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Desafio gratificante

História de: Iva Galasso Braum
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Nasceu no dia 08 de agosto de 1928, em São Paulo, atualmente é aposentada. Ascendência italiana, seus avôs eram da região de Veneza, Mantova e Sicília. Seu pai tinha uma fábrica de colchão, sua mãe o ajudava. Morou no bairro do Paraíso. Infância era brincar na rua de diversas brincadeiras: corda, guerra de areia, andar de bonde por São Paulo etc. Foi professora por um período e em 1959, entrou na Avon como revendedora e em pouco tempo foi promovida para promotora. Depois foi conselheira de vendas, conselheira de operações de campo, gerente de vendas, gerente de incentivos, gerente de apoio de vendas, gerente regional de vendas. Ao ocupar cargos de grande responsabilidade, foi pioneira na questão da liderança feminina dentro da empresa. Se aposentou em 1988. Casada, tem dois filhos.

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História completa

P/1− Boa tarde, dona Iva!



R − Boa tarde.



P/1 − A senhora poderia começar falando seu nome completo, data e local de nascimento?



R − Iva Galasso Braum, eu sou de 8 de 8 de 1928, nasci em São Paulo, o que mais você me perguntou?



P/1 − O local, você falou.



R − São Paulo.



P/1 − Qual é a sua atividade atual?



R − No momento eu sou aposentada, tenho marido com problema de saúde, então eu sou mais, um pouco enfermeira, um pouco dona de casa e não tenho uma atividade profissional mais, né, minha atividades são sociais e domésticas.



P/1 − E qual é o nome dos seus pais?



R − Meu pai é José Galasso, minha mãe é Rosina Galasso.



P/1 − Qual é a atividade deles?

 

R − Meu pai foi um proprietário de uma fábrica de colchões, casa de móveis, minha mãe o ajudava na fábrica. 



P/2 − Qual é a origem da sua família?



R − Italiana, tanto da parte de pai como de mãe. 



P/1 − E a senhora tem irmãos?



R − Tenho, tenho uma irmã e um irmão falecido.



P/1 − Você sabe qual a região da Itália que era a sua família?



R − Sei, a minha vó materna era de Veneza, meu avô materno era de Mantova e os meu avós paternos da Sicília, gente boa! (Risos).



P/2 − Chegou a conhecer a região?



R − A Sicília não, a Itália sim, viajei duas vezes para Europa, três vezes, mas é que uma eu fiquei só na França, mas a Europa é toda linda, né, então não tem… Eu me identifiquei muito com Veneza, só que eu não entendi bem, se é por causa da velharia, porque sabe que por fora é tudo muito velho, né, novo é só por dentro, se é porque eu tenho origem, que também pode ser, né, a gente se afina. Então, eu não sei bem qual foi o motivo, eu me afinei bastante, me adaptei muito bem lá, eu viveria bem lá. Você conhece Veneza, não conhece, ainda não? Não, mas você tem a vida inteira pra conhecer.



P/2 − Não, mas espero conhecer um dia.



P/1 − E onde a senhora morava na sua infância?



R − Eu morei no Paraíso. Quando eu me casei, vim morar nessa região aqui, eu morei na Cerqueira César e hoje eu moro em Vila Mariana, Vila Clementino, porque Vila Clementino quase ninguém conhece, né, é próximo a Vila Mariana. É um bairro menor, mas é onde tem o Hospital São Paulo, aquilo já se tornou um campus, porque tem muito consultório, muitas casa que o próprio hospital já aluga ou compra pra fazer clínica. Então, aqui você anda na rua, por exemplo, você vê homens e mulheres de avental, sabe, todos já prontos para o trabalho, né, e está se tornando um campus mesmo, mas eu moro lá, nesse local há 51 anos, estou indo pra 52.



P/1 − Voltando pra infância, a senhora falou que morava em Paraíso?



R − Paraíso.



P/1 − Como é que era, a casa, o cotidiano?



R −Minha casa era assim, na frente tinha a loja, nos fundos tinha a fábrica, naquele tempo, não sei se vocês sabem, mas colchão era feito a mão, não tinha esse negócio de fábrica, tudo tão maravilhoso, de molas, não tinha nada disso. Então, a gente convivia muito com esse tipo de trabalho dos meus pais, ele vendia móveis também, então ele tinha uma casa grande na frente, uma fábrica atrás e a minha infância foi de ajudar em casa, de estudar e de brincar muito, brinquei muito, aproveitei muito a infância, eu conseguia conciliar as coisas.



P/1 − E do que a senhora costumava brincar?



R − De tudo, principalmente… Bom, tudo que fosse assim, mais esportivo, mais violento, por exemplo, guerra de areia eu achava ótimo, competição, a gente não tinha bicicleta com duas rodas naquela época, mas qualquer coisa servia pra competir. Então, a gente competia, tinha um jardim perto de casa, então a criançada toda se reunia lá e brincava lá, era assim uma infância bem... Hoje em dia não se vê mais, né, não tem mais condição, mas a criança brincava muito na rua, de pular corda, sempre competindo, sempre arrumando um jeito de aproveitar bastante mesmo.



P/1 − Tinha alguma brincadeira assim que era preferida, que a senhora gostasse mais?



R − Ah, tinha! Eu gostava muito de pular corda, gostava muito de barbol, acho que vocês não conhecem, não é do tempo de vocês, jogava isso também, na escola, né, estudei o primário em grupo escolar.



P/2 − Como era essa brincadeira?



R − Era assim, eram dois times e uma desse time vinha pra cá, aí uma desse time ia pra lá, e jogava-se a bola. Então, o time de cá procurava sempre jogar a bola na mão do de cá e os adversários tentavam tirar, porque se eles tirassem jogavam pro lado de cá. Cada vez que você pegava a bola sem deixar cair no chão, uma desse partido ia para o outro lado. Então, eu jogava horas isso, eu adorava, sempre gostei muito de esporte, então como naquele tempo não frequentava clube, não tinha nada disso, a gente brincava na rua mesmo.



P/1 − Agora, a senhora podia falar um pouco como era São Paulo nessa época?



R − Ah! São Paulo era tranquilo, gostoso, né, você andava na rua sem preocupação, não tinha esse negócio de assalto, você podia falar com qualquer pessoa, ________. Bem, isso, 80 anos ____, bom, 80 anos é exagero porque eu ainda não nasci há 80 anos atrás, né, mas há 70 anos atrás, era muito diferente. São Paulo era tranquilo, São Paulo era muito bom. Eu viajava muito de bonde, né, vários tipos de bondes, ia pra todo lugar de bonde, tinha ônibus também, mas a gente andava mais de bonde, como dizia a minha mãe, era mais barato e muito seguro.



P/1 − E nisso tudo que a senhora falou, tem mais alguma lembrança, algum fato que tenha te marcado?



R − Da minha infância? Nada assim especial, não tem nada especial, foi tudo muito bom. Com muita responsabilidade, porque como meus pais trabalhavam e eu tinha que ajudar bastante, né, fazia todas as compras inclusive, mas foi uma época boa, eu acho que filhos que são criados assim com mais responsabilidade, eu acho que quando eles crescem, eles têm uma cabeça mais amadurecida, ajuda muito na vida, né. Eu não fiz isso com os meus filhos, eu acho que eu errei nesse particular, eu acho que tem botar filho pra trabalhar, tem que ter o lazer dele, mas tem que dá responsabilidade em casa e tudo, né, eu acho que isso é importante.



P/1 − E os estudos? Como foi que a senhora começou estudar, primeira escola?

 

R − Minha primeira escola foi o grupo escolar Rodrigues Alves que vocês conhecem, que é na Avenida Paulista, né, eu estudei lá, e lá que eu jogava muito barbol, eu ia uma hora antes pra eu poder brincar com as crianças. E daí eu fui para um colégio particular, primeiro para um colégio de freiras que eu gostei muito, na Rua Paraíso, eu não sei se vocês conhecem essa região, e logo no primeiro ano eu tive que mudar, porque eu ajudava em casa de manhã e eles mudaram o horário para de manhã. Eu sei que eu chorei muito, mas fui estudar de manhã num outro colégio que foi a minha sorte, porque o outro colégio tinha esporte a vontade e eu pude fazer tudo o que eu queria. Então, eu fazia atletismo, eu jogava basquete, jogava voleibol, fazia tudo que eu podia, né, gostava de mais e aproveitei bastante também, mas aí, foi no colégio Ipiranga e hoje não existe mais.



P/1 − A senhora era boa aluna?



R − Média, nunca fui a última, também nunca fui a primeira.



P/1 − E quais cursos a senhora realizou?



R − Depois eu fiz o normal que é o curso de professora, né, eu fui forçada, porque eu não queria, mas eu sempre de menina dizia que eu queria ser professora, mas depois eu achei que não. Quando eu estava no ginásio, eu ia trabalhar em hospital, porque eu gostava muito disso, enquanto eu estudava no grupo escolar, eu atravessava a rua e ia no Hospital Santa Catarina, que já existia naquela época, e ia visitar as crianças, bater papo com as crianças. Quer dizer, eu tinha uma tendência natural, só que eu não sabia disso, eu só descobri mais tarde quando eu terminei o ginásio, mas aí meu pai não concordou de jeito nenhum, eu ia ficar internada no Hospital das Clínicas, aí ele não concordou. Eu tive que me sujeitar a fazer o curso normal, a lista mesmo, né, então eu estudei na Caetano de Campos, me formei lá, daí já comecei a trabalhar em seguida.



P/1 − E qual foi o seu primeiro emprego?



R − Meu emprego foi numa escola primária na Aclimação, particular, que eu fiquei um ano e aí, nessa metade desse ano, eu comecei a trabalhar na prefeitura também. Então, eu trabalhava de manhã num curso e a tarde n’outro, né, num lugar e a tarde n’outro, e trabalhei num parque infantil 12 anos, até descobrir a Avon. Aí eu larguei o trabalho, era um emprego público, né, que era da prefeitura, eu larguei e me demiti e fui trabalhar na Avon.

P/1 − Como foi que a senhora conheceu a Avon?



R − Avon, ninguém conhecia, nem eu tão pouco, tinha aparecido alguma coisinha no jornal e uma amiga da minha mãe falou: “Olha, tem um negócio assim e assim… ” E como eu sempre gostava, eu trabalhava num período e gostava de fazer alguma coisa num outro, mesmo porque eu precisava financeiramente, então minha mãe me falou, eu falei: “Ah, vou experimentar.” Aí entrei como revendedora. Na primeira semana como revendedora, nós tínhamos, a Avon fazia uma reunião na Avenida Ipiranga, os escritórios eram na Avenida Ipiranga e eu fui nessa reunião e descobri que tinha cargo de promotora, na semana eu me candidatei, e na semana seguinte eu fiz as entrevistas e na outra semana eu comecei o treinamento. Então, foi em agosto que eu entrei como revendedora e primeiro de setembro eu já estava fazendo treinamento como promotora, foi assim, porque era uma coisa nova, né, meu marido mesmo dizia: “Ah, você vai ver, essa firma vai explorar vocês.” Né, como promotoras até que fique bem conhecida e depois vai ter em farmácia, vai ter em drogaria, porque a Avon foi a pioneira em termos de venda direta, não existia, né, esse negócio de bater de porta em porta, então era todo mundo desconfiado do resultado disso, mas foi um sucesso que está até hoje, né.



P/2 − Que ano foi isso?



R − Mil novecentos e cinquenta e nove, eu fui revendedora em agosto de 1959, setembro eu fiz o treinamento e em outubro eu já estava trabalhando.



P/2 − E como foi pra você começar como revendedora? Como foi a primeira vez bater na porta de alguém?



R − Eu não tive muito problema, porque eu já tinha trabalhando em fazer recenseamento, já tinha trabalhado, em pesquisa de mercado eu tinha trabalhado. Eu sempre fui assim meio, como se diz, elétrica. Então, não foi dificuldade nenhuma bater de porta em porta e como não tinha nenhuma revendedora naquela região toda, então a promotora abriu o mapa na minha frente, era assim; eu começava o meu trabalho naquele mês de agosto, então você escolhe, porque é era pra trabalhar por território, tinha mapinha de território, que hoje em dia nem pode mais, né, mas era assim. Então, eu escolhi bem onde eu morava, então eu fazia as casas, tinha muita mãe de criança que eu conhecia, né, e foi assim que eu comecei. Não tive dificuldade de bater de porta em porta, tanto que eu me lembro tanto de uma mulher que mandou o menino dizer que ela não queria nada, eu bati, né, e a mãe lá atrás mandou o filho: “Minha mãe mandou dizer que ela não quer nada.” “Mas como é que ela sabe que não quer nada se ela não sabe o que eu tô vendendo, eu quero falar com ela.” (Risos). Eu era meio insistente, mas tem umas coisas assim, por exemplo, eu vendi um batonzinho no primeiro dia, trabalhei a tarde inteira e só consegui vender um batom para a mãe de um aluninho meu, que chegou de noite e o menino bateu na minha porta: “A minha mãe mandou cancelar aquilo que ela não quer mais o batom.” (Risos). Eu fiquei tão brava, falei: “Bom, tudo bem, amanhã eu não volto pra casa enquanto eu não vender x.” Porque você tem que ser muito, ter objetivo e se persistente, aí deu certo.



P/2 − Quando foi que deu certo?



R − Aí vendi 5 mil reais, fiquei feliz, porque naquele tempo era diferente o dinheiro, né, 5 mil cruzeiros, sei lá, eu não lembro agora. A nossa moeda sofreu tantas mudanças que eu já não sei mais, né, mas seria como vender hoje na semana, porque era por semana, como vender hoje, por exemplo, na semana uns 30 reais, por aí. Mas também um batom, custava quanto, custava, espera aí, deixa ver se eu me lembro, 80 centavos, era uma coisa assim, era muito barato, né, mas tudo é relativo, barato, mas tudo é relativo, né; porque Avon até hoje é um produto que é de alta qualidade, porque eles têm o maior controle de qualidade que existe na América Latina toda, e entretanto o pessoal diz assim: “Ah, Avon. Como quer dizer, não é de boa qualidade, né, mas eles têm um laboratório imenso. Vocês entraram lá? Vocês foram conhecer? 



P/2 − Já.



R − Vocês viram que tem um controle de qualidade mesmo, né, aquelas partidas de creme que eles fazem ficam 40 dias pra ver se não cria nenhum fungo, nenhum problema, antes de ir para colocar nos frascos, né. Então, realmente a Avon é maravilhosa e tem um preço baratíssimo, porque eles ganham pelo volume que vendem, ganham pela quantidade, eu sou fanática por Avon, então não posso falar muito.



P/1 − E como é que foi a primeira impressão que a senhora teve da empresa quando chegou lá?



R − Bom, nós íamos só para o escritório da Avenida Ipiranga, nós fomos só uma vez conhecer a fábrica que era na Avenida João Dias. Então, nós fomos para conhecer a fábrica enquanto estava treinando ainda, foi a única visita que a gente fez, nossa. Achei enorme, achei maravilhosa, tudo automatizada, né, não como é hoje, que mudou muito, mas é claro que eu fiquei bem impressionada; e o escritório era muito bonito, era na Avenida Ipiranga, eles pagavam até o estacionamento do carro, né. Então, a mudança de salário foi uma coisa assim brutal, né, por isso que eu me interessei mesmo, porque eu deixei de trabalhar meio período, quando eu era professora trabalhava meio período, e fui trabalhar o dia inteiro. Aí é diferente, bem mais puxado, mais sacrificado, mas o salário era três, quatro vezes mais, né, não dava pra resistir.



P/1 − E aí de revendedora a senhora foi pra?



R − De revendedora, eu fui pra promotora logo em seguida. Quer dizer, revendedora eu fui duas semanas praticamente, né, daí eu fiz o treinamento e felizmente fui muito bem sucedida e me deram um setor bem no centro da cidade. E foi difícil pra mim, porque eu tinha recém tirado a carta, até hoje eu contei para o taxista que veio conosco, a gente começou a conversar das dificuldades, né, falei pra ele, a primeira vez que eu fui para o centro da cidade, eu fui visitar uma revendedora, porque fui com o nome, fui procurar a pessoa que queria ser revendedora na Rua 25 de Março. Eu larguei meu carro perto do mercado e fui procurar. Quando eu voltei, eu não achava mais onde eu tinha deixado, era uma praça e eu não achava de jeito nenhum, um sol de rachar. Aí peguei um táxi, ele falou: “Pra onde a senhora vai?”  Eu falei: “Eu não vou, eu fico. Eu só quero que o senhor me ajude a achar o meu carro que tá perdido, que eu não acho.” (Risos). Aí ele foi me levando, eu dizia que era uma praça, ele foi me levando em tudo quanto foi praça até achar o carro. Mas foi difícil por causa disso, eu não tinha muita habilidade, né, na direção, mas depois foi tudo bem. Daí eu fiquei só até dezembro, daí eles mudaram o sistema, esse negócio eu não sei onde terminou e eu fui trabalhar na Freguesia do Ó e Brasilândia, que é fim de mundo: tinha nada, inclusive para comer você não tinha aonde, você comia de pé numa padaria ou tomava um leite, ou um refrigerante e um sanduíche de mortadela (risos), porque não tinha nada. Mas depois de lá eu fui trabalhar num setor enorme, que ia da Vila Guarani até Osasco e Presidente Altino, toda aquela faixa, toda aquela parte de trás, era tudo meu e eu fiz aquela região por um bom tempo, mas eu gostava do que eu fazia. Porque eu acho que o importante, trabalho é para o resto da vida, você tem que fazer uma coisa que você gosta, né, e eu amava o que fazia, sabe, então deu tudo certo.



P/1 − E o que mudou no seu cotidiano de revendedora para promotora? Quais eram as suas atividades, especificamente?



R − De revendedora para promotora? Bom, de revendedora, eu trabalhava perto da minha casa, fazia a hora que eu queria, do jeito que eu queria. Como promotora, eu era uma funcionária, né, porque a revendedora é autônoma, ela dispõe do tempo dela do jeito que ela acha melhor. Como promotora eu tinha responsabilidade, eu tinha cota, né, tinha que ter o número x de revendedoras. Eu tinha que, pelo menos, ter uma revendedora a mais por dia, eu tinha que ter, né. Isso eu conseguia, claro, tinha que batalhar, mas eu conseguia e tudo bem, como todas as minhas colegas também, mas foi diferente, mudou completamente a minha vida, né. Tudo o que eu tive na vida, inclusive as minhas promoções, que eu fui promovida muitas vezes, eu sempre reunia toda a família e dizia: “Olha, estão me oferecendo assim e assim, vai acontecer isso assim e assim na família, todo mundo vai colaborar?” Porque tinha a sogra que morava comigo e uma empregada, que era como se fosse da família, né, então se vocês concordam e o marido principalmente é óbvio, se todo mundo concorda, então a gente vai em frente, né, senão… Então, eu sempre fiz assim, porque eu acho que quando você assume uma atividade, um trabalho fora de casa, a estrutura da casa muda, você faz falta, a mulher principalmente faz muita falta em casa. Então, eu ia ter depender de sogra, ia ter que depender de empregada, tinha que depender da compreensão dos filhos, né, embora minha filha tenha se ressentido muito, mas porque ela era muito pequena, mas eu precisava financeiramente, então eu tinha que conciliar, mas deu tudo certo.



P/2 − E quais foram essas promoções que você recebeu?



R − Eu fui promotora, durante os dois primeiros anos, depois eu fui convidada para ser gerente de vendas. Eu não pude aceitar, justamente por causa da minha filha, porque como promotora, eu ainda conseguia almoçar em casa, nem todo dia, mas também eu podia mexer um pouco com o horário, mas como gerente não, né. Tinha gerente que ficava lá escritório na Avenida Ipiranga mesmo, aí eu abri mão, não dava. Então, levei mais cinco anos como promotora e fui convidada mais uma vez e também não deu certo. Na terceira vez eu aceitei, interessou, porque minha filha já estava na escola, ela não ia sentir tanta falta, né. Teve um tempo até que ela pediu para ser uma interna e foi. Aí eu fui trabalhar como conselheira de vendas, mudaram completamente a estrutura, não seria mais gerente e eu fui ser conselheira de vendas. Trabalhei como conselheira de vendas alguns anos, uns dois, três anos, vocês precisam conhecer o __________, né, _____________ veio pra São Paulo, trabalhava em Porto Alegre, ele foi trabalhar em São Paulo e eu fui conselheira de vendas da divisão dele. A gente se entendeu muito bem no trabalho, a gente tinha assim, a mesma cabeça, sabe. Então, foi uma época muito gostosa de trabalhar, porque fica fácil quando você se entende bem com o chefe e então eu trabalhei alguns anos, depois eu fui conselheira de operações de campo. Daí eu fui trabalhar na Avenida João Dias, não trabalhei mais com o João, fui trabalhar com o diretor lá João Dias, fui ser conselheira de operações de campo, que era um trabalho diretamente ligado com as promotoras. Então, toda a comunicação, todas as apresentações de gerentes de vendas era da minha área pra desenvolver, era um trabalho dinâmico, interessante, diversificado. E tinha as conferências de Natal, então eu trouxe muita coisa só de conferência, eu não tenho nenhuma fotografia, eu trabalhando em escritório, eu trabalhei muito em escritório lógico, mas tinha muito disso, por exemplo, a conferência de Natal que acho que vocês já devem saber como é, né, alguém já comentou com vocês? Que é essa reunião grande que eles fazem com todas as promotoras, às vezes, com grupos menores dividindo as regiões e, às vezes, eles reuniam todas, né, aí faz uma conferência maior. Aí eu era responsável pela preparação, pelo que os gerentes de vendas iam apresentar, eu treinava também a apresentação de produtos novos, que não tinha esse negócio de audiovisual, nada disso, era tudo no gogó. Então, tem umas fotografias, eu trouxe com um vestido longo com produtinho na mão, vendendo para as promotoras, porque isso acontece sempre em julho, julho, começo de agosto, que é o lançamento dos produtos que vão ser oferecidos no período de Natal, né. Então, eles fazem uma linha especial e fazem as conferências de Natal que a gente chama, mas que acontece fim de julho, começo de agosto que é para as promotoras conhecerem todas as novidades, se entusiasmarem bastante, por isso eles paparicam bastante as promotoras e é isso que acontece com a conferência. Eu preparava, eu trabalhava nesse serviço, né, então eu montava. Teve uma época que eu nunca me esqueço, porque eles queriam um painel grande, porque a gente montava palco mesmo nos hotéis, né, então eles queriam o palco e mais um painel enorme, que tinha um trabalho lá feito; e tinha um marceneiro que trabalhava nisso e logo depois no almoço eu ia sempre dá uma olhada pra ver como é que estava o trabalho dele. Eu fazia o meu serviço, mas na hora do almoço eu ia lá no galpão dá uma olhada, daí vinha vindo o diretor, falou: “Dona Iva, a senhora precisa ver aquilo, aquele painel não está firme.” Nunca me ocorreu dizer pra ele: “Bom, mas eu não entendo disso, não sou marceneiro, nunca fiz isso na vida.” Não, eu fui lá falei com o rapaz, disse: “Olhe, o senhor vai fazer um favor, faça uma mão francesa.” Sabe o que é mão francesa? Você não sabe? Você também não sabe o que é uma mão francesa? Médio, por exemplo, painel está aqui, né, então você põe uma madeira assim, um triângulo, mas que vai apoiar. Você conhece isso, atrás de, como é que é? Porta-retrato tem, né, hoje diferente, mais modernos, mas tinha isso. Isso é mão francesa, daí mandei, porque todo dia que você desmontava, depois a gente levava para o hotel, depois Sul, depois para o Norte, era o mesmo material, né. Então, tinha que ser desmontado, então eu olhava isso tudo, aprendi tanta coisa, eu não sabia o que era sanca, por exemplo, sanca vocês sabem o que é, né? Você também não sabe? Você sabe? Tato no palco, no palco você faz sanca para apurar a iluminação voltada para o palco. Sanca você põe, na minha casa não tem, mas tem muita casa que tem, minha casa é antiga, aquele gesso que fica assim que as luzes ficam dentro, aquilo chama sanca, né, eu também não sabia. Eu aprendi muito com esse marceneiro que acompanhando, pedindo as coisas, porque os criadores de promoção faziam, né, os artistas bolavam e eu tinha que botar em prática, né, engenheira. E eu que não entendia nada do assunto, mas eu ia fazer compra na Rua Santa Ifigênia, ia procurar onde vendia martelo. Uma vez eles queriam a “vendas”, queria fazer uma apresentação que mostrasse para revendedoras a diferença entre a quantidade de revendedoras e qualidade, que elas tinham que ter quantidade, mas também tinha que ter qualidade. Não podia ser só muita revendedora fraca ou inativa e também não podia ser um pouquinho forte, tinha que ter um equilíbrio disso. E eles queriam duas balanças, porque eram grupos que ia fazer essa apresentação, o gerente ia fazer essa apresentação para promotora, mostrando a importância de um trabalho bem desenvolvido que mantivesse esse equilíbrio. Lá fui eu, não me lembro que parte do mercado eu fui procurar, onde vendia as tais das balanças, caríssimas, feiosas, que ficavam baixinhas, eu falei: “Como é que em cima de uma mesa, ele vai mostrar, se fica tudo baixinho?” Sabe essas balanças de pezinho? Vocês chegaram a conhecer? Vocês são tão novinhos, chegaram? A balança era caríssima, os pezinhos mais caros ainda e feios e não iam fazer efeito nenhum. E eu não me conformava, eles queriam as balanças e eu não achava. Na outra tarde eu saía, largava o trabalho e atrás da balanças: “Aonde é que a senhora vai, dona Iva, traz as balanças.” E eu não achava. Aí eu passo numa casa que vendia bandeiras, mastro de bandeiras, bandeirolinhas e tal, eu olho para aquilo, falei: “Eu vou comprar esse negócio.” Eu comprei duas rodelas, assim, sabe era meio trabalhadas, duas rodelas de madeira, duas bolachonas de madeira com o mastro. Eu comprei, daí eu fui onde vendia as balanças e fui numa casa que vendia os pratos separados e eu comprei os pratos, os dois pratos que eu queria. Aí fui numa loja de ferragem e comprei as correntes e comprei os cabides. Aí eu fui lá no rapaz que trabalhava comigo, um senhor por sinal, na marcenaria, eu falei: “O senhor vai cortar, vai tirar esses cabos das bolachas de madeira e vai cortar de um jeito que fique nessa altura.” Dei a altura pra ele, porque tem aquele biquinho em cima, né, todos esses mastros têm um enfeitinho assim em cima, um acabamento bonitinho: “Aí o senhor fura e bota o cabide daquele tipo, assim simplesinho. O senhor bota bem no meio que ela fique bem equilibrada, daí o senhor pega as correntes, bota três correntes e prenda as bolachas.” Aí ficou uma balança linda! Ele envernizou ficou muito bonita, ficou tão bonita que o diretor durante anos tinha essa balança de decoração na sala dele. Daí os pezinhos, eu fui lá no fundo da embalagem e peguei a caixinha de batom, caixinha de perfuminho de tamanhos diferentes, comprei contact em cores diferentes, cobri tudo, peguei algodão, fui numa casa de caça e comprei chumbinho, porque tinha que ter igual, contei os chumbinhos; então eu punha tantos chumbinhos nesse, tantos nesses, enrolados no algodão para não fazer aquele barulho chacoalhando lá dentro. Ficou bonitinho, eles fizeram uma apresentação linda, eu fiquei feliz da vida, porque tudo deu certo, mas era assim, eles criavam as coisas e a gente tinha que botar em prática de algum jeito. Então, aí tinha que usar a criatividade, pesquisar. Uma vez queriam um termômetro desse tamanho, toca eu a inventar um termômetro com uma fitinha que eles puxavam atrás, então subia e lá estava imitando o mercúrio, né. Então, coisas que a gente fazia e eram gostosas, como vocês que têm um trabalho diversificado e é gostoso. Então, eu tinha um período longo que eu trabalhava com as promotoras e com gerentes e tudo, né, e tinha esse período de criação, de criatividade e a gente fazia muito disso. Por exemplo, teve uma vez que eu tive que fazer uma cortina enorme, enorme de palco que pudesse transportar e eu inventei que a cortina tinha que subir desse jeito, sabe, essas cortinas que ficam assim, ficava lindo! E como é que ia subir isso? Porque era assim, quando era período de Natal, nós tínhamos uma reunião por semana com o presidente e ele queria saber de cada um quem era responsável por alguma coisa e como é que estava o andamento, né; porque senão a coisa não sai, deve ser muito parecido com o trabalho como trabalho de vocês, né. A gente tem uma tarefa e tem que cumprir no prazo e eu queria essa cortina, mas eu não queria uma cortina que abre assim, queria uma cortina que sobe só, que eu não tinha máquina, não tinha nada, dinheiro era curto, a gente tinha que estudar como é que a gente ia fazer isso. E numa reunião e outra, e outra eu não tinha descoberto um jeito ainda, eu pensei: eu já sei como é que a gente vai fazer. A gente compra o tecido, de acordo e tal, eu ia na 25 e comprava, arrumava costureira pra fazer tudo, daí a gente bota fileirinhas de argolinhas a cada x, né, depois amarro as cordinhas nessas primeiras que passam tudo por dentro numa roldana, por que é que eu falei esse nome? Porque era apelido da madame Roldana, porque vai tudo numa roldana, junto tudo. Alguém lá atrás puxa, sobe tudo bonitinho. Vamos fazer um teste, fizemos o teste, deu certinho e nós tivemos, nós compramos um tecido verde-água brilhante assim, bem bonito e fizemos. Então, tinha isso e era tudo muito bom, sabe, a gente tinha desafios. Desafio é muito bom no trabalho, né, porque deixa a gente mais e mexe com a adrenalina. É bom, fica mais animada, então assim que eu achei que esse período na Avon, tudo o que eu fiz foi muito bom, porque depois disso eu passei para gerente de vendas, aí já não tinha mais história de… Aí trabalhava com as promotoras, com essa Albertina que vai vir aí, naquele tempo ela também foi promotora como muitas outras. Então, cada gerente de vendas tinha 25, 27 promotoras e tinha que desenvolver as vendas de um determinado setor, né. Cada um tinha seu setor, aliás, cada promotora tinha um setor e cada gerente tinha uma divisão, né, com as sua 25 e 27 promotoras, então trabalhei um tempo nisso também. Depois eu fui transferida para gerente de incentivos que eu gostei muito, pelo seguinte, porque como gerente de vendas, você não trabalha em vendas. Você trabalha muito, você viaja muito, viajei muito, entrei como gerente de vendas, a minha região pegava norte do Paraná, centro de São Paulo, Mato Grosso inteiro, que não era dividido como é hoje, depois eu fui abrir Rondônia, naquele tempo Rondônia era território, fui abrir Rondônia. Então, é um serviço bem pesado, né, e tinha que viajar isso tudo. Tanto que quando eu ia pra Campo Grande, por exemplo, eu tomava um avião aqui e chegava às oito horas, tomava às oito horas e chegava às oito horas lá, porque a diferença de fuso horário é de uma hora, né. Então, eu jogava minha mala dentro do carro da promotora que já estava me esperando e a gente já ia trabalhar direto, porque o trabalho do gerente de vendas é acompanhar a promotora no seu trabalho pra ver como é que ela está desenvolvendo o trabalho dela, como é que ela orienta as revendedoras e depois tem o trabalho interno de administração do trabalho dela, que o gerente também tem que acompanhar e orientar. Vocês estão ficando cansados, eu tô falando demais, né?



P/1 e P/2 − Imagina, prossiga.



R − Então, era isso que eu fazia, né, como gerente de vendas. Depois o João pediu, João vocês sabem quem é, né, João pediu que eu fosse trabalhar em incentivos. Incentivos era o seguinte: eu tinha cinco americanas, eu falava mal, aliás, eu falo mal até hoje inglês, eu tinha cinco americanas dos Estados Unidos que eu tinha que ficar respondendo, eu respondia pra elas direto. Daí já nem, eu tinha meu gerente na firma, que era o gerente de promoção, de marketing, do departamento de marketing, mas eu quase não me reportava a ele, me reportava a essas cincos mulheres. Elas eram maravilhosas, elas tinham umas ideias geniais, sabe, muito boas, elas eram todas jovens e tinham terminado a faculdade e não conheciam o Brasil. Então, elas vinham com umas ideias, sabe, que não dava para aplicar de jeito nenhum e para convencê-las a mudar era trabalhoso, porque eu tinha que pegar, arrumar o que elas tinham sugerido, levar em reuniões, ouvir as revendedoras, depois vender a minha ideia para elas, né, mas foi bom, foi desafiante. E me fez conhecer muito bem o funcionamento da fábrica que eu não conhecia, porque vendas é meio isolado, você no campo, como eu falei pra você, eu viajava muito, você está no campo, você tem contato com seus colegas das outras áreas de papo, você não tem conhecimento de como funciona o trabalho do demais, né. Então, quando eu saí de vendas eu falei: “Eu estou saindo de vendas para ir para um departamento que eu vou trabalhar para vendas.” Porque eu tinha que fazer programas de incentivos muito bons, com prêmios muito bons, que atraíssem as revendedoras. Nos folhetos, eu tinha que olhar folheto, acompanhava o trabalho dos artistas que faziam os folhetos para que fossem atraentes para que realmente a gente pudesse vender mais. Quer dizer, o objetivo era sempre o mesmo, né, crescer as vendas. A sorte para eu fazer esse trabalho tinha que ter contato com todo mundo, com todos os departamentos, eu dependia de todos os outros departamentos: eu dependia de compras, tinha que comprar aquilo que eu tava querendo, tinha que comparar as amostras que expunha para o grupo de vendas pra ver o que eles achavam melhor, né. Tanto eu tinha que fazer isso, eu tinha que ter contato com todo o pessoal de, naquele tempo era SPD [?], que ia fazer os relatórios pra mim, porque eram programas complicados, a gente dependia deles fazerem o relatório de acordo com o que a gente precisava, né, então eu dependia deles. Eu dependia da expedição pra ver se comportava, se tinha lugar pra pôr aquele tipo de prenda, que eu estava comprando por causa do tamanho, e como é que ia ser transportado, então entrava até o transporte. Então, eu tinha uma ligação com todos os departamentos. Então, eu aprendi muito nesse cargo, porque eu tive oportunidade e dependia deles, tem que saber lidar, porque senão você não consegue nada. Ainda mais, que tinha saído um gerente homem e eu entrei como mulher, mulher era considerada chata, é verdade. Quando eu fui gerente de vendas, porque eu fui a primeira gerente de vendas depois de um longo período, porque a primeira que entrou não ficou, saiu, veio o João e acabou, então depois só teve, homem, homem, sempre homem. Quando o diretor resolveu me promover para gerente de vendas, eu me lembro tanto dos rostos deles, porque eles estavam todos reunidos numa (estafe?) e ele falou: “Agora, vou apresentar pra vocês o novo gerente de vendas.” E eu entrei. Um deles pediu demissão, falou que tinha sido depreciado o cargo de gerente de vendas (risos). Eu tinha esquecido o nome dele e agora me lembrei, eu estava falando isso com Albertina noutro dia e ela deu um nome, Carma, depois eu vou falar pra ela. Um rapaz chamado Carma, um rapaz moreno bonito por sinal, aliás, os gerentes eram todos bonitos. O meu problema era fazer charme para promotoras, né, porque sai um homem e entra uma mulher pra dirigir o grupo, então muda muito. Aquilo que um homem consegue conversando e dizendo como: “Você, a senhora tá bonita”, “Cortou o cabelo, dona fulana”, daí ela vai estar mais disposta a fazer o trabalho que ele tá pedindo. Que foi? Tô falando besteira ou não, vocês concordam? Não é assim? É humano isso, isso não é nem feio, nem errado, isso é humano, tanto que eu me lembro que uma das primeiras reuniões em que eu estive com todos os gerentes, o presidente que naquele tempo não era o João, ele perguntou: “Dona Iva, como é que a senhora está sentindo como gerente de vendas?” Falei: “Ah, tô me sentindo muito bem!” Alguns gerentes estava me ensinando algumas coisas erradas no começo, né, depois ficaram todos muito amigos, deu tudo muito certo, mas no começo eu tive algumas dificuldades, mas eu não falava pra ninguém, ficava bem quietinha, porque senão ele ia falar: “Tá vendo, mulher é chata, mulher tudo, tá ruim.” E eu achava que eu tinha dá certo, porque se eu não desse certo, outras mulheres não teriam chances, eles estavam fazendo um teste, então eu falava para o João, para o João eu falava, que eu tinha mais liberdade, naquele tempo eu chamava ele de seu João, eu dizia: “Olha João, se eu não der certo, não quer dizer que uma mulher não possa fazer esse trabalho. A Iva não serviu para esse trabalho, não tem nada a ver que uma mulher não podia.” Porque o comentário era esse: “Ah, uma mulher viajar desse jeito, mulher não serve para esse tipo de trabalho.” Foi isso que gerente falou pra mim, quando eu fui promovida: “Você não vai aguentar, você não serve pra isso, mulher não serve.” Então, eu queria provar que mulher servia, porque eu não queria, hoje tem até mulher presidente, tinha, né, saiu, agora não tem mais, mas já teve. Mulher diretora tem várias, né, diretoras. Então, pra mim foi assim, foi um desafio que eu tinha que vencer que não era só pra mim, claro que eu queria ter sucesso, mas eu queria também que as outras mulheres pudessem ter. Quando uma outra mulher foi convidada, João me perguntou: “Iva, vou convidar fulana de tal para ser gerente e o que você acha?” “Eu acho maravilhoso.” Que alívio, dei certo, porque se não teria outra mulher, depois foi tendo outras e outras e outras. Quando eu fui promovida e fui com as promotoras e elas só tinham tido gerentes homens até então, depois que eu fiz o primeiro contato que a gente estudou, nós tínhamos, cada três meses, contato com todas, além de acompanhar em campo. Tinha um trabalho que nós chamávamos de PP, era planejando para o progresso. Então o que é que a gente fazia? A gente sentava com a promotora, por exemplo, promotor de interior era bem mais trabalhoso, eu abria aquele mapão lá em Mato Grosso, por exemplo, eu conheço Mato Grosso muito bem, pelo mapa, eu não viajei aquilo tudo, mas tenho o mapa na cabeça, né. Então, a gente dizia: “Quantos vendedores você tem aqui?” “Aqui vai dá para pôr revendedor.” Então, a gente trabalhava junto e fazia um planejamento, quantas revendedoras e quanto de vendas por campanha, cada campanha durava três semanas, durava, né, hoje eu não sei, três semanas e era isso que a gente fazia com a promotora. Quando eu fui, os meus contatos que eu tive foi no norte do Paraná, né, quando eu fui obter os meus contatos, isso foi em Londrina, ainda com a primeira promotora. Quando terminou ela falou: “Ai dona Iva, que bom.” Eu falei: “Que bom.” Porque: “Ah, eu já achei que a senhora ia vir aqui e já ia querer que eu fizesse caderninho com florzinha.” Era a imagem que a mulher tinha de ser muito de, sabe, cheia de… Vamos logo para os finalmente, porque meu negócio era vendas. A gente tinha que produzir, tinha que crescer, é o que a companhia espera, né. Então, essa imagem que a mulher é difícil, que a mulher é complicada, eu tinha que quebrar esses tabus com as outras áreas, porque nunca tinha tido mulher nessa, no incentivo sempre foi homem também, tanto que eu fui a primeira mulher em incentivos também. Então, por exemplo, SPD dizia: “Olha, eu queria um programa assim e assim e precisaria fazer assim e assim.” “Ah, não vai dá, isso não tem condições.” Eu não conhecia, imagine, naquela época, conhecer computador e o que o computador pode, tem condições de fazer, eu não tinha a menor a ideia. Se dissesse: “Isso não pode.” Era não pode, já esfriava meu entusiasmo, porque era um programa que eu não ia conseguir fazer, porque o computador é que põe lá todos e controla os pontos das revendedoras, faz o levantamento das que conquistaram e que não conquistaram e isso vai para um computador de novo pra quando mandar o pedido delas, tem que mandar o pedido junto, né. Então, que eles diziam “não”, era não. Eu falei: “Eu não posso continuar assim, eles tem que confiar em mim.” E realmente eu consegui, graças a Deus, essa dificuldade eu nunca tive, de relacionamento, sabe, às vezes, era um pouco difícil no começo, porque a gente não se conhecia direito, mas eu amei esse trabalho, porque eu pude conhecer todos os departamentos e deu certo. Aí, o João me convidou, ah quando eu estava em incentivos aconteceu uma coisa muito interessante. Tinha, eu não sei se hoje ainda tem, tinha naquela época umas reuniões nos Estados Unidos. Porque eu fui desenvolvendo um pouco o meu inglês por ter contato com elas, eu tinha que mandar relatórios, né, e cada uma cuidava de uma área, porque tem incentivo para revendedora, incentivo para promotora, tem uma série de coisas lá. Então, eram cinco, cada uma numa área diferente e eu me reportava para as cinco, aí cada quatro meses eles faziam uma reunião nos Estados Unidos e ia sempre um diretor de marketing pra essa reunião, ia também todos os países latinos, então ia a Espanha, a Argentina, enfim os países que já estava trabalhando se reuniam todos lá, porque eram os que falavam em espanhol, só que tinha que falar inglês também. Então, se reunia com os americanos de lá que eles já tinham montado as campanhas como elas iam ser e os incentivos, tudo. Então, a gente ia pra dizer se estava bom pra gente, tinha alguns trabalhos de grupo, né, e eu fui. O diretor não pôde ir e o João disse: “Vá você, Iva, no lugar dele.” Falei: “ “Ah, meu Deus, nunca fui, meu inglês é uma lástima, catastrófico e o que é que eu vou fazer lá.” Aí fui falar com o meu diretor, falei: “Escuta, como é que a gente se comporta nesse tipo de reunião?” “Ah, Iva, você, eu vou te dá um conselho: você não fala o que você acha, você fala ‘Olha, é a primeira vez que eu estou aqui, eu vim mais pra conhecer e pra me adaptar’. Então, você procura não dá muito palpite.” Tá bom, não gostei da resposta dele, eu vou fazer uma viagem dessa pra chegar lá e não abrir a boca? Aí fui no João, disse: “João, aconteceu assim e assim, eu fui falar com Eudes e ele falou isso que eu não gostei, como é que eu tenho que me comportar?”, “Iva, você vai ser você, você chega lá, ouça e fala o que você acha que você tem que falar.” Isso que eu gostava nele, ele confiava, sabe, porque ou você confia nos seus funcionários ou você não confia, então mandam eles embora (risos), que é preferível, tem gente que você não confia, né. Aí eu fui mais tranquila, né. Cheguei, realmente teve um problema sério lá que eu não ia ter um determinado incentivo para o Brasil, que eu achava super importante, que se nós não tivéssemos, era um pra… Porque aqui no Brasil, nas férias em dezembro, as revendedoras baixam a bola, né, então estão cansadas, venderam muito para o Natal, querem descansar. Então, você tem sempre que ter um incentivo interessante que faça com que pelo menos ela emita um pedido pequeno para que ela receba os folhetos e as promoções e continue trabalhando, quer dizer, manter ativa que a gente chama. Se a gente não tem nada, uma cenourinha para atrair, o que acontece? Elas simplesmente: “Ah, vou tirar férias.” E, às vezes, não fica conhecendo o material da campanha seguinte, porque vai na caixa com os produtos e daí ela perde o entusiasmo e a gente perde a revendedora. E eu não queria que isso acontecesse no Brasil e eles não iam oferecer isso, eles iam mandar um cartão de Natal para aquelas revendedoras mais antigas, as novas, então, não iam receber nada. E quando foi a reunião lá como os americanos que estava eu e mais alguém e os americanos, que todo o trabalho de grupo era sempre feito tendo algum líder americano, né, quando eu falei que isso era importante: “Iva, não abra a boca pra falar isso, porque o diretor não quer nem ouvir, você vai mexer num vespeiro se você falar.” Eu falei: “Tá bom, então você não me falou nada, eu não escutei porque eu vou falar.” Aí chegou, era assim, primeiro o trabalho em grupo, depois reuniam todos, eles diziam: “Isso vai ser assim e assim.” Apresentava tudo lá: “E você, o que você achou?” “Ah, eu achei isso e isso.” Cada um falava do seu país: o que era bom, o que não era muito bom. Quando chegou na minha vez, eu falei: “Esse tá bom, esse tá bom e esse não tá bom, porque nós precisamos desse incentivo, assim e assim.” E falei, falei com dificuldade, quando ficava com dificuldade, eu dizia: “Me ajudem.” Alguém sempre acaba ajudando, né (risos). Aí ele falou, silêncio total, ninguém abriu a boca, ficou um silêncio. Depois começaram com outros assuntos, ninguém falou nada, ficou por isso mesmo. Aí eu voltei pra São Paulo, tive que fazer a parte do meu trabalho, fazer um relatório do que eu tinha achado deste trabalho lá com eles, né, então eu fiz o relatório todo e pus esse assunto, com cópia para o João, com cópia para o diretor, para eles lá, não aconteceu nada. Aí eu me comunicando com elas: “Precisamos de qualquer jeito falar com o meu diretor.” “Não, Iva, se elas dizem que não tem, que não vai ter, e se o ______, ele também diz que não vai ter, então paciência.” Eu falei: “Mas não pode, eu vou procurar uma promoção.” E já está desenvolvendo cartão de Natal, vai ser cartão de Natal, vai ser cartão de Natal. Eu falei: “Não pode, vai ter uma queda de vendas, vai ser péssimo pra empresa.” Bom, quando eu não consegui nada, veio uma americana, de tanto insistir, veio uma americana para o Brasil, ficou uma semana aqui comigo, acompanhando meu trabalho e conversando, e eu assistindo esse negócio. Ela foi embora, fez um relatório e veio a resposta: “Não.” Daí, eu fui falar com o João, falei: “João, não tenho mais com quem falar. Tá acontecendo isso e isso, nós vamos perder vendas.” Ele pegou na hora, eu adorava trabalhar com ele, ele pegou na hora o telefone, ligou pra esse tal de (stool?) e, naturalmente, ele falou, que não, que não era bem assim e não sei o quê. E eles conversaram lá e nós tivemos um prêmio, foi um sucesso, porque o Roberto Carlos estava assim no auge, né, e ele ia fazer uma conferência de Natal e a surpresa pra elas, ele ia cantar pra nós. Ele foi contratado para se apresentar para as promotoras e daí nós fizemos um disquinho com músicas dele, um pouquinho menor, né, especialmente para as revendedoras que mandassem pedidos ia conseguir, falei: “Bom, acabou a Iva para os americanos, morreu.” Passa um ano e vem o João na minha sala, ele ia visitar a gente, não só a mim, como aos outros também, ele tinha muito disso, chama-se de ________________, né, quer dizer, vai andando e conhecendo todos, ele fazia muito isso, ele entrou: “Iva, eu tenho uma novidade pra você.” Eu falei: “O que aconteceu?” “Recebi um telegrama e querem que você vá na próxima reunião para os Estados Unidos.”(Risos). Eu me senti a rainha da cocada preta, né, falei: “Mas que bom!” Ele disse “É, mas você não vai.” “Mas por quê?” “Porque eu vou transferir você.” E aí, eu mudei outra vez de cargo: “Você vai ser gerente de apoio de vendas.” Que era um trabalho, né, que fazia diretamente ligado com o diretor de vendas. Daí, eu não fui essa segunda vez, mas fiquei muito feliz do mesmo jeito, que eu me senti assim super realizada, eu pensei que ele tivesse colocado meu nome no livrinho negro deles, né, mas não foi. Mas isso foram delas, porque as meninas devem ter gostado, sabe, elas que devem ter feito força para eu ir, as que trabalhavam comigo, mas foi assim, valeu também. Daí eu fui pra essa outra área, trabalhei uns dois anos nessa gerência de apoio de vendas, que é um trabalho diretamente ligado com o diretor, né; e depois eu fui promovida para gerente regional de vendas, então eu era responsável por metade do Brasil e tinha outra pessoa que era responsável pela outra metade. Daí, eu trabalhava diretamente com os gerentes de vendas, né. A Albertina nunca foi minha gerente, dentro do meu grupo, né, mas sempre muito amigas, a gente sempre foi muita amiga. Então, foi isso, até eu sair, eu estava como gerente regional de vendas, eu gostei, mas sempre estava metida nas conferências de Natal. Teve um período nesse trabalho que eu fiz, não de regional, né, que aí já era muita responsabilidade, era diferente, mas no apoio de vendas eu fiz um trabalho que era, eu gostava dessas coisas diferentes, né, que agitam a vida da gente; nós íamos ter uma promoção para promotora, que era uma viagem para Espanha. E nós tínhamos decidido naquelas reuniões que a gente fazia, né, a gente fazia para campanha de Natal, que os gerentes iam dar uma surpresa para os promotores. Durante a conferência ia ter um show e os gerentes iam dançar uma música espanhola, quer dizer, elas iam fazer aquilo e quando iam ver eram as gerentes delas vestidas de espanhola e os homens, né, de espanhol obviamente. Ah, eu fui, procurei uma professora de dança para eu poder conseguir os passos e fazer a coreografia. Foi ela que me deu, uma espanhola mesmo, como é que eu tinha que fazer os vestidos, ela me mostrou o vestido dela. Fui pra 25 de março de novo, comprei aquelas de fundo branco com bola vermelha (não sei se Albertina trouxe algum, eu não trouxe, mas é muito bonito), vestido vermelho com bola branco, com bola azul. Cada uma fez vestido, foram todas na costureira, elas foram lê, tiraram as medidas, ficaram lindas, pena que eu não trouxe aquela foto pra vocês verem, eu devia trazido; e eles com um lenço aqui, né, com calça preta, blusa bem bufante. Fui lá comprei as castanholas, claro que nós não podíamos fazer aquele movimento, porque castanholas tem que fazer assim e é difícil pegar, né, mas elas pelo menos batiam. Ensaiei todas elas, bonitinhas e ficou lindo no quadro, mas eu não trouxe a fotografia, queria que vocês vissem! Isso eu fiz quando estava no apoio de vendas, né, depois passei para regional e fiquei em regional até sair. Depois eu saí da Avon, porque eu quis, porque a companhia estava oferecendo um pacote muito interessante, modéstia à parte, viu. Mas eu não posso deixar de falar que foi, porque eu quis mesmo, porque a companhia estava oferecendo vantagens muito grandes pra quem estava reduzindo os funcionários. Então, um grupo ia ser demitido mesmo, né, coisas que acontecem em firmas grandes, de vez em quando, eu chamo de expurgo (risos), eles mandam embora aqueles que acham que não estão correspondendo e aqueles que querem se aposentar. Eu já estava aposentada há mais de seis anos, já estava aposentada, mas eu continuei trabalhando. Fui lá assinei a papelada e voltei a trabalhar direto, então já estava na hora de parar mesmo, eu estava com 60 anos, falei: “Não, eu vou aproveitar esse pacote.” Eles não queriam, queriam que eu ficasse mais dois anos, eu falei: “Só fico se o que eles estão oferecendo hoje me for oferecido daqui dois anos.” Porque eu ia sair com o carro, que a companhia dava carro, né, eu disse que se não me oferecerem as mesmas coisas, eu vou perder dinheiro, não vale a pena, né, tô cansada. Eu viajava muito, eu tô cansada, ele telefonou, mas não deu certo, eles não concordaram, os americanos não concordaram e eu saí em 1988, foi em agosto de 1988, exatamente 20 anos agora, mas foi essa a minha história na Avon. Você ia perguntar alguma coisa, que ela pediu pra você perguntar.



P/2 − Você disse que foi gerente de incentivo, né, eu queria saber assim, mais ou menos, quais eram os prêmios que vocês davam na época? Como é que eram essas promoções?



R − Ah, os prêmios, dependendo da época, porque, por exemplo, existem prêmios que se dá para revendedora. Ela vendeu x, né, ela ganha isso. Se ela vendeu um pouco mais, ela ganha aquele outro ou coisas melhores, entende. Se ela indicou, né, mas essa indicação era de vendas, não era da minha área, então eu ficava mais na área para promover vendas mesmo, então é sempre assim, vale ponto. Então, é por isso que sempre precisa muito de computação, vale pontos, vai somando os pontos, porque, às vezes, é de uma campanha, às vezes, são de três campanhas, então vão somando, daí são prêmios melhores. Então, tem de tudo, muita coisa pra casa que é o que a mulher mais gosta: então é cobertor, é geladeira, tinha uma época que tinha geladeira, é tudo coisa desse nível, é batedeira, liquidificador, os eletrodomésticos de uma maneira geral, panelas elas adoram, né. Então, é tudo coisa mais pra casa. Eu fiz durante aquela época um de vestido, falei: “Vamos mudar um pouco, vamos inventar uns vestidos.” Aí mandei fazer uns vestidos pretos, bonitos, saiu bem, mas não saíram tão bem, não foi tão atraente pra elas quanto eram sempre tudo que era pra casa. Então, a gente expunha muito dessa forma, procurava diversificar, procurava encontrar coisas bonitas, né, mas dentro da verba que a gente tinha, mas foi sempre assim, depois, e sobrava muito prêmio, sabe e ficava na expedição. Depois que eu saí da Avon, o João me chamou que ele queria que eu desenvolvesse um programa dentro da Avon para mais dessa ligação de companhia e revendedora, companhia e promotora, sabe, como é que estava esse relacionamento, empresa, quer dizer, funcionários e o pessoal de fora, né, e os que trabalham lá no campo. E eu entrei, porque isso foram uns dois meses depois que eles fizeram uma limpeza, nessa saída, e eu voltei a trabalhar para Avon como contratada. Aí desenvolvi esse trabalho, só que eu percebi que o pessoal tá muito pra baixo, os funcionários estavam meio assim sem estímulo, porque tinham saído muita gente: “Será que isso vai continuar?” Um pensamento normal de funcionário, né, daí eu fui falar com o João, falei: “Isso não tá legal, acho melhor a gente mudar o plano.” Aí eu comecei a consultar como os funcionários estavam se sentindo, então eu fazia entrevista: “Como é que você está se sentindo?” Numa boa, às vezes, até no café, sabe, aí eu fui sentindo, o clima não estava legal, então se o clima da firma não está legal, como você vai estar bem para se relacionar bem com os de fora? Vai tratar bem a revendedora? Não vai, como eu não tô contente, vai de qualquer jeito, né. Aí eu comecei a perceber que eles não recebiam elogio: “Ah, porque aqui fulano não vem, meu chefe só cobra, só pressiona.” Aí fui no chefe deles, aí comecei a fazer isso, eu ia no chefe, dizia: “Você elogia teus funcionários? Porque os funcionários estão dizendo que você só cobra.” “Então, eu só cobro mesmo.” Era Emanuel o nome dele: “Só cobro mesmo, o meu diretor só me cobra, pensa que ele vem me elogiar? Só cobra.” E eu ia no diretor: “Tá acontecendo isso e isso.” Então, eu fui falando com tudo e com todos, sabe, até chegar lá em cima, porque não adianta você falar só com dois ou três, você tem que… Aí, eu fiz uma campanha, eu pedi para o João se ele me dava todos aqueles prêmios que estavam encostados lá, tinha fogão, televisor, tinha de tudo, todos os níveis, todos os preços. Ele me deu, eu fui na fábrica e peguei uns pallets, você sabe o que são pallets? Aqueles estrados que a gente bota as caixas em cima para não molhar, não ficar úmido, né, eu pedi uns pallets daqueles, pus tudo num canto, arrumei um pedaço lá do refeitório do restaurante, pus os pallets, fui procurar aquelas cortinas, as que tinham servido no século passado. porque não tinha uma só, né, tinham várias porque todo ano tinha que ser uma coisa diferente, pus em cima, cobri e botei todos os prêmios lá, todos eles. Falei que ia ter um programa e falei que eles iam ganhar aqueles prêmios e o programa era o seguinte, eu fiz uma pergunta: “Quem é a revendedora para você?” Todos os funcionários receberam essa pergunta e um impresso, um modelito impresso para eles responderem com poucas palavras, todos responderam, porque estavam interessados, porque senão tivesse aqueles prêmios lá ninguém ia me responder nada. Todos responderam, aí eu peguei um funcionário de cada departamento pra fazer um comitê de avaliação das respostas e esse comitê é que foi escolhendo quais eram as melhores respostas. Daí chegamos, pus auditoria metida nisso, porque negócio de prêmio sempre tem aquele que diz: “Não, protegeu Fulano. Fulano ganhou porque ela ajudou.” Sabe, então botei auditoria também para acompanhar as reuniões. Aí, o que nós fizemos? Os 40 melhores eu pus lá, escrevi todos os 40 melhores e deixei no restaurante para cada um escolher no máximo três que eles gostassem mais das respostas. Daí cada um escolheu, daí esse comitê escolheu as dez melhores, porque esses 40, porque eu tinha 40 prêmios, eles foram sorteados e eles foram, escolheram os prêmios e ganharam; e desses 40 saíram as dez melhores respostas mais votadas. E nós fizemos quadros e espalhamos pela companhia: Quem era a revendedora para você? Aí mudou o relacionamento com as revendedoras, foi uma maneira que eu encontrei de fazer com que isso que o João queria se alcançasse por um outro caminho, né, pronto falei demais! (Risos). Acabou?



P/1 e P/2 − Não, imagina!



P/1 − Bom, a senhora falou de vários desafios, né, que você enfrentou na Avon, mas e as alegrias?



R − Ah, foram muitas! Sabe, quando você trabalha numa coisa que você gosta, eu não vou dizer que eu tenha feito, porque eu não participei de concursos. Quando eu trabalhei como revendedora, como promotora, sabe qual era o prêmio? Uma tacinha no almoço, por sinal eu ganhei uma que nem existe mais, porque caiu alça não sei o que e eu joguei. Era uma coisa muito barata, porque vendia, eram poucas, o lucro era pouco para eles investirem, então não dava para grandes prêmios, então tinha coisa simples. Depois quando eu passei para promotora não tinha essas viagens maravilhosas que depois começaram a ter. Quando o retorno compensava, porque a companhia não vai oferecer para um grupo de promotoras que não cobriu nem o seu setor, nem nada, não tá vendendo o suficiente para que o lucro permita que você ofereça uma viagem para Europa, por exemplo. Então no meu tempo não tinha isso e no meu tempo como gerente também não. Então eu não peguei tanto assim, né, também não vou dizer que eu tenha sempre os primeiros lugares, absolutamente, não foi isso, mas, de qualquer maneira, não tinha isso, esse tipo de incentivo que atrai muito. A promotora, ela faz tudo o que ela pode e o que não pode, ela trabalha dia e noite se for o caso pra ganhar uma viagem dessa, tudo num hotel cinco estrela, tudo pago pela companhia, você não bota a mão no bolso pra nada. Claro que você vai querer, né, então elas realmente se esforçam e os gerentes também quando tem esse prêmios, que também nós tivemos muitos, né. Eu não era mais gerente, mas tivemos muitos, eles também lutam, como vocês lutariam, qualquer um luta. Você falou que você ainda não foi para Europa, né, então se surgisse no seu trabalho um incentivo desse, vai trabalhar de sol a sol pra conseguir, né. Então, eu não tive isso, mas eu tive muito reconhecimento de todos, do João, nossa, pena que muita coisa eu tive que me desfazer, você fica com muito papel, muita coisa e tem que se desfazer, né; mas quantas cartas, desde o começo, sabe, isso motiva muito a pessoa, muito elogio, essas cartas de reconhecimento do meu diretor. Até hoje a gente se corresponde, ele mora em Portugal, um diretor que eu tinha se chama Gastão, que o João também se comunica com ele. Nossa, como isso foi bom, né, foi gratificante demais e as amizades com os colegas, as amizades com o seu grupo, viram essa promotora que saiu? Vocês estavam lá fora? Né, ela foi promotora da Albertina, eu era gerente já nessa época, ela foi promotora da Albertina, eu a conheci. Sabe, essa alegria, né, a gente conhecer essa gente e ter essa amizade, foi muito bom. O trabalho é muito puxado, porque você é pressionada, vendas é pressão, você tá sempre competindo e isso eles fazem de propósito, quer dizer, o gerente faz com que as suas promotoras, as promotoras fazem com que a suas revendedoras que não são empregadas, são autônomas, né, mas elas também têm vantagens, elas, além dos prêmios todos, elas têm um almoço, que também era eu que escolhia esses prêmios quando eu fui gerente de incentivos, são os almoços para as melhores revendedoras de cada setor. As 15 melhores, elas ganham os prêmios assim, geladeira, fogão, tudo coisa cara, vai outros mais simples também, mas as 15 melhores ganham prêmios muito bons, além de uma estatueta que vocês devem conhecer da Miss Albee, né, que agora são lindíssimas. Eu tenho, eu tenho a minha primeira, devia ter trazido, porque eu tenho a primeira, quando começou, eu estava em incentivos e eu que inclusive fui lá, porque quem faz isso é a Cerâmica _____, os donos devem ser alemães, eles são alemães, eram, né, porque hoje eu nem sei se são os mesmos. Chamava-se Cerâmica _____, é na, como é que chama aquilo, São José dos Campos, eu estive lá, porque eu trabalhava nisso e eu fui ver. Então, é assim, os Estados Unidos manda para nós a estatueta que vai ser feita neste ano, é uma por ano, nós mandamos pra ____, a ______, faz uma cópia idêntica, põe embaixo a data do ano em que está sendo oferecida essa e as 15 melhores de cada setor ganha essa estatueta. As de hoje são muito mais bonitas do que aquelas que eu tenho, porque aquelas eram assim meio petrificadas e essas parecem biscuit, são lindas, você conhece? Você já viu? São lindas, não são? E é sempre a Miss Albee, a primeira revendedora nos  Estados Unidos, em 1886, né, se não me falhe a memória, mas por que eu to falando isso? Ah, também porque eu escolhi esses prêmios, sabe, fazia parte dos incentivos também, mas é muito bom ver a alegria delas. Eu trouxe, acho que eu trouxe uma foto de mim com um microfone na mão, animando, porque os gerentes de vendas é que levava o seu grupo, né. Então, o gerente via também nessas reuniões e ver a alegria das revendedoras, sabe, nunca tinha tido uma festa destas, nos bons hotéis, né, hotel cinco estrelas, elas nunca entraram num hotel cinco estrelas na vida, na maioria é gente simples, então, olha, é muito gratificante. E a Avon é uma companhia muito especial, sabe, eu me lembro que quando eu entrei na Avon, o primeiro diretor que nós tivemos era, o presidente era (Mister Mors?) era seu Warner, o nome dele, era um americano que parecia carioca, porque ele adorava o Brasil, sabe, falava meio arrastadinho no português dele, mas ele era ótimo, e ele dizia uma coisa, que me marcou muito no meu treinamento há trocentos anos atrás, ele dizia: “A companhia não é feita por tijolos, a companhia é feita por pessoas.” E existia essa filosofia dele de uma maneira muito forte dentro da empresa, nós éramos uma família, a gente vestia a camisa mesmo, não sei hoje como é, porque cresceu demais, quando cresce muito, às vezes, essas coisas ficam um pouco diluídas, né, mas os princípios, eram dez princípios dentro da empresa, esse dez princípios eram seguidos à risca. A gente repetia em cada treinamento que a gente fazia de novas promotoras, sabe, então era uma coisa assim, a gente vestia a camisa, a gente se sentia em família mesmo, tanto que quando eu pedi demissão da Avon, eu falei pro João: “Olha, eu vou parar, porque pela primeira vez eu vou pôr a minha família em primeiro lugar, porque sempre pus a minha família em segundo lugar.” E era verdade. Uma vez eu cheguei em casa de viagem de uma dessas conferências, minha filha aniversaria em 18 de agosto, 18 de agosto eu cheguei, estava tendo uma festinha de criança lá em minha casa, de adolescentes porque ela é já era grandinha, que eu fui a convidada porque eu não tinha participado de nada, nem sabia. Tinha viajado, viajado, viajado, fazendo conferência aqui, depois noutro lugar, outro lugar. Quando eu voltei pra casa, ela com a empregada, com a minha sogra, tinham decidido tudo e eu sentei lá, inclusive tinha um americano comigo que ele veio pra conhecer a conferência, daí eu fiz ele sentar, ofereci uma bebida pra ele, fomos visitar. Então, realmente a família ficava mesmo, porque não dava, é um trabalho que exige muito, né, mas com é muito gratificante, muito bem pago, era pelo menos, hoje eu não sei, eram muito bem pago, então eu nunca achei, emprego nenhum que eu tive como professora. Eu nunca fui de querer promoção, por exemplo, eu nunca lutei por promoção, eu estava sempre contente naquilo que eu estava, eu custava pra aceitar mudança, sabe, tanto que eu dizia para o João: “Você acha, que eu vou ser capaz?” Quando eu fui para promoção de incentivos, eu falei: “Você acha que eu sou capaz, porque você me conhece e conhece esse trabalho que eu não conheço, você acha que eu sou capaz de fazer isso?” Porque, às vezes, você conhece um livro que se chama Eu estou ok, você está ok? Você não conhece, né, é um livro que fala que você tome cuidado, porque você vai ser promovido. Ah não, não é Eu estou ok, chama-se Somos todos incompetentes inclusive você, você nunca ouviu falar desse livro? É um livro que fala dessas promoções que as pessoas têm até o nível em que ela é incompetente, daí ela fica doente. Eu tive um chefe que aconteceu isso com ele, ou você fica doente ou você é desligado da companhia, porque você é incompetente, você era muito competente, por exemplo, eu podia ser muito competente como promotora, eu estava contente como promotora, agora, como conselheira de vendas, que eles insistiram e eu acabei aceitando, eu tinha receio, sabe, eu pensava: “Será que eu vou gostar? Será que eu vou me adaptar? Será que eu sou capaz?” Agora, tem gente que não tem muita autocrítica, a gente vê muito isso, porque ele foi promovido e eu não, né, tem muito isso. As pessoas, às vezes, não para para pensar numa coisa que o João sempre falava: “Você não tem que se avaliar como funcionário, ‘Ah, eu sou bom’. Você tem que pensar ‘será que o meu chefe acha que eu sou bom?” Porque quem vai te promover, é o teu chefe, né, então se você vai ter um aumento salarial, ou seja lá o que for que você vai ter, qualquer vantagem que você vai ter é o seu chefe que precisa achar que você é um bom funcionário. Você pode se achar ótimo, se o seu chefe não achar, você tem duas coisas: ou você não vai ser promovido nunca, ou você perde o emprego, como eu vi muitos perderem o emprego. Então, não sei porque eu to falando isso, apaga. Ah, isso começou porque eu disse que era muito gratificante e seu Warner falou isso logo no começo, e uma outra coisa que ele falou que me marcou muito, quando você aponta para uma pessoa na qual você trabalhou, uma revendedora, ou um gerente, ele quis dizer qualquer pessoa, quando você aponta com o dedo para ele, três estão voltados pra você, isso você já ouviu, né? Você selecionou bem, treinou bem, você tem que selecionar bem, tem que treinar bem, e tem que dar oportunidades. Então, se você conseguiu fazer isso e acha que mesmo assim ele não cresceu, então tudo bem, vai desligar. Eu sempre me baseei nisso, né, porque eu tinha que admitir promotoras e demiti-las,quando não serviam; eu tinha que admitir gerentes e demiti-los, quando eles não serviam e eu sempre me baseei nisso, sabe, era um exame que eu tinha que fazer, uma autocrítica, se eu tinha feito isso direitinho. Porque, às vezes, você prejudica uma pessoa, não é? Porque você não foi eficiente no seu trabalho, você prejudica o outro, né.



P/1 − E quanto as realizações no Avon?



R − Em que sentido você fala realizações?



P/1 − Coisas que a senhora se orgulha de ter feito.



R − Ah, eu me orgulho muito desse trabalho último em que eu não era mais funcionária, que eu gostei muito de ter feito, porque eu acho que eu ajudei as pessoas, tanto os funcionários todos, como as revendedoras, né. Eu me orgulho de muito trabalho que eu fiz com revendedora que eu visitava e ela estava lá no fundo do poço, daqui a pouco ela começava ficar mais bonitinha, porque além de eu visitar, promotora faz muito isso, não era só eu que fazia, muita promotora fazia e acredito que possa fazer até hoje, talvez não tanto hoje, porque elas tem muita revendedora, nós tínhamos menos, o sistema de trabalho era diferente. A gente visitava revendedora na casa dela e tinha que visitar todas que tinha. Então, às vezes, você fazia dez, quinze, vinte visitas por dia, então era diferente, o contato era maior, mas eu via elas crescendo, sabe. A pessoa que não tinha autoestima nenhuma, daqui a pouco estava querendo, porque a tendência era humilde, era periferia e eu trabalhei muito em periferia, é ser igual promotora. Então, ela vê e quer se vestir igual, olha o corte de cabelo, sabe, e eu sempre dizia pra ela: “Não, você tá bonitinha, mas olha o primeiro dinheirinho que você tiver.” “Ah, eu vou trocar a geladeira.” Eu dizia pra ela: “Não, não troca, vai cuidar dos dentes, tá faltando dente, você mastiga mal, faz mal pra digestão.” Ou então alguma criança que você pode dá algum conselho. Então, isso era uma coisa que não aparece, né, mas é um trabalho que te agrada, que te faz bem, você não tá fazendo bem só pra ela, ta fazendo em pra você também, né. Daí, daqui a pouco ela estava todo bonitinha, daí, eu me lembro de gente que dizia assim, ontem eu acompanhei uma promotora, nos primeiros trabalhos dela e uma pergunta que a promotora sempre tinha que fazer pra candidata a revendedora quando estava preenchendo a ficha,______________ e depois perguntava: “Qual é o seu objetivo?” E tinha que explicar o que era objetivo, aquela gente lá, não sabe o que é objetivo, tinha que explicar o que era objetivo: “Tá, o que é que a senhora quer fazer com o esse dinheiro? O que é que a senhora está precisando fazer com esse dinheirinho que a senhora quer ganhar?” Nós estávamos num casebre, tinha as paredes de tijolo baiano, né, e preguinhos assim em cima do fogãozinho, jornal enfiado, as panelinhas penduradas nos preguinhos, chão de terra, nós sentadas assim, tipo bujão de gás, sabe, uma sentada no bujão de gás, a outra senta num cantinho da cama, porque era gente muito, muito pobre, eu acho que vocês nem chegaram jamais a visitar um lugar desses, né. Albertina conhece bem, então eu fiquei esperando pra ver o que é que ela escrevia, como é que ela ia entrar em contato, como é que ela ia conseguir descobrir desta mulher qual era o objetivo dela quando recebesse dinheiro, né, quando começasse a ganhar. Daí quando ela conseguiu explicar: “Não, eu quero saber o que é que a senhora vai fazer com o dinheiro.” “Ah, eu vou começar acabar com isso aqui, né, vou tentar acabar com isso aqui.” Quer dizer, e ela construindo, né, e era uma promotora que veio de um nível bom, ela era uma mulher fina, sabe, e eu fiquei só de olho pra ver o que é que ela escrevia na ficha, como ela ia pôr na ficha que a mulher queria terminar essa construçãozinha dela, né. Ela foi, pensou, ela demorou, pensou, pensou e pôs: “Decorar a casa.” Depois, nós duas na rua, nós dávamos tanta risada (risos), porque eu falei pra ela: “Ela vai decorar a casa?” “Mas eu não consegui pensar no que pôr.” Porque ela tinha vindo de um nível muito alto, eu acho que ela nunca tinha visto aquela miséria que ela estava vendo, né, e ela pôs decorar a casa. Então, isso de você ver uma pessoa que tem uma casinha assim com o seu dinheiro, você entrar na casa de uma mulher dessas, de repente encontrar cano no chão, tijolo: “Ah, eu comprei com o dinheiro da Avon.” E uma vez eu visitei uma revendedora que a promotora pediu pra mim, ela falou: “Iva, vai comigo porque eu não tenho coragem de ver essa mulher, essa mulher perdeu um filho na rua da casa dela e agora perdeu o segundo atropelado. Depois de um tempo, ela perdeu o segundo e eu não tenho coragem de entrar lá, vamos comigo.” Vamos lá, fomos, nos recebeu na cozinha como a maioria recebia, né, e a mulher estava com uma cara boa, sabe, vamos falar de venda, vamos perguntar se ela tem pedido, se não tem pedido, né, esquecer que é uma visita social, a mulher disse assim: “Olha, eu vou continuar vendendo Avon, porque graças a Avon eu pude comprar um terreno pra enterrar meu filho, porque senão ele ia ser enterrado como indigente, mas graças a Avon, eu pude comprar um terreno pra enterrar meu filho. Então, eu vou continuar vendendo sim.” Sabe, então você está ajudando pessoas. E quando eu entrei no começo, eu achava que eu estava fazendo uma loucura, abandonar as minhas crianças que eu amava de paixão pra trabalhar com cosmético, eu precisava financeiramente, mas _______ me falava e ia me fazendo mal. Até que eu percebi que eu podia ajudar do mesmo jeito, né, e como as promotoras todas, não era só eu e eu acho que deve ser assim até agora. Daí elas procuram a promotora, tem algum problema: “Ah, eu tenho um problema assim e assim, como é que eu faço?” Você dá uma palavrinha, claro você não vai ficar lá, dando uma de psicóloga, mas dá uma palavra, dá uma ajuda. Eu sempre falava com as minhas promotoras quando eu era gerente, entra na casa da mulher, por favor, acha alguma coisa para elogiar, porque esta mulher só recebeu cobrança, o marido reclama da comida, os filhos querem tudo, ela não ouve uma palavra: “O que a gente vai elogiar?” “Elogia. O chão tá limpo? Como a senhora limpa bem o chão.” Não tem importância, ela vai ficar feliz, elogia, faz um elogio, fala que a criança tá bonita, mas aquelas promotoras eram terríveis, né: “E se elas estiverem com o nariz sujo até aqui?” “Ah, fala que ela tem olho azul bonito, ué, que olho azul bonito.” Elogia, então isso não parece, mas aumenta a autoestima da pessoa, a pessoa se sente muito melhor, você está ajudando, vai ajudando, né, e tá vendendo mais. Hora de parar.



P/1 − Então, a senhora é casada, né, qual o nome do seu marido?



R − Gerhard Werner Braum.



P/1 − Como foi que vocês se conheceram?



R − Bom, eu estudava ainda, né, eu tinha 17 anos, estudava e ele trabalhava numa firma próxima. Então, ele estava no intervalinho dele lá do almoço com os amigos na praça e eu passei, e ele olhou para as minhas pernocas. Eu digo pra ele, ainda bem que foi naquela época, ele disse que gostou das pernas da menina que passou e foi assim que a gente se conheceu, ele veio falar comigo (risos). Mas era aquele namorico, porque eu tinha 17 anos, né, e ele tinha 18, nós temos um ano de diferença. Então, aí eu me casei com 24 anos, a gente namorou um tempão, noivou um tempão, uns seis anos, então, mas eu o conheci assim, viu. Naquele tempo a gente se conhecia muito assim na rua, hoje se conhecem nos barzinhos, nas baladas, não é isso? Vocês são todos solteiros? Desculpe a curiosidade (risos), agora eu é que… Mas é pura curiosidade (risos). Mas hoje é diferente, né, como as pessoas se conhecem. Naquele tempo era tudo flerte de rua, era flerte mesmo, e era aquele namoro que para pegar na mão levava não sei quanto, para dar aquele primeiro beijo. Quanto eu contei para os meus filhos o tempo que levou para o meu marido dá aquele primeiro beijo, mas o que eles tiraram de sarro da minha cara, o que eu tive que sofrer e ouvir, nossa Senhora!



P/2 − E como foi?



R − Hã? Nove meses depois (risos). 



P/2 − Nove meses?



R − Ele dizia: “Puxa, a essas alturas já tinha nascido não sei quantos ________”, eu falei: “Muito obrigada.” (Risos). Mas era complicado, naquele tempo todo mundo era… Moça não entrava em carro de rapaz nunca, ficava mal falada na vizinhança inteira, né, tudo diferente! Tinha que tá às nove e meia em casa, hoje às onze, onze e meia elas estão saindo para ir às baladas, né, então, eu sei porque eu tenho uma neta de 20 anos.



P/1 − E quantos filhos a senhora tem?



R − Tenho dois: um homem feito de 55 anos e uma filha de 50, vai fazer 51 agora.



P/1 − Qual o nome deles?



R − É Cláudio e a minha filha, Liane, com L, não é Eliane, é Liane com L.



P/1 − E o que a senhora faz nas horas de lazer?



R − Você precisa perguntar o que eu gosto de fazer, porque agora eu tô com pouca hora de lazer. O que eu gosto mesmo de fazer (risos), eu fiz a faculdade de terceira idade que é bem perto da minha casa, é do lado do hospital São Paulo e eu fiz porque tem aulas maravilhosas assim para saúde, porque eles fazem tudo de acordo com a idade da gente, pra gente ter uma qualidade de vida melhor. Então, eu estava fazendo dança que eu adoro, vou morrer gostando, então eu estava fazendo dança, computação, ginástica, teatro, estava fazendo todas essas coisas que eu não pude fazer durante a minha vida toda, eu estava fazendo, agora que o meu marido com problema e eu também tenho problema no joelho, tanto que, quem foi que ligou pra mim marcando? Eu estava de repouso, porque eu estava com problema de joelho, mas tá melhor graças a Deus, mas tive que fazer punção, infiltração, esses negócios, já fica mais difícil fazer as coisas que eu gosto. Gosto muito de tudo que é atividade, gosto muito de andar no Ibirapuera, amo de paixão o Ibirapuera, adoro ver aquela gente diferente, de todos os níveis, de todas as cores, de todas as classes (risos). Um leva cachorro, outro tá fazendo yoga e outro tá fazendo tai chi, né, não sei, eu adoro ver isso, de estar no meio daquela gente toda, adoro ir tomar cafezinho lá. Agora não tenho podido ir também, né, então, tenho que esperar um pouco, então essas são as coisas que eu gosto. Gosto de teatro, gosto de cinema, mas há muito tempo que eu não vou ao cinema, vejo mais televisão, mas também não estou assistindo muito. Assisto novela sim, sou noveleira sim, assumo, né, mas não estou gostando dessas. Estou assistindo da Globo, nenhuma das três são boas, mas distrai, como eu costumo dizer, é o meu relax, porque daí, não tenho nada pra fazer, então é isso. Gosto de ler e gosto muito de palavras cruzadas. Qual a outra pergunta?



P/2 − Agora a gente vai partir para um parte de finalização, né, falar só mais um pouquinho sobre as coisas do Avon. A Avon, ela foi pioneira na venda direta, o que você acha, você que teve contato?



R − Eu é que fui pioneira (risos), junto com a Avon.



P/2 − E o que você acha da venda direta no Brasil?



R − Hoje eu acho mais difícil do que foi na minha época. Na minha época a dificuldade era que ninguém conhecia Avon, então a gente batia na porta, tinha um negócio que era decorado, né, tinha que falar decoradinho, mas tinha o decoradinho e tinha que aumentar alguma coisa, tinha que perguntar: “Eu sou sua vizinha (era assim mesmo), e revendedora Avon, a senhora sabe o que é Avon?” Uma delas falou que era uma fábrica de cadernos da Argentina e era mesmo, porque tinha lá na Argentina e eu descobri, mas ninguém conhecia. Então, tinha que explicar primeiro o que era Avon pra depois falar dos produtos, né, mas era muito mais fácil, as pessoas te atendiam na porta. Hoje em dia as pessoas têm medo, hoje a coisa é mais difícil eu acho. Então, você por aí pela Internet, hoje tem mil outros, né, e reuniões e tudo mais, mas na época foi muito bom e vendeu bastante viu e vende ainda bastante, só que diferente, é mais pra amigo, conhecido, até hoje não bateu ninguém na minha porta, para vender Avon, o que significa que as pessoas não têm mais essa coragem que tinha antigamente. Antigamente batiam na minha porta, hoje não batem mais, então eu acho que esse medo deixou as pessoas assim mais limitadas. Então, elas vendem mais pra amigas e conhecidas, né, vendem muito através de cabeleireiros que elas deixam folhetos, em banco deixa folheto, então ajuda muito esses folhetos extras que foi até uma tática maravilhosa, eu acho que funciona, funciona sim, nesse ponto que você queria saber?



P/2 − E a Avon através dessa venda direta ajuda muito as mulheres a entrar no mercado de trabalho, né, o que você acha disso?



R − Eu acho que é exatamente isso, menos agora, porque agora, eu acho que a mulher já busca mais, né, ela quer um emprego. Acho que hoje não é tão fácil ter revendedores como tinha naquela época, porque naquele tempo as mulheres não tinham muitas oportunidade de emprego e muitos maridos não queriam as mulheres trabalhando num emprego, né. Hoje os maridos concordam plenamente e até acham ótimo, mas naquele tempo não, tanto que tinha que pedir autorização. Você acredita que naquela época tinha um termo de autorização do marido pra ela ser revendedora? Depois de alguns anos é que a lei mudou e ela podia optar por conta dela sem ter essa autorização, mas precisa ter essa autorização, então era complicado nesse aspecto do marido. 



P/1 − E quanto as atividades sociais da Avon? As ações sociais, o que a senhora acha?



R − Eu não entendi a sua pergunta, desculpe.



P/1 − Quanto as ações sociais realizadas pela Avon?



R − Ações sociais? Eu não estou muito por dentro por enquanto eu estava lá não havia esse tipo de programa que hoje existe. Eu acho excelente, acho que toda empresa deveria ter. Eu não conheço com profundidade, eu não posso falar de uma coisa que realmente eu não estou por dentro e eu não conheço, né, não sei como isso tá funcionando hoje. Eu vejo pela televisão quando eles promovem e acho fantástico e acho que deve dá muito resultado, porque promove bastante a empresa, né, corrida, essa questão da preocupação da mulher em fazer exame de mama e tudo isso que a Avon já esteve envolvida, né. Quais são os programas que eles fazem hoje?



P/2 − Os dois principais é o de câncer de mama e agora o da Lei Maria da Penha, que é da violência contra a mulher.



R − É da Avon também, né? Então, eu acho que isso ajuda muito, eu acho que ajuda a divulgar o nome da Avon, porque a Avon divulga muito o produto, a Avon divulga muito mais o produto. É uma pena que a Avon não divulgue, não digo que com a mesma intensidade, mas de alguma forma o controle de qualidade, porque ainda muita gente acha que não é um produto muito confiável e hoje em dia eu acho que o consumidor está muito ligado naquilo que eu vou passar: “Será que faz bem mesmo?” Tem um pouco de desconfiança e a Avon que toda vida teve um controle de qualidade tão fantástico, eu sempre falei isso, mas acho que nunca me ouviram e provavelmente, porque devem ter feito algum teste nos Estados Unidos, sei lá onde, não funcionou, porque eu não sou dona da verdade, absolutamente, mas sempre me passou isso na cabeça, por exemplo, amigos meus: “Nossa, passei em frente da Avon. Nossa, enorme, né, pensei que fosse uma fabriquinha, mais fundo de quintal.” Sabe, não tem noção do que Avon é e sempre foi. Então, eu acho que nesse aspecto, acho, continuo pensando que controle de qualidade, porque eu sou assim, eu procuro, por exemplo, eu faço economia em muita coisa, mas eu procuro comprar o melhor óleo para minha família, procuro comprar o melhor, aquilo que eu posso confiar. Tudo quanto é artigo que eu leio sobre qualidade de produto, aquelas pesquisas que a Globo faz e mostra muitas vezes, né, da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária], eu procuro ver, porque eu acho importante. Às vezes, você tá usando um produto que tá te prejudicando e você não sabe, vai te _______ consequências no futuro. Então, eu acho que deveria ser, mas eu acho que essas atividades sociais são muito interessantes sim. 



P/1 − E quanto ao fato da Avon chegar aos lugares mais distantes do Brasil? Como que a senhora avalia isso?



R − Olha, eu trabalhei no Amazonas, eu fui gerente também lá um tempo. Aliás, quando eu fui pra lá, eu já era regional e a Amazonas fazia parte da minha região e eu sei que tem entregas que eles levam de barco, quinze dias pra fazer e a promotora viaja de barco para ir até aquele fim de mundo, né. Eu acho que é interessante, eu acho que é válido, eu acho que vaidade é uma coisa que ajuda a pessoa se sentir melhor, que existe sempre o meio termo, né. Só dois extremos: não fazer nada é ruim e fazer demais é ruim, é bom ficar no meio termo. Mas eu me lembro que uma vez eu fui fazer uma viagem e que eu atravessei de balsa um rio, e tinha uma índia vestida com roupa normal, mas se via bem claramente que era índia, bem simples, com uma trouxinha amarrada no colo. E quando a balsa estava do outro lado, ela abriu a trouxinha, tirou um pó compacto, abriu, se olhou, passou o pozinho no rosto e guardou na trouxinha, sabe. Veja como ela se sentiu melhor, ela se sentiu mais bonita, não é? Então, eu acho que é importante a pessoas se sentir bem, você se olhar no espelho e se sentir melhor, se um batonzinho vai te deixar com uma cor mais bonitinha e você vai se sentir melhor, né, eu acho que isso é muito bom, então eu acho que é válido.



P/2 − Quais foram os seus melhores aprendizados de vida, nesse seu _______ Avon?



R − Olha, para mim, a Avon, eu saí de um trabalho de 12 anos como professora e trabalhei em parque infantil, que é da prefeitura. Fui primeiro educadora recreacionista, depois eu fui diretora, mas deixei tudo e entrei na Avon, porque, como eu já falei pra vocês, me interessou. Mas é sempre um mundinho menor e a Avon para mim, ela ampliou os meus horizontes, como ser humano, eu cresci profissionalmente, mas eu cresci como ser humano também, sabe. Ela me fez enxergar muita coisa que eu não enxergava naquele tempo, em que eu vivia naquele mundo pequeno, eu morava aqui e trabalhava aqui do lado, ia a pé, sabe, tudo perto, né, e a vida era muito fechada. Então, eu acho que eu ganhei muito trabalhando na Avon, eu cresci muito trabalhando na Avon, não foi uma escola, foi uma faculdade, sabe, foi mesmo, tanto profissionalmente falando, como na vida pessoal, valeu demais. E acho que para todo mundo, eu acredito que muitos dos que vieram aqui devem ter dito isso, que cresceram como pessoa, né, além da parte profissional, logicamente. 



P/1 − E o que a senhora acha da Avon está resgatando sua história através desse projeto? Esse projeto de memória que você está participando agora?



R − Projeto de?



P/2 − É que com esses depoimentos é um projeto que a Avon tá fazendo de resgatar a história dela (risos).



R − Ah, bom, porque eu não tô sabendo, ah tá. Eu acho que com 50 anos, eu acho que é uma coisa muito interessante também, porque muitos funcionários não sabem nada da história da Avon, não é? Quer dizer, entraram a maioria quanto tempo deve ter de Avon? Dez anos, né, às vezes, menos, deve ter poucos que estão há muito tempo na Avon. Então, e com tempo, esse meu então, claro, já saiu todo mundo, não tem ninguém, do começo mesmo, então eu acho isso muito bom, porque, tanto que teve uma época que eu me ofereci para ceder as minhas Misses Albies que eu sei que eles não têm todas, né, para completar a coleção, porque se eu fosse presidente, eu ia querer essa coleção numa vitrine na entrada da Avon, sabe, que a Miss Albee é que foi a primeira revendedora da empresa lá em 1886, lá junto com o David McConnell, né, uma fotografia do David McConnell e todas essas em volta. Porque eu acho que é importante, eu acho que a história de uma empresa ela é fundamental, porque nós tínhamos um livro que chamava livro azul, hoje acho que ninguém usa mais como promotora, mas nós promotoras que entrávamos naquela época, você começava conversando com a revendedora, contando a história da Avon: abria esse livro, via a história da Avon desde o começo, como que começou, tudo abreviadinho lógico, né, e depois ia virando, ia contando. Daí a gente entrava assim: “Vim lhe contar a história de um produto e de uma oportunidade.” (Risos). Tudo decorado, abria a página e começava a falar, falava sempre um pouquinho da história, porque quando você tem uma história, uma empresa tem a sua história, ela transmite mais confiabilidade, sabe. Eu trabalhei depois com o João numa outra empresa, ele me convidou, depois que eu estava com 65 anos eu voltei a trabalhar, porque ele me convidou, ele foi conhecer uma outra empresa. Ele entrou, me convidou e eu entrei com ele, desse também tem uma história, isso é muito típico de firma americana, sabe, também contava a história de como começou, eu acho isso muito interessante. Então, eu acho muito válido, isso deve ser para os funcionários, não é, é para funcionários ou é para fora também?



P/2 − É, ele vai ser publicado num ____ site que também é voltado para funcionários.



R − Hum, porque eu acho que os funcionários é que devem saber, eu não sei que divulgação eles vão dá pra isso, mas não conheço o programa, tanto que só fiquei sabendo através de vocês, né, não tô sabendo de nada, mas eu tenho assim uma tristeza num aspecto quando eu voltei a trabalhar como João, mas isso não faz parte, depois eu conto (risos).



P/1 − O que a senhora achou de ter participado dessa entrevista?



R − Olha, inicialmente eu não tinha vontade de vir, eu estou sendo muito franca, porque independente do meu problema de joelho que também tinha, mas eu não tinha vontade de vir, porque ficou assim um resquício do que aconteceu depois quando eu entrei nessa outra empresa junto com o João. Mas depois eu falei, não tenha nada a ver, a empresa é maravilhosa, sempre foi, não é? O que aconteceu da maneira como aconteceu, não foi a empresa, foi mais uma falta de habilidade das pessoas que estavam envolvidas nisso. Eu sempre amei Avon e continuo usando os produtos dele, quando eu falo com as pessoas sempre falo disso, da qualidade, tudo, promovo até hoje, promovo até hoje Avon pra quem quiser, eu converso com as pessoas, tô promovendo, porque eu realmente confio na Avon, eu acho maravilhosa. Então, eu pensei: “Por que é que eu não vou fazer isso, se eu não tenho nenhuma tristeza com a empresa?” Foi um acidente de percurso, então eu apaguei isso de vez, mesmo porque é o que tem que fazer e estou aqui. Estou muito contente de ter conhecido vocês e de ter tomado conhecimento desse programa, né, eu acho válido realmente e se eu puder contribuir com alguma coisa, estamos aí, tá bom?



P/1 − Bom, então em nome do Avon e do Museu da Pessoa, nós agradecemos sua entrevista.



R − E eu agradeço a vocês a paciência de me ouvir todo esse tempo.



P/2 − Obrigada.



P/1 − Brigadão.



--- FIM DA ENTREVISTA ---

 

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