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História

Depois do primeiro acorde

História de: Luís Otávio de Melo Carvalho (Tavito)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/11/2004

Sinopse

Luís Otávio de Melo Carvalho nasceu em Belo Horizonte (MG), em 1948. Tavito, como é conhecido, descobriu que a música estava dentro de si na primeira vez em que pegou em um violão. Logo no início de sua carreira, teve oportunidade de tocar com seu ídolo, o violonista Baden Powell, em um show com Vinícius de Moraes. Daí em diante se envolveu com outros grandes músicos. Em meados dos anos 60, passeando de madrugada pela cidade com amigos, deparou-se com Marilton Borges e Milton Nascimento tocando dentro de um carro. Esse encontro marcou Tavito para sempre, assim como o Clube da Esquina.

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História completa

 

P1 – Tavito, eu queria que você começasse falando o seu nome completo, a data  e o local de nascimento.

 

R – Meu nome é Luis Otávio de Melo Carvalho, nasci a 26 de janeiro de 1948, em Belo Horizonte.

 

P1 – Eu nasci em 27 de janeiro.

 

R – É mesmo? Isso é gente boa.

 

P1 – É, também acho. Isso é aquariana, isso é tudo gente boa.

 

R – Concordo.

 

P1 – Tavito, eu queria que você contasse de onde vem esse gosto pela música, onde começou? Você se lembra onde tudo começou?

 

R – Eu não sei, porque desde menino eu gosto muito de música, né? Eu já sabia que a música era uma coisa mais do que é para os outros. Eu sabia que ela estava dentro de mim. Porque eu lembro, assim, no segundo ano primário, entendeu? Eu no ônibus do Colégio Santa Helena, eu já era meio atração assim. Eu ficava cantando as músicas de sucesso no rádio e os meninos paravam para ouvir. Eu imitava as pessoas. Sabe, é um negócio, assim, muito... Papai tinha uma discoteca muito vasta de clássicos. E eu habituei, eu cresci ouvindo isso. Agora, a música me pegou e eu me senti capaz de fazer o dia em que eu dei o primeiro acorde no violão. O dia em que eu peguei o violão, dei um primeiro acorde, eu percebi ali que a coisa pegou, entendeu? Foi isso.

 

P1 – E você está o quê, você estava em uma aula, durante uma aula, como foi isso?

 

R – Não, não. Um amigo meu, o pai dele deu um violão para ele. E ele me emprestou o violão e eu vendo assim, eu peguei, só de ver, – eu nunca tinha pegado antes –, eu peguei, fiz um lá maior. E saiu aquela soma de notas e aquilo me emocionou, eu peguei um outro, já tirei uma música com dois acordes, já tirei assim, quer dizer. Eu tenho um ouvido muito bom. Aí foi quando, nessa noite a gente já fez, eu e meu irmão, já fizemos uma serenata pra uma vizinha. Só com dois acordes, tocando “Canários” e aquelas coisas.

 

P1 – E você cantava também?

 

R – Eu cantava, não lá muito bem, mas cantava.

 

P1 – E o que você ouvia na época, quais eram os seus ídolos?

 

R – Sempre gostei de, tem duas músicas modificadoras na minha vida, que são, até já escrevi sobre isso, uma foi “Chega de Saudade”, 1959, eu ouvi pela primeira vez “Chega de Saudade” e não foi nem a gravação original, foi com o Trio Nagô. E isso me deixou, mudou minha vida a respeito de audição de música. Eu nem tocava violão nem nada. E a outra foi um pop rock dos Beatles chamada “I want to hold your hand”. que mudou minha vida também. São as duas coisas modificadoras na minha vida essas duas, essas duas passagens. Eu sempre ouvi. Eu nunca quis, acho que desde menino, que eu detectei o que significa assim preconceito. Eu não tenho preconceito de música nenhuma, se me agradar é boa, se não me agradar aí não é boa. Então eu sempre ouvi tudo, isso é uma vantagem.

 

P1 – E o que você estudou?

 

R – Se eu estudei música?

 

P1– Música.

 

R – Eu fiz um ano de violão clássico com o Zé Martins lá em Belo Horizonte. Um ano. Mas não me apliquei. Não sei dizer assim, ele era um professor extraordinário, tocava muito bem, mas eu nunca fui estudioso de música, eu nunca estudei. Eu aprendo muito na prática, em estúdio. Quando eu vim para o Rio eu gravava muito, né? Eu tocava um violão bacana e gravava muito. Aí fui aprendendo as coisas que tinha que aprender, eu aprendi na prática.

 

P1 – A sua carreira como músico mesmo começou quando e onde?

 

R – Minha carreira como músico começou em 1965. Foi quando eu conheci..., e eu já tocava violão, eu toco violão desde 1961, né? Eu tinha treze anos, é isso aí. Em 1965, eu conheci o Vinícius de Moraes lá em Belo Horizonte e ele me convidou para fazer um show com ele. Ele tocava com o Baden na época. Eu não estou sabendo se foi 1965 ou 1966, mas foi por aí. Acho que 1965. E ele me convidou para fazer um show com ele no Morro do Chapéu, um clube lá em Belo Horizonte. Aí eu peguei e fiz. O Baden não foi por uma razão ou outra, e a gente ensaiou e tal e fizemos um show com o Vinícius, quer dizer, profissionalmente eu comecei aí, mas era um negócio incipiente porque eu não estava ganhando nada, né? Profissional é quando você ganha alguma coisa. Eu estava fazendo por prazer. Mas a minha coisa foi que nós fomos fazer o show, eu ensaiei um grupo vocal, Bossa Nove, nós fizemos violão, o Vinícius na mesa, né, com o uísque e tal, a turma atrás, e na hora do show, o Baden resolveu chegar. Isso depois da gente ter ensaiado uma semana na casa do Ivan Marchetti em Ouro Preto e tal, aí ficou aquele mal parado, vou fazer ou não vou fazer, como é que faz? Aí ele: “Não, você vai fazer”. O Baden chegou, ficou do outro lado do palco, fizemos os dois de violão, entendeu? Aí foi um negócio bacana, porque eu não sei, o Baden sempre foi meu ídolo, eu tirava as músicas do Baden todas. Eu aprendi violão muito ouvindo Baden, tirava aquelas músicas, o “Samba Triste”, eu solava as músicas do Baden igual o Baden, por isso que eu fiz o show com o Vinícius, senão ele não tinha me chamado. Aí foi bacana porque ele não estava em um dia muito feliz, ele pessoalmente não estava em um dia muito feliz.

 

P1 – Ele quem?

 

R – O Baden, e eu acho que toquei melhor do que ele as coisas que ele que me ensinou a tocar, entendeu? Foi um dia especialíssimo, evidente que eu nunca toquei violão igual ao Baden na vida, nem de perto. Mas aí deu no jornal lá, Tavito, Baden ficou com os olhos desse tamanho em cima do violonista mineiro, é filho da terra, aquela coisa, aquela badalação. Foi nesse dia que eu senti assim que eu ia seguir a carreira. Aí também tem o fato do Vinícius ter me chamado para vir para o Rio, né? Já nessa ocasião ele falava: “Não sei o quê, você tem que ir para lá, não pode ficar aqui porque senão você vai morrer aqui e não vai acontecer nada”, aí em 1968 passou um tempo, 1968 eu vim para o Rio, aí me profissionalizei.

 

P1 – E a partir daí qual foi a continuidade na sua carreira aqui no Rio?

 

R – Primeiro, o primeiro ano em que eu fiquei aqui, eu morava em uma pensão e dava aula de violão, mas eu tenho essa cruz que eu carrego na vida, eu nunca vou conseguir ensinar nada a ninguém. (Risos) Nunca nenhum aluno meu aprendeu nada, entendeu, eu só tomava o dinheiro deles e eles..., então essa cruz eu tenho na minha vida, eu enganei esse povo, mas dava aulas de violão. Eu comecei a gravar e aparecer foi quando apareceu aquele negócio dos Sachinhas, o Sachinhas era um botequim que tinha ali ao do Sacha’s, um barzinho né, onde o pessoal começou a se reunir, foi ali que eu conheci o Zé Rodrix, eu conheci Ivan Lins, eu conheci esse pessoal do grupo Manifesto, quer dizer, ali que a gente..., conheci Eduardinho Souto, enfim, conheci um monte de gente, esse pessoal foi que gerou o Som Imaginário, que saiu dali, o Wagner Tiso, o Wagner eu conheci antes, o Bituca apareceu, e a gente ali no Sachinhas é que foi formando o som imaginário. Então foi assim a minha primeira expressão como músico profissional de Rio de Janeiro, ganhando dinheiro honestamente né, porque antes não era honesto, foi justamente no Som Imaginário.

 

P2 – Está certo, e o Som Imaginário foi o seu primeiro trabalho?

 

R – Não, já tinha trabalhado antes em Belo Horizonte, já tinha me relacionado com o Vox Populi, do Chiquinho Pereira, do Marco Antonio Araújo, quer dizer, eu tinha um trabalho com eles também, já fazia uma coisa, mas não se ganhava dinheiro. Você está me perguntando profissional, profissional é quem vive daquilo, né? Eu antes fazia trabalhos profissionais mas não remunerados.

 

P2 – Sei, eu queria que você falasse para gente um pouquinho dessa convivência sua com o Zé Rodrix, né, até desaguar aqui. Que influência isso teve na sua carreira?

 

R – O Zé é uma pessoa extraordinária, o Zé é um sujeito assim de um dinamismo mental extraordinário, ele é muito bom sujeito, ele é muito amigo meu, quer dizer, a gente ficou muito amigo e nós tocamos juntos muito tempo e fizemos uma temporada de um ano com a Gal Costa, que está gravando aqui, está ensaiando aí, e nós fomos fazer um show em Goiânia, e em Goiânia ele veio com essa letra, nós estávamos no mesmo quarto do hotel, ele falou: “Tavito, está aí ó, escrevi isso aqui”, e não sei o quê e papapá.

 

P2 – De qual letra você está falando?

 

R – “Casa no campo”, que é a primeira música de sucesso assim, eu já tinha outras, mas não tinha emplacado. A primeira música de sucesso que eu fiz foi “Casa no Campo”. Eu não me levava muito a sério como compositor não, e era mais instrumentista, hoje eu inverti. Aí fizemos “Casa no Campo” lá em Goiânia, é um filho de Goiás.

 

P2 – E Casa no Campo teve um...

 

R – Ela entrou, o Zé, tudo o Zé, ele inscreveu ela no Festival de Juiz de Fora e ela ganhou, e o prêmio era aparecer no Festival Internacional no FIC, no Maracanãzinho, aí quando ela foi para o Maracanãzinho, acho que ela tirou nono lugar, oitavo lugar e a Elis viu, foi quando a Elis resolveu gravar a música, e aí ele virou um clássico da época.

 

P1 – E como é que você conheceu o Milton Nascimento, o pessoal do Clube da Esquina?

 

R – Milton Nascimento é o seguinte: Milton Nascimento eu conheci ele de uma maneira mais bela que você possa imaginar conhecer um compositor desse nível, porque nós..., lá em Belo Horizonte é uma cidade muito boa, sabe? É uma cidade maravilhosa, você saía de madrugada, andava na rua normal, não tinha medo de coisa nenhuma, era uma maravilha, e estava eu e um amigo meu, Cláudio Castilho, nós estávamos passeando de madrugada, fazendo coisa nenhuma, né? Aquelas bobagens de adolescente, quando eu vi assim, na Praça do Cruzeiro, que não tinha, que hoje é a Praça Milton Campos, né? E que era a última coisa de Belo Horizonte, Belo Horizonte acabava ali, então, a gente ia ali às vezes, ficava olhando para cidade lá embaixo, não era tão lá embaixo assim, hoje ali é lá embaixo, né? Aí nós vimos o som saindo de um carro parado, assim com as portas abertas, e era o Marilton em seu carro com o Bituca tocando violão, e nessa altura eu já tocava violão, já estava enfurnado com música, aí eu cheguei e falei: “Escuta, a gente pode ouvir?”. “Claro, bicho, pode entrar.” Entramos no carro e eu fiquei ouvindo o Bituca até umas seis horas da manhã, um negócio assim, eu me lembro de uma música que ele tocou nesse dia, depois isso confunde na minha cabeça, você não se lembra assim com detalhes, mas eu me lembro que ele tocou “Tarde” e eu nunca tinha ouvido “Tarde”, foi antes dele gravar, ele tocava baixo na época, o Bituca era baixista.

 

P2 – Aí você teve esse envolvimento com o Bituca, com...

 

R – Aí depois eu fui, depois disso, um outro dia eu fui ver ele tocar porque eu fiquei enlouquecido com as harmonias dele. Aquilo pirou a minha cabeça, aquilo é outra coisa que pirou, eu esqueci de falar isso, a primeira vez que eu ouvi o Bituca eu pirei, muita gente pirou, um monte de gente pirou, eu fiquei muito louco ouvindo aquilo, e eu fui ver ele tocar contrabaixo em um lugar que tinha na rua do Ouro, um lugar chamado Canecão, nunca esqueci disso, ele tocava com os dedões assim, aqueles dedos dele, estranhos, entendeu? Aí eu fui ver ele, não sei o quê, essas coisas, quer dizer, depois disso eu só vim encontrar com ele no Rio, mas já me conhecia, já sabia, já tinha aquela coisa, só vim me encontrar com ele quando a gente fez o Som Imaginário. Não, mentira, encontrei com ele em Belo Horizonte mais vezes. A gente tinha um grupo vocal e ele adorava o nosso grupo vocal.

 

P1 – Aí vocês gravaram o disco Som Imaginário, o Milton Nascimento e o Som Imaginário.

 

R – Exatamente, que é do show do Opinião, aquele show que é um espetáculo. Aquele show acho que ficou três meses no Teatro Opinião, depois não sei se foi um mês, depois ficou um mês na Sucata, depois mais um mês não sei aonde. Ele não saía de cartaz, era um show espetacular.   

 

P1 – Você se lembra de algum fato ou algum evento que tenha acontecido durante esse show do Som Imaginário?

 

R – Me lembro de todos, não sei qual você quer.

 

P1 – Aquele que vem com emoção para você, uma coisa que tenha marcado esse período para você.

 

P2 – Alguma coisa que você tenha presenciado, uma coisa engraçada.

 

R – É porque as minhas histórias são todas de músico, né? Eu não…, as grandes emoções normalmente são geradas por alguma coisa relativa à música. Em relação ao grupo, em relação ao grupo, era um grupo muito heterogêneo, né? Era um grupo que tinha um lado muito jazzista. Que tinha uma tendência. Mesmo o Wagner, o Luiz, o Robertinho eram músicos de noite, que tocavam mesmo aquela coisa. Tinha roqueiros assim, eu, o Zé era roqueiro, porque o Som Imaginário mesmo, a percussão era o Naná Vasconcelos, né? Ele é que, apesar de nunca ter sido do grupo, ele é que tocava com a gente. (PAUSA) Mas aí, eu tenho momentos assim extraordinários, por exemplo, ver o Bituca tocar em primeira mão uma música como “Cravo e Canela” por exemplo, que é uma coisa que a gente não esquece mais, porque é completamente diferente do que eu já tinha ouvido, completamente, e aquelas coisas que você fala assim: “Pô, será que você não achava que esse acorde não ficava melhor não?” Ele falou: “Não, não fica não. Bom é aquele que eu faço mesmo”. E aí você vai ver, bicho, é imexível, né? Você não pode mexer nada. A música do Milton ela é completamente pronta, ele faz ela no violão, ela está feita. É igual o Tom. O Tom também é assim, não mexe em nada, não inventa não porque é aquilo, né? E completamente novo. Eu tive muita alegria com essa fase da minha vida, entendeu? Eu aprendi muito. Eu acho que o Som Imaginário, a principal coisa que eu tive do Som Imaginário foi muito aprendizado, aprendi muito. O Fredera era um guitarrista muito bom, ele gostava de rock and roll também, gostava de jazz, gostava de música brasileira como eu, que gosto de tudo, né? Ele era muito bom e me ensinou muito, quer dizer, aprendi, eu era mais novo, eu aprendi, eu aprendi muita coisa com aquele povo. O Wagner é um grande amigo meu, que eu adoro até hoje. Enfim, eu tive muita alegria com o Som Imaginário, tenho só coisa boa para contar.

 

P2 – A gente queria, eu queria que você falasse um pouquinho também sobre “Rua Ramalhete”, que foi, né, de Belo Horizonte.

 

R – “Rua Ramalhete” agora é trilha sonora de Belo Horizonte. “Rua Ramalhete” é uma música feita para o meu primeiro disco solo, porque eu nunca pensei em gravar sozinho não, entendeu, mas o problema é que eu fui mexer com publicidade e eu cantava nos meus jingles lá, né, no estúdio, cantava, e o produtor me viu cantando e achou que dava o maior pé, então tinha..., e foi e arrumou, a CBS me contratou e já nessa época era tão fácil as coisas, os caras iam lá, pegavam você, contratavam. Gravava disco com orquestra, era tudo na maciota, assim, e eu tinha que preparar um repertório rápido, entendeu, para entrar no estúdio. Nós estávamos em julho, em agosto eu tinha de entrar no estúdio, aí peguei um amigo meu, que é até hoje super meu amigo, o Ney Azambuja, e fomos lá para casa. “Bicho, vamos fazer pelo menos três músicas. Hoje a gente faz três músicas.” E fizemos duas, foi “Rua Ramalhete” e fizemos começo, meio e fim. Foram duas músicas que saíram no mesmo dia porque na casa dele tinha chegado uma amiga de Belo Horizonte, a Beth, que era..., ele chegou lá e falou assim: “Sabe quem está lá em casa? A Beth”. Eu falei: “Que Beth?” “Beth, que foi muito sua amiga na Rua Ramalhete”, não sei o quê. Eu falei: “Rua Ramalhete”, olha que piada, olha o tema da música para nós, Rua Ramalhete era uma rua pequena, uma rua de um quarteirão, cheio de menina bonita, cara, olha que loucura, a gente ia por ali, sabe, a gente ficava por ali paquerando aquelas meninas e tudo certo. Eu falei: “O tema é esse eu vou fazer”, entendeu? Aí sentamos e começamos a lembrar das coisas. Aí é fácil, depois do tema descoberto, né, é fácil, você já tem as ideias. A música já estava assim, meio pronta, já estava meio pronta, a gente bolou, deu forma final e tal, e gozado é que eu não achava nada essa música,  nem essa nem “Casa no Campo”, não achava nada. Eu tenho dificuldade de pegar distância das coisas que eu faço, eu sempre assim, até uns seis meses depois de fazer, eu acho tudo horrível, depois é que eu vou achar que...

 

P1 – Eu queria que você falasse do que é o Clube da Esquina para você? O que significa isso?

 

R – O Clube da Esquina, por exemplo, eu tenho uma grande emoção com o Clube da Esquina. Eu fui jurado de um Festival lá em Belo Horizonte, eu já estava aqui no Rio, me chamaram, o pessoal, o Eduardo Curi na época me chamou para ser jurado do Festival da Prefeitura que foi lá no Instituto de Educação. Nesse Festival tinha Beto Guedes – eu julgando esse povo. Agora, você imagina isso, Beto Guedes, Lô Borges, Milton Nascimento, Momento 4, quem ganhou foi o Eduardo Conde e nesse Festival eu fiquei conhecendo essa música “Clube da Esquina”, a primeira “Noite chegou outra vez…” Mais bonita do mundo né, não tem. Eu não conheço assim nada mais bonito do que isso, pode ter igual, mais bonita não tem, e foi quando eu conheci essa música, essa música me emocionou demais, entendeu? E eu tive o prazer, a honra de gravar ela com o Bituca, de violão no disco do som do Milton e do Som Imaginário, aquele violão quem toca sou eu. Deveria ser o Lô, mas o Lô não foi, aí eu acabei, enfim, tendo que tocar a música, e quer dizer, o Clube da Esquina é uma coisa presente na minha vida no sentido afetivo e no sentido produtivo, né? O Clube da Esquina levantou minha vida, levou minha vida para adiante. O que o Clube da Esquina fez por mim? Muito. O que eu fiz pelo Clube da Esquina? Pouco, entendeu? O Clube da Esquina é uma coisa que levantou a vida de muita gente, que pagou muita gente, que colocou em um nível, entendeu, mostrou um tipo de coisa que passou a ser o meu nível. Porque antes o nível era outro, o nível não era uma coisa desse grau de sofisticação e de coisa popular, porque o que me interessa muito em música é ela ser diferente, mas que o povo goste. Eu não gosto de coisas muito herméticas não, quer dizer, não gosto, não gosto. Adoro as coisas herméticas, mas eu não sou, eu gosto que tenha muita gente para dividir isso. Eu acho que a arte é maior na medida em que você diz ela para mais pessoas e o Clube da Esquina é isso, conseguiu um grau intelectual da música muito bom, uns letristas espetaculares, os poetas, né? Márcio Borges, Fernando Brant, e conseguiu uma musicalidade muito inteligente dentro de um contexto extremamente popular, você pode até escrever o que eu estou falando, um dos maiores fenômenos da música brasileira é “Travessia”, você pode saber disso, é uma música sofisticadíssima, mas harmonicamente sofisticadíssima e que todo mundo canta. Você pega Manaus lá, você vai em uma favela de Manaus, a pessoa vai saber, é um fenômeno isso, não é uma coisa que acontece toda hora, e como esta tem várias outras produzidas nessa época, desse tipo de produção, que são músicas densas, complicadas e que o povo aceita como se fosse um pagode.  

 

P1 – Eu sei que é difícil selecionar uma, mas tem alguma ou algumas músicas em especial do “Clube da Esquina 2” que toca a alma, que tira seu fôlego, enfim, que você gosta mais? 

 

R – “Clube da Esquina 1”, que eu participei, do 2 eu já não participei. Deixa eu lembrar aqui, tem muita coisa, mas acho que esse que eu estou para lembrar não é do “Clube da Esquina”. Eu adoro “Clube da Esquina 2”, instrumental, que tem nesse disco, adoro, com o Bituca fazendo falsete de violão. Adoro “Dos Cruces”, adoro. Eu adoro esse disco. O que eu vou escolher desse disco, não tem, adoro aquele “ Um girassol da cor do seu cabelo”, acho espetacular. Adoro o Toninho, aquele negócio do “Trem Azul”,  aquele solo de oitavas do Toninho, é tudo perfeito naquele disco, não tem o que falar.

 

P2 – E a gente reparou o tanto que te emociona o Clube da Esquina, né? O que você acha dessa retomada do Clube da Esquina, o que você acha dessa ideia? Desse museu, a gente está fazendo esse museu.

 

R – Pô, é uma ideia indispensável, né? Tomada até meio tardiamente. Foi bom que teve um tempo hábil, né, porque daqui pra frente morre todo mundo e não tem mais ninguém para falar disso, né? Eu achei espetacular, achei maravilhoso o que vocês estão fazendo, acho sensacional, eu acho necessário, cara. Eu acho que a música piorou tanto, sabe? Eu acho que a gente está enfiando em um limiar assim de mesmices, que está ficando sem saída, as pessoas estão sem saídas, não sabe o que fazer mais. Quer dizer, é um negócio que o mercado dominou de uma tal maneira, tirou as intenções reais de fazer música, né? Arrebentou com isso. Hoje, você pega um menino que vai começar a fazer música, ele viabiliza a música dele pela fatia que ele visualiza no mercado, não viabiliza a música pela música como era antes, cara. Quantas pessoas que você conhece que vão na casa dos outros mostrar música? “Eu fiz uma música aqui, que legal.” Não tem mais isso, acabou. Cada um tem seu nicho e a sua coisa e já trabalha em uma ansiedade assim de fama e de celebridade, que é uma loucura isso, é uma loucura, e a música caiu demais de qualidade, eu acho, né? Quer dizer, tudo eu acho. Diz “quem acha não sabe”, né? Eu acho isso, minha opinião.

 

P1 – É Tavito, o Márcio Borges cunhou a ideia de se criar um dicionário anárquico, né, em que cada uma das pessoas que fizeram esse movimento, enfim, que participaram do Clube da Esquina, estão dando novos significados às palavras, e a gente vai construir esse novo dicionário e inserir nesse novo produto do projeto que é um site, né? E já tiveram aqui definições muito interessantes do Wagner, hoje do Nelson Angelo, e gostaria que você desse uma definição do seu instrumento, como você definiria o seu instrumento?

 

R – Meu, o violão?

 

P1 – Sim.

 

R – Olha que coisa mais difícil que você está me pedindo, gente.

 

P1 – Você pode também pensar e mandar um e-mail depois para gente, mas se você quiser dar essa definição agora seria um prazer.

 

R – Do meu instrumento. É porque o que eu vou responder não tem nada de anárquico, entendeu? Aí que está a questão.

 

P2 – Pode falar, não precisa ser anárquico também.

 

R – Não, vou pensar e te mando, senão vou fazer bobagem, não quero.

 

P1 – Está bom, você vai ficar com nosso e-mail, vai ser muito legal porque daí a gente vai fazer uma compilação.

 

R – Exatamente. Não, eu vou pensar nisso. Eu penso, eu sou bom nisso. Eu penso uma coisa bacana.

 

P1 – Tem alguma mensagem mais que você gostaria de dar nesse projeto, enfim, disso que você viveu.

 

R – Não, a mensagem é: o Clube da Esquina como movimento talvez tenha sido das coisas mais importantes junto com a bossa nova, entendeu? Em termos de equânimes, de importância com a bossa nova e culturalmente talvez tenha sido a coisa mais importante que esse país já viu musicalmente. Eu acho, não por ter estado perto, não por participar, mas justamente por ter podido acompanhar isso, por ter tido a sorte divina de estar nesse nicho, né? Acompanhando, vendo as pessoas de perto e vendo o seguimento dessa obra. Por que a gente às vezes pergunta, por que não fez o furor de uma Tropicália, por exemplo, é justamente por isso, porque é mineiro, não é baiano, é diferente. Mineiro é assim. Mineiro faz a coisa mais quietinho, mais direitinho, mais não sei o quê. Aquela coisa, mas o valor disso, o valor cultural dessa coisa, inclusive, como postura artística eu considero muito mais avassalador em termos estéticos, de tudo, em todos os aspectos, eu considero das coisas mais importantes. Quem não conhece a minha opinião, o que eu quero deixar de recado a todos é que conheço o trabalho desse pessoal mineiro, que em Minas faz uma escola, é um negócio impressionante, é muita gente, muita gente. Eu vejo lá agora, que eu tenho um site, né? As pessoas me escrevendo, a quantidade de adeptos que tem desse troço no Brasil inteiro é um negócio impressionante, é um negócio impressionante. O meu recado é: garotada, faz como minha filha fez. Eu cheguei e apliquei minha filha, levei ela para ver o show do Bituca, para o “Pietá”. Assim, ela não tinha, ela não tinha chegado, ela estava com dezesseis anos, né, ela não tinha chegado ainda naquela coisa, ela está naquele rap, pop, hip-hop, trance, aquela coisa, aquele negócio de meninos de colégio. Ela chorou de desaguar, entendeu? Assim, adorou. Ela gosta, ela é ilustrada no sentido assim que sempre gostou do Tom, gosta de música boa. Ela não é assim feito eu, ela é uma repetição minha, mas ela não conhecia muito o trabalho, e ela desaguou, chorou nesse show, e é lindo você ver isso, uma menina de dezesseis anos, hoje, com esse tipo de recado emocional ouvindo “Outubro”, que é lindo, né? “Outubro” é belíssimo, ouvindo “Outubro” que é uma música que toquei com ele, com o Bituca há muitos anos, e aí ela se joga na mesa assim. Eu acho isso extraordinário, né?

 

P1 – Tavito, é isso. Se tiver alguma coisa que você gostaria de falar que a gente não...

 

R – Não, prazer de estar com vocês.

 

P2 – O prazer foi nosso.

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