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História

Desafios e rotina de uma professora de dança

História de: Daiana Zumestein Nunes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/12/2021

Sinopse

Família e infância com a irmã em Indaiatuba (SP). Memórias da escola. Dança presente em sua vida desde criança. Viagem com o avô na adolescência. Trabalho como jovem aprendiz. Anorexia e recuperação. Faculdade de educação física. Projeto Criança Indaiatubana Feliz (CIF), desafios, impacto na vida das crianças e momentos marcantes. Rotina de professora de dança. Apoio do Instituto CPFL na Associação Beneficente ABID.

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História completa

P1 – Oi, Daiana! Tudo bem? 

R – Tudo ótimo! E com você? 

P1 – Tudo bem. Vamos começar perguntando pelo seu nome, local e data de nascimento, por favor. 

R – Bom, meu nome é Daiana Zumestein Nunes, eu moro em Indaiatuba e minha data de nascimento é dia 2 de novembro de 1985. 

P1 - Quais são os nomes dos seus pais? 

R – Maria Elizabete Zumestein Nunes e Amarildo Nunes.

P1 – E qual é a ocupação deles? 

R – A minha mãe é auxiliar de serviços gerais e o meu pai, motorista. 

P1 – Você tem irmãos? 

R – Sim. Eu tenho uma irmã. 

P1 – E como é que era a infância de vocês? 

R – Bom, eu sou a filha mais velha, né? Lá por volta dos três aninhos, eu pedia muito uma companhia, queria uma irmã ou um irmão e aí a minha mãe engravidou. Na verdade, ela teve um aborto entre eu e minha irmã, né, bem de comecinho, mas eu nem me lembro muito bem desse episódio, porque eu era bem pequena, mesmo. Mas a diferença de idade minha com a da minha irmã é de quatro anos. Então, eu lembro muito bem: quando ela nasceu, minha mãe foi pra maternidade e quando eu não podia entrar no hospital, né, (risos) mas tinha um vidro e então, quando passou a maca com a minha irmã ali, eu tenho muito gravada essa imagem. Eu só tinha quatro anos de idade, mas eu lembro das duas passando. Foi o primeiro momento que eu a conheci. E, a partir desse momento, a gente passou a ter um elo, realmente, de amigas, ali. Eu acho que a primeira pessoa que a gente aprende a amar e a dividir as coisas, são os irmãos. Tivemos uma infância muito tranquila, meus pais sempre participaram muito, tiveram sempre um cuidado de trabalhar o lado criança mesmo, né, colocando os limites, levando a gente pra ter o lazer adequado pra nossa idade. Eu falo que, assim, eles não tinham condições de levar a gente numa Disney, mas a gente fazia viagens curtas aqui mesmo, próximas à nossa cidade e também pra praia, que era a viagem mais esperada de todo ano. Então, a nossa infância foi muito aproveitada, na verdade, nesse quesito, assim, de ter a participação dos nossos pais, as brincadeiras, na convivência. Claro, tinha momentos também que a gente tinha, ali, algumas brigas, isso é normal, né? (risos) Mas foi bem tranquilo. 

P1 - E como é que é a casa onde você cresceu? 

R – Bom, dois quartos, então a gente dividia o quarto, eu com a minha irmã; cada uma tinha o seu espaço, na verdade. Meus pais sempre tiveram esse cuidado de dar, pra cada uma, a sua identidade, respeitando o individualismo, mas ao mesmo tempo eles nunca, até hoje, na verdade: “Essa daqui é mais ou menos”, pras duas sempre eles tentavam fazer a mesma coisa. É claro: a gente tinha e tem idades diferentes, mas tudo que se fazia pra uma, naquela idade, com certeza a outra também teve esse privilégio. Então, eu vejo que a gente não cresceu com rivalidade. A gente tinha, sim, aquelas disputas, às vezes, de irmãos, mas que era algo saudável. Não aquela coisa: “Só eu tenho, só ela tem”. Não. Era sempre olhando pras duas, da mesma forma. Mas, ao mesmo tempo, enxergando de uma forma individual. Aí estava contando da casa: aí um banheiro, uma sala, um “hall”, uma cozinha e um terreno muito grande, pra que a gente pudesse brincar bastante nessa casa. 

P1 – Você lembra quais eram suas brincadeiras favoritas? 

R – Na época, a gente tinha um quartinho, que era de bagunça, mas que, na verdade, era o quartinho como se fosse a nossa casa de boneca. A gente tinha uma cozinha montada. Então, assim, a gente passava as nossas tardes ali, né, brincando de casinha, realmente. Então, a gente tinha os nossos primos, que eram vizinhos, então eles também vinham, então esse quarto acabava sendo a nossa Brinquedoteca. Na época eu nem me lembro desse nome, acho que nem se falava nisso. Mas os nossos brinquedos, as nossas bicicletas, ficavam, todos, nesse quarto, que era externo da casa, ficava no quintal, onde a maior parte acontecia ali, mas a gente também andava muito de bicicleta, no nosso próprio terreno. Eu lembro que a gente fazia circuito de trânsito. Então, assim, a nossa lombada era o cabo de vassoura da minha mãe, então a gente usava bastante a criatividade, né? E aí pega-pega, esconde-esconde, mãe da rua. Nessa época era muito fácil o acesso à rua, né? Não tinha o perigo. Então, à noite, o nosso encontro era na rua. 

P1 – Você tinha muitos amigos na rua? 

R – Amigos da nossa idade não tinha. Só que a gente foi muito privilegiada, que os meus primos moravam vizinhos. Então, a gente tinha, muito, esse vínculo, né? Então, assim, nessa parte da rua só tínhamos nós de crianças, então, o nosso vínculo era esse, não vinha crianças de outras ruas ou vizinhos, porque não tinha, realmente. 

P1 – E, nessa época, você já tinha alguma ideia do que queria ser quando crescesse? 

R – Sim, já tinha, porque, desde os meus cinco anos, eu faço dança, sempre fui muito pro lado artístico, esporte. Meus pais sempre incentivaram essa parte, né? Tanto da educação, quanto a gente, em momentos livres, estar ocupadas com coisas que realmente iam fazer diferença na nossa vida futura. Então, desde cinco já fazia balé, jazz, ginástica artística, ginástica olímpica, GFD que era, na época e a minha irmã também veio seguindo isso. Claro, cada uma ali, em turmas diferentes, por causa de idades, mas a nossa vivência durante a semana era muito forte, nesse sentido. Então, eu sempre falava: “Quando eu crescer, eu vou ser professora de dança, de educação física”. Eu tinha muito forte isso comigo. 

P1 – E seus pais, são de Indaiatuba, mesmo? 

R – O meu pai é nascido em Itu e a minha mãe, em Itupeva. São municípios próximos à Indaiatuba, então é muito perto essa aproximação.

P1 – E a família deles também é toda, assim, de São Paulo, do estado? 

R – São de São Paulo, aqui do interior. A família do meu pai é toda é de Itu e da minha mãe, toda de Itupeva. 

P1 – Pulando agora pra parte escolar, você tem alguma lembrança, a sua primeira memória da escola? 

R – Minha primeira memória da escola, pré-escola, porque naquela época não tinha muito: “Vamos começar já desde um, dois anos”, como atualmente. Fora isso, eu falo que eu tive muito privilégio, porque a minha mãe escolheu ser mãe e dona de casa. Ela voltou a trabalhar há pouco tempo, depois que eu casei, então a gente teve esse privilégio, porque a gente não precisou ficar em creche, ficar em casa de pessoas que cuidavam da gente que, naquela época, era isso que acontecia. Então, eu fui pra escola, na verdade, com quatro anos, quando era obrigatório. Isso também eu vejo que foi muito bom. Então, eu lembro que foi na Vila Castelo Branco, era uma escola, eu lembro perfeitamente. Como eu era a primeira filha, então tinha esse vínculo, quando eu fui, eu dei trabalho, no primeiro dia de aula. Eu não queria ficar. Eu lembro até hoje, tinha escada e minha mãe indo junto comigo e eu chorando que não ia, não ia e, por fim, ela não conseguiu me deixar, mesmo, tive que voltar pra casa. Teve toda uma conversa, mas eu não voltei pra essa escola, eu fui pra uma outra, mais próximo da nossa casa, bem diferente, que eu acho que, no fundo, era a que eu queria, mas tinham me matriculado, agora eu não sei, porque eu era muito pequena, então eu não sei porquê foi pra essa Vila, né, que era próximo, também, da nossa casa, mas talvez, a ideia minha é que, nessa segunda escola, que foi a primeira, que eu lembro como primeira, eu lembro que a gente ia muito no parque próximo. Então, acho que o que ficou marcado, que eu já achava que era lá e eu não queria ir pra outra, acredito que seja isso. Porque eu via que ali era muito mais legal do que na outra. (risos) Então, acho que isso ficou marcado. E quando fui pra escola que eu queria, realmente, eu sempre fui muito de conversar, então a professora, teve um dia que colocou fita crepe na minha boca, (risos) pra ver se eu ia parar de falar. Então, imagina, né? Olha como os tempos mudam, né? Porque, se fizesse hoje isso, ela teria um B.O. muito grande, mas a minha mãe levou super na esportiva, a professora também, é uma das professoras que eu guardo e tenho contato até hoje, que é a professora Adriana. E ela fala, me vê: “Lembra daquela vez que eu coloquei...”, então, assim, foi uma coisa que ficou marcada, mas não pro pessimismo. Acho que fez a diferença na minha vida também, que eu aprendi que a gente tem que falar em momentos certos. 

P1 – E nessa segunda escola, em que série você foi pra ela? 

R – Foi no pré, mesmo, que eu fui. Na verdade, eu tive dois momentos, só, nessa escola, né, que foi o pré, foi na primeira, que foi na Vila Castelo Branco, só que eu não me adaptei. Então, eu mudei pra da pracinha da Liberdade, que é como a gente fala aqui. E dali eu fui pro Hélio, que era de frente. Então, eu também me sinto privilegiada, porque o Hélio só tinha o ensino fundamental que, na época, nem era ensino fundamental, era colegial I, colegial II e, conforme foi passando, os meus primos já tinham que ir mudando pras outras escolas, mas a minha turma, a cada ano que passava, abria a turma que ia ser a nossa. Então, eu tive o privilégio de começar do pré, até o ensino médio. Foi onde eu fiquei, onde foi a minha formação. E a minha irmã também. Então, eu acredito que isso é um privilégio, porque a gente não saiu, não perdeu aquele vínculo com os professores, com a escola e com os nossos amigos. 

P1 – E, falando nesse vínculo, você tem algum professor e também alguma matéria que te marcou muito, nessa época? 

R – Olha, eu tenho bastante contato com alguns professores, falo que o professor que pega, realmente, ali, no seu pé, no bom sentido, quando ele pega, é porque ele sabe que você tem algo de melhor pra oferecer. Então, realmente, ele vai ficar ali, insistindo, porque você tem esse potencial. Então, eu tenho, do primeiro ano, que foi a ‘tia’ Kely, que eu tenho contato com ela até hoje. Virou, mexeu, a gente se encontra e lembra dessas situações; a Terezinha, que foi do segundo ano, que essa era... a primeira vez que ela virou e falou assim: “Guardem tudo, ditado”, meu primeiro ditado com ela saiu, só que saiu todo tremido e até hoje ela me vê na rua e fala. Teve a Magali também, da quarta série, que ficou bem marcada. Teve outras: Vera Papini, que eu tenho contato até hoje, de Língua Portuguesa. Como a escola, todo mundo conhecia todo mundo e elas estão numa fase também, agora, de se aposentar e eu sempre fui muito dedicada, então era sempre a referência. Então, eu acho que isso contribuiu também pra que a gente tivesse um vínculo mais amoroso, mais de amizade, mesmo, de respeito. Acredito também que a gente, naquela época, via o professor de uma outra maneira. Até hoje eu tenho muito respeito por eles, porque os meus pais sempre passaram muito isso pra gente: “Olha, quem está educando, ensinando, você deve esse respeito. Talvez a gente perdeu um pouquinho atualmente, isso, na nossa sociedade. 

P1 – E foi nessa época que você começou a fazer dança? 

R – Então, a dança, como eu te disse anteriormente, desde os cinco anos, sempre foi presente na minha vida. Aí, conforme foi passando, a ginástica olímpica, quando eu me deparei com os movimentos mais complexos, que eram perigosos, eu quis sair, porque tenho muito zelo com meu corpo. Eu cuido muito. Então, tudo que existe o risco… Não quer dizer que a dança não exista, existe, mas o risco é menor que uma ginástica olímpica, que você vai dar um “flic”, vai dar uma ponte, vai usar ali o cavalo, a probabilidade é muito maior, de se machucar. Então, eu já parei ali, com meus dez anos, isso. Fiquei só com a ginástica artística. Mas o que eu tinha mesmo o perfil era da dança, do jazz. Passei com balé, hip hop que, na época, nem se chamava hip hop, era dança de rua, mas a minha identificação sempre foi com o jazz, porque o balé é muito bom, a gente precisa ter uma base dele, só que hoje ele já é um pouquinho mais aberto. Na minha época, ele era muito fechado, então eram sempre aquelas mesmas músicas, aquela rigidez, não era uma coisa que eu queria. Eu queria algo que eu pudesse expressar com a minha cara, onde eu me encontrei no jazz, porque o jazz acontece isso. Nessa época, eu sempre gostei muito de liderança, então, nos grupos da escola eu era sempre a que liderava, sempre a professora da turma. No jazz, eu já virei monitora da minha professora, então eu já começava a ajudá-la, tipo dando uma aula, tudo voluntariamente. Então, foi desde sempre que eu tive esse trabalho, mesmo, assim. Não remunerado, na época. 

P1 – Você tinha comentado que, a cada ano que passava, a sua escola ia adicionando uma nova série, né? Você chegou a fazer ensino médio lá ou acabou mudando de escola?

R – Fiz o ensino médio, sim, lá. Na verdade, na época dos meus primos, que também estudaram lá, eu lembro que, quando estava terminando a oitava série, eles ficaram super empolgados, porque iam pra uma outra escola, que eram o Dom José, na época e, quem ia pro Dom José, é porque já estava prestes a virar adulto, porque ia entrar no primeiro ano do ensino médio, mas eu, no fundo, não queria isso, ir pra uma outra escola. Não queria passar por isso. Porque tinha um lado positivo, mas também tinha o outro lado que, pra mim, incomodava. Então, quando foi pra virar: “O último ano seu aqui, com a gente”, o governo, na época, falou: “Vamos transformar o ensino médio também”. Então, eu cresci, né, desde o pré, até o ensino médio, mesmo, foi a mesma escola, sendo… Não foi particular, sendo municipal e estadual.

P1 – E aí, a partir do momento que você foi pro ensino médio, mudou muita coisa na sua vida? 

R – Bom, fase adolescente é uma descoberta nossa, internamente, uma fase muito bonita, mas ao mesmo tempo uma fase bem delicada. Nessa fase, eu tive momentos de altos e baixos, sim, em alguns aspectos. Vamos lá: primeiro, como te disse, minha mãe não trabalhava, o meu pai era autônomo, motorista, só que ele tinha um caminhão próprio, então ele sustentava a nossa família com esses recursos. A gente tinha uma vida boa. Não era uma coisa assim de ostentação, mas assim: estica e puxa daqui e lá e eles faziam de tudo pra que não faltasse nada pra nós. Meio que assim: “Falta pra mim, mas não falte pra vocês”. A primeira coisa, quando eu estive ali na entrada de quinze pra dezesseis, foi que meu vô diagnosticou um câncer, então isso foi muito impactante por parte do meu pai. A gente sofreu muito nesse sentido, tentou de tudo, só que chegou uma hora que o médico da família reuniu todo mundo e falou assim: “Olha, ele tem tantos dias de vida” e realmente foi aquilo. Então, foi muito sofrimento, pra família inteira. Ainda mais porque ele era um vô, assim, que chegava, sentava, saía, então ele era diferente do meu outro vô, que era materno, porque é um alemãozão, então tinha todas as características de um alemão, mesmo, assim: tinha o amor, mas era ‘opa, aqui e ali’, por causa de cultura mesmo. Então, aos quinze anos aconteceu isso, aí já veio os quinze anos, eu já sabia que não queria festa, eu quis uma viagem junto com o grupo de dança. Na verdade, tinha que escolher entre a viagem e a festa. Meus pais: “E aí, o que você quer?”. Eu escolhi a viagem, porque eu acho que ia ser a primeira viagem sozinha ali e você sendo adolescente, acho que foi muito bom isso pra mim, então nós viajamos, ficamos uma semana fora e ainda dançando, fomos pro Rio Grande do Sul. Então, isso foi muito legal, muito bom. E nessa fase aí meu vô veio a falecer. No ano seguinte, o meu pai estava com uma hérnia, que precisava ser operada, só que ele não podia operar, porque se ele operasse, ele não estava pagando Inss, na época, então se ele operasse, ia ficar sem ganhar, só ele trabalhando. Então, foi um período bem... Ele acabou indo pra São Paulo e foi assaltado, inclusive o levaram pra um cativeiro, levaram o caminhão, tudo que a gente tinha, naquela época, então foi um momento bem, assim, que eu precisei trabalhar esse lado. Ao mesmo tempo, eu os queria ajudar, mas eu não tinha como, porque naquela época ainda não tinha muito essa coisa de Jovem Aprendiz e aí eu comecei, vendia “lingerie”, DeMillus e, aos poucos, a gente foi indo. Uma tia ajudou bastante a gente, nesse sentido também, mas foi dessa forma, que passou ali essa fase do ensino médio, mas teve muitas coisas boas também: descoberta, autoconfiança ali. Mas teve um momento, também, muito triste, da minha parte: a dança, antigamente, principalmente, acho que foi uma das coisas que eu quis entrar pra um projeto social. Via-se a bailarina magérrima, dessa forma e a minha professora enfatizava muito isso. Eu sempre fui magra, porque o meu biotipo é esse, se você vir meus pais, é a mesma coisa. Só que quando você é adolescente, você já está naqueles hormônios e está toda uma descoberta e aconteceram essas coisas na minha casa, eu comecei a entrar aquilo dentro da minha mente: virei anoréxica. Eu acho que foi a única fase que eu decepcionei, na verdade, os meus pais, porque anorexia é uma doença muito perigosa. Hoje eu entendo e vejo que muitas doenças são da mente, mas porque eu passei por ela, então eu não vomitava, porque não era bulimia, era anorexia mesmo. Então, eu me via no espelho [e] não me via, na verdade, do jeito que eu estava, eu me via gorda. Assim, aí fui parando de comer, meus pais ali e gente em cima, daí a professora se tocou, mas já não adiantava. E é um processo que você tem que querer mudar. Só que, naquela época, não tinha convênio, não tinha psicólogo, eu tinha que querer mudar, por si própria. E meus pais em cima de mim. Eu só me toquei em dois momentos: quando eu fui pra uma viagem em Campos do Jordão, que eu tirei uma foto sozinha. Eu parecia um cabide, só aparecia minha clavícula. Ali eu já percebi: “Opa”. Realmente, a minha mente estava voltando em um equilíbrio. E quando eu entrei pra uma apresentação aqui, em espaço aberto, num parque que a gente tem aqui em Indaiatuba, lotada a concha e, quando eu entrei, eu estava em grupo, eu vi que todo mundo olhou pra mim porque, assim, não tinha como não olhar, porque eu estava só pele e osso. Era uma caveira ambulante. E aí, ali eu me toquei e, naquele momento, eu comecei a não ter mais força pra fazer o que eu mais gostava, que era dançar. E aí eu fui procurar ajuda, né? Uma professora de ginástica que eu fazia, na época, que daí já era ginástica localizada, porque daí já queria agregar a dança junto com o corpo bonito, porque você está naquela fase, quer ser a bonitinha, gostosinha e ela foi onde me ajudou, me deu, falou assim: “Olha, você vai ler o livro, você vai ver o quanto você gasta, o quanto você tem que comer, porque você tem que entender isso”. Então, ela foi uma pessoa que me ajudou muito e isso só reforçou o que eu queria ser: professora de educação física, pra mudar, transformar a vida das pessoas. Não só nesse sentido, mas no sentido de qualidade de vida, o cuidar. Nosso corpo é uma casca, a gente precisa dele bem. Então, vamos zelar, é a nossa casa. Aí eu consegui, graças a Deus, minha família também me ajudando muito, aí eu saí dessa. Nunca mais tive recaída nenhuma, só foi nessa fase, mesmo, ali, de 16 até 18 e não tive mais recaída, não precisei tomar remédio, nada. Foi, realmente, algo, autoconhecimento: “Eu quero, eu posso”. 

P1 – E, assim que você terminou o ensino médio, também conseguiu se recuperar, você começou a pensar em fazer faculdade de educação física?

R – Sim. Isso eu sempre enfatizei muito, que eu queria faculdade de educação física. Na verdade, era assim: faculdade de educação física, nutrição, fisioterapia, que são três áreas que são ligadas à saúde. Terminei o ensino médio, aí, quando eu estava pra completar dezoito anos, eu comecei a trabalhar num restaurante, como recepcionista e esse lugar foi muito bom, porque eu trabalhava das onze e meia às três, de terça-feira a sexta-feira, sábado eles davam um dia de folga, então eu podia ficar o sábado inteiro dançando, que era o que eu fazia e fazia parte do grupo e, no domingo, eu trabalhava também. Então, eu saía à noite, no sábado, no domingo acordava às nove horas, tomava um banho e ia trabalhar dez e meia, onze horas. Depois que eu me formei, eu fiquei um ano sem ir pra faculdade, por quê? Eu tinha que escolher: ou ia pra faculdade, ou eu tirava carta, porque eu não tinha dinheiro pra tudo. E meu pai estava começando a se estabilizar de novo, entrou num emprego novo, a minha mãe ainda não trabalhava, então estava começando a equilibrar tudo. Então, eu fiquei um ano parada, por decisão própria, mesmo, tirei a carta com o meu dinheirinho ali, né, com meu primeiro trabalho, fui, fiz tudo bonitinho. Não tinha carro, tinha medo de pegar o carro do meu pai, inclusive. Às vezes ele liberava, mas eu tinha um pouco de receio. Então, depois que passou um ano, depois que eu paguei minha carta, na verdade, comecei um outro processo, de guardar dinheiro, porque eu queria fazer faculdade. Nunca foi a minha meta fazer faculdade pública, mesmo lá no passado, tinha amigos: “A gente vai fazer, vamos estudar”. Nunca pensei nisso. Naquela época era muito forte, hoje já não é muito: “Você tem que fazer tal faculdade, porque isso que vai fazer o diferencial na sua carreira”. E os meus pais sempre mostraram muito que quem faz o diferencial é a gente. Claro, alguns recursos podem colaborar, algumas oportunidades, mas não adianta, você pode fazer na melhor faculdade, se você não quiser que aconteça, não vai acontecer. E, assim, eu fui muito criticada pelos meus amigos, principalmente porque eu ia fazer faculdade de educação física, que eu era a única que fui pra essa área, os outros era fisioterapia... Nutrição, não; fono, psicólogo, engenheiro. Então, nossa: “Mas professor não dá dinheiro, professor de educação física”. Pela minha família eu nunca fui criticada, pelo contrário, eles sempre me apoiaram. Eles sabiam que era isso que eu queria. Aí, eu comecei a guardar dinheiro, continuei nessa empresa, aí passei. Depois que eu passei na faculdade, e agora, como que eu vou pagar? (risos) A empresa que eu estava não dava pra pagar, mas mesmo assim eu fui com a cara e a coragem, porque eu tinha uma reserva e eu sabia que, por um período, eu conseguia. Aí, nessa empresa, como eu era recepcionista, tinham muitos empresários que iam almoçar nesse restaurante e eu sempre fiz o meu trabalho muito bem, meus pais sempre mostraram assim: independente de onde você esteja, faça bem, alguém sempre vai estar te olhando. Não importa quem. Não pensa assim: “É só meu patrão”. Não, tem alguém te olhando. E foi isso que aconteceu, realmente. Na época, eu tinha contato com os clientes e aí eu comentei com um: “Posso mandar um currículo?”. Nossa, imediatamente, fiz a entrevista, ele me contratou, aí eu já estava na faculdade, começando, eu falo que foi um dos períodos mais difíceis também, depois dessa parte, quando meu pai perdeu o caminhão, teve o roubo, porque esse restaurante era numa área central, muito próximo da casa dos meus pais. Como eu disse: aquela época, até, às vezes os meus pais me levavam e essa empresa era totalmente diferente. Então, assim, eu tinha que ir até o distrito. Então, no começo foi difícil, eu vendia passe, aí eu pagava uma pessoa pra me levar de carro até esse local, eu entrava oito horas, aí eu trabalhava, eles davam um vale-refeição, naquela época era cinco reais o vale-refeição, pra você comer. Era muito, mas ao mesmo tempo, não era muito: se você passasse aquilo, você tinha que pagar, então eu não tinha, na verdade. Eu não tenho vergonha nenhuma de falar. Eu ia pra comer no restaurante, eu sabia que eu tinha só cinco reais, não podia passar, porque o dinheiro que eu recebia pagava a minha faculdade. Então, às vezes eu ficava com fome, eu comia a sobremesa, porque nesse restaurante podia comer sobremesa de graça, (risos) então eu me enchia de bolo, quando eu estava com fome. E aí não dava pra tomar banho, que a empresa não tinha onde tomasse banho, então, assim: eu terminava ali cinco e meia, eu andava mais ou menos uns dois quilômetros pra chegar até o ponto onde minha van ia me buscar, nesse ponto tem até hoje um shopping, então eu ia pro banheiro do shopping, tomava banho de perfume de hidratante, tipo: estou cheirosa (risos) e esperava a van. Era a última a ser pega, ali. E eu ia, assim: levava um lanche, mal comia também, porque era na época ainda que meu pai estava ali, se restabelecendo em tudo e eu estava começando com uma dívida, já, de pagar a faculdade. Quando eu entrei na faculdade, eu falei assim: “Gente, eu não posso pegar DP. Não posso, simplesmente não posso porque senão, não sei de onde eu vou tirar dinheiro”. Aí eu fiquei, na verdade, nessa empresa, três meses, por quê? Os clientes começaram a reclamar da recepcionista que tinha no meu ex trabalho, que era nesse restaurante e aí eles fizeram uma contraproposta: “Olha, quanto você precisa?” “Preciso disso. Ok, eu consigo me manter”. E aí eles aceitaram. Ali já começou a melhorar o meu caminho, porque eu fazia o horário das onze e meia às três, então podia dormir até mais tarde, podia estudar, chegava em casa no horário, tomava banho, descansava, estudava e ia pra faculdade. Então, foi, assim, muito bom esse período. Eu sou grata com eles até hoje, falo que eles fizeram todo o diferencial e depois, no segundo ano, como eu já tinha a vivência de dança, aí, nessa época, minha professora de dança, que era da prefeitura, foi contratada pelo Sesi e ela me levou junto, então eu fui a primeira bailarina do Sesi de Indaiatuba e sempre a ajudando, antes da faculdade. Quando eu entrei pra faculdade, tinha-se já esse projeto que hoje eu sou coordenadora, inclusive, e a gerente e o presidente, o diretor do Sesi, tinham contato, sabiam que eu era a primeira bailarina, então, quando eles souberam que eu estava na faculdade, já entraram em contato comigo: “Daiana, a gente precisa, a gente quer você dando aula de dança pra essas meninas”. Eu falei assim: “Mas não pode, porque eu entrei agora na faculdade, é no terceiro ano, só, sexto semestre”. Eles: “Não, a gente vai dar um jeito. A gente vai falar no Ciee, explicar a situação” e aí eu já comecei como estagiária. Então, no segundo ano de faculdade, eu já entrei e não saí desse emprego, então assim: eu conseguia conciliar o estágio remunerado, aí eu voltava de ônibus, trabalhava, ia pra casa, descansava e ia pra faculdade. Então, eu fiz isso até 2008. Em 2008, eu consegui um outro trabalho, na área de educação física mesmo e aí eu fiquei com o projeto social, mais essa área, numa empresa especializada nessa parte esportiva me contratou e aí eu me entreguei cem por centro pra educação física e até hoje, de 2008 até hoje, é cem por cento essa parte de educação física. 

P1 – Esse projeto é o Criança Indaiatubana Feliz ou é outro? 

R – É o projeto Criança Indaiatubana Feliz, isso mesmo. Ele nasce em 2001. Até então Daiana não conhecia, eu estava ali na fase de dezesseis anos. Ele foi fundado pela Feai, que é a Federação das Entidades Assistenciais de Indaiatuba, junto com o Sesi e alguns parceiros de empresas do Sesi. Então, numa reunião: “Olha, gente, a gente está precisando de projeto social” e aí criaram Criança Indaiatubana Feliz. Em 2005, eu assumo como estagiária, ali eu já começo a fazer uma mudança, em qual sentido? As crianças, até 2004, participavam do Festival do Sesi, junto, eram convidadas. Só que quem estava assistindo sabia nitidamente quem era projeto social e quem era do Sesi, por quê? Quem estava lá não tinha essa visão: eu sou um projeto social, eu estou colocando, inserindo uma parcela da população, da comunidade, que é excluída. Eu não posso excluí-las ainda mais. Então, em 2005, quando eu entrei, comecei a colocar alguns pontos: “Olha, a gente precisa melhorar a fantasia, elas precisam melhorar a técnica. Não é porque é um projeto social, que elas vão ser menos”. Ao contrário, quando fizer o festival, que era corrido, não anunciava: “Agora é coreografia X, agora a coreografia do projeto CIF”. Não, era um festival corrido, só que quando elas entravam no palco, dava pra ver, por causa da técnica e por conta da fantasia. Então, eu comecei a falar: “Não é isso que eu quero. A gente vai começar a mudar”, “Mas o projeto social você sabe, não tem dinheiro”, “Tudo bem, nós vamos atrás: venda de pizza, de pipoca, vamos dar um jeito, apadrinhamento” e aí foi-se crescendo, foi indo. Então, eu comecei, em 2008, quando eu me formei, esse projeto me contratou como professora. Então, aí eu virei professora do projeto, mas a gente era contrato escolar, acontecia no Sesi ainda. Em 2009, a Feai, que é a Federação das Entidades Assistenciais de Indaiatuba, falou assim: “Olha, por motivos burocráticos, a gente não pode ter um único projeto, por conta que a gente tem que cuidar de todas as ONGs e eles estão entendendo que a gente está levando mais projetos. Então, a gente vai ter que fechar”. Eu disse: “Opa, não, a gente tem que abrir mais projetos sociais, não fechar”. Aí eu fui na Abid, que hoje é mantenedora do projeto, que é a Irmã Dulce, Associação Beneficente Abid, já os conhecia, por quê? Desde 2005, as crianças que moravam na Abid, porque a Abid foi criada em 1999, como um abrigo. Saíam da Abid e iam fazer atividade comigo no Sesi. Então, a diretoria já conhecia todo esse projeto, essa articulação e sabia que fazia diferença. Aí, no primeiro momento, eles falaram assim: “Meu Deus, um abrigo com um projeto que é da comunidade - porque o projeto CIF é da comunidade aberta, vulnerável -, não estou entendendo”. E daí, depois de muitas discussões, entendeu que o projeto CIF viria pra uma linha preventiva dentro da Abid. Porque, qual é a ideia? Quando a gente consegue orientar as famílias, consegue, ali, pegar o problema, ela não vai chegar no abrigo. Então, hoje, a ação CIF, não digo a mais importante, porque todos os projetos são importantes, mas eu diria: pra gente acabar com o abrigo... Quando eu falo ‘acabar com o abrigo’, não quer dizer que a gente vai fechar, mas no mundo ideal, seria que não tivesse mais o abrigo, porque quando chega no abrigo, o problema já devastou muito a criança, a família. E eu só aprendi isso com a Abid, porque, na verdade, em 2005, eu comecei como voluntária na Abid e não entendia como mãe e pai podiam fazer aquilo com aqueles filhos. Aí fui amadurecendo e aprendendo que eles só faziam o que eles tinham vivido. Porque, pra mim, era assim: eu tive uma vivência de uma coisa na minha família, que era o respeitar, o cuidado, o carinho, então eu vou passar isso pros meus filhos. Agora, quem sempre foi espancado, tem um filho, o que vai achar? Que a melhor forma de educar é espancando. Então, aí, casou. E, desde 2010, a Abid assume, então, o projeto CIF. 

P1 – E você acha que o projeto teve um impacto muito grande na vida dessas crianças? 

R – Sim. O projeto social sempre tem [um] impacto muito grande. Eu tenho contato, falo da minha primeira turminha, de 2005, até hoje. Hoje, a gente tem esse vínculo ainda, elas estão terminando faculdade, casando, comprando apartamento, casa. E elas falam, mencionam: “A diferença foi eu ter feito parte de um projeto onde a gente aprendeu a valorizar que tudo a gente pode, só depende da gente”. Que eu transformei, na verdade, a dança, porque é minha ferramenta principal hoje, dentro do projeto CIF Oficina de Dança é a dança, né, a minha vivência. Primeiro a vivência da dança, né, que era muito rígido. A professora, anteriormente, era bem diferente da de hoje. É aquilo, é isso, você tem que ser magra. Então, assim, uma das coisas que eu não levo pra minha atividade é isso. Você tem que respeitar o seu corpo. Eu tenho alunas que são mais fortinhas e ok, elas têm uma flexibilidade, uma força e dançam muito bem. Às vezes até mais do que a magrinha. Então, eu trouxe essa individualidade. Claro, nunca esquecendo da saúde porque, pra os nossos avós, quando você é fortinho, você está com saúde. Isso não quer dizer que você está com saúde. E nem quer dizer também, se você está magrinho, está com saúde. O que representa a saúde mesmo é se você está rendendo, seus exames estão bem. Então, é isso que eu tento passar pra elas. Tento passar pra elas que tudo é possível, porque na minha vida sempre foi assim. Falo que a base, quando eu fazia faculdade, nunca me faltou, que foi o arroz, o feijão, a água pra eu tomar banho, mas quem bancou minha faculdade fui eu. Então, assim, os meus pais me deram a base que eu precisava e eu fui em busca de mais. Então, é isso que eu passo pra elas, que tudo é possível. Então, você vira um objeto de exemplo. Então, elas veem isso, sua vida, o que você tinha, o que você vem criando, elas têm esse embasamento e eu conto a minha história, que eu acho que é muito importante elas não acharem: “Ah, mas pra você é fácil, olha aí”. Não, mas espera aí, teve toda uma trajetória, teve momentos. Eu acho que falta isso e, num projeto social, a gente consegue fazer isso. Então, a dança traz, já, por si só, essa autoconfiança, a exposição, o trabalho de equipe, o trabalho de percepção, a autoajuda, esse lance: “Ah, mas e se eu errar?”. Não, se você não tentar, você não vai saber. E, no final, ela vê que, assim, não conseguia e terminou conseguindo, porque existiu uma persistência, um trabalho. Então, a dança faz isso e, fora isso, a gente tem momentos de conversa, que é onde a gente se coloca: “Olha, essa situação, às vezes você acha que só acontece comigo, mas acontece com você, com aquele. O que você está passando agora, quando eu tinha seus 15 anos, também passei, porque são ciclos”. Então, o impacto é muito grande. Só de ver quantas crianças e adolescentes poderiam estar ali, no meio das drogas e estavam num ambiente tranquilo, onde eu sempre tive muito, até hoje, contato muito aberto com elas, porque eu tive isso de criação. Meus pais sempre mostraram assim: “Você tem dois caminhos” - igual quando eu comecei a sair – “a gente vai te dar liberdade, que a liberdade se conquista. Então, você tem esse caminho e esse, você que vai escolher. Você quer sua liberdade, continua nesse. Você não quer? Então, vai por esse caminho”. Então, com as crianças e adolescentes sempre eu trabalho dessa forma: “É você que vai escolher. Sempre existem dois caminhos. Não existe certo ou errado. Eu não posso falar isso pra você, mas eu tenho que te orientar, porque dependendo do caminho que você vai pegar, você vai ter as consequências. E essa consequência é sua, só, não é de mais ninguém”. Então, esse impacto é muito grande. Estou vendo formas positivas, como as menores também, hoje mesmo a gente vê aí quanto tem essa mudança, né? 

P1 – Tem alguma história marcante, assim, do projeto CIF? 

R - Nossa, tem várias, na verdade, né, assim, que marcam. Uma é que chegou uma época, na verdade, ela era minha aluna e ela caiu, teve um momento que ela virou mula, transportadora ali, de drogas. E a gente conseguiu carregá-la: “Olha, esse não é o lado, esse lado tem atalho, não é dessa forma”. Então, ela veio, voltou mais pra dança, a gente conseguiu trazê-la e mostrar que esse lado que ela estava entrando seria ruim. E a gente conseguiu, ela fez aula até dezessete anos e onze meses, porque elas ficam de quatro até dezoito anos com a gente, então é um processo muito grande e isso foi muito interessante, na verdade, porque antes o projeto era só criança, só que quando chega com dez, elas tinham que ir embora. Aí a Daiana falou assim: “Meu Deus, mas agora que elas vão começar ali a puberdade, a pré-adolescência, que elas estão numa outra fase, eu vou deixar?”. Aí subiu pra doze, depois até catorze, depois até dezesseis e agora elas ficam até dezoito, dezessete anos e onze meses aí. Então, essa pessoa, adolescente, na época, voltou, se equilibrou, hoje está super bem, já está casada, está com dois filhos, seguindo a vida dela, trabalhando, então é muito gratificante ver isso: ela tinha tudo pra ir pro mundo das drogas, do tráfico aí, que é uma coisa muito mais fácil no momento, naquele primeiro momento, mas é uma ilusão. Então, acho que foi uma das histórias que mais me marcou, assim, porque realmente ela estava sendo a mula, inclusive foi pra delegacia e tudo o mais, teve esse período. Foi uma das histórias que mais marcou, como depois tem outras bonitas também, não que esse não seja, mas da avó virar e falar assim: “Nossa, foi a primeira vez - uma avó de cinquenta anos - que eu entro num teatro, você me trouxe num teatro e pra assistir a minha neta”. Aí a gente fala assim: “Opa! Cinquenta anos demorou”. E aí você vai conversar, o que eles entendem? Que a dança, o teatro não é pra pessoas de baixa renda, porque tem esse pré-conceito, que é uma coisa pra quê? Pra alta sociedade. Não é. Então, isso também me comoveu muito, porque eles precisam ser acolhidos, a gente precisa dar essa oportunidade. E muitas das vezes eles não vão, porque eles têm medo. E, nessa situação, ela foi meio que obrigada, porque era neta. E, num primeiro momento, ela teve resistência, falou assim: “Não, não vou. Como eu vou pra um teatro? Eu não tenho roupa pra ir pra um teatro”. Porque o que a imagem da TV passa, é o quê? O teatro, roupa chique, longa, coisas de novela, de Hollywood. E aí a gente entrou com toda uma abordagem com ela, que não, que ela podia ir com a roupa que ela tivesse, que o mais importante era ela estar ali e vivenciar a apresentação da neta dela. E a gente conseguiu convencê-la. 

P1 – Como é que funcionam as suas aulas de dança? Você dá aula de dança de jazz ou são vários tipos, estilos?

R – O nosso estilo é jazz, com algumas bases do balé, porque o jazz tem essas bases do balé. Elas acontecem três vezes na... Desculpa, eu tenho três turmas durante a manhã e três durante a tarde, totalizando seis turmas. Ambos os sexos, de quatro a dezessete anos e onze meses, aí elas são separadas por faixas etárias e, no sábado, a gente tem os grupos especiais. O que são os grupos especiais? Durante a semana, a gente tem um trabalho mais voltado cem por cento pra parte de dança técnica e entre lado à parte social, onde assistente social, psicólogas estão juntos, fazendo os bate-papos, rodas de conversas. Vemos de forma individual aquele aluno, aquela criança. Damos estímulos pra melhorar a parte técnica e também em outras coisas pontuais. Então, a aula acontece dessa forma. Temos crianças que têm o perfil de ‘quero mais’, então elas são convidadas a participar de um teste no final de ano, onde há audição. Então, todas são convidadas. Durante o ano a gente faz uma avaliação de comprometimento, prestatividade, a parte técnica e aí, depois, elas têm uma bancada de jurados, a qual eu não faço parte, a gente convida profissionais da área, patrocinadores, que aconteça isso e elas vão até lá, falam porque elas querem participar desse grupo e fazem esse teste. Esse grupo, quando eu falo especial, é porque ele vai representar, realmente, o nosso projeto. Ele vai fazer parte de competições, de apresentações em empresas, em eventos da cidade e região. Pra eu levar todas fica um pouquinho complicado. E, como exige muito a parte técnica, então a gente tem que selecionar quem realmente quer e está preparado pra aquilo, porque a cobrança vai ser totalmente diferente. Mesmo tendo essa cobrança diferente, a gente não esquece do lado individual de cada uma e que estamos dentro de um projeto social. Aí eu trago toda uma bagagem que eu já tive do que eu já vivenciei e que eu não acho que é positiva. Então, isso é introduzido dentro da oficina de dança. 

P1 – E depois dessa oficina, teve alguém que saiu dela e se profissionalizou, nessa parte? 

R – Bom, atualmente, eu tenho o Dedé Barcelos, que começou com a gente, na verdade, já adolescente e eu vi ali que ele tinha um talento. Ele parou de fazer com a gente, por causa da idade, mas ele continuou como voluntário. Aí ele foi pra academias especiais aqui de Indaiatuba, renomeadas, hoje ele dança, numa delas. E hoje ele é meu auxiliar artístico. Então, esse é um. E tem um outro também, que é o Denis, também está nessa área, hoje está trabalhando num projeto cultural da prefeitura, é professor também, de dança. Inclusive, algumas alunas minhas, atuais, fazem aula comigo e com ele e chegaram todas felizes: “Professora, a gente está fazendo aula com um professor que já foi seu aluno”. Então, eu fiquei bem feliz, porque ele passou isso pra elas, o quanto foi importante essa vivência dele, ele também foi um dos primeiros, primeira turma, assim e é isso. (risos)

P1 – Daiana, você pode falar um pouquinho sobre a relação do Instituto Cpfl com a Abid? 

R – Claro, com muito prazer. Na verdade, a gente já conhecia o Instituto da Cpfl, só que nunca tinha sido contemplado com a parceria deles. A gente sabe que eles desenvolvem projetos maravilhosos. Aí esse ano nós fomos contemplados, eles sendo nossos parceiros, nossos patrocinadores. Desde 2014 a gente está inscrevendo o projeto de dança da Abid na lei de incentivo, que é a Lei Rouanet. E a gente vem tentando, cada vez mais, conquistar novos parceiros, novos patrocinadores e o ano passado o nosso produtor executivo, Bruno, enviou nosso projeto, todo nosso “release”, histórico e avaliação do que era e do que a gente ia fazer e aí a Cpfl, o instituto, aprovou e entrou como patrocinador. Então, eles são os nossos mais novos patrocinadores, é a primeira vez que a gente tem o apoio deles, está sendo sensacional, inclusive a gente já fez até um depoimento nesse quesito, relatando o quanto é importante a gente ter o Instituto Cpfl junto conosco, porque nós sabemos que é uma empresa que faz a diferença no Brasil, apoia projetos maravilhosos e ter o nome deles com a gente, na nossa marca, nos dá mais responsabilidade, porque nós sabemos o tamanho dos projetos e da responsabilidade social que ele tem com a nossa comunidade. Então, quando eu falo mais responsabilidade, é que a gente tem que prezar cada vez mais pelo Instituto Cpfl. Então, só essa gratidão são, aí, nove meses que a gente está tendo, de contato, está sendo muito bom, eu acredito que teremos um futuro muito longo aí. Assim desejamos. 

P1 – Agora, voltando mais pra parte pessoal, como é que você conheceu seu marido? 

R – Dançando. (risos) Na verdade, em 2011, eu tomei um pé na bunda do ex e ele também tomou um pé na bunda da ex, só que os dois buscaram a dança com objetivos diferentes. No caso, a minha sócia, porque eu tenho um estúdio de pilates também, eu não falei esse lance, mas desde 2013 a gente tem uma empresa, né, nesse ramo. A minha sócia, na época, não era ainda minha sócia, nesse sentido, dava dança de salão. Então, a amiga, ali: “Olha, você precisa ocupar a mente, vamos pra dança” e eu sempre quis fazer dança de salão, só que o ‘falecido’ não gostava. Então, foi um momento que ela falou assim: “Agora, você tem que ir pra dança de salão”. Eu fui um pouco resistente, porque eu falei: “Dança de salão só tem casal”, né? Ela falou assim: “Não. No momento, agora, você tem que ocupar a mente, não pode ficar triste”. E aí eu fui, segui o conselho de amiga e fui. Quando eu cheguei lá, realmente tinha alguns pares, exceto eu, que acabava sendo um rodízio, fazia par com ela também, porque ela também não tinha um par e tinha esse moço, que estava com acompanhante, mas até então não sabia o que era. Na verdade, a cada semana, às vezes, ele aparecia com uma, daí eu fui me tocando que eram amigas e quando a gente rodava, daí a gente começou a conversar, ele foi pra dança de salão porque, naquela época, estava muito na moda forró universitário, sertanejo universitário. Então, na cabeça dele: “Vou aprender a dançar, vou sair pras baladas, vou pegar todas as menininhas e está tudo lindo”. Aí eu brinco que ele se ferrou nessa, no bom sentido, porque ele foi com essa visão (risos) e acabou saindo com uma e até casou. (risos) Aí acho que foi um mês, mais ou menos, um mês e meio nesse processo, aí a gente começou a conversar pelo MSN, porque não tinha whatsapp - naquela época, era rádio ou MSN - dez anos atrás: “Ah, hoje minha amiga não vai. Então, você pode ser a minha parceira?” e daí eu ficava a aula inteira com ele. Então, começou um processo de amizade mesmo aí. Até foi muito engraçado, que eu levei esse projeto social pra um festival, em Salto, e aí eu falei pra ele: “Minhas alunas vão dançar na sexta-feira à noite. Se você não tiver nada pra fazer, vai”. Menina e ele foi. Mas, assim, ainda estava meio... Sabe quando você está meio fechada, tal? Aí ele chegou lá, as meninas com uma sede, aí ele: “Não, espera aí”, foi lá, comprou água pra todo mundo. Ok. Aí eu voltei embora de ônibus com as meninas e ele atrás, de carro. E ali elas já: “Ah, ‘pro’, não sei, não, né?”, porque a gente tem muito esse contato, né? Eu tenho, com as minhas alunas, falei: “Gente, nada a ver, é meu amigo”. Aí uma adolescente virou e falou assim: “Ai, ‘pro’, eu estou achando que a senhora está muito velha”. Daí eu falei assim: “Como assim?”, “Não, para pra pensar”. Daí eu falei assim: “O quê?”, “Amigo só na sua cabeça de velha”. Aí eu falei assim: “Como assim?”, “Você acha que um amigo, numa sexta-feira à noite, ia vir pra um teatro, assistir dança, pagar água pra todas as alunas, se ele não tivesse interesse em você?”. (risos) Aí eu: “Acho que você está pensando demais”, “Olha, fica esperta!”. Daí, desse dia, eu falei: “Opa, acho que ela não está tão enganada, está certa”. Mas mesmo assim a gente continuou ali a conversa, foi bem assim, uma conquista mesmo, uma amizade, dançando ainda e depois ele acabou me pedindo em namoro e aí a gente começou a namorar, paramos a dança, (risos) não continuamos. Era só, realmente, pra se encontrar. Então, a gente se encontrou na dança de salão. (risos) 

P1 – E vocês chegaram a se casar? 

R – Sim, nós somos casados. Quando a gente começou a namorar, eu falei assim: “Olha, é o seguinte: já fiquei cinco anos com o ‘falecido’. O máximo, cinco anos de namoro, hein! E a gente tem que casar”. Eu já fui na lata, assim, tipo: em meses, né? E ele nunca tinha pensado em casar, na verdade. Ele fala que ele não tinha pensado. Mas aí foi um encanto, né? Na verdade, era pra ser. Um ano a gente namorando, eu sempre fui muito pé no chão: quem casa, quer casa. Então, a gente pode ter tudo, pode fazer festa, lua de mel, mas primeiro a gente tem que ter o nosso canto e depois a gente faz tudo que quiser. E foi dessa forma que aconteceu: um ano antes... Um ano, na verdade, de namoro, a gente já tinha conquistado o nosso primeiro apartamento junto, aí ele me pediu em noivado, foi de surpresa, teve todo um lance, um jantar, ele pediu pros meus pais, foi tudo à moda antiga, tudo respeitando os protocolos. Aí a gente ficou dois anos e meio noivados, noivos. Foi um processo de fazer toda uma parte de organização, festa e tudo o mais, foi uma outra parte que eu falei que a gente pode ter tudo, mas a gente não vai ficar com dívidas, então vamos começar a partir de agora. Então, a gente fez essa programação, até o curso mesmo de noivos a gente fez dois anos antes do nosso casamento, a gente já tinha a data, mas realmente pra fazer toda uma reflexão do que é o casar, como que é. Então, acho que isso também contribuiu e está contribuindo pra o nosso sucesso. A gente está há dez anos junto e vai fazer agora, dia 25 de outubro, sete anos de casados. 

P1 – Vocês chegaram a fazer festa ou foi casamento no civil, mesmo?

R – Foi tudo certinho. Na verdade, quando a gente foi pra comprar o nosso apartamento, a gente não estava noivo ainda, ele falou assim: “A gente vai comprar o apartamento, mas a gente não vai morar lá”. Na minha cabeça, eu já podia juntar tudo e já estava morando. Ele disse: “Não, não é assim que funciona. A gente pode ter, a gente vai alugar, mas não vamos morar, porque eu quero tudo bonito, todo o protocolo”. A princípio eu não sonhava essa parte de festa, de casar. De casar que eu falo assim, nessas coisas que eu pensava: “Meu Deus, é muito dinheiro, né, festa”. Mas aí, depois, eu entrei no clima e que bom que eu entrei e fiz, porque talvez eu acho que eu ia me arrepender. Então, a gente fez todo um planejamento, sim, a gente teve festa, a gente casou no civil, numa sexta-feira, dia 24 de outubro de 2014. Aí, no sábado eu tive o Dia da Noiva, daí a gente casou, à noite, teve festa, foi do jeito que a gente quis, eu entrei dançando, ele entrou de “motocross” na festa mesmo, foi super diferente. Depois a gente foi pra nossa lua de mel, no domingo mesmo a gente viajou. A gente já queria algo assim: casou e no outro dia a gente já vai viajar. Então, seguimos todo um protocolo aí, que foi muito bom e eu falo que eu não me arrependo de nada, faria tudo de novo. Eu era bem resistente a essa parte. Ele, sempre, muito, que quis, mas depois eu vi que era isso mesmo, eu também queria, no fundo. (risos)

P1 – E, voltando um pouquinho, você comentou que você também é sócia de um estúdio de pilates, né? Como é que você se divide entre o estúdio de pilates e o projeto da CIF?

R – Menina, é uma loucura! Até hoje, dez anos depois, meu marido não entende onde eu estou, como eu faço, como eu dou conta. (risos) Ai, pra mim, é muito natural, na verdade, né? Eu não consigo separar... Claro, eu tenho momentos que eu estou dedicada à minha empresa, tenho uns momentos que eu estou pro CIF, mas ao mesmo tempo, eu estou pros dois, porque tem momentos que, mesmo estando na minha empresa, se surgir alguma coisa do CIF, eu acato e vice-versa. Na minha empresa, hoje, eu estou mais como gestora, do que dando aula, então isso facilita muito. Na Abid, no projeto CIF ainda, eu sou gestora e professora. A ideia é, com o tempo, [que] eu diminua um pouco a carga horária de professora, mas eu não quero tirar cem por cento, porque não é o que eu desejo. Igual a minha empresa, eu também dou ali, eu só estou com três aulas, o resto é funcionária, mas eu me formei pra isso, então eu também não posso. Só que, por um outro lado, como eu quis ser gestora, eu também preciso ter o tempo de administrar. Então, eu me divido ali. Eu vou colocar só uma segunda-feira de manhã, eu sou cem por cento [do] projeto CIF. À tarde, pra noite, eu sou a minha empresa. Aí, na terça-feira, oscila. E assim é o resto da semana. Mas eu só tenho que agradecer, porque eu consigo administrar muito bem os dois trabalhos. E com muita eficiência, assim. Então, isso me dá horários alternativos também, no sentido de remanejo. 

P1 – Daiana, agora caminhando pras perguntas finais: quais são as coisas mais importantes pra você hoje? 

R – Saúde e família. (risos) 

P1 – E quais são seus sonhos pro futuro?

R – Ai, que a minha empresa seja referência em pilates, aqui. Que a empresa do meu marido também seja, no segmento dele. E que o projeto CIF, que já é, na verdade, continue sendo a referência de projeto social, de oficina de dança, aqui na nossa região. E aí muitas viagens, que a nossa família seja completada aí com filho humano, porque filho de patas a gente já tem e muita saúde. Saúde e paz, o resto a gente continua correndo atrás. (risos) 

P1 – E, por último, como foi contar a sua história?

R – Ai, é sempre, muito, um orgulho pra mim, na verdade. Meu marido brinca: “Você se ama, né?”. Eu me amo, mesmo. (risos) Se eu não me amar, ele não vai me amar e ninguém mais vai me amar. E contar a minha história acho que, assim, é uma grande oportunidade, eu só tenho que agradecer aí, estou muito feliz mesmo, espero que ela contribua com a nossa sociedade, que eles percebam que tudo é possível, porque eu não vim de uma família rica, meu marido também não e eu acho que, assim, a gente, também, a partir do momento que a gente se encontrou, a gente começou uma nova etapa, que é nossa e isso faz toda a diferença. Então, tudo que a gente vem conquistando, em todos os sentidos, o ser e o ter, é porque a gente está em busca, né? Eu posso. Eu quero, eu posso, eu mereço, mas depende só de mim. Eu acho que fica a maior lição, é essa: todo mundo pode, todo mundo tem dificuldade. Às vezes a gente olha pro jardim do outro e fala assim: “Mas ali foi mais fácil”. Não. Cada um tem a sua dificuldade. Isso pode ser rico, pobre, branco, amarelo, preto. Então, é você querer. (risos) 

P1 – Então, Daiana, em meu nome, do Genivaldo e do Museu da Pessoa, nós agradecemos a sua entrevista. Foi muito boa!

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