Busca avançada



Criar

História

Desafio diário: ensinar e aprender

História de: Maria Laura Florence Mori
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/01/2021

Sinopse

Santo Antônio do Pinhal. São Paulo. Jardins. Professora. Casamento. Filhos. Ensino Privado. Ensino Biligue. Importância da leitura. Inclusão.

Tags

História completa

P/1 – Então vamos começar. 

 

R – Vamos. 

 

P/1 – Primeiro agradecendo a sua vinda...  

 

R – Eu que agradeço. 

 

P/1 – E pedindo para você falar de novo seu nome completo, o local e a data de nascimento. 

 

R – Eu sou Maria Laura Florence Mori, Florence de nascimento e Mori de casamento. Nasci no dia dois de julho de 1945, e nasci no Espírito Santo do Pinhal, na Mogiano, um pouco pra lá de Campinas. 

 

P/1 – O nome de seus pais? 

 

R – Francisco Álvares machado de Vasconcelos Florence e Lucília Mondadori Florenci. 

 

P/1 – Qual a profissão deles? 

 

R – O meu pai era professor de Português, apaixonado pelo Português, e era bancário também. E a mamãe era dona de casa. 

 

P/1 – Você sabe como eles se conheceram? 

 

R – Sei! Eram famílias amigas, essas coisas de cidade de interior. Eles se conheceram nas bodas de ouro de uns tios do papai. 

 

P/1 – E seus avós? 

 

R – Meus avós? Meu avô era de Jundiaí, Agenor Mondadori, era Médico em Pinhal. E a vovó era do Rio de Janeiro, os pais da mamãe eram de lugares diferentes. Os meus avós paternos eram ambos de espírito Santo de Pinhal, e a minha avó era professora e tinha uma escola. 

 

P/1 – Olha só! 

 

P/2 – Você sabe por que sua avó veio pra São Paulo do Rio de Janeiro? 

 

R – Ela veio porque se apaixonou pelo vovô, que estava fazendo Medicina no Rio de Janeiro (risos). Se conheceram lá e já vieram casados. 

 

P/1 – Certo. E você tem irmãos? 

 

R – Eu tenho um irmão, Paulo Mandadori Florenci. É juiz de Direito, dois anos mais moço do que eu, mora em Santos e trabalha em São Paulo. 

 

P/1 – Me conta um pouquinho como é que foi a infância de vocês lá em Espírito Santo do Pinhal. 

 

R – A infância foi sempre em São Paulo, o pessoal ia pra lá para nascer. Era aquela coisa, casa dos avós, casa dos bisavós. Então, nossos pais iam, a gente nascia, passava um mês lá e vinha pra cá. A infância foi aqui, mas com muitas idas para Pinhal porque a fazenda da família era lá. Então, era muito gostoso, uma infância de fazenda praticamente. 

 

P/1 – E vocês cresceram em que bairro aqui em São Paulo? 

 

R – Jardins, no lugar exato onde eu moro até hoje, no finalzinho da Rua Peixoto Gomide, ali perto da rua Estados Unidos. 

 

P/1 – É uma casa? 

 

R – Uma casa, é uma casa... 

 

P/1 – Me conta um pouquinho como é que era essa casa. 

 

R – Olha, era uma casa que não era grande. Tinha um pequeno jardim e um quintal razoável e tinha uma turma de rua maravilhosa. Não sei se vocês sabem o que é isso, porque vocês são muito novinhas. Mas nós tínhamos uma turma de amigos ali das ruas adjacentes, e nós saíamos pra brincar. Assim, e os pais despreocupadíssimos. A gente podia ir brincar onde quisesse: saía de bicicleta, ia jogar bola na Rua Cravinhos, vai com a turma de não sei de que rua, ia pra Padre João Manuel... Então, era uma delícia, era uma infância muito livre, muito boa, muito confiante, muito segura. Foi uma época em que esses bairros de São Paulo, tipo Jardim Paulista, eram muito seguros. 

 

P/1 – E como era o cotidiano nessa casa? O seu pai saía para trabalhar, e a sua mãe ficava em casa? 

 

R – É, é isso mesmo. A mamãe ficava conosco, nós íamos para o colégio, a mamãe implicava com as empregadas. Ela não gostava muito, então ela saía muito para passear conosco. Ela tinha um pouco de impaciência com empregada, então nós saíamos para passear na Praça das Guianas, nós íamos andar a Avenida Paulista inteirinha a pé, até lá no final onde hoje é o Shopping Paulista. Nós sempre estávamos passeando, andávamos muito a pé. Nós éramos uma família muito passeadeira. 

 

P/1 – Conta um pouquinho da Avenida Paulista dessa época, desse bairro. 

 

R – Ainda era eminentemente residencial, a Avenida Paulista. Não havia prédio nenhum, não havia edifício de apartamento, de escritório, edifício alto assim. Não havia arranha céu! Eram casa com jardim e muitos dos moradores daquelas casas, as famílias e tal eram conhecidos dos meus pais, dos meus avós, então a mamãe ia dizendo: "Aqui é a casa do Doutor fulano de tal, ali é a casa do Doutor tal, aqui é a casa do Doutor René, a casa do Nuno de Oliveira." Então, nós sabíamos, nós já íamos passando e olhando os jardins, já sabíamos "Ah, estamos perto, estamos longe... Agora está perto do sorvete". Pelas referências a gente sabia. Mas a Avenida Paulista era todinha residencial e muito bonita, mais estreita e tudo o mais. Era completamente diferente de como é hoje. 

 

P/2 – E essas férias na fazenda, como eram? 

 

R – Ah, essas eram uma delícia porque era andar com o avô o dia inteiro. Eles não moravam na fazenda, eles tinham casa na cidade, então a gente ia com o vovô para a fazenda de manhãzinha, passava a manhã inteira lá. Ele se dava o luxo de ir almoçar em casa, porque a fazenda era oito quilômetros só de distância. Então, nós íamos todos almoçar em casa, era um bando de primos, mais o meu irmão e eu. Aí nós íamos almoçar em casa e depois, de tarde, nós íamos de novo com ele e voltávamos na hora do pôr do sol, que eu me lembro que era uma coisa muito bonita. O pôr do sol daquela região é famoso! Então, nós voltávamos na hora que o sol estava se pondo e a estrada inteira era de cafezais, então você via o sol se pôr no horizonte do cafezal. Era uma coisa... Eu apreciava isso, eu reparava, acho que meus primos, não tanto. Mas eu gostava. Então, são lembranças que ficaram muito fortes para mim. 

 

P/1 – E você com esses primos? Vocês brincavam bastante? Do que vocês brincavam? 

 

R – Nossa! Tremendamente! Nós andávamos a cavalo... Era uma fazenda moderna, meu avô era um cara moderno, então já tinha piscina, aí nós nadávamos muito. Nós caminhávamos de montão para pegar tudo o quanto era pedra, planta, pinha, porque lá por ser Pinhal tinha um pinheiral na fazenda. Então, na época das pinhas a gente ia catar pinha. Íamos pro cafezal e pro terreiro de café, que é uma delícia, né? Deitar no café, rolar, olhar os homens trabalhando e atrapalhar bem, achar que está ajudando, atrapalhar muito, isso era ótimo! Procurar os felipes do café, que eram os grãozinhos que nascem juntos e que depois você fica com ele escondidinho e chega de noite em casa, você põe misteriosamente, assim, no prato de alguém ou no bolso de alguém e fala: "Agora paga meu felipe", e a pessoa tem de te dar um presente. Então, era muito gostoso, tinha um monte de coisas gostosas para fazer. 

 

P/2 – Você falou que a sua avó tinha uma escola...

 

R – Essa era a minha avó paterna, que veio muito cedo para São Paulo, porque ela enviuvou cedo e assim que os filhos vieram para São Paulo trabalhar, logo em seguida ela veio também para não ficar sem eles. Ela só tinha filhos homens, minha avó paterna só teve rapazes, seis filhos, e vieram todos pra São Paulo. Vieram par estudar, para trabalhar, e ela veio atrás, então essa morou em São Paulo a vida inteira. Morava em Higienópolis, eu a conheci sempre aqui e ela lá em Pinhal teve uma escola. Ela tinha primeiro porque ela achava gostoso e, depois da viuvez, por necessidade. Aí era pra ajudar mesmo a sustentar essa família grande que ela tinha. 

 

P/2 – Certo. Você não chegou a frequentar essa escola? 

 

R – Não, a escola não, mas o meu pai com nove anos já era professor lá. O meu pai com nove anos tinha uma classe de alfabetização de adultos, porque ela tinha as crianças nas aulas regulares durante o dia... Vocês sabem que naquele tempo não tinha legislação escolar como hoje. As pessoas montavam as escolas como elas queriam e como elas sabiam e era respeitado. Aí então ela tinha as crianças que tinha aula durante o dia, e à noite ela fazia uma obra social e alfabetizava adultos. O papai tinha uma classe de alfabetização de adultos desde os nove anos. Acho que foi por isso que ele gostou da coisa e foi para esse rumo. 

 

P/2 – Aqui em São Paulo ele dava aula onde? 

 

R – Ele deu aula particular durante muitos e muitos anos. Ele foi assistente do professor Silveira Bueno e deu aula no Sindicato dos Bancários, enquanto havia escola do sindicato, ele dava aulas regulares lá. 

 

P/2 – E você frequentou qual escola? 

 

R – Eu frequentei primeiro uma escola de bairro chamada Externato América, que era bem pertinho da minha casa e todos os amigos do bairro iam para essa escola. Era da Dona Idalina, uma famosa diretora ali dos Jardins, que um monte de gente daquela época conhece. Aí depois, com 11 anos, eu fui para a Caetano de Campos, era a velha escola da Praça da República, então entrar lá era um parto, era um verdadeiro vestibular. O que os jovens hoje enfrentam para entrar no Ensino Médio, nós enfrentávamos para entrar no primeiro ano do Ginásio na época, que seria o sexto ano hoje. Então, era uma coisa: vinha gente de cidade do interior, porque o Caetano de Campos era famosíssimo, a escola. E vinha gente até de outros lugares, então nós tínhamos uma competição tremenda, era uma luta mesmo entrar, era uma vitória entrar na Caetano. Era muito bom! 

 

P/1 – Fala mais um pouquinho dessa primeira escola, de bairro. Como era? 

 

R – Essa era uma escola pequena, uma classe de cada série - do jardim da infância até o quarto ano primário. As professoras eram super "chapas", super simpáticas. Tem uma professora que é vizinha minha até hoje, Dona Terezinha, minha professora de quarto ano. Ela está idosa, idosinha, mas eu encontro ela no supermercado, na missa. A gente faz a maior festa, é muito gostoso. Então, os professores também eram dali das imediações, sabe? Era uma escola agradável: aquela escolinha onde a mãe é amiga da diretora, amiga das professoras; a mãe vai buscar, a mãe vai levar; vem todo mundo de mão dada, vem aquele bando de gente pra casa - três quarteirões de distância -, então era uma delícia.

 

P/1 – Tinha uniforme? 

 

R – Tinha uniforme, eu só estudei de uniforme, só na faculdade que eu não usei mais uniforme. Eu só estudei de uniforme na minha vida. 

 

P/2 – E quais eram os materiais que eram usados? Caderno de caligrafia?

 

R – Sim, sem dúvida! Caderno de caligrafia, caderno de desenho, muito material de trabalhos manuais. Nós tínhamos macramê, tapeçaria, bordar peneira com lã, nem sei se vocês já ouviram falar nisso! Se não ouviram, estão ouvindo falar agora. Nós bordávamos paisagens naquelas telas, nas talagarças. Tinham coisas bastante... Vamos dizer, eram adequadas às atividades manuais às atividades intelectuais, havia uma preocupação com isso. Nós tínhamos muita atividade de desenho, de coordenação motora e também de bordados, de crochê, os meninos faziam atividades de tapeçaria, sacolas para as mães fazerem compras, tudo isso. 

 

P/1 – E tinha alguma coisa que você gostava mais, alguma matéria, alguma…?

 

R – Olha, eu gostava de tudo. Eu gostava de tudo, eu adorava a escola e eu tenho uma peculiaridade, que é muito estranho: Eu adoro a escola e adoro as férias e feriados, então, eu não saberia te dizer... Porque tinha crianças que diziam "Ai, eu não vejo a hora de que chegue as férias!", e eu dizia "É mesmo, né, férias são tão boas!", mas enquanto estava na aula também eu achava a aula interessantíssima. Aprender sempre foi uma sedução muito mais forte do que qualquer outra coisa. 

 

P/1 – E a passagem para a Caetano de Campos, teve aquela dificuldade toda de fazer…?

 

R – Ah, teve! Teve o vestibular, eu tive dor de barriga no dia do vestibular, deu um trabalhão para a minha mãe. Eu comecei a passar mal, então fomos passear pela Praça da República, ela foi me dar uma aguinha, assim, para acalmar. Mas no fim eu entrei em segundo lugar, entraram 800 candidatos, então estava ótimo! A coisa estava muito boa. A escola do bairro provou que tinha uma competência extraordinária, foi muito bom. 

 

P/1 – Fala um pouquinho da Caetano de Campos.

 

R – Bom, a Caetano de Campos foi a escola mais formidável, a instituição escolar mais formidável que eu tive ocasião de conhecer aqui ou fora do Brasil. Outro dia nós tivemos uma reunião de 50 anos de formatura do ginásio, seria o Fundamental I hoje em dia, né, o Fundamental II. Aí numa mesa com umas oito colegas daquela época e uma delas disse - uma senhora da minha idade, com bem mais de 60 anos-, ela disse: "Gente, tudo o que eu aprendi na minha vida foi na Caetano. Depois que eu saí de lá na faculdade e nas minhas viagens, eu não poderia dizer que nada foi novidade. Tudo o que eu aprendi foi na Caetano de Campos". Então, era uma escola de excelência mesmo, sabe? Um ambiente muito gostoso de viver. Os professores eram umas respeitabilidades! Eram aquelas pessoas que a gente admirava, que a gente seguia sem dúvidas, não tinha hesitação para seguir, eles eram capacitadíssimos! Eram autoridades intelectuais mesmo e também pessoas muito boas, muito interessantes. Então, a Caetano foi uma escola magnífica que São Paulo teve e eu acho que até hoje ela não tem o reconhecimento devido. Tem bastante reconhecimento, mas o devido ainda não! Quando vocês pensam que a Faculdade Filosofia de São Paulo foi formada a partir dos professores da Caetano de Campos! 

 

P/1 – Tem algum professor que você lembra, que tenha te marcado mais? 

 

R – Um monte deles, um monte deles! O professor Raul Frindem de português, que era excelente. Eu acho que foi quem despertou em mim essa vontade de aprender sobre a Língua Portuguesa, esse encantamento com a Língua Portuguesa. Porque o papai era um ótimo professor de português, mas pai a gente não costuma levar muito em conta, não é? Pai a gente fica meio assim... Então, eu já aprendia em casa, por tabela, porque ele não perdia uma ocasião de ensinar, mas o professor Raul despertou isso em nós. Ele era um professor que arrebatava os alunos, tinha aquele entusiasmo. Nós erámos verdadeiros seguidores. Aí tinha uma professora de Geografia originalíssima, a Dona Antonieta Paula Souza; o professor Orestes Rosanir de História, que era bárbaro; os professores de Inglês, Dona Silvia Galvão, inesquecível; de Francês, Dona Ernestina... Nossa, era uma maravilha, era uma beleza mesmo. O grupo de professores de lá... Falar em alguns e não falar de outros é até injustiça, porque a gente acaba esquecendo alguém. Mas é injustiça porque todos eram ótimos. Tinha Música, que era o maestro Frederico De Cara, ótimo. Depois o professor Rui Cartolano, outro maestro excelente, pianista. Nós tínhamos... Nós solfejávamos Beethoven, gente! Tinha a prova de música, de solfejo, exame oral que o joelho tremia, assim, e você solfejava sinfonias e sonatas de Beethoven. Era uma coisa séria mesmo! Era muito legal.

 

P/1 – E como é que era o tempo nessa escola? Vocês ficavam lá de manhã? 

 

R – Meio período porque as escolas eram divididas por gênero. As meninas nem podiam encontrar os meninos, então os meninos estudavam das oito às quinze para a uma e nós estudávamos da uma às cinco, cinco e pouco, cinco e quinze. 

 

P/1 – E tinha alguma expectativa de encontrar com os meninos…?

 

R – Tinha! Mas quando alguém denunciava para a orientadora, era advertência na certa. Chamavam os pais... Eu nunca soube que mistério era esse. Você não podia nem conversar com os meninos que estudavam na mesma escola. Não podia nem conversar no ponto de ônibus, porque nós vínhamos... Todo o pessoal vinha de ônibus sozinho. Tomava o ônibus elétrico ali na Praça da República mesmo, e cada um ia pro seu bairro. Os ônibus ali eram todos elétricos naquela época, não era ônibus à gasolina. Então, ia para cada um pro seu bairro, aqueles grupinhos. Vínhamos conversando no ônibus sem fazer bagunça, porque também tinha dedo duro no ônibus! Eu não sei como, mas tinha, tinha dedo duro. 

 

P/2 – E as amizades da escola? Vocês saíam... 

 

R – Ah, uma delícia! São amigas que eu conservei até hoje. A minha principal amiga, que é como uma irmã pra mim, eu conheci no primeiro ano de Ginásio da Caetano de Campos e somos até hoje as amigas mais próximas. Nossos filhos são amigos e agora nossos netos já são amigos também. Então, é uma amizade daquele tempo! Era uma turma excelente, porque era uma turma muito variada. Tinha gente de praticamente todos os bairros de São Paulo, eram quatro classes de cada série e classes de 42, 45 alunos. Então, você tinha uma gama, uma variedade enorme: tinha gente do interior, tinha uma ou outra pessoa de outro estado, e tinha gente de todos os bairros, de bairros de São Paulo que eu nunca tinha ouvido falar. Naquela época, eu nunca tinha ouvido falar em Vila Ré e eu tinha uma companheira de Vila Ré. Aí eu fiquei conhecendo, a gente começa a conhecer o bairro, outras religiões, outros costumes. Nossa, era muito interessante! 

 

P/1 – Não tinha aula de religião na Caetano de Campos? 

 

R – Na Caetano tinha uma aula de religião meio esporádica. Logo que eu entrei ainda tinha, mas depois, mais tarde, acho que a partir do terceiro ginasial, que seria hoje o oitavo ano, já não havia mais. Havia umas discussões filosóficas, mas aula de religião específica já não havia mais. Era mais para os menores mesmo. 

 

P/1 – E tinha jornal na escola? Você chegou a participar disso? 

 

R – Não. Na época em que eu estava lá, não tinha jornal, não. Mesmo porque a dificuldade para essas coisas de gráfica era muito grande. Era época do mimeógrafo a álcool, todas essas coisas. Às vezes tinha um mural, o professor de Português organizava um mural. A gente trazia notícias e coisas e também redigia, mas tudo a mão. Tudo a mão, tudo com aqueles floreadinhos, tudo enfeitadinho. Outro tempo e outro mundo nada a ver com hoje em dia com essa facilidade que se tem de reproduzir material gráfico! Era muito difícil. 

 

P/1 – E tinha algum hino na Caetano de Campos? 

 

R – Hino? Maravilhoso! Quando eu estou sozinha em casa, que não tem filho pra caçoar de mim, eu canto o hino até, até! 

 

P/1 – Canta aqui pra a gente! 

 

R – Ah, cantar aqui pra vocês, ele é um poema parnasiano, assim, nossa! Começa com uma coisa bem normal (canta): "Salve escola que tanto adoramos / Salve o templo do bem e do saber / Em teu seio fecundo esperamos a ciência, a virtude sorver!". Agora veja uma coisa (continua cantando): "O progresso se funda no ensino/ E no ensino o Brasil se fará/ Mas brilhante será seu destino / O futuro da pátria aqui está!" (Chora). Gente, isso é muita coisa, muita coisa (chora). Sempre, é sempre (chora)! Era um idealismo, sabe? Um compromisso verdadeiro com a educação, uma coisa muito empolgante. 

 

P/1 – Como é que era a relação com os professores?

 

R – Muito boa, muito boa. Havia uma distância, não era uma relação de intimidade que hoje os alunos têm conosco. Mas era uma relação de grande cordialidade. Nós tínhamos uma relação de proximidade com eles, sim. Nós conseguíamos conversar, colocar questões. Eles eram muito democráticos, super abertos, era uma relação muito boa. 

 

P/1 – E você ficou lá na Caetano até o fim? 

 

R – Ah, até o final do Normal, até me formar professora. Saí da Caetano de Campos professora, foi uma delícia. 

 

P/1 – E como foi essa formação de professora na Caetano?

 

R – Essa formação de professora foi praticamente uma faculdade, depois a minha faculdade na USP foi uma continuidade daquilo. Nós tínhamos matérias criteriosamente selecionadas com professores muito capacitados. Então, nós saíamos de lá, e nós tínhamos consciência disso. No final do curso havia quase sempre uma cerimônia lá embaixo, ali no jardim onde havia o busto do Doutor Caetano de Campos. Nós fazíamos discursos, e vinham os parentes dele, havia até uma cerimônia de você assinar o diploma - a aluna que tinha a classificação melhor, assinava o diploma com uma caneta de ouro que era uma pena antiga e que tinha sido do Doutor Caetano. Infelizmente no meu ano foi a primeira vez que não se cumpriu esse ritual. Daí pra diante começou a não haver, porque senão eu teria assinado meu diploma com a caneta do Doutor Caetano de Campos. Isso eu lamentei, porque eu era uma ardente admiradora dele. Nós tínhamos todas as informações sobre a vida e a obra de Caetano de Campos, que foi um Médico e um idealista da educação, então nós cultuávamos muito isso.

 

P/1 – E as disciplinas que você teve nessa formação? Quais eram? 

 

R – História da Educação, Filosofia da Educação, Sociologia, Psicologia, Didática e Prática de Ensino, Português muitíssimo bem dado, Desenho Pedagógico. Era muito completo. Eu não sei o currículo todo, eu não me lembro todo, mas era muito abrangente. Ah, tínhamos também um Médico que dava aula de Biologia, tínhamos Ciências Biológicas, tínhamos Física, tínhamos Química, tínhamos bons laboratórios. E o prédio, uma beleza! Não sei se vocês já entraram lá, agora é a Secretaria de Educação. Mas aquele prédio já tinha, sabe, aquilo já impunha: quando você entra você já sente uma reverência, você já sente um respeito, porque aquilo é tão bonito, tão bem tratado, tão, sabe, adequado àquelas atividades, era bom.

P/1 – E aí como é que deu, você terminou a Caetano de Campos, o Normal…?

 

R – Aí eu termino a Caetano de Campos, entro na USP direto, graças a Deus, numa classificação excelente.

 

P/1 – Em Pedagogia? 

 

R – Em Pedagogia, que naquele tempo era dividida em três setores. A Pedagogia era Filosofia da Educação, Orientação Educacional e Administração Escolar. Eu escolhi Filosofia da Educação, era um grupinho bastante pequeno, sempre era um grupo restrito. Porque o estudo da filosofia além de ser uma coisa específica pra quem gosta, é muito difícil, né? Nós tínhamos de ler aqueles filósofos todos em língua estrangeira. Você não tinha um livro editado aqui. Essa semana eu vi o Antônio Petrin numa entrevista na TV dizendo: "Nós tínhamos que ler Shakespeare sempre em espanhol, nós ensaiávamos em espanhol pra depois partir pra tradução.".  Aí eu falei "Ah, Petrin, como eu sei disso!", porque eu tinha que ler meus livros da faculdade em espanhol, ou em francês ou em inglês. Então, no vestibular tinha as três línguas. Você tinha que ter porque se não, você não conseguia ler. 

 

P/1 – E você tinha uma boa formação dessas três línguas já pelo Caetano de Campos? 

 

R – Ah, muito boa, porque o meu pai também era professor de línguas. Então, meu pai dava aula pra nós de francês, de italiano, de espanhol todo dia. A gente detestava na época, mas agradece muito hoje em dia. Era todo dia: tinham aqueles 20 minutos para cada um dos dois, individualmente, eu e meu irmão tínhamos aula de línguas com ele. Um dia era italiano, um dia era francês, isso desde que nós tínhamos cinco anos. Começou muito cedo. 

 

P/1 – E as disciplinas da faculdade lá, da Pedagogia? 

 

R – Na faculdade tinha, na parte de filosofia, tinha muita filosofia. Tinha Filosofia pura, tinha Filosofia da Educação e depois as disciplinas gerais. Tinha Teoria da Administração, tinha História da Educação, tinha o que mais? Tinha Sociologia, Psicologia, também tinha bastante.

 

P/1 – Teve algum autor com que você se identificava mais na época?

 

R – Autor que você diz seria o que? Um filósofo? 

 

P/1 – É. Um filósofo ou um estudioso da Educação.

 

R – Bom, eu era louca pelos gregos. Naquele tempo, jovem tem umas fantasias românticas. Eu era louca pelos gregos. Aí depois que eu amadureci, fui digerindo o que eu aprendi lá, eu fiquei um pouco mais louca pelos alemães, aí eu comecei a gostar muito dos alemães. Mas na época da faculdade, estudar Sócrates, Platão, Tales de Mileto, Zenon de Elea, aquilo era a coisa mais linda do mundo! A gente gostava demais, fazíamos debates infindáveis. Depois íamos para casa de alguém e varávamos noite discutindo aquelas coisas. Era uma época bem romântica pra juventude daqui da cidade de São Paulo. Era bem romântico! 

 

P/1 – E você tinha amigos na faculdade? 

 

R – Excelente grupo, gente muito boa! Então, formei um grupo grande de amigos. A gente tinha assunto de faculdade e assunto de malandragem também! Tinha o Bar das Batidas lá no Largo de Pinheiros, tinha o Pateco na Avenida São Gabriel, então era muito Chopp, muita batida, muita discussão de assuntos filosóficos, era assim a coisa. 

 

P/1 – Nessa época de faculdade você fez algum estágio? 

 

R – Fiz. Fiz um estágio ali em colégios do meu bairro, dos Jardins. Era o Externato Meira na época, fiz um estágio grande lá. Fiz um estágio no Externato Nossa Senhora de Lourdes, foi onde eu comecei a minha carreira depois. Aí com 19 anos eu já estava lecionando no Nossa Senhora de Lourdes e prossegui. Fiz o estágio e prossegui carreira ali. 

 

P/1 – Fala um pouquinho como é que foi esse estágio e como é que foi o trabalho.

R – O estágio era muito interessante porque nós estávamos bem mergulhados naquilo, todo mundo estava bem ciente do que queria fazer, então nós aproveitávamos bastante o estágio. Fazíamos camaradagem com os professores cuja classe nós frequentávamos. Depois você saía de lá, ia trocar umas ideias, tudo. Os estágios eram uma fundamentação muito boa, eu diria que eles foram os alicerces muito bons para a prática do ensino.

 

P/1 – Aí você ficou lecionando...

 

R – Eu fiquei lecionando... É. Eu já estava lecionando a partir da metade da minha faculdade, foi de 19 para 20 anos, que a faculdade eram quatro anos, né? São até hoje. Então, eu já estava lecionando no Nossa Senhora de Lourdes e ali eu fiquei até prestar concurso para a Prefeitura. Aí eu entrei na Prefeitura, passei no concurso em 1970 e entrei na Prefeitura em 71. 

 

P/1 – Foi pra lecionar?

 

R – Fui pra lecionar na Municipal Teodomiro Dias, ali em Vila Sônia. Foi um período interessante, era muito diferente de tudo o que eu tinha feito antes, mas também apreciei muito o ensino da Prefeitura. Achei que o ensino era consistente, que a preocupação de supervisão, da Secretaria Municipal de Educação era bem eficiente, tudo isso funcionava bem. A merenda era excelente, as crianças eram muito cuidadas, escola nova, prédio novo naquela época com recurso, quadra boa, com tudo. Tinha uma convivência com os pais bastante agradável. Ali em Vila Sônia, os pais tinham um respeito pelos professores, um respeito muito grande. Eram pequenos comerciantes, eram feirantes, eram doceiros, pipoqueiros, também era gente de pequenos comércios, tinha lojas e tudo o mais. Mas eles eram respeitosíssimos, muito desejosos que seus filhos aprendessem, davam o maior apoio para qualquer iniciativa da escola. Isso foi uma surpresa agradável na minha vida, foi uma coisa muito gostosa. 

 

P/1 – E você lecionou para qual série nessa época? 

 

R – Ah, eu lecionei pra Primeiro ano, lecionei pra Segundo e lecionei pra Quarto ano, e aí eu percebi... Porque eu já vinha do Nossa Senhora de Lourdes com uma preferência pelo Quarto ano. Eu sou muito professora de crianças grandes e adolescentes. Eu me dou muito bem com crianças de toda idade, mas eu gosto mesmo a partir de 10, 11 anos, aí eu acho que a coisa rende, frutifica, uma beleza! Então, eu fiquei mais na Quarta série lá.

 

P/1 – Quais eram as atividades que você elaborava com os alunos? 

 

R – Todo tipo de atividade prevista no currículo. Nós tínhamos um salão na parte de baixo do colégio... A escola era meio num desnível, era meio num declive, então lá embaixo se formou um salão que às vezes era usado para Educação Física, outra vez pra reunião de pais e mestres, ou então bazares, coisas... Os alunos tinham aula de marcenaria nessa época da prefeitura, um artesanato já mais dirigido para a profissão, então ali embaixo era usado para isso. Eu me lembro que a gente fazia até meditação. Nessa época eu estava começando uns cursos de meditação e tal, pegava a meninada, levava tudo pra esse salão lá de baixo, deitava a turma no chão, mandava fechar o olho... Aquilo era uma delícia e você ia dando a matéria. Fechavam o olho e iam meditando e a professora ia falando um ponto aqui, um ponto ali que precisasse de maiores esclarecimentos, então até meditação a gente fazia lá. Era muito bom! Você não dizia pra eles que estava fazendo meditação, você dizia: "Vamos fazer uma coisa bem gostosa, agora vamos pensar no mar, nas palmeiras, fecha o olho, respira fundo". Mas isso era bastante produtivo, era inovador, era produtivo, mas nós que inventávamos com o apoio da diretora. Isso não estava no currículo, né? Era legal.

P/2 – Esse currículo, assim, os professores tinham alguma liberdade sobre as aulas? Como funcionava o currículo? Já vinha inteirinho pronto? 

 

R – O currículo vinha inteirinho pronto, mas como você sabe, o professor sempre tem muita liberdade para passear pelo currículo pronto! Então, isso depende da criatividade do professor, conforme o professor queira, ele vai fazendo os seus atalhos. O importante é que se cumpra aquele currículo. Isso eu sempre fui muito rigorosa e sou até hoje. Cumprir um currículo eu considero um ato de disciplina que norteia os alunos. Para mim isso é muito importante, então eu não fico em digressões: "Para aqui, isso aqui é muito divertido, vamos ficar aqui", não! A gente tem que estar muito vigilante, porque você tem o momento de maior liberdade, de se espalhar um pouco, mas tem um momento de cumprir currículo. E eu acredito nisso até hoje. Nós temos o livro de apoio, na PlayPen...  A PlayPen não adota o livro didático, assim como... O livro não é o guia de tudo, vamos dizer. Nós trabalhamos com o livro de apoio, mas eu faço questão de cumprir o livro na sua integridade. Esse ano, como é um livro muito rico, mudamos o livro de Português. Ele é muito amplo, essa autora faz livros muito amplos, então, nós não vamos cumprir  a totalidade, mas eu vou pinçando um pouco de cada coisa, que é para eles terem até essa noção de eixo. Tem que ter um eixo pra uma atividade, um objetivo, a meta final e a gente tem que cumprir passos pra chegar lá. 

 

P/1 – Que diferenças você sentiu da Caetano de Campos para essa escola que você foi dar aula depois? 

 

R – Como escolas públicas, você diz? Bom, a Caetano de Campos era uma escola de elite, mas não é de elite no sentido de que pessoas grã-finas estudavam lá, não é isso. Ela era absolutamente misturada em termos sociais, o que era lindo, uma escola de alta democracia. Mas ela era de elite intelectual, só entrava na Caetano quem fosse muito capaz. E os professores também eram pessoas muito capazes. Então, se formava um ambiente mesmo de formação de um nível mais elevado, de conceitos políticos, sociais e tudo mais, além da parte instrutiva propriamente. Agora, a escola da Prefeitura era uma escola adequada para aquele bairro onde se trabalhava. Na mentalidade do pessoal que trabalhava ali, mas eu considerei que naquela época dos anos 70 o ensino da Prefeitura era de excelente nível. Ouvi dizer que depois teve fases irregulares, mas na época em que eu lecionei, eu fiquei admirada com a preocupação, com o bom ensino, o fornecimento de materiais adequados, era tudo bastante bom, de boa qualidade. Então, a diferença era essa: que um era uma escola pro mundo, a Caetano de Campos era uma escola que você entrava na USP sem nem piscar; a outra era uma escola de bairro, sem maiores ambições, pra educar as pessoas daquele bairro e depois procurar suas faculdades. Também já era outra época, uma década e meia depois a coisa fica diferente.

 

P/1 – Você saiu dessa escola em que momento? 

 

R – Eu saí em 1977, porque eu tinha dois filhos pequenos e eu era, acho que sou muito onipotente, eu tinha muito receio de deixar meus filhos com babá. Era um costume da minha família, sabe? Então, as mães pressionavam as filhas e diziam: "Eu nunca deixei você com babá. As moças te ajudam, mas você tem que estar olhando e respondendo às perguntas". Então, eu larguei por um tempo, fiquei oito anos só dando aulas particulares até minha filha estar na escola. Minha caçula estar na escola, já firminha na escola, aí voltei a trabalhar. Aí voltei a trabalhar...

 

P/1 – Fala pra mim, em que momento você em que momento você casou, teve filho? 

 

R – Eu casei em 69. Casei em 1969, quando eu ainda estava lecionando no Nossa Senhora de Lourdes, esta sim uma escola de nível social, por isso não havia nenhuma criança de outra proveniência que não fosse as elites socioeconômicas de São Paulo. Ali era uma escola de crianças, vamos dizer assim, netos de Presidente da República, netos de Governador de Estado, era esse tipo de criança que estudava ali: grandes empresários, filhos de grandes empresários, banqueiros e tudo mais. Então, eu estava lecionando lá quando me casei e aí um ano e meio depois eu prestei o concurso da prefeitura. Eu gostava muito de lá, mas, sabe, jovem quer se mexer, quer ver como são as coisas fora daquele mundo. Lá era muito confortável, muito bom, um círculo ótimo para trabalhar. 

 

P/1 – E aí você ficou esse tempo cuidando das suas filhas...

 

R – É. Aí eu fiquei cuidando do meu filho e da minha filha durante um tempo, sempre eu tinha alunos particulares. Eu era procurada pra dar aulas de Português, às vezes de História, às vezes Inglês, e até um pouco de Matemática. Matemática eu tinha que estudar para dar aula, porque já tinha esquecido, estava fora do meu território (risos). Mas eu dava aulas particulares durante esses oito anos. Depois eu fiz a Especialização na PUC em Psicopedagogia, porque eu estava muito ansiosa para voltar a trabalhar. A minha vida longe da escola não era completa, precisa estar lecionando para ser feliz, precisava estar dentro de uma escola. Aí eu voltei numa escola do meu bairro, que é o Colégio Saint Hilaire, que agora não é mais ali nos Jardins, é no Paraíso. Era uma escola polêmica, digamos assim. Tinha fama de “pagou passou”, mas isso era muito mais fama do que outra coisa. Porque mesmo para o “pagou passou”, você tem que fazer um árduo trabalho. Não é simplesmente dizer "Ah, esse aluno está promovido!". Não! O aluno tem que ter uma elevação de autoestima, tem que ter umas aulas extras, umas aulas particulares pra poder prestar aquela prova, ainda que fosse facilitada. Digo pra vocês que no meu tempo não foi facilitada, não. Eu fui coordenadora lá, e eu dava nó no pingo d'água pra fazer com que fosse uma escola direita mesmo, como uma escola tem que ser. Agora, nós lidávamos com alguns casos de alunos que não estavam sendo aceitos em outras escolas. Era esse tipo de escola que aceitava alunos que outras escolas não estavam aceitando ou por questões acadêmicas, ou por questões de atitude. E nós dávamos um jeito nisso ali. E, paradoxalmente, é o trabalho que eu tenho mais orgulho. Eu fiquei dez anos lá, me orgulho enormemente porque eu acho que ali dentro eu realizei coisas que em outras escolas eu não tive nem oportunidade de lidar com aqueles tipos de problemas. Então, foi um período frutífero da minha vida ficar no Saint Hilaire... 

 

P/1 – Tem algum caso que tenha...

 

R – Ah, eu tenho casos de alunos que chegaram lá, assim, desnorteados... Normalmente vinham muitos estudantes que não tinham tido nenhum sucesso e ainda tinham bagunçado o coreto, então saíam de lá com péssima fama. Nós dizíamos: "Vocês rolaram a ladeira", porque o Saint Hilaire era na Peixoto Gomide, uns três quarteirões abaixo. Nós dizíamos "Você veio rolando a ladeira, menino, e caiu aqui?". Então, eu tinha alunos, assim, desnorteados totalmente e que ainda tinha o agravante de ter muito dinheiro. Então, o jovem sem rumo, com muito dinheiro na família, muita viagem, muita coisa, isso é um perigo mortal! O cara que todo mundo dizia: "Nossa, esse não vai a parte alguma, vai é fumar maconha até morrer". Não fumava na escola, não. Nós éramos muito rigorosos, mas haviam essas suposições. E o rapaz saiu de lá, eu fiquei um tempo sem ter notícia, entrou em uma boa faculdade de Direito, se graduou, foi fazer uma pós-graduação no exterior, e hoje em dia é um cara muitíssimo bem colocado na sociedade paulistana e nos negócios. Disso tinham vários casos, estou citando um porquê esse menino deu muito trabalho, muito! Ali eu fui Professora pouco tempo, logo eu fui convidada para ser Orientadora Educacional e depois eu passei a Conselheira, era Vice-Diretora Conselheira, que era uma Orientadora Educacional num nível um pouco mais extenso. Então, eu fiquei muito tempo em escritório ali. Eu fiquei algum tempo lecionando e fiquei muito tempo em escritório. Foram dez anos bons! 

 

P/1 – E depois desses dez anos?

 

R – Ah, depois desses dez anos eu fui para a PlayPen. Porque aí era... A irmã de uma amiga minha era Diretora do primário da PlayPen. A PlayPen nessa época só tinha o infantil, os pequenininhos, e depois o curso primário. Essa Diretora do primário teve uma proposta irresistível de coisa de faculdade e tal, que agora eu nem me lembro o que foi, falou com a irmã dela: "Quem é que nós vamos botar, precisa indicar uma pessoa", porque era comecinho de ano, fevereiro. Aí essa minha amiga telefonou pra mim e falou: "Olha, você não quer falar com a Fulana, porque ela está para sair e está precisando de uma pessoa pra esse lugar". Então, eu pensei que já era a hora de mudar e fui pra lá. O primeiro ano eu fiquei como Diretora do Primário, foi uma experiência interessantíssima porque estava havendo praticamente uma rebelião de pais com a saída dessa antiga diretora, que parece que tinha acompanhado a vida desde que foi fundado o Fundamental I, Ana Maria era o nome da moça. E então, os pais estavam muito inseguros, revoltados e debatendo. Assim, nós tivemos uma reunião acalorada no começo do ano. Eu até me lembro de ter dito "Olha, vocês deem um crédito e um prazo. Não é porque uma pessoa saiu que a escola vai sofrer tanta modificação. Vocês nos deem um prazo!", porque estavam entrando várias professoras novas também naquela época. E aí durante esse ano, eu estabeleci uma relação muito boa com esses pais, graças a Deus. Alguns são meus amigos até hoje e os filhos deles eu vejo as vitórias deles na profissão, já estão todos formados em faculdade, tal. E eu vejo essas vitórias, assim, com muita alegria, eu tenho notícias. Foi um período de transição, meio turbulento, e ao fim desse ano eu pedi demissão. Porque nessa época meu marido me pressionava muito. Ele dizia que queria agora receber muito em casa, nós estávamos nos mudando para um apartamento maior e tal. Ele dizia: "Eu quero muito receber meus amigos, você está sempre envolvida com esse negócio de escola, financeiramente não é nada compensador, então eu prefiro... Você não pode agora me dar alguns anos pra a gente receber, movimentar a nossa vida social e familiar e tudo mais?". E eu topei essa história, foi meio arriscado, mas às vezes a gente, por amor, faz essas coisas. Aí meu marido foi embora de casa. Assim que eu pedi essa demissão, eu saí do colégio em dezembro e ele resolveu sair de casa em janeiro. Eu me mudei pra essa casa grande, nova e tal, e ele resolveu ir embora. Porque os homens são misteriosos, a vida é misteriosa e a gente toma cada susto!!!!!! Você não sabe nem como sobrevive! E eu fiquei, assim, meio sem chão. Eu já tinha feito uma carta para aqueles pais, tinha formado... Porque o difícil é a gente formar uma ideias, você está acostumado com aquele trabalho tão bom e aí de repente vou parar com tudo? E um dia eu estava caminhando, era final de fevereiro, começo de março. Estava caminhando ali perto de casa e caminhava para por a cabeça um pouco em ordem mesmo, porque eu estava desesperada. A minha vida estava sem chão! E aí passou uma moça que era psicóloga do colégio nessa época, Silvia, que era um encanto de pessoa. Ela morava pertinho de mim e ela passou de automóvel e falou: "Oi, Maria Laura, como está? Como vai de casa nova?". Eu falei "Silvia, me telefona porque eu tenho um monte de coisa pra te contar". Aí nós nos falamos por telefone, eu contei pra ela que ele tinha saído de casa, que eu estava, assim, sabe, embasbacada; não sabia o que era aquilo e que a família toda estava um caos, porque foi sem briga, foi sem... Entendeu? Não foi um conflito, de repente... Eu acho que ele se apaixonou por uma moça, depois eu vim a saber, uma moça muito mais jovem, da idade do meu filho. Ele ficou no entusiasmo de homem de 50 anos, deve ter sido isso. E aí conversando com a Silvia, ela falou: "Nossa, Maria Laura, justo agora que você parou de trabalhar. Puxa, que coisa e tal...". Não levou uma semana e eu recebi um telefonema da Guida, que uma professora que havia começado lá na Quarta série não tinha se dado bem, tinha algumas diferenças porque a professora estava vindo do Rio de Janeiro, estava acostumada com outro sistema de escola, diferente, e não se deu bem. Então, ela falou pra mim: "Você não quer fazer um teste para dar aula pro Quarto ano?", eu falei "É tudo que eu quero, tudo que eu quero nesse momento!". E ela ainda falou pra mim: "Você acha que você aguenta, que você dá conta?". Eu falei "Vai ser muito difícil, mas eu vou dar conta porque é uma coisa que eu sei fazer muito bem e que eu gosto!". E aí peguei a Quarta série da PlayPen como professora e foi uma maravilha. Desde então eu sou professora de lá. Eu fiquei um ano como Diretora do primário e 15 anos... Faz 15 anos que eu sou professora lá. 

 

P/2 – Como foi a saída da diretoria e a volta para sala de aula? 

 

R – Muito bom! Eu sempre tive uma sedução pela sala de aula, eu nunca fiquei muitos anos sem voltar um pouco. Quando eu era coordenadora e diretora, eu dava um jeito de substituir uma grávida que saía, eu sempre dava um jeito de ir para sala de aula, porque a sala de aula para mim é o centro do mundo! 

 

P/1 – E como é que foi? Você foi pra PlayPen... 

 

R – Isso. Aí eu fui como professora e talvez tenha sido o ano mais difícil da minha vida porque meu marido tinha saído de casa e meus filhos estavam numa descrença tremenda, querendo largar a faculdade, aquelas coisas que acontecem quando a família se desfaz. E aí meus pais ficaram muito doentes, meu pai já estava muito doente. A mamãe morreu e 40 dias depois o papai morreu. Então, em um ano e meio a minha vida se desestruturou totalmente e enquanto isso eu estava dando aula pro quarto ano da PlayPen. E foi tão bom, tão bom que no final desse primeiro ano, na festa de fim de ano que nós tivemos - que foi naquela escola de circo onde hoje é o Parque do Povo, ali havia uma escola de circo, nesse ano a nossa festa foi lá - teve de surpresa uma homenagem fabulosa pra mim que me deixou comovidíssima. Os pais iam ao palco os alunos, nossa, foi uma coisa maravilhosa. Então, a partir daí foi só lecionar mesmo e com grande alegria e tudo bem. E aí foi se formando o Fundamental II, eu passei pro Fundamental III com uma classe de Quarto ano e fui pro Quinto com eles, quinto e sexto, já fiquei. Aí num sistema polivalente, entrou uma coordenadora excelente, que era a Márcia, e ela apostou primeiro em pedagogia de projetos, então os professores eram meio polivalentes. Então, foi interessantíssimo! 

 

P/1 – E como é que foi trabalhar com essa pedagogia de projetos? Fala um pouquinho mais sobre isso.

 

R – Eu achei que faltava ainda para nós algum fundamento, para os educadores em geral. Achei que não estava bem definido o rumo da pedagogia de projetos naquela época, então não foi uma coisa fácil, não. Foi bastante difícil para tomar decisões. Houve uma época em que nós ficávamos divididos entre um projeto em Português e o mesmo em Inglês. Então, eu trabalhava em conjunto com um professor de Inglês da época, que era um americano jovenzinho muito divertido, então trabalhar com ele era ótimo. Mas a classe às vezes se desorganizava um pouco, então nós tínhamos algum trabalho com a disciplina. De qualquer maneira foi um trabalho que deu seus frutos, mas eu fiquei bastante aliviada quando nós voltamos pro sistema mais tradicional e mais conhecido de ensinar. Eu gosto mais de pisar nesse terreno que já é comprovado através dos anos. Se vier outra vez a pedagogia de projetos, estarei pronta para assumir, não tem problema, não! A gente estuda um pouco, a gente, rebola um pouco e chega lá (riso), mas eu prefiro o ensino tal como ele está sendo feito agora. 

 

P/1 – Mas tem algum projeto com a Márcia que você lembra?

 

R – Ah, nós tivemos projetos excelentes! Tivemos um sobre a água que foi uma coisa fantástica! Tivemos outros de cunho social, naquela época teve os atentados das torres gêmeas, então nós tivemos um big projeto sobre política internacional e respeito às diferenças. Nossa, foi muito interessante, muito interessante.

 

P/1 – E o contato com o inglês, como o bilinguismo?

 

R – Para mim isso foi inteiramente natural. Eu não sei porque se falava na época, havia uns pais que discutiam e eu falava "Gente, mas isso aqui no Brasil existe há muito tempo". Eu tive uma mãe educada no Colégio Sion, ela estudou onze anos no Sion, então, ela vivia no francês. Ela vivia no francês e até a aula de história do Brasil era dada em francês. Só a aula de Português que era em português e de repente em casa falava só em português, de maneira que eu convivi com o bilinguismo desde que eu era criancinha desde pequena. Meus pais, ambos, falavam em francês e quando eles queriam falar lá entre eles era tudo assim! Aí a gente começou a pegar pelo rumo, porque você começa a pescar as coisas e aí ficou meio complicado. Mas era ótimo porque nós fomos aprendendo, então eu nunca achei o bilinguismo nenhuma dificuldade, não. A criança tem uma cabeça muito ampla, aceita várias línguas ao mesmo tempo. Para a criança é como um jogo, aliás é tudo um jogo mesmo. Mas a criança percebe, né? Nós é que somos adultos é que ficamos pondo rótulos nas coisas, mas os jovenzinhos entram no jogo e pronto. Eu acho que o bilinguismo não tem dificuldade nenhuma, não tem dano nenhum! É uma coisa muito positiva, muito positiva. E aí às vezes você pega uma coisa engraçada, você pega uma prova de português onde eles escrevem uma frase praticamente me inglês. As palavras são em português, mas as construções são absolutamente em inglês. Ou então um que vai escrever sobre um fazendeiro e põe assim: "O pai do menino era farmeiro" (risos), coisas desse tipo! Mas a gente está acostumado e sabe que a recíproca pro inglês do português é assim também, então e a gente dá risada, com isso a gente dá risada.

 

P/1 – E isso de ter o inglês e ter o português tem também a coisa de ter a cultura, de ter... 

 

R – Tem, tem. 

 

P/1 – A cultura dos dois países e tal. 

 

R – Não só dos dois países. A PlayPen é multicultural, então tem Inglaterra, tem a Escócia, tem a Austrália, tem Canadá, nossa! É uma escola multicultural, não é só... 

 

P/1 – Com o português, como é feito? Que livros você dá para eles nessa parte da cultura do Brasil mesmo? 

 

R – Ah, eu me atenho a autores absolutamente brasileiros e lusitanos, que é uma concessão, para os mais velhos você tem que dar um Eça de Queiroz, um Camilo Castelo Branco. Você tem que dar para eles conhecerem, mas normalmente eu evito as traduções porque nós temos dois sistemas de leitura: um que é a leitura de escolha pessoal, que o aluno vai fazendo mais ou menos para lazer, mas tem um fichamento, tem uma sistematização. E o outro que a leitura compartilhada, que é um livro oficial para sala, que você lê dentro da sala de aula, é uma literatura de mais fôlego e tudo. Então, normalmente esse da escolha pessoal, eles pegam algumas traduções bem feitas, mas o que eu exijo é que venha me trazer para eu ver qual o tradutor: "Posso ler tal coisa?" "Traz aqui para eu ver quem traduziu". Então, se tiver uma tradução boa, a escolha pessoal está ótima; os alunos da PlayPen são ávidos leitores, graças a Deus. Eles têm essa cultura do livro desde muito cedo. A PlayPen privilegia a presença do livro na vida da crianças. Porque hoje nós temos que nos contrapor aos jogos eletrônicos, à Internet, então você tem que batalhar pelo livro. Agora, o livro é outra coisa que é uma sedução total! Começou a ler, eles começam a ler Primo Basílio indignados, indignados! "O que é isso? O que este homem está falando, como assim?". Quando chegam no terceiro capítulo: "Nossa, esse livro é bacanérrimo, nós estamos adorando!". Então, tive aluna este ano, uma moça bem escolada que está saindo este ano - ela é toda socialite, vive indo para Califórnia, para Las Vegas - e chegou para mim e falou assim: "Maria Laura, o Primo Basílio foi o livro mais lindo que eu li em toda a minha vida e eu passei na Livraria Cultura e trouxe isso pra você!", e me trouxe um livrinho de citações do Eça. Olha, que maravilha! Eu nem conhecia esse livrinho, então é ótimo, agora eu leio aquelas citações lindas, tão úteis pra vida da gente. E ela conheceu por conta própria a partir de uma literatura que seria chata pra uma jovem dessa idade. Então, tem essas coisas, livro é sempre uma surpresa. 

 

P/1 – E você vivenciou a reforma do prédio a saída para…?

 

R – Tudo, tudo. As dúvidas e votos, os choros e angústias, momentos de vitória, tudo, tudo. 

 

P/1 – Como é que foram esses momentos de passar para outra casa?

 

R – Olha, a gente sempre tem muita boa vontade para se adaptar. Eu noto na equipe toda, na equipe da época, porque agora é outra equipe. Mas sempre notei isso nos lugares onde eu trabalhei: professor é um tipo de pessoa que quer... É gente do bem mesmo! Dizem por aí que o Serra é do bem (risos), mas eu digo que o professor é do bem! Porque a gente procura se adaptar a tudo e procura tirar um caldo ainda, de tudo, de todas essas experiências, mesmo dos tropeções, você procura tirar um caldinho, de aproveitar uma lição e passar isso para os alunos. Então, foram processos difíceis, não vou dizer que foi fácil, nada disso! Nós tivemos época de insegurança, épocas de muita preocupação: quando interditaram a construção, quando nós ficamos na casa alugada a título precário porque aquela casa durante o dia era usada como escola, mas durante os sábados e domingos ela era alugada para festas, acho que vocês já devem ter ouvido falar nisso. E aí os nossos móveis eram todos etiquetados e empilhados em um depósito lá e na segunda-feira tinha que por tudo no lugar. Aí teve uma denúncia, não sei que Zé Mané foi denunciar que a escola estava funcionando num lugar que era casa noturna. Então, sabe, a gente passou por muitos percalços, mas no fim acabava todo mundo dando risada. E nós trabalhávamos muito em prol da escola, saíamos para fazer coleta de abaixo assinados pelo bairro, fazíamos a maior propaganda boca a boca que os boatos que estavam ocorrendo não eram verdadeiros, que a escola estava lutando muito e que ia conseguir. E conseguiu mesmo, graças a Deus conseguiu estar firme, maravilhosa, progredindo, fazendo aqueles congressos magníficos, agora de dois em dois anos. Então, tudo deu certo, mas foram períodos turbulentos. 

 

P/1 – Você lembra de alguma situação de sair para recolher assinaturas e as pessoas... 

 

R – Me lembro do sol que a gente tomava na cuca. Eu já era uma senhorinha, assim, meio avó, puxa vida, tinha um sol louco. Aí eu parei, passei a fazer serviço burocrático (risos). Todo mundo saía e eu ficava lá dentro, escrevendo coisas. Era melhor, porque aquele sol era forte, era muito forte, e não forte só. Algumas pessoas não compreendem de jeito nenhum e tratam... Você chega lá de jaleco, porque naquela época nós trabalhávamos uniformizados - e eu trabalho até hoje, porque eu guardei meus jalecos, hoje em dia não existe mais uniformes para professores de Fundamental II. Mas nós batíamos no portão da casa de jaleco, credenciados com o distintivo da escola e tudo mais. E havia pessoas que nos tratavam como se nós fossemos, assim, perigosos; ou então como se nós fossemos pessoas que não merecem nenhuma consideração; o empregado se recusava a chamar a patroa e por aí afora. Então, você tem que lidar. Tivemos até que ouvir algumas coisas assim: "Ah, mas nós não queremos essa escola aqui, porque aí vai ficar esse monte de carro de pobre estacionado na nossa rua!", porque professor é pobre mesmo, nós ganhamos pouco e temos carros que são úteis. Nenhum de nós tem BMW, nem Mercedes, nem coisa nenhuma. Ah, o comentário lá de uma senhora da casa: "Ah, mas nós vamos ter que aguentar esse monte de carro de pobre parado aqui!". Então, agora está um mar de carro de pobre parado ali, porque não só a PlayPen, mas tem alguns escritórios, tem um laboratório do outro lado da avenida. A cidade muda, o perfil muda, tudo muda, então agora tem carros populares estacionados ali para escolher, pode escolher! E são ótimos, todos eles nos levam aonde a gente quer chegar. 

 

P/1 – E como foi a volta pro prédio novo, reformado? 

 

R – Foi uma delícia! No começo nós estranhamos bastante porque quando você entra, você está com aquela alta expectativa. Um prédio novo, desenhado por dois arquitetos famosíssimos, então você vem cheia de expectativas. Aí você chega lá, a sala é abafada, bate sol demais, não tinha banheiro para os professores, como não tem até hoje. Nós não temos um banheiro separado para os adultos, então aí a gente começa a resmungar: "Puxa vida, mas tantos anos para construir, e de repente esse prédio não está tão adequado assim as nossas necessidades". Mas eu acho que isso é meio choradeira de criança que queria que a mãe desse mais um presente além do que já tinha. Acho que é meio assim... Agora nós já estamos super acostumados no prédio, agora já é a nossa casa mesmo.

 

P/1 – E nesse momento também teve um processo de reestruturação, com mudança de equipe e tal? Como é que foi isso? 

 

R – Ah, de tanto em tanto tempo tem, né? Todo estabelecimento tem. Nós já estávamos na casa nova já fazia um bom tempo quando houve a mudança da diretoria, porque a Márcia se aposentou - Marcia Plessmann, que era a nossa coordenadora do Primário e do Fundamental II. E aí veio a Celia Tilkian. No começo a gente estranha um pouco, porque é outro método de trabalho, sempre se exige um tempo de adaptação, não tem jeito. Mas foi ótimo também, deu muito certo. Com a Márcia nós éramos unidíssimos. Uma porque ela era uma pessoa agradabilíssima, super competente, uma grande amiga e tudo; e outra porque nós passamos por todas essas aflições de construção, de interdição, de vai e de volta e de vamos ver não sei quantos prédios para alugar, e isso e aquilo - passamos por tudo isso juntas. Então, era uma grande união e no momento em que ela saiu, todo mundo que permaneceu lá estranhou. Aí depois com a vinda da Célia, depois de um certo tempo, foi sendo substituída aos poucos. Da equipe do tempo da Marcia restou só eu, não tem mais ninguém daquele tempo no Fundamental II. No Fundamental I tem outras pessoas, que aí já é outra coordenação também. Tem uma coordenadora agora só pro F1. Mas no Fundamental II, eu sou remanescente. Eu sou a memória da turma, porque eu estou desde que esse Fundamental II passou a existir até agora. 

 

P/1 – Quais foram as maiores mudanças que você observou nesse Fundamental II desde que você entrou até hoje? 

 

R – Eu acho que agora tem mais alunos, muito mais. Acho que tem um dinamismo também que esse crescimento impõe. Mas no espírito da escola, na maneira de ensinar, nos objetivos principais da escola eu não vi mudança, não. É uma interpretação diferente do mesmo tema, sabe? Eu acho que a escola é muito coerente e vem vindo numa evolução dentro do mesmo tempo de educar para crítica, pro humanismo, para discussão de temas, não impor coisas, mas debater assuntos. Então, isso foi sempre assim, e eu acho que continua assim. Então, agora eu acho que nós já podemos dizer que foi sempre assim, porque foram 30 anos. Acho que vai continuar! 

 

P/1 – Você falou dos congressos e tal. Como é que se dá a formação dos professores lá dentro da PlayPen? 

 

R – Bom, eu vejo que os professores todos procuram muitos cursos, muitas pós-graduações, todo mundo atende a congressos, quando há encontros, essas coisas. A própria escola é muito preocupada com isso, especialmente quanto à questão do bilinguismo, né? Então o Lyle French resolveu organizar esse congresso e teve uma grande aceitação. Antes desses congressos, a Guida fez um movimento desse tipo, quando ainda não estava construída a casa nova. Ela fez um congresso, um encontro mesmo de diretores de escolas bilíngues inglês-português do Brasil todo. Acho que isso funcionou por dois anos, se não me engano. Foi agradabilíssimo. Sabe, vinha pessoal de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Goiás, Mato Grosso, Rio de Janeiro, foi interessantíssimo. Aí depois a coisa cresceu muito porque já havia muitos espaços, se interrompeu por dois anos, mas havia espaço físico, havia o Lyle French na Diretoria do Inglês, que isso foi uma das coisas da transição. Nós passamos a ter uma Diretora Pedagógica pro Português, que era a Célia, e um Diretor Pedagógico para o Inglês, que era o Lyle. E aí ficou muito boa essa questão de organizar congresso mesmo. Ele começou o primeiro para ver o que acontecia, e teve uma resposta excelente. Então, os congressos têm sido um melhor que o outro. São enriquecedores, imensamente enriquecedores. A gente conhece um bando de pessoas para trocar ideias ótimas então, isso é muito bom.

 

P/1 – E a relação dos pais da escola? Como é que você vê isso, assim? 

 

R – Dos pais com a escola? Eu acho que é boa. Eu estou meio afastada disso. Com os pais do Fundamental II, eu vejo que é muito boa. Quando a gente tem as reuniões, a gente conversa com grande facilidade, é um canal que flui bem e tal. Eu acho que de modo geral é uma relação bastante boa e agora o colégio já organizou isso, já sistematizou. Toda semana existe uma reunião grande com o pessoal da diretoria e vem muitos candidatos a pais de alunos para conhecer a escola. Então, tem primeiro uma conversa na biblioteca, depois eles visitam os recintos da escola, isso já está muito bem estabelecido. Eu vejo que sempre tem quórum, viu? Tem bastante gente. Ontem mesmo teve reunião e depois passa aquela turma ali na porta da nossa sala e como nós temos na porta da sala, eles param para ver as atividades do Fundamental II. Eles vão colocar criancinha de dois anos, mas já querem saber de tudo. Então, eu vejo que tem uma movimentação muito grande nesse sentido. Eu acho que tem uma relação com os pais bastante boa, porque a procura só tem crescido.

P/1 – E as bienais?

 

R – Ah, as bienais são um caso à parte! As bienais são um caso à parte... Surgiram de uma ideia que a Márcia teve, inteiramente artesanal, uma coisa inteiramente empírica. Na primeira bienal a gente teve um "tour the force", como diziam os meus avós. A gente fazia aquele esforço extraordinário para conhecer o caminho, para saber como era a história. E você sabe que inconscientemente isso sempre se revela, porque na primeira bienal nós colocamos, no chão, pegadas de papel para indicar o que estava em que sala, e tal coisa. Então, era um retrato da nossa própria busca, você põe as pegadas ali porque você está procurando o caminho mesmo. E desde a primeira, já nos deu um enorme prazer, um trabalho tremendo e uma resposta muito grande, porque os alunos embarcaram com mala e cuia na coisa! Eles acharam maravilhoso fazer aquilo. E aí na primeira nós falamos "Como nós vamos fazer?", porque não havia propriamente um setor de artes. Não havia, como há hoje, uma sala de artes, professora específica de artes e tudo o mais. Então, como nós vamos fazer isso? Aí eu tinha uma prima jovenzinha que estava estudando Artes Plásticas e que estava muito entusiasmada com... Agora eu não vou lembrar o nome do negócio, mas é uma coisa parecida com monografia. Você põe um acetato em cima de uma tinta, como se fosse a reprodução de um autor famoso e coloca um nome terminado em "ia", mas eu não vou lembrar o nome dele agora. Então, nós não sabíamos o caminho e falei: "Gente, esse método aqui é muito bom. Vamos fazer do livro da Tomie Ohtake? Vamos fazer as reproduções com esse sistema: você põe o acetato na tinta e depois aquilo na folha do papel? Que é uma coisa fácil para os alunos, possível". Aí a primeira bienal foi calcada mais ou menos nessa técnica artística. Foi muito bom, eles acharam extraordinário ver o resultado do trabalho deles. E a Tomie foi, sensacional! Ela foi super simpática, estava lá. A editora que... A Berlendis & Vertecchia, que foi o livro base, nós fomos buscar na Berlendis. Eles trouxeram uns painéis grandes, era um pessoal que também dava uma grande assistência. A diretora lá era excelente, até uma pessoa que já faleceu, mas ela era ótima, nós tínhamos um grande trânsito com ela. E aí como a primeira bienal foi um grande sucesso, nós passamos... A primeira eu acho que nem foi da Tomie. A primeira foi da gota d'água... Será que foi da Tomie? Eu já estou confundindo muito as coisas, gente! Já é conhecimento demais, mas nos outros depoimentos vocês sabem quem foi a primeira.  

 

P/1 – Tudo bem! 

 

R – Eu sei que teve sempre uma resposta boa que nos incentivava para a próxima. Aí surgiam novas ideias e começou a haver o departamento de artes. Então, a professora de arte conhecia o Turco; uma Tereza que é nossa assessora hoje em dia trouxe o Glauco Rodrigues em pessoa para fazer uma vivência com os alunos, então eles montaram, fizeram todo um estudo da literatura de cordel e da arte de ilustração do cordel. Foi uma beleza! Aí a coisa começou a progredir cada vez mais. Na medida do possível os autores estavam presentes: o Ianelli esteve presente conosco; o... Não é o Glauco Rodrigues, que não pôde estar presente conosco porque estava muito doente, mandou um DVD. O Faria, Guilherme Faria veio e fez essa coisa do Cordel. O Moacyr Scliar, que tinha feito a parte de texto do livro mandou uma carta amabilíssima, porque não pode vir; estava no Rio Grande do Sul na época e não pôde vir. Nós sempre tivemos muito eco, muito aporte desses autores, eles aceitaram isso com grande entusiasmo. Nós ficamos até sabendo que no ano... Nós fizemos a bienal com a obra da Tomie, e aí teve o aniversário dela. Os alunos mandaram flores, um cartão e tudo mais. E aí o Ianelli foi á festa na casa dela e falou assim: "Ah, eu estou com inveja, eu também quero participar dessa bienal". Então, ele viu o que ela tinha recebido dos alunos da Escola PlayPen, ela contou a história da Bienal e ele falou "Ah, também quero!" e no ano seguinte foi ele. É um movimento muito bom.  

 

P/2 – E olhando para a bienal, como você vê a importância delas para os alunos? 

 

R – Ah, a importância é enorme porque arte é uma questão de sensibilização e quando você passa meses falando de um determinado assunto e construindo pouco a pouco aqueles trabalhos e tal - alguns são coletivos, outros são individuais, mas a gente está sempre discutindo -, você desperta toda essa inquietação que a gente deseja que a arte desperte no aluno mesmo. Então, a bienal tem uma função fantástica! Ela atrapalha muito o andamento do currículo, não vou dizer que não! Atrapalha pra chuchu! Nosso segundo semestre fica, oh! Tem hora que a gente fala "Estou por aqui dessa bienal, ninguém mais aguenta!", porque realmente atrapalha o andamento do currículo. Agora, traz outras vantagens, como tudo na vida, tem os dois lados, tem um lado positivíssimo. 

 

P/1 – Certo. E ao longo dessa sua carreira na PlayPen, quais foram os principais desafios que você considera? 

 

R – Os principais desafios? Eu não saberia te dizer. Eu acho que o desafio é diário. Não tem, assim, um desafio pontual que você diga: "Isto aqui foi um grande desafio pra mim" (risos), não. O desafio é diário, toda manhã quando a gente levanta, eu venho pelo trânsito repassando a minha aula que preparei para dar naquele dia. Isso é que é o desafio. E é um desafio gostoso, é a adrenalina necessária para a gente continuar aprendendo mais, buscando mais, dando mais e recebendo mais, isso sem dúvida. Mas eu não colocaria um desafio assim: "Isto aqui é um grande desafio". 

 

P/1 – E as maiores alegrias? 

 

R – Ah, todas! As maiores alegrias são todas. Também tem alegria todo dia (risos). Tem alegria todo dia: a gente ouve coisas inusitadas, presencia cenas que você nunca imaginou que fosse se desenvolver daquela maneira tão boa. Você, sabe, aprende com os alunos, aprende com os companheiros de trabalho, as alegrias são permanentes. Aquilo é uma fonte de alegria, uma alimentação permanente pro intelecto, pro espírito, pra alma, é muito bom mesmo. 

 

P/1 – E sobre a inclusão de alunos com necessidades especiais, você vivenciou isso também? 

 

R – Estou vivenciando agora mesmo, vivencio já faz uns anos. E digo para você, quando veio a primeira aluna com necessidades especiais, quando ia vir pra minha sala, eu fiquei apavorada. Porque quando a gente fica um pouco mais velha, fica meio engessada, fala "Eu já não vou saber fazer isso!", o que é uma bobagem, mas existe essa fantasia. E aí, quando chegou, que era uma menina até impossibilitada de se movimentar, nossa querida Ana Clara, que está terminando o colegial, no Gracinha agora e tudo mais, ela não se movimentava, falava de uma maneira ininteligível. Então, era a maca ligada na tomada, com grande barulho e tudo mais. Ela só se movimentava alguns dedos de uma mão, e miraculosamente tinha a letra mais bonita da classe. Se vocês vissem a posição para a escrita, não dá nem para acreditar que aquela letra era dela. E ela desenhava divinamente, deve desenhar até hoje, e escreve com uma letra lindíssima. Então, assim que ela chegou, era aquele... Eu fui à Igreja de São José: "Por favor, São José, me ajuda!", eu sempre vou lá entregar os alunos! "Me ajuda, eu preciso saber lidar com ela. Isso é uma coisa muito delicada, o senhor tem que me ajudar com ela!". Foi uma facilidade, foi uma beleza. Uma aluna atenta, com uma acompanhante muito simpática. Sempre variava, as acompanhantes não eram as mesmas, mas as que vieram foram bastante simpáticas, muito colaboradoras. Fizemos logo um entrosamento, uma empatia. Ela foi uma ótima aluna, se formou com muita boa nota, entrou no Gracinha sem nenhuma dificuldade. Então, sabe, esse negócio de inclusão é mais um fantasma que a gente põe assim, do que uma coisa que no dia a dia se revele difícil. Ontem mesmo a minha menina de inclusão do nono ano, que é Síndrome de Down, fica lá com uma professora também acompanhando, fez uma exposição ótima num trabalho sobre nanotecnologia, tudo isso ligado à Língua Portuguesa. Então você fala "Nossa, nunca vai sair!". Saiu ótimo, participando num grupo de três alunos, ela com a maior desenvoltura, muito alegre, muito feliz, tanto que quando eu entrei na sala, aquele grupão, eu falei "Quem vai ser o primeiro a apresentar? Qual vai ser o primeiro grupo?". O movimento é assim: "Não, eu vou depois". Ela levantou a mão imediatamente! Levantou a mão e já veio pra frente expor o negócio dela, trouxe os cartazes, vieram os amigos. Então, a inclusão transcorre, transcorre. É uma coisa dificultosa também. As classes que têm alunos de inclusão têm sempre algumas desvantagens com isso e alguma vantagem no aspecto humano, isso não resta a menos dúvida. Você não pode dizer "Ah, é uma classe igual a todas as outras!". Não é, não. Não é! Classe com caso de inclusão é classe diferenciada, mas transcorre muito bem. E isto eu digo para vocês, surpresa para mim porque eu achei que isso era uma invenção de moda que não ia dar certo, mas dá! 

 

P/1 – Então, vamos pensar um pouquinho o futuro. Como você vê a PlayPen daqui a cinco anos? 

 

R – Ah, eu vejo a PlayPen muito bem. Eu acho que a PlayPen logo vai ter que ir atrás de mais prédio, porque tem muita procura. O plano inicial da Guida era ter uma classe de cada, mas depois com essa procura toda, a gente vai cedendo, né? O dique vai deixando a água passar, porque não é possível segurar. Eu acho que é difícil segurar. Então eu acho que daqui a pouco já vai haver outro prédio, sem dúvida. Só não vejo muito que vai haver Ensino Médio, essas coisas, que eu não vejo necessidade. Acho que PlayPen está magnífica como está, como uma escola do básico. Ela faz o Infantil e o Fundamental muito bem feitos, então nem vejo... Porque tem pais que falam “Eu queria que tivesse o Colegial, por que você não monta o Colegial?". Eu acho que aí já começa a escapar do controle, já vira uma escola igual a todas. Não é que eu seja contra a todas, não. São muito boas, só que a proposta é diferente, né? Então, para manter esse diferencial da proposta, é muito bom que ela fique como está, como uma escola de Infantil e de Fundamental. Agora, vejo uma escola progredindo muito, só tem progredindo nos últimos anos. 

 

P/1 – E a educação no Brasil, de uma forma geral? 

 

R – Educação no Brasil de uma forma mais geral é uma coisa muito preocupante. Eu estou pensando se estas angustias minhas são devidas a essa idade ou se o mundo está mesmo ficando muito diferente. Porque hoje em dia você vê professores formados cometendo erros básicos de português. Eu vou falar da minha área, tá? Eu vejo outras coisas também, mas eu vou falar da minha área. Então, a gente fica muito assustado, muito assustado. Por que o que está acontecendo atrás da educação desse professor? Por que ele não fala sem erros, não escreve sem erros, se ele fez o mesmo estudo, estudou o mesmo número de anos que eu estudei e eu aprendi bem e ele aprendeu meio, assim? E isso eu acho que a educação no Brasil está muito rebaixada, está havendo um descaso, não sei. Parece que vai da valsa, do que jeito que for está bom, o importante é ter um diploma na gaveta. Eu estou meio... Estou até pensando se eu vou escrever um livro sobre tudo o que eu já vi nesses 44 anos de estrada, sabe? Estou até pensando, porque o nível realmente está discutível e nós vamos precisar tomar providências drásticas. Vocês viram os rankings de conhecimentos gerais, de Matemática e internacionais esse ano, né? A gente está lá no fim da fila, a gente está lá praticamente junto com os países da África. E isso não se justifica, nós somos um país em pleno crescimento, em pleno desenvolvimento, então a educação tem que se adequar e vai ser rápido, em prazo breve. Agora, parece que a nossa nova presidente está disposta a investir em educação, tomara, né, tomara. 

 

P/1 – E só voltando um pouquinho sobre a sua família, fala um pouquinho sobre os seus filhos. O que é que eles fazem? 

 

R – O meu filho mais velho é formado em Economia, foi casado durante seis anos, é separado. Eu tenho uma netinha chamada Manoela, que é um encanto, que estudou um pequeno período na PlayPen. Agora ela estuda no Gracinha. E tenho uma filha que é... largou o Direito no último ano de estudo para ser promotora de eventos, gente! Largou a PUC no último semestre. É de enlouquecer uma mãe ou não é (risos)? A gente tem que continuar lecionando, dando aula e estar com a cabeça, assim, que parece um vespeiro. Então, agora ela é promotora de eventos há vários anos, casou-se com um rapaz muito bom, franco-brasileiro. Ele é francês e brasileiro, foi criado aqui e moram em Itu. Tenho agora um netinho chamado Felipe, filhinho deles que é um encanto. Estou apaixonada! O Felipe agora está com quatro meses, está uma delícia, uma delícia. Os dois foram fazer coisas que nem o pai deles e nem eu esperávamos que fosse assim. Filhos são uma grande caixa de surpresa, mais que alunos. O filho mudou de faculdade três vezes até conseguir terminar Economia e achar que aquilo estava bom. E ela largou Direito no finalzinho, então nós esperávamos ter filhos que prezassem o ensino acadêmico, que fizessem uma carreira como ele fez. O pai das crianças é advogado, muito conhecido e eu sou professora há muito anos, então a gente esperava isso, uma vida tranquila. Mas a vida não é tranquila. A vida em si não é tranquila, então é assim a história. 

 

P/1 – E que diferenças você vê na educação que você teve na Caetano de Campos para a educação dos seus filhos?

 

R – Para a dos meus filhos eu não vi grande diferença. Não se é porque a gente tinha muita preocupação em casa de dar um suporte permanente, então eu não vi grande diferença, não. Agora, dos meus filhos pra cá, eu tenho visto alguma coisa. É difícil falar porque a gente teria que se aplicar, focalizar bem para falar uma coisa procedente. Mas é um feeling, assim. Na turma dos meus filhos eu já via isso, assim, pessoas cometerem erros ao falar, o que seria inadmissível para aquela pessoa; ao escrever, tudo isso nos deixa meio perplexos. Eu falo nos deixa porque meus próprios filhos questionam isso. Eles recebem nos e-mails: "Mamãe, por que tal fulana que fez tal faculdade maravilhosa escreve desse jeito?". Eu falo: "Não sei, meu filho, não sei. Acho que vai ver ela está muito preocupada com outras coisas e está escrevendo meio mal". Porque realmente eu não sei, essa é uma coisa que eu vou ter que pesquisar. 

 

P/1 – E nas horas de lazer? Quando você não está na sala de aula? 

 

R – Você fala na vida em geral, além da escola? Eu sou uma pessoa muito sossegada, muito caseira, adoro ler. Curiosamente não gosto de viajar. Eu viajo muito por dentro da minha cabeça! Então, eu leio bastante. O fato de ter um ótimo grupo de amigos... Viajo um pouco, quando não tem jeito eu vou. Aí chega lá, eu gosto, mas eu só vou quando não tem jeito. E estou sempre, assim, muito perto dos filhos, muito perto dos netos. Eu gosto da minha casa, eu sou uma pessoa muito caseira. Eu acho que em casa você tem riquezas inexploráveis. Não falei que eu não achei as fotos para trazer para vocês? A gente tem lá as cavernas de Ali Babá! Em casa tem coisas para ver que a vida inteira ainda é pouco, livros para ler e tudo mais.

 

P/1 – Certo. Tem mais alguma coisa que a gente não perguntou e você queria deixar registrado? 

 

R – Não. 

 

P/1 – Então vamos pra avaliação. Como você compara as escolas outras que você trabalhou com a PlayPen? Quais são as diferenças ou semelhantes?

 

R – Eu não comparo, não. Eu acho que cada escola tem as suas características. Estão todas dentro de uma mesma tônica, que é fazer o melhor pelos seus alunos, então eu acho que isso não admite comparações. Isso admite mais paralelos do que comparações. Eu não comparo, eu considero que todas as experiências que eu tive trabalhando até hoje foram extremamente válidas. Quando eu olho para trás, eu falo: "Meu Deus, isso não é possível! Ou eu sou uma Poliana, ou a coisa é muito boa mesmo". Porque eu acho que as experiências foram validadíssimas e uma foi complementando a outra. Um experiência vai complementando a outra. Quando a gente tem olho pra enxergar, você vai vendo a oportunidade que a vida vai lhe dando de aprender uma coisa ali, acrescentar outra coisa lá e resolver uma dúvida que você tinha e assim vai. É um movimento ascendente, sabe? Então, eu acho que todas foram experiências muito válidas. 

 

P/1 – Como você avalia o impacto da passagem pela PlayPen na sua vida pessoal, na sua vida profissional? 

 

R – Ah, eu acho excelente, excelente! Minha primeira experiência com uma escola bilíngue e foi definitiva. Eu acho maravilhoso! E provavelmente vou encerrar minha carreira na PlayPen, porque agora eu já estou mais do que na idade de me aposentar, com 65. Agora eu preciso fazer outras coisas, por enquanto eu não tenho coragem. Todo ano eu digo: "Ah, este ano acho que é o último!", aí chega no final do ano e eu digo: "Não, o próximo ano vai ser o último!" e assim vem sendo. Então, é uma experiência importantíssima na minha vida profissional, muito importante. 

 

P/1 – O que você acha da PlayPen está comemorando os 30 anos por meio... 

 

R – Nossa, uma maravilha! Uma grande vitória. A Guida batalhou muito para isso e conseguiu. É uma beleza você ver uma pessoa batalhar e vencer. Então, é uma grande vitória, tem todo merecimento e nós ficamos todos muito orgulhosos. Eu fico muito orgulhosa de ter minha parcelinha de participação nesse processo. É muito bom, uma coisa revigorante ver como a PlayPen está bem e como a perspectiva é estar cada vez melhor. 

 

P/1 – E o que você achou de ter dado essa entrevista? 

 

R – Achei muito bom, achei muito bom. A gente vem, assim, pensando: "O que será que vai ser essa entrevista? O que é que vão me falar?". E depois chega aqui, é tudo tão... De repente eu vivi coisas tão importantes, tão... Fui vendo até um encadeamento da minha vida. Fui botando em ordem para mim coisas que eu não tinha nem preocupado em ordenar antes. Foi excelente! Muito obrigada. 

 

P/1 – A gente que agradece em nome da PlayPen e do Museu da Pessoa. 

 

R – Obrigada! 






Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+