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História

Desafio para as novas gerações

Sinopse

Antonio Lisboa menciona o fato de sua mãe ter sido professora informal das crianças do local em que nasceu. Ele próprio foi alfabetizado em casa, pelas irmãs, e só mais tarde, já no Distrito Federal, passou a estudar em escolas regulares. Fez o curso de Geografia e tornou-se professor. Filiado ao SINPRO-DF, logo envolveu-se na militância sindical. Entrou na rede pública em 30 de abril de 1986 e, no dia 1º de maio, uma assembleia decretou greve dos professores. Começou ali a sua trajetória de lutas.

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História completa

Tanto meu pai quanto minha mãe foram autodidatas. A minha mãe, na juventude dela, chegou a ser professora alfabetizadora naquela região. Naquela época não havia professor concursado, não havia rede pública de ensino, não havia nada. Na verdade, as pessoas iam se alfabetizando quando conseguiam se alfabetizar, a partir de uma pessoa que era geralmente filha de uma família amiga, e que muitas vezes os fazendeiros contratavam – geralmente uma adolescente – para poder ir também alfabetizando os filhos dos vizinhos, dos sítios vizinhos. Não havia nenhuma presença do Estado naquele momento em termos de serviço público. Eu fui alfabetizado pelas minhas irmãs. As minhas irmãs todas estudaram, inicialmente com a minha mãe, e depois elas viraram também professoras. As pessoas de fazendas, até mesmo famílias amigas que moravam relativamente próximos, pediam ao meu pai e minha mãe para que uma delas pudesse ir lá, e aí eles faziam uma turma de crianças [para] alfabetização. Eu fui alfabetizado nessa condição: aprendi a ler e escrever dentro de casa. Até o meu quarto ano primário eu estudei com as minhas irmãs. Quando eu vim para Brasília, já me matriculei no quinto ano. Aí foi que eu fui para uma escola regular, por assim dizer, mas desde a alfabetização até o quarto ano primário eu estudei com as minhas irmãs. Nós chegamos aqui em Brasília no dia 3 de fevereiro de 1970, era um sábado de carnaval. Brasília naquela época era muito diferente do que é hoje, mas já com a estrutura espacial que nós temos hoje. Já havia o Plano Piloto, a catedral, os prédios, os principais monumentos, uns já estavam construídos, outros estavam em construção, e as cidades satélites mais antigas já existiam. Nós chegamos aqui e fomos morar no Gama, que é uma cidade satélite. [Na quinta série], me lembro que eu estudava no que a gente chamava até bem recentemente aqui em Brasília de “horário da fome”. Como não havia escola para a demanda, havia três turnos aula durante o dia: das 7h às 11h, de 11h às 14h e de 14h às 17h. Eu estudava no horário intermediário, entrava às 11h da manhã. No ano seguinte eu fui para uma escola que acabou sendo a escola que eu fiz toda a minha educação básica, que é a principal escola do Gama, escola pública do Gama, a mais famosa, aí estudando de manhã. Mas a partir de 1972 eu passei a estudar à noite. Desde os treze anos eu estudei à noite, sempre, porque precisava trabalhar. Mas nunca parei de estudar. Eu queria fazer Geologia, mas não tinha como. Pensei: “O que eu vou fazer?”. Sempre gostei dessa história de minérios, da natureza, espaços. “Vou fazer Geografia e depois eu viro professor.” Fiz vestibular para Geografia e foi a partir daí que me tornei professor. Logo depois que me formei fiz concurso, deixei os empregos que eu tinha e optei por ser professor. Eu entrei na rede pública em 1986 e assumi com exclusividade o magistério em 1987. Tinha havido a greve de 1986, mas não tive atuação militante porque eu trabalhava, tinha outro emprego. Em 1987, eu entro no processo. Tivemos naquele ano uma greve muito forte, e aí eu já estava exclusivo na rede. Entrei nos movimentos, fazia os piquetes, participava das assembleias, entrei no comando de greve da Ceilândia. Quando terminou a greve, em maio de 1987, eu era uma pessoa relativamente conhecida no movimento, especialmente na cidade de Ceilândia, que é até hoje a maior cidade do Distrito Federal, que tinha o maior número de escolas. Foi a greve de 1987 que me iniciou efetivamente na direção do movimento. Quando foi em 1988, eu fui eleito na assembleia para membro da comissão de negociação, que é uma tradição do nosso sindicato. Então já falava nas assembleias, já fazia parte da comissão que negociava com o governo. E em 1989 houve a eleição do sindicato: naquela época foram três chapas, e eu entrei na que venceu as eleições. Nessa questão da mudança [para a direção colegiada], eu estava no olho do furacão: fui um dos três que defendeu a mudança na assembleia, uma assembleia muito tensa. Na verdade, precisamos colocar isso no contexto histórico. Nós estamos ali no final da década de 1980, o movimento sindical ainda numa ascensão muito forte, que vem do final da década de 1970 com as grandes greves do ABC e a organização da CUT. Queríamos mexer na estrutura sindical e entendíamos que acabar com o presidencialismo dos sindicatos era democratizar efetivamente o sindicato. Depois essas coisas acabaram demonstrando que a realidade não é bem essa, que você não precisa necessariamente criar um colegiado para que o sindicato seja democrático. Mas nós, naquele momento, achávamos o seguinte: num colegiado, horizontalizado as decisões, você dá mais oportunidades a que novas lideranças apareçam, que os debates sejam mais horizontais e, portanto, [propício a] ter uma relação mais próxima com a categoria. O nosso foi o primeiro sindicato, que eu me lembre, que aprovou a direção colegiada. E talvez seja a mais horizontalizada das direções colegiadas que eu conheço no país. Existem desafios muito fortes para o movimento sindical como um todo, no mundo inteiro. Quais são? É entender as mudanças que a produção capitalista promoveu ao longo do final do século XX até agora, os anos 20 do século XXI. Aquele modelo de produção em que um lado tinha um contrato de trabalho, seja na CLT, via carteira profissional, com fundo de garantia, aposentadoria, seja no serviço público a partir de um concurso público, garantindo aposentadoria, direitos etc., esse modelo sofre mudanças enormes do final do século XX para cá. Hoje há milhões e milhões de trabalhadores informais, milhões e milhões de trabalhadores que são chamados, entre aspas, de “empreendedores individuais”, milhões e milhões de trabalhadores que embora estejam no serviço público não são concursados e, portanto, não têm os direitos que os trabalhadores concursados têm. Existe uma mudança para pior, uma mudança muito grande nas relações de trabalho no mundo, especialmente no Brasil. Aí vieram a reforma previdenciária, a reforma trabalhista, os ataques aos sindicatos: tudo isso gera uma situação que o movimento sindical tem que [enfrentar]. Primeiro, tem o grande desafio que é se conectar com esse novo trabalhador – na sua quase totalidade, um trabalhador altamente explorado –, entendendo que esse trabalhador precisa se organizar e ter o apoio do sindicato. Mas entendendo também, como dirigente sindical, que é preciso ter um novo tipo de relação com esse trabalhador, em que o sindicato seja o que eu chamo de sindicato total, isto é, que o sindicato não se preocupe tão somente com salário no fim do mês, mas que ele entenda que o trabalhador também é um ser humano, com todas as suas contradições, que ele tem relações culturais, religiosas, familiares, comunitárias, e que o sindicato precisa entender isso. Esse é o grande desafio do movimento sindical: entender que o mundo mudou para pior, mas mudou, e que, portanto, precisamos entender que esse novo trabalhador não tem o mesmo olhar. No caso do SINPRO, nós avançamos muito com relação às questões de gênero. O nosso sindicato foi o primeiro no Brasil a criar uma política para debater a equidade de gênero, foi o primeiro sindicato a garantir a paridade entre homens e mulheres na sua direção, foi o primeiro a colocar no seu estatuto os debates sobre combate ao racismo, a questão da sexualidade também. Estamos hoje com um grande desafio com relação à juventude, ou seja, como envolver as juventudes no movimento sindical. É um enorme desafio porque muitas vezes as juventudes – que são fruto desse processo de mudanças da produção capitalista, que vem junto do neoliberalismo – acabam muito próximas do individualismo, enfim, do “eu me resolvo”. Portanto, um grande desafio é envolver as novas gerações no sindicato e, obviamente, a defesa da educação pública e do serviço público como um todo. Esse momento de pandemia mostrou duas coisas: primeiro, a pandemia, de um lado, descortinou o mundo injusto que já vinha com exploração, trabalho precário e retirada de direitos. De outro, serviu para mostrar para muita gente que o serviço público é que dá garantia de condições de vida para as pessoas. E isso vai ser o grande desafio para o pós-pandemia: que mundo a gente quer para depois da pandemia? Porque o sistema capitalista, as grandes transnacionais, as big techs, as farmacêuticas, vão querer um mundo em que eles tenham cada vez mais dinheiro e cada vez mais pobreza, mais desigualdade. Investir no serviço público, investir nos direitos dos trabalhadores, investir na educação pública, são os desafios que temos por aí, fora o de se conectar com esse mundo louco em que vivemos.

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