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História

Desbravando a Transamazônica

História de: Pedro Trindade Ribeiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/09/2013

Sinopse

Em seu depoimento Pedro Trindade Ribeiro fala sobre a vocação de sua família para desbravar novos lugares, primeiro no Paraná e depois à beira da Transamazônica. Ele descreve a vida de muito trabalho e poucas brincadeiras na sua infância em Sertãozinho. Narra como a família decidiu migrar para o Norte do país com o objetivo de plantar cacau. Conta como começaram a trabalhar com a castanha e finaliza dizendo que seu sonho é construir uma fábrica de biscoito de castanhas em Monte Dourado, onde mora.

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História completa

Eu nasci em 16 de junho de 1958 em Sertãozinho, Paraná, município de Guaraniaçu. Meus pais são naturais de Laranjeiras do Sul. Os meus avôs maternos e paternos são de Guarapuava. O meu pai e a minha mãe se conheceram numa festa. Minha mãe tinha 15 anos e o meu pai, 17. A partir daquele dia, começaram a se olhar, se gostar, procuraram conhecer as famílias. O meu avô paterno é filho de índio. O meu bisavô foi pego na mata, criança. E a minha bisavó era portuguesa, de origem portuguesa com alemão. A mãe do meu pai veio da Alemanha com três dias de nascida, chegou ao Brasil. Viajou de navio.

 

O meu avô, filho de índio, Zacaria Gonçalves Ribeiro, se criou até os 26 anos na mata com o meu bisavô, não teve estudo nenhum, aprendeu a ler e escrever por natureza. Aos 26 anos de idade ele saiu para o comércio, lugar mais desenvolvido, e fundaram Laranjeiras do Sul. O meu avô junto com o meu outro avô, Pedro Machado Teixeira, e outro, vizinho e amigo deles chamado Augusto Fausto. Meus avos eram agricultores, de origem. Agricultor, criava um animal, criava um porco, e um pouquinho de gado, que naquela época era muito difícil. O meu avô paterno foi madrinheiro de tropa. O meu avô, pai do meu pai, ele conversava muito conosco, contava a vida do pai dele, que é meu bisavô, e contava a vida dele. Depois que a cidade de Laranjeiras cresceu, o meu avô passou a trabalhar na polícia, era comissário da polícia. O meu pai mais pertence pra alemão.

 

Ele é bem louro, grande, do olho azul. Mora na Transamazônica, está com 83 anos de idade. Nós chegamos à cidade de Altamira dia 3 de agosto de 77, tinha 19 anos de idade. Era uma cidade bem pequenininha e nós fomos descarregar nossa mudança na cidade de Uruará, que hoje é cidade. Na cidade de Laranjeiras, não existia mais terra devoluta. Era só capoeira, muita gente morando. E eles foram procurar um lugar mais distante pra criar a família. Era a época que os meus tios estavam casando, as minhas tias estavam casando, foi no ano que meu pai casou. Quando eles chegaram, onde hoje é a cidade do Campo Bonito, existiam três moradores.

 

O mais antigo era o seu Pompílio, um homem de pequena estatura, mas muito trabalhador, de uma família muito honesta na época. Eles abriram os 18 quilômetros de pico, chegaram à beira desse lugar onde nasci, chamado Sertãozinho. Uma água muito bonita na época. Muita caça e peixe. Cachoeiras. E eles abriram um lugar. Derrubaram a mata, fizeram uma abertura e começaram a fazer uma roça. Quando a roça estava pronta, derrubada, ficaram três dos solteiros pra fazer a estrada dali, pra carroça de animal, carrocinha de quatro rodas, pra varar no Campo Bonito, 18 quilômetros. Foram plantar roça. As primeiras casas eram cobertas de palha e cercadas de taquara. Na época, eu só tinha dois irmãos: uma irmã que eu não conheci, morreu criança; e um irmão meu, que morreu aqui também já com a idade de 40 anos. Mais tarde moravam meu pai, a minha mãe, minha irmã que eu não conheci, minhas duas irmãs, e esse meu irmão. Vivia meu avô, próximo, o meu tio mais velho chamado Salastiel. O segundo tio, por nome Idelbrando, o meu tio Dorvá, o meu pai, tio Albano e o tio Varsílio.

 

Morava tudo próximo, como se fosse numa aldeia. Tudo próximo um do outro. Eu tive pouca brincadeira na minha infância. Eu lembro que nós jogávamos bola, corríamos com cavalo de pau e éramos muito travessos pra mexer com criação, pra mexer com porco. Eu entrei aos oito anos na escola. Ia a pé, descalço e pisando na geada. Ajudava meu pai desde os oito anos de idade. Eu comecei a trabalhar com o meu pai, ele trabalhava fora, plantava roça numa fazenda de um velho de Santa Catarina. Eu ia jogar o milho dentro do cargueiro com o meu pai. E puxava um ou dois animais pra colher a roça. Era o que nós fazíamos.

 

E quando já começou a trabalhar com plantio de arroz, nós íamos limpar arroz de enxada, a roça de arroz, limpar a roça. Plantar feijão, arrancar feijão, carregar para o terreiro. Meu pai plantava fumo, tabaco, que o pessoal diz hoje tabaco, mas naquela época, na nossa linguagem é plantio de fumo, fazia fumo artesanal pra vender também, pra ganhar o “troquinho”. Meu pai criava abelha e nós íamos ajudar meu pai a fazer a fumaça pra tirar a abelha. Na juventude nós jogávamos bola, nós nadávamos nos açudes, nos rios, nesse Rio Sertãozinho, e namorava, brincava com a meninada. Em 1970 nós trabalhávamos nessa fazenda desse homem, do seu Giuliano Stefani.

 

Nós plantávamos e roçávamos pasto também, limpávamos as pastagens. Fazíamos todo o serviço. Nós víamos na televisão passar Rondônia, os plantios de café, as araras, as onças, e víamos passar também a Transamazônica. Então surgiu o pessoal indo pra Rondônia e vindo pra Transamazônica. Então o Ganzela convidou o Francisco Milanschi e o meu tio pra vir ao Pará, e vieram pra Belém. Vieram de carro até Belém e compraram uma viagem de avião pra Santarém. De Santarém, pegaram o barco e vieram conhecendo as cidades ribeirinhas do Baixo Amazonas: cidade de Monte Alegre, cidade de Prainha, essas cidades ribeirinhas, Almeirim. E foram até Belém. Chegaram a Belém, compraram outra passagem de avião pra Altamira, procuraram o Incra, que queriam se instalar. O Incra indicou pra eles o quilômetro 180 da Transamazônica. Meu tio veio, gostou muito da Transamazônica, falou: “Olha, lugar de nós mudarmos não é pra Rondônia. Lá tem muito apoio do Incra, tem muito apoio do Governo Federal”. Na época, o Governo Federal, o presidente era o João Baptista Figueiredo.

 

A Transamazônica era um luxo de estrada, muito bem conservada pela União, pelo Governo Federal. Isso chamou muito a atenção do meu tio. Na influência de plantar o cacau, nós viemos pra Transamazônica. A nossa família. Nós vendemos a propriedade que nós tínhamos, uma terra bem pequenininha, compramos uma caminhonete F75, picape, da Ford, mandamos reformar na cidade de Cascavel pra vir as pessoas em cima. Foi colocado capota, e nós viemos esse total de pessoas nesse caminhão. Chegamos, procuramos onde nós podíamos descarregar a mudança, informaram seu Antônio Dentista. Descarregamos a nossa mudança embaixo de umas árvores igualmente essas aqui. Passamos 30 dias ali naquele lugar, depois mandamos assistência para o outro carro vir, gasolina, fomos a Rurópolis comprar e mandamos para o outro carro vir.

 

O nosso maior serviço que nós fazíamos era ir tomar banho nos igarapés e caçar cotia onde hoje é a cidade de Uruará. Hoje tem Banco do Brasil, tem Banco da Amazônia, tem Bradesco, tem Correios, e hoje a cidade abrange mais de três lotes de terra e foram criados bairro pra tudo que é lado. Então nós vimos nascer, ajudamos na abertura da Transamazônica, nos ramais, ajudamos a fazer ramal manual, a fazer corte, fizemos coleta para o trator do Incra, dar o óleo para o trator fazer o ramal, a demarcar a segunda etapa de demarcação da Transamazônica. Eu conheci uma vida mais difícil que eu já pude ver na minha vida, não foi o frio quando eu era menino, não, mas foi a Transamazônica dali uns anos, que ficou abandonada pelo poder público. Formavam-se grandes atoleiros de quilômetros, onde os caminhoneiros passavam de semana, 15 dias com o caminhão atolado sem ter uma máquina pra puxar. Pessoas morrendo de malária, pessoas morrendo de leishmaniose, sem nenhum tipo de assistência.

 

Os primeiros anos, os primeiros quatro anos foram muito bons. Tinha assistência. Nós trabalhávamos na agricultura. Meu pai mora no mesmo lote que nós compramos. Nós não pegamos terra pelo Incra. Surgiu o Projeto Jari, eu ouvia no rádio o Projeto Jari, e eu tinha um sonho de conhecer o Projeto Jari. Eu ajudei a plantar o cacau e formá-lo. Primeiro plantamos mil pés, depois plantamos cinco mil pés, depois plantamos mais oito mil pés. Conseguia vender. E o que excedia da venda, que sobrava, nós fazíamos ração pra criação pra porco. Nós sempre criamos porcos. Eu saí está com 20 anos que eu vim pra essa região. Eu vim pra Altamira porque a estrada ficou abandonada, cortada. Não tinha preço na pimenta do reino, nós também somos produtores de pimenta do reino, produzimos muitos anos pimenta do reino também.

 

Então ficou em calamidade pública. Não tinha estrada, não tinha investimento para o agricultor, para o produtor rural, não tinha nada. Eu abandonei, deixei as coisas tudo, e vim trabalhar numa fazenda, trabalhei seis meses. Terminou o serviço, vim pra Altamira, fiquei mais uns tempos na cidade de Altamira. E ouvia falar no Projeto Jari. Vim pra cá de carona e trouxe um alho, eu fui vender o alho pra ele na rua. Fui num dia, fui nos dois, no terceiro dia eu encontrei uma pessoa que trabalhava aqui. Fui oferecer o alho pra vender pra esposa dele, perguntou de onde eu era, eu comecei a contar, ele falou: “Não, aqui é muito fácil de emprego. Você quer trabalhar?”... “Não, amanhã você vai comigo já de madrugada, eu já vou te levar pra uma empresa”. Levou-me pra Braga Florestal. Lá eu trabalhei sete meses na Braga Florestal. Mandei minha esposa vir e as três filhas. Me correspondia com ela por carta, pelos Correios. Só contava que eu estava empregado e que não tinha recebido, e que ela podia vir, que aqui eu pagava a passagem do barco.

 

Ela veio. Quando chegou aqui, eu paguei a passagem dela. Nós passamos uns seis meses em Altamira e depois viemos pra Monte Dourado. Trabalhei uns três meses em outro lugar e saí. Fui procurar terra. Fui aqui para o lado do Amapá, num lugar chamado Centro Novo, que estava desativado, nós reabrimos. Eu morava no Jari, minha esposa tinha uma padariazinha na época. Achamos a terra boa, moramos no ramal do Serra Grande, onde foi aberto por causa de nós, que entramos. Nós mesmos construímos as casas e vendemos aqui a casa na cidade. Passados uns seis meses, o homem veio serrar a madeira pra cercar a casa. Concluímos a casinha, está pronta até hoje. A essa castanha serviu de merenda pra nós muito tempo. De manhã nós comíamos, assávamos. Comíamos ela assada, comíamos ela feita paçoca, comíamos ela natura mesmo.

 

E me despertou na minha mente: “Castanha do Pará que é o negócio”. Eu voltei no Paraná, no pinhão, pra castanheira que nós juntamos as 26 latas de castanhas, que nunca mais ela deu igual, eu digo: “Eu vou ver. Quanto está o valor da área?” “Não, vá lá olhar. Eu quero vender porque eu estou doente. Eu não vou mais tirar castanha lá” “Está bom”. Marcamos o dia, fomos olhar a área. Eu não entendia de castanha, só de comê-la . Ele disse: “São 12 mil o lote, seu Mano”. Eu falei: “Seu Zé, eu vou lhe fazer uma proposta, é pegar ou largar”. Eu digo: “Dou-lhe cinco mil agora, dou-lhe em cheque. Se o senhor quiser, eu vou ao banco troco o dinheiro, trago o dinheiro.

 

E lhe dou mil com um ano”. Ele disse: “Está feito o negócio”. De 12, abaixou pra seis, dando cinco à vista e mil com um ano. Assim fizemos o negócio. E não fizemos nenhum documento. Isso foi verbalmente. Já vão pra 14 anos que eu moro nesse lote. Nós chegamos a produzir até 888 sacos de castanhas. Só que há uns anos entrou um fogo, não sei se de ação criminosa ou não, e queimou os castanhais tudo, e nunca mais voltou a dar o que dava. Vendo para o Garcilázio, um dos funcionários da empresa aqui que tem uma compra de castanha. Vendia pra outro homem, não deu certo e passei a vender para o outro, ele foi embora.

 

Trabalhei quatro anos com o outro. Trabalhei quatro com um e quatro com outro. E com esse eu já estou com seis anos. O tempo que o preço está bom, dá dinheiro bastante; quando dá menos preço, o dinheiro é menos, depende. São três sonhos: o primeiro, era legalizar as áreas de terra; o segundo, é ter uma máquina agrícola pra trabalhar, um trator, deixar para os filhos e neto um trator pra eles trabalharem; e o terceiro, pode estar incluído no meio do primeiro ou segundo, é uma fábrica de derivado de biscoito e de castanha, e derivado de castanha.

 

Tem uma cooperativa aqui no Iratapuru. Eu acho que outras pessoas que vão ver esse depoimento, eles vão ter uma noção do que era antigamente, do que é hoje, e nesse decorrer desse tempo. Porque nós temos uma história muito longa de vida, onde nasceu, onde se criou, onde estudou, com quem estudou, quando mudou, pra onde mudou, o que foi que fez, o que foi que conheceu, o que viu na Transamazônica, o que viu aqui, o que conheceu lá, o que ajudou fazer lá, o que deixou plantado lá, o que está plantando-se hoje aqui.

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