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História

Desde que eu nasci eu me conheço

História de: Lala (Maria do Rosário Martínez Corrêa)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/12/2012

Sinopse

A história de Lala nos leva lá pro interior da capital paulista, pra cidade de Araraquara, onde nasceu, passou a infância e a juventude e da qual tem memórias muito vivas da brincadeiras de pequena, dos bailinhos e do clube da adolescência. Tinha cinco irmãos, sendo o mais conhecido, o dramaturgo Zé Celso. Lala fez Belas Artes, mas no quintal de casa ela e o irmão já faziam teatros desde moços. Já na capital estudou também Decoração, e mais tarde prestou concurso e trabalhou na Secretaria de Educação. Mais tarde, de uma viagem para a Amazônia trouxe histórias incríveis e novos rumos para a vida. Suas tramas políticas e sociais foram muito diversas; ainda fez faculdade de Pedagogia, esteve envolvida em momentos importantes de aberturas de bibliotecas e outras áreas culturais. Passou um tempo internada, tomou eletrochoques. Muita coisa aconteceu na vida de Lala, de modo que sua vida cruza de várias formas a história do Brasil.

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História completa

P/1 –Lala, você pode começar falando o seu nome completo, o local e a data de nascimento?


R – Maria do Rosário Martinez Corrêa. Nasci em Araraquara, estado de São Paulo, 13 de outubro de 1939.


P/1 – Seus pais são de Araraquara?


R – O meu pai nasceu em Araraquara e minha mãe em Guariba.


P/1 – E seus avós, maternos e paternos?


R – Meu avô materno é de Vigo e minha avó, italiana, de Verona; e paterno, meu avô, português, perto de Coimbra e minha avó brasileira, cabocla.


P/1 – E seus avós vieram pro Brasil, tanto materno quanto paterno, por quê?


R – Bom, o meu avô veio escondido no navio (risos) ele, da Espanha, pela guerra e que ele tinha os pais velhos e ele tinha que sustentar ainda, mandar algum dinheiro, alguma coisa para eles. E ele veio com um irmão, ele veio eu acho que com dez, 11 anos para cá e ele era marceneiro – quer dizer, começou o ofício aqui – fez uma marcenaria; ele que criou a cama patente.


P/1 – É mesmo, onde que ele criou essa marcenaria?


R – Em Araraquara e aí o irmão dele em São Carlos. Os dois criaram uma família bem grande. E tanto o meu avô casou com uma italiana, como o irmão dele também, só que em São Carlos. E os dois fizeram marcenaria. O de São Carlos tinha uma casa que era o centro da marcenaria e em volta todos os filhos, o quarteirão inteiro era filhos e o centro era a marcenaria. Quer dizer então, também uma brincadeira de criança brincar com madeira. A gente não tinha os brinquedos prontos, a gente construía brinquedos.


P/1 – Como é que os seus pais foram parar em Araraquara, você sabe como o seu pai conheceu sua mãe?


R – Minha mãe morava já em Araraquara, nasceu em Guariba, mas já foi logo para Araraquara, eles foram morar lá. E o meu pai era de lá, né? Só sei que ele era amigo do irmão da minha mãe. Só que naquela época não podia nem chegar perto, namorar, nem nada. E ele gostou da minha mãe e ele mandava uns livros para minha mãe, para ela ler e ele riscava o que ele queria que ela soubesse (risos). E quem lia primeiro era o irmão dela. Ele lia primeiro, fazia a seleção (risos) se ela podia ou não ler, então ela lia. Aí então ele fez o pedido pro meu avô de casamento, essa coisa. Então ela falou que ela ia pensar (risos) que não podia também falar assim que ela gostou dele, gostava dele (risos), mas não podia falar. Então ela fez uma novena; e quando tava acabando a novena ela pode falar sim. E até ela ouviu aquela música O Carinhoso e ficou assim sendo a música dela com ele, ela gostava muito dele. Daí ela soube que ela tinha outros pretendentes, mas o que ela gostava mesmo era dele (risos).


R – Aí ela escolheu ele?


R – Escolheu ele.


P/1 – Aí começaram a namorar, casaram?


R – Namorar naquela coisa que ficava o meu avô, minha avó tudo junto (risos). E aí logo eu acho que casaram.


P/1 – Em que lugar de Araraquara que eles moravam, é onde você nasceu?


R – Olha, a casa onde a gente foi morar já era do meu avô e nós sempre, nós nascemos na casa. Quer dizer, ali o único que não nasceu na casa, nasceu no hospital foi o mais novo, que era o Luís, o resto todo mundo. A casa tem até hoje lá em Araraquara, porque tenho um irmão que é arquiteto, ele reformou a casa e tá morando lá uma sobrinha minha.


P/1 – E em quantos irmãos vocês são?


R – Nós éramos seis, agora nós somos cinco.


P/1 – Como que é o nome do seu pai e da sua mãe, primeiro?


R – Jorge Borges Correia e minha mãe, Ângela Martinez Correia.


P/1 – E vocês são em seis, qual que é o mais velho?


R – O mais velho é minha irmã, Maria Helena; depois vem a Ana, Ana Maria; depois vem o Zé Celso; depois sou eu; depois tem o João, João Batista e depois vinha Luis.


P/1 – Vocês seis moraram nessa casa?


R – Nós moramos nessa casa.


P/1 – Como é que era essa casa?


R –  A casa tinha mais quintal do que casa. Ela era assim comprida, né, ela tinha janelas bem assim – eu tenho até fotos em casa – era a janela bem na calçada e o portão. Depois abria assim do lado, tinha um canteiro que ia até o fundo, um quintal. E quando minha mãe casou, uma amiga dela foi em casa e plantou manacá, porque disse que dava sorte, um pé de manacá, dois pezinhos de manacá que tão lá até hoje, e depois tinha uma mangueira. Na época que reformou a casa meu pai não quis mexer na mangueira, então ele desviou e a casa só foi comprida. Cada filho que nascia fazia mais um quarto (risos) para deixar todo livre lá o canteiro e o quintal. Minha mãe preferia que a gente brincasse no quintal – porque ela não gostava que a gente brincasse na rua – então a gente ficava brincando no quintal. Chamava vizinho, tudo e ia tudo lá pro quintal.


P/1 – E quais eram as brincadeiras de infância?


R – Várias, né? Em casa tinha um balanço, desse balanço que tem banquinho assim um em frente ao outro. Então o Zé ficava falando que era um navio, que nós estávamos viajando e nós estávamos chegando em Bagdá, nós estávamos chegando (risos) não sei aonde e a gente ficava viajando nessas coisas todas. Outra brincadeira fazia teatro, circo, a gente fazia teatro de sombra com pano e uma vela atrás dos bonequinhos, desenhava, fazia os bonecos e tudo e fazia aquele teatrinho de sombra. Depois tinha circo, só que eu não sabia muita coisa, não; eu não sabia nem trepar numa árvore. Quer dizer, as minhas amigas, que eu queria muito saber subir em árvore (risos) porque eu e o Zé apanhávamos todos os dias da minha mãe porque a gente tava sempre aprontando. Tinha uma empregada em casa, quer dizer, antes de eu nascer ela já tava trabalhando lá; e ela chamava Beata – era Beatriz, mas a gente chamava de Beata – era a nossa mãe negra, né, a nossa segunda mãe. E ela tava quarando as roupas, ela quarava as roupas, ficava aquele negócio, aquelas roupas bem assim no sol depois punha tudo para... E a gente fazia umas brincadeiras – eu num canto e o Zé lá no outro –de barro, a gente brigava e de repente fazia uma luta de bola de terra (risos).


P/1 – (risos)


R – E sujava tudo. Quando ela deixava doces lá, assim, aquele doce de laranja tudo secando, a gente passava (risos) e ia comendo os doces. Quer dizer, tava sempre aprontando atrás dela e ela ficava ralando coco para fazer cocada e essas coisas e a gente ficava os toquinhos, ela guardava para gente os toquinhos de doce. E, na época, o que tinha em casa era um fogão de lenha, porque fazia, o café era torrado em casa; e também, às vezes, matava porco que vinha do sítio, não sei o quê, fazia linguiça e o trabalho das crianças era, com um alfinetinho, ficar furando a linguiça (risos). E o que mais que tinha lá? E festas, todas as festas de aniversário sempre comemorava; como era muita gente que fazia aniversário, todo mês praticamente tinha (risos) festa de aniversário e tudo. E minha mãe tinha uma amiga que era doceira que era vizinha ali, então ela fazia os doces, mas minha mãe também fazia. Era cabecinha de negro, cocada; e ela fazia um bolo e enfeitava, tinha um glacê daquele glacê bem molinho, fazia as rosinhas no bolo, tudo. Minha mãe já fazia uns canudinhos de massa de pastel e recheava com camarão, com um monte de coisas assim. E doce de banana que fazia, que é um doce de banana que hoje é difícil você encontrar; ele saía avermelhado, que era feito lá naquele fogão de lenha nos negócios enormes. Fazia sabão em casa também e punha tudo lá para secar no quintal. A gente plantava também, tinha tomate; só que era outro gosto da comida assim, era, tomate de você pegar fresquinho ali era outro gosto.


P/1 – Quê que seu pai fazia?


R – Meu pai tinha uma escola, a primeira escola noturna da cidade de Contabilidade. E a paixão dele era cinema, então ele alugava filme, passava para gente, mostrava como é que formava a imagem. Depois ele passava o filme, parava o filme, mostrava de trás para frente para ver como é que era, a gente ficava observando assim a imagem. Tinha um filme que a gente era apaixonado, era um desenho da Gata Borralheira que era, eu acho que era alemão esse filme; era um recorte de papel e ficava um teatro de sombra. Então ele recortava tudo, saía os bonequinhos todo do papel, preto e branco.


P/1 – Onde ele projetava esses filmes?


R – Era filme de 16 milímetros a máquina dele e ele projetava em casa ou num lençol, qualquer coisa; ou então, na maior parte das vezes, ele apresentava mesmo na rua, projetava no muro do vizinho.


P/1 – Enchia de gente?


R – Enchia de gente tudo para ver (risos).


P/1 – Que bacana. E quem que exercia autoridade assim na sua casa, como é que era lá assim?


R – Minha mãe era assim: “O seu pai falou isso, o seu pai falou”; falou nada (risos).


P/1 – (risos)


R – E meu pai ele era muito assim meigo, era assim, ele não falava alto, falava baixinho. E só de olhar a gente sabia, a gente respeitava tudo. Agora minha mãe já era mais (risos): “Você fez isso, você fez aquilo” (risos). Uma vez, na segunda série, eu tomei bomba; foi a única da família que tomou bomba porque todos passavam assim, primeiro lugar, não sei o quê, eu tomei bomba na segunda série (risos). Tomei bomba, fiquei em Latim, Matemática e Inglês. Então meu pai falou assim: “Você tá esperando algum castigo que eu vou te dar? Você já tirou, já tem o seu castigo; você vai ficar atrasada, suas amigas vão lá para frente e você só vai sair da escola a hora que você se formar (risos), você acabar. Quanto mais tempo você ficar tomando bomba aí (risos) você fica, você fica quanto você quiser (risos)”. Aí eu não queria ficar muito na escola, né?


P/1 – Com quantos anos você entrou na escola?


R – Com cinco. E as coisas que eu gosto hoje são as que eu gostava quando eu tinha cinco anos porque eu tive professoras ótimas assim de prézinho, jardim, né, jardim da infância que chamavam. Tinha pintura; eu lembro assim até a sensação do pincel, que a gente tinha pintado o mar, né, e era azul cobalto. Uma tela, a gente chegava lá, tumtum, fazia assim e ia embora; então eu tenho até hoje a sensação daquele pincel daquela cor. Fiz também um negocinho desse tamanhinho assim para minha boneca, um tapetinho em tear de preguinho. E a gente também fazia uns negócios no papel. Por exemplo, ela desenhava uma maçã, a gente fazia o alinhavo e depois pintava, né, umas coisas assim. E fazia desenho, pintura. Lembro uma vez que a professora falou assim: “Quê que você desenhou aí para eu escrever?” Eu falei: “Não tá vendo (risos)? É uma casa de formigas (risos)”.


P/1 – (risos)


R – Quer dizer, eu achava que, imagina para que escrever, né, já tava, já tinha feito (risos).


P/1 – Tava evidente?


R – (risos)


P/1 – Como que você ia para escola, era perto da sua casa?


R – A gente ia andando, a empregada levava a gente, qualquer coisa assim, né?


P/1 – Ia junto com os irmãos, vocês iam na mesma escola?


R – É, nós frequentamos sempre a mesma escola, era o Colégio Progresso de Araraquara, que era assim um colégio feminino. Quer dizer, até o primário era misto, depois as meninas ficavam no colégio e os meninos iam pro ginásio na outra escola.


P/1 – Vocês tiveram, você teve algum tipo de educação religiosa lá?


R – Ah, o Colégio tinha; um horror (risos). Aí então era assim: primeira aula um coraçãozinho branco, a alma livre de pecado; depois um coraçãozinho tudo pintado, já tinha feito alguns pecados.


P/1 – (risos)


R – Depois um coraçãozinho preto já ia pro inferno. Daí cheguei em casa chorando.


P/1 – Mas tinha quem fazia esse (risos)?


R – Não, aparecia lá, sei lá, ela fazia, punha lá (risos). Cheguei em casa chorando porque tinha certeza que já tava no inferno (risos).


P/1 – (risos)


R – (risos) Não ia sobrar nada (risos). E uma vez eu ganhei também um diabinho da minha avó (risos).


P/1 – (risos)


R – E levei ele na missa e pus no bolso; aí quando eu fui – tinha que dar uma moedinha para pôr naquela sacolinha – aí eu fui tirar, o diabinho me arranhou (risos). Eu falei: “Acho que é o diabinho que ta me arranhando (risos); deixa eu tirar a mão daí”.


P/1 – (risos)


P/2 – Mas a sua família era religiosa ou não?


R – A minha mãe era, muito; meu pai seguia, né, assim mais por ela do que outra coisa. A minha mãe, sim. Aí então eu cheguei até a ser da Irmandade lá do Coração de Jesus; mas aí também tinha os motivos que eles falavam assim (risos): “Quem comungar nove primeiras sextas-feiras é certeza ir pro céu”. “Então vou garantir (risos)”.


P/1 – (risos)


R - Depois era assim, a gente podia ir na fila, em vez de ir na procissão com o povo você ia com aquela medalhinha você ia na fila. E era melhor assim porque a gente ficava flertando: “Olha, para você ta aí na esquina” (risos), a menina da frente falava; então a gente já ia fazendo folia assim na coisa. E minha irmã tocava, minha irmã mais velha tocava na igreja, tocava órgão nas rezas. Tinha aquele mês de Maio que era todo cheio de coisa e a minha irmã tocava, mas ela também porque ela ia namorar, porque ela namorava escondido (risos). Tinha umas coisas assim que... E outra coisa era ser anjinho, né, eu fui anjinho também, fui anjinho azul. Só que eu não me sentia muito bem, eu falava assim: “Não tô me sentindo um anjo, eu não vôo (risos)”.


P/1 – (risos)


R – “Uma hora esqueço a asa”. Ficava, fazia papelote, você ficava com aquele papelote assim o dia inteiro com aquele papelote na cabeça para depois tirar. Quando soltava, ficava os cachinhos, mas logo alisava tudo (risos).


P/1 – (risos)


R – Não parava muito, então não sentia muito anjo. E aí a minha irmãzinha, tinha uma irmã, a outra irmã que eu não conheci, chamava Maria José, ela morreu com um ano e meio; quer dizer, era depois da Ana, antes do Zé. E diz que ela saiu de anjinho, depois ela voltou da procissão doente e morreu logo, teve colite bacilar; na época, como não tinha os remédios, ela morreu. Então a vida inteira eu ficava assim achando que ela tava me gozando (risos), que a menina tava porque a minha mãe falava assim que eu não tinha os cachinhos que ela tinha, eu não tinha não sei o quê.


P/1 – Ela falava, a sua mãe?


R – Falava que aquela menina era cheia de cachinho, o meu cabelo era liso. Aí depois eu falei assim: “Bom, quando eu fui de anjinho eu era para coroar a Nossa Senhora, os anjos azuis iam coroar a Nossa Senhora”. Aí deu um revertério lá, mudaram, puseram os anjos cor de rosa e o azul ficou só embaixo jogando as pétalas; aí eu fiquei louca da vida, chorei em casa porque imagina, eu queria, daí eu tava superior à minha irmã, né, que minha irmã que gostava de jogar a rosa no meu pai, na minha mãe: “Viva o papai, viva a mamãe”, né? Então eu (risos) de anjinho não deu muito certo (risos).


P/1 – E na sua adolescência, como é que era Araraquara nessa época?


R – Bom, a gente tinha, como eu tava muito assim entre meninos, né, e minha mãe tinha uma amiga que, ao contrário, era um monte de meninas que ela tinha, as filhas, as primas, tudo junto. Então juntaram as duas turmas para formar uma turma meninos e meninas, né (risos)? Aí então a gente saía em grupo, muitas vezes, ia para a piscina.


P/1 – Para piscina num clube assim?


R – Num clube.


P/1 – Que clube que era?


R – Clube Araraquarense que tinha lá, a gente ia. E fazia piquenique, uma porção de coisas assim. Eu tive um problema também lá na minha adolescência porque a minha irmã teve um aluno que se deu mal lá na escola, brigou com ela e ele colocou um apelido em mim, né, principalmente, me chamava de jacaré. Então para uma adolescente ser chamada assim era muito ruim. Então eu perdi a confiança assim em todos os meninos da cidade, eu não quis saber; só namorava gente de fora mesmo porque os de lá não queria nem saber mais.


P/1 – Mas Araraquara era uma cidade grande já, como é que era?


R – Não era tão grande, né, depois que foi crescendo.


P/2 – Tinha barzinhos aonde você ia ou era aquela coisa da praça de…?


R – Não, era mais na sorveteria, mais no jardim, mais coisa mais assim. Depois que apareceu, mais tarde que apareceu a primeira Kibelanche (risos) que era uma casa de kibe, foi aparecendo coisas assim depois, mais tarde.


P/2 – O Clube oferecia eventos para vocês?


R – O Clube era meio chato, sabe, porque era assim: tinha três clubes assim, principais. Era o Araraquarense, tinha o 22 e o 27. Então, o 22 era mais estudante, coisa assim; as famílias eram mais do Araraquarense e tinha o 27 que era mais popular. A gente gostava de ir em todos, a gente não ficava nessas coisas assim: “Ai, vou nesse ou naquele” Então, às vezes ia nos bailes, as mães levavam no baile também porque ela ia para ver com quem que você tá dançando, porque, né, aquelas histórias.


P/1 – O que que tocava nos bailes?


R – Ah, depende da época, né? Por exemplo, em junho tocava muito forró, muita coisa assim. Tinha uma música: “Ô morena do molejo bom” (risos); “Cadillac, rabo de peixe, morena, filé mignon”, uma coisa assim, que na época usava uns vestidos assim justos que abria assim (risos). Depois eu peguei aquelas mudanças de moda toda que teve moda-balão, trapézio, eu acho que eu vesti tudo. E a gente tinha mais era costureiras porque não tinha vestido assim pronto; então você ia para costureira e ficava escolhendo os modelos. Aí você pegava um figurino, você via e misturava, “Eu quero esse, com a gola desse, uma coisa daquele”, ficava montando os vestidos, né?


P/1 – Quando que você teve o seu primeiro namorado?


R – Bom, eu me apaixonei quando eu tinha cinco anos (risos).


P/1 – Foi a primeira paixão?


R – A primeira paixão, foi um colega lá de classe; eu cheguei em casa e eu falei: “Olha, tem um menino, ele usa uma botinha, não sei o quê, e tem uns olhos não sei o quê”. Daí eu ia na escola por causa dele, né, só para ver. Mas ele morreu cedo, ele morreu, quando acabou o ginásio ele não ficava muito lá muito com a gente. Depois ele foi voltar quando já tava com 20 e poucos anos, que eu fui ver ele de novo. E ele morreu do coração. Então depois disso eu tive um namorado lá que estudava até na escola do meu pai que eu quase casei com ele e tudo, fiquei namorando uns três anos. Mas a minha irmã estragou tudo, ela foi no cabeleireiro, falou mal dele, não sei o que lá e não tinha nada a ver o que ela falou. Daí ele falou assim: “Bom, para casar eu acho que a gente tem que conviver com família também; se é assim também não quero, né?” Aí eu saí da cidade e vim para São Paulo.


P/1 – Com quantos anos você saiu da cidade?


R – Acho que tinha uns 20 e poucos anos.


P/1 – E o período do…?


R – Ah, e também tive um esgotamento, daí tinha tomado uns remédios – era um remédio até para vermes – foi um engano médico lá (risos), deu um remédio violento. Então eu vim para cá, falou que não podia tomar sol que ficava amarelo, eu fiquei amarela mesmo sem tomar sol. E eu tive foi um ataque de (felicidade?); então eu desenhava, pintava, um monte de coisa ao mesmo tempo, assistia filme, fui num baile, conheci um moço, falei tudo que ele tava pensando; ele ficou horrorizado, saiu chorando (risos). E depois disso meu irmão me internou numa clínica, fiz tratamento de – como é que fala – impregnação, levei choque e tudo. Agora ele se arrepende muito porque, mas na época era a única coisa que tinha. Eu falei para ele: “Zé, você não tem culpa de nada que você achou que isso podia ser o melhor para mim, né?”, então.


P/1 – Vamos voltar?


R – (risos)


P/1 – Não, tá ótimo. Aí você repetiu a segunda série na escola e você continuou o ginásio?


R – Aí tudo normal.


P/1 – Tudo na mesma escola?


R – Até o normal.


P/1 – E quando você?


R – E aí eu fiz Belas Artes junto; depois eu completei.


P/1 – Mas antes, quer dizer, na escola, quando que você, você falou que você já gostava dessa, de fazer trabalhos manuais já; desde então você começou a fazer?


R – Eu fazia umas coisas em casa.


P/1 – Quê que você fazia?


R – Eu sempre pintava tecido, né? Uma vez eu pintei um tecido para ir num baile lá, para dançar, não sei o quê. E eu peguei o canudo de uma mão tampava assim, (risos) estampava no vestido; só que daí ficou tem uma parte faltando, precisei comprar mais tinta, só que a tinta não ficou a mesma cor (risos), então parecia que era uma mancha, bem assim atrás (risos). E daí eu pintei também para uma loja lá que tinha, tinha uma loja que eu fazia umas camisetas, umas coisas que eu pintava. Mas minha mãe não queria, não, porque ela achava que menina não ficava bordando, era mais para pintar, para fazer as outras coisas. Na época também usava muito reunir a família e a tia ficava bordando o enxoval, outra ficava assim, então a gente ficava vendo também, essas coisas.


P/1 – E para essa loja você já vendia o seu trabalho, foi como se fosse um primeiro trabalho?


R – É.


P/1 – Você recebia para isso, quantos anos você tinha?


R – Ah, daí tava com uns vinte e poucos anos assim.


P/1 – E essa paixão quando você teve cinco anos.


R – (risos)


P/1 – (risos) Depois você teve esse primeiro namorado?


R – É. E um pouco antes dele morrer ele falou comigo, conversou comigo e eu fiquei bastante impressionada quando ele morreu, né, porque morreu de repente.


P/2 – Lala, mas essa paixão durou dos cinco até a sua maioridade?


R – Não, durou aquela coisa de adolescente, né?


P/2 – Era platônico?


R – Assim, aquelas coisas de criança. Então assim, eu ficava no portão. Eu e minha vizinha nós duas fazíamos corrida de rabo de gato. Sabe o que é rabo de gato? Aquele é um carretel com quatro preguinhos, você fica fazendo assim com uma agulha de crochê ele vai saindo um rabinho. Então a gente fazia assim, vamos ver quem faz mais rápido; ficava as duas lá, tique tique e saindo o rabinho. E a gente se arrumava e ficava no portão, daí ele passava de bicicleta (risos); era essas coisas, ele passava de bicicleta. Uma vez nós fomos no cinema também, fomos juntos com a professora, a classe inteira foi; é só coisas assim de criança mesmo, foi uma coisa.


P/1 – Não, mas esse namorado não era esse, esse era outro?


R – Como?


P/1 – O primeiro namorado?


R – O primeiro era esse, quer dizer, não chegou, não falo que é um namorado; era mais uma paixão assim.


P/1 – É, aquela paixão dos cinco anos, e aí o primeiro namorado?


R – Agora, o primeiro namorado já não, já foi quando eu tava adulta já, já com vinte e poucos anos.


P/1 – Foi aqui em São Paulo?


R – Não, lá, que eu namorei de lá; mas depois eu vim para São Paulo que não deu certo; eu namorei três anos, não deu certo eu vim para São Paulo. Aí conheci um outro menino…


P/1 – Que é esse que sua mãe foi na cabeleireira e falou?


R – Minha irmã.


P/1 – Sua irmã, desculpa.


R – E falou mal dele no cabeleireiro, que ninguém queria em casa, que isso e que aquilo e falou um monte de besteira e estragou tudo, né?


P/1 – E aí você veio para São Paulo quando, quantos anos você tinha?


R – Acho que eu tinha uns, foi logo que eu tive, quando inaugurou o Teatro, tinha no Teatro Oficina; então eu fui ver a peça, tudo, fui. Aí eu já tinha, tava namorando um moço aqui, quer dizer, ele morava aqui em São Paulo; ele era de Tupã, mas ele morava em São Paulo. Fiquei muitos anos com ele, só que foi quando eu tive esgotamento, esse negócio aí e fui internada. Então ele ficou mesmo sem saber onde, (risos) que que tinha acontecido comigo que eu sumi. Aí quando voltei, sempre ele ficou assim com o pé atrás, ficou assim com medo, sei lá (risos) o que que deu, o que que era, na época não era muito comum ter essas coisas aí de tratamentos assim.


P/2 – Quanto tempo você ficou internada?


R – Eu não lembro bem agora, mas eu acho que pelo menos uns dois ou três meses. Depois eu fiz o, depois quando cheguei lá, quando eu voltei eu esqueci de tudo, não sabia mais nada para eu começar a vida de novo, recomeçar tudo.


P/1 – Mas você esqueceu o que, o seu passado?


R – Ah, até, por exemplo Lala, o que que é Lala? Sei lá, entendeu? Por exemplo, sabia por exemplo o açucareiro para que que serve, mas não sabia falar mais do que aquilo, sabe? Uma coisa assim meio estranha, até por nome de rua, tive que reaprender tudo. Aí eu fui fazer o curso de decoração, o IAD. Então, às vezes, eu fazia uma pergunta boba no meio da aula assim, todo mundo olhava assim (risos) que não tinha nada a ver porque eu tava tentando recuperar tudo de novo. Quer dizer, foi um caminho bem complicado.


P/1 – Nós vamos voltar aí (risos). Na adolescência você era muito próxima dos seus irmãos, de quem que você era, de todos?


R – Ah, sempre fui muito grudados, sempre, até hoje.


P/1 – Todos os irmãos eram?


R – Todos os irmãos, ainda mais, por exemplo, o Zé, o João mais assim que, mais perto, mais próximos.


P/1 – O Zé começou a fazer teatro com quantos anos?


R – Ah, a gente fazia no quintal de casa.


P/1 – Começou lá?


R – Aquelas coisas, né, agora foi assim depois foi nos anos 1950 que ele veio pra, quando ele se formou – ele fez Direito no Largo São Francisco. Aí meu pai falou: “Olha, você não tem jeito para isso; você não vai fazer nada com isso (risos)”. Mas ele quis fazer, ele fez. Aí ele resolveu, saiu da faculdade já com uma turma pronta fazendo teatro que ele fez a peça Vento Forte para o Papagaio subir. Ele, o Renato Borghi, eram tudo colegas da faculdade.


P/1 – E aí você veio para São Paulo por que, exatamente?


R – Então, porque já não tinha dado certo mais nada lá com meu namorado, eu não quis saber. Depois outra coisa, me deu uma coisa muito assim de para me libertar de tudo. Eu acho assim, que a gente sempre tem uma idade meio de desbunde; só que o meu foi antes do Zé (risos), o Zé era mais certinho assim em tudo, ele se vestia todo arrumadinho (risos) e eu já (risos) tava mais assim. Por quê? Eu resolvi mudar, por exemplo, a cor de esmalte, a cor do vestido, tudo, né, porque lá eu usava assim aqueles tons cor de rosinha; aqui não, eu quis vermelho.


P/1 – (risos)


R – Fiz um vestido vermelho, foi tudo no vermelho (risos). Fiquei toda assim e fui até num baile, era na Casa de Cervantes e lá que eu conheci esse que eu comecei a namorar, o Antônio, que é esse moço que eu conheci. Então para mim era sempre muito importante mais uma libertação de tudo.


P/1 – E aí o seu, você veio morar em que lugar aqui em São Paulo?


R – Bom, foi em vários lugares. Primeiro fiquei na casa da minha avó.


P/1 – Você vinha sempre para São Paulo já ou não?


R – A gente vinha porque minha avó morava aqui, ela morava na Travessa Brigadeiro Luis Antônio, que hoje chama Adoniran Barbosa. Uma coisa interessante porque, por exemplo, o Natal a gente sempre passava aqui, na casa dos meus avós. E a gente tinha, na rua passava cabra, a gente tomava leite de cabra – quando era criança, né? E outra coisa que tinha é que não existia geladeira também, era um gelo que punha no móvel. Então chegava o entregador do gelo, o entregador do leite – que era aquele leite de vidro mesmo – tinha o padeiro, era tudo entregue assim na porta da casa. E a Travessa Brigadeiro Luis Antônio era uma coisa assim onde as pessoas se reuniam muito também; tinha Carnaval da Travessa que era bem onde está o Teatro agora, em frente, né? Que o meu avô teve uma casa no número 14, que existe lá até hoje, uma casa no 14 e o 29 – o 29 foi demolido, que é onde tem já aquela parte que dá direto pro Teatro.


P/1 – Aí vocês vinham de Araraquara e vocês passavam férias aí nessa casa?


R – É.


P/1 – Então você já vinha desde pequena para cá?


R – Desde pequena.


P/1 – Aí quando você mudou você mudou para essa casa do seu avô?


R – Eu mudei para a casa do meu avô, depois eu morei também com uma tia minha, que morava na Vila Clementino. Depois eu fui para um pensionato, uma pensão na Angélica.


P/1 – Mas você veio porque o Zé já tava aqui, por conta do seu avô?


R – Não, porque todo mundo vinha também para estudar, não sei o quê; minhas irmãs vieram, estudaram, mas só que elas ficaram no Sedes Sapientiae, que elas vieram fazer faculdade, fizeram. Só que eu não quis fazer essa faculdade, eu quis as outras coisas. E fiquei numa pensão, era lá na Angélica; quer dizer, foram vários tipos de pensão, até que no fim eu fui morar na Augusta com mais duas meninas que eram de Araraquara também. Aí minha irmã veio, a gente veio morar na Caio Prado, que foi bem na época assim das guerrilhas, das coisas, tava morando na Caio Prado, que já era junto lá com a Filosofia, né?


P/1 – Olha só.


R – Então tinha muita gente que parava em casa tudo, que vinha, aquele rolo todo.


P/1 – Mas você chegou a prestar vestibular nessa época?


R – Não, eu só prestei bem depois que foi aquilo que eu te falei, (risos) depois que eu li a Erva do Diabo que eu resolvi fazer Pedagogia. Que eu tinha feito Belas Artes.


P/1 – Não, mas então você já tinha feito; quando você veio para cá você veio para estudar, veio para fazer faculdade?


R – Eu vim fazer o IAD, que é Decoração.


P/1 – Isso, aí você fez o IAD?


R – Fiz o IAD que é três anos. Mas daí no último ano.


P/1 – Como é que foi esse período no IAD?


R – No último ano eu não passei de ano porque eles falaram que eu tinha muitas dúvidas, não sei o quê. E quem me ajudou muito nessa época foi o – como é que eu chamo aquele do teatro – Flávio Império. E eu então desenhava com ele, ajudava muito assim na cenografia; então aprendia muita coisa com os cenógrafos do teatro e o Flávio, para mim, foi uma maravilha.


P/1 – Mas você conhecia essas pessoas por conta do Zé, vocês andavam juntos?


R – Do Zé, porque a gente andava sempre junto, a gente saía, às vezes saía, muitas vezes. Eu lembro de eu estar tomando um lanche aí na Paulista tinha o Fasano, né, tava o Zé e o Raul Cortez, eu conhecia um monte de gente assim. Quando o Caetano veio para São Paulo, Maria Betânia veio; quer dizer, eu tava na mesma turma ali, conhecendo todo mundo. E eu tinha um amigo de Araraquara que ele também frequentava os barzinhos da época, tudo; então a gente ia. Só que eu não bebia nada (risos), eu ia no bar e ficava. Eles passavam a noite lá no bar e eu lá junto (risos), então tinha essa coisa. Já comecei a trabalhar, aí trabalhava na, nos Parques Infantis da Prefeitura, que depois foram as EMEIs, chamarem EMEIs. Daí eu passei a trabalhar na Biblioteca Monteiro Lobato, trabalhei dez anos na Monteiro Lobato e dez anos no Centro Cultural. Depois eu tive que voltar para Educação, que eu voltei para uma escola.


P/1 – Mas espera aí, vamos voltar um pouquinho. Você prestou concurso para trabalhar?


R – Prestei concurso.


P/1 – Quantos anos você tinha?


R – Vamos ver… agora eu não sei.


P/1 – Mas antes desse trabalho, quando você veio para cá como é que você se sustentava, teu pai te mandava dinheiro?


R – Ah, meu pai mandava dinheiro, não sei o quê. O Zé me ajudava, o Zé andou me pagando umas aulas de francês que eu estudei francês também, mas só que eu não continuei.


P/1 – E aí você tinha, na verdade, na adolescência você trabalhou que você fazia aqueles desenhos para aquela loja?


R – É, mas só assim um pouquinho, foi uma coisa.


P/1 – E aí depois a outra atividade remunerada que você teve?


R – O que eu tive de emprego de verdade mesmo foi da Prefeitura.


P/1 – Você prestou concurso?


R – Prestei concurso; prestei concurso uma vez, não passei, prestei o outro passei. E aí, porque primeiro era uma coisa assim, acho que depois foi mais formal o negócio lá, tinha mais assim. O primeiro concurso tinha que dar uma aula, não sei o que lá, acharam que eu não dei aula bem. Só que pelo que me contaram tinham outros que estavam bem piores e passaram; então já era uma coisa mais subjetiva. Agora no segundo foi uma coisa mais concreta o exame e eu passei em 12º lugar, mas só que fui mandada lá para periferia, andei tudo quanto foi lado. Foi lá que peguei amarelão que eu fui trabalhar no Edu Chaves e era em cima de uma rede de esgoto.


P/1 – Mas é concurso para o que exatamente?


R – É para professora assim de…


P/1 – Da Secretaria de Educação?


R – É, né, tanto que quando eu fui trabalhar com criança eu fazia Festa do Boi. No Monteiro Lobato era Festa do Boi no Sítio do Picapau-amarelo; então a gente fez um monte de bicho além dos personagens do Monteiro Lobato e fizemos o cordão dos bichos, a nau catarineta, trabalhei com várias coisas do folclore com as crianças.


P/1 – Quando você prestou esse concurso foi para Secretaria de Educação do município?


R – É já para ficar como educadora recreacionista que era o cargo na época.


P/1 – Para qual lugar você foi trabalhar, esse de Edu Chaves?


R – Primeiro eu fui para Consolação que era bem pertinho de casa; aí depois eles me mandaram para Edu Chaves. Quando foi para Edu Chaves era muito ruim porque era assim em cima duma rede de esgoto. E era assim, as crianças aprendiam a contar contando rato, os ratos corriam, porque era cada rato. A hora que eu vi um rato, tava com uma menina que ela tava com febre e eu tava com ela no colo que eu derrubei a menina do susto que eu levei; o rato passou assim era deste tamanho, aí foi horrível. Aí eu fui para Jardim da Saúde que eram Oficinas Ocupacionais. Eu dei todas as faltas que eu podia dar nesse Edu Chaves porque eu fiquei com amarelão e tudo. Agora, depois eles reformaram.


P/1 – É mesmo, você teve amarelão?


R – Tive porque era assim: se chovia, ficava uma lama de merda (risos) e se fizesse sol era uma poeira.


P/1 – De merda?


R – É. Sem comer nada, sem beber água, sem nada você tava respirando o lixo. Agora, depois eles reformaram e fizeram outra escola, tiraram de lá. E outra coisa, o dia, o primeiro dia que eu cheguei tinha morrido um homem lá porque a máquina virou em cima dele, a escavadora lá do esgoto (risos) virou em cima. Então eles tocaram um sininho e vinha vindo todos os empregados, vinha tudo sem uniforme, sem nada, muito desorganizado. Então, aquilo para mim foi chocante, aí quis sair o quanto antes, né?


P/1 – Aí você saiu de lá, você pediu para sair?


R – É, quando teve a remoção, não sei o que lá, eu fui para Oficinas de Artes que era junto com os Parques Infantis tinha assim uma, no Jardim da Saúde, na Rua Cursino. Então tinha um lugar que era, esse parque tinha piscina; então eu dei aula de natação, de culinária, artesanato.


P/1 – (risos)


R – Dei de tudo. Então, assim nós começamos a Oficina com uns fiozinhos bem estragados, uns retalhos, umas coisas; depois fomos melhorando e a gente vendia os trabalhos ali na comunidade mesmo e comprava coisas para a Oficina. Então nós conseguimos pirógrafo, conseguimos uma porção de coisas com o trabalho mesmo deles. E cada menina fez a sua bolsa. Depois a mãe de uma tava esperando bebê, cada uma fez uma pecinha pro bebê, pro enxovalzinho lá da criança. E a culinária que eu ensinava era uma coisa assim: cada um trazia uma coisa – era tudo pobre – então assim, uma trazia um ovo, uma trazia um copo de leite, a gente escolhia a receita que ia fazer. Fazia, aprendia a fazer arroz, feijão, essa coisa toda. E punha assim para quantas pessoas para elas terem noção para poderem fazer em casa também, né (risos). Depois acharam que era besteira aquelas oficinas, fecharam a Oficina; sem mais nem menos fecharam. Aí puseram Educação Correlata, que é junto com o primário, você ficava ajudando nas lições, nos negócios assim. Aí depois de lá eu fui para Monteiro Lobato onde fiquei dez anos.


P/1 – Mas você foi emprestada para Biblioteca, porque a Biblioteca Monteiro Lobato é da Secretaria de Cultura?


R – É. Aí eles me transferiram, fiquei dez anos lá.


P/1 – Que ano foi isso?


R – Ano agora assim eu não sei, mas eu tenho marcado lá em casa, assim eu não sei.


P/1 – Mas é o que, anos 1970, 1980? É anos 1980 já, né?


R – Monteiro Lobato? Acho que foi dos anos 1970, quando eu tava morando na Caio Prado que já era bem pertinho, eu ia a pé. Eu fiquei lá dez anos na Sala de Artes.


P/1 – E como é que era esse período da Caio Prado, você disse que é um período de efervescência política. Que tipo de envolvimento você teve?


R – Eu, basicamente, não tinha assim um envolvimento real, não tinha. Eu frequentava a Faculdade de Filosofia que era ali em frente e na Filosofia sempre tinha rolo, aquelas polícias atrás, não sei o que, todo lado tinha. Mesmo nesse dia que eu fui, que eu ainda tava na Caio Prado, que eu fui para essa escola da Edu Chaves, nesse dia eu vi tudo. Vi um japonês que tinha morrido bem ali no farol da Caio Prado pela Polícia, de tiro. Tinha um menino também que morreu ali na Filosofia com essas guerrilhas. E mesmo quando eu tava nesse primeiro trabalho – e foi em 1968 – o trabalho ali do Parque da Consolação ali perto, a brincadeira era de estudante: rede bandido, mocinho (risos), era estudante-Polícia, umas coisas assim, que as crianças já tinham idéia assim desse movimento, que era tudo ali, né?


P/1 – E você acompanhava, você na Oficina, você viu a configuração, como se deu a criação?


R – Ah, sim, eu ia todo dia quase no teatro lá, ficava lá, ajudava. Ah, e tinha às vezes uma caminha de vento (risos); às vezes eu até dormia lá. Ah, e também quando eles foram pro Rio eu fui pro Rio com eles também, ajudei na produção dumas peças lá e fazia alguma coisa. Por exemplo, no Rei da Vela tinha um balanço, que eu fazia uma cobra que saía do balanço, umas coisas assim.


P/1 – Como que era essa cobra?


R – Era enrolada no barbante (risos) e a Etti, ela balançava nisso aí, ficava balançando em cima do público assim (risos), balanço que ia e voltava assim no público.


P/2 – E essa cobra era de tecido?


R – Era tecido, tecido enrolado, não sei o quê. Ah, a gente fazia muitas máscaras lá também. E quando eu trabalhava com as crianças na Monteiro Lobato que nós fizemos máscaras de papel machê; fizemos um boi desse tamanho assim que as crianças entravam dentro e faziam a Festa do Boi, dançava dentro na rua, depois voltava. Ficava na pracinha dançando depois entrava. E eu tinha ido para Amazônia, tinha visto, tudo que eu tinha visto depois eu fazia exposição lá pras crianças, mostrava.


P/1 – Você foi viajar para a Amazônia?


R – Porque um amigo meu tava lá fazendo um filme, ele é de lá. E ele falou: “Vem antes que acabe”. “Eu vou correndo, então” (risos); marquei para tirar umas férias e ir para Manaus, fui para Manaus. Tava fazendo um filme, aJuricaba, um filme acho que não foi passado assim em circuito normal, era mais um, mais fechado, mais circuito de artes. E aJuricaba eu vi a filmagem e fui ver, me apaixonei pela vitória-régia, eu vi assim; fui na Lagoa dos Reis, uma lagoa cheia de vitórias-régias e entra uma luz verde-azulada, sabe, então é lindo o lugar. E se eu entrava naqueles barquinhos que entram debaixo das raízes, nos igarapés, andei muito por aquilo lá. Só à noite que eu tinha medo porque fui ver uma filmagem que tava cheio de besouro, os besouros eram desse tamanho assim, né, e o chão estava forrado de besouro (risos), eu tenho medo dessa coisa aí. Na época eu comecei a namorar Emanuel Cavalcante que fazia parte do filme. Eu sempre saía com o Zé Kleber e o Emanuel; o Zé Kleber ele fazia cinema também, ele era de Parati e saía sempre com os dois. Até um dia o Emanuel chegou e falou: “O Zé Kleber falou que não pode ir com a gente hoje passear; então nós vamos só nós dois”. “Tá bom”. Aí quando chegou, nós voltamos pro hotel o Zé Kleber: “Ô La, você não me esperou?”, era mentira do outro (risos).


P/1 – (risos)


R – E esse dia também eu tinha dado assim, feito o passeio no encontro das águas e eu resolvi pular no meio do rio, que eu achei lindo. Aí eu fiquei pensando: “Bom, existe mesmo esse canto da sereia, tudo, a sereia existe porque existe uma atração muito grande para você se atirar na água mesmo”, você fica muito pequena perto daquela imensidão toda; então você não fica.


P/1 – Você se atirou do barco?


R – É, porque disse que dava sorte. (risos) Aí pulei, vi o boto, passou pertinho. Depois que eu tava na água.


P/1 – Você viu o boto?


R – Vi tudo. E o me disseram: “Pode ter piranha” (risos) aí para subir no barco o barqueiro teve que me puxar assim porque o barco é todo limoso, não dá para subir. Aí me puxou assim (risos) e eu fui lá de volta pro barco (risos). Aí tem uma fruta também que adormece toda a boca, quando a gente come fica com a boca adormecida; aí fui experimentando tudo que é fruta, que é coisa assim. Foi uma viagem muito legal. E eu também fiquei conhecendo um perfume em Belém do Pará; fui para Belém do Pará, depois fui para São Luis do Maranhão, essas coisas assim.


P/1 – Tudo na mesma seqüência, na mesma viagem?


R – É, é, na mesma viagem. Acabou o filme eu continuei viajando.


P/1 – É mesmo, mas você continuava de férias do trabalho?


R – Tava de férias, tava, fiquei um mês viajando; então eu fui pra...

P/1 – Você foi emendando, sozinha aí?


R – Fui emendando. Não, daí tava com o Emanuel.


P/1 – Com o Emanuel vocês foram?


R – Aí tava com o Emanuel, nós fomos para Belém do Pará, adorei Belém do Pará, aquele carimbó, aquela coisa toda. E os perfumes, fiquei encantada com os perfumes porque uma flor que é desse tamanho aqui lá é desse, né? E gostei de um perfume que era da Phebo que falava assim: “Para senhores e senhoras de fino trato” (risos).


P/1 – (risos)


R – Até que depois eu continuei comprando esse perfume até que a Phebo parou de fazer. Aí o que que eu fiz? Fiquei fazendo pesquisa de perfume das plantas da Amazônia tudo e fui fazer perfume; e hoje eu tenho uma linha lá de perfumes; eu faço perfume para amor, para mau olhado, tudo. O Zé não dá uma entrevista, não sai sem usar (risos) o do amor com o mau olhado.


P/1 – O Zé Celso?


R – É.


P/1 – Você começou a desenvolver naquela época?


R – Eu trouxe um, só que eu só trouxe um do amor para vocês.


P/1 – Para mim? (risos)


R – (risos)


P/1 – Não tem mais (risos).


P/2 – Deixa eu te falar, mas esses perfumes existe uma comercialização, você faz para vender?


R – É, eu vou fazer para vender; agora eu vou fazer. Eu sempre fiz pro Zé (risos), que gosta bastante e ele usa bastante. Mas eu vou fazer uns vidrinhos desse tamanho – eu trouxe para vocês verem – e eu vou pôr um rótulo nele que eu quero pôr um rótulo, vou fazer um desenho, eu quero que seja um desenho meu, um selinho assim da vitória-régia que eu me apaixonei pela vitória-régia, eu acho que ela é demais. Então eu faço várias coisas no meu desenho que ela aparece, a vitória-régia, né?


P/1 – Aí nessa viagem de Belém você foi para São Luis do Maranhão?


R – Fui para São Luis.


P/1 – Como é que foi lá em São Luis?


R – Chegando lá em São Luis, nós ficamos na casa de um Secretário de Cultura; então a casa era assim bem simples, mas tinha piscina, cajueiro. E quem tava lá também era – peraí, tinha um cantor que tava lá, deixa eu ver se eu lembro – ah, Alceu Valença. Então ele ficava cantando lá na piscina o repertório, cheio de cajueiro, era suco de caju toda hora. E era pertinho do mar, aquilo era uma beleza. Fiquei lá, passeei bastante e de lá eu já vim embora, acabou as férias.


P/1 – E aí você falou que você fez uma exposição na Monteiro Lobato pras crianças, que exposição você fez lá?


R – Todos os objetos que eu trouxe de Manaus, de Belém eu juntei e expus pras crianças. E daí comecei a trabalhar bastante com folclore, trabalhei então, eu fiz a vitória-régia lá com elas, fiz o namoro da vitória-régia e o luar.


P/1 – Como é que é o namoro da vitória-régia e o luar?


R – Ah, a vitória-régia ela se apaixona – fiz uma música também – que ela se apaixona pelo luar. Então a menina realmente ficou namorando o menino (risos) que era a vitória-régia e o luar.


P/1 – A menina que exerceu o papel e o menino eles começaram a namorar?


R – Namoraram (risos).


P/1 – E como é que era esse papel?


R – Não, era assim: nós saímos, era música que a gente cantava a música que tinha a Festa do Boi, fiz a música com as crianças também da Festa do Boi. Eu lembro dum pedacinho assim: “Meus senhores, minhas senhoras que estamos convidando venham todos para a Festa do Boi”. Quer dizer, era uma coisa que já do nordeste que eu peguei e já passei para eles, vamos ver a Festa do Boi. Então quando eu tava dando a proposta do trabalho pras crianças eu disse assim: “Bom, quem a gente vai convidar para Festa do Boi?”. Porque é o sítio do Picapau-amarelo, então tá lá a Emília, ta o Visconde, tá todo mundo, tudo bonecões e esse eu tenho fotografia deles também com os bonecões fazendo essa festa na rua que era na rua que eles faziam, depois voltavam para dentro. E lá era servido pipoca, a gente fazia um bolo que era umas caixas assim e abria, punha a pipoca dentro.


P/1 – Isso acontecia tudo lá na Biblioteca?


R – Tudo na Biblioteca. Fizemos umas coisas assim, trabalhava com serigrafia, com – o que mais – com linografia, fizemos todos os personagens com linografia. Então, é perigoso você trabalhar com coifa assim; então falava: “Ó, vocês põem a mão para cá, põem a mão para lá, se alguém se machucar me fala”. Aí tinha um japonesinho que ele fez e ele machucou, mas ele não falou porque ele não queria parar de trabalhar. Aí quando eu descobri (risos): “Por que que você não fala, por quê?” Mandei ele para farmácia para fazer um curativo e tudo. E falei quando eles estavam fazendo esses bichos para Festa do Boi, para cordão de bichos eu fiz a nau catarineta. A nau catarineta era assim: “Nas férias viaje no barco da imaginação”. Então, eu fazia um barquinho era assim, era uma ponta assim daqueles canos de papelão e outra ponta lá de cano de papelão; depois juntava com uma corda – quer dizer, mais criança aumenta, menos criança diminui. Enfeitava tudo com papel crepom e daí punha tudo que ia no barco, por exemplo, a casa do capitão que ele fica ali, tinha um canhão, tinha tudo aquele barco, os remos do barco eles fizeram e fizeram a roupinha para eles, fizeram um bonezinho de marinheiro. E isso tenho tudo fotografado.


P/2 – E você trabalhou sozinha nesse setor lá na Biblioteca ou tinham outras pessoas?


R – É, depois tinha uma amiga minha, a Rosinha, que ela foi trabalhar lá, mas ela quis trabalhar lá comigo que eu até mexi que ela tava trabalhando comigo nessa parte de construir as máscaras.


P/2 – Mas você foi a idealizadora desse projeto?


R – Ah, sim.


P/2 – Desses projetos todos?


R – Foi.


P/1 – Como que você lembra a letra da música da lua com a vitória-régia?


R – Deixa eu ver, de cor assim eu nem sei, era tanta coisa ali. “O tuchaua contava os curumins, a história das estrelas que brilham no céu, brilham no céu; todas elas foram belas cunhãs, presas ao encontro do luar que desce à terra em busca de novos amores. Quando a tapa dormia, naia cheia de graça e beleza descia os seus cabelos com flores silvestres”. E depois, sei lá, ela ia olhar a lua, depois ela veio; ela fica tão assim que ela também se afunda, ela morre na água, mas daí no seu lugar nasce a vitória-régia.


P/1 – Ai que coisa linda.


R – Mas eu também tenho a letra em casa, tenho tudo isso aí.


P/1 – E da Biblioteca você foi pro Centro Cultural?


R – Da Biblioteca não… É, da Biblioteca eu fui para inauguração do Centro Cultural, já fui pro Centro Cultural.


P/1 – Vergueiro?


R – Vergueiro, aí trabalhar já na parte de artes.


P/1 – Que ano isso, tipo 1980 já?


R – É quando inaugurou o Centro Cultural que foi 1980, né?


P/1 – É 1980?


R – Que era Sábato Magaldi, que tava lá e tudo e foi lindo. Todo mundo gostava de trabalhar lá, tinha muitas reuniões, a gente tinha que estudar muito. A gente trabalhou com Febem, Osem, Pequeno Trabalhador, um monte de coisas assim. Daí nós tivemos que trabalhar com quem levava também as crianças, que, às vezes, eles não sabiam respeitar o trabalho da criança. Um menino lá chegou chorando porque tinham rasgado o trabalho dele; então, daí nós começamos a dar aula pros monitores da Febem, de tudo.


P/1 – Quê que você fazia especificamente, em qual setor do Centro Cultural você foi trabalhar?


R – Na parte, no Atelier de Artes Plásticas.


P/1 – No Atelier de Artes?


R – No Atelier de Artes Plásticas direto. E de lá a gente dava aula para professores. Teve também, depois eu também trabalhei no Estado porque eu fiz concurso e eu entrei também, mas eu não queria ficar trabalhando; aí no fim me chamaram duas vezes, eu fui (risos). Aí eu fui, peguei um encontro que teve em Campos do Jordão dos Educadores; foi o único que teve com educadores, acho que foi em 1984, por aí. E lá eu dei slides como meio de expressão, então era para professores. A gente saía pelos campos lá e pegava objetos, coisas, gravava também os ruídos e tudo; depois montava uns slides. Depois passava os slides e fazia coisas com eles. No Centro Cultural eu apresentei uma coisa assim, era um bailarino e um mímico e com as projeções de slides. Eram usados dois, três projetores junto, então parecia que a bailarina saía da folha, ficava bem bonito.


P/1 – Mas você acumulou os dois cargos na Prefeitura e no Estado?


R – Um tempo, sim.


P/1 – Podia acumular?


R – Podia. Aí depois o meu irmão morreu, o meu irmão mais novo foi assassinado em 1987. Daí a minha mãe veio para São Paulo, eu também tive que cuidar da minha mãe, aí eu larguei do Estado porque não dava mais. Eu também, nessa época eu tava pegando muita coisa também porque eu tava no Estado, na Prefeitura, eu fazia parte dum grupo que tava querendo formar uma associação de tecelões quando começou esse movimento de fazer associação de tecelagem. Aí eu achei que eu tava deixando de lado muita coisa da minha família para fazer outras coisas, então eu comecei a largar, larguei; a primeira coisa que eu larguei foi o Estado. E na época eu tinha pensado de ir para França fazer uma exposição; desisti porque falei: “Melhor ficar com a minha mãe”.


P/1 – Por que para a França?


R – Porque tem uma sobrinha que mora lá, mas na época, sempre eu me interessei mesmo foi para América Latina, só viajei para América Latina; quando todo mundo pensava em ir para Paris eu queria ir para Bolívia (risos). E quando eu fui para Bolívia eu não sosseguei; aí da Bolívia eu fui para Cuba, pro México, para vários lugares.


P/1 – Deixa eu voltar um pouco. Quantos anos você tinha quando você foi internada?


R – Eu acho que uns vinte e poucos.


P/1 – E foi o Zé que teve a iniciativa de?


R – Foi.


P/1 – Você sentiu o que, você teve um estresse, que que foi?


R – Não, eu tava que parecia assim que eu ia explodir. Eu tive um, foi meu ataque de felicidade, foi o contrário que todo mundo tem. Então, que eu falei que eu queria me libertar de tudo, de qualquer coisa assim. Aí eu falava, desenhava, sabia, por exemplo, poderia descrever o que você tá pensando (risos). E não falava besteira, tinha um irmão que conferia uma coisa, conferia outra, lembrava de tudo que tinha acontecido comigo. Ah e eu tinha ido na aula de datilografia, que eu tava fazendo datilografia; aí eu já tava escrevendo bem, quando eu vi eu tinha escrito tudo sem vogal. Falei: “Não, aqui não tá bom. Eu não vou nem mostrar para professora aí, que, né (risos)”; peguei e fui embora. Falei pro Zé: “Zé, vou para Araraquara”. Peguei todas as coisas que eu tinha e pus dentro de uma mala; quer dizer, normalmente eu não conseguiria por dentro duma mala (risos) as coisas assim rapidamente. Ele falou:  “Você não vai para Araraquara, vou te levar é no médico”.


P/1 – Aí te levou no médico?


R – E aí eu fui fazer esse tratamento de impregnação que você vai tomando um monte de comprimido, fui tomando, tomando; toma choque também.


P/1 – Você lembra de você tomando choque?


R – Lembro.


P/1 – Como que era, como que eles fizeram?


R – Ah, eles te amarravam, punham um monte de coisa assim. Quer dizer, o que eu mais lembro é que eu perdi memória, né?


P/1 – Mas quando fizeram isso você deixou fazer, você ficou com medo, lembra da sensação?


R – Ah, você já tava assim. Por exemplo, quando eu cheguei, cheguei muito alegre, tanto que eu arrumei um monte de fã lá no...


P/1 – (risos)


R – (risos) Fui nadar, gostava de escrever poesia, revirou lá o negócio, instituí o footing lá, as mulheres começaram a flertar lá com os caras de lá do outro lado que tinham os… zuei lá tudo (risos). Mas daí eles foram me dando essas coisas para eu ir abaixando duma vez, quer dizer, é uma paulada que você recebe na cabeça. Depois quando eu saí de lá fui fazer um tratamento de psicoterapia, aí eu conheci um médico; quer dizer, fiz vários, com vários médicos, também não dava muito certo. Daí eu conheci um médico que gostava muito de trabalhar assim com artistas, ele também era músico. Daí ele me chamou, eu fui e fiz o tratamento; primeiro, ele começou individual. Ele falou assim: “Seu caso não é individual, vou fazer um tratamento de grupo”. Eu fiquei 13 anos com ele.


P/1 – Treze?


R – Fazendo tratamento de grupo. Daí ele falou assim: “Sabe de uma coisa? Você não vai pagar nada, você vai ficar aqui porque as outras pessoas podem pagar; elas pagam e você não tá trabalhando, não sei o que, você não paga”. Eu fiquei 13 anos lá; depois eu saí para dar...


P/1 – Como que era esse grupo?


R – Vaga para outro.


P/1 – Era tipo psicodrama, era?


R – Não, cada um ia falando uma coisa, falava, só que era um grupo bem falante assim, bem agitado. E eu tinha procurado um médico que ele falou que eu não tinha jeito mesmo, que ou eu me matava ou se eu fosse fazer a terapia ia ficar muito caro porque eu precisava várias vezes. E eu tinha começado um grupo e no grupo eles tinham falado assim, eu tinha assistido o Segundo Rosto e fiquei assim muito impressionada, chorei quando eu vi o filme; e por quê? Porque eu achava assim que eu tava me transformando e não tava gostando da transformação. Você assistiu o Segundo Rosto? Então. Aí o cara lá fala assim: “Ah, isso aí é filme”. E o médico falou assim: “É, é um filme, então você não tinha que ficar tão assim”. Aí eu agredi o médico também; ele falou assim, eu falei assim para ele: “Tua mulher foi ver o Rei da Vela e saiu de lá assim chorando e saiu no meio da peça; por quê? No meu caso eu não senti nada lá também; mas pode ser que o problema dela esteja ali” (risos). Aí ele queria me matar (risos). Depois disso ele falou que eu não tinha jeito, que eu não sei o que, que eu não ia dar certo, essas coisas assim. Aí fui nesse e ele: “Não, pelo contrário, estão todos errados, você tá fazendo um tratamento errado”.


P/1 – Como é o nome desse médico que falou que o tratamento tava errado?


R – Ah, o que falou que tava errado? Luis de Araújo Prado, chamava Pradinho. Bom, aí depois eu só cedi o meu lugar para um amigo meu que tava precisando; no tempo da guerrilha ele fez parte, ele foi preso, também torturado, esse negócio todo.


P/1 – Que amigo?


R – Hã, agora até esqueci o nome. Na época ele fez lá, ficou no meu lugar.


P/2 – E Lala, você falou: “Também torturado”; você foi presa?


R – Eu fui e para mim não fui torturada assim, mas já era uma tortura ser presa. Por exemplo, eu fiz uma música que chama: O desamor é cinza porque a prisão é assim toda cinza, minha maior tortura era não ver a cor. No alto assim tinha uma gradinha lá e uma luz bem forte. Então eu fiquei três dias numa individual, eu e a minha empregada, era o primeiro emprego dela (risos).


P/1 – (risos)


R – Ela não sabia de nada (risos), ela falava assim, ela não sabia que, ela chorava lá e ela falava assim (risos): “Minha filha ta noiva, que que ela vai falar, que que o noivo vai pensar”.


P/1 – (risos)


R – “Que a mãe dela é uma bandida”, não sei o quê. Mas foi graças a essa mulher que nós fomos encontradas, porque ela tinha um amigo que trabalhava lá no DOPS, então ela viu a gente, ele viu a gente. Ele fez a descrição, então descobriram.


P/1 – Como é que você foi presa, como é que foi essa…?


R – Foram em casa com uma metralhadora e levaram; quer dizer, eu estava voltando da Biblioteca, estava cheia, com os ovos pro almoço, ficou todo podre lá, estragado. Já tinham levado o Zé, o Zé tava dormindo na minha casa, levaram ele e depois levaram eu e a empregada.


P/1 – Mas te levaram por causa do Zé ou você participava de algum movimento na Maria Antônia?


R – Não, por causa do Zé; eu não participava de nada, né?


P/1 – É porque era irmã do Zé?


R – É. E depois também assim que eles ficam falando: “Ah, você foi para Bolívia, você não sei o quê”. Na verdade quando eu fui para Bolívia, quando voltei eu tive que ir com a advogada num lugar lá, num lugar que é um negócio de droga que eu fui e tudo. E tem uma exposição sobre drogas, então onde se esconde a droga, tudo assim pronto, ensinando, né, sobre onde esconde a droga. E nessa coisa eles ficaram perguntando: “Que você fez na viagem, quem você conheceu?” Eu fui com uma advogada, daí eles falaram assim: “Puxa, quantos homens você conheceu”. A advogada: “Se fosse eu conhecia mais” (risos). Mas o que que ele tava fazendo mesmo, que eu esperando o trem, fui naquele trem da morte, essa coisa toda: “Ah, você conheceu uns moços que participaram lá na em La Paz que participaram da guerrilha” porque chegamos lá tinha uma guerrilha em La Paz também, mas a gente não tinha nada com isso, tava passeando.


P/1 – Mas aí?


R – Mas aí é porque foi, assim quando eu fui para lá na divisa lá para passar então tinha um policial que ele falou assim para mim: “Existem duas coisas parecidas com gente: negro e boliviano” e pôs o revólver bem assim. Vou falar o quê? “Se você quer ver artesanato por que que você não vai para Minas?” “Porque eu já fui” (risos).


P/1 – E aí, o que que ele fez?


R – Não fez nada, eu fui, né, para Bolívia, mas fui assim né? Agora, é muito diferente quando você vai para uma viagem que você vai assim, vai de ônibus, vai meio a pé, vai de caminhão com os índios do que quando você vai de avião; você vai de avião você já tem uma proteção. Quando você vai assim realmente você não tem proteção nenhuma.


P/1 – Você ficou quanto tempo presa?


R – Fiquei seis dias; três numa individual e três numa coletiva. Só que o Zé ficou meses, deram um soco nele que ele estragou todos os dentes. E depois disso ele foi para Portugal, tava tendo aquele movimento de Portugal.


P/1 – Você chegou a ser torturada?


R – Não porque eu saí a tempo, porque eu tinha, quando eu entrei lá eu falei: “Ah, eu estando aqui eu vou morrer, é certeza”, né? E tinha um que ele falou assim para mim: “Engraçado, né?”, mostrou o retrato duma vaca (risos), “uma vaca é tão grande a gente come um pedacinho. Se fosse comer uma pessoa o que será que a gente comia?”, umas coisas assim. Depois assim, se você quisesse ir no banheiro alguém tinha que ficar pondo uma toalha porque ficavam espiando a gente. E quando eu fui agora, eu fui fazer esse workshop lá que veio pessoal do Chile é lá bem onde eu fui presa, né, então visitei a minha cela, já era a segunda vez que eu fui lá. Porque a primeira vez eu fui só para ver e falei: “Bom, parece uma coisa surrealista, que eu não vivi; eu vou lá para ver se é verdade (risos)”. Só que chega lá, até eu fui na primeira vez que eu fui eu fui com um alemão que tava passeando aqui, ele trabalhava no Museu do Louvre; daí ele olhou a cela e disse: “Mas, que é isso, tá parecendo um atelier?” a cela, é que eles reformaram, não ta mais o que era. Então para que raio de museu é esse aí, né, deixaram algumas coisas só, existe uma gradinha podre assim, mas a porta tá chiquérrima, tá limpinha, arrumada; tinha um ralo onde passava o rato que a gente punha um – como é que fala – um sapólio grande para ele ficar roendo para não vir na gente (risos). E cadê o ralo? Não tem mais ralo; quer dizer, fizeram uma limpeza. Então de memória, que é uma memória da coisa não é muito, não. Agora, tem uma coisa: ficou aquele ambiente assim pesado, ficou. Então o moço falou assim: “Olha, vamos embora que isso aqui tá pesando”. E mesmo quando eu fui fazer o curso lá das arpilleras eu fiquei meio assim porque as portas são pesadonas, é tudo cinza. Mesmo que tenha a outra parte, que tenha a Pinacoteca ali da estação, mas eu não vejo mais beleza nenhuma naquilo porque você sente que ficou uma coisa, um espírito da coisa ficou ali.


P/2 – Você falou sobre um workshop do Chile?


R – É esse daí que eu fui, foi lá, bem lá nesse lugar (risos).


P/2 – E foi sobre o quê?


R – Foi nas arpilleras, que elas exercem um trabalho de retalhos. E assim, por exemplo, estamos com fome, não temos isso não temos aquilo, um protesto que elas fazem e que isso é conhecido já pelo mundo. E aí quando eu fui eu mostrei a via sacra que eu tava fazendo que para mim a via sacra é uma coisa assim, o que eu tava sentindo na época da repressão, foram esses dez anos de coisa que eu fiz. Então hoje eu fiz, eu refiz a via sacra depois das arpilleras, quer dizer eu tenho ela pirografado em madeira e tenho ela em retalhos assim costuradinho, bordadinho tudo. E para mim ela é a expressão do que eu tava sentindo. Ela tem todo um movimento espiralado, ela começa com o sol nascendo e termina com o pôr-do-sol. Isso para mim também significa assim que existe um período que pode voltar, um ciclo; isso que me dá medo também. Então se uma repressão que teve que tenha cuidado que ela pode voltar, né?


P/1 – Aí você esses seis dias você já trabalhava no Estado e na Prefeitura?


R – Daí quando eu cheguei de volta para Biblioteca ela me tratou muito mal. Aí ela por trás assim ela me chamava de terrorista hippie, por quê? Porque a diretora era casada com um coronel, então aí já, né, pesava. E na escola tava fazendo Pedagogia nessa época. Na escola quando eu chegava ficava vazio, todo mundo sumia, só eu ficava ali assim (risos).


P/1 – Porque aí você foi fazer Faculdade de Pedagogia, onde você fez?


R – E fui e ainda tinha falado que eu tinha feito só por causa do livro lá. Então toda vez que falavam em droga olhavam para mim, falavam em terrorista olhavam para mim (risos).


P/1 – Quê que foi, por que que você decidiu fazer Pedagogia?


R – Então, porque eu achava que existem vários tipos de inteligência. Porque antes eu achava que, imagina, eu nem ia passar, porque eu não tenho aquela coisa assim muito certinha, eu sou mais sensorial do que… e vendo, estudando Pedagogia, estudei, li muito sobre Summerhill, que é a Liberdade sem Medo, depois ele vai para Liberdade na Escola, depois ele vai para Educação fora da Escola; aí entra Carl Ross, entram outros que é a educação fora da escola. Então foi o que eu mais fiz foi essa coisa de educação fora da escola que foi Monteiro Lobato, foi o Centro Cultural. Eu trabalhei também na oficina, eu dei aula de tecelagem pro bexigão, para turma lá do – como é que fala – Ponto de Cultura. Então, dei aula de tecelagem no camarim do Zé; então tem umas coisas assim. Daí eu só parei porque eu precisei me operar da vista que eu tive – como é que fala aquele negócio?


P/1 – Catarata?


R – Catarata. Operei das duas, então tive que parar um tempo, depois eu não voltei mais porque o teatro tá com problema de estrutura, de tudo, enquanto não resolve, né?


P/2 – Isso foi quando esse trabalho no teatro no Ponto de Cultura, agora?


R – Faz, faz pouco tempo.


P/1 – É.


R – Não faz muito tempo, não. Trabalhei também logo depois que eu...


P/1 – Deixa eu voltar, desculpa é só para gente retomar. Que livro que é esse que você falou?


R – Qual?


P/1 – Que foi por conta do livro que você resolveu fazer o...


R – Ah.


P/1 – A gente tava falando da Faculdade de Pedagogia e você falou: “Esse livro me levou a...”.


R – É a Erva do Diabo.


P/1 – E quando que você entrou em contato, quem te deu esse livro para ler?


R – O Zé, né? (risos) Eu tinha uma coisa assim que era, se você, você chega num lugar você escolhe um ponto e senta; se você não estiver bem fica assim, enquanto você não achar o seu ponto você fica assim se movimentando (risos) até você achar um lugar que é seu que você sabe, você fica. E umas coisas toda assim e fala muito da inteligência além.


P/1 – De quem que é?


R – De quem que é mesmo? Agora não lembro.


P/1 – Bom, depois a gente pesquisa, não tem problema. 


TROCA DE FITA



P/1 – A gente parou no livro do Castanheda.


R – Do Castanheda.


P/1 – Como que ele chegou, o livro, até você, se você teve.


R – O Zé, o Zé tinha lido e passou para mim. Às vezes ele faz muito disso, traz umas coisas para mim.


P/1 – Até hoje?


R – É, e às vezes eu levo para ele ver algumas coisas; por exemplo, eu comprei uns livros de balé russo, fui levar para ele para ele ver o figurino; às vezes um estilista mais louco assim, então eu mostrei: “Olha, tem isso, tem aquilo”. (risos) Você troca umas idéias (risos).


P/1 – Vocês são muito amigos?


R – Todos os irmãos, né? Tem uma irmã mais velha que a gente tem mais problema, mas isso é outra coisa, sempre foi (risos).


P/1 – Bom, aí o Zé te deu esse livro, o que que esse livro causou em você?


R – Ah, daí eu...


P/1 – O quê que ele conta assim?


R – Eu acho assim ele fala da Erva do Diabo, das experiências dele sensoriais; então eu fiquei pensando que o meu raciocínio é muito mais sensorial.


P/1 – Mas você chegou a experimentar?


R – Não, nada disso; quer dizer, uma vez eu cheguei a cheirar – como é que fala aquele negócio lá – cocaína, achei muito ruim.


P/1 – Mas tipo o asca, mescalina?


R – Não, eu peguei um, uma vez no México eu peguei um negócio que sai lá do cacto, a gente comia, me deu foi uma coceira (risos). Eu acho assim que, na verdade, eu não preciso nada disso, que eu já sou alucinada por natureza (risos).


P/1 – Já veio no chip (risos).


R – Eu acho assim que eu cheguei a tomar muito remédio, muita coisa, então eu saí de lá muito cheia de lá quando eu saí do, desse tratamento, sim, eu tava assim muito pirada mesmo. Então eu chegava na rua eu via, esperava o sinal para atravessar e o sinal (risos) atravessava errado e os carros atrás correndo (risos). Quer dizer, muita coisa assim desorganizou.


P/1 – Mas esse livro te trouxe o que, uma transformação?


R – Eu acho que é assim, quer dizer, um pensamento mais assim que, eu me sentia muito burra para falar a verdade, porque todo mundo fazendo os exames, fazendo coisa e eu já não conseguia essas coisas já mais certinha, né? Mas eu cheguei à conclusão de que a gente pode chegar a outro tipo de raciocínio até, pode até ir mais longe e na Pedagogia mesmo, uma vez a professora falou assim para mim: “Quem é você para criticar o Piaget?” Eu falei assim: “Eu sou Lala. O Piaget eu conheci só por livro e eu me conheço (risos), desde que eu nasci eu me conheço. Eu to falando sobre a minha experiência, então eu acho isso, isso e aquilo, entendeu?” E aí comecei ler, por exemplo, tem o Carl Ross, outros que trabalham mais com a inteligência múltipla. Aí você fica pensando que você pode evoluir mais, de outras formas.


P/1 – E aí por isso que você foi fazer Pedagogia?


R – Era, eu fui fazer porque eu acreditei que seria capaz de fazer, mas mais para essa parte mais assim fora da escola. Tanto que eu fui esse ano mesmo eu fui fazer uma palestra no Mackenzie pro pessoal de Pedagogia sobre a educação fora da escola.


P/1 – Você ficou uma pessoa de referência nessa área?


R – É, ela gostou (risos) das minhas coisas, a professora que me chamou e disse que vai me chamar de novo. É porque se eu trabalho, trabalhei bem mais fora da escola do que dentro, né?


P/1 – Quando que foi sua primeira exposição?


R – Eu nem sei qual foi a primeira. Eu fiz muita exposição na Livraria Francesa, fiquei muito amiga da Clodi que era dona da Livraria Francesa; e depois que ela morreu daí também eu não frequentei mais que era lá, já até fechou esta da Atílio Innocenti, fechou. Quando tava fazendo não sei quantos anos a Livraria, eu e até esse meu amigo do Panamá tava, fez um trabalho sobre a Livraria. E eu fiz uma exposição lá também assim a comparação da América Latina, da paisagem, de toda a tecelagem do Peru, dessa parte dos Andes e da Índia. Então ela põe uns livros de acordo com a América Latina, Índia, não sei o que e eu teci umas coisas para essa exposição, nesse sentido. Fiz a exposição em Araraquara também. Ah, e fiz várias exposições pela Unesp no interior, fiz foi em Bauru, Guaratinguetá, em algumas Faculdades; até quem organizou foi essa minha amiga Sandra, que ela tava na Unesp.


P/1 – Você saiu da Mário de Andrade, você foi pro Centro Cultural?


R – Mário de Andrade, não.


P/1 – Desculpa, Monteiro Lobato.


R – Monteiro Lobato.


P/1 – Saiu da Monteiro Lobato foi pro Centro Cultural São Paulo e aí?


R – Centro Cultural São Paulo. De lá eu tive que voltar para a escola e voltei para uma escola que praticamente dentro, uma EMEI praticamente dentro do Hospital das Clínicas. Nesse período todo houve uma mudança na educação; então, quem trabalhava em, na recreação, que passou a ser a EMEI tinha que fazer Pedagogia. Também daí uma das outras razões que eu fiz Pedagogia para poder mesmo ganhar mais, né, porque senão ficava no salário mais baixo. Aliás eu tinha feito uma coisa para ser – como é que fala – supervisão dessa área, mas eu não consegui na época o cargo, porque depois de todas essas coisas aí da prisão, de tudo, eu não tava conseguindo mais nada. Assim, uma evolução de trabalho, né, então foi só para aposentar. Mesmo para aposentar.


P/1 – Mas você aposentou pelo Estado e pela Prefeitura?


R – Não.


P/1 – Só pela Prefeitura?


R – Só pela Prefeitura, porque o Estado eu saí e a Prefeitura ainda eu fiquei, eu trabalhei. Como educadora eu poderia trabalhar 25 anos e ter aposentadoria, mas daí pela confusão toda eu fiquei 30 anos trabalhando, aí fiquei 30 anos, depois me aposentei. E depois que eu me aposentei eu fui trabalhar na estação Especial da Lapa, aí pela SUTACO.


P/1 – Quê que é?


R – A Estação Especial da Lapa é para deficientes, aí trabalhei num grupo de 12 pessoas, tinha cego, surdo.


P/1 – Mas é da Prefeitura?


R – Eu não sei, acho que é do Estado; mas é assim, quem tava me pagando era a SUTACO, Superintendência do Trabalho Artesanal.


P/1 – Artesanal.


R – E aí eu trabalhei com cegos, surdo, mudo, deficiente mental, problemas físicos, uma porção de coisas, tudo junto. Cada um fazia um trabalho, todo tecelagem e aí eu acho que aprendi muita coisa também. É aquela história de deixar de pensar, na tecelagem você trabalha na horizontal, na vertical, não se pode trabalhar em qualquer sentido. E os cegos fazem um trabalho maravilhoso. Quer dizer, eu dava assim, por exemplo, dois tipos diferenciado de texturas de linha, eles fizeram pied poule, uns pontos mais complicados. E tinha a dede também, que é um tear de palito, esse daí também eu tirei de um brinquedo francês e acabei evoluindo ele, deu esse tear de palito. Tear de palito trabalha com uma tábua assim ele todos os palitos em pé; então tinha um cadeirante que ele tava com dificuldade de trabalhar, ele queria trabalhar nesse tear, mas ele tava com dificuldade. Depois ele percebeu que se ele virasse o tear ele trabalharia, enfim então ele conseguiria fazer desenho. A hora que ele conseguiu tecelagem com desenho, ele me abraçava, me beijava, falava: “Que maravilha!” Eu falei: “Que maravilha você, que você conseguiu” (risos). E era um trabalho assim, quer dizer você chegava em casa muito cansada, mas muito legal que você via que eles estavam gostando, que eles estavam fazendo.


P/2 – Esse trabalho durou quanto tempo nesse lugar?


R – Acho que durou um semestre, dois, porque depois também a SUTACO não pagava mais e eles sabiam que eu não tava ganhando eles não queriam que eu ficasse sem ganhar. Eles fizeram (risos) um tipo duma greve lá, uma coisa (risos).


P/2 – Os próprios alunos?


R – É (risos), inventaram da cabeça deles de fazer um movimento lá para eu ganhar que eles não achavam justo não estar ganhando (risos).


P/1 – Quando que você começou a mexer, a trabalhar com tecelagem?


R – Bom, quando eu fui para Bolívia que eu vi a índia lá tecendo num galho de árvore, a gente pagava uma espécie de um real para ver ela tecer. Só que você não entendia nada, você ficava vendo aquilo lá, ela voando com mão para cá e para lá (risos) e saindo aqueles desenhos, eu fiquei morrendo de inveja. Daí eu procurei, quando eu voltei eu procurei uma professora que encontrei, achei a Graciosa que eu fui a ter aula com ela. Daí eu conheci a Tioko também, que trabalha no SESC. Bom, a Graciosa ela teve um problema que o marido dela morreu, que era um argentino, que ele foi assassinado aqui por negócio de, quando ele foi no banco tirar um dinheiro, uma coisa assim. E ela mudou de cidade; daí então fiquei com a Tioko, com a Tioko trabalhei também, fui ter aula com o Henrique, Henrique Sch... não sei o nome dele direito (risos) e várias pessoas assim. Daí comecei a fazer parte de um grupo que foi crescendo e hoje, deu uma parada na época, naquela época lá que o meu irmão morreu, tudo, me afastei um pouco e hoje ta retornando esse grupo. Eles estão se reunindo e estão, nós fizemos uma exposição, aquela exposição que você viu do, que foi na Livraria Cultura, mas na parte de fora. Eu fiz um trabalho que era o pássaro, o imaginário e a borboleta peluda dentro do bambolê (risos). E depois disso teve a Tenet que eu fiz o sonho do xamã, que é esse outro trabalho.


P/1 – Como que é esse sonho do xamã?


R – Sonho do xamã é também num bambolê, tem um touro com tecido, depois tem o pan, tem vários elementos, tem a raia fantástica que a raia fantástica é tipo de um peixe que ele fica assim onde os índios vão fumar, vão ter suas visões ele fica assim do alto; e tem a cobra de duas cabeças. Aí eu teci numa técnica que chama kumihimo que é uma trança japonesa. E esse trabalho teria que ser maior parte preto, só dez por cento branco; acho que eu ultrapassei um pouquinho os coloridos (risos).


P/1 – (risos)


R – E depois desse trabalho agora estão fazendo essa exposição na Livraria Cultura que é dentro da Livraria, que são essas dos bichinhos de pano e tá programado outras exposições agora, uma para outubro, aí já de grupo. Ah, e fizemos outra também que foi da, que eu fiz a mulher rendeira que era sobre a mulher, sobre o Dia da Mulher, nós fizemos; então cada uma escolheu um tema e eu escolhi a rendeira. Também ela tá em diversos bambolês, cada pedaço do bambolê é uma técnica diferente e por baixo tinha posto um espelho para ver a parte de baixo (risos), né, que era tecida de outro jeito.


P/2 –Eu queria que você falasse um pouco daquela tua técnica que você me contou sobre o…


R – O tear de papel?


P/2 – Exatamente.


R – O tear de papel eu aprendi com uma amiga minha no Chile porque eu tenho um namorado chileno, a maior parte quando eu vou para lá eu fico muito no Museu Pré-Colombino, essa minha amiga trabalha no Museu Pré-Colombino. A gente entra em lugares que normalmente ninguém entra (risos), então a gente vê coisas assim, vê nos tecidos peruanos, aquelas coisas que estão guardadas lá. Bom, aí ela falou que tinha uma técnica que se faz uns furinhos assim no papelão e depois você faz uma armação e você tece ali. Aí eu fui pesquisando, ampliando isso aí. Então dá para você fazer, no vídeo até aparece eu trabalhando, eu fiz um peixe grandão assim. No papelão eu faço um alinhavo ida e volta e depois eu vou pondo uma urdidura e vou tecendo; só que a urdidura já não preciso mais fazer assim, assim, eu posso ir para qualquer canto que eu quiser. E o que que eu vou fazer de urdidura, que a urdidura seria assim, por exemplo, numa casa seria o alicerce e a trama seria, por exemplo, o tijolo que passa, que fica. Aí eu pensei assim: “Eu vou pegar tudo que a gente tem na memória do trabalho têxtil.” Então vamos ver: você sabe fazer macramê? Pode por ali, faz macramê, você pode usar ele tanto na urdidura quanto na trama. Macramê, crochê de dedo, várias técnicas, pode bordar também. Então você vai trabalhando em diversas direções, depois você pode tirar. Você pode ou deixar ele no papel ou tirar do papel. Mesmo agora eu to fazendo em acetato que dá transparência e trouxe aí uns bichinhos que eu fiz em acetato que dá para você pregar nas roupas assim.


P/1 – Você comercializa seu trabalho?


R – Hã?


P/1 – Você comercializa seu trabalho, seu trabalho é vendido?


R – Vendo, vendo, mas assim mais em exposições, coisa assim. Eu tenho dificuldade para vender, não vendo assim com facilidade, não sou uma boa vendedora (risos).


P/2 – Quando você trabalha em casa, Lala, como que é sua rotina de trabalho?


R – Ah, levanto cedo. Às vezes tô lá deitada, penso numa coisa, enquanto não levanto não sossego, enquanto não vou lá fazer aquilo que eu imaginei, pensei (risos) aí eu vou e faço lá. Quer dizer, eu fico muito pouco tempo no computador porque eu acho que se eu ficar sentada no computador não vai dar tempo de fazer o que eu quero (risos). Então eu faço pesquisas de diversas partes do mundo, tenho uma biblioteca muito boa; então tem tecelagem praticamente do mundo, principalmente América Latina.


P/1 – E você faz o que, além do seu trabalho, o cotidiano assim, gosta de ir no cinema, teatro, cultura assim?


R – Olha, a maior parte fico trabalhando mesmo (risos), difícil sair.


P/1 – E faz essas reuniões familiares, participa delas?


R – É, domingos, não dispenso um domingo em casa porque vai juntar. Porque às vezes a gente não tem oportunidade de ver, um ta trabalhando, outro não sei o que, então domingo é a hora que a gente tem para se encontrar. Ah, e outra coisa, eu trabalho também de manhã chega cinco horas também vou parando e já ponho para ver novela porque é a hora do descanso, que senão eu fico trabalhando, se deixar (risos). Às vezes eu to fazendo um negócio, me chamam para almoçar eu falo: “Almoçar? Não queria, queria acabar aquele negócio que to fazendo, sabe?” Então agora eu tô, tinham uns bichos que era para exposição não deu tempo, mas vai entrar agora em outra exposição, então eu to fazendo lá, tem uma série de bichinhos que eu to fazendo, ta em andamento.


P/2 – Esses bichos vieram de onde, qual foi a inspiração para fazer esses bichinhos?


R – Bom, a minha sobrinha tinha uma grife que é a Monstro; então ela já tinha os desenhos estampados dos bichos que ela mandava estampar, não sei o que, o que ela fazia e depois eu fazia os bichinhos, esses de pano. Agora, eu sempre fiz esses bonecos, os meus brinquedos a gente fazia e vestir boneca assim que a gente tinha aquelas bonequinhas de celulóide quando criança ou de louça, então eu fazia roupinha. E na época tinha muita costureira porque não tinha loja com a roupa feita; então sobrava muito trapinho. Eu juntava um saco, punha do lado e ficava costurando, eu e minha vizinha ficava conversando e fazendo as roupas das bonecas. E acho que vem desde lá que a gente fica fazendo essas coisas, né (risos)? Agora, os bichos aproveito também para pôr tudo para fora, todas as loucuras que (risos), tem bicho que eu nem sei o que é. Então ponho assim: animal em extinção, coisa assim (risos).


P/1 – Olhando sua trajetória de vida a gente deve ter vários assuntos, com certeza, que a gente nem tocou; até fica aberto para você voltar e se você quiser deixar registrado alguma coisa agora aqui e voltar. Mas, pensando nessa sua trajetória de vida, se você pudesse mudar alguma coisa na sua vida você mudaria?


R – Olha, o que eu to tentando é ser mais organizada, tentando organizar mais o espaço e tudo, que é muito difícil; cada vez que você vai fazer uma coisa você desmonta tudo, depois você monta de novo, para montar às vezes fica complicado, mas eu acho que eu não mudaria grandes coisas, não.


P/1 – Qual o seu maior sonho hoje, tem um grande sonho?


R – Eu acho que não.


P/1 – Quê que você achou da experiência de dar esse depoimento pro Museu da Pessoa?


R – Eu achei bom. E o que que você achou (risos)?


P/1 – Eu achei maravilhosa.


R – Vamos fazer assim, a hora que vocês quiserem ir para minha casa porque tem muita coisa que eu acho que não é de falar, tem que ver, né? Então, se puderem ir estão convidadas.


P/1 – É um prazer. Obrigada, queria te agradecer.


R – Uhum.


P/2 – Obrigada.


[Continuação da entrevista]


P/1 – Fala dessa sua avó cabocla?


R – Minha avó ela tinha um pito de barro, ela fumava e ficava de cócoras, sempre sentada de cócoras fumando e ela lia a sorte também pela borra do café. Aí não gostava muito não, meu pai: “Ó, lê sorte”, essas coisas. E ela conhecia muito plantas medicinais; então ela fazia, todos os remédios dela era baseado em plantas.


P/1 – Ela é mãe do seu pai?


R – Mãe do meu pai.


P/1 – E a sua mãe não gostava que vocês tinham muito contato com ela?


R – Não, não é assim que não gostava que tinham contato, que eu achava que é assim, que a educação que ela queria era mais… Por exemplo, você não pode pisar na terra, vai pegar um verme, qualquer coisa; chegava lá a primeira coisa: “Tira esse sapato, não sei o que, vai no mato” (risos). Meu avô brincava também, ele tinha uma carroça, fazia de burro, puxava a gente na carroça. Ia fazer moinho no córrego com limão, esperava os negócios, fazia um moinho, brincava com a gente também. E ela fazia aquele pão maravilhoso naquele forno de, redondo assim de barro; fazia aquele pão, fazia um café bem forte. Minha mãe falava assim: “Não toma café”, eu pegava e tomava aquele café bem forte (risos), tudo que falava: “Você não vai fazer”.


P/1 – Ela fazia?


R – Você fazia.


P/1 – E vem cá, ela lia a sorte para vocês?


R – Para mim, não, era mais lá as pessoas que ela lia. Mas assim, sempre cresci.


P/1 – Ela lia para fora?


R – É, mas assim meio, né (risos)? E então eu já cresci com esse pensamento; então gosto muito de ver assim no tarot, não sei o que, eu gosto também das figuras.


P/1 – Você aprendeu a jogar tarô?


R – Então, tem um que eu jogo que é o mahjong, que é um adivinhatório chinês. Esse, quando eu tava fazendo uma exposição na Livraria – na Livraria, não – na Livraria Francesa eu vi esse livro e eu me interessei. E ele então tem assim uma carta que você põe no meio que é a pergunta qual é o seu problema? Ele não vai falar: “Olha, você vai arranjar isso, vai arranjar aquilo”; não, não é isso. É uma coisa mais assim, vai falar coisas para você ligar uma à outra e você mesmo associar as suas coisas; então a posição é norte, sul, leste, oeste, cada um tem um significado. O leste é associado a você e à primavera; depois vem o verão, que também é associado ao fogo; então estão os elementos e as estações do ano. Então você põe três cartas aqui, três cartas aqui, três outras cartas aqui que é, de acordo com a sua pergunta, o seu objetivo. Essa está direto ligada a você; então leste-oeste, oeste e norte, o norte seria aqui, então seria mais ou menos isso. Então você tem um modo de ler que você lê primeiro a um, depois a dois, não, a três depois você lê a dois, a do meio. Então essas é associada a você, então vai falar sobre a sua personalidade e o que tá relacionado àquela coisa. E são todos simbólicos, não é uma coisa assim direta, você tem que pensar e imaginar o que que pode ser aquilo.


P/1 – Mas você tem, isso assim tem um modo de ler, mas você tem alguma coisa em você que você desenvolve sensitividade?


R – Olha, é mais assim.


P/1 – Tipo, voltando atrás assim, para localizar a minha pergunta. Lá atrás você falou assim até um pouco antes de você ser internada que você tava adivinhando coisas.


R – É, mas assim.


P/1 – Qual que é a relação que tem com isso?


R – Aí mais em função da coisa que eu tinha passado de remédios e tudo; então eu tava muito agitada, muito elétrica, muito coisa assim. Mas assim normalmente eu gosto de ter um ambiente; por exemplo, as flores são muito importantes para mim, tanto as plantas, flores, até em casa eu conservo um jardim que eu considero ele como uma oração. Então ali vai ter as cores, que eu acho que são mais importantes; por exemplo, no domingo vai todo mundo almoçar antes eu to vendo as plantas, o que que ta, se uma ta morrendo, não sei o que, ela vai lá para ser tratada, ela sai de lá e eu ponho uma outra no lugar mais forte, aquelas que tão nascendo, aquelas que tão brotando. Então se tem um amarelo, se tem um branco, um azul, uma coisa assim tem todo um sentido. E tem muito uma coisa assim trevo de quatro folhas, alecrim, arruda, todas essas, todas de cheiro, várias e eu gosto de fazer isso. Eu acho que dá uma coisa, uma energia boa para casa. Eu, às vezes, sonho muita coisa, por exemplo quando o meu irmão morreu sonhei com ele; eu sonhei que a gente tava muito preocupada em saber quem matou, por que, não sei o quê. Então ele vinha falar comigo e primeiro ele fazia uma brincadeira; quer dizer, vinha como se fosse um arauto, não sei o que, é um arauto, não, é ele, depois ele vinha. Daí eu falava assim: “Você está sozinho?” Ele falava assim: “Até agora não me foi possível estar com ninguém, eu to sozinho, mas eu morri jovem e vou permanecer jovem até a eternidade. E eu não morri”, porque ele morreu na véspera de Natal. “Eu não morri esse dia, eu morri”, falou uma data que ele morreu. Bom, e depois ele falava assim, vinha um negócio assim, como fosse um profeta me dizer: “Capítulo quinto, versículo não sei o que”, é uma coisa de Bíblia. Eu não costumo ler Bíblia e falava tal, tal, tal. E eu fui ver o que que era; era “Não matarás”, São Mateus. E era assim: “Você pegue a luz que está debaixo e leve para que ilumine todos da casa. Bendiga o trabalho do Senhor que está no céu”. Então eu entendi que era para deixar de lado aquela coisa do moço, quem matou, e procurar fazer algum trabalho que, para ele, que seja uma homenagem para ele mostrar o trabalho dele que quem tava no céu era ele. Então, aí eu fiz todo um cenário, figurino para peça que ele fez, Cipriano Chantalan, que é uma história de amor que ele escreveu com 19 anos. Então eu fiz uma série de bambolês, era primavera, outono, inverno e tinha a vitória-régia. As pessoas que entravam viravam as flores, é meio Alice também no País das Maravilhas, uma mistura assim.


P/1 – Você chegou a usar, desenvolver?


R – Fizemos isso, fizemos essa peça.


P/1 – Fizeram?


R – Ela ta até tem em vídeo essa peça e tudo assim.


P/1 – Essa foi a homenagem?


R – As saias. Foi homenagem, que era assim tinham um trabalho que eu tinha que fazer para ele e eu fiz. Aí quanto à data, quando tavam fazendo o julgamento lá do moço, tudo, caiu um livro da estante do Luis que tinha exatamente essa data que foi quando ele foi na loja que o moço trabalhava que ele comprou eu acho que o livro, sei lá, acho que foi quando ele conheceu o moço.


P/1 – Como que foi a história do assassinato?


R – Ele foi assaltado na casa dele. Ele assim que abriu a porta levou uma cacetada na cabeça e ele foi encontrado amarrado com fios elétricos, pelado; fios elétricos, todo amarrado, levou mais de cem facadas, destruíram o cérebro dele. Ele tinha um monte de presente de Natal, tinha papel de presente até no cérebro; quer dizer, é uma história assim pra. E outra coisa, pegaram um moço e o outro fugiu, quer dizer, o outro era menor e ninguém sabe, ninguém viu. O moço se diz inocente, saiu uma reportagem agora há pouco tempo dele, ta numa revista, até eu tenho em casa, que ele se fala que ele foi injustiçado, que ele foi pato, só que tinha sangue do meu irmão na casa dele, na bolsa dele que ele roubou do meu irmão.


P/1 – Mas seu irmão conhecia ele?


R – Então, era uma pessoa que frequentava ali, que conhecia porque essa livraria, livraria não sei que lugar que é que trabalhava nesse lugar, ele tava rondando a casa, então. Agora ele não tinha um encontro marcado, a gente acha que ele não tinha um encontro marcado com esse moço, por quê? Porque ele tinha marcado um encontro no banco, com o gerente do banco. Então, têm uma série de coisas assim. E isso me deixa muito magoada, quer dizer, agora já fazem, ele morreu em 1987; então o moço foi condenado a 26 anos, disse que ele já está saindo da cadeia. Mas é engraçado porque eu acho que se ele – se é que ficou preso – porque diz que ele casou, tem dois filhos.


P/1 – Você acha que vai embora?


R – Hã? É. Tem que ir, né?


P/1 – Você tem que ir.


R – Então ele tentou matar até a mãe, esse moço.


P/1 – Nossa!


R – Agora assim ta escrito nele O Matador, escrito em inglês. E ele – como é que fala – diz que ele ta fazendo, fez Odontologia, ta trabalhando como protético – eu que não ia nele, mas nunca. E outra coisa, diz que ta fazendo Direito para provar a inocência.


P/1 – Nossa Senhora.


R – Amém, isso aí é o fim (risos).

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