com um pouco de raiva da profissão de cabeleireiro, que era a que meu pai exercia, e meu avô estava aposentado na época. Porque existia muito preconceito, no final dos anos 80, 70, começo dos anos 80, tinha muito preconceito de profissão. E tinha, na época eu lembro que teve uma, eu estava na sexta série, na sétima série, tinha uma matéria que ela chamava Moral e Cívica, que depois virou OSPB [Organização Social e Política Brasileira]. E ela fala da profissão, fala de política. Era uma aula voltada para esse lado. E a professora, não sei se ela fazia isso por maldade, ou não sei. Mas isso me chateava muito. E ela perguntava: "Fulano de Tal, seu pai, qual é a profissão dele?" Aí o Fulano de Tal falava: "Ah, meu pai é médico." "Fulana, seu pai trabalha em quê?:" "Meu pai é jornalista." então em cima da profissão ela falava, queria que a pessoa falasse um pouco da profissão. E ela completava o raciocínio. E isso ia perguntando todo mundo, até chegar a vez da, do Fulano: "Seu pai é o quê?" "É sapateiro." Aí todo mundo na turma ficava: "Ouuuu." entendeu? Não era uma profissão que tinha muito, assim, poder aquisitivo, que é destaque. Mas poxa, é uma profissão como todas, como é a de lixeiro, né? Como é a da prostituta. É profissão, infelizmente é uma profissão. Então a pessoa tem que saber o que é melhor para si. E quando chegava a minha vez eu ficava louco, com vergonha. Aí que eu falava: "Seu pai, faz o quê?" "É cabeleireiro." Aí o uuu era bem maior, porque cabeleireiro naquela época era gay. Então todo cabeleireiro era tachado como gay. Então eu saía na rua, saía da escola: "Ah, teu pai é cabeleireiro, então é gay, né?" "Não..." eu disse "...meu pai é homem."

 

(Troca de fita) 

R - Então existia esse preconceito em cima disso. O pessoal começou a ficar perguntando: "Ah, teu pai é gay, teu pai é gay." E eu, por mais que eu falasse que: "Não tem nada a ver, meu pai é cabeleireiro, meu avô era cabeleireiro e são homens. Não tem nada a ver." mas existia um preconceito em cima disso. Então muitas vezes eu briguei na escola por causa disso. Porque eu não tinha argumento. Então além de falar muito rápido eu era meio gago, eu começava, batia mesmo. Porque eu até argumentar que meu pai não era gay não tinha condições. Ficava nervoso. Então parti para a violência. E eu cresci com raiva da profissão do meu pai. Então muitos perguntavam: "Você vai ser igual ao seu pai?" Quando estava numa roda de amigos de cabeleireiros, porque meu pai tinha amigos cabeleireiros, tinha família. Então muitas vezes tinha a festa de final do ano do salão que ele era dono, juntava todo mundo e se confraternizava. E um monte perguntava: "E aí, Fernando, você vai ser igual seu pai cabeleireiro?" Eu falei: "Deus me livre. Não, não, não." eu não queria ser cabeleireiro, porque eu tinha vergonha. Eu sabia que ia sofrer com isso, preconceitos, né? 

P - E aí o que é que você queria ser quando você era pequeno? 

R - Então, eu acho interessante essa pergunta, porque a minha família por parte de mãe a maior parte era militar. Então tudo do Exército, da Aeronáutica. Então eu tenho tios que são coronéis, tenho um tio que é coronel e outro que é coronel comandante, é major da Aeronáutica aposentado e outro coronel. Um é médico e outro é, mexe com aviação. Eu tenho um tio aposentado em Maceió também. Então toda a família quando se reunia falava das viagens do meu tio, né? Eu tenho um tio chamado Eckstein, trabalha em Brasília ele. Ele hoje é aposentado no Comando lá. Então quando a gente se reuniu todo mundo em Maceió, eu tinha uns 14 anos. Eu cursava o quê? Sétima série, oitava série, não sei. Aí meu tio: "Meu filho, você quer ser militar?" Eu falei: "Ó, não sei tio." "É muito bom, tem as viagens, mas você tem que se decidir agora. Porque se você quiser eu te passo uma indicação, aí você vai passar três anos no Rio de Janeiro, vai cursar o segundo grau lá, já sai como terceiro sargento. Aí passa dois anos em Brasília, vem como segundo tenente. Você quer? É uma ótima profissão, você vê tudo o que eu construí." e na época, acho que deve ser bom mesmo, né? Mas eu era muito indisciplinado para ser militar. Eu falei: "Não é possível, eu não vou me adaptar lá." e tinha um detalhe que eu era muito apegado à família, muito família: pai, mãe, irmão, parentes, então, André. Então eu ficava pensando: "Vou passar três anos fora, três anos sem contato?" não tem férias, então quem viesse me visitar lá no Rio, porque a Academia da AMAN [Academia Militar das Agulhas Negras], né? Então a gente ia pra lá. Ia ficar três anos isolado do mundo. Eu pensei bem e disse: "Rapaz, vou pensar." "Pense, me dê a resposta até tal dia. Porque você querendo eu te indico. Faço uma carta e você vai direto." Porque é militar, né? Tudo ia fácil. Bom, aí tanto que eu pensei bem, pensei bem, meu pai: "Meu filho, pense bem, é isso que você quer mesmo?" Eu falei: "Não sei meu pai." "Então vamos trabalhar comigo, tenho o salão, você, aquilo tudo é seu. Não vai ser meu, no futuro eu vou me aposentar. É seu. Então para quê você vai para o Exército?" Mas eu ficava: "Não, dono de salão, Deus me livre." Isso foi me martirizando. Até que eu pensei não ir. "Eu acho que eu não vou seguir o Exército não, vou ficar em Recife, vou estudar e fazer uma outra coisa." e optei por ser cabeleireiro. Que aí foi quando eu, e meu pai, eu tinha uns 15 anos meu pai falou assim: "Olha, a moça que trabalha no caixa comigo ela está grávida. E eu acho que ela vai ter neném por esses dias. Se ela sair de licença você entra no lugar dela." "Mas painho..." "Qual o problema? Você fica no caixa." "E minhas férias, minhas..." "Que férias o que, rapaz, o negócio é nosso dinheiro, nosso ganha pão." Aquela coisa de argumento de pai, né? E eu lá, não me lembro o que aconteceu, a menina saiu de licença maternidade, eu tive que trabalhar o mês de dezembro todinho, que era o mês de férias de qualquer criança. Então o pessoal, eu todo dia, trabalhava de segunda a sábado. Todo mundo jogando bola. Meus amigos chegavam a noite lá: "E vem amanhã pra, amanhã tem jogo." Eu falei: "Cara, eu não posso." "Mas por quê?" "Amanhã eu vou trabalhar." "Tá trabalhando é?" "Tou." "Mas, tuch, aonde?" "Com meu pai." "Não acredito." então eu comecei a me afastar dos amigos. Que era muito amigo, né? E eu comecei a trabalhar com meu pai o mês de dezembro, todo dia. Ia a pulso, com raiva. Eu fui trabalhar e aquela coisa toda. Comecei a ver a coisa por outro ângulo, né? Que até então é o que eu falei pra vocês, meu pai era amigo, mas era um pai assim: pai, o pai. Aí passou a ser pai e amigo. Começamos a ficar mais tempo juntos. A gente almoçava juntos, estava sempre juntos. O dia todo juntos. Ele conversava muito comigo. Então a gente começou a ter aquela convivência maior de pai e filho. E aí comecei a gostar da coisa do salão, do movimento, das pessoas que trabalhavam lá, tudo. E a primeira coisa que eu aprendi no salão com 15 anos foi trança. Que na época dos anos 80 era muito, uma coisa que todo, todo mundo usava trança. Todo evento. Então eu manuseava cabelo com trança, comecei. Meu pai começou a mostrar a mim assim: "Pega assim, pega assado." eu fui aprendendo trança. Então antes de tudo eu aprendi trança. Que é uma coisa difícil. Que hoje em dia é, na época eu era muito novo assimilava muito rápido. E pronto, isso foi em 1983. Então tinha uns 15 anos, acho. Comecei a trabalhar com ele em dezembro e não parei mais. Quando começaram as aulas em janeiro, em fevereiro meu pai disse: "Olha, eu..." Eu estudava de manhã. "Então eu vou te colocar à tarde. Aí você trabalha de manhã e estuda à tarde." "Não pai, deixa de manhã que a tarde é maior, vai até a noite." "Então tá certo." Eu estudava de manhã no mesmo colégio e saía direto para o salão. Almoçava no salão e trabalhava a tarde toda. Nesse meio tempo eu já não era mais caixa, já ficava ali, o filho do patrão, organizando o salão, limpando o salão. E o meu grande dilema que eu acho que o fato de ser filho do dono eu sofria muito assim. Porque eu não aceitava muita coisa. Meu pai sempre foi, em termos de educação, ele sempre foi rígido. Então ele falava: "Não, você tem que varrer o salão." "Mas painho, varrer o salão?" O salão cheio. "Qual o problema, varra o salão agora." E eu nunca fui de desacatá-lo, né, claro, varria o salão. Uma vergonha varrendo o salão, cabeça baixa. Que às vezes ia a cliente, ia a filha da cliente, ficava olhando, admirando. Eu ficava na minha. Então isso foi bom porque foi um aprendizado. Porque a gente aprendeu a ser humilde. A humildade acho que é importante em todos os segmentos. E mesmo por ser filho do dono, meu pai me exigia fazer as coisas para aprender, para aprender a também a ser outra pessoa. Aprender a lidar com o ser humano, a respeitar o ser humano. Então isso foi muito interessante para o meu aprendizado na época. E comecei a trabalhar no salão, fui gostando da coisa. Passei o ano de 84 todinho olhando, praticamente. E em seis meses eu comecei a cortar cabelo de criança. Então comecei a cortar cabelo dos meus primos, dos vizinhos. Ia cheio de colega, às vezes eu pegava na rua os colegas: "Vem cá, entra aqui eu vou cortar cabelo de graça." "Você sabe cortar cabelo?" "Sei." Eu cortava. Eu achava horrível. E a mãe na porta elogiava: "Ah, adorei o cabelo do meu filho." Eu falei: "Meu Deus." (risos) E eu fui aprendendo assim, nos colegas, nos filhos dos colegas. Depois de uns seis, oito meses eu comecei a cortar cabelo dos homens, adultos. Meu pai, eu tinha, como a gente morava nessa casa lá, então era grande, tinha espaço, ele falou assim: "Ó, você quer aprender? Traga seus colegas que eu ensino." Aí eu comecei a cortar o cabelo dos amigos. Meu pai perto: "Assim, assado, esse movimento é assim." E eu comecei a entender a coisa. E, claro, todo aquele preconceito que eu tinha, aquela raiva que eu tinha, sumiu. Porque eu passei a admirar a profissão. Então foi bonito. Depois de um ano eu estava já cortando cabelo de homem e de criança. Depois de dois anos eu entrei no feminino, porque meu pai sempre falou que na profissão da gente a gente tem que abraçar todos os lados. Você não pode ser um profissional assim, limitado. Você tem que aprender o masculino, o feminino e o infantil. Toda a família. Mas era muito difícil. Eu achava muito difícil: "Eu nunca vou aprender, nunca vou aprender." Mas eu nunca, a gente tinha que tirar da cabeça. Eu falava, o meu pai: "Não, pare com isso, nunca vou aprender." "Mas é muito difícil, painho." "Mas pare, você vai aprender, quer. A palavra é muito forte. Tudo no mundo se conspira com a palavra." Então você, ele tinha muito argumento nesse sentido. "Então você precisa falar que vou aprender, vou aprender. Não é difícil. Você tem que ter força. E você entrou na época certa. Quem entra novo assimila muito mais rápido." Aí ele mostrava a situação: "Vê Fulano de Tal, entrou com 20 anos, vê a dificuldade dele. Com 20 anos de idade a pessoa tem outra cabeça, tem outras dúvidas. Então você é novo, você não tem nenhuma preocupação na cabeça, você vê você vai aprender." E, realmente, eu aprendi. E eu me tornei um profissional com 18 anos de idade, eu participando de campeonato de cabeleireiro em Recife, ganhando prêmios: primeiro lugar, segundo, terceiro. E muitas vezes, eu participei de um nacional lá, onde um dos jurados chegou para o meu pai assim: "Eu não vou dar o primeiro lugar para ele porque ele é muito novo." Eu merecia o primeiro lugar. Todo mundo viu meu corte lá, elogiou, tudinho. E ele falou assim: "Eu não vou dar o primeiro lugar para ele, porque ele é muito novo. Vai estragar o menino." E meu pai conhecia ele, né? "Não, tudo bem, você que sabe." "Eu vou dar a ele, a gente reuniu aqui, eu vou dar a ele terceiro lugar." "Terceiro lugar?" "É que vai ser bom para ele. Ele é muito novo, se ganhar o primeiro lugar vai ficar muito..." Não sei, até hoje eu procuro entender, né? Eu acho que ele estava certo. Ou não? Eu sei que eu fiquei muito decepcionado, porque todo mundo falava: "Primeiro lugar." porque no intervalo de cada categoria fica, as modelos ficam andando pelo palco. E quando eu desci do palco, que eu ficava embaixo com o pessoal, todo mundo vinha até a mim, apertou minha mão: "Parabéns, esse corte seu é o primeiro lugar." quem estava na plateia chegava, e, realmente de todos os cortes lá era o mais bonito, destacado. E minha surpresa eu fiquei em terceiro lugar. Eu chorei muito. Daí eu não participei mais. Não sei se foi um golpe pra mim, eu fiquei tão arrasado que esse argumento não me acalmou. Não foi bom para mim, por mais que falasse que ele era. "Não, porque ele é muito novo, porque não era para eu ficar muito metido.", mas eu fiquei muito chateado, porque eu achei que ele deveria de dar valor. Acho que todo mundo, tanto que não foi aplaudido o primeiro lugar, foi vaiado. Então existia muito isso. Eu com 18 anos, mas mesmo assim eu superei e me dediquei cada vez mais à profissão. Viajava muito para São Paulo. Acho que o fato de morar aqui por causa que eu admirava muito São Paulo, achava lindo São Paulo, frio. Aquele calor de Recife escaldante, né? 

P - Você lembra a primeira vez que você chegou em São Paulo? 

R - Eu lembro. Lembro, foi em 96, eu acho. 

P - Você lembra o que você achou no momento? 

R - Eu fiquei deslumbrado. Cidade de pedra. Tanto concreto. Onde eu olhava era concreto. Concreto por todo que é lado. Recife a gente vê água, né? Recife está abaixo do nível do mar. Você tem o prédio da beira-mar, o prédio mais alto da beira-mar você vê o mar acima de você. Então tem pontos de Recife que você olha, você vê o mar, de longe. Então é uma cidade abaixo do nível do mar. E cheguei em São Paulo para onde eu olhava era concreto, concreto, concreto. Então você não via água, tanto que é longe. Daqui para a água, para a praia você passa o quê? Horas, né, num carro. Então eu fiquei deslumbrado com a cidade, com a beleza, com o clima. Adorava, adoro o clima daqui. As pessoas, né? Várias culturas reunidas no mesmo local. Então eu lembro que eu vinha fazer curso aqui. O curso era na Juscelino Kubitscheck, era um ensino local, que tinha chamado Promode. Onde esse cabeleireiro na época, o Fernando Alves, ele ditava moda em São Paulo. Então todo mundo vinha de Recife para ele, para aprender novas técnicas, o que ia ser usado. Então ele tinha uma, ele apresentava duas coleções: primavera-verão, que era em meados de setembro, e outono-inverno que era no começo do ano em março. Então eu optava mais por primavera-verão. Porque em Recife, clima tropical, né? Disse: "Acho que eu vou me adequar mais com o verão.", então eu vinha pra cá, eu e meu pai, a gente vinha juntos para o curso. Passava aqui uma semana. O curso era três dias, mas eu passava uma semana para passear, conhecer o lugar, os locais. E eu, muitas vezes, eu aprendi olhando na rua o cabelo das pessoas. Acho que eu me destacava nisso aí, porque eu fazia aquela, né, triagem. Sei lá, olhava um cabelo assim: "Poxa, que cabelo bem cortado." em locais que eu ia, eu estava sempre passeando. Em banco. Ficava no banco lá, olhando para o cabelo do povo lá. Cada cabelo. Claro que eu não chegava em Recife e pá, aplicava. Tinha clientes que gostavam. Então eu tinha clientes modernas, que queriam novidade. Então esperavam: "Você viaja quando para São Paulo?" "Eu viajo tal dia." Então tinha muitas clientes que não iam no salão enquanto eu não voltasse, para aplicar o novo corte. Então foi muito interessante isso, por isso que eu acho que eu gosto muito daqui, por causa disso. Que a moda aqui dita. São Paulo é o centro da vida da moda: em cabelo, de roupa, tudo. 

P - E seu irmão trabalhou no salão também? 

R - Meu irmão entrou com, um pouco mais tarde, com 18 anos de idade ele entrou. Ele também aquela coisa, sofreu influência. Tem meu primo, eu tenho um primo que trabalhou comigo também. Eu entrei, depois de seis meses ele entrou, um primo meu. Trabalhamos juntos no salão lá em Recife, o Davi. E cada um, o meu pai tinha na época três salões. Então ele colocou cada um num salão, trabalhava junto. E a gente começou a aprender a profissão, a crescer tudinho. E meu irmão começou a ver os dois trabalhando, eu e meu primo, que a gente era muito unido eu e meu primo, né? Aí a gente falava: "Cara, é muito legal, vem aprender, vem aprender." E aí ele, meu irmão é surfista, né? Vê como é que a vida é interessante, deixou o surf para virar cabeleireiro. E começou a trabalhar com a gente. A gostar da profissão, e aprendeu também rápido. Ele trabalhou a maior parte comigo, o meu irmão. Ele teve a base com meu pai. Depois eu estava em outro salão e tinha espaço. Meu pai: "Vai trabalhar com seu irmão." Então meu irmão não sofreu tanto aperto, nem assim, cobrança como eu recebi. Porque como era irmão, né, eu não podia exigir muito dele. Então eu exigia com jeito. Porque pai é pai, né? Pai fala as coisas a gente aceita. Agora irmão é complicado. Então eu tinha mais argumento com ele: "Olha, é assim. Não, é errado, não, é assim" então o bom que ele me escutava. Ele também um ótimo profissional, trabalha aqui em São Paulo também. Tem um, trabalha, ele é sócio de um salão aqui na Pedroso de Moraes. Então ele está em um salão e eu trabalho em outro aqui. Trabalho aqui na região, na Vila Beatriz, Vila Madalena. Então é isso aí. 

P - E aí, do outro lado assim. Essa é a linha de trabalho. E na linha do namoro? 

R - Então a linha de namoro eu posso falar que eu sofri. Porque como eu tinha salão em Recife, então vamos dizer que eu era um cara que conhecia muita gente. Eu era convidado para eventos, toda época de carnaval eu ganhava convites para algum baile de carnaval. Eu fazia baile de carnaval em Recife. Eu fiz o Bal Masqué e o Municipal. Eu fiz o Miss Pernambuco lá durante dois anos seguidos, eu e meu pai. Então a gente tinha um nome em Pernambuco. Eu era conhecido onde eu chegava, o pessoal me identificava como Fernando Dellos, Fernando do Dellos, que era o nome do meu salão lá em Recife. O pessoal, nesse meio tempo tinha as paqueras, as namoradas. E tinha uma que eu, uma delas que eu namorei, que eu me apaixonei bastante. Mas eu sofri muito preconceito com o pai dela. Eu lembro que ele era uma pessoa de posses. O pai dela morava na beira-mar de Boa Viagem, e eu querendo conhecê-la. Conhecer o pai dela, a mãe dela. Eu chegava na porta dela, porque naquela época não tinha celular, então a gente chegava na portaria e interfonava. Aí ela: "Quer que eu suba?", ela falava: "Não, não, estou descendo." Eu ficava lá embaixo, esperando 10, 15 minutos. E foi durante um mês isso. E ela evitando de eu conhecer os pais dela. Tudo bem, mas eu, poxa, eu um cara que eu tinha salão, tinha um, também tinha uma condição legal, né? Mas existia preconceito, eu não sabia. O meu primeiro... 

P - Quantos anos você tinha? 

R - Eu tinha uns 19 anos, 20 anos. Foi meu primeiro preconceito em termos de namoro. Eu lembro que depois de um mês, aquela coisa que não tinha como evitar, ela falou: "Olha, vai ter o aniversário da minha mãe no domingo. Vai ter um almoço lá em casa, aí a gente, eu acho que eu vou falar para os meus pais para você ir." "Não, claro." "Que a gente não pode sair, você almoça com a gente. Vai estar minha família toda lá, tudinho." "Ah, que legal." e aí chegou o dia do almoço. No domingo eu cheguei na hora do almoço lá, cheguei até um pouco, assim, era programado para as 13 horas, eu cheguei 11 e meia. Disse: "Vou chegar cedo para conhecer." Quando cheguei lá na casa dela interfonei, ela: "Pode subir." Eu subi, quem abriu a porta não foi nem ela, foi o pai dela. E o cara, um senhor fino, bem assim sério, muito educado, mandou eu entrar. Falou: "Sente-se." muito cortês comigo. E eu achei muito assim, muito fechado. Mas até então tudo bem. Ele não me conhecia, não sabia quem eu era. Sabia que eu era o namorado da filha dele. Nesse meio tempo ele, e a minha namorada não vinha, né? Eu na porta, na sala com o pai dela. Eu perguntei: "E a sua esposa, dona Fulana?" "Ah, ela está lá dentro." Mas foi bom porque a gente teve uma conversa antes delas chegarem. Eu olhei assim, ele falou: "Você trabalha de que mesmo?" "Eu sou cabeleireiro, eu tenho um salão aqui de, eu tenho um salão de beleza aqui em Boa Viagem." "Você é cabeleireiro?" "Sou. Ela não falou para o senhor não?" "Não, ela falou que você tinha um salão. Eu achava que você era o dono." "Eu sou o dono e trabalho." "Você é o dono e é cabeleireiro do salão?" "Sou." aí ele ficou sério, né? Eu falei: "Por quê?" "Porque eu não tenho bons olhos para isso não. Você pensa em mudar de profissão?" Eu disse: "Não, por que mudar de profissão? A minha profissão é uma profissão que veio de família. Meu avô é cabeleireiro aposentado, meu pai é cabeleireiro. Nós temos salões em Boa Viagem, outros em outros bairros. Nós temos três salões e cada um, cada filho está em um." "Ah, mas eu não tenho bons olhos para isso não. Você pensa em mudar de profissão?" Eu disse: "Não. Tá, de repente, né, se tivesse um padrinho para ajudar." "Você pensa em montar o que? Está disposto a mudar de profissão? Que minha filha gosta muito de você. Mas eu não vejo no futuro minha filha casada com cabeleireiro." Aí eu olhei para a cara dele assim, isso foi o meu primeiro contato com o pai dela. Demorou um pouquinho, ela chegou na sala. Quando ela entrou na sala ela viu o clima tenso no ar, eu bem sério. Eu respirei e não respondi ele. Ela chegou, conversou comigo, bateu um papo, ficamos ali. Mas eu não consegui descontrair. E o pessoal foi chegando, os parentes dela tudo chegando, me cumprimentando. Até teve, tinha pessoas que me conheciam: "Ah, seu Fernando, como é que vai, tudo bem?" "Olhe, Fulano, Dona Fulana de Tal" no caso a mãe dela "Esse aqui é o melhor cabeleireiro de Boa Viagem, eu ouço muito falar dele." a mãe dela super educada, né? Mas também eu sabia que tinha uma barreira assim, né? (risos) Parece que eu estava com uma doença contagiosa. E isso eu senti a festa toda, o almoço. E como eu não podia ir embora, então eu tive que ficar lá. Aí quando deu umas duas horas da tarde, assim que acabou o almoço estava na sobremesa eu fiquei por ali, me levantei. E aí eu falei para ela: "Olha, eu preciso ir embora." "Mas já? Você vai embora, mal chegou." "Pois é, mas eu tenho que ir pra casa que eu tenho que resolver uns problemas. Mas aí a gente se fala mais tarde. Eu te ligo mais tarde. Mas eu não vou nem falar com ninguém pra ninguém perguntar por que eu vou embora. Então eu vou sair, com diz, à francesa. Você vai me levando até a área de serviço e eu saio e ninguém vai ver. Dá um abraço para a sua mãe, para o seu pai." "Tá bom." Aí eu saí, cara, eu fiquei arrasado. Chorei nesse dia pra caramba. Senti, entendeu? Aí eu vi que era, tudo que eu passei no passado, na infância, eu ia enfrentar no futuro. Mas isso me deu força mais ainda, em provar que não tem nada a ver. Os melhores cabeleireiros de São Paulo, e eu vou a vários cursos, são homens. Então é uma profissão como outra qualquer. Infelizmente tem os gays que abraçam a causa, gostam. Mas não tem nada a ver. Acho que cada um tem seu gosto. Eu não tenho nada contra o ser homossexual. Eu sou hétero, mas não tem nada a ver. Eu acho que cada um tem sua escolha. E não tem como esse negócio. E já passei uma outra saia justa com outra namorada. Estava num aniversário também e chegou o ex dela lá na festa. O pai dela chega brilhou os olhos quando chegou esse. O pai dela, na época gostava, até eu me dava bem, sabe? Essa é uma outra namorada. Aí o cara veio até mim: "Então você é o Fernando?" "Sou." "Tudo bem?" ele apertou a minha mão quase quebrando os meus dedos. "Tudo bem." Eu segurei a força ali. Aí (risos), depois de muito tempo eu estava lá, tinha um snooker lá, jogando sinuca com o pessoal, descontraído, tomando cerveja ele chegou: "E aí, você é homem mesmo?" Eu falei: "Sou." "Porque todo cabeleireiro é gay, né?" Eu disse: "Não, nem todos. Você faz o que?" "Eu sou bancário, gerente de banco." "É, tem muito gerente de banco gay. Já teve uns quatro gays lá no salão." Ele olhou para a minha cara assim. "Tem muito gerente, tem muito advogado, tem muito juiz, tem muito padre. Essa aí é uma opção de vida. Cada um que escolhe. Não tem nada a ver." Aí ele ficou nervoso, queria bater em mim lá. (risos) Porque ele achava que ia me ofender e eu ia ficar calado. Então são argumentos que a gente passa. Isso infelizmente acontece. Mas toda profissão tem. Então eu acho que infelizmente eu vou ter que saber administrar isso. Como hoje, com 41 anos eu administro, eu acho normal isso. Então não me incomoda como naquela época. Hoje tenho uma outra cabeça, eu trabalho com gay. Então eu acho que é normal, qual é o problema? Então faz parte da vida mesmo. (risos) 

P - E você chegou a trabalhar com alguma outra coisa? 

R - Eu trabalhei, durante a minha profissão eu era sócio de um time lá em Recife, Náutico Club, né? Náutico de Capibaribe. E eu tinha um amigo que ele fazia parte da, de uma comissão do Náutico assim, que organizava eventos. E como eu era torcedor, vivia no time, em grupo, vivia no campo. Ele falou: "Cara, você não quer dar uma força lá não à gente?" "Ah, força como?" "Então, pra gente ajuntar um grupo para organizar o carnaval do Náutico. Quer participar com a gente?" Eu falei: "Ah, eu adoro festa, vamos. Fazer o quê?" "Primeira coisa é correr atrás de patrocínio." "Você tem amigos que patrocinam? Clientes?" "Tenho." Aí eu peguei fiz uma lista de clientes que eram conhecidos na região, que tinham posses, né? Eu peguei o meu irmão, saímos para um lado e cada, eram seis amigos, né? Cada um saiu para um lado para arrumar patrocínio para cobrir a despesa do carnaval. E com o meu conhecimento e do meu irmão, que também era, na época tinha salão, a gente conseguiu vários patrocínios. Mais do que os outros, claro, porque a gente chegava: "Náutico, pá." e eu mostrava todo o projeto: "Quer entrar? A cota é tanto. Você quer entrar com quanto, quer investir quanto?" e eu tinha muito argumento, né? Então a única profissão que eu entrei foi essa. Só que no final não deu certo, porque a receita foi muito maior, o gasto foi muito maior. Então não deu para cobrir. No final tivemos que vender um carro, porque como a gente tinha assinado coisa, dado um cheque meu, porque muita coisa a gente faz com o nosso nome, né? Como eu era o único que tinha, eu e meu irmão que tinha estabelecimento. Então era tudo no meu nome. A gente teve um gasto de 25 mil reais na época. Eu tive que vender um carro e o resto pagar assim, em longas prestações. Porque foi uma coisa que foi na época da mudança da moeda, então foi tudo muito rápido. Eu acho que a queda financeira foi em termos disso aí, que eu entrei num lado que eu não conhecia e confiei em pessoas. No final ninguém me ajudou. Os quatro tiraram o corpo, e eu e meu irmão que tinha estabelecimento, tudo era no nosso nome, a gente assumiu uma boa parte. Então o que a gente levantou a gente cobriu, e o que não levantou teve que pagar. Naquela época, eu acho que 98, 97, 25 mil reais era muito dinheiro. Hoje talvez não, mas naquela época era muito dinheiro. Então tivemos que desfazer de bens para pagar. Era ameaça, polícia na porta de, do meu trabalho. Imagine, cobrando. Claro, o cara que fez o negócio quer receber. Então eu tive que sentar com todo esse pessoal: "Eu vou pagar, por quinzena, por semana." Então eu fui separando assim: o rapaz da fotografia, paguei por mês. O rapaz da camisa, paguei por mês. E eu fui, sabe, uma coisa de louco. Então o único erro meu foi esse, de ter saído da profissão. Eu acho que você mudar de profissão hoje em dia é muito sério. Tem que entender. Às vezes chega cliente pra mim: "Ah, vamos montar um salão. Eu fui demitida, fui indenizada tenho x mil reais para investir. O que é que você acha?" Eu falo assim: "Olha, numa boa, que é que você faz da vida?" "Ah, eu trabalhei com Contabilidade, não sei o que." "Por que você não monta um escritório de contabilidade? Que é o que você entende. Você vai pegar o seu dinheiro que você suou, que você trabalhou toda a sua vida, montar um salão. E se não der certo? Você não vai tirar ele todo. Então eu aconselho a você investir no seu negócio." Porque trabalhar, é o que eu falo, você tem que ser, investir no que você sabe. O meu maior erro foi ter entrado numa área que eu não entendia, que eu não conhecia. Meu erro foi esse. Então mudei só essa vez. (risos) 

P - Até voltando, você começou a trabalhar novo e acabou adquirindo uma independência financeira mais novo até do que os seus amigos, você estava falando. Como que isso influenciou a tua vida? O que é que foi mudando na tua vida? Nos seus hábitos? O que é que você fez com a primeira grande grana que você recebeu? 

R - Então, a primeira grande grana que eu tive eu comprei um carro. Porque naquela época carro era tudo. Todo jovem quer ter um carro, então eu com menos de 18 anos eu tinha um carro. Eu andava com o carro sem documento. O meu primeiro carro foi um Fiat 147, que era um carro da moda. É hoje como o Fiat Uno. Então foi um carro que eu consegui comprar ele de um tio meu, aí eu dei uma metade e fui pagando o resto por mês, prestação. Ele me vendeu assim. Foi quase um presente, né? Então minha primeira conquista foi um carro. Que era tudo, que eu arrumei o carro, coloquei som no carro. Eu lembro que o som na época era aquele som de bandeja, você lembra? Que o som era acoplado, uma gaveta que encaixava. Quando chegava no bar, tirava. Ficava no bar assim um trambolho. Hoje em dia é só a frente, né? Naquela época era o som de bandeja. E, muitas vezes, com vergonha de colocar na mesa ou então alguém roubar eu colocava debaixo do banco. Eu pegava, tirava assim, plaft, enfiava debaixo do banco, fechava o carro e ia para a festa. Na volta eu pegava, puxava o som, encaixava, truc, truc, ligava o som e ia embora. E minha primeira chatice foi quando eu cheguei no carro e o som não estava lá. Tinham roubado o som. E eu tinha pago já o flanelinha. (risos) "Você?" "Eu não vi não, moço." "Mas você não estava olhando os carros aqui?" eu procurei o som, desci do carro desesperado, não estava em canto nenhum, tinham roubado. Entraram com a chave, que eu nem sei como é que abriram o carro perfeito, tiraram o som. Rapaz, fiquei louco. Então a minha primeira conquista foi essa. Depois desse tempo eu comprei cavalo. Eu adorava cavalo também. Eu fui num leilão uma vez de cavalo. Os meus pais lá, uma turma boa. E nesse leilão teve um desfile de country. Aí o cara que organizava era cliente meu, falou: "Olha, você quer participar?" "Como assim?" "Ah, você vai lá, faz o cabelo das meninas, aí te dou uma mesa. Vai ser bebida e comida à vontade a noite toda." "Ah, eu quero." "E, eu não te pago nada." "Tudo bem." "E assim divulga o salão." E aí foi num espaço lá que tinha bem legal, country, sabe? E lá vai eu com a minha equipe lá, preparar as meninas tudo no salão, quando foi a noite eu fui só soltar os cabelos. E elas entraram na passarela com roupa de country, né? Bota, chapéu. Então o cara falando, o locutor: "Patrocínio dos cabelos Dello´s cabeleireiros. As melhores cabeças do brasil." o cara fazia aquela divulgação. Depois do desfile começou o leilão. E a bebida, uísque à vontade, eu entusiasmado bebendo com o pessoal. Daqui a pouco o cara: "Olha aí quem vai querer." O cavalo, entrava o cavalo, cada cavalo lindo. Entrou um puro sangue inglês, que eu fiquei apaixonado, preto. Cavalo de jóquei. O cara falando: "Esse cavalo ganhou o jóquei, ganhou o terceiro lugar no Rio de Janeiro." Aí eu, na brincadeira disse: "Vou levantar o braço porque eu acho que alguém vai em seguida." Eu levantei o braço. Aí: "Olha, eu vou dar-lhe uma, vou dar-lhe duas, vou dar-lhe três. Vou vender. Tá vendido." Eu falei: "Meu Deus, que..." Aí painho: "Que foi?" "Comprei um cavalo." "Como é que é rapaz?" "Comprei, na brincadeira." "Tu é doido." E não podia voltar atrás. Leilão é assim, você levantou a mão você não tem como voltar atrás. Você paga, divide em x parcelas, mas o cavalo é seu. Aí eu fui para o cara que organizava: "Cara, eu levantei o braço brincando." "Brincando? Senhor, aqui não é brincadeira não. O senhor infelizmente tem que levar o cavalo, ou então o senhor vai ser preso." Eu falei: "Ixi, é assim, é?" Ele disse: "É." "Poxa vida." "Porque não tem como o cavalo voltar para ser leiloado." "Mas eu fui o primeiro a levantar, eu achava que alguém ia levantar e ninguém levantou." "Mas é assim." Eu falei: "Meu Deus." Aí meu pai: "Você é doido? Vamos lá ver o cavalo." Um cavalo enorme, puro sangue, cavalo de jóquei. Nunca montei nele. (risos) Achei o cavalo lindo, preto, enorme. Era Batiston o cavalo. Um cavalo campeão. Tem todo um histórico, né? Não ganhou um primeiro lugar, mas tem dois terceiros lugares e um quinto no Rio de Janeiro. Estava em Recife, leiloando lá. E eu não entendi nada. Eu peguei o cavalo, aí o cara: "Não, não se preocupe que ele está no jóquei, o senhor paga por mês a um tratador. E é assim que funciona. Aqui tem um pessoal que eu vou te apresentar." Aí eu que não entendia de nada. Foi outro erro meu também. Eu conheci um cara lá que tinha uma, uma, como é que eles falam? Uma, eu acho que deu branco agora. Onde eles põem os cavalos lá. 

P - Baia? 

R - A baia, tem uma baia lá. Ele disse: "Meu sobrinho corre, você vai pagar um valor só que vai englobar tudo. Topa?" Eu falei: "Topo. E como é que é o gasto?" "Por semana uma saca de corsalina e mais isso, verdura, não sei o quê." "Tá bom." aí eu encarei a coisa. E comecei a investir, a ter gasto. Porque vai: "A vacina tal." E lá vai dinheiro para a vacina. "É, tem que comprar tal medicação para ficar mais forte." Tal medicação. E olha, foi um gasto. Mas eu achava interessante, porque eu chegava no Jóquei então ficava olhando aquele negócio de cavalo, organizando. Até que uma das corridas que ele nunca ganhou, ficou em terceiro, nunca ganhou. Ganhou terceiro lugar só. Que não deu retorno nenhum, (risos) era só gasto. Aí teve uma vez que ele estava bem preparado, eu estava acompanhando, depois de uns seis meses. Aí o cavalo saiu, disparou, ele disparou na frente. Na curva, porque é tipo uma volta assim, né? Na curva de binóculo eu vi o jóquei puxando o cavalo assim. Ao invés dele fazer assim, porque até então eu não achava que existia máfia, e tinha lá dentro. Aí foi quando eu soube, porque eu ia de vez em quando, não estava dentro todo dia. Então tinha muita máfia e eu não sabia. Eu vi o jóquei puxando o cavalo assim ó, de longe. Fez a curva na frente e o jóquei assim, claro, freando o cavalo. Ao invés dele dar corda para o cavalo sair, disparar, não, ele estava puxando o cavalo. Aí o cavalo foi ultrapassado e perdeu. Eu cheguei para o: "Eu não quero mais ele que vai montar meu cavalo." "Mas por quê?" "Porque eu vi ele em pé no cavalo puxando." "Isso é impossível." "Rapaz, eu não sou louco não. Eu estou com o binóculo. Eu vi ele, o Batiston estava na curva na frente. Ele tinha tudo para chegar em primeiro ou segundo lugar, mas seu sobrinho não..." Aí começou aquela confusão. No mesmo dia eu tirei o cavalo da baia dele coloquei em outra baia e acabou a amizade para evitar violência, né? "Então tudo bem, tudo bem. Eu não quero mais você, nem você, nem o seu sobrinho cuide do meu cavalo." Porque se eu fosse levar adiante ia virar confusão feia. Porque tinha envolvido dinheiro, aposta, tudo. Eu tirei o cavalo, botei em outra baia, perdi o interesse. Eu falei: "Olha, eu quero vender." Na mesma semana apareceu uma compradora. Comprou o cavalo, na época um valor até legal. Eu vendi o cavalo e essa moça continuou com o cavalo até que ele morreu numa pista. Ele teve uma queda e foi sacrificado na pista. Eu soube anos depois. Porque cada vez quando eu abria o jornal, tem a parte de esporte e tem a parte que não era muito divulgada no cantinho assim. Eu li: "Ah, interessante." Que estava falando de cavalos. Aí apareceu que ele tinha morrido, eu falei: "Oh, que pena." então foi outro erro meu do passado, que eu investi errado. (risos) 

P - E aí você continuou morando com seus pais? 

R - Não, não. Atualmente eu estou morando com a namorada, vamos dizer, casado, né? 

P - Ah, sim, eu digo, quando você começou a trabalhar, você continuou morando com seus pais? 

R - É, eu demorei a casar. Eu fui casar com 27 anos. Achei que eu nunca ia casar. Que eu era muito namorador. Tive várias namoradas, namorava com uma, namorava com outra. Aí eu me apaixonei por uma moça, moça, lá em Recife. O nome dela é Cintia. E namoramos dois anos. Nesses dois anos a gente se, a gente viu que a coisa ia ficar séria mesmo. Ela num acidente ela ficou grávida. (risos) Como eu gostava muito dela, casamos. E temos uma filha linda de 12 anos. Que hoje tem 12 anos ela. Só que o casamento foi, mudou. Depois mudou, a gente casou e não nos adaptamos. E mesmo assim eu insisti. Eu gostava muito dela. E para encurtar a história, durou seis anos o casamento. Mas, o melhor de tudo foi o amor que a gente tinha um pelo outro durou. Veio a filha, né? Uma filha linda que faz parte do nosso amor. Aí nesses 20, eu vim morar em São Paulo. Foi aí que eu vim morar em São Paulo. Eu joguei tudo para o alto. Tinha um salão lá, tinha tudo e eu vim morar em São Paulo. Minha tia deu a maior força aqui na época. Ela falou assim: "Eu vou te dar uma força, eu vou te apresentar o meu cabeleireiro. Quem sabe você não trabalha com ele?" e eu cheguei num sábado, no dia, acho que foi 20 e poucos de maio, dia 29, isso. A festa de minha irmã, de 15 anos, dela aqui em São Paulo. Minha mãe já morava aqui. Eu vim para a festa e não voltei. Meu pai voltou e eu fiquei. Na quarta-feira ela me levou no salão onde ela frequentava. Eu bati um papo com o dono lá, ele gostou muito de mim. Na quinta-feira eu estava trabalhando com ele. Aí pronto, não parei mais. E de lá para cá eu não sou patrão, sou empregado até hoje. Eu acho que eu não consigo mais ser dono. É muita preocupação. Eu prefiro ser. Meu pai é muito contra, ele acha que eu tenho que ser dono: "Como é que você consegue, você aguentar receber ordens?" Mas eu sou um cara que me adapto muito fácil. Então eu procuro entender. Eu sou muito maleável. Eu não sou de confronto. Trabalhei cinco anos em outra empresa antes de entrar aqui. Que eu estou em outro salão agora. E eu fui muito amigo do meu patrão. A gente trabalhava junto, eu vestia a camisa. Então eu sou um cara que eu luto pela empresa. Eu via que quando não estava dando mais para mim eu saí numa boa. Eu vejo muito isso assim, a profissão: que a gente tem que ter bem com as pessoas. Não pode se confrontar, não pode entrar em choque. 

P - E aqui em São Paulo como foi, começar a morar com seus pais, eles já moravam aqui, é isso? 

R - Moravam. Minha mãe já morava aqui. Meus pais eram separados na época. Eles tiveram uma crise, e minha mãe veio morar com minha irmã em São Paulo. Aí eu fiquei morando eu, minha mãe e minha irmã aqui em São Paulo. Depois de uns dois anos morando aqui, não, no mesmo ano, em 2000, no ano de 2000 meu irmão sofreu um acidente lá em Recife. Bateu o carro, bateu num poste e ele ficou internado em coma durante uns dias. E eu acho que - ele está bem, superou tudo mas - uniu muito os meus pais o drama do filho, né? O meu irmão se recuperou, voltou a trabalhar. Minha mãe viu que ele estava bem, voltou para São Paulo. E meus pais começaram a namorar por telefone. Aí viram que tinha muito amor ainda. Mesmo depois de três anos separados existia muito amor entre eles. Se deram uma chance e estão até hoje juntos. Moram juntos aqui em São Paulo e estão bem para caramba. E meu irmão depois veio também morar em São Paulo. Agora nós estamos todos aqui em São Paulo trabalhando. 

P - E foi tranquila tua adaptação? 

R - Foi, foi ótima. Primeiro que eu vim na frente, então eu me dei muito bem aqui, e falava muito bem daqui de São Paulo: "Que é muito bom, é fácil. A gente ganha dinheiro." São Paulo é a cidade das oportunidades. Te dá tudo. Cabe a você aceitá-las, né? Quem gosta de trabalhar, quem quer trabalhar, consegue tudo aqui em São Paulo. Quem é uma pessoa acomodada, que espera muito dos outros demora mais. Então eu como sou uma pessoa muito assim, gosto da profissão, gosto de trabalhar, então me adaptei super fácil aqui em São Paulo. Não tenho do que reclamar não. É mais para quem mora longe, né? 

P - Eu queria saber se nesses anos todos que você já trabalha como cabeleireiro, se tem algum fato interessante que te marcou com alguma cliente? 

R - Deixa eu ver, o que pode passar, né? Tem fatos engraçados e tem fatos chatos. Qual você acha mais interessante? 

P - (risos) O que te marcou mais, que você quiser contar. 

R - Porque nessa profissão a gente não pode errar , né? E a gente é rei até o dia que a gente erra. E, infelizmente, todos nós estamos dispostos a errar, não só a acertar, né? Tá gravando aí? Então a gente é muito cobrado, a gente é idolatrado até o dia que você erra. Então eu acho que a profissão de cabeleireiro é um pouco ingrata, você não pode errar nunca. É igual médico. O médico errou um diagnóstico, mata o paciente. Se a gente errar uma química ou um corte perde a cliente. Então é difícil ter a segunda chance. Eu tenho clientes que estão comigo há anos, desde que eu cheguei em São Paulo. Que me acompanham assim, onde eu vou, vai. E eu já errei com elas. Uma vez eu conversando, eu cortei cabelo demais, e ela ficou chateada. Mas ela falou: "Eu vou te perdoar porque gosto muito de você, mas se errar de novo eu não venho mais aqui, não vou te acompanhar mais. Então tem algumas clientes que elas, elas até dão uma segunda chance. Porque não somos perfeitos. Tem dias que eu estou mais inspirado, tem dia que eu estou cansado, chateado. Então eu procuro dizer, eu procuro entrar no meu salão deixo os problemas, tiro assim a mochila: vummm, na rua. Aí eu entro, (respira fundo): "Trabalhar." quando eu volto que eu vou embora: "Tchau gente." Aí eu coloco de volta e vou pra casa. E pior é chegar em casa. Chego em casa tiro de novo (risos) deixo na rua. Entro em casa. Na hora de ir embora eu ponho de volta. Porque a gente não pode levar os problemas nem para o salão e nem pra casa. Que isso atrapalha muito. Então eu tenho situações engraçadas no salão. Tem uma engraçada, tinha uma cliente que ela chegava no salão que ela mal falava com ninguém, isso em Recife, né? Ela mal dava bom-dia. Mas ela chegava assim: "Eu marquei com Fulana, ela chegou?". Aí eu falei: "Tá chegando já." aí, ela ficava sentada aguardando a cliente, a chegar a manicure. Chegava a manicure ela fazia a unha tudinho. Pagava, não dava uma palavra no salão. Era o tempo todo. Quando apareceu o celular que ela ficava no celular direto. Ela falando com o trabalho, falando com a família. A gente não existia para ela. Aquele tipo de pessoa que eu acho que se morrer vai virar cinza, não vai nem apodrecer. Porque tem nojo do corpo, né? Que nem tem quem é assim, né? Que eles pensam de um jeito que: "Se eu morrer um dia, eu quero ser cremado, para não apodrecer." Então eu ficava pensando: "Poxa, como a pessoa pode ser assim?". Todos nós somos diferentes, ninguém é igual a ninguém. E eu ficava olhando. Teve um dia que ela chegou lá, marcou cabelo e unha. E com, ela fazia com o cabeleireiro dela. Que eu tinha salão grande, tinha vários cabeleireiros. E o cabeleireiro dela não chegou. Ligou que estava atrasado, tava de, não sei qual foi o motivo ele não ia chegar no horário que ele tinha marcado com ela, que era as nove da manhã. Eu também estava com cliente marcado, não podia atender. Essa mulher deu um escândalo no salão: "Absurdo não ter cabeleireiro aqui." Eu disse: "Não, ter tem. Todos estão com a agenda marcada. Não tem como a gente parar um serviço para fazer o seu." E ela fez um bafafá na hora de pagar. Que ela falou que ela nunca mais ia lá, não sei o quê. E eu falando que foi muito chato, porque por mais que a cliente sempre tem razão a gente tem que aprender também a colocar ela no lugar dela. E por mais que eu falava com educação e ela aumentava a voz mais ainda. Eu falei: "Calma." E ela gritava que gritava. E não sei qual foi o problema dela que eu acho que ela descarregou na gente. Conclusão: ela abriu a porta e saiu, quebrando tudo, derrubando tudo. Quando o cabeleireiro chegou, chamei ele para conversar: "Olha, ligue para ela, conversa com ela para ver porque ela fez isso. E mal fala com a gente do salão. É algum problema sério, né?". E ele ligou para ela e pediu desculpa, argumentou. Mesmo assim ela ficou um mês sem ir lá no salão. Depois de um mês ela volta para o salão de novo e não pede desculpa. Marcou lá unha e cabelo com o cara. Nunca falou comigo. E assim foi. Até que um dia, meu salão era numa galeria e o banheiro era no primeiro piso. Então tinha uma escada redonda assim, em caracol, e ia no banheiro. E lá em cima tinha uma sala de estoque e o meu escritório, onde eu ficava lá organizando as finanças. Então quando eu estava desocupado eu ficava lá no meu estoque. Lá no meu escritório, vendo os pagamentos, vendo, tinha uma parte que tinha um DVD, ficava vendo filme ou vendo DVD de corte. Vendo o que tinha, muitas vezes quando eu vinha para São Paulo eu mandava a fita para lá de VHF, VHS. Eu ficava vendo, estudando cortes, tudo, cores. Quando foi um dia eu saí da minha sala fui ao banheiro. Eu vi que ele estava ocupado. Fiquei lá esperando: "Deve ser alguém do salão, as meninas." Daqui a pouco quem me sai do banheiro? A cliente. Que parecia que comia só caviar. Quando ela saiu do banheiro, gente, um cheiro daqueles forte. (risos) Acho que ela comeu algo de errado lá. Aí desceu, olhou para a minha cara assim: "Tudo bem?" Eu falei: "Tudo bem, como vai a senhora?" Ela: "Tudo bem." Aí ela passou, desceu a escada morta de vergonha. Então é isso que eu digo: são pessoas iguais a gente, come o que a gente come, faz o que a gente faz. E fica achando que só come coisas que saem cheirosas, né? E felizmente ela era igual a todo mundo. E foi uma gozação nesse dia. Que ela ficou morta de vergonha. Porque a pessoa que faz a coisa, sabe, né? Ela desceu com vergonha, pagou, foi embora. Aí eu comecei: "Ó, como é que pode, né? A pessoa ser desse jeito?" (risos) Foi muito engraçado nessa época isso. Então foram situações, no salão a gente passa muito. Teve um dia que a gente, eu trabalhava lá em Recife no salão. Eu tinha uma cliente que trabalhava com, na Globo. Ela falou: "Não, vai ter uma matéria sobre o Dia do Cabeleireiro. Você quer fazer?" Eu falei: "Como é a matéria?" "Você vai falar da profissão de cabeleireiro." "Ah, eu quero." "Vamos lá." Daqui a pouco chegou lá, estava eu e meu irmão trabalhando junto nessa época. Aí ela perguntou: "Como é que é ser cabeleireiro, ser profissional?" "Ah, é ótimo, a gente trabalha, e a gente muda as pessoas, transforma. Porque trabalha com a autoestima das pessoas." Ela: "Ah, que legal." E ela perguntando: "E você, Paulo", meu irmão, né?, "Você gosta da sua profissão?" "Ah, eu adoro, eu aprendi com o meu irmão e a gente trabalha junto há mais de três anos." "Você se dá bem com ele?" "Me dou super bem com ele." "E como é que é esse preconceito?" "Ah, não tem por onde, nós somos casados, somos casados." E ficou no ar. Como era uma matéria que ia ser veiculada no jornal local todo mundo viu na hora do almoço que a gente era, deu a entender que a gente era casado. Foi uma gozação. (risos) Então todo mundo riu, tirou onda. "Como isso pode?" Porque é normal, ainda mais a gente em TV não tem como voltar. É gravado pá, gravou não tem como voltar e repetir a pergunta. Mas foi muito interessante na época isso. As matérias que a gente fazia. Eu fiz muita matéria na TV. Teve uma também uma sobre erros no salão. Porque muitas vezes a pessoa erra o corte. A matéria era assim: "O que fazer quando errar o corte de cabelo?" Então a matéria foi, chegou lá também no meu salão. A moça perguntou, a repórter perguntou a mim: "O que fazer quando errar um corte de cabelo? Quando você atende uma pessoa que veio com um corte errado de outro salão." Eu falei: "A primeira coisa é você ter, analisar o corte, ver se tem solução. Se não tiver solução deixa crescer. Porque quanto mais você mexe é pior." E foi muito legal essa matéria, porque muita gente foi até meu salão para consertar ou então tentar mudar o corte, porque sofria muito com isso. Porque depois que erra não tem mais jeito. Não é igual à química. Química se fica muito claro a gente escurece, se fica muito escuro a gente clareia. Agora, se corta muito chora eu e você. (risos) Não tem mais jeito. Então é isso aí. 

P - E tem mais alguma coisa da tua trajetória toda que você queira, que você lembrou agora, que queira contar, que a gente não cobriu? 

R - O que eu posso dizer a você é o seguinte: o fato de eu estar em São Paulo esses 10 anos, e nesses 10 anos trabalhar aqui eu aprendi muito. Eu acho que eu cresci muito profissionalmente. Amadureci muito a minha cabeça. E a forma como eu pensava há 10 anos atrás era uma e hoje é outra. Então eu posso te dizer que muita gente que vem para São Paulo tem mania de: "Ah, São Paulo, eu vou morar só porque é melhor, é bom." É bom, mas eu aconselho a quem venha morar em São Paulo não morar muito longe da cidade. Não morar muito longe do trabalho. Porque o que prejudica a pessoa, o humor da pessoa é o fato de morar muito longe. São horas no ônibus, horas no metrô, horas de trem. Isso é um desgaste muito grande. Eu tive muita sorte em morar, ter o apoio da família, tenho uma madrinha que mora aqui, minha tia Eliane. Tem meu tio, o esposo dela, o Hércules, que me deu muita força, ajudou muito a gente. Então eu sempre morei num bairro bom, no Paraíso, perto da Vila Mariana. Então eu não sofri muito. Mas quem vem pra cá que for morar distante, morar longe do trabalho, isso é uma coisa que acarreta muita coisa. O humor das pessoas muda muito. Isso de manhã, por que ocorre tanto mau humor de manhã? Porque trabalho, trânsito. Quando você vai pra casa outro problema, voltar pra casa. É outro mau humor. Então eu acho que eu cresci muito. Hoje eu falo: eu moro distante, estou morando longe. Mas eu estou com outra cabeça, que eu estou já preparado para me adaptar, aceitar tudo. Então o que eu posso dizer em termos disso aí na profissão nossa aqui de salão em São Paulo é excelente. O ambiente é muito bom. A gente cresce muito profissionalmente aqui em São Paulo. Não é obrigado a pessoa ir para fora. E quem mora no Nordeste o maior sonho é morar em São Paulo. Quem mora em São Paulo o maior sonho é morar fora de São Paulo, né? Acontece isso em todos os segmentos, quem estuda. Então o que eu posso dizer é que eu sou muito feliz nessa cidade que me acolheu, que me ofereceu tudo e até hoje me oferece. Eu estou feliz profissionalmente, estou feliz na parte pessoal também. Vou ser pai de novo. Tenho uma filha a caminho, uma menininha. E isso é coisa que me deixa muito feliz. Tenho uma filha em Recife que eu amo muito, que é a Fernanda, que é a minha primeira filha. Tem a minha enteada também, que é uma filha de cinco anos, que é a Tiffany. E minha esposa atual que é a Alessandra. Então eu acho que é a minha base em tudo. Isso, eu acho que a vida nossa é isso aí. Contar um pouco da nossa história, o que a gente passa, o que a gente vive, né? Isso nos engrandece muito. 

P - Fernando, para a gente encerrar, eu queria, já que você está, inclusive, fazendo essa reflexão, eu queria saber quais são os seus sonhos? 

R - Os meus sonhos, né? Atualmente o meu sonho é, é ter saúde, é trabalhar e acompanhar o crescimento das minhas filhas. Poder levá-las ao altar. Isso é uma coisa que todo pai quer, né? Meu maior sonho é ter saúde para levá-las ao altar. Porque a gente vive uma vida muito louca aqui. A gente corre muito. Então a gente às vezes passa muitas situações no trânsito. Então pelo fato de eu morar muito distante às vezes eu me aborreço no trânsito. Eu tenho que ter muita paz de espírito para aguentar até lá. E meu sonho maior é poder dar o melhor para a minha família, poder construir uma vida saudável. Eu sei que rico é complicado, é tudo sorte na vida. Eu tenho muita sorte, mas eu acho que tem que ter muita sorte, sorte elevada. Mas se eu der uma boa vida à minha família, isso é um sonho que todo homem tem em dar o melhor aos filhos. A gente trabalha para isso mesmo, para a família. E, no futuro, me aposentar e ir morar, voltar para o Nordeste, que é a minha cidade, voltar para Maceió perto da minha família. Aquele clima maravilhoso que eu vou todo ano para lá para Recife, Maceió, de férias. Quando eu encontro cliente lá: "Fernando, você volta quando?" Falei: "Rapaz, está difícil. Porque eu gosto muito daqui, mas ainda não me vejo morando aqui em Recife." Eu falo para eles, né? Porque eu gosto de São Paulo, eu gosto daqui, essa loucura, essa adrenalina, dessa correria. Isso para mim é ótimo, não tenho nada contra isso. Porque eu sou uma pessoa bem acelerada. Eu falo rápido, eu trabalho rápido. Tudo meu também é na rapidez. Então eu me dou super bem nesse ritmo. Não é o caso, se eu voltasse para Recife eu ia ter que me adaptar àquele ritmo. Eu tenho uma filha que estuda lá, eu tenho que ligar para colégio para perguntar sobre livro, alguma coisa, a moça me deixa esperando. Estou ligando de São Paulo. Não é assim: pá, não. "Ah, um momentinho só, eu vou transferir o senhor." Eu falei: "Estou ligando de São Paulo, dá uma pressinha?" "Não, claro." aí vem uma pessoa e me passa para outra. E muitas vezes não resolvo. Aqui em São Paulo tudo é para ontem, em todos os segmentos. Tudo é resolvido para ontem. Então eu adoro São Paulo nesse sentido. 

P - Como foi para você rever a sua trajetória, contar sua história hoje? 

R - Ah, foi muito interessante. Eu acho que eu, teve o primeiro contato no próprio salão que eu trabalho. E eu tenho uma cliente, a gente conversando e ela falou no Museu da Pessoa. E eu achei interessante aquilo: "Poxa, mas que legal." ela falou: "Cara, a sua história dá certo lá. Acho que muitos vão querer conhecer a sua história, um pouco da sua história, a sua vivência de vida." Aí falei: "Ah, legal." E eu vim, eu achei interessante também a forma como é feito e catalogado. Como as pessoas vão pesquisar, vão descobrir. E eu espero poder ajudar de alguma forma, contar um pouquinho da minha vida. Eu sei que não, eu acho que têm pessoas que têm uma história mais interessante. Mas um pouquinho que a gente escuta ali e aqui isso é soma na vida da gente. Eu acho que tudo é válido. Eu que vou a cursos, muitas vezes eu vejo a mesma coisa, fico assim sentado, vendo o mesmo que eu já sei fazer, mas às vezes tem uma coisinha, um movimento que o cara faz na tesoura, no pente que eu não faço. Então eu acho que na vida é assim, é feito ler um livro. Você lê um livro, às vezes nada a ver com a sua história de vida, mas tem uma coisa no livro que mexe com você, com teu eu. Então eu espero que o pouco que eu falei aqui tenha ajudado alguém, tenha dado força a alguém. Mostrar que a vida é isso mesmo. É vida de preconceitos que a gente tem que superar todos, em todos na vida. Não só na vida pessoal, na vida profissional. E ser fiel ao amigo, ser uma pessoa boa de coração. Ter paz no coração, ajudar as pessoas. Porque você ajuda, você lá na frente também vai ser ajudado. Então é isso aí. 

P - Muito obrigada.

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