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História

Descendente de vários mundos

História de: Maria Márcia Imenes Ishida
Autor: Ana Paula
Publicado em: 15/06/2021

Sinopse

A entrevista narra inicialmente a vida profissional da entrevistada, a sua experiência de viver em outras partes do país e depois adentra nos aspectos pessoais, da sua família de múltiplas origens.

História completa

Projeto Memória e Migração Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Maria Márcia Imenes Ishida Entrevistado por Paula Ribeiro São Paulo, 1991 Código: MM_HV030 Transcrito por Luana Lorena Revisado por Marconi de Albuquerque Urquiza P/1 - Bom Maria, eu gostaria de começar a entrevista pedindo teu nome completo, a data de nascimento, a cidade e o país de origem. R - Meu nome completo é Maria Márcia Imenes Ishida, e eu nasci em 10 de agosto de 1952, em São Paulo, aqui no Brasil. P/1 - E os seus pais, Márcia, eles são brasileiros? R - Meus pais são brasileiros, meus pais... Bom, meu pai é filho de espanhóis, e minha mãe tem descendência alemã, norte-americana... E meu avô materno, a gente não tem a origem dele, porque ele foi criado na rua, ele era menino de rua, né? E aí ele foi pego por uns padres... P/1 - Isso em São Paulo, Márcia? R - É... Aí, agora eu não sei se foi em São Paulo ou Rio. Eu acho que foi no Rio de Janeiro, eu não tenho certeza... Então ele foi criado pelos padres, e depois casou com a minha avó, e aí eu não sei mais, né? P/1 - E você viveu toda a sua infância aqui em São Paulo? R - É, eu nasci no bairro do Cambuci, depois me mudei pro Ipiranga, até a adolescência eu vivi no Ipiranga. Aí fiz faculdade, eu cursei a USP [Universidade de São Paulo], quando eu morava no Ipiranga. P/1 - Qual foi o curso que você fez, Márcia? R - Eu fiz o curso de Farmácia e Bioquímica, na USP. Então eu estudava a noite, eu fazia uma viagem do Ipiranga até a Cidade Universitária, né? Tomava dois ônibus e agora... P/1 - E por que você fez esse curso de farmácia? O que é que te levou a escolher farmácia? R - Olha, acho que foi um acaso, assim. Porque eu tinha uma amiga que eu gostava muito dela, e ela tinha um namorado que era maravilhoso, e ele fazia Bioquímica, e Bioquímica era a maravilha das maravilhas, né? Então eu falei: "Eu vou fazer Bioquímica". Eu achei que era uma coisa bonita, como eu acho que é mesmo. Mas eu acabei não me enveredando pelo caminho da Bioquímica, eu me desviei um pouco. P/1 - O que foi que você optou por trabalho, como profissão? R - Bom, aí eu sempre trabalhei com pesquisa dentro na universidade, enquanto eu fazia faculdade eu sempre tinha algum estágio. E depois que eu me formei, aí eu queria um emprego de verdade, né? Eu estava cansada de ser dura, aí fui no Instituto Butantã, eles disseram que eu teria que fazer um estágio não remunerado e aí esperar não sei quanto tempo pra conseguir o emprego, aí eu falei: "Olha, eu já estagiei demais." E não aceitei, comecei a dar aula em colégio, dava aula lá em Osasco, durante dois anos. Eu fiquei com saudade da pesquisa e comecei estagiando mesmo, eu vi que não tinha saída mesmo. E aí consegui no Instituto Adolfo Lutz, fiquei um tempo lá, fiquei como... Um mês trabalhando sem ganhar nada, depois eu consegui uma bolsa, era a melhor bolsa na época... A bolsa da Fundap [Fundação de Desenvolvimento Administrativo], que eu não sei se ainda funciona hoje. Pagava melhor que CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], então era um bom trabalho. Aí abriu o concurso, eu entrei, fiquei em quarto lugar, mas só tinha uma vaga, aí nessa época eu já tinha me casado... P/1 - Qual é o nome do seu marido? R - Américo Ishida, ele é nissei, né, então os pais dele vieram do Japão. Eu sei que a mãe dele veio no primeiro navio da imigração japonesa. E bom, aí nesse ínterim a gente se mudou para Florianópolis, por que a gente estava cansado da poluição de São Paulo, e a gente gostava muito de natureza e vivia viajando, então resolvemos mudar para lá. Mas antes a gente foi batalhar por emprego e tal. Então quando pintou concurso na universidade, ele prestou exame e passou, e ele foi e eu fui também, aí eu deixei o Adolfo Lutz. Chegando lá, eu estagiei, esperei quatro anos trabalhando dentro da universidade pra conseguir uma vaga. Bom... P/1 - Lá em Florianópolis? R - Lá em Florianópolis. P/1 - Você estagiou, e aí? O que aconteceu? R - Então, bom. Quando eu saí do Adolfo Lutz fui procurar uma pessoa, que hoje é o atual reitor da universidade, que trabalhava mais ou menos na mesma linha de pesquisa que eu fazia aqui no Adolfo Lutz. A gente trabalhava na área de doença de Chagas. Então eu o procurei, ele era professor da universidade, né? Aí ficamos trabalhando juntos. Primeiro ele conseguiu uma bolsa pra mim, ele era meu orientador, então eu tive bolsa do Cnpq por dois anos, nesse ínterim eu engravidei, tive uma filha e depois tive outra. Aí abriu o concurso e eu passei, com muita batalha, com muita luta, só tinha duas vagas e era uma disputa feroz. P/1 - Você viveu quantos anos em Florianópolis? R - Oito anos, esse ano eu vim pra cá fazer mestrado na USP. Quer dizer, eu estou afastada da universidade e estou aqui, né? P/1 - Eu li na sua ficha que você se separou... R - Eu me separei lá em Florianópolis, é... P/1 - Por isso que você voltou pra São Paulo? R - Não, não porque fazem uns quatro anos que eu me separei e continuei lá, né? Aí viemos os dois fazer mestrado, porque a gente não quer ficar longe das crianças. Então... A gente tinha esse projeto de fazer mestrado e a própria universidade obrigada a gente, quer dizer, eu acho que se a gente vai seguir carreira universitária tem que fazer. Acho que tem que estudar e tal. Então viemos juntos, porque... Pra ficar junto com as crianças. P/1 - Mas você optou agora... Você optou definitivamente por Florianópolis? R - Eu jamais diria definitivamente, mas assim, o fato de eu saber que eu tenho meu emprego lá e eu vou voltar é ótimo! Se não, eu acho que estava muito pirada aqui. Foi assim, uma transformação bruta, né? Eu fiquei oito anos lá, eu moro na ilha, quer dizer, curto demais aquilo, a gente tem uma vida muito mais tranquila, né, muito mais contato com a natureza. Eu moro numa casa no alto de um morro e não tem vizinho perto, só mato, passa um corregozinho, a água vem de lá. Então é verdade que eu tenho outras preocupações que não tenho aqui... P/1 - Que tipo de preocupações? R - [Risos] Por exemplo, eu estou saindo de casa, tem que escovar o dente e não tem água. É porque a mangueira escapou da cachoeira, então eu tenho que ir lá, no meio do mato, né, às vezes eu tenho que sair pra trabalhar e tenho que me enfiar lá no mato. Então esses inconvenientes, mas que eu acho que compensa. P/1 - Vale a pena, né? R - É. P/1 - É, só pra gente encerrar, você tem descendentes de espanhóis. Você tem alguma tradição, assim, alguma tradição na sua casa de influência espanhola? R - Ah, tem. Eu convivi com a minha avó espanhola, né? Ela morou muitos anos com a gente, e ela falava um espanhol bem misturado com português. Mas muita coisa eu assimilei, meu pai tem sotaque como se fosse um espanhol, não parece brasileiro. E ele canta tango! Inclusive estou tentando convencê-lo a vir aqui dar o depoimento dele, porque ele tem uma história muito mais interessante pra contar. Os pais dele vieram e pastaram um bocado aqui, minha avó trabalhava na fábrica, eles tiveram seis filhos, sozinhos e tudo o mais, né? Então meu pai, por exemplo, começou a trabalhar desde menino. P/1 - Seu pai fazia o quê? R - Inicialmente ele era tecelão. P/1 - Ele era tecelão? R - Tecelão, é... Ele era operário, né, daí ele conheceu minha mãe e meu avô materno era dentista, então ele fez meu pai estudar, incentivou, né? Deu a maior força, então ele estudou, e a gente morava com o meu avô. Então ele fez faculdade de odontologia, e aí hoje ele é aposentado. P/1 - E a sua mãe? R - É professora de piano, então ela toca e ele canta, né, a gente viveu a vida inteira assim, no meio da música. E eles têm um conjunto inclusive, que eles saem pra tocar por aí, fazem show... P/1 - Como é que é o nome? R - Bom [risos], minha mãe botou [risos]... Se eu não me engano é Nilsa e seu Conjunto... Porque são quatro, as quatro da mesma idade, mesmo tipo loiro de cabelo e... Uma no pandeiro, outra no piano, a outra canta e a outra no chocalho, então é muito legal... P/1 - Você sabe tocar alguma coisa? R - Eu estudei piano, mas não toco não, eu abandonei. Eu tenho uma irmã que é pianista, essa já nasceu tocando. P/1 - Eu queria te fazer uma pergunta, se hoje você tivesse que começar a escolher o seu dia a dia, você teria optado por que profissão? A que você tem ou outra coisa? R - Olha, eu... Eu acho que a biologia é fascinante, eu não teria feito esse curso que eu fiz de farmácia e bioquímica, sabe? Eu nunca quis exercer, eu não me identifico.... Eu sou contra medicamento e sou farmacêutica, né? Então é uma coisa assim que não dá, mas eu teria feito biologia, eu acho, mas não só biologia, muitas outras coisas mais, eu me dedicaria a tudo, eu tenho vontade de me dedicar a tudo, só que não dá tempo. Então eu seleciono algumas poucas coisas. P/1 - Então tá bom, então muito obrigada... -----FIM DA ENTREVISTA-----
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