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História

Desejo do fundo do coração

História de: Maria Aparecida da Silva Sousa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/03/2006

Sinopse

História do nome Aparecida. Infância na cidade baiana Ruy Barbosa. Convivência familiar. Mudança para São Paulo. Namoro e casamento. Gravidez e adoção. Ingresso na empresa de cosméticos L’arc en Ciel. Trabalho na linha de produção de batons.Trajetória de mais de quinze anos na Natura. Sonhos e conquistas. Beleza e bem estar. Expectativas para o futuro.

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História completa

 

P – Cida, a gente começa pedindo para que as pessoas se apresentem, então eu queria que você dissesse para mim seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.


R – Tá, meu nome: Maria Aparecida da Silva Souza. Nasci no dia 18 de agosto de 1961. Nasci em Rincão, não conheço, eu sei que é no interior de São Paulo, mas não conheço, saí de lá com dois anos, vim para São Paulo, então não conheço.


P – E por que você veio para São Paulo?


R – Então, minha mãe conta que teve uma situação muito triste lá, assim, emprego, essas coisas e, como meu pai era caminhoneiro, a gente precisava sair e ir para um lugar onde tivesse mais chance de arrumar emprego e ele veio para São Paulo. Mas ele ficou em São Paulo muito pouco tempo, ele ficou aqui cinco anos, a gente ficou aqui cinco anos e voltamos para Bahia. Ele perdeu o encanto por São Paulo porque ele disse que, há tanto tempo atrás ele já achava aqui muito violento, então ele voltou, voltei para Bahia com cinco anos e retornei com catorze.


P – E como é o nome dos seus pais?


R – É João Batista da Silva, a minha mãe Maria de Lurdes Neves.


P – E como que eles são? Conta um pouquinho para mim.


R – Ai, minha mãe sempre mais rígida que meu pai, mas meu pai sempre carinhoso com a gente. Acho que ele passava tanto tempo fora que, o tempo que ele estava em casa, ele aproveitava muito assim com a gente. Nas férias era uma delícia, nas férias, a gente saía de férias num dia, no outro dia ele estava em casa para pegar a gente e a gente viajava as férias inteiras com ele. E, assim, aquele pai de dar colo mesmo, de pegar, e chegava sempre com os bolsos cheios de bala e aí perguntava como que foi na escola, como que a gente foi em casa, se tinha alguma reclamação e dava uma balinha, dava moeda, sabe assim?. Boas recordações assim da minha infância, do meu pai.


P – E irmãos, quantos irmãos você tem?


R – Irmãos, sete irmãos, mais velhos são duas, são gêmeas. Na verdade, minha mãe teve vinte e quatro filhos e, assim, nascia e morria, nascia e morria, e ela fez uma promessa, que as minhas duas irmãs gêmeas nasceram com uma saúde assim muito fraquinha e ela fez uma promessa, que, se aquelas duas vingasse, ela teria mais um filho e colocaria o nome de Aparecido ou Aparecida, aí vingou as duas, depois ela ficou grávida, veio eu e ela colocou o nome de Maria Aparecida. Depois disso ela teve mais seis filhos e os seis estão aí.


P – Vinte e quatro vezes grávida.


R – Vinte e quatro filhos, que, assim, nascia e morria e naquela época as pessoas não se cuidavam, então era ter filhos mesmo. Passava um perdia, ficava grávida de novo e assim todo esse tempo. Ela disse que nenhuma das filhas quis acompanhar o ritmo dela, que a minha irmã, que tem mais filhos, tem quatro filhos, né, então ela fala que nós somos covardes porque não quis ter tantos filhos.


P – Depois nem dá né.


R – Hoje não dá mais, sustentar tantos filhos assim, cuidar, dar estudo, assistência, essas coisas, não tem como, então é dois ou três no máximo.


P – E aí vocês foram viver em Salvador, você tinha quatro, quer dizer, foi em Salvador? Vocês foram para Bahia...


R – Agente foi para Bahia, Ruy Barbosa, a cidade da minha mãe e do meu pai, né, meu avô tinha uma fazenda e eles foram morar lá na fazenda, plantando e vivendo assim, de plantação e de roça.


P – E vocês junto?


R – E a gente junto.


P – E como foi a sua infância na fazenda?


R – Ah! Eu não morava bem na fazenda, eu morava numa cidade próxima, mas sexta-feira a gente ia para fazenda e voltava sempre no domingo à tarde, então era muito gostoso também.


P – E você morava em que cidade?


R – Na cidade de Ruy Barbosa 


P – E a fazenda, era na região de Ruy Barbosa? 


R – Na região de Ruy Barbosa, uma hora e vinte, mais ou menos assim de carro, mas era na região.


P – Mas lá em Ruy Barbosa você morava com seus pais?


R – Com meus pais.


P – E eles iam trabalhar na fazenda?


R – Eles iam trabalhar na fazenda.


 P – Me conta então essa sua infância em Ruy Barbosa.


R – Então, a gente estudava, depois meu pai foi ser caminhoneiro, né, continuou, ficou um tempo na fazenda, mas não dava muito certo, ele precisava ter algum retorno assim, de ter um emprego, de ter a grana, de contar com aquilo no final do mês e ele voltou a ser caminhoneiro e a minha mãe ficava com a gente na cidade porque a gente já estava na época de estar estudando e poucas vezes a gente voltava assim na fazenda, só no final de semana mesmo, ajudar um pouco meu avô, na época de plantar, na época de colher a gente ia para lá.


P – Você lembra da sua casa lá em Ruy Barbosa? 


R – Lembro.


P – Como que era ela?


R – Ai, como sempre essas casas bem grandes, bem grandes, compridonas, com vários quartos, cozinha, despensa, bem grande mesmo, fogão de lenha, fogão grande assim, aí reunia todo mundo ali no final da noite, a gente ficava fazendo pipoca, assando milho e minha mãe contando história, a gente se divertia. Eu acho que ela fazia um pouco isso para gente não sentir muito a falta do meu pai.


P – E você lembra das histórias que ela contava?


R – Ah! Lembro das histórias, de pessoas que morriam e que vinham contar e que as pessoas escondiam, como não tinha Banco, escondiam o dinheiro e faziam um buraco no chão e depois eles morriam, esse dinheiro não servia para nada e eles voltavam para falar para alguém: “Olha, me liberta, eu tenho um dinheiro em tal lugar, em tal serra”. Então ela contava aquelas histórias assim, pessoas que achavam ouro e aí não sabia o que fazia com esse ouro e enterrava, são histórias assim. E contava também que na cidade grande, que em São Paulo, às vezes, as pessoas entravam num determinado lugar e saíam de lá salsicha, ela falava que o pessoal fazia salsicha de ser humano, então ela falava: “Não vou para São Paulo de jeito nenhum”. E contava essas histórias, e quando a gente veio para cá eu morria de medo, eu vim com catorze anos e eu ficava pensando: “Meu Deus do céu, será que alguém tá me olhando e vai fazer salsicha?”. (Risos) Essas coisas assim, acho que para gente não se afastar tanto dela.


P – E como que era o convívio entre você e seus irmãos?


R – Ah! Muito tranquilo, tranquilo com os meus irmãos, é, discussões assim, poucas discussões, sem nenhum dos dois perto, porque se a minha mãe e se meu pai soubesse a gente levava aquele chamado, puxava a orelha, deixava de castigo, essas coisas, porque sempre ela falava que a família tem que ser unida, então isso ela fazia muito bem, cobrava muito da gente a união.


P – Tá, e nessa época em Ruy Barbosa os seus avós estavam por perto?


R – Sim.


P – Dos dois lados?


R – Dos dois lados.


P – E você se lembra deles?


R – A minha vó não muito, eu lembro muito pouco da minha avó, eu lembro que a gente tinha, eu tinha uma amizade muito grande com a minha avó e a minha avó comigo assim, que, quando ela ficava sabendo, ela fazia alguns doces que eu gostava e deixava lá: “Ah! Porque a Cidinha tá vindo, a Cidinha”, né? Então, mas a minha avó morreu muito cedo, né, e meu avô casou de novo. Aí com essa mulher que ele casou a gente não gostava muito não, foi aí que a gente começou a ir menos na fazenda, mas, na época que a minha avó era viva, era muito bom.


P – E você lembra assim do que eram feitos esses doces que ela fazia para você, o cheiro da comida, você tem essas referências ainda?


R – Ah! Eu tenho.


P – Você pode descrever pra mim?


R – Assim, bolo de mandioca, né, então era muito difícil açúcar nessa época, eu lembro que às vezes a gente levava assim meio quilo de açúcar, era muito difícil porque eles faziam café e temperavam com rapadura, coisas que eles tiravam da cana, né, só que para fazer o bolo para gente e para fazer o doce também, a gente levava o açúcar, às vezes minha avó comprava o açúcar e fazia esses doces de goiaba, de mandioca, de mamão verde, sabe, adoro doce de mamão verde, lembro muito da minha avó, beiju, beiju recheado assim com, né, então, eu lembro muito aquele cheirinho gostoso, um cheirinho assim de açúcar queimado com canela, minha vó gostava muito de usar canela, canela e cravo, esse cheirinho me traz de volta essa época, eu lembro muito da minha avó.


P – São cheiros muito bons, né?


R – Nossa! Gosto muito!


P – Me diz uma coisa, dessa infância, quer dizer, você acabou de me dar duas, uma referência marcante, que é essa relação com a avó, do cheiro, mas tem alguma coisa que tenha te marcado muito na infância, nesse período de Ruy Barbosa?


R – Hummm! De Ruy Barbosa eu tenho só lembranças boas assim, nada assim marcante. Mas assim uma infância, muito, muito boa. Muito alegre, éramos muito simples mesmo, mas assim acho que muito feliz.


P – As brincadeiras.


R – As brincadeiras.


P – Quais eram? 


R – Assim, é brincar de roda, pular corda, pulando amarelinha, tinha um joguinho de capitão, que a gente falava, que a gente jogava com seis pedrinhas. Hoje eles dão outros nomes para essa brincadeira, mas na época chamava capitão, de balanço, quase todas as casas tinham árvore no fundo das casas, eles faziam balanço, colocava rede aí minha mãe ficava deitada na rede acompanhando a gente brincar assim à tarde, né, coisas...


P – De tranquilidade.


R – É, bem tranquila mesmo.


P – E, sua mãe, para administrar oito filhos trabalhou bastante?


R – Trabalhou bastante e, assim, muito próximo, porque ela reunia os oito para todo lugar que ela ia. Se ela estava na cozinha, estava todo mundo junto. Se estava no quarto, estava todo mundo junto, sabe, não deixou assim a família ficar dispersa, um lá e não sabia por onde que estava.


P – E você disse que sua mãe trabalhou também como cozinheira. Então ela devia cozinhar muito assim, como era?


R – Minha mãe, ela cozinhava muito bem, porque agora ela não gosta mais de cozinhar, mas ela cozinhava muito bem, quando ela veio para São Paulo e ela veio para São Paulo assim e falava para gente: “Nós vamos para São Paulo, para que vocês tenham um futuro melhor, para que vocês possam estudar, trabalhar”. Essas coisas, e ela teve que começar trabalhar e como ela não sabia outras coisas a não ser assim, costurar, bordar, essas coisas, ela sabia cozinhar, ela fez um teste num restaurante, começou fazendo um bico e lá ela ficou doze anos nesse restaurante trabalhando.


P – E ela trabalhava o dia inteiro lá?


R – Ela trabalhava das quatro à meia noite, uma hora, ela chegava mais ou menos esse horário em casa, ela fazia a janta, né, era uma churrascaria e ela ia para trabalhar só à noite.


P – Aí ela chegava cansada e seu pai ficava cuidando de vocês?


R – Não, meu pai trabalhava nessa época, depois eles se separaram porque meu pai queria voltar. Eu tenho um irmão que faleceu aqui e isso foi muito ruim.


P – Aqui em São Paulo?


R – Aí meu pai voltou (emociona-se).


P – Aí seu pai veio sozinho e eles se separaram, isso para você foi uma coisa difícil?


R – Foi. Então ele voltou para Ruy Barbosa, disse que preferia morrer de fome lá (emociona-se) do que ver os filhos dele morrer aqui. 


P – Na verdade, vocês já estavam aqui em São Paulo, você já tinha catorze anos?


R – Já.


P – Ele não aguentou a cidade? 


R – Não.


P – Mas por quê? Vocês saíram de Ruy Barbosa, então seu pai ficou muito pouco tempo aqui?


R – Ficou. Na verdade, minha mãe era que conduzia as coisas, né, e minha mãe vendeu tudo, meu pai foi fazer uma viagem e minha mãe vendeu tudo, minha mãe disse: “A gente vai embora, porque aqui as meninas estão crescendo e não têm o que fazer aqui, não tem trabalho”. E tinha muito essa coisa assim, de adolescente se prostituir e minha mãe tinha muito medo dessas coisas, então ela falou assim: “Vou embora e, se você não quiser ir, eu vou vender tudo e vou”.


P – Isso lá em Ruy Barbosa?


R – É, isso lá. E meu pai não acreditou que ela fizesse isso, só que, quando ele voltou, ela já tinha vendido tudo, aí a gente já estava com dinheiro e tudo pronto para vir embora e a gente veio, só que seis meses depois que a gente estava aqui, a gente tinha um tio aqui, que alugou um quarto para gente, um quartinho pequeno. Seis meses que a gente chegou, meu irmão morreu atropelado, né. E isso foi muito ruim para minha mãe. Meu pai voltou e, a minha mãe, ela ficou muito decepcionada, mas como meu pai tinha ido, ela falou: “Agora, a gente tem que ficar”. E começou trabalhar, a minha irmã mais velha também arrumou um emprego numa empresa e ela foi levando a vida. Aconteceu um fato assim dessa minha irmã, ela foi atropelada também, não foi nada grave, mas eu lembro que a minha mãe reuniu todo mundo, reuniu todos nós e falou assim: “A gente tem que fazer uma escolha, ou a gente volta, aí eu volto e tenho que conversar com o pai de vocês e tenho que sei lá, pedir desculpa para ele e sei lá, recomeçar tudo de novo lá, ou a gente fica aqui e vai viver o que vir pela frente, a gente vai ter que sobreviver aqui”. E aí ficou assim todo mundo olhando um para cara do outro e ninguém sabia o que fazer, porque ela queria uma opinião nossa, a gente era muito nova, eu devia ter dezesseis para dezessete anos e sempre criada sempre junto da minha mãe, meu pai sempre tomando decisão, era muito difícil a gente tomar aquela decisão. E, na verdade também, a gente não tinha mais dinheiro para voltar, eram oito pessoas, nove pessoas com a minha mãe para voltar, não deu.


P – Quando vocês chegaram aqui em São Paulo, vocês foram viver em que região da cidade?


R – Nós fomos viver aqui na região de Santo Amaro, pertinho de onde a gente mora hoje. Eu tinha um tio que já morava aqui, que já morava aqui eu acho que uns seis anos mais ou menos, e minha mãe tinha mandado uma carta para ele pedindo para ele alugar uma casa, e ele mandou a carta para minha mãe dizendo: “A casa está alugada”. E minha achou que era uma casa e quando chegou aqui era assim um quartinho (risos), eu acho que foi a primeira decepção dela porque a gente morava numa casa grande, assim, simples mas tinha um certo conforto e aí de repente naquele quartinho a gente não tinha nada, tinha lá uma cama de casal no chão e era só isso e algumas coisas que a gente trouxe, o dinheiro que ela trouxe, ela também não tinha muita noção de dinheiro, então o dinheiro eu lembro que deu para gente comprar uma mesa e um fogão e ficou pouca coisa assim para gente fazer compra, mas que não ia durar muito, né? Porque acho que o dinheiro do fogão levou metade do dinheiro que ela tinha vendido a casa lá, não lembro e como é coisa que ela não gosta muito de falar, então a gente não tem noção dessas coisas, mas eu sei que ela falou, que ficou muito preocupada com isso, quando ela viu que não deu para ela comprar as coisas que ela queria comprar e nem que, não ia dar para sustentar a gente por mais tempo, então tínhamos que procurar serviço.


P – Foi quase uma “Senhora do Destino”?


R – É mais ou menos, mais ou menos.


P – E me diz uma coisa, quando você chegou em São Paulo, qual foi a sensação, o que você achou dessa cidade tão diferente de Ruy Barbosa?


R – Eu achei tudo muito bonito, a gente veio de trem, nós passamos uma semana viajando, a gente saiu de lá num domingo e chegou aqui no sábado à noite, a semana inteira.


P – Vocês vieram de trem lá da Bahia?


R – De trem.


P – Não existe mais essa viagem, né?


R – Não, não existe. Então, já tinha até um pouco de noção porque parou em várias cidades, então a gente ia vendo essas cidades, mas, quando chegou aqui eu fiquei encantada, eu achei tudo muito bonito, aquelas luzes, um monte de carro, muita gente assim muito bonita, então eu fiquei muito encantada. As minhas irmãs, as duas, que são gêmeas, as mais velhas, a Solange e a Sueli também, mas os pequenos choravam muito, achavam tudo muito estranho aqui. Minha mãe fez uma conta de um tempo que ela ia chegar aqui, aí houve um desencontro, na verdade, meu tio veio buscar a gente no domingo de manhã, a gente passou a noite todinha lá na estação de trem e ali todo mundo queria dormir, cansado da viagem e meu tio não chegava e a gente não sabia para onde que ia. Minha mãe não tinha endereço para entrar em contato com ele, não tinha nada, tinha que esperar ele aparecer, aí ele apareceu no domingo de manhã e a gente veio. Meu tio Zequinha, que hoje já é falecido, era caminhoneiro também.


P – Família de caminhoneiros. E das escolas que você estudou? A gente vai voltar essa história aqui de São Paulo, mas eu queria saber um pouquinho assim, você lembra da primeira escola, quando foi que você entrou na escola, como que era?


R – Eu comecei estudar com sete anos, uma escola também pertinho da minha casa.


P – Lá em Ruy Barbosa?


R – Lá em Ruy Barbosa, primeiros anos, eu estudei o primeiro, segundo, terceiro, quarto ano lá, né? Uma escola muito simples, muito simples mesmo a escola. Eu lembro que eu gostava muito dos professores, tinha só criança ali da região mesmo. Tranquilo assim na escola.


P – Você tinha alguma professora que você gostava mais?


R – Tinha, tinha uma professora que chamava Lucila, que assim, que eu gostava muito dela, muito rígida, ela era muito rígida e eu admirava ela assim por isso. Chamar a atenção dos alunos e estava sempre pronta para tudo, na hora do recreio, na hora de ir embora, se ela encontrasse com você na rua fazendo alguma coisa, que não tinha nada a ver, um domingo ou sábado, ela chamava atenção como se ela fosse alguém da família e gostava de puxar muito a orelha da gente, de puxar mesmo, de pegar assim e puxar a orelha. E passava na casa dos alunos falando com as mães se aprontou alguma coisa, ela, depois das aulas, passava na casa das crianças contando o que as criança faziam, o que foi feito depois, ela era terrível (risos), não dava para esconder nada dela, em qualquer lugar, é incrível.


P – Aquelas que marcam mesmo.


R – É. Cidade pequena, nossa! A gente de repente estava fazendo alguma coisa e ela chegava assim: “Cida, Cida vou falar com seu pai”. 


P – Você era arteira, Cida?


R – Um pouco.


P – Quais eram os tipos de arte que você fazia assim? De falar “o meu pai vai me matar!”.


R – É, sei lá, fazer bagunça. Eu fazia a minha lição muito rápido e ficar sentadinha esperando outras pessoas terminarem, ah! isso me irritava, eu levantava e queria ir no banheiro toda hora e sentava para conversar com alguém, jogava papelzinho, sabe. Nossa, eu estava sempre sendo colocada de castigo, puxando minha orelha direto, direto. Meu pai ia na reunião, minha mãe nas reuniões e eles falavam assim: “Ela é inteligente, mas ela é bagunceira, ela conversa muito”.


P – Você era uma boa aluna então?


R – Eu era uma boa aluna.


P – Quando você estava nessa época escolar, você, quer dizer, depois você também veio para São Paulo com catorze anos, né? 


R – Isso.


P – Você continua estudando aqui?


R – Aí eu continuo estudando, depois parei, porque eu entrei numa empresa e fazia muito extra, tinha muito extra à noite e eu estava estudando à noite e aí eu optei por fazer e trabalhar um pouco mais porque era o jeito que a gente tinha de levar um dinheiro a mais para casa, então eu parei de estudar. Minha mãe, ela ficou muito chateada, mas meu pai, nossa! Ele mandou uma carta, ele falou um monte por a gente ter parado de estudar. Ele sempre quis assim que a gente estudasse bastante, que fosse fazer uma faculdade.


P – Que expectativa que ele tinha em torno de você?


R – Eu sempre falava que eu queria ser advogada, então ele sempre falava: “Se você não estudar, você não vai ser uma advogada. Você está abrindo mão dos seus estudos por causa de dinheiro”. Aí ficava, né, falando que minha mãe era teimosa, que podia voltar para Bahia e que aí ele ia cuidar da gente e a gente podia estudar, essas coisas. Mas minha mãe já não aceitava mais voltar, ela não queria mais voltar porque ela falava assim: “É abaixar a cabeça e voltar, isso eu não vou fazer”. Aí ficava lá. E o jeito que a gente tinha de ajudar ela era esse. Hoje eu sei que foi um erro, né, parar de estudar e abrir mão disso, eu deveria ter continuado sim, tinha outro jeito de ajudar e não ter parado, mas...


P – Nem sempre a gente sabe o que é melhor.


R – É, tomar as decisões certas, né.


P – E você se lembra assim, o momento que se deu a sua passagem da infância para adolescência, a hora que alguma coisa aconteceu que você falou: “Agora não sou mais criança”.


R – Ah! ...Que eu me lembre assim, eu sempre fui muito criançona, mesmo com uma certa idade, dezessete anos eu trabalhava, mas era meio criançona. Ah! Eu acho que quando a minha irmã casou, que ela casou e foi construir a vida dela, eu acho que eu achei aquilo legal e daí eu também queria ser adulta logo e casar e construir a minha vida. Ela casou muito nova e eu acho que aí eu comecei pensar em querer ser adulta, eu falei: “Ah! Deixa desse negócio de boneca”, porque, às vezes, o dinheiro que a gente recebia eu ainda comprava coisinhas assim para fazer vestidinho de boneca, ainda com dezesseis, dezessete anos. Aí eu acho que meio que larguei isso e falei: “Isso já tá ultrapassado”, quando minha irmã casou.


P – E você tinha amigos, amigas?


R – É, amigos, é meio que não, minha mãe não deixava, amigos assim ela não gostava. Agora, amigas tinha, tinha bastante, amigas, com quem você marca um horário.


P – Eles não deixavam por quê? Você acha que eles tinham medo?


R – É, amigos a minha mãe não gostava mesmo.


P – E as paqueras, quando aconteciam, no meio de tanto...?


R – Acho que no ônibus, indo trabalhar, na escola. No ônibus a gente marcava encontro, “Olha, seis horas eu tô aqui”, e aí ficava todo mundo ali em frente à padaria para pegar o ônibus junto e ir conversando, rindo, era gostoso também essa época, se divertindo, às vezes as mesmas pessoas estavam no mesmo ônibus todos os dias, aí terminava paquerando assim.


P – E como foi que você conheceu seu primeiro namorado?


R – Meu primeiro namorado foi um rapaz que morava perto da minha casa, na verdade, ele também era de Ruy Barbosa e ele era um colega do meu cunhado e a minha mãe detestava ele (risos). Ele tinha vindo de Ruy Barbosa e ele era assim um pouco avançado, vivia com rádio na mão, com música bem alta, andando assim, não sei era uma coisa meio da época, mas a minha mãe detestava essas coisas, e a gente namorou um tempo escondido. Quando minha mãe descobriu, ela falou para mim assim: “Ou você termina hoje ou você tem três meses para casar. E aí você escolhe”. E aí eu escolhi terminar né, porque não era nada assim tão sério.


 P – O casamento te dava medo?


R – Um pouco, eu tinha um pouco de medo de casar, eu achava interessante você construir uma família, você ter sua casa, marido, filho, essas coisas, mas por outro lado eu tinha muito medo de casar, de não dar certo, de alguma coisa assim.


P – E quando foi que você conheceu seu namorado com quem você veio casar, como é que foi esse casamento?


R – Então, com dezoito anos eu entrei na Christian Gray, que era mais ou menos, fazia cosmético assim como a Natura e conheci o Fernando, chamava Fernando, ele chama Fernando, hã, eu achava ele tão atrevido, eu não gostava dele de jeito nenhum. Ele separava pedido, como faz hoje no PIC e ele abastecia as canaletas, né, e ele me pirraçava muito. Porque às vezes eu pedia: “Olha, eu quero Batom 23”, e ele demorava para colocar, então fazia aquele montoeiro de caixa minha e eu falava: “É o abastecedor que não abastece, _____________”, e ele implicava muito comigo e a gente brigava direto, direto a gente brigava. Um belo dia, ele morava perto da empresa e ele pegou meu ônibus, porque tinha ônibus na empresa, ele pegou meu ônibus, se sentou num lugar e a hora que eu entrei no ônibus ele falou assim: “Vou te levar em casa”. Aí eu falei: “O quê?”. Ele falou: “Vou te levar em casa; não adianta, você não vai sentar em nenhum lugar, você vai sentar aqui porque eu vou te levar em casa”. Eu comecei a dar risada, levei na brincadeira, e a gente começou a conversar e aí tudo começou, um ano e um mês depois a gente estava casando. Então na verdade eu tive três namorados e o terceiro eu já casei, meu primeiro filho eu tinha dezenove, ia fazer vinte anos, meu filho tem vinte e três anos.


P – Vinte e três.


R – Meu filho tem vinte e três anos, trabalha aqui, vai fazer um ano que ele está trabalhando aqui na fábrica de perfumes. Meu segundo tem treze anos e, assim, a diferença foi muito grande, né, de um para o outro, eu achava que não podia mais ter filhos, aí eu adotei uma menina, quando eu adotei uma menina, cinco anos depois eu engravidei, então a diferença deles é assim, o Wesley, Aline, depois o Felipe, cinco anos.


P – Wesley, Aline, e Felipe. E você se separou faz pouco tempo?


R – Eu me separei eu tinha dezesseis anos de casada, oito anos, nove anos atrás.


P – E como que foi para você a separação?


R – A separação, tranquila. Assim, porque a gente conviveu quase dezessete anos juntos, eu acho que uns oito anos foi assim, a gente se gostava, depois eu acho que o Fernando cansou um pouco daquela vida de casado, até porque eu não sou uma pessoa assim, que gosta muito de badalação, de sair, eu não gostava muito dessas coisas, eu acho que chegou uma hora que ele foi cansando do casamento, então a gente era muito mais amigo do que sei lá, marido e mulher, sabe, assim, a gente se divertia muito em casa, com as crianças, de brincar, de a gente conversar de tudo, de dividir as coisas, mas assim, intimamente, a gente já não estava mais bem. Então tomamos uma decisão e ele ficou meio assim, aí eu falei para ele: “Eu vou procurar um advogado e a gente vai se separar”. Ele meio que não acreditou, aí eu cheguei com um cartãozinho do advogado e falei para ele: “Nós vamos nos separar.” Não dava mais, era uma vida mais de amigos. Hoje nós somos amigos, de verdade, hoje às vezes ele me liga e fala: “Cida, vamos almoçar, vamos levar as crianças, vem aqui”, ou então é em casa, é de conversar, de rir de brincar, mas...


P – Tudo na boa.


R – Assim numa boa, nada de confusão, de briga, não sou separada, porque ele não assinou a separação até hoje (risos), agora eu sei que eu posso, porque já são mais de cinco anos, né, então eu posso me separar, não sei, isso não incomoda.


P – Mas você teve namorado depois?


R – Ah! Tive um namoradinho, que não foi nada sério.


P – Ele soube, não ficou com ciúmes?


R – Ele soube, não falou nada. Depois eu gostei de uma pessoa, mas não deu certo, porque essa pessoa tinha uma namorada e sei lá, não eram casados mas meio que moravam junto, quando eu descobri isso, eu fiquei decepcionada porque eu acho que destruir um lar, mesmo que não seja uma coisa ali, falei: “Não, acabou, não quero conversa, acabou, acabou, cada um, cada um,” né?


P – Fez muito bem. Quando você era criança, tinha alguém que você admirava mesmo? Em sua primeira fase, alguém que você admirava, você achava, que te chamava atenção pela beleza, pelo jeito de ser?


R – Eu tinha uma, a gente chamava tia-avó porque ela era irmã da minha avó e elas eram muito amigas, minha avó casou e levou ela junto para morar e assim, então eu admirava muito essa minha tia, porque a impressão é que ela sabia tudo sabe, assim de: “Ah! Hoje vamos pescar porque a gente vai pegar muito peixe. Ah! Vamos fazer isso”, e acontecia tudo direitinho do jeito que ela falava. Ou então: “vai chover! Hoje é o dia certo de plantar o feijão”. Sabe essas coisas? E eu admirava porque eu achava ela, assim, muito esperta, inteligente, sabe. E essa minha tia morreu de uma hora para outra, até pela idade, ela tinha, ela morreu com oitenta anos já, então. Hoje eu faço coleção de pedras e ela me deu a primeira pedra, ela me deu uma pedrinha quando eu era criança, que eu guardei durante muito tempo e na mudança, essa vinda para São Paulo essa pedrinha se perdeu e ela me falou uma coisa a hora que ela me entregou essa pedrinha, quando eu era pequena, que depois uma criança me falou e me deu uma pedra, que hoje eu tenho essa pedra. E a impressão que eu tenho é que, sei lá, que é minha avó. (emociona-se)


P – E o que ela falou? Ela era bonita? Como ela chamava?


R – Ela chamava Bilia.


P – Bilia?


R – É, tinha os cabelos compridos, sempre trançava os cabelos e fazia aqueles coques bem grandes assim, e, quando ela lavava o cabelo, ela sentava na pedra assim e ficava penteando, eu achava lindo aquilo.


P – E a sua mãe, era vaidosa também?


R – Minha mãe sim, a minha mãe era muito vaidosa, sempre falavam que, de todas as irmãs, ela era a mais bonita. Acho que minha mãe é bonita até hoje, ela ainda mora, depois que a gente casou, ela foi embora para Ruy Barbosa, então ela ainda mora lá, ela se aposentou e foi embora e todo Natal ela vem, todo Natal ela passa com a gente e viaja para passar o Natal com meu pai. E assim, muito vaidosa, quando minha mãe vem, ela quer: “Ah! Eu quero um perfume da Natura, eu quero um creme da Natura, eu quero xampus”. E assim, ela já telefona antes falando tudo o que ela quer e vai embora e fala: “Isso aqui vai durar durante seis meses, depois quando tiver alguém indo para lá, vocês mandam tudo de novo” (risos).


P – E você fica abastecendo?


R – É, eu mando as coisas, e ela fica muito feliz, nossa! Perfume, ela adora, perfume, batom então, batom bem vermelho assim, ela gosta muito de batom.


P – Cida, e quando foi que você ouviu pela primeira vez falar da Natura?


R – Da Natura é... eu estava trabalhando numa casa de família e eu lembro daquele Senhor N, que está ali naquela vitrine, tem aquele vidrinho velho (risos), que meu patrão já usava aquele Sr N, um cheiro... né, então a primeira vez que eu ouvi falar e que eu vi um produto foi nessa casa. Depois eu fui trabalhar, trabalho assim em firmas e entrei na Christian Gray, mas eu tinha claro, que não era a mesma coisa, e não sabia onde que era a Natura. Mas engraçado, porque eu passava ali na João Dias e era a L'arc en Ciel ali e também eles vendiam aquele Musk ali também, que eu estava até olhando e matando a saudade e aquele cheiro, você passava em frente tinha um cheiro e aquele cheiro me encantava, eu falava: “Ah! Como eu gostaria de arrumar serviço aqui”. E eu via sempre as pessoas do lado de fora, na hora de janta, de almoço, eu passava lá quase que direto e perguntava: “Tá precisando?”. Aí falavam que não, que não estavam precisando e tal. Um dia, eu estava desempregada, eu fiquei pouco tempo assim, sempre fiquei muito pouco tempo desempregada, sempre tive muita sorte. Encontrei, fui numa agência, eles começaram com uma outra empresa, eu fazer uma fichinha para uma outra empresa, quando eu estou terminando a ficha, a moça pediu para gente parar um pouquinho e perguntou assim, era uma quinta-feira: “Essa ficha é para vocês irem para uma outra empresa, para começar a trabalhar na segunda, só que agora uma outra empresa me ligou dizendo que precisava de pessoas agora, quem de vocês quer começar já?”. Aí eu olhei de um lado, estava preenchendo minha ficha, dali eu mais ou menos umas quinze pessoas toparam e a gente foi e, nessa agência, eles alugaram uma Kombi e levou a gente para lá, e quando eu cheguei lá era a L’arc en Ciel, nossa, eu fiquei tão feliz, parecia que eu tinha ganhado um doce, eu falei: “Gente, vou trabalhar nessa empresa”. Entrei, aquele cheiro gostoso de Musk, se produzia muito Musk mesmo naquela época, acho que era o carro-chefe, alguma coisa assim, vendia muito e aquele cheiro de Musk assim me encantava. Cheguei em casa falando: “Vou trabalhar naquela empresa ali na João Dias que faz perfumes”. E aí você voltava para casa com a roupa cheirando tudo, fiquei também pouco tempo fazendo colônia, porque aí eu fui para linha de batons.


P – Me conta mais, quando você chegou, foi em 1985, isso? 


R – Em 1985.


P – Era L’arc en Ciel? 


R – L’arc en Ciel.


 P – E como que foi a chegada, como que era a L’arc en Ciel, era pequena? Conta para mim tudo o que você percebeu.


R – Era uma empresa muito pequena em vista de hoje, nossa, um cumbiquinho, mas assim, tudo muito aconchegante, assim as pessoas. Eu lembro que o gerente, a gente entrou, aí deu avental, aí o gerente queria falar com a gente, quis falar com a gente, nós entramos numa sala e era um gerente chamado Celso, um baixinho muito simpático, falou para gente assim, falou um pouco: “Olha, a gente tem alguns desafios aqui, nós temos um pedido muito grande de colônias, um pedido muito grande de batons, por isso que vocês estão aqui, só depende de vocês ser efetivos, se vocês trabalharem bastante, vocês vão ser efetivos, só depende de vocês. Eu tô aqui para ajudar vocês, qualquer coisa que vocês precisarem, se alguém tiver problema com horário a gente troca e tal”. Foi assim muito amável mesmo, a primeira impressão eu saí radiante de lá. É, até por tudo, né, eu já gostava daquela empresa pelo cheiro, passar ali e sentir aquele cheiro assim e de repente a sorte, traçou um caminho assim para mim, porque eu estava fazendo a ficha para ir para uma outra empresa e de repente deu tudo certo, fui para lá e, nossa, eu tenho recordações muito boas de lá, assim boas mesmo, assim todos os meses parecia que, foi naquela época que todos os meses a gente tinha um ajuste no salário, então era muito bom, todos os meses o Celso pagava, a empresa, e falava que a gente teve aumento e coisas assim e se trabalhava muito e era um ritmo muito agradável, muito alegre de produção, a gente fazia extra, ficava um tempão lá dentro da empresa e não sentia cansaço.


P – Quem que dirigia a L’arc en Ciel?


R – Ah! Era o… ele assinava, ele é o químico responsável, o Anísio, de vez em quando ele aparecia também.


P – E como é que foi você ir para fábrica de batom, como é que era essa coisa de trabalhar na linha de produção de batom?


R – Então, antes você disse para mim, o que a minha tia avó tinha dito para mim, quando ela me entregou a pedra, né. Ela disse que a gente tem que desejar as coisas, ela falava assim: “Se você desejar as coisas do fundo do seu coração, as coisas acontecem”. E eu acho que desde pequena eu acreditei nisso. E: “Quanto mais você pensar coisas boas, as coisas boas vão acontecer e, por mais que elas não aconteçam, você continua insistindo, você vai pensando,” eu pensava sempre coisas boas. E eu fui, né, trabalhar lá e fui para linha da colônia, fazendo aquelas caixinhas, colocando as colônias na caixinha, rotulando, essas coisas e tal. Só que batom era uma linha separada, era assim de vidro e me encantava aquele foguinho, que flambava os batons, eu ficava só no espelho olhando, assim no vidro olhando e aí eu desejava ir para lá, eu falei: “Nossa, eu queria tanto aprender”, né, “As pessoas passam com uma certeza do que tá fazendo”, e flambavam tudo. Olhava o batom, assim, aqueles batons desciam na linha com uma velocidade e eu queria muito trabalhar lá na linha de batons. De repente, o supervisor de lá perguntou quem gostaria de trabalhar na linha de batons e eu fui a primeirona a dizer “Eu quero, quero”. E fui e fiquei lá e eu acho que, assim, oito anos. Eu trabalhei direto na linha de batons, eu aprendi flambar, deslodar, tudo o que é de batom eu aprendi e fiquei muito encantada com isso, era muito, muito gostoso mesmo trabalhar na linha de batons. Aquilo foi bem, porque é um maçarico, não é que nem hoje, hoje a máquina faz tudo, você coloca massa num fusor, derrete, faz, flamba, molda tudo, sai flambado, etiqueta tudo, prontinho, você não precisa pegar em nada e lá tudo isso era manual, encher as forminhas, tirar, tirar cada balinha, colocar nas bandejinhas, aí as meninas da linha vinham, pegavam as bandejinhas, montavam nas canequinhas, soltavam na linha, cada um tinha um foguinho assim do lado, o maçarico, que você ia flambando para dar aquele brilho.


P – Tinha uma coisa de moldar com o dedo também, não tinha?


R – Tinha.


P – Eu cheguei a ver. 


R – Moldava, alisava assim as imperfeições do batom tudo. E, aos poucos, eu fui aprendendo, eu sei. Eu saí da linha de batom, quando acabou a linha de batom, eu sabia fazer tudo a linha de batom, só nunca fabriquei batom, porque são manipuladores, mas, de resto, tranquilo para mim, qualquer coisa na linha de batom e gostei muito, muito, adorava mesmo trabalhar na linha com as pessoas.


P – E você ficou na linha de batom oito anos, depois você foi fazer o quê?


R – Oito anos, nesse meio tempo a gente saiu da João Dias, houve a fusão da Natura com a L’arc en Ciel, aí fomos para Itapecerica e, mais uma vez, o pessoal falava assim: “Ah! Porque agora vai ser Natura, mas eles não vão dispensar o pessoal da Natura, vão dispensar o pessoal da L’arc en Ciel e tal. E eu queria muito ir para lá porque eu já tinha ido conhecer, às vezes eles levavam algumas pessoas, eu já tinha ido e eu achava tudo muito lindo, eu falei: “Ah! Eu quero estar aqui, eu tenho que estar aqui” e tal. E o pessoal falava: “Cida, você é tão boba, eu acho que nós vamos ser tudo dispensado”. Eu falava: “Eu não vou ser dispensada, eu vou para Itapecerica!”. Então, quando eles pediram o endereço, aí eles começaram a passar uma listinha onde você morava, para ver assim mais ou menos assim ônibus, essas coisas e aí eu coloquei meu endereço, a rua em que eu morava e coloquei Itapecerica bem assim (risos), eu falei: “Eles vão olhar aqui e se é por causa de endereço, vão me escolher”. “Cida você vai ter que pegar um outro ônibus para chegar lá.” Eu falei: “Não tem problema, eu pego outro ônibus se o problema for esse, mas eu vou”. E, na verdade, não era nada disso, era tudo peão falando demais, porque todo mundo foi, todo mundo que quis ir foi para Itapecerica. Nossa, o primeiro dia em Itapecerica, eu acho que ninguém se contentava assim, sabe, você não conseguia trabalhar, de olhar as coisas, de ver tudo, tão grande, tão bonito, tão diferente. E ainda trabalhava na linha, uma linha enorme de batom, o maçarico já era diferente, já eram novos, a gente regulava o gás, aí já não tinha mais nada disso, já tinha melhorado bastante as linhas quando eu fui para lá. E trabalhei dois anos ainda na linha e depois, meu supervisor, ele me fez uma pergunta se eu queria fazer um teste para líder. Porque tinha, as pessoas que operavam máquina e eu operava máquina, então qualquer coisa eu fazia, era uma, eu trabalhava no batom, mas eu fazia extra em qualquer lugar. Estava precisando, em qualquer linha, linha de xampus, e a gente tinha essa coisa, né, a gente não fazia xampu, então a gente gostava muito de ir para o outro lado só para ver as coisas novas. Então aprendi, aí ficava nas máquinas e tal e ele falou: “Cida, você leva jeito para coisa, você não quer fazer um teste? Tem uma líder que vai sair de férias, você quer ficar no lugar dela durante um mês para fazer um teste?”. Aí eu aceitei fazer esse teste. Quando ela voltou de férias, eu perguntei para ele o que é que ia estar acontecendo comigo, eu falei: “Agora eu volto para linha?”. Ele falou: “Não, nós vamos dar a linha de Tarot para você cuidar,” sabe aquela linha de Tarot, que a gente colocava rótulos. “Eu vou deixar você cuidando daquela linha de Tarot durante uns dois meses e, no final desses dois meses, eu te falo como você se saiu.” Eu falei: “Ah! tranquilo, trabalhando, eu quero trabalhar, na linha como líder ou sentada na linha, para mim não tem problema nenhum”. Mas assim, eu fiquei grávida do Felipe nesse meio tempo, quando eu descobri que eu estava grávida, eu falei: “Acabou, acabou minha chance, porque eles não vão passar uma pessoa para líder com três meses de gravidez”. Porque eu descobri no segundo mês, eu acho que quando eu comecei a fazer o meu teste foi quando eu engravidei (risos), eu falei: “Eles não vão passar uma pessoa para líder e depois daqui seis meses eu vou passar quatro meses em casa” e tal, aí fiquei desesperada. Quando, passado um mês e meio eu chamei o meu supervisor e falei para ele: “Estou grávida, tranquilo, eu acho que você não vai deixar que eu continue o teste, você vai querer colocar outra pessoa, porque daqui seis meses eu estou saindo”. Eu falei de quantos meses eu estava e ele falou para mim: “Isso não é problema, Cida. Por que você acha que uma grávida, não é doença em primeiro lugar, gravidez é saúde e eu tenho tantas grávidas aqui que não dão trabalho, qual é o problema?”. Assim, eu achei: “Isso é da boca para fora, passar para líder, eu não vou passar no teste, eles vão falar qualquer outra coisa, mas não que eu não vou passar porque eu estou grávida”. Aí um mês depois ele me chama na sala da gerência, com meu gerente e fala para mim assim: “Meus parabéns, Cida, você passou no teste e você vai continuar como líder”. Eu não sabia o que fazia, nossa eu fiquei gelada e tudo, olhava assim para o meu gerente, porque eu não tinha contado para ele, eu contei para o meu supervisor e aí ele levantou, estava assim que nem você, deu a volta, me deu um abraço e falou assim: “Meus parabéns por duas coisas, porque você desempenhou um bom trabalho e pelo bebê, que eu estou sabendo que você está grávida”. E aí, sei lá, sabe assim, aquela confiança de que a empresa viu o trabalho, que ela viu o trabalho que eu fiz, independente de eu estar grávida ou não e se eu merecia aquela chance e....


P – O máximo, né?


R – ... eu senti e falava isso para o Fernando e ele falava para mim: “Ih! Cida, acho que essa gravidez veio na hora errada, você queria tanto um bebê e ele veio na hora errada, né?”. Quando eu falei para ele o que aconteceu, ele ficou meio assim: “Nossa, que estranho! Jura! As empresas hoje, a pessoa fica grávida, a empresa hoje está dispensando. Ou então espera ganhar o bebê e você volta e te manda embora, e aí você é promovida, parece coisas de conto de fadas”. Mas eu estava tão feliz com meu filho, que...


P – Duas felicidades!


R – Como que foi essa fusão? O impacto no trabalho de vocês, o que mudou?


R – O que mudou assim, no começo deu muito medo, a gente realmente tinha medo de ser mandada embora, porque o pessoal falava: “Ah! Eles vendem desodorante, vendem muito mais desodorante do que batom”. A gente produzia batom para Jafra, aquele batom Boca Loca, que chegou passar na novela, tinha uma novela que tinha. “Ah, quando acabar esse contrato da Boca Loca nós vamos, todo mundo vai ser mandado embora e vai ser mais ou menos assim para estar trazendo pessoas de lá.” E a gente nem conhecia e inventava cada história, falavam que era uma empresa muito grande, que tinha as máquinas enormes, e a gente achava assim, por ser humilde, máquinas pequenas, de fazer essas coisas assim, de moldar batom na mão e coisas assim, que a gente realmente ia ser mandado embora. E aí, com o tempo, a gente foi vendo que não foi nada disso, foi medo e assim, as pessoas começam a criar essas fantasias, essas conversinhas assim, para passar o tempo e depois, chega um certo tempo, você começa acreditar naquilo, que todo mundo já estava acreditando que iam ser mandados embora. Mas foi tranquilo, só que a gente tinha muita vontade de conhecer a Natura, só que a gente em nenhum momento foi lá conhecer esse prédio que eles falam, eu conheço assim por fotos e a gente só ficou conhecendo quando foi para Itapecerica, lá na verdade juntou todo mundo.


P – Você nunca foi no prédio de Santo Amaro?


R – Não, aquele prédio de Santo Amaro a gente foi depois, mas não era ali, né, era num outro local, Georges Chammas, que eles falam, a gente se conheceu lá. E era estranho porque no restaurante aí dividia assim, o pessoal que era de Santo Amaro e desse lado ficava mais as pessoas, até ir se juntando, tinha um gerente que era muito tranquilo, muito meigo, então ele sempre: “Nossa, Cida, mas vem aqui! Você conversou com fulana hoje, vai lá”. E levava a gente nas outras linhas, para conversar, para fazer essa interação que a gente tinha um pouco de receio de fazer, então isso levou um certo tempo, depois foi tranquilo. 


P – E a mudança aqui para Cajamar, como que foi?


R – Ah! Aqui também foi outra coisa assim. Começou a falar que lá tava muito pequeno e a gente começou a sentir, realmente, que estava pequeno, cada vez eles abriam mais linhas e o espaço superpequeno. Compraram, vieram para cá, escolheram esse local aqui e começaram a divulgar fotos de como estava, como estava acontecendo, é, tirando as terras, então sempre era atualizada, essas fotos e quando começou a levantar o prédio, era tão grande assim, fizeram uma maquete bonita e colocaram lá em Itapecerica e aí começou aquela história de novo (risos), “poucas pessoas vão para lá” e eu naquela, né: “Eu acho que, se a gente desejar do fundo do coração, as coisas acontecem”. Foi até rápido, foi rápido essa construção aqui, eu não me lembro em quanto tempo, mas, assim, eu tenho a impressão que foi muito rápido a construção, tudo. Depois eles trouxeram algumas pessoas para estar visitando, eu vim, acho que na segunda visita e só tinha esqueleto mesmo, as coisas assim levantadas, mas parecia que era um mundo aqui dentro, que ia ficar tudo muito bonito. Aí eu comecei: “Eu quero ir para lá, eu vou para lá de qualquer jeito. Nem que eu vá, fique lá um mês, dois meses e depois, se não der certo, eu saio, mas eu quero ir para lá, eu quero conhecer”. E eles começaram assim a divulgar, colocaram aqueles bottons: “Eu estou mudando”, “Eu vou mudar”. Aí sabe, assim, eles fizeram lá em Itapecerica e sei lá, às vezes, eu colocava três (risos) bottons, ai meu Deus, umas coisas meio que infantil, mas a vontade era tão grande de vir para cá que eu queria que todo mundo soubesse que eu queria vir, se dependesse de mim eu estava aqui.


[pausa]


P – Vamos voltar, aí você com os três bottons, superdeterminada.


R – Ah! “Eu vou, eu vou, eu vou” (risos). Aí eles implantaram lá o SAP, uma versão assim bem simples, do SAP e eu me encantei


P – O que é o SAP?


R – O SAP é o sistema de gerenciamento dos estoques, tudo via computadores, dá para você visualizar assim todos os estoques da Natura, se o produto tirou guia, se está vendendo, se não, tudo isso pelo SAP. E, pela primeira vez, a gente ia começar a fazer esse tipo de coisa lá em Itapecerica e eles escolheram algumas pessoas para serem multiplicadoras, ficou acho que dois meses fora da Natura, aprendeu tudo sobre o SAP e depois implantou. E essas pessoas davam suporte para gente, deu um treinamento, dava suporte e eu fiquei muito encantada com o SAP também. E eu comecei nessa época, eu fui, eu fiquei tanto tempo na linha de batom, que eu pedi para sair um pouco, para ir fazer outras coisas e eu fui para fábrica de perfumes trabalhar na fábrica de perfumes, foi bem nessa época, faltava acho que uns dois anos para gente estar mudando, tinha essa coisa nova de estar implantando o SAP e tudo e eu queria muito. Mas aí já tinham escolhido alguns multiplicadores e eu fiquei aprendendo assim para dar o suporte na linha e aprendi um pouco. Depois implantou a primeira versão, na segunda escolheram mais alguns multiplicadores e eu já estava nesse meio, eu era multiplicadora, até para versão que ia ser implantada aqui, na verdade, eu vim para cá quinze dias antes, que todo mundo lá em Itapecerica, (risos) acho que todos os meus bottons deram sorte porque eu fui dali uma das primeiras a vir para cá, até para acompanhar essa parte, ver se as linhas, se a parte de sistema tava ok, estava funcionando, se dava para vir com as pessoas para estar fabricando mesmo e eu fiquei aqui quinze dias meio que sozinha assim. E foi uma coisa boa, nossa, eu cheguei aqui, olhava tudo isso, ficava encantada com tudo, cada linha que vinha, porque cada semana mudava uma linha e cada linha que vinha tinha uma festa, né, para você receber as pessoas, tinha aquele dia especial, café e tudo. Nossa! Eu estava lá em todas porque eu vim primeiro, então eu estava lá recebendo todo mundo (risos).


P – Bendita pedra, heim!


R – (risos) Ai Deus! Trabalhei seis meses nessa parte de sistema, depois a gente viu que as operadoras já estavam assim, habituadas, já estavam trabalhando, não precisava mais desse suporte aí eu voltei de novo a ser líder e dava só um suporte para alguns multiplicadores, montei uma equipe de multiplicadores, que hoje são os multiplicadores de perfumes, fiquei um pouco e depois eles andavam sozinhos, fiquei e depois voltei para maquilagem de novo e estou lá. Você tinha me perguntado o que eu acho das minhas tarefas. Eu acho que líder, em primeiro lugar, tem que gostar muito de pessoas, ser transparente com as pessoas, essa coisa de olhar nos olhos e isso funciona. Você tem que conhecer muito as pessoas, porque, às vezes, você chega seis horas da manhã aqui e tem alguém que está meio quietinho, de chegar e sentar e ficar ali na dele e você olha e fala “tem algo errado”, não é assim? Eu sempre venho dar bom dia, dar bom dia para o restante da equipe, então você tem que perceber essas coisas, né, e isso eu gosto muito, eu gosto muito de observar as pessoas, de conhecer.


P – E no que consiste o seu trabalho como líder? Você trabalha para uma linha específica, muda de linha, como é que é?


R – Então, na maquilagem, no primeiro turno eu sou a líder daquele turno, desde fabricação, pesagem, de batom, de tudo o que a gente faz. Porque, lá, a gente pesa e fabrica e envasa batons, gloss essas coisas vêm da fábrica de cremes, que é a fábrica debaixo, então eu não interajo tanto, e sim só passando a minha programação, às vezes cobrando, pedindo alguma coisa, mas no batom eu sou de passar a programação de fabricação, programação de pesagem, de envase, dos outros itens da maquilagem também e sim fazer a programação e ver se realmente aquilo está acontecendo. Ver o quadro dos produtos que estão vendendo e priorizá-los, essas coisas.


 P – Então vocês acabam conhecendo bem um produto?


R – Sim.


P – Vocês experimentam, como que é isso?


R – Experimenta (risos), você está fazendo um teste de um batom novo ou de uma sombra nova, então você já vê, já fala, então, se tem uma boa aplicação, se tem uma cor bonita. Às vezes, a gente acerta, a gente fala: “Isso vai vender bastante”. Ou então a gente fala assim: “Ah! Essa cor, acho tão feia”, né, e de repente estoura, campeã de vendas, então vai muito do gosto da pessoa, de dar opinião assim na hora, mas a gente experimenta tudo, tudo.


P – Tem algum produto que seja seu preferido?


R – Que seja meu preferido? Eu gosto muito da linha Chronos, né, eu sou um pouco vaidosa, então eu comecei usar, eles falavam que Cronos tinha que usar depois dos trinta e cinco anos, mas eu comecei a usar Chronos com trinta (risos).


P – Para mim falaram que era depois dos trinta.


R – Então, agora sim, mas antes, na época daquele Chronos que está ali ó, aquele vidrinho marronzinho, da época que eu comecei a usar era trinta e cinco anos e com trinta anos eu comecei e o pessoal falava: “Nossa, Cida, mas vai fazer mal para sua pele!”. Eu falei: “Imagine, se vai fazer bem com trinta e cinco, já começa a fazer com trinta”, e comecei a usar. Então, eu gosto muito da linha Chronos. Da Musk, porque me leva lá no comecinho de tudo, aquele cheirinho, então eu gosto muito do Musk, da linha Sr. N, talvez porque esse cheirinho, talvez, me lembra o tempo que eu trabalhava assim e achava aquele cheiro gostoso, né. Mas, na verdade, de tudo eu gosto, de todos os produtos da Natura, eu procuro usar tudo.


P – E como que é a sua relação com os colaboradores? Você tem contato com os diretores, com os líderes da Natura, com outros funcionários? Como é que se dá esse convívio entre vocês?


R – Todo mundo tranquilo, os diretores assim em festa, às vezes, nos corredores, eles visitam as fábricas, né? Há dois meses atrás, o Pedro, ele foi nas fábricas, a gente apresentou os indicadores para ele, né, e eu não sei, é muito bom, são os donos da Natura e estão ali, simples com a gente. E cumprimentam, beijam a gente, a gente fala assim: “Não vou lavar o rosto” (risos), essas coisas assim, convívio tranquilo.


P – A Natura cresceu muito, né? Desde que você entrou.


R – Nossa, muito, muito.


P – Como é que você sente isso? O que isso modificou a sua vida?


R – Eu acho que veio, assim, da primeira empresa, que era tudo muito pequenininho, a gente perdeu um pouco. Porque lá a gente tinha contato com todo mundo, você abria uma porta, você estava no setor da maquilagem, ia para o setor de cremes, tudo e aqui as fábricas são muito grandes, são afastadas, às vezes você passa o dia inteiro, semanas e não vê uma outra colega que trabalha em uma fábrica diferente. Se não calhar assim na hora do almoço, se você não for visitar na outra fábrica, você termina passando um tempão sem ver as pessoas. Mas é gostoso também, se vê na fila do restaurante, “oi Cida” e abraços, “Como você tá, tudo bem?”. Essas coisas, gostoso de reencontrar as pessoas. E que trabalha, você fala isso fora e as pessoas não acreditam, trabalha na Natura e que você pode passar uma semana sem ver uma pessoa por ser tão grande, mas aí, nas festas, a gente se encontra, nos cursos, nos treinamentos.


 P – Cida, o que você conhece da filosofia, dos valores e da visão da Natura?


R – As crenças e valores da Natura, né? Me identifico, com as crenças, assim, das pessoas conviverem num mesmo ambiente, são pessoas diferentes e conviverem assim tão tranquilo, nossa! Tanta gente, tantas pessoas diferentes, ideias diferentes de vida assim e todo mundo convive tão bem, a diversidade, de tudo isso, a gente termina aprendendo muito com tudo isso. A valorização, de ser valorizado. Esqueci um pouco.


P – De que forma essa visão que a Natura tem, esses valores, eles permeiam a sua vida, de que forma você coloca isso no seu... Como que isso te ajuda a te transformar? Ou te ajuda, não ajuda?


R – Ajuda sim, ajuda bastante. Quando você fala que tem as crenças e valores e lá eles falam de humanismo, de você crescer, dessa coisa de você estar sempre buscando o que é melhor para o ser humano. Eu falo que numa empresa onde o meu PGB, eu me comprometo com o meu gerente, que eu vou pensar no meu bem estar, que eu vou fazer algo que eu goste, que eu vou fazer caminhadas, ou que eu vou ter um lazer melhor, é incrível essas coisas, né, porque as empresas não veem muito esse lado, não estão nem aí na verdade, para essas coisas e aí no seu PGB tem lá uma parte, que você precisa se comprometer com isso, que você vai se cuidar. A Natura quer você com saúde, quer você, seu bem estar e seu estar bem, você com os outros e você consigo mesma. É incrível!


P – E você acha que você se compromete com seu bem estar, estar bem?


R – Ah! Sim, de pensar um pouco mais no meu lazer, de fazer caminhadas, então eu gostava disso e me comprometi no meu PGB e agora duas, três vezes por semana eu caminho um pouco, faz bem para mente, faz bem para o corpo. Essa coisa de se cuidar, de você querer estar bem, você não precisa ser magra, ser bonita, mas estar bem com você mesma. Então, essa parte assim, que poucas empresas valorizam e que a Natura leva isso tão a sério e cobra da gente, que a gente leve também, porque ela sabe que isso vai me fazer um ser humano melhor. Eu aprendi tanta coisa, é difícil falar assim, mas eu aprendi tanta coisa, é incrível, tanta coisa que você tem e você vai incorporando isso no dia a dia, dos treinamentos. Eu costumo pensar assim, que sempre que eu passo ali naquela ponte indo para o NAM, quando eu voltar, eu vou ter aprendido algo novo porque os treinamentos, às vezes, nem é treinamento, uma exposição que a Natura coloca lá, faz uma exposição para os funcionários e tudo, mesmo que não seja um treinamento, você está indo lá conhecer uma coisa nova, que a Natura está fazendo isso para os funcionários e que, talvez, jamais eu iria ver uma exposição igual àquela, que foi colocada aqui, do Macunaíma. Tinha umas fotos também que eles colocaram muito bonitas, de pessoas simples lá de onde vem todas essas coisas, os frutos que eles fazem para fazer o xampu, fazer essas coisas, as pessoas lá no seu...


 P – No seu modo de vida.


R – No seu modo de vida assim, naquela simplicidade. Você fica olhando e aquilo te leva e assim, eu fui lá e me emocionei muito, porque aquilo me levou para alguns anos da minha vida, quando eu era pequena, aquelas coisas assim. E que só a natura mesmo, só a Natura.


P – Cida, o que você conhece do Brasil além do... O que você vê sobre esse país que a gente vive?


R – Eu acho que um país lindo, que tem tudo, tem tudo para viver bem, as pessoas que vivem aqui dentro, se algumas empresas fossem assim socialmente responsáveis, como é a Natura, seria um lugar assim excelente para se viver, de uma beleza incrível. E lugares lindos, né, coisas que tem na natureza, que daria para as pessoas sobreviver numa boa, no seu local onde você nasceu e preservar tudo aquilo, e as pessoas não pensam nisso e que está se perdendo. As pessoas vindo assim, do interior para cidade grande, se perderem aqui, se tornar uma pessoa que vive na rua, essas coisas assim, que é algo que falta lá. Aquilo que minha mãe, que meu pai tomou uma decisão de vir para cá pensando numa coisa melhor, pensando numa vida melhor, essas pessoas vêm com esse sonho e não é. Se há trinta anos atrás não era fácil, agora então, pior ainda, aí você vê essas pessoas na rua, às vezes querendo voltar para cidade deles e tem tanta coisa lá que eles poderiam fazer, que é um trabalho muito bonito, que eu acho, o da Natura, essa questão da sustentabilidade.


P – Fala um pouco disso, você acha que por meio da sustentabilidade a Natura está valorizando o que é do Brasil?


R – O que é do Brasil, as pessoas que convivem naquela região, que conhecem tudo, ficar no lugarzinho deles, porque é tudo que eles querem, ter o seu retorno para trabalhar e ter um retorno para sobreviver lá e não precisar sair de lá para vir para uma cidade grande, que eles não sabem nada, não tem como sobreviver aqui, aí termina virando indigente assim, pessoas tristes, às vezes até consegue alguma coisa, mas aí eles ficam muito tristes. Eu acho a minha mãe muito mais alegre hoje, que ela voltou assim para o...


P – Para lá?


R – Para lá. Ela volta muito alegre para cá, então ela fica com a gente no Natal, mas não mais que isso e volta rapidinho, mas se tornou uma outra pessoa, aqui ela era muito triste.


P – Você acha que se na época, quando você era criança, lá tivesse programas de desenvolvimento sustentável, sua vida teria sido diferente?


R – Ah! Com certeza, minha mãe não teria vindo para cá, eu falo minha mãe porque ela que insistiu mais, que meu pai, ela não teria vindo. Aí seria outro completamente, meu futuro seria outro.


P –  Que você acha que a Natura, é? Agora a Natura está na América Latina inteira, né, eu queria que você me respondesse duas perguntas, uma é assim: o que você acha da latinidade da Natura, a Natura no Peru, na Argentina, no Chile, na Bolívia, na Colômbia, e se você acha que ela é uma empresa verdadeiramente brasileira, se ela consegue levar isso para fora?


R – Ah! Sim, que ela é brasileira, isso eu não tenho dúvida nenhuma.


P – Mas o que, na sua opinião, dá essa identidade, por que ela é diferente por exemplo de uma empresa?


R – Acho que só pelo fato dela valorizar as coisas do Brasil e criar esses projetos para ajudar essas pessoas, com a sustentabilidade, já mostra que ela está preocupada com o Brasil, que ela é uma empresa brasileira e, com certeza, vai levar todas essas coisas boas que a gente tem para muito longe e se tornar a número um de cosméticos aí no mundo.


P – E o que você acha que a gente tem para revelar para o mundo?


R – A gente tem muita coisa, muitas coisas, do povo brasileiro, da cultura, dos produtos, enfim, nossa, muita coisa.


 P – O que é beleza para você? O que é estar bem, ser bonito? Você tem algum conceito, o que é?


R – Eu acho que ser bonito é você estar em paz com você mesmo, você se olhar no espelho e dizer assim: “Tem pessoas com uma aparência melhor, mas eu sou mais eu, eu tô bem, sou feliz”. Sabe essas coisas assim, não é aquilo, dizer: “Ah! Eu tenho que ser magrinha, tinha que ter cabelo assim, tinha que ter uma cor assim”. Não é nada disso. Eu acho que o estar bem é isso, é você olhar no espelho e dizer: “Eu me amo do jeito que eu sou, estou bem do jeito que eu sou”.


P – E agora, quais são seus sonhos, quais são seus próximos desejos? O que você espera do futuro?


R – Ah, do futuro! .... eu.... depois de tanto tempo que eu parei de estudar, eu estou voltando, espero aprender muitas coisas, eu sempre falei para o meu pai que eu iria fazer uma faculdade, nem que fosse depois que eu me aposentasse, porque aí é mais tranquilo. E, assim, com ajuda, né, com ajuda da Natura, com a bolsa está sendo tranquilo para mim, estar fazendo isso esse ano, eu pretendo estudar e crescer.


P – Você teve algum momento muito especial aqui dentro da Natura, que tenha sido um grande marco na sua história na empresa?


R – Eu acho que foi, assim, vir, ser escolhida, vir para cá, vendo essas coisas do SAP e tal, para mim foi muito importante. É ...quando eu recebi a notícia, que eu passei no teste também de líder, para mim isso foi muito bom, eu fiquei muito feliz. Ah, e o meu jantar de quinze anos também de Natura.


P – Jantar de quinze anos?


R – Jantar de quinze anos, tem todas as fotos lá, de cinco anos, de dez anos, de quinze anos.


P – Você ganhou algum presente?


R – Ganhei, ganhei uma caneta linda, um broche também, uma placa assim de prata assim com meu nome, escrito quinze anos. Está tudo muito guardado, as fotos ficam lá e eu tenho assim um orgulho muito grande de falar: “Esses são os patrões, são os donos da Natura e eu estou aqui no meio”. E estou aguardando aí os vinte anos.


P – Que vão chegar?


R – Que vão chegar o ano que vem. Na verdade, é esse ano, só que como eu conto assim a época de agência e eu fui efetivada. Ah sim! Teve uma coisa muito importante, quando o Celso me chamou para dizer que eu tinha sido efetivada, eu , literalmente, dei uns pulos na sala, que nem criança mesmo e dei um abraço nele.


P – ___ foi um marco?


R – Para mim, nossa, ser efetiva. Lá tinha algumas pessoas que tinham sido dispensadas e eu estava com aquele receio, né, e ele me chamou e falou que eu fui efetiva, eu fiquei muito feliz. Eu sou muito assim, eu feliz eu abraço todo mundo. Acho que é um jeito que você tem de passar aquilo, acho que você consegue beijar alguém que você não gosta, mas, abraçar alguém que você não gosta, você não consegue. Então, quando eu estou feliz ou se é alguém que eu goste, eu quero abraçar, eu quero passar essa energia, eu quero transmitir isso. E quando o Celso falou para mim, para eu trazer meus documentos, que eu ia ser efetiva, ah! Eu abracei ele, dei um abraço nele, dei uns pulos na sala, meio que coisa de criança assim, meio infantil.


P – Cida, tirando a Natura, como é sua vida, o que você gosta de fazer, como é a vida com seus filhos?


R – Com meus filhos, a minha filha tem dezessete anos, a Aline e as pessoas falam que, quando a gente adota uma criança, a gente não consegue, a gente gosta mais do que dos filhos. Eu tenho um carinho muito grande por Aline assim, eu não consigo... Aline fala assim para mim: “Mãe, você já chega me chamando, já abre a porta da sala assim ‘Aline, onde você está, Aline’”. Porque eu tenho um carinho muito grande, eu escolhi a Aline, eu vi aquela criança, que, na verdade, foi meu marido que viu ela pela primeira vez e a mãe dela estava dando ela, e aí ele chegou em casa e me contou essa história e eu achei aquilo assim, meu Deus! Né? Você dá um gatinho, um cachorro, mas uma criança! Eu falei para o Fernando, eu estava saindo de férias da Natura, a gente ia passar as férias no Rio e isso foi numa sexta, no sábado ele me contou essa história, aí eu falei para ele: “Eu gostaria de ver essa menina e tal”. Aí ele falou: “Eu vou buscar, vou buscar ela porque a mãe dela está dando, se ela passar um domingo comigo, uma semana ela vai dar assim tranquilo”. E ele foi, acordou cedo no domingo e foi buscar, quando chegou assim, meio assustadinha ali, ela olhou para mim, ela abraçou o meu pescoço com tanto carinho, meio que soluçou assim e ficou agarradinha comigo e naquele momento eu senti que não ia dar mais para ficar sem a Aline, não ia dar mais. Ela chamava Roberta e eu achei um nome muito pesado para aquela criança tão frágil, magrinha, e eu falei para o Fernando e ele falou: “Cida, a mãe dela falou que se você não fosse ficar, que é para você devolver ela às cinco horas da tarde, porque uma outra pessoa vai olhar, vai dar uma olhada nela, para ver se fica”. E eu não sei, eu achei tudo tão errado, e aí na hora do almoço eu fiz sopinha para ela, dando sopinha e tudo e na hora do Fernando levar, eu não consegui mais, eu não consegui deixar. Ele falou: “Cida, nós vamos viajar amanhã, nós vamos viajar para o Rio e como é que vai ser?”. Eu falei: “Mas a gente não viaja mais, sei lá. Até porque a gente vai ter que comprar as coisas dela e tudo”. Ele falou: “Mas eu quero viajar”. Aí eu falei: “Então você pode viajar, eu fico aqui, cuido da Aline, na, na”. E ele voltou lá e foi falar com a mãe dela: “Olha, a minha esposa vai ficar com ela uns tempos”. E ela falou: “Não, se for ficar com ela tem que ficar para sempre, porque três pessoas já devolveram, então se devolverem mais uma vez, vocês não vão me encontrar aqui, porque eu vou embora”. Aí o Fernando chegou e eu falei com o Fernando: “Você fez errado, porque você deveria ter dito que a gente vai ficar”. “Cida, mas você é louca você vai ficar com a filha dos outros assim e tal”. Eu falei: “É, não dá mais para devolver, então eu acho que a gente tem mais é que cuidar dela e criar, tal”. E ele, aí, procurou ela e foi no juizado, tinha uma assistente social na Natura e eu fui me aconselhar com ela o que eu deveria fazer, e ela, assim, me orientou e falou: “Olha Cida, se realmente você quer, pensa direito, mas faz tudo direitinho, vai no juizado, leva essa pessoa lá, porque ela pode se arrepender e você já está apegada à criança e pode ser que daqui a um ano, dois ela veja a criança forte, ela tinha vários problemas de saúde, e quando ela estiver sadia, eles vão querer tomar, aí você vai sofrer muito”. Me orientou, tudo. A gente foi no juizado e aí deu tudo certo. Quando eu completei vinte e nove anos, também no meu aniversário eles me deram o documento da Aline, porque antes era um termo de responsabilidade, que a gente tinha, depois eles deram o documento dela, que foi um presente, algo que marcou também.


P – E a Aline conhece essa história?


R – A Aline conhece, a psicóloga me orientou assim, dos cinco anos, sete anos, é a melhor data, é a melhor época para você estar contando essas coisas, a criança, ela vai te ouvir e não vai fazer aquele drama todo. Então, nessa época assim, a gente foi contando aos poucos e ela encarou numa boa, tranquilo para Aline. E, assim, eu não sei, eu tenho muito carinho mesmo com a Aline, talvez porque ela seja a filha da família assim e tal, eu tenho os dois meninos, mas a Aline foi, marca muito. Meu pequeno, o Felipe, também, eu queria muito ter um segundo filho e, como eu achei que não ia acontecer, eu adotei a Aline, mas depois eu engravidei do Felipe e foi muito feliz, fiquei muito, muito feliz, acho que o Felipe me trouxe muita coisa boa, então eu falo assim: “Meu pequeno”. Aí o meu maior fala assim: “Ai mãe, pequeno, já está um rapaz e a senhora fala pequeno até parece que ele tem dois anos de idade e tal”. Eu falava para o Felipe assim, até foi mais por isso, que eu resolvi voltar a estudar, eu falava para ele: “Eu preciso esperar um pouco o Felipe crescer e eu não tinha notado que o Felipe já estava tão grande e aí ele falou para mim: “Mãe, mas eu já estou grande”. Eu falei: “Filho, quando você crescer, eu vou voltar estudar, porque aí você não vai sentir tanto a falta da mãe, você vai estar em casa e tal”. Ele falou: “Mãe, a senhora já pode voltar a estudar, porque eu já estou grande, eu já sei me cuidar”. E coisas assim, e daí eu comecei observar e ver que o Felipe realmente já tinha crescido, já ia fazer doze anos, eu falei: “Nossa, é verdade, eu acho que agora eu posso voltar a estudar, ele não vai sentir falta, não precisa tanto que eu esteja ali”. Porque eu tenho meu tempo, eu trabalho de manhã e à tarde eu ficava em casa, ia buscar ele na escola, ia nas reuniões e achava isso importante, mas agora ele já está tão grande que eu não preciso mais ir buscar ele na escola, não preciso mais estar fazendo, colocar janta para ele, almoço, ele fala assim para mim: “Mãe, pode deixar, eu coloco minha janta”. Que assim, minha mãe sempre teve esse costume, de sentar todo mundo e ela colocava a janta de todo mundo, almoço nos pratos, esse hábito e eu também tinha esse hábito, agora meu filho não quer mais que eu coloque, ele fala: “Não mãe, eu coloco minha janta”.


P – Cida, o que você gosta de fazer, você tem algum hobby?


R – Eu gosto de pintar, gosto de pintar cerâmica, fazer esses bichinhos assim com massa de, pintura de cerâmica assim para quarto de bebê. Eu fiz todas as coisas do quarto do meu filho, quando eu estava grávida dele e do Felipe e, depois disso, eu percebi que isso me fazia muito bem, fazer essas pinturas e fiz durante algum tempo, aí ganhei algum dinheirinho também, mas depois parei. Mas eu gosto muito de pintar, em tela também algumas coisas, gosto muito de pintar serras, acho que eu lembro da fazenda do meu avô que tinha muitas serras assim do lado. Pintura, caminhadas assim, quando eu estou meio estressada eu caminho bastante, gosto muito de loja de bebê, acho que tem uma energia tão boa nas lojinhas assim que vendem coisas de bebê, energia das pessoas que estão chegando, parece que uma criança, uma vida nova que está ali e mesmo sem estar ainda interagindo nesse mundo já traz energias boas. Então eu vou nas lojas, quando eu estou meio assim, eu passo e vou, entro numa loja, fico olhando as coisas. Sempre as vendedoras falam: “Posso ajudar?”. Eu falo: “Olha, é para um chá de bebê, mas eu ainda não sei se é menina ou menino, eu estou só dando uma olhada”. Mas fico lá, olho tudo e saio, quando eu percebo eu já estou tranquila, calma de novo. É como se fosse uma terapia assim.


P – Bom, o que você acha da Natura querer conhecer a história de vida das pessoas?


R – É uma forma deles irem a fundo com as pessoas que estão aqui no dia a dia, que conhecem um pouco da história deles, da história da Natura e, às vezes, eles conhecem um pouco, mas não conhecem o suficiente. É bem a cara da Natura mesmo fazer essas coisas, eu não sabia dessa nova da Natura querer saber da vida das pessoas, de fazer o que eu estou fazendo.


P – E o que você achou?


R – Eu achei uma boa.


P – Você gostou de dar entrevista?


R – Gostei, gostei de estar aqui. Não sei como que vai ser na hora de tirar fotos, mas da entrevista gostei, estar falando aqui da minha vida, de repente as pessoas verem: a Cida é líder, e saber da minha história, tudo como se passou, como que as coisas aconteceram para que eu estivesse aqui na Natura tanto tempo.


P – Você me disse que você é consultora também, há quanto tempo você é consultora?


R – Dois anos e meio.


P – Então tá bom, aí se a gente for conversar sobre a consultora eu vou voltar, hoje eu vim conversar com a colaboradora Cida.


R – Tá bom. (risos)


P – Eu queria te agradecer pela paciência de você ter me atendido e dizer que foi um grande prazer ter ouvido a tua história.


R – Que bom.


P – Estado uma horinha, duas horinhas com você.


R – Para mim foi um prazer, aqui. Eu sou um pouco tímida então tem algumas coisas que eu enrolo, mas falar da Natura é muito bom, eu tenho quarenta e quatro anos, vinte anos da minha vida está aqui, tem muitas coisas que você me perguntou aí, uma das coisas que marcou muito a minha vida, eu tinha muito sonho de ter minha casa própria e foi uma das coisas que eu comecei, a Natura começou a pagar assim o décimo quarto e eu falava assim: “Esse dinheiro não existe para mim, então esse dinheiro vai para um outro lugar, porque é o jeito de eu comprar o meu terreno e tudo”. E comprei, construí minha casa, eu olho assim para minha casa e ali tem muito da Natura, de tudo que me ajudaram, de tudo que eu trabalhei aqui, minha casa própria que é o sonho de tanta gente.


P – Bacana. É isso aí Cida, eu adoraria te perguntar muitas coisas, mas tem uma última pergunta só. Quantas pedras você tem?


R – Nossa! Eu devo ter umas quinhentas pedras, mas eu acho que eu tenho mais. Da última vez que eu contei, eu tinha quatrocentos e sessenta, hoje tem um colaborador que falou: “Cida, eu estou saindo de férias segunda e vou trazer uma pedra para você do Rio Tietê, que passa na minha cidade e que lá é tão limpinho, que se você quiser beber água você pode beber, do rio Tietê”. Esse nosso rio aqui, que é tão poluído. Eu falei: “Eu gostaria muito e que se você trouxesse tudo para mim saber de onde veio aquela pedra”. Eu acho que eu devo ter mais ou menos umas seiscentas.


P – Você organiza as pedras?


R – Organizo.


P – Você sabe de onde são, quem deu tudo?


R – De algumas sim, de onde que veio, quem me deu, outras eu fui comprando nessas lojas assim de pedra, então eu entro e fico horas assim lá dentro e acabo comprando algumas pedrinhas. Eu falo: “Esse tom de verde eu não tenho, esse eu vou levar”. E às vezes eu fico lá brincando com as minhas pedras, jogo tudo em cima da cama, separo por tom, pelas cores, arrumo tudo de novo, coloco de volta.


P – A menina das pedras coloridas!


R – É (risos)


P – Obrigada Cida.


R – De nada.

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