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Desabandono

História de: Robson de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/06/2016

Sinopse

Nesta entrevista, Robson nos conta sobre sua infância e juventude, sendo abandonado pela sua mãe biológica e também pelo pai de criação. Foi morar na rua, onde se juntou a diversos grupos de meninos de rua. Nos fala que teve ajuda para sair da rua, mas foi depois de uma tentativa de abuso que encontrou uma mudança radical no juizado de menores, onde conseguiu um estágio e um lugar para ficar, encontrando um dia com Zezé Motta, que iria adotá-lo e cuidar de si. Nos diz sobre sua atuação com os meninos de rua para trazê-los aos abrigos e ao contato com a arte, onde encontrou Stepan Nercessian e começou a trabalhar na administração do Retiro dos Artistas.

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História completa

Meu nome é Robson de Souza. Nasci em vinte e um de setembro de 1981 em Nilópolis, Rio de Janeiro. Minha mãe biológica é Regina Célia de Souza e a vi só por 15 minutos. Nunca conheci meu pai. Quando eu estava para nascer, me teve, chegou para essa vizinha e falou assim: “Eu precisava que você tomasse conta do meu filho só para eu resolver umas coisas, tá aqui a certidão dele, tá aqui um pacote de fralda”, e depois nunca mais apareceu. Fiquei com a vizinha, dona Isabel, que tinha três filhas e era casada com o seu Almeida. Com oito anos, eu comecei a perceber que eu era diferente da família. Eu não me lembro brincando. O que eu lembro são as brigas, as discussões, porque eu não participava de nada coletivo. E aí, a dona Isabel faleceu de um derrame cerebral e com quem que eu fiquei? Na mão do seu Almeida, que não gostava de mim. As garotas foram cada uma morar com a sua família e eu fiquei com o seu Almeida. E aí, a minha vida começou a virar um inferno. O seu Almeida me tirou da escola. “Negócio é o seguinte, quando eu for trabalhar, vai ficar na rua, eu te dou o café e tu só volta à noite”. Eu ficava andando o tempo todo. Um certo dia, se passaram dois, três meses, eu cheguei em casa e estava lá um cadeado, ninguém me atendia, então a moça do lado falou: “Olha, ele já se mudou”.

 

Eu comecei a dormir na rua. Eu fiquei lá, o calçadão era a minha casa. Eu nunca passei fome na rua. Eu fui abordado por um grupo de meninos de rua de Nilópolis e me chamaram pro seu grupo. Fumava mirrola e a gente cheirava muita cola de sapateiro pra ficar atento. Uma vez, um taxista de madrugada, falou assim: “Eu tô sabendo que vocês estão roubando os táxis aqui na área. Eu vou meter tiro em todo mundo”, quando ele falou isso… quando ele começou a contar, já não tinha mais ninguém na frente dele, eu correndo, correndo, correndo. Corri para dentro da estação de trem, porque, na minha cabeça, eu imaginava que a estação de trem é um lugar que vai me levar no coração, onde eu ia encontrar as pessoas. Quando eu penso no calçadão de Nilópolis, me passa muito movimento e eu me lembro que a dona Isabel me levou num lugar que tinha um relógio enorme e que passava muita gente, muita gente mesmo, que era a Central do Brasil. Eu falei: “Opa, vou pegar o trem porque eu sei que esse lugar é o ponto final do tem. Aqui eu não fico mais”. Minha infância foi comendo pastel e caldo de cana, joelho e quibe. Na Central do Brasil, as coisas já eram mais diferentes, os garotos já tinham mais maldade, vinham com papo de roubo. E esse Capoeira era o líder, ninguém na rua fica sem líder, era para me proteger dos outros, porque tem o pessoal da Central, mas tinha o pessoal da Candelária, tinha o pessoal da Cinelândia, tudo separado, eu não posso sair da Central e sair pedindo lá na Candelária, que aquela não é a minha área. Usávamos um banheiro lá na Central, em qualquer restaurante. Tomar banho na praia, no chafariz, vai em qualquer lugar, não. Com roupa, as garotas de programa ali da Central do Brasil ajudavam. Mas sempre descalço.

 

Naquela época, eu tinha isso na cabeça, eu sempre imaginei que posso morar na rua e não ser menino de rua, sabe? Eu não tava ali, seu Almeida me joga na rua e pronto. A pergunta que eu fazia: “E aí? Me joga na rua e vou ficar na rua? É assim que eu vou viver? Não vai ter alguém ninguém que vai falar: ‘Vem ser meu filho, vem…’?”, eu precisava de respostas disso. Cheguei a ficar um ano sem sair. Aí, “Opa, eu tô reparando que todo mundo, toda vez que o trem chega, é uma correria para pegar o trem, antes dele abrir a porta, idoso não conseguia, quando chegava…”, imagina, ir de pé até em casa? Aí, eu falava assim: “Vaga no trem, vaga no trem”, a mulher falava: “Vaga no trem?” “Eu consigo uma vaga para você, a senhora consegue um dinheiro para mim?” “Sim”, aí eu comecei vender a vaga no trem, comecei a ganhar muito dinheiro assim. Aí fiquei famoso na Central vendendo vaga no trem.

 

Então, um dia eu conheci um rapaz chamado Júnior, que tinha uma bomboniere dentro da Central do Brasil. Ele falou: “A partir de agora, você vai trabalhar para mim só com isso, você não vende as vagas no trem e é meu funcionário, eu vou pagar seu almoço, sua janta, seu café e ainda comprar roupa nova para você”, e ele começou a mudar a minha vida. Escrevi um livro falando sobre tudo isso, botando o nome de cada pessoa que foi importante na minha vida. Um certo dia, eu tava na Central do Brasil, um cara e uma senhora resolveram: “Você quer dormir lá em casa?”, me levaram para a casa deles lá em Ricardo de Albuquerque, sendo que o cara não era nada casado com a mulher, era vizinho e aí, o cara falou assim: “Olha, chega aqui, dorme aqui na minha casa, eu não queria falar que a gente não era um casal pra tu não ficar com medo, eu tô precisando de um filho, eu quero te ajudar…”, quando eu cheguei lá, o cara tentou me agarrar, ele segurou a minha roupa toda e eu fui pelado até o corpo de bombeiros de Ricardo de Albuquerque para denunciar ele na Primeira Vara da Infância e Juventude, ali, na Praça Onze. Chegando lá, eu fui atendido pela dona Joice, eu conheci um juiz chamado Siro Darlan, contei esse caso disso que aconteceu, aí ele falou assim: “Presta atenção, se você prometer para mim que vai para o abrigo e vai estudar, eu te prometo que tu vai trabalhar aqui, vai ser nosso estagiário”, e aí, eu fui para um abrigo em Padre Miguel, FEEM, o nome na época, hoje é FIA. Era de menino e menina, foi fantástico, eu considerava eles a minha família. O problema do sistema é que você não pode ficar no abrigo muito tempo, você fica um, dois meses, aí o juiz te transfere para outro abrigo, a gente fica que nem ioiô para lá e para cá e aí, eu caí num abrigo chamado Pousada dos Meninos na Central do Brasil. Minha primeira namorada foi no abrigo. Me apaixonei por uma garota chamada Aline. Conversei com ela na segunda-feira, na quinta ela terminou comigo. Aí, eu falei assim: “Eu vou me matar”. “Relaxa, vai ter muita gente que tu vai conhecer, eu só comecei a sua vida”.

 

E aí, nesse abrigo tinha um funcionário chamado João Carlos, o Cacaio. Ia ter um sorteio para ir no casamento dele, eu caí, nem sabia o que fazer lá. Eu nem sabia o que era casamento direito, eu fiquei feliz porque eu ia comer comida diferente, sair do abrigo, ver gente. A Zezé foi madrinha do casamento deles e ela saiu porque tinha muita gente, negócio de fotos, não sei o que e ela se sentiu assim: vou lá ficar sentadinha um pouquinho, depois daqui vou embora, vou comer alguma coisa. Conversamos, me pegou final de semana e começou a me levar todo dia para casa e foi lá no Doutor Siro e pediu a minha guarda provisória. Isso mudou tudo. Só fui descobrir quem era ela numa novela chamada “A Próxima Vítima”.

 

Nessa época, comecei a estudar no SESI, mas eu me criei, eu falo que eu me criei porque eu tive que me educar. No estágio, Dr. Siro Darlan falava para mim: “Todo dia, você pega das nove às 18, mas eu vou deixar você chegar aqui às dez horas da manhã todo dia, porque você vai parar naquela banca de jornal da Central do Brasil e vai ler todas as notícias, porque eu quero que você me conte todo dia tudo, porque uma pessoa mal informada não vai a lugar nenhum. Já a Zezé foi a parte da mãe, do amor e ele foi a parte do pai, do severo, do cara que você tem que aprender assim. Um dia ele me falou: “Não adianta a gente ficar botando técnico, psicólogos, pedagogo, cacete a quatro para convencer o garoto a sair da rua, porque esse psicólogo não morou na rua, não mora em abrigos. Eu tenho que colocar garotos que moram em abrigo ou que conhecem esse lado”, e me botava na Kombi também. Tinha que falar a mesma linguagem do garoto, aí eu comecei a recolher no final de semana.

 

Aí, um certo dia, Doutor Siro me chamou junto com a delegada na sala dele e falou: “Robson, eu tenho uma notícia para te dar, Eu achei a sua mãe biológica…”, aquela… foi a coisa mais difícil que eu escutei na minha vida e foi a coisa que mais me deu força. Trouxeram ela. Era a audiência, tava lá o Doutor Siro, todo mundo, de repente, mandam chamar ela, a mulher entrou com uma arrogância. Doutor Siro falou: “Esse é o seu filho, é o Robson. E aí, por que a senhora abandonou ele?” “Eu não amo ele, eu achei que ele tava morto. Ele tá vivo pra me dar trabalho. Se eu abandonei, é porque eu não o amo. Agora, o senhor vai me obrigar? O senhor pode me obrigar a fazer tudo, mas vai me obrigar a amar ele?”, falou isso na minha cara. Aí, o Doutor Siro falou: “Escutou? O Robson tem uma mãe que ama ele, nós amamos o Robson, porque o Robson não é qualquer um, ele é nosso estagiário, então eu posso prender a senhora, posso fazer o que for com a senhora, mas eu não vou obrigar a senhora a amar ele, né? E posso falar? Muito obrigado pela senhora ter abandonado ele, a senhora vai sair da minha sala e nunca mais vai aparecer na vida do Robson”, nunca mais apareceu. Aquilo ali pra mim foi incrível, ela me conta uma história para a psicóloga depois, que foi abusada sexualmente e que tinha que me matar, porque aquilo… aí, depois, ela conta que era um namoradinho que ela teve um outro filho com esse cara… eu achei que ela ia se arrepender.

 

Depois, fiz uma peça teatral que eu encenei, uma peça de teatro para os garotos de abrigo, contei essa parte da mãe, que eles eram muito iludidos. A Zezé tinha me botado na CAL, durante três anos, conheci o Gustavo Arianen e o Stepan, que é o presidente aqui do Retiro… E aí, depois, o governador me recebeu, fui homenageado em várias coisas, o que fez o diferencial para mim é que eu tinha todo esse acesso e eu precisava fazer alguma coisa que ajudasse os garotos que estavam no abrigo, aí eu criei a Rede de Cultura Social pra aproximar os garotos da arte. Hoje eu trabalho no Retiro. Eu comecei a trabalhar no início da vida e agora, trabalho no fim da vida, tá entendendo?

 

Eu ficava em pé na porta do Retiro na festa junina. Quando eu dormia aqui, eu achava isso aqui muito louco, um residente mais doido do que o outro e eu falava; “Que lugar maravilhoso, queria trabalhar aqui, muito doido, as confusões, muito doido”, aí pronto, eu fui conquistando um por um, eles foram me conhecendo. Aí, um certo dia, uma garota saiu daqui, por exemplo, trabalhava na festa junina uns anos, uma garota saiu da administração, aí a Cida me ligou: “Robson, tô precisando de alguém para trabalhar aqui com esses doidos, aqui junto comigo, para fazer passeio, não sei o que, claro que você não vai abandonar o seu trabalho aí ganhando bem, tendo uma vida aí que o governo te dá para trabalhar aqui, mas você não conhece ninguém, que seja assim, parecido com você?”, eu falei: “Parecido? Eu que vou para aí”.

 

Eu sou tipo meio um síndico daqui. O triste é que eu começo a entender como que funciona a morte, ele ensina muito porque aqui se morre dois, três em três meses. Então, eu não tinha essa visão da morte, isso para mim é triste aqui, quando a gente se apega a um residente e o que me chama mais atenção no Retiro é a família, quando eu escrevi um livro chamado “A procura de uma família”, quando eu falo em todo o momento que eu estou pensando numa família e quando eu falo do Retiro, da família, é porque família, eu entendi que são construídas de pessoas queridas. Olha, eu acho que é muita loucura, mas acho que eu já realizei todos os meus sonhos. Eu tô realizado. Quero viver. Eu não tenho nenhuma visão: falta isso… eu quero trazer projetos sociais aqui, o Retiro é um lugar fantástico, ele tem um espaço enorme, mas ele é pouco usado. É isso.

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