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História

Desde pequena, Fran sempre teve facilidade para fazer amigos

História de: Franciele França Mattos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/10/2014

Sinopse

Franciele conta do preconceito que sofreu quando teve um aborto natural a ponto de sentir um alívio ao saber que tinha um câncer no útero, pois assim não era sua culpa ter perdido a criança. Hoje fala também da sua parceria como marido.

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História completa

Meu nome é Franciele França Matos, nasci em Chopinzinho, no Paraná, em 31 de janeiro de 1985. Eu e a minha mãe cuidávamos da nossa casa, cuidávamos [da casa] da irmã mais velha, da casa do meio, lavávamos pra todo mundo, cozinhávamos, cuidávamos das crianças. Então eram cinco e daí tinha mais a minha tia que já deixava lá, então eram seis crianças.

O meu trajeto era ir pra escola, voltava da escola, daí a gente dividia tipo assim: “Ah, hoje tu quer limpar a casa de quem, Leli?”. Eu olhava de qual estava menos bagunçada. Então claro que eu escolhia aquela (risos). Ela me dava essa oportunidade. Ou às vezes ela falava assim: “Tu quer lavar a louça ou tu quer cuidar, digamos assim, da Bruna, do Rodrigo?”. Eu olhava, ainda falava assim: “Ah, tem pouca louça. Hoje eu prefiro lavar a louça” (risos). Porque senão era muito mais tempo pra ficar cuidando. Ou senão eu trocava, se eu queria assistir desenho, eu falava: “Ah, eu vou cuidar deles”. Mas: “Tu cuida bem, Leli, senão tu vai apanhar” – minha mãe falava. Porque ela era muito boa, mas ela também era firme assim no negócio. Ela falava: “Se eu ver essas crianças chorando, Leli, tu vai apanhar”.

No mesmo terreno, é aquela história “junto e misturado”, porque eles ficavam o dia inteiro em casa, ficavam à noite, e às vezes até pra dormir. A parte que eu mais gostava era da noite, depois das nove da noite todo mundo já tinha jantado, todo mundo tinha ido embora, daí ficávamos eu e minha mãe. Então eu tinha bonecas que eu ganhava das minhas irmãs, e a minha mãe me ajudava, nós lavávamos as bonecas, ela passava escovinha de dente todinho pra poder deixar bem limpinho entre os dedinhos das bonequinhas. Até hoje ainda, a gente tem um pouquinho de ciúme... Colocava todas em cima da cama, e arrumava uma por uma, todas com as roupinhas. Porque as crianças gostavam de pegar. Eles tinham os brinquedos deles, mas gostavam de pegar das minhas. Às vezes eu escondia, ou o que eu podia deixar pra eles brincarem, eu deixava, mas depois a gente lavava tudo de novo pra não deixar sujo. Mas era bem bom, foi uma época bem boa assim.

Eu sempre gostei de ter muito amigos. Nossa casa sempre foi muito cheia. Daquela história de infância, de ser gordinha, que me incomodava na escola, que era quietinha, [quando eu fui pra minha adolescência] nessa época, eu já era bem popular, não por ser “ah, a menina bonita”, mas, tipo assim, de fazer amizade muito fácil. Eu sempre andava muito na casa da minha madrinha, tinha meu primo, e ele só tinha amigos meninos, então eu andava igual a eles. Nunca fui de andar bem arrumada, sabe? Sempre gostei de andar de bermudão, “tenisão”, bem largadona. Então eu fazia amizade fácil. Na escola também, alguma coisa que tinha pra resolver, eles falavam: “Ah, vamos pedir pra Fran, que a Fran sabe”. E eu não sabia nada, mas só pela responsabilidade, eu falava assim: “Não, pode deixar que eu vou dar um jeito pra ti, eu vou conseguir”. E, sabe, sempre dava certo (risos).

A gente acha que não pode, tem medo, e que nada. Quanto mais tu vai avançando, tu vai vendo que tem um potencial, que é capacitada pra fazer aquilo. Então eu trabalhava na padaria. E minha tia falou: “Ah, Fran, queria vender esse freezer, porque ele tá aí parado, nem uso mais pra não gastar energia. Tu não quer comprar?”. Eu: “Mas o que eu vou fazer com um freezer?” Eu sempre naquele negócio de “não”. Daí cheguei a casa, me veio aquela ideia: “Por que não faço salgadinho pra vender?”. Eu falei com o meu marido: “Sale, vamos pegar o freezer da tia pra fazer salgadinho? O que tu acha?”. Ele: “Ah, não sei, tu que sabe, se tu quiser, vou falar o que pra ti, se é tu que trabalha com isso, se tu gosta”. Eu: “Ah, eu gosto, mas tu acha que é prudente?”. Ele bem assim: “Se tu quiser, eu te ajudo”. Falei: “Ah, então vamos pegar o freezer”. A gente começou a fazer salgadinhos e começou aparecer encomendas. Eu não sabia fazer preço, porque era uma coisa que eu gostava de fazer. Nem sabia: “Ah, eu gastei tanto, tenho que ganhar tanto”. Eu chutava um preço. Daí a mulher falou assim: “Quanto dá um bolo? Um bolo grande, quadrado”. Eu: “Ah, de uns três, quatro quilos? Vai dar em torno de uns 53 reais, 57, porque tu quer o papel comestível”. E o papel, eu sabia que custava sete reais na padaria onde eu trabalhava. Ela: “Então pode ser”. Fui atrás de comprar as coisas, gastei 50 reais pra fazer o bolo. Porque eu não podia chegar: “Ah, me dá meio quilo de açúcar, 400 gramas de açúcar”. Tinha que comprar um pacotinho, né? Mas ainda ganhei sete reais. Não, ganhei três reais, porque ainda tive que pagar o papel. Eu: “Sale do céu, olha só Sale, o meu lucro. Eu ganhei sete reais e ainda tenho que tirar o do papel. Meu Deus, tenho que aprender a fazer preço”. Foi o primeiro bolo, assim, de encomenda. Nossa! Entregar aquele bolo foi um orgulho.

Daí eu engravidei, tive uma gestação e acabei tendo um aborto. Nossa, comecei a me lembrar das vezes que o espírito santo falava assim pra mim: “Mesmo que o teu mundo desabar, confia no amor de Deus”. Porque mesmo acontecendo aquilo comigo, eu tinha que ter certeza que Deus me amava. E eu falava: “Poxa, que difícil isso. Ah, meu Deus, e agora?”. 

Foi pra mim a dor mais difícil que eu tinha passado. Mas quando tive o aborto, meu sogro falava assim: “Meu Deus, um só. Tantas mulheres que têm um monte de filho abandonam... E pra ti, nenhum. Não conseguiu ter”. Foi difícil, porque fora aquilo ali, ainda ficar... Daí me ligaram da maternidade: “Tu tem que vir fazer um exame”... Falei: “Não, eu acabei de fazer uma curetagem, faz uma semana” “Pois é, mas é que deu um probleminha no exame”. “Quando é?”. “Quarta-feira”. Nossa, eu já juntei, que as quartas ela [paciente do mesmo quarto] fazia tratamento pra retirada [de miomas do útero]. Daí foi mais um baque. Mas pra mim esse baque foi um presente de Deus, foi tirar aquela minha responsabilidade. Porque a primeira coisa que você pensa quando tu perde é que realmente tu tem um útero que não vale nada (choro). E os outros também (choro). Então quando cheguei ao consultório tinha uns oito médicos, eles falaram: “Olha, a gente vai ter que fazer um tratamento, porque tu tá com câncer no útero”. “Então a culpa não foi minha”. “Tu tá ouvindo o que eu to falando? Tu tá com câncer no teu útero”. Eu: “Mas não foi culpa minha. Não morreu”. Ela falou: “Não, mesmo que tu levasse a gestação até o nono mês, tu não ia ter... Eu: “Isso daí pra mim não faz mal, porque o pior já aconteceu na minha vida... não vai voltar essa criança. Isso daí é um detalhe pra mim, é um presente... é um presente saber que eu não sou a culpada”. E na verdade isso foi de Deus pra eu não precisar ficar com aquela culpa, porque depois eu fui curada. Não precisei fazer radio, e sumiu. Sumiu, assim, sumido, sabe?

[Fazer essa entrevista] me fez lembrar de coisas boas, umas nem tão boas, mas que marcaram bastante, que na verdade vai ser sempre, porque é a minha história. E pra mim é um testemunho, que eu vou contar pra minha filha, quando eu tiver, né, desse pedaço que eu já passei.

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