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História

Desde criança, entre as panelas e as agulhas

História de: Odete Maria dos Santos
Autor:
Publicado em: 26/10/2014

Sinopse

Odete Maria dos Santos conta histórias engraçadas do marido e fala sobre os cuidados do pai, além da superação da doença do filho que teve leucemia.

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História completa

Meu nome é Odete Maria dos Santos, nasci em Getúlio Vargas, no Rio Grande do Sul, em sete de julho de 1956. O meu pai até os meus sete anos, mais ou menos, ele foi agricultor, trabalhava no interior. Depois ele veio morar pra cidade. Minha mãe trabalhava em casa. Depois de um tempo ela começou a vender Avon. Vendia muito bem Avon naquela época.

Eles estavam numa festa, antigamente chamavam de matinê, era uma área dançante. Ali eles se conheceram, nem sei se dançaram ou não dançaram, mas começaram a conversar. Daí minha mãe tinha que ir pra casa, porque naquela época morava no interior, tinha que fazer os afazeres da casa. Então meu pai foi acompanhar a minha mãe até um pedaço, até na entrada da propriedade. Chegando lá, ele olhou pra ela e disse: “Você quer me namorar, me namora, senão pra mim tanto faz”. Até hoje, ele já faleceu, mas a gente brincava muito com ele com esse negócio de “quer me namorar, me namora, senão pra mim tanto faz”... Meu pai e minha mãe iam trabalhar na lavoura, então eles me levavam junto, me colocavam numa sombra, naquela época tinha aquele cesto de balaio, pra colocar o milho quando quebrava. Me colocavam dentro daquele cesto, eu ficava embaixo de uma árvore.

Eu pegava três tijolos, fazia um cercadinho, ia catar uns gravetinhos, coisa assim, pra fazer o fogo, daí pegava um pedaço de lata ou uma tampa velha de panela, colocava em cima, colocava fogo. Daí pegava a latinha de milho, de ervilha, de sardinha, que naquela época tinha sardinha de latinha, ia lá dentro de casa, pegava da mãe feijão, arroz, tudo que dava pra cozinhar, ia lá, colocava em cima daquela coisa e ficava brincando de fazer comida. Também teve a época que a minha mãe fazia roupa de lã, porque lá no Rio Grande do Sul é frio. Naquela época também não tinha tantas condições, tinha a agulha de fazer o tricô, e como não tinha pra mim, eu pegava uns pregos grandões, pegava um pedaço de fio de lã e ficava passando de um prego pra outro. Foi ali que eu aprendi também. Então tem a parte da culinária e a parte do artesanato. Na verdade, eu sou dos dois.

Eu estudei até a sétima. Nós estudávamos na sétima série, daí quando terminava a última aula, nós saíamos, passávamos a mão na pasta, na mochila, e corríamos a um café. Lá nós jogávamos dominó e tomávamos caipirinha, tanto é que naquele ano eu reprovei (risos). Também mais falta que presença na sala de aula. Então eu reprovei naquele ano.

O Ademar nunca foi muito de estudar, então ele resolveu fazer, hoje chama EJA, naquela época era a Feplam. E, a minha mãe também resolveu estudar. Ali nós estávamos começando a namorar. Então o Ademar e a minha mãe estudavam na mesma sala de aula, não sei o que a minha mãe falou lá, e o Ademar respondeu pra ela assim: “Ah, vá pra casa cuidar do teu marido”. Dali uns dias, nós saímos do serviço, ele foi me levar pra casa. Quando chegou à frente de casa, minha mãe sai à porta, ele diz: “Não acredito que essa aí é a tua mãe”. Eu: “Pior que é”... Depois ele me contou a história: “Eu a mandei ir pra casa cuidar do teu pai”... Depois ele foi para o quartel, voltou, daí eu engravidei do meu filho... Ele chegou lá [em casa] seis horas da manhã, porque meu pai levantava cedo e saía pra trabalhar. Ele tinha a bicicleta, colocou a bicicleta já pronta pra sair. Entrou, começou a conversar com o meu pai: “A Odete tá grávida, coisa assim, o que dá pra gente fazer?”. Ele disse: “Casar. E aquele quarto do meio – que lá na minha mãe tinha três quartos – pode ajeitá-lo pra você, pode pintar e morar aqui”. Daí, casamos...

De manhã foi o casamento no civil, e de tarde foi o casamento na igreja. Nesse intervalo das dez da manhã até às cinco da tarde, o meu marido, como era festa, resolveu tomar um pouquinho... Ele disse que foi casar meio tonto, então nós tínhamos um padre, que hoje já é falecido, o padre Estanislau, na hora que casamos, na hora dos noivos se beijarem, como ele tava mais pra lá do que pra cá, me deu o beijo e não soltava. O padre olhou e disse: “Continuai sempre assim”. Que de certo ele achou bonito aquele gesto dele. O padre também não sabia o que tava se passando (risos).

Então eu lembro que o meu pai, naquela época tinha lenha, hoje em dia não pode mais desmatar. Naquela época ainda podia. Meu pai vinha com aqueles carrinhos de pedreiro, de mão. Ele enchia um saco de lenha... Ele enchia esse saco de lenha e levava lá pra fazer fogo pra esquentar a casa (choro) porque era muito frio. E como tinha o filho doente, então tinha que aquecer a casa (choro). Às vezes ele levava comida também (choro). Isso é uma coisa que me marcou muito também do meu pai, pela dedicação dele, sair no frio, ir lá levar lenha pra gente... Porque não tinha condições de comprar lenha.

Eu tinha 23 anos, praticamente, quando saí de casa, já tava casada há um ano, já tinha um filho... Como [meu marido] era policial, muitas vezes eles transferiam pra outra cidade... Cada vez pra um lugar. Eu acho que fiz umas 15 mudanças. Mudando de lugar em lugar. Daí eu comecei a fazer cursos, fiz curso de artesanato, fiz curso de culinária, sempre fui procurando me aperfeiçoar dentro das duas áreas, porque eu amo artesanato e amo a culinária. Eu trabalho com tecido, eu me apaixonei pelo patchwork. Meu Deus, eu amo aquilo lá!

O meu mais novo, o Alison, com oito anos nós descobrimos que tinha leucemia. Ele veio se tratar aqui em Joinville... O tratamento em si foram cinco anos. Ele ficou bem, graças a Deus tá curado. Hoje tá com 22 anos. Graças a Deus conseguiu! Essa foi a maior vitória que eu tive na minha vida. Quando ele tava com 16 pra 17 anos, os meus três filhos convidaram ele pra vir trabalhar também na mesma empresa. “Eu só vou pra lá se o pai e a mãe forem”. Daí fazer o quê? O pai e a mãe largou tudo lá. Largou tudo é modo de dizer. Tinha casa, vendeu casa, tudo lá, e veio morar pra cá por causa do filho.  Eu sou apaixonada por Joinville.

Daí tá, que eu faço pastel assado pra vender. Então eu fiz, elas foram lá, comeram, gostaram: “O que tu achas, Odete?”. Eu disse: “Quer saber de uma coisa? Eu posso tentar. Vamos fazer assim: 30 dias. Se eu achar que pra mim dá, eu gostar, eu fico, senão eu dou lugar pra outra”. E dia quatro de março do ano passado, fez um ano agora, que eu comecei no Espaço Solidário e estou aqui até hoje. Adorei. Adoro, adoro, adoro vir pra cá. Adoro!

Foi ótimo, foi ótimo [contar minha história]. Porque a gente começa a relembrar coisas do passado que às vezes tá lá dentro guardado, mas você no dia-a-dia não comenta, porque muitas vezes o assunto não interessa pra certas pessoas, daí então você fica guardando pra você. Hoje eu abri meu coração, eu contei coisas que sei lá se eu contaria ou não pra outra pessoa. E todo mundo tem uma luta na vida.

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