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Descobertas na Amazônia

História de: Valter Hirata
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/05/2020

Sinopse

Nasceu em Promissão, em São Paulo. Infância em Promissão. Mudança para a cidade de São Paulo. Trabalhou em um banco, ainda durante o colégio. Cursou Geologia. Morou na Amazônia. Trabalho de campo. Trabalhou em Moçambique. Pesquisa de ferro do Projeto Carajás. Trabalho na Docegeo. Se aposentou em 1996. Tabalho como consultor para a Vale do Rio Doce.

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História completa

P/1 - A primeira pergunta é pedir para o senhor se apresentar. Nome completo, data e local de nascimento.

 

R - O meu nome é Valter (Koy?) Hirata, eu nasci em Promissão, São Paulo, em 23 de novembro de 1942.

 

P/1 - O nome dos seus pais? 

 

R - Meus pais? Meu pai era Pedro Fukashi Hirata, minha mãe é Agatha Takeo Hirata. Eles têm nomes cristãos mesmos, sabe? Estão ligados a questão da... Porque eles eram católicos, né? Minha família, Hirata e Yaoki, eram famílias católicas no Sul do Japão, sabe? Inclusive, a vinda de meus pais para o Brasil está ligada a essa questão religiosa, sabe? Porque havia uma certa perseguição. Estou falando em 1900, início do século, final do século passado... No século retrasado, aliás. (risos) Os Hirata e Yaoki vieram para o Brasil; primeiro, meu avô esteve na Califórnia, mas não deu certo lá. Os americanos... Acho que ia haver uma guerra no futuro, parece. (risos) Aí eles voltaram para o Japão, depois, vieram embarcar no Brasil. 

 

P/1 - Foram seus avós que vieram para o Brasil?

 

R - Meus avós. Meu pai e minha mãe tinham sete anos, cinco anos, quando vieram para o Brasil. Então, basicamente, foi um problema religioso. Então minha avó chama Ana. 

 

P/1 - Nomes cristãos, certo?

 

R - Toda a minha família, todo mundo __________. Meu irmão é Paulo, Carlos Gilberto, Inês, né? Meus primos, tem um primo chamado Nicolau, Eusébio. Enfim, tudo por causa da religião. Era uma das poucas famílias católicas no Japão no meio do século, eram os Hirata e Yaoki, sabe? Então, eu fui parar em Promissão, né?

 

P/1 - Por que escolheram Promissão? Como é que foi essa chegada?

 

R - Ah, isso eu não sei, rapaz. Sei que eles eram agricultores, né? Os Hirata eram agricultores, como o grosso dos japoneses. Até eu ainda sou meio agricultor (risos). E foram parar no interior de São Paulo, né? Promissão, não sei porque fui parar lá. Sei que logo os irmãos de meu pai, e meu pai inclusive, eles montaram um negócio. Fizeram uma pequena indústria de balas. Confeito, né? Então eles eram da roça, mas nem tanto assim. Então o que aconteceu? Logo, eles foram morar na cidade. Promissão é um centro, uma cidadezinha pequeninha. Tinha, sei lá, cinco mil habitantes ou menos na época. Não, cinco mil nada. Quando eles chegaram, era bem menos, né? Então o que aconteceu, com isso, a maior parte, todos os meus irmãos, ninguém fala japonês, por exemplo.

 

P/1 - Ninguém chegou a aprender?

 

R - Ninguém, porque a gente morava na cidade. Então todos os vizinhos eram assim, brasileiros normais, vamos dizer assim. Então todo mundo falando português, não havia necessidade de falar. O que ocorria para as famílias que conservavam a língua é porque moravam em colônias isoladas. Lá no Pará tem (Tomé Açúcar?), que ela conhece, né? Eram colônias. E a minha família ia mudar para a cidade. Meus tios não queriam muita coisa com a roça, não. Botaram um negócio de balas na cidade, né? Então, conclusão: eu não sei falar nada de japonês. (risos)

 

P/1 - Mas algum tipo de cultura japonesa foi mantida de tradição dentro da sua família?

 

R - Olha, nesse ponto, eu acho... Meus pais... Eu acho que foi um erro. Eu preferia, era muito melhor que eu soubesse falar duas línguas, claro, né? Então tem problema a guerra, né? Eu nasci em plena época da guerra. Eu nasci em 1942. Então nessa época havia restrições. Os descendentes de japonês, naquela época, e muito mais nas cidades... Então era proibido você ficar falando em japonês entre eles, entendeu? Mas, mesmo dentro de casa, meu pai também não falava conosco, nem minha mãe, em japonês. Então esquecemos. Todos os sete irmãos falando português. Só a minha irmã mais velha que depois começou a estudar, recuperar um pouco esse negócio, sabe? Então... E a comida um pouco, mas nem tanto. Nós crescemos mesmo é comendo arroz e feijão com um jabá. (risos) E hoje, por exemplo, a minha mulher até é mais apreciadora de comida japonesa do que eu, tanto é que ela casou comigo. (risos)

 

P/1 - Seu pai foi trabalhar na fábrica do seu tio, e...

 

R - É, estava nesse negócio da fábrica, não é isso? E eu sei que, depois, meu pai teve um desarranjo com os irmãos lá, ele saiu do negócio, da fábrica. Então _____ negócio e ele continuou em Promissão ainda, né? Nós fizemos escola primária, e ele partiu para fazer comércio, fazia corretagem de imóveis, um monte... Umas picaretagens, tipo corretor de imóveis, é um negócio meio... (risos) Então ele largou o negócio dos irmãos, brigou com eles, rompeu, digamos assim, com a família, né? O negócio... E nós ficamos em Promissão até eu completar o primário, até quase eu terminar o ginásio. Naquele tempo havia ginásio. Agora não é mais isso. Até os treze anos, eu fiquei em Promissão. Aí, lá em Promissão, nessa época, foi quando eu ouvi falar em Geologia.

 

P/1 - Lá em Promissão, com treze anos?

 

R - Lá em Promissão, quando eu era menino. Tinha um cara... Uma pessoa, uma família, que tinha um engenheiro... Eu estou falando em 1950, 1950 e pouco, 1954, por aí. Então ele trabalhava na Petrobrás já, trabalhava com... Ele era engenheiro, fazendo curso de adaptação. Foi quando eu ouvi pela primeira vez em Geologia, sabe? Assim, veio para cá, o cara ganhava muito dinheiro e viajava muito. Uma coisa que me atraiu, vou viajar muito. O cara conheceu o Brasil inteirinho. Então um negócio que me atraiu, porque o primeiro chamado da profissão foi essa questão de viajar. Então rodar pelo país afora e...

 

P/1 - Mas essa sua infância em Promissão, como é que foi? Quer dizer, esse período, as brincadeiras...

 

R - Eu acho que sim, todos os meus amigos eram brasileiros, normais, vamos dizer assim. Era menino, jogava futebol, pescava, tomava banho no rio, pescar. O município, na época, uma cidadezinha que tinha... O município todinho tinha vinte mil habitantes. A cidade tinha cinco ou sete mil, sabe? Cidade pequena. Tinha uma escola, tinha um ginásio, escola normal para as moças, tinha um colégio de freiras. Cidade pequena mesmo. Então, era moleque, não tinha nada de especial. Família média para classe média baixa, não era nada... Não era rico, nunca fomos, né? E foi muito bom. Eu acho que foi uma infância muito feliz. Eu senti muito quando mudei para São Paulo, né? Aquela mudança muito bruta, você está com treze anos de idade,  você está andando na rua descalço, brincando, não sei o que. E de repente, vai para a capital igual São Paulo. Tem que andar de bonde. Na época, tinha muito bonde. Era transporte para ir de um lugar para outro. Foi um negócio brutal, e você corta aquele lado de amizade, né? Então você tem repercussões, eu acho, sabe? 

 

P/2 - Você foi para São Paul,o para que bairro de São Paulo?

 

R - São Paulo, lá em Moema, um bairro de Moema. Então, a casa que nós mudamos naquela época, até hoje a minha mãe está lá, a casa lá em Moema. Indianópolis, mais exatamente. Moema é o distrito.


P/1 - Perto da Avenida Ibirapuera, ali?

 

R - É. Então eu terminei o ginásio em São Paulo, no Roosevelt, colégio estadual, né? Isso acho que foi bom, porque eu sempre estudei em escola pública. O pessoal mais velho, quase todo mundo fazia isso. Hoje em dia acabou esse negócio de escola pública, né? Eu sempre estudei em escola pública, o ginásio foi o Roosevelt, o colégio também no Roosevelt, né? E aí, essa questão de Geologia realmente estava muito ligada. E eu não me via assim. Naquela época, era engenheiro ou medicina, sabe? Ou direito. Três coisas básicas. Isso para não falar em professor, essas coisas que eu não cogitava. Mas, realmente, eu não me via como médico, nem como engenheiro.  Porque eu não achava que não era bom em matemática também, sabe? A Geologia me atraía pela condição de um curso superior, você vai viajar muito, vai conhecer o Brasil inteiro. Me atraía muito o Nordeste, eu achava a paisagem do Nordeste um negócio impressionante. E a Petrobrás, aquele negócio de petróleo, sabe? Eu só me via nisso o tempo todo. Depois que eu me formei, eu nunca mexi com petróleo e passei vinte anos na Amazônia, em vez de ter ido para o Nordeste. (risos) 

 

P/1 - Mas da onde o senhor acha que vinha essa vontade de viajar, esse...

 

R - De sair?

 

P/1 - É.

 

R - Eu não sei. Acho que foi mais... Principalmente por causa de ter vindo para São Paulo, sabe? Você tinha dificuldades financeiras, não tinha lá muito recurso, família meio pobre. Então dá para estudar em escola pública, mas assim, com dificuldade. Então você, na cidade grande que te oprime muito, eu acho... Eu perdi as amizades de infância quase todas, ficaram em Promissão. E senti uma vontade assim, cada vez mais forte de viajar, de sair. Então isso me empurrou mais ainda para o lado da Geologia, porque o que mais se fazia em Geologia era viajar. Então você não tinha noção bem na época: "Não, você vai estudar a terra." Vai viajar, eu vou estudar a terra, trabalhar com minérios, esse negócio aí. (risos)

 

P/1 - Eu queria só perguntar uma coisa, voltando um pouco, em relação ao cotidiano dentro da sua casa. 

 

R - Sei.

 

P/1 - Quer dizer, como é que era um pouquinho... Sete irmãos, você disse. Como é que era esse dia-a-dia? Você se relacionava?

 

R - Era normal, era uma relação boa, né? Mas o que aconteceu? Depois que nós mudamos para São Paulo, meu pai saiu de casa, sabe? Então ele ficou um tempo aí... Vou dizer que ele estava desaparecido, deu um sumiço. E o meu irmão mais velho que carregou as coisas nas costas, sabe? Eu tive que trabalhar. No colégio, eu trabalhei. Durante o colégio, eu fiz o colégio a noite e eu tive que trabalhar em um banco, esse negócio todo, né? Então isso colocou a gente muito juntos, sabe?  Quer dizer, ou a gente fica junto aqui para poder fazer as coisas juntos ou então vamos nos arrebentar, porque tinha que pagar as despesas da... Nós tínhamos comprado uma casa, tinha que pagar uma casa, né? E viver, comer e dormir, entende? Então isso aí, segundo, meu pai saiu, essa questão acho que juntou muito a gente, sabe? Aí entrou muito aquela questão de solidariedade, lutar, trabalhar junto aqui para ver se a gente consegue pagar essa casa. Então, no geral, era... Foi muito bom essa relação com os irmãos, até hoje. Então esse irmão mais velho, eu já perdi. Ele morreu cedo, morreu com 44 anos de idade, problema de coração. Eu acho que foi mais pelo que ele sofreu mesmo, pelo arrimo de família, o cara passa mal, né? Trabalhou muito, desgastou muito. Então ele morreu novo. Mas o relacionamento é bom, respeitoso, todo mundo até hoje está... A gente se encontra sempre que pode, e a minha mãe foi realmente a coisa que juntou. A minha mãe é que segurou a turma, né?

 

P/1 - A casa de vocês, que vocês moraram aqui...

 

R - Em São Paulo?

 

P/1 - Como é que era, um pouco, essa casa de vocês?

 

R - É uma casa geminada, de três casas, né? A nossa é a do meio, uma casa com dois quartos. Três quartos em cima. E fora, em cima da garagem, tinha outro quarto, onde a gente morava. Então nos fundos tinha uma vila, né? E está lá até hoje. (risos)

 

P/1 - O senhor vai visitar a sua mãe?

 

R - Antes, eu ia mais. Agora eu aproveito essas coisas assim, quando eu venho para o Rio, por motivo desse tipo, eu dou uma esticada em São Paulo. E tem mais de ano que eu não vou lá, por sinal. Quer dizer, isso que eu falei era na época que todo mundo era solteiro em casa, hoje não é tanto assim mais. Evidentemente, todo mundo já velho aí, tem avô, negócio todo aí. Já tem uma vida mais própria. Então esses encontros são mais raros, né? Então, esse tipo de viagem, a gente aproveita para ver a turma lá, né? 

 

P/2 - E a educação religiosa, já que a família era católica, tinha catecismo, frequentava a igreja?

 

R - Ah, sim. Eu fui congregado Mariano em Promissão, né? Congregado Mariano é aquele... Eram aqueles grupos assim, que não precisavam usar uniforme para ir para a igreja, vamos dizer assim. Tinha os Cruzados, que usavam uniforme, né?  E os Marianos só iam com roupa de civil mesmo, para ir para a igreja. Então toda a família sempre na missa, todo o domingo. Então, quer dizer, depois também já ficou só de fachada, né? (risos) Mas o catolicismo foi o nosso forte, tenho uma prima freira, né? Tem primo padre lá em São Paulo. Os Yaoki também, é a mesma coisa. Yaoki e Hirata são meio aparentados lá no Japão, sabe? E são duas famílias basicamente católicas que foram... Acho que é isso.

 

P/1 - Eu queria que o senhor contasse um pouquinho dessa entrada na Geologia, como é que foi o período de faculdade, vestibular?

 

R - Bom, então, é o seguinte: quando eu estava no colégio, assim que eu terminei o colégio, eu fiz o primeiro vestibular e levei um pau no vestibular. Aí, no ano seguinte, eu... Seis meses, eu fiz um cursinho. Naquela época era como hoje, né? Todo mundo tem que fazer cursinho, senão não dá. Aí o meu irmão pagou um cursinho para mim, seis meses, meio ano, né? Eu sabia, porque quando eu comecei fazer o cursinho, eu falei: “Olha..." Eu tinha certeza que aquilo lá era questão de vida ou morte: “Ou eu passo, ou então eu vou trabalhar no banco.” Isso era claro como água. Então, provavelmente, acho que foi o período que eu mais estudei na minha vida. Foram os seis meses de cursinho. Eu tinha uma metodologia de estudar, rapaz. Eu seguia isso a ferro e fogo durante seis meses. Estudava de segunda a sexta-feira. Eu ainda estudava sábado e domingo, durante o período regular, fora as provas finais, né? Eu trabalhava e estudava sistematicamente todo dia, estudava. Passei em primeiro lugar no vestibular.

 

P/1 - Em primeiro lugar?

 

R - Primeiro lugar. Agora, na faculdade, eu sempre fui um aluno médio. De trinta caras, eu estava lá nos catorze, quinze, por aí, só. Então, no cursinho, eu achava que aquilo era vida ou morte: “Ou você passa nessa faculdade, meu amigo, ou então você vai trabalhar no banco e está roubado.” Então tudo aquilo foi um negócio para mim, é muito claro para mim essa questão, sabe? Então foi a época que eu mais estudei na minha vida. (risos)

 

P/1 - E esse curso de Geologia, quer dizer, era um curso que estava se formando naquela época?

 

R - Curso de Geologia, na época, já tinha formado algumas turmas, né? Eu estou falando... Eu me formei em 1966. Entrei na faculdade em 1962.  E, naquela época, os cursos eram (anualizados?), não é como hoje, não. Tinha aula o dia inteiro. Então, uma matéria cada dia, aula teórica de manhã, aula prática à tarde. Foi um período muito bom, a faculdade, turma boa, um pessoal... Porque o grupo todinho ficou junto até os quatro anos, né? O que não acontece hoje. Hoje, você faz um semestre com uma turma, depois muda, ninguém conhece a tua turma, né? Naquela época, não, todo mundo andava com todo mundo. Conhecia... Era marcado pelas turmas. Turma de 1966, turma de 1967. 

 

P/2 - E as aulas práticas, tinha laboratório _____?

 

R - Ah, tinha tudo. Laboratório, trabalho de campo, tinha... O curso de Geologia tem que ser um curso prático, por excelência, porque ele é... Então você tem que ver as coisas e fazer, né? Então eu acho que foi um curso bom, eu acho que foi um... A avaliação que você tem é que o curso foi bom. 

 

P/1 - Era na Alameda Glete ou já era na Cidade Universitária?

 

R - Na Alameda Glete. No meu tempo, era na Alameda Glete. E tinham algumas matérias na Cidade Universitária, mas o grosso do curso era todo na Alameda Glete. Era Geologia e Química na Glete, né? 

 

P/1 - Geologia e química?

 

R - A Química, o Departamento de Química, também era lá. 

 

P/1 - Quer dizer, pensando no curso de Geologia nesse período, na década de sessenta, o que significava isso para vocês, em termos políticos, por exemplo? O que aquilo representava?

 

R - Ah, era... Era uma época com forte incidência política, digamos assim. Então praticamente todo mundo participava, porque ou você era de um lado, ou de outro mesmo, né? Todo mundo participava... A partir de 1963, 1964, quando houve o Golpe Militar, foi uma época terrível. Então havia muita passeata, muito movimento de rua, muito protesto. E isso, todo mundo participava praticante. Ou era a favor ou contra, mas teve vários colegas da Geologia, não da minha turma, que tiveram participação muito forte naquele período pós 1964. Caras que saíram do país, ficaram muito tempo fora do pais. Então foram presos. Hoje, voltaram, tem caras que são professores brilhantes aí, na Unicamp, profissionais de empresas, né? Foi um período político assim, muito importante. Todo mundo se interessava, ou para defender o status quo ou para jogar contra, né? Eu mesmo fui preso, passei uma noite no DOPS. Uma daquelas manifestações, nós passamos uma noite no DOPS. O DOPS era o Departamento de... Como que é? Ordem Política e Social.

 

P/1 - Mas que contexto que o senhor foi preso? Em que momento?

 

R - Isso foi depois do Golpe Militar, naquelas manifestações de protestos, né? E acho que foi em 1965. Foi 1965 ou 1966? Não me lembro bem. Então houve uma manifestação em São Paulo muito grande, uma passeata marcada por grupos estudantis, sindicatos. Parou a cidade todinha, um negócio grande, sabe? Em vários lugares. O problema é que a polícia entrou de sola, prendendo, assim, duzentos aqui, trezentos ali, entende? Cercava a rua inteira, prendia todo o mundo. Foi nesse... Nessa noite. 

 

P/1 - E só foi preso, levado?

 

R - Preso, fichado, fotografado, numa noite só.

 

P/1 - E dentro da faculdade havia um debate? Quer dizer, Geologia e a questão sobre minerais, nacionalismos, etc., como é que isso se colocava entre vocês?

 

R - Ah, isso... Naquela época, o nacionalismo era uma coisa muito forte, a questão de minério, minérios para o Brasil, né? Porque todo mundo via, na questão do Golpe de 1964, a questão da desnacionalização. A entrada das empresas estrangeiras, medo de que as empresas estrangeiras acessassem esses depósitos. Então todo mundo discutia isso. No Brasil inteiro discutia essa questão e era um dos motivos da resistência, um dos motivos principais... Uma das coisas que puxavam a resistência ao Golpe de 1964, a questão da desnacionalização do bens minerais, né? O petróleo principalmente e bens minerais. Bom, isso era um negócio interessante que até eu, lá na frente, vou falar. Mas mesmo que várias províncias minerais importantes, ou pelo menos Carajás, que era uma das principais províncias minerais do mundo hoje... Para citar Carajás, que compreende um monte de depósito, foi descoberta uma empresa americana em 1967. Durante alguns anos, foi tocada por empresa americana e, posteriormente, o Brasil, com jeitinho de brasileiro _______ para falar que foi isso, acabou ficando com tudo. Os americanos simplesmente foram embora. A mesma coisa na mina de bauxita do Trombetas. Quem descobriu foi uma firma canadense. O projeto foi instalado, o negócio, a mineração foi instalada de fato, a Vale do Rio Doce é majoritária do negócio. Então boa parte dos negócios que os gringos descobriram, não é nada simples e de uma maneira muito pacífica assim, usando regulamento, um código de mineração antigo que eles tinham aí. Então, lá naquela época, voltando, esse temor era muito forte, ainda mais de estudante, né? Então: “Ah, meu amigo, os gringos vão fazer isso, vão fazer aquilo.” E esse governo está aí para isso, entende? Então isso era uma coisa que tocava fundo nas pessoas, estudantes. Então era uma motivação muito forte para participar desse movimento. 

 

P/1 - Em termos de trabalho, quer dizer, entrar para o mercado, formado, que opções que se tinha nesse momento para você, geólogo?

 

R - Quando se formou, excelente. Eu fui contratado antes de me formar. Olha, eu não cheguei a colar grau, estava terminando de fazer as últimas provas, teve uma empresa de São Paulo lá na escola, a Codim... A Codim era Companhia de Desenvolvimento de Indústrias Minerais, é uma subsidiária da Union Carbide, empresa americana das pilhas Eveready, né? Uma empresa multinacional. Fica lá em São Paulo. Brasileiros, geólogos brasileiros da Carbide contrataram cinco caras da minha turma em uma tacada só. Então nós nem colamos grau. Naquela época, todo mundo tinha emprego. Petrobrás, COM... CPM não, empresas estrangeiras, a Meridional. Meridional era outra empresa americana subsidiária da US Steel Corporation, era o maior truste do aço no mundo, na época. Um monstro siderúrgico na época, sabe? Chamava, no Brasil, Companhia Meridional de Mineração, que já tinha de longa data uma mina de manganês lá em Lafaiete, em Minas Gerais. Já operavam uma mina, sabe? Então, na época que a gente se formou, 1966, tinha... Ninguém tem problema de emprego. Todo mundo foi rapidamente empregado, a gente escolhia emprego. Como eu te falei, eu comecei a trabalhar, eu nem participei da colação de grau da minha turma. Eu peguei meu diploma dois anos depois na secretaria da faculdade. Fui lá e peguei o diploma na secretaria da faculdade.

 

P/1 - Dois anos depois?

 

R - Dois anos depois. Então, quer dizer, incrível a comparação com hoje. Hoje, não tem emprego para geólogo, praticamente. Naquela época, eram empregos bons. Aí o cara chegou lá: “Olha, vamos para a Amazônia, você topa?” “Eu topo.” 

 

P/1 - Você topou na hora?

 

R - Na hora. Porque você é muito novo, então, como tudo novo, o que não falta é entusiasmo, né? É espírito, é loucura, é uma aventura, aquele negócio todo, entende? A selva, imaginava aquele... Na época, a visão que eu tinha da Amazônia era assim, que era um pântano. Não sei porque, eu imaginava tudo alagado. São regiões pantanosas. E quando nós fomos trabalhar, quando eu cheguei em Marabá para trabalhar em nove de janeiro 1967, cheguei em Marabá, é só montanha. (risos) Não tinha nada, chovia muito, entende?  Mas nada de você imaginar aqueles pântanos, aquele negócio terrível. Era um céu espetacular, bonito, montanhas, tudo coberto por floresta. Então, de cara, a hora que pintou o negócio de emprego, já peguei logo o primeiro. “Amanhã? Então vamos embora.” Aí, quando passou um tempo, eu estava voando para... De Caravele, do Rio, para Belém. Na época que tinha Caravele da Cruzeiro, passamos três dias no Rio, fazendo exame médico aqui. A empresa era sediada aqui no Rio, né? A Codim. Exame médico, aquele negócio todo. Para Belém, passamos um dia em Belém, uma noite em Belém. Aí, de DC3 para Marabá. Na época, Marabá tinha alguns carros. Se eu não me engano, tinha um ou dois carros na época. Não tinha nada. Era um lugar isolado. Eu ia de barco para aquele lugar, Marabá. Hoje, tem Transamazônica, tem um baita de um aeroporto. Na época, você só ia de avião DC3, né? E Marabá, ficamos dois dias, talvez. Logo depois, já estava dentro do mato. Primeira campanha nossa durou mais de quarenta dias.

 

P/1 - Primeiro trabalho de campo?

 

R - Primeira campanha de campo durou mais de quarenta dias. Eu chegava... A Companhia tinha aberto uma pista para o local de trabalho, descia de Teco-Teco, né? Ficamos logo quarenta dias, para sair para as primeiras folgas em Marabá. Aí tirava três dias de folga em Marabá, voltava para o mato de novo. Então, nesse primeiro ano de trabalho, foi... Era tudo novo. Então você fazia qualquer coisa, você não estava... Achava bonito, era divertido aquele negócio. Ficava quarenta dias no mato, sair e tal. Era uma festa, pô! (risos)

 

P/2 - Os seus companheiros de viagem eram colegas de faculdade, ou eram...

 

R - Eram cinco colegas da mesma turma lá de São Paulo. Fomos trabalhar. Já tinha mais dois veteranos que estavam lá na área, trabalhando lá. Esse meu emprego na Codim era... Essa empresa, Codim, tinha descoberto uma ocorrência de manganês num lugar chamado Serra do Sereno. Fica no contexto do que é hoje a região de Carajás, né? E tinham descoberto uma ocorrência de manganês, então nós fomos trabalhar nesse negócio, para detalhar, aumentar, ver... Avaliar o potencial desse negócio, né? 

 

P/1 - A mina já tinha sido descoberta, quer dizer, era uma turma de avaliação?

 

R - Já tinha sido descoberta em 1966, um ano anterior, por essa empresa mesmo. Para descoberta, foi basicamente por informações que manganês é uma pedra preta. Então é uma coisa... Pedra preta relativamente densa. Então qualquer caboclo pega lá e nota a diferença, né? Então havia essa informação e os caras da Codim checaram esse negócio em 1966 e descobriram essa ocorrência de manganês. Essa questão, eu acho que tem relevância quando a gente fala da Vale, porque, ao mesmo tempo, se uma outra empresa americana chamada Meridional, que eu já falei, subsidiária da US Steel Corporation, que também tinha um programa de procurar manganês na mesma região... E enquanto a gente estava ali em Marabá, baseado em Marabá, na Serra do Sereno, a Meridional tinha um chefe geólogo americano chamado (Jim Tolbart?). Eu tenho que falar o nome dele, porque foi uma pessoa muito importante no... Tem muita ligação com o que vai acontecer com a Vale lá na frente, sabe? O (Tolbart?) era geólogo da Meridional e o chefe da equipe de campo era o Breno, exatamente, e tinha vários outros brasileiros trabalhando com ele, sabe? Erasto Boretti, Riter, principalmente esses dois caras, a equipe de brasileiros principais. Tinha outro americano também, o Peter, né? Então, enquanto a gente estava em Marabá, a equipe do Breno da Meridional, do (Tolbart?), estava também procurando  manganês. O que eles procuravam? Eles procuravam basicamente alguma coisa ligado aquilo que a Codim já tinha descoberto em 1966, que eu estava trabalhando. Por que? Porque manganês é um negócio, é um minério que dá tipicamente em relevo _______ serras. As jazidas formam em serras normalmente, sabe? E frequentemente, então, formam serras com formas, tipo serras alinhadas, tipo cordilheiras alinhadas, sabe? Por causa da natureza das rochas que geram os depósitos de manganês, né? Então o que aconteceu? Na nossa visão, na época, ou logo depois, vamos dizer assim, não foi na época, não foi tanto assim, o (Tolbart?) que era um concorrente da... A Meridional, que era concorrente da Codim, né, queria procurar manganês também e achava que se pegasse os prolongamentos daquela serra que continha o depósito da Codim, ele podia achar outra ocorrência de manganês. Então esse prolongamento ia em direção ao meio da região do Tocantins, Xingu, em direção Oeste, né? Então o (Tolbart?) estava com a equipe dele no Xingu, e, em 1967, ele tinha helicóptero. Ele já foi para lá com helicóptero. No início de 1967, a Codim não tinha helicóptero. Só usava aviãozinho Teco-Teco, monomotor e a pé, né? O (Tolbart?) foi para lá em 1967 com helicóptero, para o Xingu. Então ele tinha, na época, uma visão de fotografia aérea de todo o bloco Tocantins-Xingu, aquela região ali, que continha a Serra do Sereno. E ele sabia que naquela região, pelas fotografias aéreas, tinha várias serras elevadas formando platôs, chapadões. E por incrível que pareça, no meio da mata, aqueles chapadões eram um cerrado, vegetação rasteira de campo com lagos. Por isso, por causa desses lagos, essa forma de chapadão é que os geólogos brasileiros do governo antigamente, né, mapearam aquela região, foto-mapearam a região como calcários.

 

P/1 - Eles identificaram como calcário?

 

R - Por que? É, porque calcário é uma rocha que o jazimento dela com frequência forma platô, forma chapadas, né? E com frequência mostra lagos. Por causa da dissolução de calcários, às vezes, formam lagos. Principalmente, lagoa daqui, ali, buracos grandes, chamados dolinas e lagos, né? Então, olhando a fotografia aérea, sem poder pisar no chão, isso aqui parece calcário. Então era foto-mapeado na época, até a chegada da Meridional na região, como calcário. Bom, então o (Tolbart?), com helicóptero no Xingu, via aqueles chapadões nus, né? Platô... Era uma base ótima de apoio para helicóptero, para procurar o prolongamento daquela Serra do Sereno. Então ele estava no Rio Xingu, eu estava falando coisa assim, de duzentos quilômetros de distância, das grandes, né? Então aqueles platôs poderiam fazer um ponto de apoio ali, depois olhar aquelas coisas ali, mais ao Norte, né? Quando ele pousou, o Breno pousou já na primeira dessas, porque eles são... Tinha um depósito, tinha 45 clareiras, né? Um monte de clareiras. Quando ele pousou na primeira clareira, o Breno viu que aquilo era mina de ferro, não era calcário PN. (risos) Era minério de ferro. Então o que acontece? Isso é um raciocínio geológico. A hora que ele tem uma fotografia aérea com 45 platôs, a hora que ele pisa em um e vê que é ferro, automaticamente ele deduz que o resto é ferro. Isso é uma coisa lógica. Aí o cara toma um susto, pô! “Puta, nós descobrimos uma puta de uma mina de ferro.” E é isso que foi descoberto em Carajás.

 

P/1 - Procurando manganês?

 

R - Procurando manganês. Eles procuravam manganês. Procurando, na minha maneira de ver, naquela época, as pontas das serras que continham as ocorrências de manganês da Codim, da Serra do Sereno, porque eram serras alinhadas no sentido Leste-Oeste, sabe?  Para chegar lá, primeiro tem que pousar nesse platô, que eu vou me reabastecer, vou montar uma base de apoio aqui, acampamento, para depois ir para lá. Era um problema logístico dele, não? E aí descobriu que aquilo não era calcário, mas uma baita de uma mina de ferro, uma das maiores do mundo, né? 

 

P/2 - Como que era essa divisão, por exemplo, dessas áreas entre as empresas? Havia um controle...

 

R - Naquela época... O que acontece é o seguinte... Até hoje, né? Se tem uma área de interesse, você requer ao governo, faz um requerimento de pesquisa e delimita uma área. Para isso, tem uma limitação. Na Amazônia, você pode fazer pedido de dez mil hectares cada um, sabe? Mas você pode fazer vários polígonos de dez mil hectares. Então, na época, a Codim tinha os requerimentos daquela área do manganês ali, entende? E a Codim não tinha a visão global do interflúvio Tocantins-Xingu, porque não estava olhando o mosaico de fotografias aéreas, não estava nesse negócio e não tinha helicóptero. A hora que ele viu isso aí, ele automaticamente mandou requerer tudo, todos aqueles conjuntos de platôs. E aí a Meridional passou a ser detentora da prioridade sobre aqueles depósitos de minerais de ferro, mas eles queriam procurar manganês.

 

P/1 - Por que esse interesse todo no manganês? 

 

R - Na época, essas siderúrgicas americanas... porque o manganês é um insumo siderúrgico forte, né? Muito importante na produção de aço e manganês é um negócio... Não é abundante assim no mundo, tem poucas minas. Tem algumas minas na África, no Gabão, que davam... Dá meio em fase de quem terminar lá e eles precisavam de novas fontes de suprimentos. Nos Estados Unidos não tem mais manganês. E o Brasil, a Amazônia, na época, era totalmente desconhecido. Então, com os grandes minérios que ocorrem em serras, né, você “tropica” em cima, vamos dizer. São blocos desse tamanho aqui, formam blocos de oito, dez metros de espessura, coisa dessa ordem, blocos grandes. Então formam serras grandes, coisa de duzentos por duzentos, coisas assim. Coisas grandes que você “tropica” com facilidade, vai achar e é fácil de identificar, porque é tudo preto, suja a mão e é um negócio denso. Então é difícil errar, não tem como errar. Então a Amazônia, naquela época, era totalmente desconhecida. Não tinha mapa. O mapa que tinha naquela época lá, que eu me lembro, eram mapas usados, feitos pela Força Aérea Americana, mapa muito mal feito, com fotografias aéreas antigas, entende? Muito impreciso. Então, pô! Se tem uma coisa que... Um lugar que a gente pode achar manganês é ali, porque ali é desconhecido. Nós estamos falando de 1967. A região de Carajás, acho que ninguém tinha pisado lá, fora os índios, provavelmente. Porque não se tinha notícia dessas coisas lá. Porque, fatalmente, minério de ferro, o cara tem que encontrar aquelas pedras pesadas: “Pô, que pedra esquisita!” O cara ia levar para casa, mas não havia isso. Então o negócio era virgem, intacto. Como eu te falei, porque o manganês é um negócio que você pode encontrar nesses lugares desconhecidos, pouco visitados, entende? E Carajás, Amazônia, pelo seu desconhecimento, era um lugar ideal. E como a Codim obteve essa informação de que havia ocorrência de manganês, geólogos brasileiros trabalhando para Codim... Isso vai sair desse papo, dessa história de que havia manganês em Marabá. Eles foram para lá em 1966, descobriram manganês no Sereno. O (Tolbart?) mandou a equipe dele para outra empresa, sabendo que, se existia lá, deve ter mais. Então, um negócio que... Uma coisa puxada. Tem um ditado em Geologia que diz: “Você procura elefante na terra dos elefantes”, entende? (risos) Não na terra de onças, esse negócio. Procurar nas terras dos elefantes. Então devia ter outros, e aí que vai... Eu acho que passou na cabeça do (Tolbart?) aquele raciocínio que eu te falei. Eram serras alongadas, ia pegar prolongamento. No caminho, baixou em Carajás, descobriu a maior mina de ferro do mundo lá.

 

P/1 - Como é que vocês receberam a notícia dessa descoberta? Vocês receberam ela...

 

R - Na Codim?

 

P/1 - É.

 

R - Pois é. Isso aí foi, isso foi... Eu fiquei sabendo desse negócio, na realidade, em meados de 1967. Porque eu tinha um colega meu de turma, o Erasto, que trabalhava com o Breno, da equipe do Breno. Porque depois eu fui trabalhar na Meridional. No ano seguinte, eu fui trabalhar na Meridional, sabe? (risos) Bom, então, para você ter uma ideia, para você ver só, naquela época havia muita briga... Briga não, era uma concorrência entre essas duas multinacionais, sabe? Então a equipe que eu trabalhava na Codim, a chefia da Geologia da empresa, sabendo que o (Tolbart?) estava na região do Xingu e com o Sereno já descoberto, então eles ficaram... O (Tolbart?) deve ter alguma coisa por lá, entende? “Vamos atrás dele.” Então foi uma coisa assim, entende? “O (Tolbart?) tem alguma coisa boa por lá!” E aí começaram… Outra coisa: na época, se fazia muito mapeamento com avião. Se pegava avião, sobrevoava ponto conhecido aqui desse mapa, voa na direção tal, cinco minutos e, a cada minuto, marcando: “Passou o Rio Grande, passou uma serra alinhada para esquerda, para direita, passou um morrote, passou uma serra pelada.” Vai fazer mapa, fazer dentes assim, com sobrevôo, né? E com esse tipo de trabalho, o pessoal da Codim, o pessoal da chefia da Geologia da época, mapearam várias serras alinhadas também na região do Xingu. Assim, a Noroeste, de onde... Do Sereno, onde a gente estava, era outra cadeia, que não era a cadeia do Sereno propriamente, sabe? E aí, nós falamos assim: “O (Tolbart?) deve estar indo para lá com esse negócio.” Aí a Codim mudou toda a equipe, inclusive a gente, de Marabá para Altamira. Nessa altura, o (Tolbart?) já estava lá em Carajás com helicóptero. (risos) Nós fomos para Altamira e fomos para uma região chamada Bacajá, Rio Bacajá, sabe? A gente subia de barco, três ou quatro dias de barco pelo Rio Bacajá, subia o Rio Xingu, depois o Bacajá. E aí a Codim alugou um helicóptero. A Codim era mais modesta, em termos de orçamento, que a Meridional. A Meridional era mais ousada em termos de orçamento, sabe? Ficamos no Rio Bacajá e alugou um helicóptero e colocou a gente em umas serras, cinquenta quilômetros fora do rio. Depois de subir quatro dias no rio, aí saímos cinquenta quilômetros fora. Eram duas equipes de Geologia. A minha equipe era eu e o Décio, o Décio alemão, um geólogo muito importante que, inclusive, no trabalho da Vale em Carajás... Já morreu esse geólogo. E ficamos perdidos em um monte de lugares ruins, granito, que é uma rocha que não tem nada a ver com manganês, entende? Ficamos dez dias andando lá, no meio de onça, sozinhos, isolados, não tinha nem rádio nesse época, não usava rádio. A Meridional usava rádio já. A Codim era mais modesta, mais pão dura, não usava nem rádio. Os caras deixaram a gente lá: “Daqui dez dias a gente passa aqui para pegar vocês.” Se houvesse algum problema, estava frito. Não tinha nada. Só tinha rádio de pilha para ouvir a BBC de Londres, que era só o que pegava. A BBC de Londres era “A voz da América”, pô! E pegava a rádio Brasil Central de Goiânia só pela manhã. Quando nós subimos para Carajás, foi a época da Guerra dos Seis Dias. Então a gente ouvia toda aquele negócio da guerra, subindo o rio. Aquilo foi muito forte para mim, aquele negócio, sabe? Tocava aquela música, Acorda Maria Bonita, ouviu aquela música? Tocava direto isso na rádio. “Levanta e vai fazer o café.” Depois, eram notícias sobre a guerra. Isso foi no Bacajá. Assim, o Bacajá foi para a Codim uma campanha equivocada. Nós ficamos um tempão perdidos no meio daquele granito de rocha. Não chegamos a coisa nenhuma e o (Tolbart?) estava em Carajás. Estava lá perto da onde a gente estava, descobrindo Carajás. Nós estamos nos meados de 1967.

 

P/1 - Só uma pausinha, uma pausa rápida. Senhor Valter, o senhor quer continuar um pouquinho nessa...

 

R - Bom, estava, então, no Bacajá, não é isso? 

 

P/1 - Isso.

 

R - E, basicamente, nós fomos lá atrás da equipe do (Tolbart?), porque achava que a equipe do (Tolbart?) tinha alguma coisa boa por lá. E foi um negócio equivocado aquilo. Até, em setembro, a gente suspendeu o acampamento e tirou toda equipe do Bacajá. Mas depois da Codim, ainda trabalhei... Fizemos um trabalho no Rio Gurupi, ali perto de Belém, né? Aí eu encerrei a minha carreira na Codim, porque em 1968, em janeiro, eu fui trabalhar na Meridional, na equipe do (Tolbart?), em que o Breno era o chefe de uma equipe lá em Carajás e o (Tolbart?) criou um outro grupo de exploração, fora de Carajás. Trabalhava eu, o Aladar... O Aladar era o chefe geólogo desse grupo, né? Trabalhava o Aladar e eu, e o Roque. O Roque é um cara de São Paulo, colega meu também, que veio do (DNPM?), ________ (DNPM?) e, naquela época, em 1968, nós fomos trabalhar juntos na Meridional, o Roque. O Roque, depois, viria a falecer na Meridional em 1969, ele faleceu em um acidente de helicóptero no Amapá. Ou na Meridional...

 

P/1 - Como que foi esse convite para você ir para uma empresa concorrente? Como é que isso...

 

R - É o seguinte, naquela época, estava todo mundo... Não tinha muitos problemas nessa questão, né? Eu era muito novo, não estava preocupado com esse negócio também. (risos) Na Meridional, nós trabalhamos, como eu te falei, então, em um grupo de exploração fora de Carajás, sabe? Embora eu tenha trabalhado uns tempos em Carajás também, junto com o Breno, mas a maior parte do tempo foi fora, numa outra equipe de exploração, do Aladar, né? E principalmente no Amapá, atrás de manganês. Nós fomos para o Amapá atrás de ocorrência de manganês, que existe. Todo mundo já tinha essa informação na proximidade, na região que envolve a Serra do Navio. A Serra do Navio, na época, era a principal mina de manganês do Brasil, que era explorada pelo Grupo Antunes. O grupo que era da KM aqui.

 

P/1 - Da (Ecome?)?

 

R - (Ecome?). Então nós trabalhamos lá, principalmente durante... Até 1969, no Amapá, né? Depois eu passei um tempo... Eu trabalhei três meses na África, em Moçambique, né? Aí a empresa americana, a Steel, que faz exploração no mundo, incluía pesquisa de titânio, essas areias pretas de praia. Aquele mineral de titânio, basicamente ilmenita, né? Depois tinham umas áreas nas costas de Moçambique e aí eu fui fazer esse trabalho lá, de avaliação, sabe? Fiquei lá três meses, quase quatro meses, até dezembro de 1970, lá em Moçambique. Lá é uma beleza, todo mundo fala português, e os moçambicanos, os negros, eles adoram o Brasil e acreditaram que eu era brasileiro com essa cara. (risos) Eu falava português. Então os caras adoravam o Brasil, o Roberto Carlos era o Rei naquela época... Ainda é, né? (risos) Então, foi muito bom.

 

P/1 - Na beira da praia?

 

R - Na beira da praia, trabalhava com Jeep Land Rover, em cima, subindo duna todo o dia, entendeu? Trabalho interessante. 

 

P/2 - E o solo tinha alguma semelhança com o solo brasileiro ou não? 

 

R - Como?

 

P/2 - O solo moçambicano...

 

R - É a praia que você conhece aí... E o mesmo tipo de minério. É ilmenita de praia, né? Tem o Jetbras, que é uma firma que depois eu vim trabalhar. Jetbras, aqui no Brasil. Tem uma mina ali perto, se eu não me engano, na Paraíba, no litoral, não tenho certeza, sabe? São as areias pretas de praia. Separa aqueles minerais por vários processos, né? E aquele mineral de titânio... Titânio é a matéria prima de tinta. A base de tintas é titânio, né? Outra vez, eu fiquei na África até dezembro de 1970. Aí voltei para o Brasil, na Meridional, e trabalhei, então, seis meses de 1971, na pesquisa de ferro de Carajás. Na época, era um grupo, já era um consórcio formado pela Vale do Rio Doce e Meridional, que tocava o projeto de pesquisa de Carajás. Aí foi um negócio interessante, que a Vale, então, entrou nesse negócio. Anteriormente, o que aconteceu nos bastidores é o seguinte: a Meridional tinha os períodos de pesquisas sobre as áreas de Carajás, a Steel, mas ela não estava muito afim de entender os investimentos na área, compreende? E aí, em princípio, ela topou uma associação com a Vale do Rio Doce, formaram uma empresa chamada Anza, uma zona de mineração que começou o projeto pesquisa, né? Mas, posteriormente, a Meridional abandonou porque não queria mais investir na área, compreende? A Steel, a firma americana. E a Vale, então, pagou... Na época, o que rolou pela imprensa foi coisa de 55 milhões de dólares para ter todos os direitos minerais lá de Carajás. Isso pagava, mais ou menos, o que a Meridional gastou em pesquisa no Brasil, um pouquinho mais, talvez. Mas nem de longe pagava o que significava só o depósito de ferro de Carajás. Então, pacificamente, numa boa, a Vale chegou lá de mansinho e virou dono daquele negócio todo. Isso foi um trabalho muito forte de bastidores que se comentou, né? Não tem... Mas foi um jeito brasileiro que conseguiu. Então os caras descobriram um negócio, mas depois saíram, ficou tudo na mão da Vale. Depois é que as coisas aconteceram mais ainda. Então o que aconteceu? Em meados de 1971, a gente estava em Carajás, né? Eu estava lá em Carajás, trabalhando na pesquisa de ferro.

 

P/1 - Nessa época, já tinha uma dimensão do que era Carajás?

 

R - Não, estava sendo... Em grosso, já se sabia que o negócio era gigantesco, porque eram 45 platôs e mais algum lá no Sul. Mais onze ou doze no outro lado, do Sul, que eu não me lembro mais. Já tinha uma ideia que o negócio era grande, era gigantesco o depósito, só pelas fotografias aéreas e pelo cheque de campo de algumas dessas áreas. Em 1971, estava se fazendo pesquisa detalhada, estavam se furando, perfuração. Tinham vários geólogos trabalhando, mais de dez geólogos, eu não me lembro bem, mas era brasileiro trabalhando na área, na Vale do Rio Doce, na Meridional, tocando a pesquisa. E, basicamente, esse grupo que estava lá era... Depois iria para a Docegeo, da Vale e da Meridional. Bom, em 1971, o que aconteceu? O (Tolbart?) que, na época, já tinha saído da Meridional, descobriu Carajás e saiu da Meridional, sabe?  ________ no Brasil, ele... Isso é uma interpretação que eu tenho, né? O (Tolbart?) concebeu, bolou um projeto de pesquisa para a Vale. Vendeu para a Vale a ideia de fazer um grupo de pesquisa para procurar outras coisas.

 

P/1 - Que a Vale não tinha até então?

 

R - A Vale não tinha. A Vale começou a mexer com minério de ferro em Itabira, né? E depois, Carajás, quando ela entrou lá de paraquedas, vamos dizer assim, no bom sentido, mas foi mais ou menos assim. Então o (Tolbart?) na época, bolou um plano de criar um grupo de pesquisa da Vale e vendeu para a Vale essa ideia. E o cara da Vale que comprou essa ideia, que eu acho que foi muito importante, foi o José Eduardo Machado. Pelo geólogo da Vale na época, ele comprou essa ideia, vendeu para a diretoria da Vale e aí foi criada a Docegeo, a Rio Doce e Geologia, que na época, era só uma forma jurídica, né? E a Docegeo, por sua vez, contratou uma empresa que o (Tolbart?) criou, chamada (Terra Service?), Projetos Geológicos. O que era a (Terra Service?)? O Breno, o Hirata, toda aquela turma, aquela máfia que estava naquela época na Codim, na Meridional. Depois o Otávio, o Valter Debrão, toda essa turma toda.

 

P/1 - Acabou juntando todo mundo na Docegeo.

 

R - É, via (Terra Service?). Então eu saí da Meridional em julho de 1971. Como eu não podia passar para a (Terra Service?) diretamente, pelo problema de ética lá, vamos dizer assim, o (Tolbart?) me arrumou emprego na Tibrás. A Tibrás é essa firma de titânio do Brasil. Aí fiquei... Trabalhei no Rio três meses. Fiz um trabalho na Praia de Caravelas, na Bahia, pesquisa de ilmenita de praia. E aí, em novembro de 1971, eu fui para Belém de novo para trabalhar na (Terra Service?), já a serviço da Docegeo, né? Então aí começou a história grande de descobertas, fora o minério de ferro. A equipe da (Terra Service?) começou a operar na Amazônia, no Centro-Oeste, no Nordeste, no Sul. Trabalhava em todo o Brasil, a (Terra Service?), a serviço da Docegeo. Era um grupo grande de geólogos. Chegou a ter setenta geólogos. Chegou a ter, uma época, 85 geólogos, parece. Era, talvez, o maior grupo de pesquisas no Brasil na época, sabe? 

 

P/2 - Hirata, uma pergunta, você falou que houve um jeitinho brasileiro de se ter Carajás, né? 

 

R - É, eu acho que sim. 

 

P/2 - Pois é. Eu te pergunto o seguinte, também tem um jeito brasileiro de fazer pesquisa?

 

R - Ah, com certeza, né? Com certeza. A evolução da tecnologia de pesquisa, vamos dizer assim... Diria, por exemplo, mapear com avião, acho que todo mundo fazia, mas a gente começou fazer aqui no Brasil, o pessoal da Meridional e da Codim tinha que fazer mapa, né? Eu fiz mapa com helicóptero no Amapá. De helicóptero, mapeando rio, serra, não sei o que, porque não tinha, na época, fotografia adequada, nem mapas adequados. Por exemplo, por volta de 1975, 1976, não me lembro, eu estava na (Praia?) de Andorinhas, nós começamos lá. Fui eu que comecei o projeto. O geólogo da equipe bolou um negócio de contagem de pintas. O cara pega, em um rio, um monte de amostra na drenagem, e concentra e conta as pintas de ouro que ele vê. Contagem de pintas. É um processo de análise visual rápida que você faz, né? Então eu acho que não existia aquele negócio, estou pensando, não sei se... ________, o mundo usa (bateia?), compreende? Assim, a Geologia usa aquilo como... Então a gente passava a usar. “Não, naquela drenagem tem muita pinta de ouro.” Você fazia mapas com contagem de pintas, né? O solo, analisava o solo, contava pintas de solo, como fosse um parâmetro geoquímico. Quanto mais pintas, mais ouro, evidentemente. Era uma forma qualitativa de avaliar. Então esse, eu acho que não existia. Isso foi inventado pela turma... E teve um geólogo paraense, nome Guerreiro, que primeiro bolou esse negócio lá, essa forma de fazer, de maneira sistemática. O garimpeiro já usava, já fazia, sem precisar bater, né? Mas ele não. Começou a contar pinta, mas não vivia em função de uma ocorrência conhecida de ouro. Tinha um (V?) de ouro, pegava aquelas amostras perto para correlacionar. Pede um (V?), corre tantas pintas de ouro, para dar uma ideia quantitativa do potencial embaixo, compreende? Então essa tecnologia, eu acho que foi criada praticamente dentro desse processo, sabe? Eu, quando saí da escola, me lembro mal e porcamente o que era geoquímica de sedimento de corrente. A gente aprendeu... Quer dizer, já existia no mundo. De fato, foram os gringos que trouxeram para nós, mas tinha várias coisas que foram desenvolvidas com a forma... O problema surgia, a gente ia criando. Eu acho, por exemplo, que eu te falei, abastecer as frentes de trabalho com paraquedas. Na época, antes do helicóptero, a gente... As frentes eram _________, praticamente usava muito a pé. Então tinha um avião e o resto era feito a pé, e o progresso... Quer dizer, você abria clareiras e reabastecia as equipes com paraquedas. O cara ficava dois, três meses no mato. Então você tinha que jogar arroz, feijão, charque, essas coisas enlatadas, tudinho, nos paraquedas pequenos. Sobrevoava de Teco-Teco e jogava. Quer dizer, alguns garimpeiros já usavam isso no Tapajós também, entende? Mas eu acho que a gente adaptou essas coisas para nós, como necessidade, entende? Enfim, tinha todas essas coisas que foram criadas durante o processo, fora a evolução geológica do grupo em conceito. O grupo cresceu assim, com... Muitas coisas que você não viu na escola, nós fomos crescendo e aprendendo durante o desenrolar desses anos todos. Então, sem dúvida, tinha um jeitinho para...

 

P/2 - Idéias ________.

 

R - É, é. E a gente descobriu muita coisa em Carajás. Foram várias descobertas. Eu acho que, sem dúvida, quem está no lugar certo, é uma questão de tempo, vai achar as coisas mesmo, entende? Mas ela teve isso em mente. Ela estava lá e fez acontecer essas coisas. 

 

P/1 - Como é que os garimpeiros... Que tipo de outro aprendizado vocês, geólogos e etc., pegaram das populações locais? Por exemplo, tem essa relação, você aprendia um pouco como conviver no mato, procurar...

 

R - Ah, era tudo, com certeza. Os acampamentos, então... Isso era leis dos índios, os caboclos do Pará só usam palha. Mas nem pensar, naquela época, usar lona de nylon, aqueles... É um calor estúpido, aquilo não dá. Nylon ____________ barraco de um dia. Mas você vai fazer um acampamento assim, para durar um mês ou mais, faz uma barraca de palha. Os caboclos cortam os paus, depois contam palha de coqueiro, cobrem de palha, porque é uma temperatura agradabilíssima a palha. Então isso é adaptação do povo paraense, do povo da Amazônia, ao ambiente, compreende? A comida, caça, esses negócios todos, todos esses costumes, você aproveitava isso. Tinham caçadores nas equipes para produzir carne fresca direto. É uma coisa muito importante. Então pesca, quando era possível. Então eu acho que essa...

 

P/2 - Que tipo de carne vocês comiam? Que tipo de caça?

 

R - Como?

 

P/2 - Que tipo de caça?

 

R - Ah, veado, jabutis, paca. Isso eram as coisas mais comuns. Cotia também, entende? Mas peixe era muito mais preponderante, porque era mais abundante. Peixe era incrível! Eu lembro na época da (Terra Service?), no Xingu, como é que era o homem do Amazonas. Um caboclo trabalhava conosco na época que estava na beira do Rio Xingu, ele saía às dezessete. Quando acabava o expediente no acampamento, saía, ele pegava uma canoa e ele morava lá perto, era ribeirinho. Era perto, ele ia pegar o peixe para jantar, pô. (risos) Ele não tinha... Então, no Amazonas, ele via o seguinte: o camarada, aquela pobreza... Era uma pobreza em relação a não ter televisão, não ter ar condicionado, não ter o colchão de mola, esse negócio todo, entende? Mas a fartura de alimento na selva era muito grande. Não era como o cara que mora no gelo, tem que estocar comida. Ele não precisa fazer isso. Ele saía do trabalho, ia pescar para jantar, entende? Na casa dele tinha uma rede, uma barraca de palha, limpinha. A rede era um negócio fresco, ideal para aquele clima, porque é fria. Na cama, você fica todo suado. Na rede, não acontece isso, é sempre fria. Higiênica, porque ele lavava com frequência a rede. Não é aquelas camas de... São mais humildes, as camas onde tudo fica ruim, fica tudo, né? A rede, não: higiênica, fresca, super adaptada ao clima. Então o caboclo, no Amazonas, vivia muito bem adaptado. Agora, ele não tinha televisão, os negócios todos que a gente tinha na cidade, entende? E tudo isso aí, a gente a aproveitava, com certeza. As comidas, as barracas que eles faziam. O trabalho, ninguém, nenhum ________ andava sozinho. Sempre acompanhado com um ou dois peões. Tinha peões incríveis, peões com senso de orientação. Eu lembro que na Codim tinha um peão que trabalhava conosco, o cara tinha um senso de orientação. Andava no mato, não cortava nem picada. Andava, deitava... Andava mil voltas, falei, perguntava: “Onde que nós estamos? Onde que está a barraca?” “Agora, ali.” Você achava que estava para lá, ele... Então ele tinha um senso assim, né? Não era todo mundo. Isso também era cada... Mais particular, mas era... Então a gente sabia que esse pessoal, para nós, era fundamental. O caboclo do Amazonas era, neste tipo de trabalho, naquela época e até hoje, fundamental. Porque tinha que abrir picada primeiro. Precisa de força para abrir picada para poder andar. Abrir picada para medir extensões, distâncias, esse negócio todo. E tinha que ter esse camarada. Esse cara conhecia o lugar, conhecia os matos, os paus, conhecia as frutas, conhecia tudo. Isso a gente absorvia, com certeza, tudo. Aproveitava o máximo essa questão.

 

P/1 - Em termos de infraestrutura de acampamento, por exemplo, Hirata... Quer dizer, você passando pela Codim, Meridional, Docegeo, há uma evolução dessa estrutura, do geólogo, para os peões trabalharem?

 

R - Basicamente, não era muito diferente. O que aconteceu foi que, com o tempo, aumentou o nível de conforto do pessoal, porque aumentou o nível de exigência do geólogo. Quando eu cheguei na Codim, os caras jogaram num lugar lá e eu achei que estava ótimo, não tinha problema nenhum. Mas a gente não tinha rádio de comunicação. Então só veio a ter helicóptero depois. Algumas horas de vôo de helicóptero, entrar e sair no lugar. Na Meridional, desde o começo, se usava helicóptero. Então os acampamentos começaram a ter... Na Meridional tinha rádio no acampamento. Trabalhava na Docegeo, todos os acampamentos tinham rádio. Tinha equipes com rádio portátil. Então, na medida que foi evoluindo, essas necessidades foram preenchidas e melhorou muito, sem dúvida. _________ segurança, basicamente, segurança de vida. E a pessoa fica com medo, porque, no começo, ninguém tinha medo. Era muito novo, então tudo era aventura, era uma festa, mas depois começou a passar o tempo. Em 1969, morreu um colega meu. O helicóptero quebrou lá, morreu. Então a pessoa fica preocupada. Começou a cair helicóptero. Começou a exigir, na época da Meridional, da Codim... Eram helicópteros _______, uma turbina só, de um motor só. Quando a Docegeo começou operar com helicóptero, foi uma exigência do Breno, que foi chefe da Meridional, _______ da (Terra Service?), só helicóptero com duas turbinas. Então já era… Deu um upgrade forte nesse negócio, nessa questão. Então, eu lembro, já importou dois helicópteros da Alemanha, zero quilômetro, uma coisa... Então essa questão, sem dúvida, doeu muito e cada dia deve estar melhor hoje.

 

P/1 - E causos, seu Valter, o senhor encontrou onça pelo caminho? Você tem uns causos para contar desse trabalho de campo? (risos)

 

R - Ah, rapaz, problema de onça na Amazônia, na realidade, para a gente, onça chega a ser uma raridade. No Bacajá... Quando eu estava no Bacajá, fora do rio, uma onça encostou no barraco depois que a gente tinha saído e o cozinheiro matou, por sinal, ela. O cozinheiro ficava sozinho, mas matou ela. “Como é que foi?” “Ah, ela chegou na beira do igarapé, começou a olhar, passei fogo e pronto!” Então os caras não tinham medo dessas coisas, mas na maior parte das vezes, é raro você ver onça. ________, você nunca vê. Primeiro que na selva existe uma relativa abundância também, então ela não fica procurando peão para matar e comer. Não tem essa. Qualquer maneira, elas caem fora, compreende? Então onça era muito difícil. Bicho, todo o tempo de Docegeo... Olha, francamente, teve o que? Só em Belém foram... Nós ficamos... Até sair de Belém, eu lembro de um acidente de cobra na equipe. Um caboclo foi picado por cobra. Quando estava no mato, a cobra picou o rosto dele, ele perdeu uma vista depois, sabe? Mas se via muito _______. Agora, acidente de pessoal, foram muito pequenos, muito poucos. Mas havia perigo, lá tem toda hora, mas você tinha medo, respeito, entende? Mas foram poucos casos. Índio, no começo, havia muito medo, 1967. Então, toda hora, você morria de medo de índio. Eu lembro, em 1971, rapaz, no Xingu, que os peões, o caboclo, ele também era muito daquele jeito assim, muito humilde, bonzinho. O brasileiro é também meio... Bem brasileiro. Esse negócio de fazer as gozações também, sabe? Sem você saber, entendeu? Nós ficamos sabendo depois, olha só. No acampamento, no Xingu, tinha um jovem nosso, o Ederaldo, um gaúcho, e era um rapaz novo, né? E estava num acampamento na frente, lá no Xingu. E depois ele me dizia que toda a noite, estavam jogando pedra no barraco. Mas eu sei que foi num crescendo naquele negócio, o cara ficou apavorado, né? E a gente tinha medo que houvesse índio, né? “Então deve ser índio”, o cara deduziu. Bom, o fato é que, depois de um tempo, passou duas semanas, ele... ________ começou a crescer muito aqueles avisos. Era como aquele filme, Bruxa de Blair, né? Aconteceu, ninguém vê nada assim, sabe? (risos) Imagina eles no meio da mata! Pô, o cara... Era o único geólogo, um monte de peão e um técnico, né? E à noite, tudo escuro, porque na época era só um geradorzinho Honda que a gente usava, depois apagava. Aquele breu total. E tinha uns sacanas, os peões que estavam fazendo aquela armação com ele, entendeu? Sabia que ele estava meio assustado. Então ele suspendeu o acampamento. Depois voltamos para lá. E só bem depois que nós ficamos sabendo que foi armação. (risos) Aqueles peões são bobos, mas nem tanto. (risos)

 

P/1 - É, como é essa relação do dia-a-dia? Quer dizer, essa hierarquia dentro do acampamento, essa relação com os peões, o geólogo? Como que é um pouco isso?

 

R - Ah, era... Eu diria que foi ótimo. Havia uma relação muito boa. São muito respeitadores, porque o que acontece é o seguinte: em 1967, depois nem tanto, mas, no início, principalmente nesse negócio, aquele trabalho, por exemplo, era uma coisa extraordinária, porque o cara ganhava um salário fixo, seguro livre. Ele tinha assistência médica, ele tinha comida, era bota, era algumas roupas, às vezes. Então ele tinha um negócio que ele nunca teve. A maior parte dos caras nunca tinha tido na vida. Eram herdeiros de gente que trabalhava na borracha, na seringa, catando castanha, um trabalho bruto no meio do mato. De repente, tinha um trabalho com carteira assinada, organizado, empresa. O cara tinha folga, parava aos domingos, não sei o que. Tinha hora para trabalhar, para comer. Então isso foi uma coisa extraordinária. Então o que acontecia? Não só por isso, mas isso ajudava muito, tanto que havia um respeito muito forte e a gente se identificava muito com essa turma. A gente tratava bem o pessoal. Então não tinha essa de ser chefão. Havia muito respeito, muito controle, com certeza, mas... Lógico, havia problemas: indisciplina, aquele grupo de trinta, cinquenta, às vezes havia problema. Demitia um, outro, coisa assim, entende? Mas, no geral, era uma relação muito boa. Até hoje, todo mundo lembra... Tem lembranças dessa turma, então, lembranças boas das pessoas. Isso... Enfim, era uma relação muito boa. Eu não sou muito bom contador de causos, a _______ é melhor para contar esses casos. (risos)

 

P/1 - Que isso! Calma. Seu Valter, eu queria que o senhor desse um pouco essa trajetória que o senhor comentou da (Terra Service?), de pesquisar novos minerais, que não o ferro...

 

R - Sim.

 

P/1 - Que o senhor contasse um pouquinho essa trajetória, ou seja, como ___________ buscou e...

 

R - A Docegeo... A Vale bancou, então, aquilo que chama pesquisa de metais básicos; cobre. Cobre sempre foi um negócio... O Brasil foi deficiente em cobre. Até hoje é. Então havia uma necessidade assim, profunda. O país precisava descobrir uma mina de cobre. Um país desse tamanho, entende? Então até ______ entrou nesse negócio para achar, principalmente, mina de cobre, além de zinco, chumbo, estanho, outras coisas, níquel... E achou. Achou Salobo, que é o maior depósito de cobre no Brasil, mas até hoje não entrou em produção por uma série de motivos aí. Primeiro, por ter problema tecnológico de aproveitamento de minério, problema de viabilidade econômica e tal. E até hoje não entrou em produção. A partir da descoberta do ouro de Andorinhas, que foi em 1976... Mil novecentos e setenta e seis, o geólogo nosso que descobriu a primeira lasca de pedra com ouro lá em Andorinhas, foi aí que descobriram o ouro de Andorinhas e a partir daí, a Vale começou a entrar de sola também em ouro. Nessa época também foi descoberto por acaso, então, por coincidência, a corrida de ouro da Fazenda Brasileiro na Bahia, na Vale, que hoje é uma baita mina de ouro. A partir dessa época, então, a Vale entrou também forte em pesquisa de ouro, mas o cobre estava caminhando junto, o objetivo em paralelo. O depósito de cobre Salobro foi descoberto em 1977. A equipe do Décio, do Décio Alemão, que chefiava esse projeto. Então metais básicos e ouro passaram, a partir de lá, para cá, e passaram a ser objetivos fortes na empresa. Agora, esse caminho, ela descobriu milhões de toneladas de bauxita da equipe do (Assad?), vendo (Paragominas?), Almeirim, que tem caulim, que é um material industrial, também para papel, importantíssimo. Nós descobrimos cassiterita, que tem lá no Xingu, nossa equipe. Ocorrência de níquel e mais cobre. Descobriu, depois, que Salobro era um cinturão com várias ocorrências de cobre. E, hoje, descobriram mais cobre ainda no Sul da grande Carajás, nos últimos anos agora, modernamente. Então Carajás, hoje, é uma província cuprífera muito importante. Além de ser de ferro, manganês, ouro, tem muito cobre lá. Então acho que em breve o Brasil vai viabilizar uma mina dessa aí. A Vale vai fazer isso. Então é um processo que começou em 1971, descobriram mina de cobre. Então eu acho que, em breve, deve viabilizar primeiro a mina de cobre, a Vale, entende? 

 

P/1 - O senhor ficou na Vale até quando, seu Valter?

 

R - Assim, aí em 1986... Em 1986... Só voltando um pouquinho, só para fixar umas ideias, eu acho que essa questão da... Nós falamos da Codim, da Meridional e, particular, as pessoas do (Tolbert?), depois do Machado, tiveram tudo a ver com o desenvolvimento da Vale na Amazônia, compreende? O aparecimento dela _________. A descoberta de Carajás que propiciou depois a entrada da Vale na Amazônia. Então eu acho que a origem da atividade da Vale na Amazônia está ligada às atividades da Codim e da Meridional. Da Meridional principalmente. Da Codim, de uma maneira subsidiária, vamos dizer assim. Isso, voltando um pouquinho para trás, só.

 

P/1 - Depois que a Vale assume Carajás, essas outras empresas...

 

R - A Meridional continuou. Continuou, mas tocando a mina de Lafaiete. Eu acho que, até hoje, tem aquela mina de manganês de Lafaiete, sabe? Mas todo o grupo de pesquisa de exploração foi desmantelado, acabou. A Codim também, a partir de 1973, 1974, também fechou as portas. Não achou nada mais de manganês, eles foram embora. A Codim mexeu ainda numas áreas do Rio Grande do Norte. Mexeu com xelita, um minério de tungstênio. Desenvolveu uma mina de tungstênio lá no Rio Grande do Norte, sabe? ___________, estava em produção até pouco tempo. Mas na parte de exploração de manganês em Carajás, no Amazonas, eles, logo depois, abandonaram tudo, e aí ficou praticamente a Vale quase sozinha, um grupo de pesquisa da Vale. Mas teve as outras empresas que chegaram depois, tipo Inco, outras empresas multinacionais que chegaram depois, né? Bom, então, como eu estava falando, nós ficamos na Amazônia até 1986, eu fiquei lá. Eu casei lá no Pará, né?

 

P/1 - Casou no Pará?

 

R - A minha esposa era professora, trabalhava na Serra do Navio, na (Ecome?). Baiana, professora da (Ecome?). Eu conheci ela quando estava indo no Amapá pela Meridional. Aí, depois, casamos em Belém. Todos os nossos filhos nasceram no Pará, são paraenses, né? 

 

P/1 - Quantos filhos são?

 

R - Três.

 

P/1 - Três.

 

R - E, hoje, eu sou avô de um, já. De uma neta, já. Bom, antes de ir embora do Pará, o que aconteceu? Na Docegeo... Bom, em 1986, então, nós fomos... Eu fui embora do Pará e fui para a Bahia. Como a minha mulher é baiana, ela falou: “Eu preciso voltar para a Bahia, não sei o que...” Que bateu aquele (banzo?). Ela ficou vinte anos na Amazônia, eu fiquei dezenove, sabe? Ela chegou na Amazônia antes de mim para trabalhar lá, na Serra do Navio, como professora. Então, depois de vinte anos, tal, aquele negócio de família chamou forte, sabe? E nós tivemos que voltar. Eu falei: “Tudo bem, nós vamos para a Bahia, mas o problema é se eu quiser ir para São Paulo depois, não sei como é que vai ser.” (risos) Mas então fomos para a Bahia. A Docegeo me transferiu para a Bahia, para o distrito... Tinha uma equipe em Salvador, no distrito Leste, e lá eu trabalhei em pesquisa de ouro, essencialmente em pesquisa de ouro, né? Até 1996, quando eu me aposentei.

 

P/1 - Essa pesquisa de ouro cobriu toda a região Nordeste, basicamente?

 

R - O distrito cobria todo o Nordeste. Era o distrito do Nordeste, porque em Belém era o distrito da Amazônia. O distrito Nordeste com sede em Salvador, mas a principal área de trabalho é na Bahia mesmo, num lugar chamado região do Rio Itapicuru, perto da cidade de Santaluz, Aracis, Serrinha, onde está hoje o conjunto que abrange a mina da Fazenda Brasileiro. A Fazenda Brasileiro foi descoberto pela Docegeo em 1977, pela equipe de pesquisa do distrito Leste.

 

P/1 - E essas pesquisas que vocês desenvolveram...

 

R - Basicamente foi para procurar outras jazidas na região do ________ geológico, que envolve a mina ______ Brasileiro. Então tem “N” ocorrências pequenas, mas apenas uma mina que... Maria Preta, que foi mina de pouca duração, por sinal. Todo o resto eram todas ocorrências pequenas, nada que pudesse viabilizar um depósito, sabe? Então a Fazenda Brasileiro, que foi uma das primeiras a ser descoberta, de fato foi a principal. Isso é muito comum. Geralmente, você acha logo a melhor. Salobra foi assim. Salobra, em 1977 foi... Salobra foi uma das primeiras a ser descoberta. Depois descobriram várias ocorrências no _____ cinturão, mas de longe nenhuma tem o mesmo potencial. Andorinhas, nós descobrimos em 1974. Foi descoberto uma ocorrência de ouro de Andorinhas... Não, 1974 não, 1975. Agora fugiu a memória, região de Andorinhas. Depois apareceu um monte de trabalho no Sul do Pará, naquela região toda envolvente no Sul do Pará. Batemos “N” pontos e até hoje a melhor ocorrência é aquela da... A primeira lá de Andorinhas. Por sinal, depois a Vale negociou aquela área com outras empresas. Foi feita uma... E uma empresa que foi fazer uma pesquisa mais forte lá, também não achou, não conseguiu viabilizar um depósito naquela área, sabe? Então Andorinhas, até hoje, é ainda um prospecto de ouro bom, mas não vingou como depósito comercial, né? Então fomos para a Bahia, trabalhar na Bahia. Aí, rodando pelo Nordeste todo atrás de ouro, principalmente, um pouco de metais base. Assim, teve também um projeto em 1989, 1990, de caulim no Sul da Bahia. Um negócio que nós descobrimos lá na BR 101. Por acaso, perto da fábrica da Bahia Sul. Estava em construção a fábrica da Bahia Sul de celulose, papel da Bahia Sul. E nós achamos ali pertinho, a vinte quilômetros da fábrica, uma ocorrência muito boa de caulim. Nós pesquisamos, eu e o (Assad?), Roberto... Nessa época, trabalhou muito como consultor para a gente lá. E também foi medido um depósito de caulim próprio para preenchimento de papel, para papel, (filler?) para papel, mas por vários motivos, a fábrica da Bahia Sul não quis utilizar aquele depósito. Então está comprando minério de terceiros, mas numa outra área, sabe? Então, na Bahia, mexeu um pouco com caulim nessa época. Em 1995, a gente aposentou.

 

P/1- Mas, o senhor se aposentou e depois...

 

R - Como?

 

P/1 - Depois que o senhor se aposentou, você desenvolveu outras atividades?

 

R - Eu trabalhei em 1997, até 1998, até um pouquinho de 1999, dando consultoria em empresa de pesquisa de ouro. _________ multinacionais; (Barrick Gold?), (Barrick Gold Corporations?), é uma firma canadense, grande produtora de ouro no mundo, sabe? Eu esqueci, eu trabalhei para a Vale do Rio doce também, como consultor para a Vale, para a Docegeo e para Paranapanema. Ultimamente tem bem menos trabalho, não está pintando trabalho de consultoria. Então eu estou lá, aguardando, né?

 

P/1 - Como é o seu cotidiano hoje?

 

R - Nós tínhamos também... Eu, com o meu cunhado, tinha uma fazenda de café, sabe? Em Vitória da Conquista, né? Então eu, basicamente, estou fazendo como principal atividade, fora ficar em casa fazendo alguma coisa como aposentado, fazer cooper, e tocar essa fazenda lá em Vitória da Conquista.

 

P/2 - E a privatização, o senhor acompanhou?

 

R - Como?

 

P/2 - A privatização da Vale?

 

R - Pois é, eu saí um pouco antes. Ela foi privatizada em 1997. Eu saí em meados de 1995. Agora, eu me aposentei em 1996. O processo de aposentadoria foi em 1996. Eu saí da Vale e da Docegeo em 1995, meados de 1995. E a privatização foi em 1997...

 

P/1 - 1997.

 

P/2 - Mas, no caso, por exemplo, a privatização... Como a privatização vê, por exemplo, a questão da pesquisa do subsolo?

 

R - Como é que vê...

 

P/2 - Como é tratado, assim...

 

R - Hoje, eu não tenho ligação direta com o negócio, mas eu sei como é que eles estão fazendo. Então, antigamente, no início dos trabalhos da Docegeo e da... Claro, com a estrutura de distritos regionais, escritórios regionais em diversos pontos do Brasil para cobrir o território todo, com mais força aqui na Amazônia, tal, mas basicamente com escritórios regionais e com um escritório central. Hoje, pelo que eu estou sabendo, eles mudaram essa sistemática. Então tem só um escritório. Todo mundo está em Belo Horizonte e as equipes são com bastante autonomia hoje, trabalham no Brasil todinho baseado só num escritório único, lá em Belo Horizonte. E grande parte do trabalho é feito no próprio campo. Uma parte no acampamento, hoje, lá em Carajás. Principalmente em Carajás tem... Está tudo informatizado, tem telefone via satélite. Então mudou muito o nível de comunicação, é o mais moderno possível. É o que eu tenho ouvido falar de como está hoje o trabalho. Na fase moderna, todo esse depósito de cobre no Sul do Pará é coisa recente. Coisa de dois anos depois de privatizada, já, com certeza. Muitos deles já eram conhecidos como ocorrências minerais no passado, mas o entendimento como potencial depósito de cobre é recente. Muitas das ocorrências anteriormente não eram atendidas como... Não tinha ideia formada que aquilo poderia ser... Não se avaliava como... Era uma ocorrência mineral, né? E hoje, estão vendo que são depósitos muito importantes de cobre. Então, com certeza, as coisas mudam, né? A Docegeo, o tempo todo foi mudando ao longo dos anos, houve umas mudanças fortes. Várias vezes houve ameaça de interromper o programa, de fechar. Houve, na história dela, ameaça desse tipo. Eu lembro que na época do César Cals mesmo, na época do César Cals como ministro das Minas e Energia, houve uma época que havia muita coisa nesse sentido para limitar a ação de empresas estatais no Brasil, porque a Vale era muito forte na parte de mineração, pesquisa mineral na época. Eu lembro, na época, houve uma tentativa de limitar, restringir muito essa questão, sabe? Mas ela... Enfim, todo tempo foi mudando, foi se adaptando e vai ser sempre assim. Ela, uma hora, vai continuar, outra hora vai se adaptar a uma nova... Olha, eu comecei a mexer com computador em 1992, 1993. Então o pessoal da minha geração não sabia o que era isso. Hoje qualquer garoto sabe, mas o pessoal da minha geração... Eu comecei a mexer com computador na Docegeo em 1993. Já tinham outros mais novos que estavam vindo com aquele negócio e eu tive que me adaptar. Então todas essas coisas acontecem e você tem que entrar na dança. (risos) Lógico, isso é uma ferramenta só, mas muito forte, com certeza. Os caras usam telefone via satélite nos acampamentos, eu ouvi falar. Internet é direto, os relatórios são enviados via Internet. Então você não tem... Você fala com o chefe por telefone, manda o relatório para ele por Internet. Antigamente, a gente falava: “Antigamente era bom, porque havia muito contato.” A gente encontrava muito a turma, fazia reuniões, reuniões de grupos, não sei o que, seminários. Hoje o negócio é meio virtual, mas eu acho, em grande parte, é uma questão do tempo, da época que a gente vive. Eu tenho uma filha, hoje, que está nos Estados Unidos, trabalhando lá, ela fez um MBA. Vai trabalhar lá pelo menos um ano, está numa firma grande lá, ela falou: “Olha, eu falei com o meu chefe uma vez só. Agora eu falei com ele por telefone ou Internet.” Ela trabalha com marketing assim, e roda os Estados Unidos de carro, de avião. Ela não tem escritório. Ela mora perto de Los Angeles e roda o país para cima e para baixo. Então é a questão do tempo que a gente vive, não é? Isso vai mudar mais, né? E a Docegeo, com certeza, vai ter que mudar mais também, vai se adaptar. Então a Vale, em pesquisa, vai se adaptar. Eu vejo assim, é uma questão que veio forte. A privatização veio aí, está feita, entende? Está havendo resultados. Sem dúvidas, resultados palpáveis. Depósitos de cobre lá em Carajás muito importantes, contando com mais outras coisas que vai surgir com certeza. Então eu acho que foi natural, vamos dizer assim, entende? Acho que, politicamente, se era bom ou era ruim, eu não sei. Eu não acho que não é o caso de...

 

P/1 - A sua filha faz marketing, os seus outros filhos...

 

R - Ah, sim. A outra, mais velha, é comissária de bordo no Nordeste. Trabalha para burro, coitada.

 

P/2 - Puxou o pai, gosta de viajar.

 

R - Aeromoça... Aeromoça, você percebe aquelas moças bonitas, todas bem vestidinhas: “Pô, essa menina deve ganhar uma fortuna.” Ganha pouco, trabalha pra chuchu, não tem hora, é um negócio desgraçado. Tem uma filha, né? Então hoje é de noite, amanhã é de dia. Vai para lá, volta, ganha pouco. A outra está lá nos Estados Unidos, está bem, acabou o mestrado dela, arrumou um emprego bom e está bem, graças a Deus. E tenho o mais novo, Danilo, que está fazendo Engenharia Elétrica. Não quis fazer Geologia. (risos)

 

P/1 - Você tem um netinho ou netinha...

 

R - É neta, Júlia, de cinco anos, né? Filha da Renata, a mais velha.

 

P/1 - E seu Hirata, eu queria perguntar, pensando na sua trajetória de vida, se o senhor tivesse que... Tanto pessoal como profissional, se tivesse que começar de novo e mudar alguma coisa, o senhor mudaria ou não?

 

R - Ah, não. Eu acho que procuraria fazer bem melhor do que eu fiz, ou muito melhor... Eu não me arrependo de nada. Eu acho que foi... Tenho orgulho de tudo que eu fiz. Eu acho que foi bonito, porque eu vivi... Eu acho que o pessoal que viveu nessas campanhas na Amazônia, eu acho que foram privilegiados, sabe? Que a gente viu, foi descobertas. A gente viveu uma época de grandes coisas, entende? Você, na hora, naquela correria, não dá conta dessas coisas. Você vendo hoje, de fora, e vendo assim, pensando, refletindo, passando um filme, né? Foi uma época extraordinária. Foi uma época, em termos do país, só Carajás, o que se descobriu de coisas ali e a gente viveu aquelas coisas todas. Toda semana acontecia coisa. Era impressionante. “Ah, estourou um negócio lá, bauxita, não sei o que, cobre e não sei o que, níquel.” Então era um negócio que a maior parte do jovem não vive isso. Então eu acho o grupo nosso, o grupo que vive essas coisas, eu acho que foi privilegiado. Nós temos muita sorte e isso é muito gratificante. Você se sente assim: “Puta, como foi bacana trabalhar na Amazônia, na época, andando naqueles rios que ninguém nunca tinha andado.” Eu sinto muito orgulho, eu tenho um arquivo meu fotográfico muito pobre, muito pequeno, porque, para mim, lá dentro, eu achava que nunca ia embora de lá. Eu fiquei dezenove anos na Amazônia, eu achava que nunca ia embora de lá. Achava que aquilo lá era... Os meus filhos eram paraenses e, de repente, o mundo mudou tudo. Você muda. Fui para a Bahia e tal, foi de repente. Mas foi uma época muito gratificante. As experiências, eu lembro as coisas que eu via, andar nos rios, como era bonito aquele negócio. Na época, você não dava valor. Você está suado, cansado, fazendo trabalho, não sei o que lá. Hoje, você vê: “Como aquela coisa era bacana.” E eu tenho vontade enorme de fazer isso de novo, eu falei ________: “Puta, eu queria fazer isso de novo!” Você não vai poder subir serra, andar dez quilômetros a pé, subir serra com 58 anos de idade. Não é mole esse negócio não. (risos) Mas todas essas coisas realmente foram muito boas. Eu não arrependi de nada. Se eu pudesse, eu faria de novo e, sem dúvida, eu ia fazer muito melhor. Podia ser muito mais do que em 1967. (risos)

 

P/1 - Então eu queria fazer uma última pergunta para o senhor, quer dizer, o que o senhor acha desse projeto Vale Memória e o que o senhor achou de ter dado seu depoimento?

 

R - Ah, eu tive o prazer de fazer isso, eu te falei, né? Logo que você me falou isso, eu comecei a olhar umas fotografias antigas. Esse negócio, a gente ficava arrepiado. Cada foto, que até dei para ela, sobre o Rio Bacajá, andando eu e o Alemão e o (Cavalons?), dois colegas meu da Codim na época, quando eu comecei  trabalhar como geólogo. Eu lembro da época, daquela situação, foi muito marcante esse Rio Bacajá. Então, rapaz, isso aí é muito forte o negócio. É muito... Você fica emocionado com esse negócio. Então acho que o projeto em si, a Vale está de parabéns. Eu acho que são poucas empresas que fazem isso. São empresas realmente com compromisso com as coisas, porque isso aí vai servir para todo mundo. Você põe aí, daqui alguns anos, as pessoas vão querer saber como é que foi isso. Então esse arquivo, esse registro, vai servir para isso. Então eu acho que a empresa, nesse ponto, deu a maior bola dentro, com certeza. Ela pode fazer isso. Então ela tem que fazer isso. Para o país é muito bom, porque faz parte da cultura do país. Todas essas questões estão ligadas a cultura do país, com certeza. Então participar, para mim, foi uma honra, com certeza.

 

P/1 - Então, agradeço demais. Muito obrigado, seu Hirata.

 

R - Eu que agradeço.






              

 

                  


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