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Desconfio que Freud estava certo

História de: Tiago José de Sousa Filho
Autor: Tiago José de Sousa Filho
Publicado em: 03/07/2008

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História completa

Psicologia (quase três anos), conservo uma das lições que insistem em não sair da minha mente e que eu tento negar: a de que as venturas e desventuras da infância se refletem ou se instalam nas ações que se realizam ao longo de nossa existência. De modo inconsciente – usando a terminologia do mestre – estamos repetindo e imprimindo, ao longo da nossa vida, de uma forma ampliada, os acontecimentos que tiveram lugar na nossa feliz ou malfadada infância.

Eu me considero uma farsa por não saber exatamente o que sou ou em que especialidade profissional eu me enquadro. Arte abstrata? Conservo em casa algumas telas da fase em que tentei ser pintor. Literatura? Meu micro está repleto de textos e poesias do meu tempo de escritor. Por alguns anos fui – acredite– professor de Inglês e de Hebraico.

Conversando com as pessoas, geralmente eu digo que ainda estou na crise vocacional – apesar de estar quase me aposentando. Mas, para que entendam onde quero chegar, permitam-me contar o meu drama desde a minha gestação. Se é que isto é possível. Meu pai, casado havia pouco tempo (1950) morava no então chamado Acampamento Federal de São Gonçalo, mas trabalhava numa minúscula hidrelétrica que aproveitava a água represada do açude de um lugarejo chamado Boqueirão de Piranhas. Distavam cerca de 30 quilômetros um do outro, São Gonçalo de Boqueirão. Ele era o responsável por ligar e desligar a energia que alimentava o pequerrucho povoado de cerca de três mil habitantes. Ainda havia uma linha de transmissão que ia até São Gonçalo, lugarejo um pouco maior do que Boqueirão.

Todas as noites, nove horas em ponto, o gerador era desligado para poupar a única e sofrida turbina daquela casa de força. O que tivesse de ser feito depois desta hora teria de ser à luz de candeeiros (as velas só eram usadas nas procissões). Eu me lembro que nas poucas horas da noite em que víamos as luzes incandescentes acesas, elas tinham um brilho fraquinho e trêmulo e ficavam variando a intensidade da luz. Eu, o primogênito, nasci em São Gonçalo, em 1952, mas com poucos dias de nascido já fui levado para o distrito de Boqueirão, cujo administrador conseguiu uma casa para que meu pai pudesse morar onde trabalhava.

Boqueirão era distrito da cidade de Cajazeiras e, por conta deste fato, meu registro foi efetuado nessa cidade. Um detalhe: meu pai chama-se José Laurindo de Sousa (está com 84 anos) e eu fui registrado Tiago José de Sousa Filho. Vou explica o porquê do acréscimo. Quando meu pai disse para o escrevente do cartório o nome da criança - “Tiago José de Sousa”-, o escrevente perguntou: - É filho? Meu pai respondeu: - É. O escrevente perguntou se “Filho” era a continuação do nome e meu pai interpretou que ele estava perguntando se eu era seu filho. Assim é que eu fiquei com este acréscimo como se meu pai também se chamasse Tiago José de Sousa.

Na empresa onde trabalho hoje, em Brasília, são trinta e cinco Tiagos, com a idade variando entre 19 e 25 anos. Parece que o nome adquiriu status e charme bem depois, mas na minha época este meu nome era um desastre. Horroroso. Para começar não conheço ninguém com a minha idade que tenha o mesmo nome que eu. Aliás, alguns até perguntavam se isto era nome de gente, provavelmente desconhecendo que na antiguidade houve vários santos meus xarás. O nome era uma festa para a molecada dos grupos escolares por onde passei. A palavra Tiago facilitava para o estoque de apelidos que vieram ao longo da infância. “Quiabo”, “Piaba”, “Tilápia”, “Ticaca”, sem contar com o fato de também ser xará do Coisa-Ruim, “Diabo”.

Eu tinha quatro anos quando meu pai foi novamente transferido para São Gonçalo e foi lá que comecei a freqüentar o Grupo Escolar José Augusto Trindade. A minha alfabetização em casa foi eficaz porque antes mesmo de ter contato com as professoras eu já lia tudo. “Esse menino é o cão”, era o honroso elogio da professora, dona Nilza Lira. Pelo fato de Tia Iracy (irmã de minha mãe que nunca se casou) ser uma eficiente professora, na metade do segundo ano primário fui mandado para sua casa, local onde funcionava a escola. Ela recebia o pagamento (quando recebia) pelo município de Cajazeiras, cuja prefeitura, segundo dados, não dispunha de verba suficiente para a construção de uma escola. A classe era mista: alfabetização, segunda série, terceira, quarta, tudo na mesma sala. Só tinha um porém. A casa dela ficava em Boqueirão. Por conta disto lá fui eu de mudanças para o meu novo posto de aprendizado, longe de casa.

Nas férias escolares, depois de ter cumprido no Grupo Escolar Estevão Marinho o terceiro ano, em 1961, lá estava eu de novo em São Gonçalo e minha mãe decidiu que eu não estudaria lá. E por quê? Eu ia cursar a quarta série primária, e Maria das Neves, a professora desta classe, era uma jararaca, famosa por aplicar “reguadas” (golpes de régua) na cabeça dos “burros”, dos “tapados”, dos que não tinham facilidade de “desarnar” (desenvolver o aprendizado). Maria das Neves, num tempo em que ninguém sabia o que diabos era direitos humanos ou crime de discriminação, era famosa também pelos apelidos que punha em seus pupilos: “Sebo Preto”, “Caju Baiano”, “Tambor de Piche”, “Arroz Doce”, “Maria Sebito”, “Anu Preto”.

Tinha a voz rouca e estrondosa. Seus acessos de fúria deixavam qualquer criança paralisada de terror. Em 1963, tive a “felicidade” de ser seu aluno cursando o Admissão ao Ginásio. O fato é que foi decidido que eu teria de estudar novamente com Tia Iracy. Como ela havia se mudado para Cajazeiras, lá fui eu para Cajazeiras. Lá, a coisa já estava bem mais adiantada. No início de 1962 (ano em que o Brasil ganhou a Copa do Mundo pela segunda vez) fui matriculado na quarta série no Grupo Escolar Monsenhor Milanês. Reconstruindo: Alfabetização, primeiro ano e a metade do segundo ano primário em São Gonçalo; metade do segundo ano em Boqueirão; terceiro ano em São Gonçalo e o quarto ano em Cajazeiras.

Cursei quatro anos no Ginásio Comercial Guimarães Duque em São Gonçalo – curso avançadíssimo para o distrito, implantado pela fundação Padre Ibiapina, com sede em João Pessoa. Para concluir com chave de ouro, queríamos fazer uma excursão - que realmente fizemos - para Salvador, e para angariar fundos valia tudo: sorteios, bingos, rifas, livro de ouro, promoção de bailes. Enfim, 1966 foi um ano de muita correria para a primeira turma concluinte do ginásio. A festa da nossa formatura foi realmente um “colosso” – segundo nota dos que assistiram. Foi o que se chamaria festa de arromba. Veio Major Jacó, presidente da câmara de vereadores da cidade de Antenor Navarro; Anita Caetano, vereadora por Cajazeiras; Padre João Estrela, da paróquia de Sousa; um certo capitão, comandante do Tiro de Guerra 243, de Cajazeiras, além, é claro, da nata da elite sãogonçalense, moradores da Rua 16 (a única rua com calçamento).

Meu primeiro ano do ensino médio foi um atrapalho de indecisões. Antigamente poderia ser Científico ou Técnico. Além destes poder-se-ia concluir também o Clássico (no qual se estudava latim, filosofia além de outras disciplinas de humanidades), mas a ditadura militar fez o favor de banir este tipo de curso. A pessoa poderia pensar demais e isto podia ser prejudicial para a mente. Voltando para as minhas trapalhadas.

Comecei o primeiro Técnico Comercial, recém-implantado em São Gonçalo. Não fazia bem o meu gênero e, cansado daquilo, depois de três meses fui cursar o primeiro ano do Científico, também recém-implantado no Colégio 10 de Julho, em Sousa. Havia um carro do DNOCS, uma perua Opel modelo anos 40 (não sei qual), que levava e trazia todos os dias os alunos que estudavam em Sousa. Com a experiência de funcionário do DNOCS, meu pai decidiu que eu teria que fazer o Técnico Agrícola, muito apropriado na época, pois todos os que concluíam este curso já saiam da escola “com colocação” na ANCAR ou no DNOCS. A escola era um internato na cidade de Bananeiras. Trezentos quilômetros longe de casa.

Também não fazia o meu gênero e eu resolvi que não seria aprovado nos testes para ingresso nessa escola. Errei todas as questões de propósito. Mas fui para João Pessoa onde finalmente concluí o primeiro e o segundo científico. Cansado de tanto estudar resolvi dar um basta. Matriculei-me no SENAI, em Campina Grande. Metrologia, Mecânica de Automóveis. Por fim, cursei Desenho Mecânico. Taí o que eu gostava de fazer: desenhar. Resolvi, ainda, que não faria o terceiro ano do colegial. Faria o Supletivo. Com a base do que eu já havia estudado consegui passar em todas as disciplinas e concluí o Colegial.

Felizmente eu estudava tudo e aprendia tudo com facilidade. Sou uma colcha de retalhos em termos de conhecimentos gerais. Infelizmente pulei muito de galho em galho na infância e adolescência, o que imprimiu em mim a marca da falta de persistência, da falta de perseverança, inconstante em quase tudo o que faço. Reconheço. Em 1978 decidi que estudaria Teologia. Fui fazer isto em Recife. Ainda consegui passar dois anos na escola. Não, agora vou fazer o curso dos meus sonhos: Desenho Industrial. Pensando assim é que em 1980 (o ano em que me casei), tendo passado no vestibular, iniciei na Universidade Federal em Campina Grande o curso que seria a realização da minha vida. Agüentei até o final de 1982.

Em janeiro de 1983 estava em Brasília para trabalhar numa empresa que vendia material de acabamento. Eu tinha a função de chefe de escritório. Suportei um ano as angústias deste tipo de atividade. Resolvi que seria artefinalista. Do início de 1984 até 1990 – muito tempo -, trabalhei em quatro gráficas diferentes, tendo uma breve passagem de seis meses numa firma que trabalhava com lapidação. Cansado de Brasília parti para o Tocantins. Por dois anos fui o professor mais querido da Escola de Magistério Maria Isabel na cidade de Ponte Alta do Bom Jesus. Ensinava Filosofia, Sociologia e História.

Encabecei uma greve contra a falta de pagamento de nossos salários que já estavam três meses atrasados, e o prefeito resolveu me exonerar dos cargos que eu já tinha na escola: professor e coordenador pedagógico. De volta a Campina Grande, na Paraíba, trabalhava como desenhista mecânico enquanto cursava Psicologia na Universidade Estadual. Depois de três anos não deu mais. Foi muito bom o que Skiner, Watson, Ivan Pavlov, Jung, Freud, fizeram por mim, mas agora chega Inconsciente, Superego, Behaviorismo, Gestalt o diabo, danem-se todos para os quintos.

Mas como eu amo a literatura as letras são a minha vida, aliás, permitam-me um parênteses que eu considero importante. Desde que eu me entendo por gente que eu já conheço uma biblioteca dentro de casa. Meu pai, não obstante ter cursado só até a terceira série do primário, sempre gostou de ler. Desde o tempo de vigia da hidrelétrica ele já era assinante da revista O Cruzeiro, fato terrivelmente incomum para os padrões da época.

Quando eu tinha 14 anos adorava ler a coleção dos livros de Erico Veríssimo, da biblioteca do meu pai. Lucíola, de José de Alencar, era um estouro de sensualidade. A Carne, de Júlio Ribeiro, então, eu lia escondido. Aos 16, Ana Karenina e Guerra e Paz já faziam parte de minhas leituras passadas. Adorei Almas Mortas de Gogol. Todos estes livros entre outros clássicos da literatura mundial faziam parte do acervo da biblioteca da nossa casa. Bem, resolvi que faria Letras. E fiz. O problema é que eu já demorei quatro anos depois de todas as outras disciplinas já pagas, mas não concluí a monografia. Até hoje... Mas eu tenho razão: o curso de Filosofia que eu iniciei foi mais importante e não me deixou tempo para cuidar dessa tal.

Mas, que importância tem a conclusão de um curso? Talvez, como diz um certo aforismo, as peripécias da estrada sejam mais emocionantes do que a chegada. É claro que isto não pode ser desculpa para não terminar o que se começou. O fato é que depois de tanto tempo ainda estou tentando aprender a ser persistente. Tentando, também, desmentir essa história contada por Sigmund Freud de que na fase adulta, somos o reflexo dos traumas pelos quais passamos na infância. 

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