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História

Descobridora de sensações

História de: Marta Spiry
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Marta Spiry conta da sua vida na Hungria, relembra da época que encontraram sua cidade natal devastada no pós-guerra, as dificuldades que passaram, como foi atravessar à fronteira para Áustria, como foi passar por isso quando era criança. Conta que não tinham consciência do que de fato estava acontecendo, tiveram que deixar tudo, só levaram a roupa do corpo. Acredita que por conta disso desenvolveu uma mania de carregar uma bolsa grande com todos os objetos que mais gosta, coisas que de repente pode precisar. Formou-se em Farmácia e conta que adora trabalhar utilizando a criatividade e descobridora de sensações, pois inventa aromas e sabores.

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História completa

P/1 – Por favor, diga seu nome completo, local e data de seu nascimento.

 

R – Meu nome é Marta Spiry, nasci em quinze de março de 1948, na Hungria, numa cidade chamada Magyar Boj.

 

P/1 - Era perto da capital ou não?

 

R – Não, era cerca de 150 quilômetros da capital, no sul da Hungria próximo à fronteira com a Iugoslávia.

 

P/1 – Era uma pequena cidade?

 

R – Era um vilarejo, extremamente pequeno. Uma ocasião que eu voltei à Hungria, com três fotografias se fotografava a cidade inteira. Parei no meio da cidade, fotografei de um lado, virei para o lado assim. Quer dizer, com três fotografias coube a cidade inteira.

 

P/1 – O nome dos seus pais.

 

R – Oliver Spiry e Gizella Blasko Spiry.

 

P/1 – E de seus avós, sabe?

 

R – Da avó materna seria Margarida (Anton?) e meu avô, como eu não o conheci pessoalmente, ele faleceu, então eu não lembro.

 

P/1 – Qual a origem do nome da sua família? E a sua família sempre foram húngaros ou vieram de outro lugar?

 

R – Recentemente, muito recentemente descobri que o nome Spiry é na verdade um nome ucraniano, é Spiro uma coisa assim. Inclusive, há pouco tempo, uma questão de um ou dois meses, recebi uma carta dos Estados Unidos de uma pessoa fazendo pesquisa pra conhecer as pessoas de sobrenome Spiry pelo mundo afora. E quem começou a fazer essa pesquisa é uma pessoa que mora na Suíça e aí que eu descobri que na verdade, Spiry, em 1700 ou 1400, eu não me lembro agora a data, que houve um pessoal que foi para a Suíça. Então tem umas setecentas pessoas. Só minha família tinha oito ou dez, de repente tem muito mais gente, pessoas.

 

P/1 – Seus avós e seus pais eram mesmo da Hungria?

 

R – Sim. Meus avós, tanto da minha mãe, da parte materna, todos nasceram na Hungria.

 

P/1 – Tem irmãos?

 

R – Tenho duas irmãs.

 

P/1 – Qual o nome delas?

 

R – A Maria Catarina e a Suzana.

 

P/1 – O que seus pais faziam na Hungria?

 

R – Minha mãe trabalhava fazendo solda elétrica e meu pai trabalhava como ferramenteiro, ou torneiro mecânico, alguma coisa equivalente a isso.

 

P/1 – Isso em que década, mais ou menos?

 

R - Na época que nós saímos, em 1956.

 

P/1 – Como você descreveria seu pai, como era seu pai, a pessoa, a personalidade, os traços de caráter.

 

R – Era uma pessoa que... Bom, o meu avô, pai dele, era médico com um cargo equivalente à Ministro da Saúde do Interior, então logicamente o filho dele mais velho tinha que estudar medicina, sendo que meu pai tinha espírito prático. Se ele tivesse estudado engenharia, teria sido um engenheiro fantástico. Então ele estudou, antes da guerra, durante uns dois anos a Faculdade de Medicina. Quando veio a guerra ele não precisou terminar a escola então acabou trabalhando nessa área mecânica. Ele ficou uma pessoa muito perdida, nesse aspecto, porque quando você é obrigado a estudar algo que não é sua vocação, não adianta.

 

P/2 – Ele foi para a guerra?

 

R – Foi. Foi pra guerra, foi pra Áustria. Minha mãe conta que... Tanto que minha irmã mais velha nasceu em Munde, na Áustria. Minha mãe conta que na guerra, ela estava lá sentada na cadeira, fazendo tricozinho, esperando minha irmã. Aí na intuição, resolveu pegar a cadeira e por um metro pro lado, daí a dois minutos caiu uma bomba no lugar que ela estava sentada e se ela não tivesse mudado de lugar, teria morrido. Aquelas coisas assim.

 

P/1 – Mas seu pai lutou na guerra, na Segunda Guerra?

 

R – Ele nunca contou de ter lutado na guerra em si, porque quando eles foram, minha irmã nasceu em 1945, então quando eles foram para a Áustria, já estava mais ou menos próximo do fim da guerra, então ele não deve ter lutado. Naquela época minha mãe tinha dezessete anos e meu pai vinte, eram muito jovens, muito crianças. Então ele não chegou a lutar na guerra mesmo.

 

P/1 – Porque ele ficou na Áustria?

 

R – Ficaram na Áustria e depois voltaram para a Hungria. Naquela época, minha mãe foi junto porque ele era soldado e mandaram para lá.

 

P/1 – Ele estava no exército?

 

R – Estava. Agora, quando minha mãe foi junto, isso eu não sei. Nunca contaram.

 

P/1 – Quer dizer, ele não foi pra frente de batalha?

 

R – Não, não. Ele estava no exército e foi mandado para lá pelo exército. Depois voltaram, como todo mundo voltou. Jamais íamos imaginar como ficou a situação na Hungria, no pós-guerra.

 

P/1 – Conta como ficou a Hungria no pós-guerra.

 

R – A parte pior de um pós-guerra em si, seria a reconstrução de um país no pós-guerra. É o que marcou muito minha mãe e meu pai. Você não tem nada, tem que começar do zero. Você não tem o que comer, onde morar, você acaba tendo umas casas meio caídas, mas você se abriga. Quanto a comida, minha mãe gostava de fubá até o fim da vida dela, eu detestava fubá. Ela passou um ano comendo só fubá, um dia era sopa outro dia era polenta, cada dia preparava fubá de uma forma diferente no almoço e no jantar, porque era a única coisa que tinha pra comer.

 

P/1 – Devem ter sofrido muito com a falta de aquecimento no inverno.

 

R – Sim, provavelmente. Mas aquecimento na época, tinham muitos destroços que queimavam. O pessoal tinha muito fogão a carvão, a lenha, então não sentiam tanto frio. Como as casas lá são de paredes duplas, janelas duplas, então as casas mantém o calor.

 

P/1 – Com qual dos seus pais você se dava melhor? Como era a vida em família?

 

R – Eu me dava melhor... Era assim, como os meus pais casaram muito jovens, eles tiveram os filhos, não tiveram uma preparação de como educar os filhos. E logo que nós chegamos aqui no Brasil, nós fomos para o internato e eles começaram... Porque pra eles foi uma coisa muito boa, eles puderam recomeçar. São três crianças que você não tem com o que vestir, não tem o que alimentar, não tem que se preocupar com a educação, então eles puderam começar a construir um teto, ter algo para vestir, ter onde dormir. Começar a vida novamente. Então eles não tiveram a necessidade de sobrevivência, pura e simples de ter comida na mesa, de ter uma roupa decente, ter uma roupa limpa, de ter um teto. Isso é uma atenção, uma necessidade que a pessoa não tem muito tempo pra cuidar da parte afetiva, parte psicológica. Fora que eles estavam num país totalmente estranho, totalmente fora, sem conhecer os hábitos do país. Em determinados momentos, nós, as crianças que conviviam mais com as pessoas do país, com as outras crianças, nós que acabávamos aprendendo o tipo de alimentação, tinha uma série de verduras que minha mãe logicamente nunca tinha visto. Por exemplo, brócolis, couve, uma série de verduras que na Hungria não existe. Então nós é que conhecíamos, tínhamos colegas de escola e levávamos esses hábitos para casa. Então o relacionamento ficava muito impessoal, muito distante.

 

P/1 – Mas era assim lá na Hungria?

 

R – Lá na Hungria, como eu era muito pequena...

 

P/1 – Quantos anos você tinha?

 

R – Sete anos e meio, quase oito.

 

P/1 – Como era sua infância lá?

 

R – Minha infância lá na Hungria, no paraíso comunista. Para uma família com três filhos conseguir sobreviver, tanto o marido como a esposa tinham que trabalhar para você não passar fome. Então as crianças com um ano de idade já vão para o maternal. Isso para que tanto a esposa como o marido terem tempo para trabalhar, então você fica muito distante dos seus pais. Eu não tinha tanto contato com eles.

 

P/1 – Eles ficavam, por exemplo, só nessa escola?

 

R – Com seis anos começa o primário, antes até seis anos ficávamos no maternal, ficávamos o dia inteiro, meus pais pegavam a gente à noite. Na época da escola ficávamos um período na escola, outro período ficava em casa sozinhos.

 

P/1 – E nesse período que você frequentou essas escolas, você se lembra de como era?

 

R – Uma escola normal.

 

P/1 – Não marcou nada, não teve nada que marcou?

 

R – Uma coisa que pra mim marcou muito, acho que eu sou uma pessoa muito idealista, eu estava no primeiro ano. Como eu sou a do meio, a mais velha já sabia escrever, imagina se eu não queria saber escrever, imagina se não. Aí eu já sabia, então ela punha na lousa o A. Lá a alfabetização era a partir do primeiro ano primário. Na pré escola não tinha alfabetização, só a partir do primeiro ano primário. Aí tinha uma menina do lado com uns oito anos, já era velha, pra quem tem seis, oito anos é velhíssima. E a menina não conseguia aprender, como eu já sabia, eu virei pra trás e fui ajuda-la, levei a maior bronca: “Como você fica ajudando aquela outra lá!” A menina, não sei se ela tinha tido paralisia infantil, ela era retardada, tinha dificuldade de aprendizado e o pessoal me dava bronca: “Como você fica se preocupando, que horror, você querendo brincar com essa menina!” Não entrava na minha cabeça o porque a coitada não podia ser ajudada se eu já sabia.

 

P/1 – E as brincadeiras lá, você se lembra?

 

R – Ah, brincadeira era igual aqui, de esconde-esconde, brincar de roda, de pega-pega, são as mesmas brincadeiras.

 

P/2 – Você não tem nenhuma lembrança da cidade natal?

 

R – Não, não, porque com uns dois ou três meses nós já voltamos para Budapeste. As únicas brincadeiras diferentes do Brasil, por causa do inverno, você anda de trenó, você faz bola de neve, joga na criançada.

 

P/1 – Você falou que voltaram para Budapeste, vocês não estavam na sua cidadezinha?

 

R – Não, não, não.

 

P/1 – Isso tudo que você contou já estavam em Budapeste?

 

R – Só em Budapeste. Nada. Meus pais moraram dois ou três meses na cidade onde eu nasci. Eu nasci lá por acaso. A cidade que eu nasci, eu conheci essa cidade há uns seis anos atrás.

 

P/1 – Com quantos anos você foi para Budapeste?

 

R – Como assim?

 

P/1 – Você foi pequenininha?

 

R – Ah sim, com uns dois ou três meses.

 

P/2 – E como era Budapeste?

 

R – Na época? Não era muito diferente do que é agora. Não teve uma modernização como tem aqui em alguns prédios novos. Na Europa, de um modo geral, as pessoas conservam um pouco mais.

 

P/2 – Onde vocês moravam?

 

R – Bom, a casa onde eu morava foi destruída, agora tem uma outra casa. Tem um prédio, mas é um prédio de uns três andares. A maioria das diferenças, tem muitos centros habitacionais atualmente, que são casas pré construídas. Depois da guerra, como muita coisa foi destruída, então tinha necessidade de moradia. Então eles fizeram umas casas, não sei porque não fazem isso aqui no Brasil,, uns apartamentos muito bons, baratíssimos, de concreto.

 

P/1 – Isso é do sistema comunista?

 

R – É.

 

P/2 – Quais as suas lembranças de Budapeste?

 

R – Eu lembro... Na Hungria não tem clubes como tem aqui. Existem piscinas públicas. Isso atualmente também. Você vai lá, você vai para a Hungria agora? Você quer  nadar? Sem problemas. Tem diversos balneários. Você vai lá, compra o ingresso, entra e vai nadar, certo?

 

P/1 – Sem fazer exame médico?

 

R – Sem fazer. Lá confia-se no bom senso da pessoa. Se bem que atualmente eles estão começando a fazer. Uma vez eu vi umas pessoas com umas micoses. A diferença é que lá na Hungria tem muitas fontes termais, e muitas fontes de água mineral, então eles trocam, esvaziam as piscinas olímpicas quase todo dia. Eles tem água e água aquecida, natural. Água a setenta graus, natural. Em termos de água não tem dificuldade na Hungria. Analisando geograficamente, toda aquela bacia dos Cárpatos, onde é a Hungria, deve ter sido a trocentos milhões de anos atrás, uma cratera de vulcão. Ela tem montanhas em volta e é uma planície enorme. E como tem muita água, fonte a setenta graus, isso é bastante comum, tem em diversas cidades na Hungria.

 

P/1 – Mas essa bacia inclui que cidades, ou países?

 

R – O país inteiro, toda a Hungria. A Hungria, uma parte da Eslováquia, uma parte da Romênia, da Iugoslávia. Se você pegar o mapa da Europa, o geográfico, onde tem as montanhas, e analisar, dá pra gente ter uma ideia de que alguma vez aquilo deve ter sido um vulcão. Na época da formação da Terra assim.

 

P/1 – E aí tem todas essas termas?

 

R – Tem. Tanto é que tem essas termas na Hungria, tem petróleo, na Romênia também tem petróleo.

 

P/1 – Vocês todos são eslavos?

 

R – Quem que é eslavo?

 

P/1 – Húngaros, romenos... Qual é a etnia?

 

R – Não. Os romenos têm etnia romana, latina. Os eslovacos e na Iugoslávia tem diversas etnias. Os húngaros em si, a origem dos húngaros é da Ásia, de uma região que não se conhece, porque na época que alguém queria fazer pesquisas, não tinha condições, não se podia viajar pela Rússia, pela Ásia, pelo sistema comunista, era proibido, então o pessoal não teve condições de descobrir a origem dos húngaros. Mas não são eslavos. Quando os húngaros vieram, os hunos...

 

P/1 – Os bárbaros?

 

R – É, na época eram bárbaros.. Os hunos vieram para a Europa, eram sete tribos. Os hunos eram tribos, os magyar eram outros, tinha os (fins?) que são os finlandeses...

 

P/1 – Você está indo lá nas invasões bárbaras?

 

R - Muito antigo. Em termos de etnia, os húngaros não tem nada que ver com aquela etnia da Iugoslávia, da Romênia, da Eslováquia, da Áustria. Nada a ver. Logicamente que hoje em dia, na Europa, não existe raça pura.

 

P/1 – Só na cabeça do Hitler?

 

R – Só. Por exemplo, eu tenho traços alemães, porque existe uma mistura muito grande. O sobrenome da minha mãe, Blasko, é basco, inclusive, quem talvez tenha sido meu parente é o Drácula.

 

P/1 - O conde Drácula?

 

R - Não o conde Drácula. Aquele ator de cinema, que fazia o papel de Drácula em Hollywood.

 

P/1 - Mistura e sobreposição de vozes.

 

P/2 – Bela Lugosi?

 

R – Bela Lugosi, o nome original dele era Blasko.

 

P/1 - Ah, tem a história de Drácula mesmo, na Romênia.

 

R – Na Romênia, na Transilvânia. A Transilvânia é um absurdo, não pertencer à Hungria porque é a primeira região que foi colonizada pelos húngaros.

 

P/1 – Mas não pertence à Hungria?

 

R – Pertence à Romênia. No Pacto de Varsóvia, pegaram um lápis e disseram: “Aqui, Romênia.”

 

P/2 - No pós-guerra, não é?

 

R – É. No pós-guerra fizeram isso, sem respeitar a etnia, coisa nenhuma.

 

P/1 – Por isso que tem essa confusão hoje.

 

R – Por isso, porque inclusive existe um ódio enorme entre romenos e húngaros. Por que? Porque tem a mesma coisa que alguma cidade fronteiriça ao Uruguai, então numa cidade uruguaia, o Brasil simplesmente falasse: “Não, essa cidade é nossa.” E incrementasse inclusive, o ódio entre uruguaios e brasileiros pra tentar eliminar os uruguaios pra ficar...

 

P/1 – Dona Marta, a senhora sentia esse ódio racial, a senhora chegou a sentir quando pequena? Tinha alguma...

 

R – Quando pequena não. Quando voltei pra Hungria já adulta, aí eu conheci, porque quando eu fiquei na casa de parentes, na casa de amigos, fui conhecendo as pessoas, aí sim dá pra sentir. Com sete anos de idade, você não sente nada dessas coisas.

 

P/1 – Mas dá pra sentir o quê, quando a senhora voltou?

 

R – O ódio que existe entre os ciganos... Mas eles aprontam muito. Inclusive, eu quase fui assaltada numa das ocasiões, era um cigano. Inclusive contra os romenos, existe um ódio muito grande, isso por que? Porque existem muitos húngaros que são maltratados na Romênia, que fogem pra Hungria. Então aquela coisa de você ser obrigado a fugir de onde você nasceu, da sua terra, por assim dizer, porque eles sofrem perseguição. Então em solidariedade àquela pessoa, a gente acaba detestando os romenos que a gente nem conhece. Normal.

 

P/1 – Os húngaros foram maltratados na Romênia, é isso?

 

R – Na Romênia.

 

P/1 – A senhora disse agora pouco que os húngaros são nômades, quando nós estávamos falando de ciganos?

 

R – Os húngaros eram um povo no... Não sei até que ponto era nômade ou até que ponto... Como houveram aquelas migrações, naquela época, de diversos povos, então eles vieram da Ásia pra Hungria e ocuparam aquele espaço, e por ali ficaram. Agora, por exemplo, uma diferença muito grande entre ciganos… Ciganos são nômades até hoje, não mudaram de filosofia de vida. Eles podem até ter se assentado em algum lugar, mas nada impede que amanhã eles levantam acampamento e vão embora.

 

P/1 – Agora tem trailer, é mais fácil. Agora, por que a sua família resolveu vir pra cá? Vamos falar da vinda.

R – Vir pro Brasil?

P/1 – É.

R – Por causa de condição sócio… De condição econômica. Na Hungria, naquela época, antes da Revolução, que foi em 1956. Essa Revolução... Por que teve? Quando terminou a Segunda Guerra, houve uma divisão da Europa entre os americanos e os russos. Tanto é que dividiram a Alemanha pelo meio, inclusive a Áustria estava dividida pelo meio, então pra evitar que a Alemanha se unisse novamente e fizesse a Terceira Guerra, eles tomaram conta. Só que isso, existia um prazo de 25 anos para eles ficarem digamos, monitorando... Não.

P/1 - Administrando?

R – Uma monitoração tipo tomando conta, ocupando. Enfim, era uma ocupação. Vamos pensar que na época de 56, os americanos, muitos americanos, muitos quartéis americanos foram desativados, e os americanos voltaram pros Estados Unidos. Só que os russos não queriam se retirar dos países ocupados, e a Revolução foi justamente por causa disso. Eles: “Escuta, acabou o prazo. Vão nos deixar livres ou não?” Porque os americanos tomavam conta, monitoravam, sei lá, deixava cada país reconstruir sua vida sem oprimir ninguém. Os alemães, eles continuaram alemães.

P/2 – Essa revolução, daí teve a invasão soviética em 56, você presenciou essa revolução, essa invasão?

R – Sim, eu me escondia atrás do armário, morria de medo quando as bombas faziam zum.

P/2 – Teve bombardeio e tudo?

R – Sim.

P/1 – Onde aconteceu o bombardeio?

R – No meio da cidade.

P/1 – Conta, conta mais. Você se lembra?

R – Lembro, lógico. Tinha quartel perto de casa, a gente não podia sair na rua. Meu pai ficava bravo: “Não saiam na rua porque tem soldado, de repente eles pegam”, ou matavam. Você via pessoa morta no meio da rua. Minha casa, a última que eu morava era próxima ao Danúbio, tinha um parque, um jardim de infância, um parque que a gente brincava. Não podia, mas a gente brincava. Tinham os tanques russos. A gente ouvia os bombardeios, ouvia os tanques disparando, tiro de metralhadora direto.

P/2 – Chegou a ser uma guerra ou foi tudo muito rápido? Como foi essa revolução?

R – Essa revolução foi o seguinte: os húngaros, esperando que os russos fizessem a parte deles, que era se retirar conforme o trato original, então logicamente eles não queriam se retirar porque economicamente era muito vantajoso pra eles esse domínio de todos os países, não só húngaros como Eslováquia, Iugoslávia. Por exemplo, a Hungria tem mina de urânio, na Romênia tem mina de ouro, na Polônia tem minas de ferro e carvão, e os russos tinham petróleo. Então era assim, a Hungria exportava alimentos, ela sempre foi em termos agrícolas de um solo muito bom, então exportava alimentos para a Rússia e a Rússia mandava petróleo. Só que a Rússia estava sempre devendo. Aí como eles faziam para resolver a dívida? Aumentam o preço do petróleo de tal modo que você fica devendo. Os húngaros ficaram devendo. Então o pessoal se revoltou contra isso, fora que também era um sistema que foi mantido a base de terror, a base de... Se alguém tiver inveja de alguém, digamos, se você tivesse uma casa bonita e minha casa era horrorosa, eu queria sua casa. Chegava e dizia que você era anti-comunista, revolucionária. Aí você ia presa, torturada, como minha tia, inclusive foi presa e torturada, ficou presa um mês. Às vezes a pessoa é presa sem ninguém saber porquê.

P/2 – Você se lembra dela?

R – Da minha tia, sim. Eu falo com ela toda a semana por telefone.

P/2 – Mas na época como foi isso?

R – Na época, na Hungria, essa minha tia tinha muito contato conosco, morava perto, encontrava com ela todo dia. Aquela coisa, a gente era criança, titia vai lá, pega no colo, brinca, traz uma balinha. Era uma pessoa muito carinhosa conosco. Mas logicamente ela tinha seu emprego, não podia ficar tanto tempo, trabalhava o dia inteiro, o tempo disponível para ficar com a gente era muito pequeno. Isso ela conta depois que eu voltei, porque logicamente eu não me lembro, na época meus pais jamais comentariam isso, porque criança, na boa vontade, fala mesmo. Era questão de segurança, nós não sabermos de nada, porque senão meus pais também seriam presos e torturados. Porque se nós falássemos alguma coisa contra.

P/1 – Quantas vezes você voltou pra lá?

R – Umas dez vezes, bastante.

P/1 – Sempre pra lá?

R – Sempre.

P/1 – Aí como é que seu pai resolveu imigrar? Como foi essa imigração?

R – A situação econômica na Hungria era realmente muito ruim, não só econômica como liberdade pessoal. Época do comunismo era realmente muito ruim. Na época, em 56, tinha uns dez milhões na Hungria, ao redor de dois milhões fugiram. Tipo 20% da população do país, simplesmente fugiu.

P/1 – E como eles vieram pra cá?

R – Atravessando as fronteiras. Acontece que em época de revolução todo sistema cai. Deu brecha para que as pessoas fugissem. Simplesmente larga tudo, sai com a roupa do corpo e vem embora.

P/2 – Vocês saíram no meio da revolta ou foi depois?

R – Nós saímos já quase no fim, nós saímos em novembro, que já estava terminando a revolta. A revolta começou em outubro. Foi muito curta, muito rápida, durou dois meses aproximadamente. No começo, os húngaros ganharam a revolução, com as tropas que existiam na Hungria mesmo, as tropas russas que estavam ocupando a Hungria, eles se renderam então os húngaros ganharam essa revolução. Só que assim que eles ganharam lá, os russos não iam querer perder as minas de alumínio, urânio, então eles simplesmente mandaram tanques, aviões e tudo mais. É como se uma pulga querendo brigar com um elefante, lógico que ele esmaga, literalmente esmaga. Passa com tanque por cima de tudo, metralha. Até hoje tem casas com marcas de balas que eles fazem questão, atualmente, de manter como lembrança de... Por muitos anos, em 1975, a primeira vez que eu voltei para a Hungria, ainda existiam muitas casas com marcas de balas, mas não porque eles queriam manter, mas porque simplesmente não existia dinheiro para consertar. Então aquelas coisas que sobraram, depois que terminou o comunismo, o pessoal guarda algumas coisas como monumento, como recordação.

P/1 – Mas voltando um pouco, a decisão de sair para a Hungria, quando sair, pra onde eles...

R – Bom, simplesmente nós saímos no começo de dezembro, não foi nem em novembro. Eu lembro disso porque na Hungria, no dia seis de dezembro é dia de São Nicolau e as crianças ganham balas, então as crianças lembram das balas que iriam ganhar. Minha mãe já tinha comprado, no fim ela trouxe essas balas com ela.

P/1 – Espera um pouquinho. São Nicolau também é Papai Noel, do Natal que é dia 25 de dezembro. Lá é seis de dezembro?

R – Na Hungria, seis de dezembro é dia de São Nicolau. Então São Nicolau traz bala para as crianças boazinhas e tipo um galho sem bala nenhuma que você vai apanhar se você não for bonzinho (risos). E quem traz presente no Natal é Jesus, lá na Hungria não é Papai Noel, é Jesus quem traz presente.

P/1 – Não é o Santa Claus?

R – Não, não, não... Esse Santa Claus é no dia seis de dezembro que traz chocolate, balinhas para as crianças que são boazinhas. As crianças, um mês antes... É uma forma de...

P/1- A Hungria é católica?

R – Católica. Tem bastante pessoas católicas, bastante protestantes também.

P/1 – Mas estamos chegando na história de sair do país.

R – Sair do país foi assim, na minha lembrança foi assim. “Vamos passear, pega o casaco, alguma coisa e vamos.” Chegamos à estação de trem, alguns trens ainda funcionando, lógico que meu pai deve ter tido algum planejamento anterior, que não se pode falar para uma criança, porque a criança fala: “Nós vamos passear!” e aí a outra criança fala pra outra e vem a polícia e prende todo mundo, isso se não mata todo mundo. Nós fugimos, meu pai simplesmente...

P/2 – Como foi essa lembrança? O que você lembra exatamente?

R – Eu lembro de nós no trem e nós andando no trem.

P/1 – Só pegaram o casaco?

R – Só a roupa do corpo, praticamente. E vamos, estamos no trem. Daí descemos do trem, dormimos numa cidadezinha, não tenho a mínima lembrança de que cidade, mas isso era porque era uma parada meio estratégica para não chegar na fronteira de dia, e fora que os trens estavam sendo vigiados. Era um trem de carga, então eu lembro que era um trem de carga e nós estávamos praticamente na cabine do... Tipo bilheteiro, a pessoa que toma conta de vários vagões. Eu não sei qual o nome dessa função aqui. É uma cabine mais ou menos assim. Era um trem de carga, só que a gente tinha que descer. Descemos e dormimos numa cidadezinha qualquer, no outro dia pegamos o outro trem para chegarmos à fronteira. A fronteira da Hungria com a Áustria. Aí nós ficamos numa casa de um camponês que hospedou umas trinta ou quarenta pessoas até a noite, e aí como ele conhecia a região, ele nos atravessou por um campo de milho, sei lá, de trigo, por um campo, até a fronteira com a Áustria.

P/1 – Mas não era inverno? Tinha um campo de milho?

R – Era um campo onde eles tinham... Só que na época não tinha plantação nenhuma.

P/1 – Foi pela neve mesmo?

R – Não, começo de dezembro não tinha neve ainda, era só terra mesmo. Era um campo onde já tinha sido arado e semeado, mas fica...

P/1 – Atravessaram para a Áustria?

R – Pra Áustria. Então era assim, você está andando, eu me lembro daquela casa, aquele bando de gente fumando, aquela fumaceira horrorosa. Criança detesta isso. Aí quando estávamos andando: “vamos embora, vamos embora”, aí de repente “deita no chão”. Ao longo da fronteira tinham aquelas torres com holofotes, aí quando passava holofote, “deita no chão”. Todo mundo deitava no chão. Aí pegava, continua andando, de repente, “deita no chão”, até que chegou na fronteira. Atravessamos a fronteira. Como? Era uma valetinha. Falei: “fronteira é isso?” Nas histórias, das lendas de infância a gente imagina algo, é um muro que você não pode transpor. Inclusive mesmo na escola, eles põem nas cabeças das crianças, é um sistema meio de terror, na escola. A gente aprendia russo desde o começo, no primeiro ano primário você aprendia russo, mesmo depois a gente aprendia mais russo que húngaro. Fazia a cabeça das crianças que ali você estava no paraíso, isolava você do resto do mundo para você não saber o que tinha nos outros países, porque jamais você vai desejar algo que você desconhece.

P/2 – Você entendeu o que estava se passando quando vocês estavam passando a fronteira?

R – Sim, porque o pessoal falou: “Acabamos de passar a fronteira”.

P/2 – Mas era um passeio?

R – Sim, mas quando nós chegamos lá na cidade, criança não é burra, criança está ouvindo os adultos falarem. A hora que estávamos lá na cidadezinha, aí que eu descobri que a gente estava indo embora do país para nunca mais voltar.

P/2 – Você não pensou nos brinquedos no que deixava pra trás?

R – Sim, sim, tanto que olha o tamanho de bolsa enorme que eu carrego. As coisas que eu mais gosto... Agora estou tentando me livrar. Algum dia eu quero conhecer alguém que faça hipnose porque eu quero descobrir alguma coisa que eu gostava muito, eu gostaria de ter trazido comigo e ficou lá. Tanto é que até há pouco tempo eu tinha um canivetinho suíço que eu adorava e ele era muito prático, vivia na minha bolsa. Quando tem algum objeto que eu gosto muito, eu carrego sempre comigo.

P/1 – Até hoje você tem a consequência de levar tudo na sua bolsa. Sua bolsa realmente está enorme.

R – Aí são outros detalhes. É uma sacola que eu tenho que levar por causa dos trabalhos, outros problemas... Mesmo assim eu carrego comigo muito mais coisa do que realmente necessito, porque se de repente eu posso precisar.

P/1 – Estavam vocês, três filhas, o casal e um bando de outros húngaros?

R – Tinha sei lá quantas mais pessoas.

P/2 – Você ficou muito triste?

R – Criança devo ter ficado, mas ao mesmo tempo você estava indo com pai e mãe. Criança pega e vai, você não tem opção, você não tem escolha. Você pode ver qualquer criança que de repente está em casa, vendo televisão e chega os pais e fala: “agora nós vamos passear”, “não quero”, “vai”. Acaba indo, vai fazer o quê? E criança se adapta rápido.

P/1 – Quero voltar para casa...

R – Não tem mais casa, acabou. A realidade é essa, vamos viver essa realidade, vamos fazer o quê?

P/1 – E depois da linha da fronteira, pra onde vocês foram?

R – Na fronteira... A Cruz Vermelha que nos ajudou, inclusive, nós tivemos sorte, mais existiram muitas pessoas que já do outro lado da fronteira foram fuzilados.

P/1 – Na Áustria?

R – É, inclusive quando acabávamos de atravessar, eu lembro que tinha logo depois daquela valeta, tinha um bosque, alguma coisa, a gente entrou rapidinho, era perigoso do lado austríaco. A desculpa deles era: “Ah, erramos”, aquelas desculpas furadas. Mas muitas pessoas foram mortas, já do outro lado. Aí tinha uma escola que nos acolheram. Achei maravilhoso porque foi a primeira vez que eu bebi chocolate quente na minha vida. Na Hungria não existia isso, a gente bebia leite de vez em quando. Era chá mesmo porque era mais barato. Aí minha irmã detestou e eu achei uma delícia, aí eu tomei duas canecas (risos). Ficamos numa escola que foi adaptada para receber as pessoas e de lá distribuíram as pessoas para os lugares na Áustria que receberam os imigrantes enquanto estavam...

P/1 – Que nem eram imigrantes naquela época, eram fugitivos.

R – Eram fugitivos. Receberam os fugitivos. Nós fomos parar num convento numa cidadezinha Marienbad, uma cidadezinha bem próxima à Viena. Só voltei lá uma vez.

P/1 – Teve um filme O ano passado em Marienbad.

R – Não lembro. Talvez tenha assistido, mas não tem nada a ver com isso.

P/1 – Aí ficaram lá?

R – Ficamos lá quase seis meses esperando pro meu pai... A única pessoa que ele conhecia nesse mundo afora, era esse irmão dele pelo segundo casamento do avô. Eles se conheciam, mas não tiveram aquela amizade. Esse senhor veio para o Brasil em 1920, logo depois da Primeira Guerra.

P/2 – Ele tinha um irmão no Brasil?

R – Um meio irmão, digamos assim, não tinha nada de consanguinidade.

P/2 – Quando vocês saíram da Hungria seu pai já estava pensando em vir para o Brasil?

R – Eu não sei o quê ele estava pensando. Acho que ele não sabia o que ele queria fazer, o que ele não queria, a verdade é essa. Acho que 90% não sabia exatamente o que ia fazer e o que não ia fazer. Então eles iam em cada uma das embaixadas e analisavam as situações de qual país está aceitando, qual não está aceitando.

P/1 – Aí seu pai correu as embaixadas?

R – Ah, deve ter ido. Isso eu nunca tive curiosidade de perguntar, mas alguma coisa assim. Imagino desta forma, que a própria Cruz Vermelha fazia uma ficha, dizia onde que a pessoa, os países estavam aceitando imigrantes. É lógico, dependia da profissão, o fato de ser uma família grande também. Se bem que naquela época, pelo que eu sei, todos os países estavam aceitando.

P/1 – Sua família era de quantos? Vocês três e quem mais?

R – Cinco pessoas. Meus pais e nós três.  Minha tia ficou. Outro dia eu perguntei para minha tia: “Por que você não veio junto?” “Ah, porque não me chamaram”. (risos). Eu entendo o medo dos meus pais de comentar com alguém a mais porque existiam muitos casos de pessoas, de alguns vizinhos que se por acaso soubessem, ficavam com inveja. Realmente, a pessoa era presa, torturada e muitas vezes morta.

P/2 – E na Áustria como que foi?

R – Na Áustria foi uma época muito boa na minha vida porque, imagina você com sete anos, seis meses de férias, você não precisa ir para a escola, só ficava brincando. E nós tivemos muita sorte de ficar num convento. Era um convento que era um tipo de uma fazenda, então minha mãe ajudava na cozinha, nós podíamos ajudar a cuidar dos animais, semear. Isso para uma criança é uma festa. Foi uma época muito agradável. Inclusive uma das imagens... Porque na Hungria, naquela época, não existia preto. A primeira vez que eu vi uma pessoa preta na minha vida, eu lembro perfeitamente, eu estava brincando, era num campo, tinha um bosquezinho assim, aí tinha uma estrada lá longe, aí de repente eu lembro que eu fiquei um tempão olhando, olhando, olhando. “Que isso?” eu nem sabia que existia uma pessoa preta, muito menos ter visto. Na época achei aquilo... Depois eu contei para o pessoal aí que eles me explicaram. Imagine, a primeira vez que os pretos viram uma pessoa branca devem ter tido a mesma reação.

P/2 – E o que você pensava quando viu o preto?

R – Nada, tipo curiosidade pura e simples. Criança não tem muita malícia, simplesmente a curiosidade do que será isso. O que será que aconteceu com essa pessoa, porque ela está dessa cor? O que aconteceu? Foi uma época tranquila, uma época muito boa mesmo para meus pais, estavam numa situação que se sentiam bastante seguros, não tinham com o que se preocupar, tinham onde morar, tinham o que vestir, tinham o que comer, tinham alguns afazeres pra fazer. Claro que não estavam ganhando nenhum dinheiro, mas também não tinham nenhuma despesa.

P/1 – Muitos ficaram lá junto, muitos outros?

R – Nesse convento só nós que ficamos. Primeiro que eles estavam alojando em alguns hotéis, pensões. Me lembro que primeiro nós estávamos num hotelzinho, mas aí meus pais não gostaram. As pessoas recebiam, não era de graça que eles acomodavam as pessoas, então tinham alguns donos de hotéis que, tipo dezembro, que é época morta, recebiam um “xis” e gastavam muito menos. Então o lugar era sujo, a comida era ruim, aí nós fomos...

P/1 – E conseguiram sair com um pouco de dinheiro?

R – Não. Todo o dinheiro que nós tínhamos na Hungria, ao menos o que eles contam. Nós éramos crianças, não víamos dinheiro. Pelo que eu sei, todo o dinheiro ele deixou com o aldeão que nos atravessou. Ia fazer o quê com o dinheiro húngaro, do outro lado, na Áustria? Não valia para nada. Na Áustria, talvez a Cruz Vermelha tenha dado alguma ajuda, meu pai deve ter feito algum bico, é o tipo de coisa que uma criança não se preocupa.

P/2 – De repente vocês saíram da Áustria, como foi isso?

R – Na Áustria nós simplesmente… Bom, agora nós vamos para o Brasil, então nós fomos de trem até Nápoles, em Nápoles nós pegamos o navio e viemos para cá.

P/1 – Que navio era?

R – Provence.

P/1 – Vocês falavam francês?

R – Falávamos húngaro e só.

P/2 – E essa viagem como foi?

R – Essa viagem foi assim: nos primeiros dias a gente se sentia meio enjoado, mas foi gostosa. A viagem de navio foi muito agradável, foi divertido. Era uma viagem na qual a gente era muito bem tratado, serviam as refeições, serviam vinho, tinha macarrão todo dia. Eles serviam azeitona, coisa horrorosa. Na época achava aquilo amarga, achava horrível. Então as lembranças que eu tenho do navio foram das azeitonas, que eu achei horrorosa, macarrão que era muito bom, do vinho que eles serviam.

P/1 – Como era a classe do navio. Vocês vieram...

R – Terceira classe.

P/1 - Cabines para cada família?

R – Sabe que eu não lembro. Eu lembro que tinha uma banheira, na qual eu tomava aquele banho bem quente com vapor. E o pessoal: “Sai logo!”, de vez em quando a gente enjoava por causa do mar. A cabine eu não lembro que tamanho que era.

P/1 – E os passageiros? Tinha muitos passageiros ou muitos imigrantes?

R - Na terceira classe era quase tudo de refugiados húngaros.

P/1 – Tinha muito patrício?

R – Tinha, tinha.

P/1 – Tinham de outras nacionalidades também?

R – Eu não me lembro. Deve ter tido, mas eu não me lembro.

P/1 – Você se lembra de quantos dias levou  pra chegar de Nápoles a...?

R – Acho que eram umas duas semanas, mais ou menos.

P/1 – Vocês chegaram no Rio de Janeiro? Primeiro passaram no Rio depois desembarcaram em Santos?

R – Eu não me lembro. Eu lembro de Santos quando nós desembarcamos. Se paramos no Rio, eu não me lembro.

P/1 – O que você se lembra?

R – Eu me lembro que nós chegamos em Santos, nós descemos do navio, aí tinha o porto, onde o pessoal da imigração... O nosso tio foi lá receber, mas ao mesmo tempo nós viemos juntos com todos os imigrantes, viemos com o trem pra São Paulo, onde hoje é o Museu do Imigrante. Ali sim era um dormitório bem grande com beliches que ficavam umas trinta pessoas ou mais. Eram muitos beliches. Tinham pelo menos uns vinte beliches.

P/1 – Por acaso seu tio mandou carta de chamada para vocês?

R – Não, não precisou.

P/1 – É outro caso, os refugiados.

R – Naquela época era a Cruz Vermelha que ajudou todos os refugiados, inclusive nas passagens, não sei. A gente tinha o passaporte que eles chamavam de amarelo, na época. Eu tenho ainda esse documento, de quando nós saímos do país. Você não vai viajar sem um documento. Eles fizeram esse tipo de passaporte, que seria provisório, um documento de apátrida.

P/1 – Apátrida?

R – Sim, porque quando você foge de seu país, você é apátrida, porque você não tem cidadania.

P/1 – Digamos que abdicou, né?

R – É.

P/1 – Nós estávamos na história dos apátridas. Você se tornou uma apátrida porque se tornou uma refugiada. E quando a família chegou aqui como que ficou?

R – Eles fazem aquele documento que existe até hoje, a identidade, a carteira modelo dezenove, é um tipo de uma identidade de estrangeiro, até que você solicite a naturalização e nós fizemos isso. Inclusive nós fizemos, eu fiz duas vezes a naturalização. Pelo seguinte, na época meus pais se naturalizaram e os filhos eram automaticamente naturalizados, mas com uma lei que se chamava Lei de Opção, isso significava que quando tinha maioridade, com dezoito anos, então eu poderia optar com a cidadania húngara ou me naturalizar definitivamente.

P/1 – Qual foi a sua opção?

R – É lógico que eu me naturalizei, afinal de contas eu sou mais brasileira do que húngara em termos de tempo de vida. Agora em termos de coração, ele fica divididinho. E bem dividido.

P/1 – Você sempre tem frisado que você não lembra porque você era pequena, aí eu pergunto: seu pai e sua mãe não te contaram o pedaço que você não viu porque era muito pequena? Ou eles não gostam de falar disso?

R – Alguma coisa sim. Bom, como os dois já são falecidos, minha mãe faz seis anos que faleceu, meu pai faz sete. Teve muita coisa que minha mãe contou, conversava mais com a minha mãe. Das dificuldades econômicas da época que eles moravam lá, por quê fugiram, essas coisas todas foi minha mãe que contava, por exemplo, as torturas que o pessoal sofreu, quando eu voltei para a Hungria, pessoas que eu conheci que foram presas e ficaram na Sibéria por muitos anos. Inclusive tem um conhecido nosso, que vive ainda, depois da Guerra foi preso na Sibéria, ele fala que uma aliança de ouro dele – qualquer coisa de ouro o pessoal levava – então ele não queria que o pessoal levasse a aliança de ouro dele. Aí ele engolia, quando evacuava, pegava, lavava, aí engolia de novo e foi assim não sei por quantos anos. Foi a forma que ele teve para não perder a aliança. É o extremo, é uma falta de respeito humano terrível.

P/1 – Agora, quando você chegou no navio, você se lembra da primeira coisa que você viu que te chamou atenção?

R – No Brasil? Eu lembro do porto, logo que nós chegamos, eu me lembro de uma casa amarela, uma casa grande com um salão enorme que logo que nós descemos nós ficávamos lá. Eu lembro que tinha um tipo de uma muretinha de madeira, a gente ficava ali esperando pra ver o que ia acontecer. No porto. Depois lembro do trem subindo de Santos até o que é atualmente o Museu do Imigrante, lembro do beliche que era de pinho. A única coisa que eu me lembro em termos da comida, é que eles davam banana de sobremesa. Eu achava divina, porque eu adorava banana. Lá não existia, então quando vinha banana, “ah, que delícia”.

P/1 – Vocês ficaram muitos dias lá?

R – Umas duas semanas, um mês talvez.

P/1 – Esperando o que?

R – Esperando, procurando condições de moradia, porque realmente não é algo muito agradável você ter umas quarenta pessoas. Eram mulheres e crianças num dormitório, homens em outro dormitório. Sem privacidade, sem nada.

P/2 – E era verão, como era isso, você lembra?

R – Junho era inverno.

P/2 – Não foi em dezembro que vocês vieram?

R – Não, nós chegamos no Brasil dia 25 de junho.

P/2 – Passou bastante tempo desde quando saiu da Hungria e chegar aqui?

R – Ah sim, foram seis meses que nós ficamos na Áustria. Ninguém queria ficar lá, então todo mundo se juntava pra alugar uma casa ou alguma coisa. Os padres do Colégio Santo Américo ajudavam muitíssimo as pessoas.

P/2 – Me conta uma coisa, vocês só falavam húngaro, daí chegou na Áustria, aí chegou na Itália, aí chegou no Brasil, como era essa coisa da língua?

R – A linguagem mímica é uma linguagem universal. A gente se entende com qualquer pessoa com mímica. Na Áustria devo ter aprendido muita coisa, com seis meses, devo ter aprendido muita coisa em alemão, depois esqueci porque nunca mais usei. Na Itália foi só passagem de trem, ficamos só uns dois dias em Nápoles, um dia talvez esperando o navio chegar. Você estando com os pais, você conversa com os pais.

P/1 – Você se lembra as condições que vocês ficaram em Nápoles?

R – Eu me lembro de um passeio que a gente fez e eu ganhei um sorvete enorme de limão, delicioso.

P/1 – Mas vocês ficaram hospedados onde?

R – As lembranças em geral, são de coisas desagradáveis, de coisas muito agradáveis ou de alguma coisa que te preocupa muitíssimo. Uma criança não tem preocupação de onde vamos dormir, os pais que dizem que aqui se fica, e aqui se fica.

P/2 – E a questão da língua no Brasil?

R – A língua do Brasil, no navio nos ensinaram a falar: “eu não compreendo”, aí a pessoa ficava explicando. Aí eu falava: “eu não compreendo”, a pessoa explicava, explicava, “eu não compreendo” (risos). Aí quando a pessoa descobria que na verdade, eu não falava português, eu não entendia nada, ela falava: “ah, blah, blah”, sei lá, devia xingar.

P/1 – Isso lá na Hospedaria dos Imigrantes ou já fora?

R – Lá no internato, porque entre nós chegarmos, nossa família chegar em Santos, chegar em São Paulo. Chegamos em Santos e no mesmo dia viemos para São Paulo.

P/1 – Lembra da serra?

R – Sim, a serra era bonitinha.

P/1 – Quais foram as impressões dessa viagem de trem?

R – Só bonitinha, o mar lá embaixo, o matinho em volta, o trem andando devagarinho, parecia que era um trenzinho de brinquedo, aquele tic, tic, tic. Nada de muito especial. Nós fomos para o internato em julho já. Nós não ficamos nem um mês entre desembarcar e ficar em São Paulo, fomos de imediato para o internato.

P/1 – Qual era o internato?

R – Colégio Notre Dame Sion, em Campanha, Minas.

P/1 – Que salto de São Paulo para Minas, como foi isso?

R – Isso foi o seguinte, tinha esse tio que morava junto com uma família e tinha aquela senhora que foi aluna de uma freira do Sion, há muitos anos, então ela entrou em contato, e através dela, a madre superiora era alemã. Eu me lembro que ela não tinha uma das rótulas porque na Primeira Guerra ela foi baleada, então ela entendia muito bem a dificuldade das pessoas, sobreviventes de regimes totalitários, de guerras e de coisa assim, então nos acolheu, nós três e mais umas seis ou sete meninas húngaras nessa situação que foram aceitas. Estudamos durante três anos e meio, nós tivemos uma educação privilegiadíssima, aí Deus falou: “Deixa eu cuidar de vocês bonitinho”, lá tinha roupa, comida e uma escola de primeiro nível. Inclusive na época, eu entendo porque eu tenho uma simbiose perfeita com os bichos de zoológico. Eu me senti como eles. Eu me lembro que eu estava sentada no balanço no pátio do colégio, aquele bando de criança em volta, tipo: “Nossa!”, acho que eles nunca tinham visto alguém estrangeiro, no interior de Minas, uma pessoa estrangeira que não falasse a língua, que não falasse nada. Aí eu lembro que eu estava balançando e a criançada em volta: “Olha!” Depois com o tempo eu acabei... Em quatro meses, que a gente ficou com convivência direta, muito rapidamente nós aprendemos a língua. Em quatro meses. Como eu já vinha alfabetizada, então no primeiro semestre... As irmãs foram muito inteligentes, cuidaram muito bem da gente. Então eu fazia o primeiro ano e o segundo ano ao mesmo tempo. Aula de matemática eu ficava no segundo ano porque eu já sabia muito bem. Mas qualquer coisa de linguagem eu ficava tanto no primeiro como no segundo, assistia as duas para aprender mais rapidamente. Tanto que quando eu voltei das férias de verão, a gente voltou para casa, eu já me comunicava, falava.

P/1 – Mas nessas alturas seus pais já tinham arrumado uma casa?

R – Já tinham arrumado uma casa.

P/1 – E trabalho também?

R – Sim, eles trabalhavam. Minha mãe não trabalhava, porque meu tio falava que aqui no Brasil, onde já se viu, mulher não trabalhava fora. Naquela época achavam que mulher que trabalhasse fora era de nível socioeconômico mais baixo. Então foi só meu pai. Como ele tinha trabalhado com solda, assim como de torneiro mecânico, alguma coisa assim, ele conseguia trabalho. Mas em relativamente pouco tempo, como ele sabia muito bem solda, começou a mexer com coisas de aço inoxidável, ele fazia pias. E uma pia de aço inoxidável tem que ter uma base por baixo de cimento ou de concreto. Ao menos antigamente era assim, porque só o metal entortava. Eu lembro que ele começou, ele virava a pia, soldava que nem uns pregos para por o cimento. Era o trabalho que ele tinha. Até que ele foi mexendo com aço inoxidável, até que acabou montando uma empresa que fazia tanques, fazia equipamentos industriais de aço inoxidável.

P/1 – Isso em que ano já?

R – Isso já em... A empresa que ele tinha esses tanques. Em 62, 63 ele já tinha a empresa dele.

P/2 – Em São Paulo? Que bairro?

R – Em São Paulo, na Pompéia. Nós moramos na Pompéia, o primeiro bairro que a gente morou.

P/2 – E sempre foi lá que vocês moraram?

R – É, a primeira casa nós moramos na Rua Tucuna, depois na Rua Barão do Bananal, depois nós viemos morar na Rua Costa Júnior e depois na Rua Tanabi. Bom Tanabi e Costa Junior...

P/1 – Todas essas ruas são em que bairro?

R – A Costa Junior e a Tanabi são em Perdizes e a Tucuna e a Barão do Bananal são em Pompéia. Bem próximas umas das outras.

P/2 – Eu queria que você contasse para a gente desses bairros antigamente.

R – Quando nós mudamos, a primeira casa que a gente morava, a gente brincava na rua, corria, andava. Era um bairro bem tranquilo. Ônibus não existia quase condução. Mais ou menos em 1980, não oitenta, setenta talvez, ou antes ainda, não lembro a data, tinha um conhecido nosso, um húngaro que... Era época que estávamos no internato, então era bem antes. Ele morou alguns dias na outra casa que nós morávamos. Primeiro nós moramos na Pompéia, na Tucuna, junto com outra família, mas em pouco tempo meus pais conseguiram uma casa na Barão do Bananal, era uma daquelas casas pequenininhas com um quintal enorme, que pra ele foi muito bom porque naquele quintal enorme conseguiu montar uma oficina, aí um amigo nosso, um conhecido dele, foi para os Estados Unidos, morou lá e deixou a gente como sócio do Palmeiras. E essa casa ele deu de presente para meus pais por sermos sócios. Então a criançada pelo menos tinha esporte, eu lembro que a gente vinha a pé, eu lembro que a gente morava próximo aquela igreja que tem lá em cima na Pompéia. A gente vinha a pé pro Palmeiras, subia e descia a qualquer hora do dia e da noite. Era tranquilo. Tinha muita segurança. Ainda é relativamente um bom bairro, é razoavelmente tranquilo em relação aos outros de São Paulo.

P/2 – Agora está cheio de prédio?

R – Agora está com bastante prédios. Mesmo a casa que eu morei na Barão do Bananal virou prédio. Odeio prédios. Gostava das ruas quando eram mais casas, mais arborizadas. Onde eu moro, tenho sorte de morar numa casa próxima ao Parque da Água Branca, no meu quintal, de vez em quando, entra lá os sabiás, bem-te-vis, eles ficam lá. Era um bairro bem gostoso. Brincava na rua direto, a criançada toda. Hoje em dia vê se tem alguma criança brincando na rua? As crianças ficam meio isoladas, trancadas dentro dos apartamentos. Não me admiro que não sejam mais agressivas, onde vão poder viver pra fora? Mesmo crianças que são sócias de clubes, se os pais não levam... Os pais têm tanto medo de acontecer alguma coisa, se você não leva, eles não podem ir no clube e não podem brincar pra fora. Então é lógico, é malcriada, é agressiva.

P/1 – Agora, saindo um pouco do assunto do bairro, voltando para a escola, depois que vocês fizeram com as freiras, como vocês saíram, para onde foram?

R – Voltamos para São Paulo, porque depois de um certo tempo as freiras falaram: “Bom, chega”. Aí nós fomos para o colégio Sagrado Coração de Jesus, na Pompéia, o ginasial nós fizemos ali, as três. Depois eu fiz técnico-químico, a irmã mais nova fez secretariado, a mais velha fez decoração na EAD, ela queria fazer arquitetura, mas não conseguiu.

P/1 – Em que ano ela fez EAD, você se lembra?

R – Que ano que ela fez? Não me lembro bem, mas faz bastante tempo.

P/1 – Não tem importância. E você fez o que depois do técnico-químico?

R – Fiz faculdade de Farmácia na USP.

P/1 – Que maravilha! Se formou em que ano?

R – Em 77.

P/2 – E trabalha com isso até hoje?

R – Trabalho. Se bem que na época, quando eu terminei a faculdade, ainda não existia o curso de Engenharia de Alimentos. A única escola que ensinava alguma coisa de bromatologia, alguma coisa de ciência de alimentos, era a faculdade de Farmácia. Então quando eu estava fazendo, ela se dividiu em três cursos: medicamento, análises clínicas e alimentos. Então eu optei para a parte de alimentos. Na verdade eu entrei na Faculdade de Farmácia pelo seguinte, por emoção. Meu avô, pai da minha mãe, era uma pessoa fabulosa, deliciosa, ele era alfaiate, eu lembro dele contando histórias pra gente. A gente ficava sentada no banquinho ouvindo as histórias dele contando. E ele morreu de câncer. E aí eu queria fazer pesquisa de medicamentos contra o câncer. Então pelo currículo da faculdade de Farmácia, é onde eu poderia fazer esse tipo de coisa. Só que depois que eu entrei na faculdade, as pessoas com quem eu teria que trabalhar pra fazer esse tipo de pesquisa, eram pessoas que não tinham condições nenhuma de fazer pesquisa nenhuma, era uma situação péssima e aí eu acabei partindo para o lado de alimentos. Já que eu estou aqui, vou fazer algo mais positivo, aí eu passei a pensar que uma pessoa bem alimentada, bem nutrida, tem menos possibilidade de ficar doente. Na verdade foi bastante decepção porque eu realmente queria fazer a parte de pesquisa, eu tenho bastante essa coisa, eu gosto de saber como as coisas funcionam, como são. Tanto que eu trabalho com desenvolvimento de alimentos, fico inventando produtos novos, eu tenho sucesso razoável porque eu quero saber como as coisas funcionam.

P/1 – Onde você trabalha com isso?

R – No momento eu trabalho numa empresa chamada Saborama, é uma empresa da linha de sorveteria. Agora eu fico inventando produtos dietéticos. Xarope de groselha dietético, tem um bom sucesso, vende bem.

P/1 – Você cria produtos?

R – Às vezes crio, às vezes existe algum produto no mercado, mas que a gente quer fazer. Mas muitas vezes eu crio também. Por exemplo, o xarope de groselha dietético eu criei. Às vezes eu crio aromas, pego as matérias primas, fico analisando para ver qual o tipo de aroma que é mais adequado. Digamos que temos o aroma de mel, e você vai querer comprar o aroma de mel, você vai querer fazer uma bala. Daí eu tenho que dizer que meu aroma, na bala, você tem que usar em determinada porcentagem. Então eu tenho que fazer a bala. Aí eu trabalho em outras empresas de aromas, inclusive eu fazia parte de aplicação desses aromas. Sabe esse biscoito Chips, esse Bongo T, aquele de calabresa, vocês comem por causa de mim (risos). Porque na época, se bem que mais ou menos... O sabor... Eles já tinham a base, o biscoito sem o sabor, então a parte da aplicação da dosagem do aroma e tudo mais. Aí veio a empresa de aromas que eu trabalhava, que não existe mais, na época a Basf comprou, a Basf já vendeu. Eu fazia a aplicação dos aromas de queijo. Eu falava põe uma quantidade, porque o pessoal de aromas, em empresas grandes, é muito sofisticado, muito fresco e metido a besta, pra falar português bem claro. Como eles são muito treinados, realmente é necessário esse treinamento, eles têm uma sensibilidade muito grande pra identificar os sabores e aromas, então ameaçou de ter cheiro de queijo “Ah, está maravilhoso.” Então eles também desenvolveram o paladar de tanto treino. Falei: “Pôxa, espera aí. O pessoal que vai comer um salgadinho está fumando, está bebendo, sabe? Não está lá degustando para saber”. Querem saber do sabor forte mesmo. Aí eu ajudei a convencer o pessoal do Elma-Chips, tem que ser o sabor com aroma mesmo, ficar bem saboroso, bem gostoso.

P/2 – Você experimenta também?

R – Sim, experimento, como um monte. Já que eu faço tenho que fazer gostoso, então como, engordo, por isso que sou gorda. Eu adoro fazer biscoito, bolachas, inclusive a culinária húngara, a gente faz muito doce, faz uns doces deliciosos, maravilhosos. Eu aprendi com minha mãe, adoro fazê-los e comê-los.

P/1 – Ah, diga quais são?

R – O que?


P/1 – Os doces húngaros.

R – Na Hungria se faz muita massa folhada.

P/1 – Strudel?

R – Não, na Hungria também se faz muito strudel, só que na Alemanha se faz mais strudel de maçã. O que eu adoro é strudel de repolho, só que é strudel salgado. A gente faz também de maçã, mas faz de papoula, de cereja, faz de abóbora, aquela amarela, fica uma delícia.

P/1 – Bota uma abóbora assim?

R – Você refoga, cozinha. Não é doce não é salgado. Você refoga, deixa bem sequinha porque para a massa de strudel pra ficar crocante, o recheio não pode ser muito molhado.

P/1 – Porque é uma massa folhada.

R – Não é massa folhada, o strudel. Strudel é uma massa fininha que nem papel, que você pega uma bolinha assim, e aí você tem uma mesa enorme, vai esticando, esticando, esticando até ficar do tamanho da mesa, uma massa fina que nem papel. Aí você espalha o recheio e vai enrolando.

P/2 – E você aplica essas receitas na sua profissão?

R – Algumas delas aplico sim, já levei livros de receita húngaros, biscoitos, já fiz com essas receitas.

P/1 – Faz onde?

R – Na empresa que eu trabalho. Nessa parte de aromas, muitas vezes já usei receitas húngaras desses livros de culinária pra utilização dos aromas. Tem um bolo chamado dobos. É um bolo que você tem sete camadas de pão-de-ló bem fininhas, mas é assado um por um, aí põe creme de chocolate dentro, por cima você põe açúcar queimado. Aquele bolo é o meu preferido. Minha mãe, uma vez por ano, a coitada tinha que fazer. É bem trabalhoso. Fica o dia inteiro fazendo. Eu sei fazer também, fica muito bom.

P/1 – E comidas salgadas?

R – Comidas salgadas. O mais típico, o mais conhecido que aqui é conhecido de goulash, que na verdade é um picadinho. O goulash existe, mas é uma sopa. Uma sopa de carne com batata, uma sopa bem substanciosa, que só aquela sopa é uma refeição total. E tem aquilo que o pessoal chama de goulash, é um picadinho de carne com páprica, cebola, páprica, eu gosto de pôr alho, se bem que na receita original não vai. Na verdade é muito simples: Você pega a cebola, refoga a cebola, põe pimentão, refoga o pimentão, põe tomate, refoga, põe a carne, refoga, refoga, refoga, até aquela carne estar quase queimando, aí você põe mais água. Normalmente é feito com músculo ou acém, são carnes de segunda. Quando a carne já está macia, aquele pimentão, aquele tomate, aquela cebola já se desfez e fica que nem um molho, e lógico que você vai pondo um pouco de água para não torrar demais aí no fim, de meio quilo de carne você faz comida para um batalhão, não atualmente, mas antigamente. Aí o pessoal pega creme de leite, sempre tinha, creme de leite, um pouco de farinha, água, faz assim, engrossa, põe páprica, aí fica um monte de molho, fica muito bom, aí você faz um nhoque de farinha. É só farinha e água. Pra meio quilo de farinha você usa um ovo só, se bem que hoje em dia o pessoal põe mais, antigamente ovo era muito caro.

Em termos de comida, na Hungria, uma coisa tipo arroz e feijão, uma coisa que você come todo dia, não tem. O mais típico que tem quase todo dia é sopa. Os húngaros, muitos comem. Primeiro comem sopa, depois comem a comida. A comida é bastante variada, normalmente é algo de... Verdura refogada não se come tanto, não nos moldes daqui. Você come mais uma vagem refogada só que com bastante molho branco junto. Mas é um molho branco sem queijo, com um pouco de páprica. Bastante comida para render mais, uma coisa mais substanciosa para alimentar mais pessoas. Meio quilo de vagem, ao invés de comerem três pessoas, comem cinco ou seis, porque tem aquele molho todo, que é um molho com farinha e creme de leite.

P/1 – Mas isso aí se deve a quê? À cultura simplesmente ou a uma questão de agricultura local?

R – Agricultura local e disponibilidade daquilo que existe. Na Hungria se come muito repolho, se come chucrute, mas não é um chucrute igual a dos alemães, é um chucrute um pouco mais suave. Também tem gente que come chucrute que nem os alemães. Não só na Hungria como na Europa tem uma coisa que é muito típica, que por sinal eu faço excelentemente, que se chama Chalamade que é uma salada mista que é curtida. No inverno lá não existe verdura fresca. Então o pessoal tem necessidade de guardar coisas para o inverno. São fontes de vitamina C, como o repolho é uma ótima fonte de vitamina C, pimentão, cebola, cenoura. Então são todos eles picados ou ralados bem fininhos e são escaldados. São escaldados com uma mistura de água, vinagre, sal, mais outros temperos. Cada um põe seu tempero. São simplesmente escaldados. Põe toda aquela verdura crua, escalda, prensa um pouco e põe em garrafas e armazena para o inverno.

P/1 – Conserva as vitaminas?

R – Conserva todas as vitaminas porque você não ferveu nada, então é uma coisa extremamente saudável, bem saborosa e dura bastante. Porque todas as casas na Hungria têm uma dispensa. Porque as casas são construídas com paredes duplas, janelas duplas. Então a dispensa é um quartinho, como se fosse um armário. Algumas casas têm dispensa maior, outras menores, onde a parede é simples, no inverno fica uma temperatura de uma geladeira, é uma geladeira de antes de existir a eletricidade... Não só na Hungria, como em todos os países europeus onde o inverno é rigoroso.

P/1 – Essas paredes duplas, elas têm ar no meio?

R – Não, não tem ar. São tijolos, como se fosse dois tijolos. São paredes mais largas para se ter isolamento térmico.

P/1 – Falando em comida, quando você chegou, qual foi sua impressão da comida local, nossa aqui?

R – Olha, da coisa que eu não gostei, logo, no internato... Arroz eu gosto, feijão eu gosto. Comer junto. Agora pegar no prato, fazer um... Misturar tudo, como se aquilo fosse lavagem, isso daí eu não.

P/1 – Quer dizer, misturar o arroz com feijão?

R – Arroz com feijão. A freira que tomava conta do internato devia ser muito ignorante...

P/1 – Mas você gosta, arroz aqui e feijão lá?

R – Sim, um do lado do outro e você vai comendo.

P/1 – Não em cima?

R – Até pode pôr em cima, mas não misturar, misturar. Tipo como se aquilo fosse uma coisa só.

P/2 – Ela obrigava a misturar?

R – Obrigava a misturar. Então as freiras obrigavam a gente a misturar o arroz e o feijão, e naquela época, 1957, a gente não podia comer de garfo e faca, a faca era pra simplesmente cortar a carne, deixava de lado, aí você era obrigado a empurrar o alimento com um pedacinho de pão no garfo. Porque garfo e faca aqui no Brasil, só homem que usava. Pra mulher era falta de educação.
Era algo assim para nós abominável, era a maneira, era o hábito deles de comer. Logo que eu conheci, tinha aquele queijo Minas que o pessoal derretia na chapa pra comer, pra fazer sanduíche, aquilo era delicioso. Foi lá que eu conheci o biscoito de sequilho, aquele biscoitão de polvilho de mineiro. Aquilo lá é algo muito bom. Tinha uma família da cidade que eu conheci, a família Oliveira, que nos adotou, eu e minhas irmãs. Então levava a gente de domingo para passear. Eu lembro de uma compota de goiaba, eles tinham uma cozinheira. Tinha a casa, atravessava a rua, tinha como se fosse um quintal. Aí eu me lembro do pé de goiaba, carambola. Achei aquilo tão fantástico. A gente podia subir no pé, pegar. Uma fruta tão diferente, o formato, tudo. Eu me lembro que eles tinham um tacho onde eles cozinhavam cinza para fazer sabão. Isso bem antigamente. Uma das lembranças interessantes, tinha carro de boi naquela época, em Minas. O carro de boi passava todo dia às três horas da tarde. Eu estava lá e ouvia nhec, nhec, nhec, era o carro passando. Uma coisa que não existe mais, quando eu voltei em Minas, tentei ver se existia, a gente comia o puxa-puxa. Puxa-puxa seria de melado, é como se fosse de rapadura, fizesse, mas é um ponto antes dele ficar duro, então ficava como se fosse essas balas molinhas, mas feita de rapadura e aquilo puxava assim, puxava. Me lembro da maria mole que a gente ficava brincando de tocar piano. As outras comidas no internato, o arroz com feijão que você tinha que comer todo dia, porque na Hungria dificilmente, não que não repita comida, não existe uma coisa que você coma todo o dia. Cada dia você faz o que você tiver, você vai fazendo. A maioria faz carne com molho, que é uma forma de render mais. Com meio quilo de carne com molho você alimenta cinco pessoas com molho, com meio quilo de carne se você fizer bife não rende nada. Aquele goulash, o pessoal faz de vitela, de carne de porco, de frango. É uma maneira de preparar que faz de diversas formas. E é muito gostoso.

P/2 – E além da comida, o que mais ficou da tradição húngara?

R – Tem as músicas húngaras, a literatura húngara.

P/1 – As músicas quais são?

R – Tem muitas músicas folclóricas. Eu sou péssima cantora, mas eu tenho diversos discos, se vocês quiserem... Tem diversos que eu comprei lá.

P/2 – Tem algumas festas de família húngaras?

R – Existe na Rua Gomes de Carvalho, eu não me lembro o número agora, a Casa da Cultura Húngara, então lá tem uma vez por mês, inclusive quinta feira agora vai ter, um jantar dos escoteiros veteranos. Se bem que a maioria... Metade nunca foi escoteiro. Mas é uma forma de chamar, no começo eram escoteiros veteranos. Uma forma de reunir o pessoal da colônia, todo mês a gente vai lá.

P/1 – Tem mais da Colônia Húngara aqui?

R – Sempre tem algumas pessoas que são mais ativas, que participam. Mas tem bastante. Tem muita gente que não participa. Ficou bastante espalhado. Logo depois da Primeira Guerra, pelo que eu sei, na Vila Anastácio, existia um bairro húngaro, o pessoal só falava húngaro. Tanto é que existia uma congregação de freiras húngaras e padres húngaros. Tem a igreja de Santo Estevão na Vila Anastácio. Santo Estevão foi o maior rei da Hungria, que introduziu o catolicismo na Hungria. Tem na Lapa, mesmo na Vila Anastácio, perto da Vila Hamburguesa, na Moóca foram os bairros que tinham colônias húngaras. Tinham diversas pessoas que falavam húngaro. Conheci pessoas que falaram que até aprenderam um pouco de húngaro com os vizinhos.

P/1 – Você falou música, dessa Associação, dessa sociedade, comida, que mais você falou agora pouco?

R – Literatura, poesia. Tem um grupo de escoteiros húngaros que isso ajudou muito a manter a tradição dos costumes e do folclore. Por exemplo, quando viemos para o Brasil, éramos pequenas então era uma forma da gente não perder a língua, inclusive não esquecer a leitura, aprender a escrever com uma ortografia de uma forma razoavelmente correta, o movimento dos escoteiros, isso também ajudou muito. A gente tinha aula de húngaro, aula de gramática, de história, de geografia da Hungria, antes da reunião dos escoteiros. Esse movimento existe até hoje. Muitos netos de húngaros. Tem muitas crianças que vão nos escoteiros que aprendem húngaro. Eu, inclusive, era do grupo, mas agora trabalhando não tenho mais muito tempo. Esse movimento ajudou muito, inclusive para as pessoas novas que chegaram, os imigrantes. Teve uma época que tinha umas sessenta pessoas, moças, mais até, umas sete ou oito tropas...

P/1 – E tem danças também?

R – É mesmo, a minha sobrinha faz parte do grupo de danças folclóricas húngaras. Eles se apresentam muitas vezes, quando tem aquela festa dos imigrantes que tem danças japonesas, árabes...

P/2 – Festa das Nações?

R – Isso, isso. Eles sempre se apresentam.Tem dois grupos de dança húngara.

P/2 – Na tua família vocês fazem alguma coisa nesse sentido?

R – Na minha família, quando eu era escoteira eu tinha uma roupa, um traje típico húngaro. Naquela época cada um fazia em casa. Com as gravuras e desenhos das roupas típicas, a gente procurava imitar ao máximo. A minha roupa foi usada por muitas pessoas, tem enfeites de cabelo que a gente pegava, copiava e bordava. Depois que eu parei de dançar, por uns dez anos, sei lá quantas pessoas usaram. A minha sobrinha continua frequentando escoteiros, continua em um dos grupos de dança húngara, tem um professor de dança húngara que vem a cada dois anos para ensiná-los a dançar. Eles já foram até para a Colômbia para se apresentar, o pessoal promove. A colônia húngara é bastante ativa, não só no Brasil como na Argentina, no Uruguai. Então eles fazem a cada dois ou três anos um Festival de Dança Húngara, uma vez o pessoal vai para a Argentina, outra vez para o Uruguai, pra Colômbia, às vezes o pessoal vem aqui. Então eles fazem esses festivais de danças húngaras.

P/1 – Qual é basicamente o perfil da roupa folclórica?

R – Tem muitos tipos. Cada região... Basicamente tem aquelas saias que são rodadas, tem região que umas são plissadas, basicamente o pessoal tem uma saia que é plissada, muitas anáguas, tem o avental, alguns têm coletes, outros tem lenços, tem os enfeites na cabeça que são bordados, tem colares, tem as cores que são bordadas, os estilos. A uma distância de trinta/quarenta quilômetros as pessoas já têm estilos de roupa diferentes. Tem região que usa só fundo de branco, tem região que usa muito bordado de fundo branco com todas as cores.

P/1 – Os países dessa cratera dos Cárpatos, tem outros que tem danças parecidas com as de vocês? Quais seriam as mais parecidas?

R – Tem, tem. Se alguém ouvir isso, vai falar: “Mas você não entende nada de dança...” Mas se a gente for analisar friamente sem tanta emoção, eu já vi dança portuguesa. Porque a época histórica desses trajes típicos e dessas danças folclóricas eles eram da idade de 1200 e 1300. Na Europa inteira. Então você pode notar que a roupa das portuguesas, a roupa do pessoal que dança a tarantela, tem semelhança.

P/1 – Os gregos também?

R – Os gregos são um pouco diferentes. Eles têm aquelas calças, mas as mulheres até que... Tem as saias muito rodadas, com um monte de anáguas, blusas de manga bufante...

P/ 1 – Os búlgaros?

R – Tem aquelas saias floridas. Acontece que aquele tipo de blusa é um pano quadrado e outro pano quadrado onde sai a manga. Você costura aqui e franze aqui. Então você tem a camisa que é um tipo de camisa que se usava na Idade Média. Só que no inverno, o pessoal não tinha o que fazer, ficava em volta de um daqueles fornos de pizzaria só que bem grandão. Era aonde o pessoal assava o pão, secava lenha, secava roupa, ficava em volta. Aquilo aquecia a casa e se usava para cozinhar. E também iluminava. O pessoal ficava lá pintando, bordando, aí vai criando essas roupas típicas.

P/2 – Isso era na sua aldeia natal?


R – Todas as aldeias. Cada aldeia reunia a turminha, nós vamos bordar desse jeito, nós vamos fazer mais bonito que a aldeia vizinha. E assim é que surge, não só na Hungria, mas na Europa em geral, as roupas típicas. Você pode notar, por exemplo na Lapônia, aqueles tecidos são muito trabalhados. Quanto maior o inverno, mais rigoroso, mais trabalhadas são as roupas. A roupa grega não é tão trabalhada, a portuguesa também não, nem a italiana.

P/1 – Quanto mais frio...

R – É, porque o pessoal não tem o que fazer, às cinco horas da tarde já está escuro, fica lá, com lampiãozinho fica lá bordando, conversando. Naquela época não existia televisão. Tanto é que hoje, com televisão, tem pouquíssimas pessoas que bordam ainda. O pessoal borda muito, é uma coisa que se vende muito, tem uns bordados maravilhosos na Hungria, mas é tudo bordado à máquina.

 

P/2 – Você borda?

 

R - Atualmente não, mas antigamente, eu já cheguei a fazer coisas muito bonitas, mas agora é perder tempo.

 

P/1 – Na infância você não aprendeu nada de trabalhinhos manuais?

 

R – Lá, a única coisa que aprendi foi tricô. Mas fazia um ponto, ao invés de passar de uma agulha para a outra, fazia uma coisa comprida. Tricô a gente aprendia desde criança. Bordar eu não aprendi. Fui aprender aqui. Porque tricô é necessário, para você poder fazer um pullover, um cachecol, uma meia.

 

P/1 – Antes de passar para um cotidiano aqui no Brasil, assim mais recente, você voltou muitas vezes pra lá. Você tinha alguns comentários para fazer de Budapeste, a sua visita a sua cidade natal.

 

R – A cidade natal, onde nasci é uma aldeia muito pequenininha. Quando voltei, minha mãe era viva ainda e mostrei para ela e ela disse: “não mudou nada”. Passou uns quarenta anos, sei lá quanto. Era uma cidade extremamente pequena onde se cria ovelhas então logo que eu cheguei ouvia aqueles béééé... Uma recepção perfeita, uma rua com dois, três quarteirões talvez. Se andar muito devagarinho, a pé, em uns quinze minutos você já saiu da cidade. Então cheguei ali no meio onde tinha uma igrejinha, uma capelinha, fotografei a capelinha, virei de costas fotografei a saída da cidade, o outro lado a outra saída da cidade, a capelinha, um morrinho, acabou. Na verdade, é uma cidade fronteiriça com a Iugoslávia. Ela tinha importância mais estratégica, por ela ser fronteiriça. Era o último ponto onde o trem ia. Tem uma linha de trem que vai até lá. Não sei se ainda funciona, mas naquela época acho que sim.

 

P/1 – Você não lembrava da capital?

 

R – Como assim?

 

P/1 – Quando saiu.

 

R – Quando eu saí. Eu me lembro do [Rio] Danúbio que a gente ia, tinha uma ilha bem grande. Essa ilha Margarida que tinha um balneário e meu pai ficava ensinando a gente a nadar. No próprio Danúbio, na beiradinha, depois da escola a gente ficava lá brincando de amassar barro. Aquelas coisas que criança faz, bolo de barro depois leva para casa. A mãe ficava furiosa de estar levando barro para casa.

 

P/1 – É universal.

 

R – Por isso que eu falo que criança é igual no mundo inteiro. Tipo de lembrança, é essa que é uma lembrança de infância, você sair para brincar onde tinha um parque, um tanquinho de areia, tinha o balanço, um rio que na verdade era perigoso – um dia a correnteza quase que me leva embora. Acho que é por isso que eu tinha um pavor danado de água. Eu só perdi aqui no Brasil, quando eu resolvi que eu ia aprender a nadar. Eu me lembro que eu estava, tinha que nem uma prainha, a gente ficava brincando. Aí eu fui um pouco mais pra dentro, a correnteza do Danúbio era muito forte, aí a correnteza me pegou e eu fiz uma força muito grande, me arrebentei toda, me esfolei nas pedras. Mas um susto.

 

P/1 – Essa era uma lembrança de infância. E quando você voltou, você achou o Danúbio tudo igualzinho?

 

R – Sim, igualzinho, não mudou nada. Não, tem um pouco de diferença, naquela época era mais selvagem, naquela época fizeram mais degraus. Está mais cimentado. Se bem que o parque que eu brincava está do mesmo jeito, não mudou praticamente nada, tem alguns brinquedos novos, tem alguns ainda daquela época. Tinha um campo de futebol lá perto que não existe mais. Está reconstruído. Mas tem muitas coisas que não mudaram.

 

P/1 – E sua impressão daqui de São Paulo enquanto cidade?

 

R – Quando nós viemos para cá, eu andei de bonde aqui em São Paulo. A gente ia lá pro centro. Era assim, minha mãe dava o dinheiro da condução e como eu adorava pastel, eu vinha a pé desde... Eu morava na Pompéia. Eu vinha a pé praticamente. Eu andava a São João inteirinha, porque o pastel custava a mesma coisa que a condução, aí pra comer o pastel andava a pé tudinho.

 

P/2 – Da Pompéia até onde?

 

R – Até o Largo São Bento, mais ou menos. Uma boa andada. Mas eu me lembro que era uma cidade que tinha bonde, era uma cidade tranquila. Naquela época eu tinha dez, doze anos e ia para o centro sozinha, tranquilamente. Era uma cidade bem mais arejada, arborizada, agora é essa loucura. Quando eu fiz o técnico-químico, eu fiz no Mackenzie e eu saia a noite, ia nos bares, nos botequinhos que tinha lá, numa boa, tranquilo, voltava para casa duas, três horas da manhã, sozinha e não tinha perigo nenhum.

 

P/2 – Qual é sua rotina hoje?

 

R – Levantar cinco e meia da manhã, ir trabalhar, pegar um trânsito do cão para voltar. O trecho que eu demoro quarenta minutos de manhã eu demoro uma hora e meia à tarde, aí chegar em casa, por o pé para cima, descansar um pouco, preparar a comida para o dia seguinte, dormir para aguentar trabalhar o dia seguinte, acabou.

 

P/1 – Qual foi seu primeiro emprego?

 

R – Meu primeiro emprego foi na Farmasa, uma indústria farmacêutica, que existe ainda, está no mesmo lugar, na Vila Mariana.

 

P/1 – Mas antes disso não tinha trabalhado enquanto estudava?

 

R – Enquanto estudava não. Logo que eu terminei o técnico fiz estágio na Shell, mas foi estágio, emprego mesmo foi lá na Farmasa.

 

P/1 – E você mora com quem?

 

R – Agora eu moro sozinha.

 

P/1 – Você já está falando do seu dia-a-dia. Qual a atividade mais importante?

 

R – Trabalhar.

 

P/1 – E seu lazer qual é?

 

R – Meu lazer é ler um pouco, assistir televisão, ir ao cinema, conversar com os amigos.

 

P/1 – Você participa de algum sindicato, alguma atividade política?

 

R – Não, não dá tempo. Primeiro que eu não gosto de política, da maneira com que a política é feita, não só aqui no Brasil, mas no mundo inteiro, uma falsidade total. Então eu me recuso a participar de uma coisa assim, falsa.

 

P/1 – Quais os seus sonhos?

 

R – Meu sonho atual é estar aposentada, não estar acordando todo dia às cinco horas da manhã todo dia, chegar em casa sete e meia, oito horas, aí ter tempo de ficar pintando, eu descobri que eu tenho jeito para isso e me dedicar com coisas desse tipo. Lógico, vou sempre fazer coisas criativas, se não criar algo eu morro. Eu tenho que estar sempre inventando. É uma forma tremendamente criativa, queria me dedicar a isso.

 

P/1 – Enquanto não chega a aposentadoria o que dá para fazer?

 

R – Olha, você ficando fora de casa doze a treze horas por dia, é muito difícil fazer algo mais.

 

P/2 – Pergunta muito baixa.

 

R – O meu grande sonho mesmo é ter bastante dinheiro e viajar o mundo afora.

 

P/1 – Você se relaciona com suas irmãs, coisas de família?

 

R – Sim, sim. A gente se fala de vez em quando. Tenho bastante amigos.

 

P/1 – Gente da colônia?

 

R – Alguns da colônia. Se bem que a melhor amiga que eu tenho é brasileira. Tem uma que é húngara. Tenho duas amigas de longa data. Uma brasileira e a outra húngara. As duas são amizades de trinta anos mais ou menos.

 

P/1 – Qual você acha que é sua melhor qualidade?

 

R – Não faço ideia, nunca parei para pensar.

 

P/1 – Se você pudesse voltar no tempo, o que você mudaria ou faria?

 

R – Eu confiaria mais nas pessoas, talvez. Eu teria feito um tratamento psiquiátrico ao redor de vinte anos, pra superar traumas de infância que não vem ao caso nesse depoimento, que é uma coisa que não tem nada a ver com a situação política de certa forma da Hungria, é um problema meu, pessoal, que não vem ao caso. Isso eu faria. Teria a vida mais fácil.

 

P/1 – Você está contente com sua profissão?

 

R – Na verdade eu queria ter feito Educação Física, eu fiz Farmácia primeiro pela essa parte emotiva, eu gosto de ensinar, eu gosto muito. Só que eu tinha que trabalhar e eu não tinha condições de fazer uma faculdade diurna. Na verdade, com quinze anos eu queria ter feito Engenharia Mecânica, eu tenho muita habilidade mecânica. Imagina uma moça fazendo Engenharia Mecânica, que coisa horrorosa.

 

P/2 – Era a profissão de seu pai, de uma certa forma.

 

R – Tanto o meu pai como o irmão dele tinham uma habilidade fantástica. Herdei isso deles. Se você me der um equipamento qualquer eu desmonto e monto de novo, bonitinho. Inclusive eu trabalhei com embalagens na Matarazzo Embalagens e o pessoal me convidou para montar o controle de qualidade. Eu entrei no laboratório, o negócio estava tão abandonado, tão sujo que começou pintando a parede. Tinha equipamento que eu nunca tinha visto na minha vida, eu peguei e desmontei tudinho e montei e pus para funcionar e funcionou melhor que novo. Eu tenho essa habilidade. Teve equipamento que eu fui lá limpar, pensei que estava estragando porque estava preto e começou a ficar cinza, que nada, era uma camada de sujeira tão grossa. Aquela época foi uma época muito boa da minha vida, eu consegui fazer coisas muito boas. Havia muita possibilidade de criar estruturas, por exemplo, de caixas de papelão, para aguentar, com resistências adequadas. Essa é uma filosofia bastante mecânica. Qualquer teste que eu fiz... Eu me lembro de uma vez que eu fiz um estágio na Firestone e o pessoal técnico deram um teste técnico, só que seria o mesmo teste que dariam para um mecânico. Aquilo que eu nunca tinha estudado, teste com roldanas, eu acertei tudo, fui super bem, o pessoal perguntou se eu tinha certeza se não tinha feito mecânica. “Não, é uma coisa nata”.

 

P/1 – Só faltou perguntar para você, o que você achou de falar da sua vida? De dar essa entrevista.

 

R – Eu achei bastante agradável, lamentavelmente eu não sou uma pessoa de uma cultura muito grande em termos de... Gostaria de ter falado um pouco mais sobre a história da Hungria, mas eu não conheço tão bem a história da Hungria assim. Um pouco de preguiça de pegar os livros de história. Se bem que eu estudei muita coisa da Hungria, mas tem muita coisa que eu já esqueci.

 

P/1 – E você tem usado sua língua?

 

R – Sim, no dia a dia eu falo mais com pessoas brasileiras, mas falo sim.

 

P/1 – Bom, a gente quer agradecer sua entrevista.

 

R – Imagina!

 

P/1 – É tão boa que poderia continuar por muito tempo.

 

R – Nem brincando.

 

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