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História

Depois de muita luta

História de: Jildete Nascimento de Menezes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/05/2021

Sinopse

Separação familiar. Infância de cidade em cidade. Descoberta da família materna. Namoro escondido. Fuga de casa. Encontro com a mãe. Nascimento dos primeiros filhos. Trabalho na roça. Fome. Ida para São Paulo. Depressão. Separação do esposo. Desemprego. Dificuldades. Trabalho de diarista. Retomada dos estudos. Gravidez da caçula. Reconciliação. Conquista da casa própria. Trabalho de cabeleireira. Comércio de reciclagem. Educação e criação dos filhos. Envolvimento com a comunidade. Mensagem sobre a favela.

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História completa

 

P/1 – E para gente começar e deixar registrado, eu queria que você falasse seu nome completo, onde você nasceu e a sua data de nascimento.

 

R – Tá. O meu nome é Jildete Nascimento de Menezes, eu nasci em Juazeiro, na Bahia, eu nasci no dia quatro do dez de 1974. Vou fazer trinta e oito anos dia quatro, graças a Deus. Meu Deus (risos).

 

P/1 – Jildete, qual é o nome dos seus pais?

 

R – Os meus pais se chamam Benício Martinho de Jesus e Catarina Nascimento de Menezes.

 

P/1 – E o nome dos seus avós, você sabe?

 

R – É Clara Nunes, o sobrenome eu não lembro, e Jonas, também não lembro o sobrenome. Porque eu não fui criada com eles, então assim, não tive um vínculo com pai e mãe, e com meus avós. A minha infância foi uma coisa muito bem perturbadora, mas graças a Deus... Eu tô bem nervosa. Eu vou fazer de conta que eu tô lá na igreja solando, tá? Eu tô bem nervosa mesmo, mas assim, o que eu vou falar é realmente o que aconteceu. E que sirva também de lição para muitas pessoas que não foram criadas com seus pais. E que de repente ouvindo o que eu estou falando, possam se espelhar e colocar em prática que a gente consegue sobreviver sem pai e sem mãe, e podemos ser pessoas de bem no futuro, e hoje ter uma família maravilhosa como a minha que eu tenho hoje, graças a Deus.

 

P/1 – Jildete, me conta uma coisa, como a sua família foi parar em Juazeiro? Como você nasceu lá? Qual é essa história?

 

R – Olha, o meu pai trabalhou muitos anos nessas empresas de luz, só que antes não era como hoje. Aqui chama Eletropaulo, lá chama Coelba [Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia]. Então ele trabalhava em uma gata da Coelba, chamava técnicos. E eles viajavam de cidade em cidade para fazer instalação naquelas comunidades que não tinham luz. Conforme se ele fosse ficar um ano em uma cidade, ele levava a mulher e os filhos, era assim no início do casamento. Então assim, ele conheceu a minha mãe, se casou com ela, mesmo sem os meus avós autorizarem, mas eles se casaram, e ele acabou indo viajar para lá e levou a minha mãe para um lugar chamado Carnaíba do Sertão, que é bem próximo de Juazeiro. Que eles colocam que eu nasci em Juazeiro, mas dizem que eu nasci em Carnaíba do Sertão, mas os meus documentos são de Juazeiro. Foi onde eu nasci. Depois, minha mãe engravidou do meu outro irmão mais novo que eu, que sou a mais velha de todas. Aí a vida deles já começou a ficar tumultuada, meu pai voltou novamente para Jaguarari, deixou minha mãe lá com os pais dela e foi para outra cidade. Que ele ficava algum tempo nessas cidades, acabava conhecendo algumas outras mulheres lá e fazia um monte de filho, que é onde eu tenho um monte de irmão. E voltava de novo, aí reconciliava com a minha mãe, engravidava minha mãe de novo e nessa história acabaram tendo cinco filhos, mas vivos nós somos quatro, de pai e de mãe. E foi nessa minha trajetória de... Nessa vida dele, de ele ficar pra lá e pra cá, que ele acabou se separando de vez da minha mãe. E como a minha mãe tinha problema de saúde, os meus tios, que na verdade não foi a minha mãe, quero que fique bem claro, os meus tios me deram para o meu pai. Meu pai ia embora com outra mulher, morar com outra mulher em outra cidade, e me deu para o meu pai. Então eu cresci sem conhecer a minha mãe, porque eu a vi muito pequena. O tempo foi passando, eu fui conhecendo outra família, outros lugares, outras cidades. Eu cheguei a morar num total de dez cidades, que eu lembre. Eu morei em Ilhéus, eu morei numa cidade chamada Cafarnaum, morei em Miguel Calmon, morei em Mundo Novo, em Jequié, em Barra do Mendes, que foi a primeira cidade que eu fui morar assim que o meu pai se separou da minha mãe. Depois eu fui para... De Jequié eu voltei novamente para Ilhéus, aí fui para um lugar chamado Novo Horizonte, de Novo Horizonte nós fomos para Barreiras, aí voltei de novo para Novo Horizonte e depois eu fui... Não, minto, aí fui para Piritiba. Aí vim para Senhor do Bonfim, de Senhor do Bonfim voltei para Irecê, aí fiquei um tempo em Irecê. Por isso que eu não terminei meus estudos, porque cada lugar que eu morava, se eu ficasse seis meses, eu estudava numa escola, aí meu pai me tirava daquela escola, estudava mais um tempo em outra, não me adaptava, não conseguia pegar. Só que assim, diz o pessoal que eu sou inteligente, não sei. Que eu sou inteligente, que eu consigo pegar as coisas fáceis. Eu repeti, que eu lembre, duas vezes só, mas eu fiquei acho que três anos sem estudar, porque eu estudava um pouquinho na cidade, não terminava, aí quando eu chegava à outra cidade já estava no meio do ano, meu pai não me colocava para estudar, aí no ano seguinte voltava a estudar. E nisso eu fiquei uns três anos sem estudar: dois meses, depois dois meses, mas não terminava. Depois voltamos para Irecê, aí meu pai voltou para Senhor do Bonfim novamente, que foi onde tudo começou de bom na minha vida. Eu conheci uma senhora, eu tinha onze anos, e ela gostou muito de mim, porque assim, eu sempre fui uma menina muito extrovertida, muito conversadeira, eles têm até um ditado que fala que a gente... Sempre muitas pessoas, até hoje, perguntam se eu tomei água de chocalho, que eu converso muito. Aí, como eu estava falando, eu era muito extrovertida, muito animada, eu gostava muito de ajudar. E ela tinha uma menininha pequenininha e precisava de alguém para ajudar, para dar uma força. E eu gostava muito de ajudar sem interesse assim, de ganhar nada. E ela gostou de mim, aí pediu para o meu pai, porque eu fui criada com madrasta, então assim, nem sempre... Nessa trajetória eu tive cinco madrastas. E nem sempre a gente se dava bem, se entendia. Acabou que ela gostou de mim, pediu para o meu pai para me dar pra ela. Que ela ia mudar, ia morar numa cidade Caraíba Metais e que ela queria me levar para trabalhar com ela, para eu morar com ela e ao mesmo tempo trabalhar, ajudar a cuidar da filha dela, a Letícia. E eu fui. O meu pai autorizou, claro, me deu para ela, eu fui e fiquei morando com ela mais ou menos acho que uns três anos. Por coincidência, a minha patroa, chamava Clésia, ela trabalhava num banco chamado Baneb [Banco do Estado da Bahia], que hoje eu não sei se existe mais esse banco, mas antigamente existia, o banco era Baneb. E o meu tio trabalhava na Caraíba Metais, que lá eles chamam de Pilar, era numa mineradora. E ele recebia o pagamento dele nesse banco, no Baneb. E por coincidência, não sei, que eu acho que não foi coincidência, eu acho que nada é coincidência, eu acho que tudo é Deus que quer, Deus que permite, ele sacava o dinheiro no caixa que a bancária era a Clésia. E ela viu os sobrenomes baterem, falou o sobrenome bem parecido, aí ela falou assim: “Posso te fazer uma pergunta?”. Aí ele foi e respondeu, ele disse: “Pode”. Falou: “Você tem algum parente aqui?”. Aí ele falou assim: “Tenho. Tenho bastante, eu moro aqui pertinho”. Ela falou: “Não, é porque tem uma menina que mora comigo que se chama Jildete”. Aí falou o nome do pai, só que não falou o nome da mãe, porque na verdade, para todo mundo eu falava que a minha mãe se chamava Tereza, que era a minha madrasta, eu não falei Catarina, eu falei Tereza. Então ele falou: “Não, eu tenho uma sobrinha que mora com o pai e o nome dele é esse que você falou, só que o nome dela é Catarina”. Tudo bem. Passou. E ela não me falou nada. Aí o tempo passou, passou e eles pegaram amizade. E novamente ela tocou no mesmo assunto, falou: “Olha, eu descobri, o nome da mãe da menina que mora comigo é Catarina Nascimento de Menezes”. Aí ele falou assim: “É minha irmã. Onde que tá essa menina?”. E eu até então não sabia que tinha nenhum familiar perto, para mim eu tinha nascido de uma chocadeira. Porque assim, eu passava por mão de tanta madrasta, que eu nem sabia quem eu era de verdade. Aí eles marcaram sem falar nada comigo e eu acabei indo conhecer o meu tio. Nossa, foi uma surpresa, foi a coisa mais linda do mundo, parecia que eu estava encontrando com a minha mãe, que depois eu chego lá. Aí eu o conheci, ele me contou toda a minha vida, ele falou que não era para eu sentir raiva da minha mãe. Porque eu tinha muita raiva da minha mãe, eu tinha uma mágoa, porque no dia que tinha reunião de escola, que tinha festas, todo mundo ia com as suas mães. As mães abraçavam, pegavam no colo, faziam cachinho no cabelo, meu cabelo era uma juba deste tamanho, que era eu mesma que penteava, que molhava, a água fica mais por fora do que por dentro do cabelo. Imagina uma criança ser criada por madrasta, que a madrasta falava assim: “Vai tomar banho”. Nem olhava se tinha tomado banho direito. E eu sentia muita falta disso, e comecei a pegar raiva da minha mãe, não queria que ninguém fizesse nenhum comentário sobre ela. Então, para todos os efeitos, eu fiz como se fosse um pacto com a minha tia, a Tereza: “Por favor, você é a minha mãe, foi você que me pariu, então você é minha mãe e ponto final”. E ela aceitou. Então ela ficou sendo a minha mãe. Tanto que eu colocava... Uma ficha que eu ia preencher assim, por exemplo, vai ter um curso gratuito, que os primeiros cursos na época eram datilografia, e eu fiz esse curso. E, quando foi para preencher a ficha, eu não deixei que o meu pai colocasse que o nome da minha mãe era Catarina. O nome da minha mãe era Tereza, Tereza Antônia de Oliveira, só que aí colocava, por causa do meu sobrenome, eu colocava que era Tereza de Oliveira Martins, que o meu nome veio a ser Nascimento de Menezes bem depois aqui em São Paulo, que é o sobrenome da minha mãe. Então com essa história de ter conhecido o meu tio e tudo, o meu tio acabou me levando para Gameleira, que é um bairro pequeno, que é onde minha mãe nasceu, onde eles nasceram, onde a minha família toda mora, onde elas moram. E eu conheci os meus tios e conheci o meu esposo. E foi onde tudo começou. Eu tinha treze anos, e estava tendo um jogo de futebol na rua, no campo de bola, que lá é típico da cidade, e eu conheci todos os familiares da parte do meu pai, que eu estava até na casa da minha avó Maria, que a chamava de Maria Galopinho, ela nem gostava desse apelido, mas era o nome dela. Eu acabei conhecendo o meu esposo, que através da irmã dele, eu a conheci lá, os meus tios apresentaram: “Essa é a Dalva, é sua prima”. Mas até então eu não sabia o nome do pai dela, nem da mãe, nem quantos irmãos ela tinha, nem nada. Aí a gente começou a andar, eu era novidade no povoado, logo era muito pequenininho, então era novidade. Chegava de outra cidade, bonitinha, arrumadinha, corpinho bonitinho, então assim, eu tinha treze anos, mas eu tinha corpinho de mocinha. Então imagina, os meninos lá tudo com olho grande em mim. E ele se interessou por mim. Ninguém o chamava de Givanilson, o chamava de Van, o apelido dele lá era Van. E ele se interessou por mim, eu também me interessei por ele, mas eu o achava muito preto, ele era muito preto, muito metido, ele era pretinho, mas era o sol também, coitado, fazer o quê? E a gente marcou de se encontrar à noite escondido, porque a minha família saber que eu estava namorando, Deus que me livre, eu ia morrer. A gente se encontrou, começou a conversar, ele foi e me contou que o pai dele era deficiente visual, que ele era meu primo, eu: “Nossa, primo?”. “É. Eu sou seu primo.” Eu falei: “Nossa!”. E a gente marcou de se encontrar outras vezes, porque como eu morava na Caraíba e ele tinha tios lá, porque o meu tio, o tio Gabriel, que foi o que me achou, ele é casado... Vê como é coisa... Por isso que eu falo pra você, não é coincidência, isso é coisa de Deus. O meu tio é casado com a irmã da mãe dele, do meu esposo. Você tá entendendo? Então assim, juntando tudo... Ele ia passear lá na Caraíba Metais, ficava na casa do meu tio, que também é tia dele, casado com a tia dele, e a gente se encontrava, eu ia pra lá dormir lá também. A minha patroa, que na verdade eu a tinha como uma irmã mais velha, que ela não era velha, uma pessoa bem querida pra mim, e ela autorizava dormir na casa do meu tio. E a gente se encontrava, e ela não sabia, porque eu estava indo muito pra lá, achando que era aquele amor grande pelo tio, pelas primas. Imagina, era só pelo primo mesmo. E a gente acabou ficando junto muito tempo, namoramos quase dois anos. Meu pai descobriu. Meu pai foi passear lá na Caraíba, acabou descobrindo que eu estava namorando esse rapaz e ele não quis o namoro, tinha muito preconceito por meu sogro ser deficiente visual e que eles eram de uma família mais humilde. Meu pai tinha esse preconceito. Então meu pai fez tudo para separar a gente. Meu pai me tirou da casa da Clésia e me levou de volta para Senhor do Bonfim. Aí eu fui morar lá. Quando eu voltei para o senhor do Bonfim, ele não estava mais com a Tereza, ele já estava com outra mulher, chamada Meire. Eu tinha um irmão, não sabia que eu tinha um irmão. Que esse tempo que meu pai estava com essa Tereza, o meu pai se envolveu com essa Meire e acabou tendo um filho, que é o Vinícius, que hoje mora aqui em São Paulo e a gente é muito amigo. E eu fui para Bonfim, conheci a Meire, tudo, até que ela era boazinha. E meu pai começou a ficar muito ignorante comigo, muito agressivo. Aí a vida dele já não estava mais estabilizada como era antes. Porque ele tinha casa própria, ele era uma espécie de agiota hoje, ele emprestava dinheiro para receber o dobro. Ele emprestava, vamos supor, naquela época era cruzeiro, cinco cruzeiros para receber dez cruzeiros. Então ele tinha uma situação financeira boa. E ele não estava mais assim. Ele estava bebendo muito, ele estava jogando muito, ele estava apostando tudo. Quando ele não tinha dinheiro, ele apostava um boi, apostava uma ovelha, ele apostava os bens que ele tinha. E ele estava muito agressivo comigo, ele estava descontando tudo em mim. Ele brigava com a esposa e batia em mim. Às vezes eu estava dormindo, eu acordava com aquelas bainhas de facão nas costas, que ele batia mesmo, muito, muito, muito, muito. E eu resolvi que eu não queria mais aquilo para mim. Eu falei: “Eu vou embora, não quero essa vida pra mim. Eu já conheço os meus familiares, o que eu vou ficar fazendo aqui?”. Aí eu resolvi ir para Gameleira. Chegando lá a Gameleira, eu pedi guarida para um tio meu, que é irmão do meu pai, o tio Zé Dilson, e fiquei com ele mais ou menos uns dois meses. Só que nesses dois meses ele viajou, que ele também trabalhava na mesma empresa que o meu pai, então ele viajava para outras cidades também. E eu menti para minha tia Cizinha, a esposa do meu tio, que ela que está aqui viu que o caso é verdade, que a Lora estava me chamando para dormir na casa dela. Aí eu ia dormir na casa dela para poder ficar com meu namorado, que hoje é meu esposo, que meu pai tinha proibido o nosso namoro, mas a gente se gostava tanto, que a gente se correspondia por carta. Então ia um ônibus que saía desse povoado para cidade de Senhor do Bonfim e levava as cartas para mim, e eu ia lá buscar as cartas, eu já sabia os dias certos que ele ia mandar as cartas. Ele mandava essas cartas para mim, então a gente namorava por carta, só que enquanto isso ele estava lá na cidade aprontando com as outras, porque ele não me via pessoalmente (risos). Aí nesse intervalo eu ficava dormindo na casa dela, da Lora, para namorar escondido o meu namorado. Meu pai acabou indo me buscar: “Você é menor, você vai voltar comigo e ponto final”. Voltei de novo para Senhor do Bonfim. Menina, como Deus é bom na minha vida. Só Deus mesmo na minha vida. Olha o que me acontece, a minha mãe estava morando aqui em São Paulo, a minha mãe foi passear lá na Gameleira... Foi passear ou foi morar, Lora? Ai desculpa, depois vocês cortam. Foi embora. Ela foi embora para Gameleira. Menina, que maravilha. Eu descobri. Meu pai não me contou, aí eu descobri. O meu namorado mandou uma carta dizendo que a minha mãe estava lá na Gameleira, aí meu pai descobriu. Nossa, meu pai não me deixou ir para Gameleira: “Você não vai pra Gameleira, você não vai”. Mas até então meu pai não sabia que eu sabia da minha mãe. “Você não vai pra Gameleira. Você não perdeu nada lá, você quer se encontrar com aquele vagabundo, pa pa pa”. E eu doida pra ir, e querendo fugir, aí nada. Aí meu pai arrumou um emprego pra mim na rua do... Lá chama rua do Aeroporto, que lá tinha aeroporto, que eu não sei nem se tem mais esse aeroporto. Tem, Lora? Tem mais não, Cristina? Tinha um aeroporto lá em Senhor do Bonfim. Aí na rua do aeroporto tinha uma casa de uma mulher, o esposo dela era contador, o senhor Carlinhos, o nome dela era Denair, e ela gostou de mim. Já conhecia o meu pai e meu pai me mandou pra lá, pra eu dormir no serviço. Imagina que castigo, eu ia trabalhar e praticamente morar no serviço, que eu ia dormir. Meu pai ia vigiar os meus passos. E eu estudava lá perto, estudava numa escola de freira, chamava de Sacramentinas o nome da escola. E eu tive que... Eu estudava... A escola tem, Cris? Estudei lá. Eu estudava nessa escola e ela ia me buscar, a minha patroa ia me buscar de carro, porque estavam fazendo tudo por debaixo dos panos, ela e o meu pai, pra eu não ir para Gameleira, porque a minha mãe estava lá. Tudo bem. Deus é pai, não é padrasto. Um certo dia teve uma festa na rua do aeroporto, ia ter um tal de... Como chama lá na Bahia? Forró Grito. São umas festas que têm de São João, só que eles chamavam de Forró Grito. Ia ter essa festa lá no aeroporto, que estava fechada a rua do aeroporto, estava fechada e ia ter essa festa, ia ter guerra de espada, umas coisas lá que eles fazem. E quem apareceu por lá? A minha cunhada Gidalva. E ela descobriu onde era a casa, porque ela andava tudo, ela conhecia todo mundo. E ela conheceu a casa que eu trabalhava. E ela foi lá, marcou comigo certinho o horário de ela me pegar. Aí eu fingi que fui dormir. Todo mundo foi dormir, eu fui também, claro. Aí eu saí de fininho. Eu me arrumei, saí de fininho e fui com a minha cunhada Gidalva me encontrar com meu namorado. Nesse encontrar com meu namorado que a gente marcou que no próximo feriado, que eu não estou lembrada direito, gente, se era Páscoa, ou era Semana Santa, se eu não me engano era Sexta-Feira da Paixão. E ia ter festa na quinta-feira, que lá sempre tem festa, chamam de Quinta-Feira Maior. Lá sempre tem festa, que é no mesmo dia da feira. E o feriado ia cair no mesmo dia da feira, que seria na quinta-feira Maior e ia ter festa. E eu ia aproveitar esse feriado, que os meus patrões iam viajar para Salvador, eles não iam me levar, que eles tinham parente lá, eles não iam me levar e eu ia ter que ir para casa do meu pai. Só que meu pai viajou e até então o meu pai não comunicou pra ela que ele tinha viajado, mas eu sabia, que até então eu estava sabendo tudo. E eu fui dizendo pra minha patroa que eu ia pra casa do meu pai. Imagina, eu fui para Gameleira. Catei minha mala, arrumei tudo. Mas também era tanta coisa que eu levei. Faz ideia. Porque eu já sabia que não ia voltar mais. Aí eu fui para Gameleira. Aí fiquei com ele lá. Só que quando eu cheguei, para surpresa, na hora que eu cheguei a Gameleira, a minha mãe estava na tia Nininha, não era? Tu lembra dessa história? Ai que bom. Quem me levou? Nossa, eu sei que eu estava com a Zildene e mais outra pessoa. Aí elas falaram assim: “Jildete. A filha da Tazinha tá aí”. Chamavam minha mãe de Tazinha. “A filha da Tazinha tá aí, a Jildete, a Nena.” A Nena. Meu apelido era Nena, nem eu sabia. Tanta coisa que eu não sabia, pra mim era novidade. Eu sei que o meu namorado estava comigo, a minha prima, a Zildene, e tinha outra pessoa, que era uma senhora, que ia me levar na casa dessa tia Nininha, a irmã da minha avó, pra conhecer a minha mãe. Nossa, que emoção. Aí lá vou eu pra casa da tia Nininha toda empolgada, me arrumando, me olhando pra ver se estava tudo legal, se a mãe ia gostar de mim, me perguntando se a minha mãe ia gostar de mim. E eu gostava de uma oração naquela época que não era nem uma oração, era como se fosse uma musiquinha que falava assim: “Mãezinha do céu, eu não sei rezar...”. Já ouviu? “Eu só sei dizer que eu quero é te amar.” E eu comecei a cantar sozinha, mas só que saía mmmmmm, sabe? E a Zildene me cutucou e falou assim pra mim: “Você tá cantando?”. Eu falei: “Eu tô”. Muito nervosa. E quando eu estou muito nervosa, eu canto, eu sorrio, eu choro, grito, me expresso dessa maneira. E eu estava muito nervosa, porque era uma emoção muito grande, eu não me lembrava do rosto da minha mãe, então pra mim ia ser a primeira vez que eu ia vê-la assim, de verdade. Aí tá vindo aquela mulher, ela não me esperou chegar até lá. Aí tá descendo aquela mulher, passando por uma porteirinha, tinha uma porteirinha pequenininha, parece que o puxador era de arame, não era? Era um puxadorzinho de arame. Olha, tá vendo que eu lembro, eu era bem novinha. Um puxadorzinho de arame, aí ela abrindo assim, eu lembro que ela até rasgou a blusa. Eu toda nervosa, preocupada se ela iria gostar de mim, e ela também nervosa, preocupada se eu iria gostar dela. Nossa, foi lindo. Você lembra, Lora, desse momento? Eu sei que ela não me esperou chegar. Hora que nós estamos chegando à porteirinha assim, aí a gente se abraçou, ela ficou me olhando. A primeira coisa ela falou, repara só: “Ó os botõezinhos dela”. Eu nunca esqueci. Gente, pode até não ter significado nenhum pra vocês, mas pra mim foi um significado muito grande. Porque assim, eu acho que eu pensava que ia ouvir outra coisa: “Nossa, que você é bonita, você é grande”, ou “Que você se parece comigo”. Não. Ela olhou para os meus peitos, os meus seios e falou: “Nossa, os botõezinhos dela”. Porque assim, eu era bem magrinha, eu quase não tinha, era só um sinalzinho. Mas eu já tinha um corpinho de mocinha mesmo. Então aquilo me marcou. Aí ela me abraçou bastante, nossa, foi uma felicidade imensa. A minha avó com a Lu estavam lá também. Foi uma emoção. Aí estavam meus tios, estava minha prima Nide, eu lembro que estava a Lora. Deixe-me ver, meu Deus, se eu me lembro de todo mundo. Meu tio José Raposo era vivo, mas ele estava enfermo, que era o esposo da tia Nininha. Tinha muita gente. Eu lembro que tinha muita gente pra ver esse encontro nosso. Foi muita... Porque lá assim, por ser uma cidade pequena, todo mundo chamava uns aos outros, tinha muita gente mesmo. Aí foi muito emocionante, porque desde aquele momento o meu pai não me tirou mais dos braços da minha mãe. A gente ficou junta por muito tempo. Aí também veio o lado ruim, que aí eu descobri que o meu esposo se envolveu lá com a mulher. Meu namorado. Envolveu-se lá com a mulher e acabou engravidando-a. E ela não esperou ele me contar, ela foi lá me contar. Então a gente ficou um tempo brigado, eu e ele, mas no fim o amor falou mais alto, a gente acabou voltando e eu engravidei. Arrumei uma casa para trabalhar lá em Jaguarari, que é uma cidade vizinha, fica no meio entre Bonfim e Gameleira, a cidade que na verdade é um município de Jaguarari. Eu acabei conhecendo uma senhora lá chamada Tereza lá também que era bancária, trabalha no banco também Baneb, que existia lá em Jaguarari, e eu fiquei trabalhando lá e o meu namorado, a gente não estava junto ainda, assim, estava junto namorando, mas como marido e mulher a gente não estava não ainda. E eu trabalhava lá, e de final de semana eu ia para Gameleira, a gente ficava junto, e dormia na casa dela. Ela é o cupido dessa história, então se alguém tem culpa, esse alguém é ela, não sou eu, gente. Aí eu sei que passou um ano, eu engravidei e acabei tendo que ir morar com ele. Só que a gente nem chegou a morar junto, eu perdi o meu filho. Mesmo assim continuei trabalhando. Aí a gente voltou novamente às boas, porque assim, cada vez que a gente brigava, aí eu ia embora. Toda vez que a gente brigava eu ia embora. Foi nessa época que eu perdi o meu filho. Aí minha sogra, juntou a minha sogra e meu sogro conseguiram uma casa lá em... Era até a casa da Lúcia do Totô, essa casa lá na Gameleira, que eles estavam morando aqui em São Paulo, os donos da casa, e a gente foi morar de aluguel lá. E eu fiquei... Quando completou acho que mais ou menos uns oito meses que a gente estava morando junto, aí engravidei do meu filho mais velho, que é o Gualter, que hoje está com vinte anos, vai fazer vinte e um. Quando eu estava grávida de seis meses, eu fui morar em Juazeiro. Meu esposo tinha arrumado um emprego lá e eu fui morar lá. Aí eu tive meu filho lá em Juazeiro, o Gualter. Quando eu estava mais ou menos com... O Gualter estava mais ou menos com seis meses, eu voltei de novo para Gameleira. Quando o Gualter completou um ano e meio, eu engravidei da minha filha Geisa. A Geisa ia nascer em fevereiro, ela nasceu no dia 29 de dezembro, ela nasceu de seis meses e vinte e um dias. A minha sogra estava aqui para São Paulo. E acabou que... Nós estávamos numa situação tão difícil, gente, mas tão difícil, tão difícil lá na Gameleira, na época que a minha sogra veio pra cá, que a Geisa nasceu, que carne, ninguém sabia nem o que era isso. Pão, nossa, nem pensar. Nós comíamos arroz que o governo, nessa época eu não lembro quem era o presidente, eu só sei que eram distribuídos, iam de avião pra lá pra Salvador, aí de Salvador... Era Antônio Carlos Magalhães que era o governador na época, que ficou por muitos anos, eles acabavam os caminhões do exército, iam distribuir nas cidades, porque era uma época de muita seca, de muita fome, muita fome mesmo. Aí iam distribuir arroz, um feijão preto, que tinha mais pedra que feijão. O arroz era em palha, não era o arroz assim debulhado, era em palha o arroz. A gente tinha que pilar o arroz, não sei se vocês sabem o que é pilar, é colocar num pilão. Pilava esse arroz, depois você peneirava esse arroz pra depois que peneirar colocava de molho na água, para ele inchar um pouco para depois cozinhar, porque senão ele não cozinhava, parecia pedra, você estava mastigando, parecia pedra. E ele virava um mingau quando ele cozinhava, se tacasse na parede, rebocava, ficava, lá mesmo ele ficava. E a nossa situação era precária mesmo, muito precária. E meu esposo numa luta, numa luta. Meu esposo vivia mais em Juazeiro do que comigo na Gameleira. Ele ia para Juazeiro trabalhar de chapa, não sei se vocês sabem o que é chapa. Chapa é assim, vem o caminhoneiro com a carga de mercadoria e ele vai e contrata um chapa, que é um rapaz, um homem, para descarregar aquele caminhão nos comércios grandes, ou mesmo se for de legumes, de verdura, de frutas, no Ceasa, que lá tinha. Se fosse arroz, feijão, essas coisas, seria nos mercadões, que chamam de mercadões. Aqui a gente chama feira, lá são mercadões. Não tinham os mercadinhos como aqui tem, eram os mercadões onde você ia comprar. Então era assim, o meu marido ia trabalhar de chapa. E ele era muito novinho, aí ele carregava aqueles sacos pesados de arroz, saco de cimento, saco de farinha, de feijão, para ele ganhar ou em dinheiro ou em alimento para levar para Gameleira para nós, no caso eu, o Gualter pequenininho e a Geisa recém-nascida. Gente, eu vou falar uma coisa pra vocês, era uma situação tão terrível, mas tão terrível, que nós andávamos léguas e mais léguas, quilômetros, para conseguir água, uma água branca. A água não era água cristalina, era uma água branca que você pegava, colocava na lata, você tinha que coar com um pano. Primeiro você colocava um pano em cima da lata, pegava essa água com a cuia, cuia é uma cabaça, você corta no meio, tira aquela semente e ela vira uma cuia. Você catava aquela água, coava, para depois você pôr na cabeça para levar para casa. Andava muito, muito, descansava um tempão no caminho até chegar à casa. Quando chegava à casa, você tinha que deixar aquela água assentar, depois de coada, aquela água tinha que... Assentar, que a gente fala, é tipo descer todo aquele pozinho pra baixo, que era como se fosse uma argila que ficava no fundo da lata, como se fosse uma argila que hoje a gente faz arranjo. E aquela água, depois que assentava aquela água, você pegava, coava novamente, ou fervia, para despejar nos potes ou nas moringas para nós bebermos, porque não tinha como beber de outra maneira, não tinha. Sem contar que tinha um gosto insuportável de xixi de gado. Dos animais. E aquela água era tudo que a gente tinha para beber, para comer, para tomar banho e tudo. Era um caldeirãozinho pequenininho de água que a gente tomava banho. Lavar roupa, misericórdia, quando chovia. É sério, não lavava a roupa. Você tinha neném, nossa, naquela época eu nem sei nem o que fazia, porque eu não lembro direito o que eu fazia com a Geisa, que ela usava fralda de pano, mas eu não lembro. Eu só sei que era uma luta terrível. E nessa situação eu sempre trabalhei com o meu esposo na roça. E meu esposo também sempre foi muito trabalhador, então ele trabalhava de jogo do bicho lá para um rapaz. Nessa época eu não sei nem se era ilegal, eu sei que naquela época acho que não era não, Lora? Porque era do que eles viviam. Eles faziam o joguinho, iam levar à outra cidade de bicicleta. Quantos quilômetros, Cristina, da Gameleira para Jaguarari? Eram muitos quilômetros. Ele levava de bicicleta para ganhar o dinheirinho de final de semana. E durante a semana, quando não tinha isso, a gente ia trabalhar na roça, eu e ele, viu? Eu trabalhava catando mamona, ele trabalha em roça limpando roça de feijão, ou até mesmo arrancando mamona. E a gente conheceu uma pessoa lá que estava vindo para São Paulo, o nome dele é Neuzito. E ele vendo aquela situação da gente, sempre que ele precisava do meu marido, sempre que ele precisava, o meu marido nunca disse não. Enquanto os pais de família, aqueles homens lá, os mais velhos, não queriam trabalhar, meu esposo nunca disse não. E ele se compadeceu do meu esposo e perguntou para o meu esposo se ele queria vir para São Paulo, se ele tinha onde ficar aqui em São Paulo. Aí meu esposo falou: “Tenho. Eu tenho os meus irmãos que moram lá”. São dois irmãos que moravam aqui nessa época. Aí ele falou assim: “Se você quiser, eu te dou o dinheiro da passagem”. Nossa, era muito dinheiro, gente, naquela época, era muito dinheiro, muito, muito. “Eu te dou o dinheiro da passagem e você me paga depois quando você arrumar um emprego, que a sua vida estiver estabilizada, aí você me paga do jeito que você puder.” Nossa, foi a mesma coisa de falar assim: “Você quer um pedaço de pão?”. É verdade. Aí meu esposo chegou e falou assim: “Bem...”. Não, não era “bem” que ele me chamava na época, era “amor”. “Amor, eu vou pra São Paulo.” Nossa, eu olhei assim pra ele descrente, falei: “Pra São Paulo? Com quem? Como?”. Nós não tínhamos nem o que comer, como ele ia para São Paulo. E ele: “O Neuzito falou que me leva, que paga a minha passagem. Só que tem que ser hoje, já”. Isso era de manhã, gente, prestem atenção. E o carro dos estudantes ia sair... O último carro ia sair de tarde, não tinha mais carro de estudante, porque o carro de estudante vinha de manhã e voltava acho que era mais ou menos uma hora, por aí, da tarde. E tinha só um carro na nossa cidade, ônibus não tinha mais, que era só uma vez por dia e tinha um horário certo que passava. E era de manhã isso, só que não dava mais tempo para organizar tudo para ele pegar o carro dos estudantes. A Leila olhou pra minha cara e falou assim: “Eu preciso tomar banho. Sem tomar banho não dá pra eu ir”. Aí eu olhei pra ele, com essas palavras, vocês podem perguntar pra ele que ele vai confirmar: “Olha, nós só temos um balde de água, se você usar toda aquela água, eu vou ficar sem água pra comer e pra beber”. E eu tinha duas crianças. Aí ele olhou pra mim e falou assim: “Mas eu vou fazer o quê?”. Eu não sei se vocês sabem o que é litro. Litro não é uma garrafa. As latas de óleo de antigamente eram em lata, não eram vidro de óleo como hoje, eram em lata, então a gente abria a lata, aí a gente amassava toda a beirada da lata pra gente reutilizar aquela lata. Então ele tomou banho com dois litros de água. Falar assim ninguém acredita. Ele tomou banho com dois litros de água para vir aqui para São Paulo. Porque se ele utilizasse aquela água toda que estava lá, que era um balde pequeno, um caldeirão assim pequeno, a gente ia ficar sem água pra beber e pra comer. Aí ele tomou banho e tudo, a minha sogra está lá preparando o frango, nossa, que estava guardando há muito tempo aquele frango ali, que era o único franguinho que tinha, para uma emergência, uma necessidade, de alguém ficar doente, vender aquele frango, comprar o remédio, era pra isso, porque criação a gente não tinha. Eu sei que ela matou esse frango, aí fez uma farofa pra ele, farofa mesmo, gente. Fez uma farofa bem feita pra ele. E tinham umas vendas lá que o pessoal comprava com caderneta, não sei se já ouviu falar, quem vai lá com caderninho compra fiado, no final do mês, quando o aposentado recebe, vai lá e paga. Aqui fala início do mês, lá é final do mês. E ele foi lá a essa venda comprar, chamava de mercearia, comprar umas bolachas, o nome da bolacha era Ted... Ô Loura, é biscoitão ou bolachão que chamavam aquelas bolachas redondas? Bolachão. Foi comprar aqueles bolachões, broa, eu lembro que tinha broa também. E eu preparando as roupas dele, ajeitando lá, passando. Era um ferro de brasa, viu, gente? Que eu até tenho ferro de brasa ali em cima. E passei a roupinha dele, a lágrima caindo. Nossa, gente, a lágrima caindo. Ele chorando de emoção, porque ele estava vindo para São Paulo, porque não era qualquer um, gente, que vinha para São Paulo não, tinha que ter dinheiro. E todo mundo sabe que uma vez que vinha para São Paulo, vinha e sabia que ia conquistar algo, porque aqui em São Paulo, naquela época, em 1992, 1993, se ganhava muito dinheiro. Não é como hoje. E valorizavam mais o serviço da gente também. Eu creio que antigamente o serviço da gente era muito mais valorizado que hoje. E eu chorando, chorando, chorando de tristeza, porque meu marido ia ficar longe de mim, meu filho se acabando de chorar que ia ficar longe do pai, e ele chorando de emoção, minha sogra se acabando de chorar, meu sogro chorando, os irmãos, todo mundo chorando, porque lá tinha isso, alguém vai para São Paulo, todo mundo chora. E meu marido veio pra São Paulo num carro que o Paulo tinha. Paulo não. Que Paulo? Era o Dé do Edinho. Que Dé do Edinho? Como chama o nome? O Renato. Como chama, Cristina? Era uma C10. C10. Não, D10. Não era D10 naquela época? Não era C10 não, era D10. Estava dentro dessa D10, nossa, aquele “pózão” comendo. A gente dando tchau pra ele e aquele pó, sabe, aquele “pózão”, aquele “poeirão” comendo. E meus filhos chorando, nossa, desespero, e a minha filha novinha, recém-nascida. Imagina, novinha, novinha, acho que a Geisa tinha o quê? Um mês e pouco. “Tchau, bem. Deus te abençoe, vá com Deus”. E ele vinha pra casa desse Gildário, que está aí nas fotos que você viu, que é o esposo da Vera, agente de saúde. E ele veio pra cá junto com o Neuzito, que é uma bênção de Deus na nossa vida também. Ele mora aqui em São Paulo, só que ele mora em Bragança Paulista. E meu esposo veio. Gente, eu falo uma coisa pra vocês, foi bom, mas naquele momento foi a pior coisa que aconteceu na nossa vida, porque a gente nunca tinha ficado tão longe, a gente nunca tinha ficado tanto tempo longe e muito longe. Então assim, para se falar por telefone era uma vez por mês e não tinha telefone nas residências, chamava de Telebahia, era como se fosse um quartinho pequenininho e tinha um orelhão dentro. E era uma pessoa que tomava conta. E essa pessoa, quando o telefone tocava, essa pessoa marcava o nome de quem estava ligando e quem ia chamar. Aí ele ligava, falava: “Eu quero falar com a Jildete da Catarinha, vai lá à casa da Lelinha, do Adauto”, que são os pais dele, “pra dar o recado, que eu quero falar com ela a tal hora”. Aí marcava o horário. Aí ia todo mundo: eu, meu sogro, minha sogra, os cunhados. Ia todo mundo. E tinha que ser uns minutinhos por vez. Ali não dava tempo de falar “eu te amo”, “eu tô morrendo de saudade”. Não dava tempo. Dava tempo só de dizer isso: “Olha, tô depositando o dinheiro na conta de Fulano de Tal. Peça pra Fulano ir buscar o dinheiro lá em Jaguarari”. Não, não era nem Jaguarari, era em Senhor do Bonfim, que era o único banco que eles poderiam mandar dinheiro. Que aqui sempre teve Bradesco. Eles iam à agência do Bradesco daqui e depositavam o dinheiro para outra pessoa que tinha conta, que era uma pessoa que tinha condições lá dentro do nosso povoado. Que era no Banco do Bradesco e só tinha na cidade do Senhor do Bonfim, que era muito longe. E ela ia lá buscar o dinheiro, desse dinheiro ela tirava a quantidade que seria a quantidade da passagem, como se fosse um juro, uma comissão por ela ter ido buscar o dinheiro. Aí trazia o dinheiro pra gente. Que aquele dinheiro era pra comprar um leite, era pra comprar um frango, ou que seja um pedaço de carne que você comia uma vez por mês. A gente comia carne uma vez por mês e olhe lá ainda, quando comia. Era pra isso. Fruta, verdura, legumes, misericórdia, nem pensar. Bolacha recheada, nossa, vim conhecer isso aqui... Não, aliás, já conhecia quando eu morava com meus pais, mas depois que eu me casei, aqui em São Paulo que eu vim comer. E não dava tempo de falar tudo. Só que o tempo foi passando e as coisas foram piorando, meus filhos foram crescendo. Dois filhos de mamadeira, imagina. E a Geisa vinha apresentando uns problemas de saúde, que ela nasceu muito fraquinha, eu tinha que ir sempre a Senhor do Bonfim com ela, então eu gastava dinheiro com passagem. Quando não dava pra ir no carro dos estudantes, eu tinha que ir de ônibus e tinha que gastar dinheiro, porque eles não dão carona, dificilmente. E a situação ficando difícil, e eu passando necessidade. Tinha época que... Não gosto de lembrar muito disso, mas eu fazia refeição uma vez por dia. Eu lembro que o meu filho pequeno falou assim pra mim uma vez: “Mãe, quero tanto comer um pão”. Eu falei pra ele: “Filho, vai à casa do seu avô, porque eu não tenho” “Mas o papai não deu o dinheiro pra você?”. Eu falei: “Deu, mas eu tive que comprar o remédio da sua irmã”. E ele foi à casa do avô, o meu sogro não estava, porque eu creio que se ele tivesse, ele tinha dado a caderneta pra comprar o pão, porque ele sempre foi uma bênção na nossa vida. E ele voltou sem o pão chorando muito, muito, ele chorava que esperneava, até hoje ele é chorão. E ele chorava, chorava, chorava. “Meu filho, eu não tenho.” Eu não gosto de lembrar, porque eu tive que bater nele pra ele parar de chorar, porque ele chorava de uma maneira como se eu tivesse de onde tirar, onde eu me virar num pão. E eu bati nele. Daí eu falei: “Eu não tenho pão, eu não tenho de onde tirar, vá dormir”. E eu bati nele que ele dormiu, bati tanto que ele foi dormir sem o pão, sem comer. E eu não aguentei. O tempo foi passando e eu não fui aguentando aquela situação. Porque ele pediu para os pais dele, meu esposo, que cuidassem de mim, que cuidassem dos nossos filhos, que não deixassem a gente passar fome, que o pouco que eles comessem, dividissem, mas não foi isso que aconteceu. Não foi. E eu não aguentei passar por aquilo. Aí chegou um momento que eu resolvi tomar uma decisão. Quando completou cinco meses e meio que meu esposo estava aqui, eu passando fome, eu não tinha mais de onde me virar para conseguir dinheiro. E estava numa situação, uma tal maneira que eu não estava tendo condições mais de ir à outra cidade. Porque nesse intervalo eu vendia pão na garupa da bicicleta. Eu colocava meu filho no quadro da bicicleta, e as bicicletas de antigamente tinham garupa, e na frente a gente colocava um cesto. Cesto a gente chamava de balaio, que era um cesto redondo assim, que eu não tenho nada aqui para mostrar pra vocês de que material é feito, lá embaixo eu tenho. E a gente o forrava com sacos, sacos como se fossem sacos brancos, que hoje a gente usa no chão, forrava-o, colocava o pão, aí por cima colocava outro saco, forrava-o todinho, colocava um plástico e um elástico com câmara de ar. Sabe câmara de ar da bicicleta? A gente cortava-a bem fininha, fazia a liguinha, passava assim em volta do cesto, amarrava para não entrar pó, porque era longe de Jaguarari para Gameleira, onde eu voltava com pão de bicicleta. Eu ia buscar o pão e voltava com ele, então era longe, tinha muito pedregulho, muito pó. E não podia entrar pó de jeito nenhum. E se por um acaso acontecesse de eu derrapar e cair com a bicicleta, os pães não caíam, porque estava bem amarrado. Então pão doce era novidade no nosso povoado. E eu trazia de lá. Minha cunhada tinha uma padaria, minha cunhada Gisélia, e ela fazia o pão. Ela tinha uma sociedade lá com o pessoal, fazia o pão e eu levava pra Gameleira para vender, e o pão doce era novidade, era o que eu mais vendia. Aí eu pegava, vendia esse pão, levava o dinheiro pra ela e ela me dava uma comissão. Como eu não estava mais suportando aquela situação de viver daquele jeito... E chegou um momento que o pão, voltando ao assunto de Jaguarari que eu ia falar, começou a faltar material para fazer o pão, que é a farinha de trigo... E a Gisélia teve que parar com o pão. Aí o que acontece? Acabou o meu pé de meia, que era a minha sorte. O meu ganha-pão eram os pães que eu vendia. E eu já tinha plantado uma hortinha, só que essa horta murchava, ela não progredia de jeito nenhum, as bichinhas não conseguiam crescer, nem a alface, nem o coentro. Quando não eram as galinhas que acabavam com elas, era o sol. Mas mesmo assim eu ainda estava conseguindo manter a minha casa, não passar fome de tudo. Aí eu não estava mais suportando aquilo tudo, não estava mais aguentando, não estava. Aí eu não comuniquei nada com meu esposo, não falei para minha sogra, não falei para os meus tios, não falei para ninguém. O meu tio tinha umas dornas, acho que umas quatro dornas, aqui chama tambor de ferro, lá na Bahia chama dorna. Quem tinha um negócio daquele naquela época era rico. Porque quando chovia, você aparava na biqueira a água da chuva e separava, as primeiras águas que caíam, a gente dizia que a água não caía limpa porque o telhado estava sujo, então aquela água que você aparava no primeiro tambor ficava só para lavar roupa, limpar uma casa, no banheiro, essas coisas. Depois, conforme ia limpando o telhado, a outra água você aproveitava para beber. Então um tambor daquele durava muito tempo só para beber. Tá entendendo? Aí separava outro só para cozinhar. Eu sei que ele tinha umas quatro dornas. Quem tinha isso lá, valia muito dinheiro uma dorna. E eu tinha essa bicicleta, e a minha mãe veio embora para São Paulo novamente e tinha deixado alguns móveis, tinha um guarda-louça velho. Guarda-louça são aquelas cristaleiras antigas de madeira mesmo, que é bem antigo, que lá no Nordeste ainda se usa muito ainda. Eu tinha uma cama de casal, eu tinha um colchão de mola, que naquela época era novidade, então valia dinheiro. O que eu fiz? Resumindo, eu juntei todas as minhas coisas, saí oferecendo para o pessoal que tinha dinheiro lá. Que tinha dinheiro, tinha condições de pagar, que era um aposentado, que tinha um mercadinho, que tinha uma... Como eu vou dizer? Uma criação, que poderia me pagar. Comecei a oferecer os móveis da minha mãe, que não eram meus, gente, eu usava os móveis da minha mãe. Eu oferecia as dornas do meu tio. E nisso eu vendi tudo, até os potes eu vendi. Eu vendi tudo e fiz o dinheiro de duas passagens, porque eu tinha que pagar a passagem do meu filho, senão não tinha como vir. Fiz o dinheiro de duas passagens sem comunicar nada para o meu esposo. Faltando quinze dias para eu ir viajar, eu preparando isso tudo por debaixo do pano, achando que era por debaixo do pano, porque não era. Porque assim, eu achava que ninguém estava sabendo, só que não tinha como um lugar pequeno ninguém saber nada. Comunicaram com a minha sogra, então a minha sogra ficou pianinho ali só me investigando. E eu não estava muito bem com ela, estava meio... Não estava muito bem com ela. Então ela aproveitou esse momento e tentou fazer a minha caveira aqui em São Paulo, mas não conseguiu. Deus é bom, não conseguiu não. Resumindo, o meu esposo ligou, faltavam quinze dias, meu esposo ligou e eu falei assim: “Amor, é o seguinte, eu vendi tudo que a gente tem, tudo que a gente tinha. Vendi as coisas da minha mãe, do meu tio”, sem falar nada para o meu tio. “Vendi tudo e tô indo pra aí.” “Você é louca. Mas você vai vir pra onde? Eu tô de favor na casa do meu irmão, não tem pra onde a gente ir. O que a gente vai fazer? A gente vai comer o quê? Vai dormir onde, morar onde?” Escuta só. E eu: “Se vira. Eu não tô aguentando passar fome”. E ele: “O quê? A minha mãe falou que faz despesa uma vez por mês, vai, te leva tudo, prepara um boca pio”. Não sei se vocês sabem o que é boca pio, é uma sacola bem grande. “Prepara de tudo um pouco e leva pra você”. Eu falei: “Quem?”. “A minha mãe.” Eu falei: “Isso nunca aconteceu. Só se for encarnação. Isso nunca aconteceu”. E ela lá do outro lado ouvindo tudo. Eu tive que falar a verdade. Eu falei: “Não. Isso nunca aconteceu”. O meu sogro sim autoriza ela me dar, mas ela não me dava. E eu contei tudo pra ele. Tudo bem. Só que como ele conhecia... Porque eu creio assim, se ele acreditou em mim, é porque ele conhecia o lado dos pais dele. Concorda? Aí ele foi e falou assim pra mim: “Eu vou ver o que eu posso fazer, eu te ligo no próximo final de semana”. Porque não tinha como ligar na semana, era só de final de semana. Era muito dinheiro, custava muito dinheiro ligar, e ele não tinha, tadinho, porque ele tinha que ajudar o irmão, ele tinha que ajudar na despesa para o irmão, em pagar as contas. Porque ele estava vivendo de favor, mas ele tinha que ajudar na despesa, ele comia. E tinha que mandar dinheiro pra mim, então não sobrava nada pra ele. O que ele fazia? Ele comprou uma bicicleta e ia trabalhar de bicicleta. O dinheiro do vale transporte que ele vendia nos terminais, ele comprava o desodorante, as coisas íntimas dele e juntava um pouquinho escondidinho ali. Porque meu esposo sempre nessa parte, graças a Deus, ele sempre teve sabedoria, que a gente não pode pensar só no momento, no hoje, a gente tem que pensar no amanhã. E ele foi lá ao Macuco, lá no Zaíra, encontrou uma tia dele chamada Neide, e conversou com ela, pediu para ela que, por favor, o ajudasse, que ele precisava que ela arrumasse uma casa pra gente morar. E o que ela fez? Ela foi atrás de fiador. Que naquela época não se alugava uma casa por boca, tinha que ter fiador, tinha que ter um cheque, o cheque não podia ser de terceiro, tinha que ser do próprio fiador. Era assim, era muito burocrático. Você alugava uma casa para morar um mês, você tem que pagar três meses antes. E cadê ele ter dinheiro pra pagar. Aí ele foi procurar um tio meu no Parque das Américas pra emprestar esses cheques pra ele alugar essa casa. Aí meu tio falou... Como diz o ditado, ele não disse com essas palavras, mas quase isso: “Eu te conheço? Eu nem te conheço, nunca te vi, como eu vou te emprestar cheque, três folhas de cheque? Eu não posso”. Então resumindo, não emprestou. Mas a Neide, tia dele, com a graça de Deus ela correu atrás, conquistou e arrumou uma casa faltando três dias pra eu sair de lá. Arrumou uma casa pra gente morar. Nisso ela arrumou um fogão, eu estava levando um pouco do dinheiro que sobrou pra comprar o botijão, que faltava só o botijão e o gás. Não, minto. Não, era o botijão e o gás mesmo, certo. E eles conseguiram um beliche, compraram um beliche usado, conseguiram colchão emprestado, conseguiram coberta, porque aqui fazia muito frio. Lá a gente não tinha coberta, não precisava de coberta, era lençol que a gente usava. Conseguiram algumas roupas para os meus filhos, pra mim, então assim, já estava meio caminho andado. E eu vinha trazendo panela, trouxe prato, eu vinha trazendo talher, copo, o que eu tinha lá essas coisas eu vinha trazendo. Então, gente, vocês não sabem da maior. Aí eu vim. Dentro do ônibus a minha filha Geisa pegou uma catapora, que na verdade não era nem catapora, chamava varicela, que é a mais forte mesmo. E uma diarreia terrível. Nossa, terrível, terrível. Então assim, ela enjoava muito. Nas paradas eu tinha medo de deixar alguém pegar o Gualter pra ir ao banheiro, então eu tinha medo, então eu tinha que ir junto. E a Geisa passando mal, vomitando, diarreia, aquela catapora tomou conta da minha filha, a boca dela, ela não conseguia comer, porque a boca dela cheia de catapora, cheia de ferida, orelha, narizinho, toda, as partes íntimas da minha filha. E ela chorava, e aquele calorão, porque o ônibus não tinha ar condicionado, o ônibus não tinha nada, é nesses... Como chama? Pau de arara, como diz o povo. Esses ônibus clandestinos, sabe? E três dias, eram três dias de viagem. Então assim, esse sofrimento todo e minha filha passando mal, era febre, e o pessoal não dormia, e o pessoal reclamando. Porque ninguém dormia, minha filha não deixava, ela chorava muito, muito. Ela não conseguia puxar o meu peito pra mamar, eu tinha que apertar o peito, apertava. Eu tinha muito leite, então eu apertava, aí ela engolia e chorava. Ela sentia fome assim, toda esganadinha puxando o meu peito pra mamar, mas não aguentava de dor e chorava. No dia que a gente... Faltava um dia pra gente chegar, que assim, tipo na virada da madrugada, aí meu esposo arrumou um carro. Não, minto. Ele não foi de carro, não. Foi ele e meu cunhado me buscar no Tietê. No Tietê, gente, ou foi no Brás? Acho que era no Brás naquela época, não era, Loura? Era no Tietê mesmo? Era Bonfim Tour o nome do ônibus, eu lembro como hoje. Eu sei que ele foi me buscar na rodoviária. Chegando lá, ele falou assim, até hoje ele fala pra todo mundo: “Quem são aqueles retirantes? Nossa, eu deixei uma mulher tão bonita”. Falou: “Uma mulher preta, magrela, cabelo de bucha, que tava descendo do ônibus. A outra feridenta”, ele dizendo, “toda feridenta”. Porque a catapora estava tão feia que parecia um monte de ferida mesmo. Até hoje ela tem marcas, não sumiu. Ela era pequenininha, mas ficaram aquelas marcas. Sabe aqueles furos assim? No corpinho dela, no rosto, ela tem na testa. Ficaram aquelas marcas nela. Então quando nós chegamos ao Tietê, que ele pegou a gente, minha filha continuou vomitando, a gente já veio direto, quando nós chegamos ao Zaíra, tinha um... O nome do pronto socorro lá? Em frente à padaria Globo lá no Zaíra tinha um hospital. Tinha não, tem ainda. Nós tivemos que descer lá, porque minha filha estava muito, muito mal, muito mal. Já estava com muita febre. Eu levei muita bronca dos médicos, porque eles acham que era fácil você descer de um ônibus, o motorista te deixar num hospital em qualquer cidade. Não é assim que funciona. Primeiro que o ônibus era clandestino, eles não podiam. Morriam de medo, nós cortávamos caminho por dentro do mato pra não sermos parados pela polícia, porque se a gente fosse parado pela polícia, eles tinham que desembolsar muito dinheiro pra polícia liberar a gente de volta, ou ficar preso e cada um procurar seu rumo. E não tinha como levá-la ao médico. Ela estava com febre muito alta, muito alta. Resumindo, ela acabou ficando no hospital internada e eu tive que ir pra casa. Gente, eu não conto pra vocês a maior, fui até roubada dentro do ônibus. O dinheirinho que eu levei das coisas que eu vendi, me roubaram. O próprio pessoal que me ajudou dentro do ônibus, que me ajudou a trocar a menina, pegar a roupa dela na mala, nas coisas. Eu tinha uns discos de vinil, sabe? Naquela época era o maior sucesso, era Leandro e Leonardo, eu tinha de Roberta Miranda, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, sabe a vanguarda? Eu tinha muito esses discos, foi a única coisa que eu não vendi, que foi uma herança, um presente do meu pai, então era uma relíquia pra mim, fiquei muitos anos com eles. E eu coloquei esse dinheiro dentro dos discos. Eu não sei como alguém achou esse dinheiro dentro dos discos na mala. E quando eu cheguei, que eu desci, que enquanto eu estava no hospital com o meu esposo, eu falei: “Olha, o dinheiro tá dentro dos discos, pãrãrã, pra comprar o gás”. Que eu já cheguei, já era muito tarde em casa. E a gente precisava comer, Estava todo mundo com fome. E outro lugar, tudo diferente, muito frio, muita garoa, muita, muita, muita, que garoa molhava. Eu falava que estava chovendo, eles falavam garoa, eu não entendia o que era garoa. E molhava todinha e era muito frio, muito frio. E eu não tinha mais o dinheiro do gás, e nem ele tinha, porque ele estava contando, todo dinheiro que ele tinha ele teve que pegar empréstimo pra poder quitar o primeiro aluguel, e os demais foi dado cheque. Então não tinha dinheiro. Nossa, a gente entrou em pânico e futucamos tudo, eu entrei em desespero, comecei a chorar, comecei a rezar, e não achava o dinheiro. Resumindo, ficamos sem o gás até o dia seguinte, sem comer. Nós ficamos sem comer até o dia seguinte. Sem comer. Pra dizer que a gente não ficou com fome assim de tudo, tinham umas bolachas Lili, que até hoje eu gosto daquelas bolachas, mas eu não acho mais, Lili. É o mesmo sabor da bolacha de maisena, sabe? Mas o nome dela chamava Lili. Elas eram quadradinhas assim, sabe? E foi o que a gente comeu. No outro dia ele ia trabalhar de manhã, eu ia ficar sozinha. A minha sorte é que a tia dele chegou no dia seguinte e acabou sabendo que não tinha gás. Ali ela achou uma quitanda, ficava perto, na mesma rua que eu estava morando, e conseguiu comprar o gás. Tudo bem. Graças a Deus o tempo foi passando, as coisas foram melhorando, a gente se mudou de lá e fomos morar em outro lugar ali no Macuco já numa casa melhor, eu já consegui arrumar roupa pra lavar pra ganhar dinheiro. E meu esposo já estava ganhando melhorzinho, aí começou a comprar... Aqui sempre teve, mas naquela época eu acho que tinha mais, loja de móveis usados. Então a gente comprou cama de casal, comprou colchão, guarda-roupa, tudo em loja de móveis usados. A gente comprou um fogão, aí devolvemos o que era emprestado, compramos um beliche, devolvemos o emprestado, os colchões. Então assim, a nossa vida começou a estabilizar, melhorar, eu arrumei emprego registrado, já estava com a vida muito bem estabilizada. E tudo estava mudando na nossa vida. Aí meu esposo foi trabalhar numa firma muito conhecida, na Otis.

 

P/1 – Jildete, só me conta, qual foi o primeiro trabalho que você arrumou?

 

R – Foi lá no... Ai, como era o nome do Marcão? Era uma lanchonete. Eu esqueci o nome da lanchonete agora. Eu sei que o nome do meu patrão era Marcão. Foi o meu primeiro emprego, lá em Mauá, trabalhava à noite. Aí meu esposo arrumou um emprego também registrado numa firma chamada Otis, uma firma muito conhecida, Elevadores Otis, você já ouviu falar. E lá numa parte foi muito boa, mas na outra foi lá onde veio todo o nosso maior sofrimento daqui de São Paulo. Não pense que aquilo que eu contei pra você foi sofrimento não, viu? Ali foi pouco do que eu passei. Ele começou já conhecer amigos, começou a beber, que ele não bebia, ele não fumava, já começou ir para as baladas, curtir boates, aí conheceu uma pessoa lá, acabou se envolvendo com essa pessoa. Aí nisso eu engravidei da Kelly. E as coisas já começaram a mudar, já começaram a ficar diferente, eu trabalhava muito, ele trabalhava muito, a gente se via pouco, só que ele tinha muito tempo pra sair, ele andava bonitão, aí ele saía. E o relacionamento da gente já começou a ficar diferente, não tinha mais aquela afinidade que tinha no começo, aquele carinho, aquele amor. Que a gente era muito jovem, a gente se amava muito. E ele já começou me destratando, me rejeitando, não me levando para os lugares, não me contando mais o que acontecia, não trazendo mais presente pra mim, nem para as crianças, que era uma coisa que ele fazia muito. Ele comprava um chocolate, era um presente. Ele trazia um bombom. Naquela época, eu lembro que o bombom mais famoso que tinha, que era muito famoso, todo lugar tinha, eram os Batons Garoto. Nossa, quem não comia Garoto? Então assim, eu só não lembro se existia o branco, eu sei que o preto... Então ele comprava sempre. Ele levava um Batom Garoto, tinha uma bolacha recheada que não era o pacote grande assim, ela era pequenininha, eu não lembro muito bem o nome dela. E ele levava aquelas balas, chamava... O nome das balas era Maluquinha, acho que era Maluquinha que chamava, Tchutchuquinha, acho que era Maluquinha, uma coisa assim. E ele levava essas balas, então era presente, ele mandava montar o saquinho, saquinho de bala, não sei o quê. Era presente pra nós. Era uma coisa bonita, uma coisa simples, mas bonita. Ele não fazia mais isso. Então já procurava falar pouco, ele já falava pouco comigo. E eu comecei a notar muita diferença nele. E eu com barrigão, barrigão já mesmo saindo pela boca, como diz o ditado, e minha sogra veio pra cá pra São Paulo. As coisas já estavam tão, tão boas que a gente já estava até conseguindo mandar buscar os familiares pra cá. E nisso já estava morando um cunhado meu. Já estava morando um irmão dele com a gente na nossa casa. Era uma casa pequena, mas era bem aconchegante, tinha tudo. É que nem você viu ali, é naquela época que tinha aquela geladeira, a minha geladeira era azul, eu tinha um armário, mas era meu, era tudo meu, conquistado por nós. Morava de aluguel, mas era tudo conquista nossa. Aí foi que eu comecei a ouvir zum zum zum entre eles, os familiares deles, os irmãos, a mãe. E eu comecei a perceber os vizinhos me olharem diferente, com piadinhas. Então assim, aí eu falei: “Tem alguma coisa errada acontecendo na minha vida. Por que eu não tô vendo isso?”. E a gente nunca brigava. Nunca. A gente nunca brigava. Mesmo quando ele engravidou essa mulher lá na Bahia, que ele teve essa menina, que eu gostava muito dela, eu cuidava dela como se ela fosse minha filha, a Gilmara, a gente não brigava, a gente nunca brigava, a gente nunca ofendeu um ao outro com palavras, nunca, a gente sempre foi muito sincero um com o outro e dialogava muito. A gente já começou a brigar, agredir com palavras, só não tinha aquela agressão de tapas, essas coisas não. Mas já estava ficando difícil. Aí eu comecei a faltar no serviço e a vigiá-lo. Aonde ele ia, eu ia atrás, ele entrava num salão, eu entrava atrás. Aí eu comecei a frequentar lugares que eu nunca tinha entrado na minha vida. Tinha um salão de festa chamado Estrela do Mar, em Mauá, que se você procurar saber, você vai ver que o que eu tô falando é real, que foi onde eu peguei os dois. Eu o peguei com essa mulher. E eu já tinha ido a festas nessa firma, festa de final do ano que faz, sabe? Que você pode levar os familiares. E eu tinha ido à festa na Otis, e eu tinha visto-a, ela servindo cachorro-quente pra gente, tratei-a superbem, ela limpou a boca da minha filha, que tinha se sujado com cachorro-quente. Eu tinha visto essa pessoa, mas até então nunca tinha ligado nada e muito menos... Sabe quando você sabe que vai pegar, mas ao mesmo tempo seu coração diz: “Não, não é verdade. Isso não tá acontecendo”? Foi isso. Eu o peguei com essa mulher. Também cheguei à casa, botei-o pra fora, joguei as roupas dele tudo pra fora, botei a mãe dele, botei irmão dele, botei todo mundo pra fora da minha casa. Aí tinha uma vizinha, que é um amor de pessoa, meus filhos até hoje a chamam de vó Zefa. E ela me ajudou muito, muito, porque assim, eu entrei num estado, num estado de depressão tão deplorável, numa situação tão... Que todo mundo dizia que eu estava louca. Eu não comia, eu não sentia fome. Eu só bebia e fumava. Eu bebia muito, muito, muito, muito café, não bebida. Tomava muito café. Era o tempo inteiro garrafas e mais garrafas de café. Eu acho que nem tinha... Não lembro se eu tinha garrafa térmica, eu sei que eu tomava muito café e fumava muito cigarro, muito cigarro. Eu cheguei a pesar trinta e oito quilos, de tão magrinha que eu fiquei. Eu fiquei magrinha, magrinha, magrinha, o courinho e o osso mesmo. E comecei a bater muito nos meus filhos. Comecei a descontar a raiva que eu sentia do meu esposo nos meus filhos. E comecei a me afastar de todo mundo. Eu não queria ver televisão, eu não queria sair de casa, eu não queria trabalhar. Eu estava de licença de maternidade. Eu não queria trabalhar, que eu falo, não trabalhar fora, porque eu estava de licença, trabalhar em casa, lavar roupa. Não queria tomar banho, eu não queria cuidar dos meus filhos. Então essa vizinha, que os meus filhos chamam de vó, foi a mão, os meus pés, foi tudo pra mim, porque ela me tirou do fundo o poço. Ela me tirou do mais profundo fundo do poço. Quando eu estava tentando tirar a vida dos meus filhos e a minha vida, Deus fez com que ela invadisse a porta do meu barraco e não deixasse que eu desse aquele alimento para os meus filhos, nem tomasse. Eu estava numa situação tão precária que eu já estava sem tomar banho eu creio que há uns três dias, mais, que eu não tomava banho, não escovava os dentes, que eu não comia, era só café e cigarro. Era uma carteira de cigarro atrás da outra, eu não apagava o cigarro, quando eu sentia que o cigarro estava me queimando, eu já estava acendendo o próximo cigarro. Hoje eu sei que é proibido, mas naquela época era fácil comprar chumbinho, era muito fácil. Então eu comprava pra matar os ratos, tinha muito rato, muito rato, porque tinha muito mato, não tinha tanta casa como agora. Então tinha muito mato, muito esgoto, era muita viela onde eu morava, o pessoal não tinha coleta de lixo. Então imagina. Os cachorros rasgavam os lixos, era muito rato. Aí eu comprei o chumbinho pra por para os ratos. Só que eu decidi que eu não tinha que dar aquele privilégio para o meu esposo. Eu tinha que fazê-lo sofrer, ele tinha que sentir que tinha matado a mulher e os três filhos. Ele tinha que ficar com aquele sentimento de culpa. Então eu coloquei chumbinho no mingau. Mingau não, minto, não era mingau. Os meus filhos gostavam muito de bolacha com café, com café e leite. Então você molhava a bolacha, colocava nos pratinhos, molhava a bolacha. E eu enchi. Enchi assim, semeei, eram até uns vidrinhos pequenininhos assim, tirava a tampinha, tampinha de plástico assim, tirava a tampinha, e eu semeei assim, coloquei no meu leite, coloquei leite com café pra mim, um copão. Eu lembro que era leite porque diz ela que me viu pegando o vidrinho, colocando no copo e despejando o leite, depois despejei o café. Ela olhando pelos buracos da porta. Porque barraco de madeira tem aquelas frestas assim. Olhando pelas frestas ela viu. Diz ela que já tinham uns dois dias que eu não saía pra fora, mas eu... Sabe assim? Muita coisa eu não lembro direito. E eu estava colocando no meu copo isso. Então assim, a Kelly eu já tinha feito a mamadeira dela, da Kelly, e estava dentro da água. Sabe quando você enche a mamadeira? E ela estava dentro da água pra esfriar, da Kellynha. Eu fico assim na minha cabeça, como que... Ela foi uma das minhas filhas que praticamente não mamou, foi a Kelly, porque minha depressão era tão... Eu não tinha leite. Não tinha leite. Então ela já foi logo... Era até mingau de arrozina, não sei se já ouviram falar. Tem um creme de arroz e tinha um que chamava arrozina, que era quase igual o creme de arroz. E eu fiz um mingauzinho pra ela bem ralézinho, bem fininho, e coloquei pra ela. Isso eu lembro muito bem. E pus pra esfriar pra poder dar pra ela enquanto ela ficasse... Eu tomava o meu leite e ia dando de mamar pra ela, mas todo mundo ia morrer, era o que eu queria fazer. Ela me viu fazendo aquilo, só que ela não me viu fazendo nos meninos, nem na mamadeira, ela me viu fazendo só no meu copo. E nesse intervalo ela desceu uma viela, porque assim... Ainda tá do mesmo jeitinho lá. Quando eu fui lá visitá-la, o barraco dela que ela mora, o outro onde eu morava da zona assim tá do mesmo jeitinho, só que a viela não é mais de madeira. Sabe aquelas vielinhas assim? Que tipo assim, é o barro, não sei se vocês já viram, aí eles colocam as madeiras assim dos lados...

 

P/1 – E onde é? Que rua?

 

R – É no Macuco. E colocavam as madeiras, porque assim, o barro, quando chovia muito, conforme descia a enxurrada, deslizava. Então a gente colocava as madeiras, as pilava assim pra poder grudar no barro das calçadas, que eram os próprios moradores que faziam aquelas calçadas, aqueles degraus, pra poder a gente não cair, que eram umas vielas, aqueles degraus muito altos, aquelas escadas muito altas e muito estreitinha, e fazia aqueles corrimãos de madeira. Só que tinha chovido muito nessa época e tinha desbarrancado algumas casas lá perto. Ela desceu pelos barrancos, pelos entulhos, pra chamar uns moradores lá embaixo pra poder subir com ela. Aí eles arrebentaram a porta. Eu não sei como ela conseguiu tão rápido. Arrebentaram a porta. E ele deu um chute assim, porque eu já estava bebendo, eu ainda ingeri um pouco, ele deu um chute em mim que bateu foi assim, do jeito que ele chutou, bateu foi no meu rosto. E eu derrubei o copo com veneno e também ela não deixou mais ninguém comer nada na minha casa, ninguém, nem os meus filhos, ela não deixou nada. Ela levou tudo pra casa dela, tudo, aí ligou pra minha família, falou que eu não estava bem de saúde, que era pra alguém me buscar. Nisso a minha família toda no Parque das Américas já estava sabendo, a parte da minha mãe, a família por parte da minha mãe que morava no Parque das Américas. Todos já estavam sabendo que eu estava louca, que o filho da Lelinha, isso foi a minha sogra que falou, que o filho da Lelinha não tinha traído-a, não tinha me traído, que eu estava louca, que eu quebrei o resguardo. O pessoal lá no norte fala isso, no  Nordeste. Que eu quebrei o resguardo, que eu estava louca, aquilo não tinha acontecido. Então a minha família já sabia que eu estava doente sem ninguém ir lá, os moradores comunicarem, e sim a minha sogra, mas da maneira assim, falar ela tá doente porque ela tá sofrendo muito. Teve que a dona Zefa ligar lá, avisar pra eles que a situação era precária, que eu estava precisando de ajuda mesmo. Aí foi que a minha irmã, que mora em São Mateus, ela veio. Ela ficou sabendo e foi pra minha casa. Eu lembro como hoje ela me dando banho, ela me sentou em cima da tampa do vaso assim. E a gente não tinha chuveiro quente, ela esquentou água no fogão, encheu um balde, e ela me dando banho. Eu lembro como hoje. Eu chorava, chorava, e ela me dando banho. E ela falando assim: “Você vai fazer isso por causa de homem? Homem não merece isso não, minha irmã, você é muito bonita, você vai arrumar um monte de homem, você vai ser muito feliz”. Aquele jeito. Que ela tem um jeito bem... Sabe? De falar. Eu chorava, chorava, tremia, chorava, chorava. Aí ele soube o que aconteceu e foi lá me ver. Eu lembro que ele me abraçou muito, em nenhum momento ele me destratou. E foi me ver, pediu perdão, falou que não queria se separar de mim, que o que ele estava passando, esse momento que ele estava passando com aquela mulher era passageiro, que foi uma aventura, mas ele não queria se separar de mim, que fui eu que me separei dele, que fui eu que quis. Tipo, como se tivesse tirando a carga das costas dele e jogando na minha. Mas assim, foi muito bom ele ter feito aquilo, numa parte, porque ele me deu muita atenção naquele dia, ele dormiu na minha casa, dormiu comigo, me deu atenção, conversou comigo, os meus filhos ficaram na casa da dona Zefa. E aquilo me ajudou a me erguer. Enquanto ele estava dormindo, achando que eu estava dormindo do lado dele, eu estava acordada. Mas foi naquela época que eu percebi que eu era diferente. Que eu não nasci pra morrer daquele jeito, porque se fui capaz de sobreviver por tantos anos sem mãe, eu pensando com essas palavras assim, de viver sem mãe, então eu poderia viver sem marido, eu tinha os meus filhos, que eram o meu tesouro precioso. E eu tinha uma amiga que morava no... É. Morava. Que hoje não morava mais. No Maringá, em Mauá também. E ela é da minha terra, é parente minha, o nome dela é Aurinha, casada com Fecundo, com meu primo. E ela tem uma filha que eu gostava muito, que gosto até hoje, o nome dela é Marleide. Eu entrei em contato com a Marleide no dia seguinte e pedi pra que ela arrumasse uma casa pra mim, pra eu morar de aluguel. Eu não tinha mais como ficar ali, eu ia ficar vendo meu esposo e a amante? Eles moravam muito perto, não tinha como ver aquilo, ver a minha sogra, que naquele momento eu a considerava como a minha mãe, eu queria um apoio dos familiares dele e eu não tive esse apoio. E a minha família eu não procurava ter um apoio da família por parte da minha mãe porque eu não fui criada com eles. Então assim, aquele vínculo, aquele calor humano que eu recebia era da minha mãe e da minha irmã Ildete, e não dos meus tios, eu não tinha uma afinidade com eles, eu não fui criada com eles. Então não tinha aquele amor. Eu sabia que eles eram os meus tios, mas não tinha aquele amor. Então o que acontece? Eu peguei, a Marleide me ligou de volta depois, que é pra casa de uma vizinha, e falou que tinha uma casa de dois cômodos lá pra alugar, mas o aluguel não era muito barato, só que precisava também de fiador. Aí foi que entrou essa pessoa que eu te falei, a Aurinha. Ela falou assim: “Não, eu vou ser sua fiadora”. Aí colocou a filha dela, a Marlene, para ser minha fiadora. Ela foi ser minha fiadora, porque eles sempre confiaram em mim. Eu era muito novinha, mas assim, eu sempre trabalhei. Então nessa parte eles sabiam que eu não ia pisar na bola com eles, claro. Lora, eu queria te pedir um pouco de água, se possível, tá? Você pega uma aguinha, por favor? Vocês querem um suco, uma água?

 

P/1 – Não. Não, obrigada.

 

R – Então, aí ela falou assim: “E tem mais, eu vou conseguir creche. Vou conseguir creche pra sua filha. Se no momento, até o momento da vaga... Porque assim, não é tão rápido, você vai conseguir vaga assim, não tinha como. Eu vou ficar com os meninos pra você trabalhar...”, porque logo, logo eu já ia voltar a trabalhar, “eu vou ficar com os meninos pra você trabalhar e vou conseguir uma creche pra Kellynha”, que era a recém nascida. Nossa, foi a melhor coisa que eu podia ouvir. Aí eu conversei com ele, com o meu esposo, falei: “É o seguinte, eu não quero viver mais com você, só que você vai pagar o aluguel, você vai dar pensão para os seus filhos, porque eles não são filhos de chocadeira”, que era o hábito, o termo que a gente usava. E ele concordou. Aí ele já adiantou o aluguel, tudo certinho, fez despesa, fralda, tudo assim ele arcou tudo bonitinho. E eu fui embora para o Maringá, fiquei morando no Maringá durante acho que seis meses e meio. Não, mais, uns oito meses e meio. Aí ele foi mandado embora da firma que ele estava, da Otis. Aí os irmãos dele, dois que moravam aqui, um que já tinha vindo pra cá, o Gilmar, e o Gidário, que é esse, o padrinho da Geisa, que pegou no pé dele e falou assim: “Agora você vai ter que comprar um teto pra sua esposa. Pra Jildete”, não foi pra sua esposa, “pra Jildete”. Ele falou assim: “Eu não vou comprar nada pra ninguém, não. Eu tô separado dela, por que eu vou comprar?” “Vai comprar. Você vai comprar. Ela tem três filhos pequenos, você vai comprar.” “Não. Não vou, não.” “Você vai.” Eu sei que nisso olharam uma casa, falaram um monte pra ele, acho que o pai dele também, e ele resolveu comprar uma casa, mandou-me escolher um barraquinho. Que nessa época se achava muito pra comprar, não é como hoje, hoje é difícil você comprar um barraquinho aqui, uma casa aqui, nem barraco mais não tem de madeira. Na Rua Malaia, fica aqui próximo do motel Fênix ali, tem uma igreja Assembleia de Deus, aí tem uma vielinha, aí eu achei uma casinha pequenininha, bem pequenininha, dois cômodos, uma areazinha na frente com tanque de lavar, o banheiro, o banheiro tinha laje, tinha caixa de água em cima, tinha portãozinho de ferro, bonitinha, tinha a minha cara. E as condições financeiras da gente só davam para comprar aquilo ali mesmo. E era perto da Vera também. E subi uns degrauzinhos até chegar em cima, na Rua Malaia, que da rua já chegava à Avenida das Nações, andava um pouco já chegava à Avenida das Nações. E ele comprou pra mim, arrumou o carro e tudo da mudança, certinho. Aí eu vim. Eu vim de lá do Maringá morar aqui em Santo André. Aí vim morar em Santo André. Na semana em que eu mudei pra Santo André, a gente meio que se reconciliou, eu e meu esposo, reconciliação essa que não deu muito certo. Na mesma semana que nós voltamos... Então, reconciliação essa que não deu muito certo. Eu acabei descobrindo que ele estava novamente com essa pessoa. Eu trabalhava em Mauá. Morava aqui, mas trabalhava em Mauá, nessa mesma lanchonete. Era um restaurante e à noite tinha show ao vivo. Eu falei: “Não, não tem condições, eu não quero você”. E ele dizendo que não, que apenas tinha ido conversar com ela, que ela ia embora para o Piauí, que ela era do Piauí. E eu: “Não. Não quero você”. Novamente a mesma cena, taquei as roupas dele tudo do lado de fora, taquei tudo, só que dessa vez muitas coisas eu fiquei, porque a gente ia voltar, já estava tudo certo. Eu falei: “Não. Não quero você e pronto”. Aí a gente se separou de vez, de vez mesmo. Só que foi diferente, porque da outra vez que a gente se separou, nós ficamos amigos, a gente tinha um contato. E dessa vez não. Dessa vez eu cortei todos os vínculos com ele. Então assim, eu abominava alguém tocar no nome dele. Eu abominava os meus filhos tocarem no nome dele. Eu proibi o meus filhos de chamar por ele. E o proibia de ver os filhos. Eu sei que a situação ficou tão precária pra ele, que ele ficou desempregado, não arrumava bico pra fazer, não dava pensão dos filhos, e eu sozinha trabalhando. Menina, não te conto, fiquei desempregada. Eu não sei o que o Marcão andou fazendo de errado, que fecharam o estabelecimento dele lá e eu acabei tendo que ficar sem emprego. Fiquei sem receber, porque ele alegou que não tinha como pagar ninguém e eu não recebi meu tempo de serviço, não recebi meu salário. Não recebi o salário trabalhado, não recebi. E eu com contas pra pagar, filho pequeno, e eu entrei em desespero. Eu não conhecia nada aqui, porque realmente eu não conhecia nada aqui em Santo André. E eu entrei em desespero mesmo, porque assim, eu sempre trabalhei, o pouquinho que eu ganhava era pra comer, mas não tinha aquela coisa, aquela abundância, era pouquinha coisa. Menina, o cerco começou a apertar, começou a faltar tudo, já não tinha leite, não tinha massa pra fazer, não tinha fralda, e começava a acabar o açúcar, e acabava o feijão. Resumindo, chegou uma época que eu tinha só fubá dentro do meu armário. Só fubá, porque eu recebia cesta, então era o que mais tinha. Fubá, farinha e sal era o que mais tinha dentro do meu armário. E aquelas latinhas de ervilha, milho, essas coisas. E a situação piorando, e eu sem conhecer ninguém, e eu não tinha coragem de pedir nada pra ninguém. Quem ia à minha casa uma vez ou outra assim era ela, a Loraci, essa moça que vocês conheceram. Ela que sempre ia à minha casa fazer uma visita, mas ela trabalhava também, ela trabalhava numa empresa lá em Mauá e trabalhava assim, fazia muita hora extra de final de semana, então às vezes, a cada quinze dias, ou uma vez no mês que ela vinha me ver. Eu sei que ela acabou descobrindo que eu estava desempregada, que eu não estava passando uma situação boa. Por quem eu também não sei, que eu creio que foi Deus. E um dia ela chegou lá em casa com umas sacolas com um monte de coisa dentro, um monte de coisa. Nossa, graças a Deus por isso. E ela acabou comentando com uma pessoa que eu estava desempregada e essa pessoa foi lá a minha casa e me chamou pra fazer uns bicos com ela, o nome dela é Mariana, ela mora na Rua Martinica, mora aqui mesmo em Santo André. E eu comecei a trabalhar na casa da irmã dessa Mariana fazendo uns bicos de diarista. E foi onde começaram as coisas melhorar na minha casa, mas mesmo assim não era suficiente. Gente, eu falo uma coisa pra vocês, a situação ficou tão, mas tão difícil entre a gente, tão difícil na nossa casa, que eu tive que apelar pra escola dos meus filhos. Os meus filhos estudavam na escola que chamava Nelson Cardim de Brito. Chamava não, chama Nelson Cardim de Brito. Fica bem no final do Capuava, perto da Praça Nepal. Então, aí meus filhos estudavam no Nelson Cardim de Brito. E eu tive que ir lá à escola comentar que a situação estava difícil, que eu não estava podendo mandá-los pra escola, porque eles não tinham comida, eles estavam sem comida. Só se os mudassem de horário, de manhã, porque de manhã tinha merenda na escola, mas à tarde não tinha merenda. Eu não sei o que acontecia, mas à tarde não tinha merenda. E eu não estava tendo como mandar, porque eles estavam sem comida, então eu tinha medo de eles passarem mal. E perto de mim eu inventava alguma coisa, dava uma farinha com açúcar, inventava o que tinha, como chá, fazia muito pirão de chá, fiz muito isso pra eles, muito mingau de fubá com água e açúcar. E eu tive que falar a verdade, eu não estava mais aguentando passar por aquilo, a situação estava feia. E outra, meus filhos estavam emagrecendo, as pessoas estavam observando, porque a gente estava passando fome mesmo. Com muitos familiares perto a gente estava passando... Não aquela fome de falar assim: “Hoje eu não tenho nada, não tomei nem uma água com açúcar”. Não. Mas fome que eu falo é de não ter feijão, de não ter arroz, de não ter uma carne, de não ter um pão. Não tinha. Não tinha mesmo. E foi muito tempo nessa situação. Aí começou a escola ajudar a gente. A professora Maria José procurou a gente e pediu pra que nós fôssemos buscar uma cesta básica. Aí eu tinha uma amiga, tinha não, tenho uma amiga chamada Adriana, e conversei com ela, perguntei se ela tinha carrinho de feira, que eu tinha ganhado uma cesta básica, precisava buscar. Ela: “Eu vou com você”. Aí eu falei: “Então tá bom”. Aí ela foi comigo, nós fomos com um carrinho de feira. Menina, eu não conto pra vocês, não cabia no carrinho de feira. Era tanta coisa, coisa que eu nunca tinha visto. Meus filhos, acho que nunca tinham nem comido. Sucrilhos eu nunca tinha comido. Nuggets, hambúrguer, latas de sardinha, aquelas latas de feijoada, sabe? Era bolacha de todos os sabores, miojo, macarrão, aqueles macarrõezinhos de sopa redondinhos bem pequenininhos. Tudo que você pensar tinha. Que os pais doaram pra nós. Os pais levaram pra escola, a escola pediu, e doaram pra nós. Doaram cobertor para os meus filhos, que até hoje nós temos ainda um dos cobertores, o azul. Eram dois: era um vermelhinho e um azul. O vermelho eu doei e a gente ficou com o azul, que era inseparável do meu filho. E um dos dálmatas que ele não me deixava nem lavar esse cobertor. Toda vez que lavava eu era obrigada botá-lo de castigo ou dar umas palmadas pra ele poder dormir sem ele. Porque se não secasse, ele não queria dormir sem esse cobertor dos dálmatas que ele ganhou lá na escola. Nós ganhamos colchão, eu ganhei um carrinho de bebê. Nossa, foi... Não. Que carrinho de bebê? Um andador pra Kelly. Foi maravilhoso. Foi maravilhoso. E a partir daí eu conheci outras pessoas, algumas mães que tinham condições de pagar um dia de faxina, pra eu passar roupa, e eu acabei ganhando, conhecendo, conquistando espaço. Eu conheci depois outra pessoa que eu trabalhei durante quase sete anos, eu trabalhei na casa dessa pessoa de diarista. E a gente pegou uma amizade tão grande, tão grande. Ela mora em Limeira hoje, mas a gente é muito amiga, ela vem a minha casa, vem visitar a gente. Em homenagem a ela eu dei o nome da minha filha caçula o nome dela, Paula. Só que ela é Ana Paula, a minha é Paula Eduarda. Porque ela foi pra mim, foi e é pra mim, uma verdadeira amiga, uma verdadeira luz. Que foi através dela que eu conquistei muita coisa. Então, aí voltando ao assunto da escola, eu acabei conhecendo essas pessoas, algumas mães, comecei a trabalhar de diarista. Uma dessas mães conhecia a Ana Paula, Ana Paula Gasparino. E ela, que ela era professora, a Paula, hoje ela é diretora de lá, lá em Limeira. E conhecendo-a, falou, a Paula precisava de uma pessoa pra fazer faxina e parece que era, se eu não me engano, nós começamos duas vezes por mês faxina e duas vezes por mês eu passava roupa dela. Depois foram aumentando os dias. E a Paula começou me mandar para a casa das cunhadas, das casas das cunhadas me mandarem pra casa das amigas também que eram professoras. E nisso eu não tinha um dia de folga, eu trabalhava até no domingo. Eu trabalhava de diarista praticamente aqui tudo em Santo André. No Santo Alberto, eu trabalhava no centro de Santo André, lá no Jardim. Eu trabalhei muito tempo ali também no... Ai meu pai do céu. No Vila Luzita. Então assim, vários lugares aqui, ali em cima no final da Itamarati, perto do Curuçá, trabalhava de diarista. E tudo eu ia a pé pra esses lugares. Na Nepal, na Praça da Nepal, ali tem uma casa também que eu trabalhei diarista, na casa da dona Terezinha. Então assim, todo dia eu tinha uma patroa diferente, todo dia. E não é que as coisas foram melhorando pra mim? Aí veio também outra coisa ruim. E era chuva, era chuva, era chuva, e eu levantava cedinho pra eu trabalhar pra eu poder dar conta, porque senão eu não dava conta, porque nem todas as casas eram do mesmo tamanho. E nessa época estava chovendo muito, muito, muito, muito, mas mesmo assim eu ia trabalhar todo dia. E não te conto, menina, aí começou a vir muito traficante pra cá para o Capuava, muito, muito, muito, não sei de onde, eu sei que vinha. E eu comecei, inventei, as minhas patroas pegaram muito no meu pé: “Você tem que voltar a estudar, você é nova, é inteligente, você tem tudo pra frente, você precisa estudar”. E eu voltei a estudar. Eu fui, fiz a matrícula no Delfino Guimarães lá embaixo, que já é divisa de Mauá com Santo André, só que lá já é Mauá. E eu comecei a estudar lá. Menina, quando eu vinha embora de noite era cada tiroteio. Nossa, a gente dava a volta. Em vez de a gente vir direto pela Avenida do Estado cortando farol e entrar na favela, na viela da favela, nós dávamos a volta pela petroquímica pra vir por dentro assim, pelo motel Fênix ali que é rua, pra poder sair pela Rua Malaia, entrar na viela pra ir pra na minha casa. Dava uma volta toda e no meio da chuva, pegava enchente, tudo, pra não enfrentar o tiroteio. Mas mesmo assim eu consegui, fiz a quinta série todinha, que era supletivo que eu fazia, e iniciei a sexta. Logo assim que eu iniciei a sexta, eu engravidei da Paula. Conheci uma pessoa, engravidei da Paula. Aí sim que a situação ficou difícil, porque a minha barriga começou a crescer e eu comecei a ficar com medo de contar para as minhas patroas, mas elas não são bobas, começaram a perceber e uma a uma foi me mandando embora. Uma a uma foi me mandando embora, dispensando os meus serviços. E eu fiquei apenas com duas pessoas: a Regiane, amor de pessoa também, a Érica, foi, e a Paula, três pessoas. Depois a Érica me mandou embora, aí eu fiquei com a Regiane e a Paula. Aí eu tive que abrir o jogo pra Paula. Porque eu sentia uma afinidade tão grande por ela que eu não conseguia mentir pra ela, e a minha barriga já estava muito grande. Aí eu: “Paula, te peço até pelo amor de Deus, se tu vai me mandar embora, me manda logo. Só que eu te peço, não me mande embora esse mês, que esse mês tá muito difícil, eu preciso pelo menos adiantar algumas coisas para o meu bebê”. E ela: “Bebê?”. E eu: “Bebê. Eu tô grávida”. “Você é louca. Sua magrela sem vergonha”. Que ela me chamava assim: magrela sem vergonha. “Você é louca, você tem três filhos, agora que você tá estabilizando a tua vida você vai engravidar. Você não tem juízo, não tem remédio?”. Nossa, ela rasgou o verbo comigo. “É, eu vou ter que conversar com o La.” La é o Laerte, o esposo dela. “Eu vou conversar com o La pra ver o que a gente faz, mas te mandar embora eu não vou te mandar. Só que assim, trabalhar igual você trabalha não pode mais.” Porque assim, eu subia, eu me pendurava nos portões, me pendurava na janela, na sacada. Eu passava óleo de peroba no portão de ferro dela, ficava brilhando, aquele portão brilhando mesmo, sabe assim? Sabe aqueles portões que é todo fechadinho assim, que é de ferro fundido, que é bem trabalhadinho? Que antigamente se usava muito. Mas ele é bem trabalhado, que você olha assim, umas pessoas pintam até de branco, outros pintam tipo de mogno. O dela era pintado tipo de mogno. Então quando você passava o óleo de peroba, dava aquele brilho. E o pó, quando batia o pó assim, não impregnava aquele pó. Quando você jogava água, o óleo deixava cair o pó, então ficava aquela coisa brilhando assim, parecendo que tinha acabado de pintar. E ela amava aquilo, amava. Ela tinha umas janelas maravilhosas de madeira, eu deixava perfeita. E eu gostava de cuidar das plantas, ela tinha um monte de planta, um monte de dedinho-de-moça, que chama, umas boa-noite, onze-horas. E eu cuidava com muito carinho, porque ela era professora, trabalhava em dois horários. Ela trabalhava num colégio que chamava... Se eu não estou enganada, o nome do colégio que ela trabalhava era Colégio Ideal. Acho que é Ideal que chama. O meu filho tinha até alguns uniformes que eram do filho dela, que ela doava. E ela gostava do meu serviço. Só que eu trabalhava, na casa de todo mundo era igual, não era diferente. E ela falou que tinha que mudar o meu jeito de trabalhar por conta da gravidez. Eu sei que ela conversou com o Laerte, tudo, e deu tudo certo, eles continuaram aceitando os meus serviços, não me mandaram embora. Só que assim, o monte de coisa que eu fazia, que eu subia e descia escada, já não fazia mais. Eu pegava peso, mudar as coisas de lugar, que eu gostava muito de mudar de lugar, sem autorização dela. Ela chegava e falava: “Mas daqui uns dias eu vou encontrar o meu guarda-roupa no teto”. Porque eu mudava tudo de lugar sozinha. Então essas coisas ela não me autorizava fazer, e se eu fizesse, a bronca era feia, era bronca mesmo. Ela sabia brigar e sabia dar carinho. Mas ela é uma pessoa tão maravilhosa na minha vida, foi e é uma pessoa tão maravilhosa na minha vida, porque assim, ela nunca esqueceu uma data de aniversário dos meus filhos. Não é que eu esquecia, mas eu não podia dar, ela dava, ela comprava um brinquedo e uma roupa. Ela nunca dava só um brinquedo, nem só a roupa, ela dava um brinquedo e uma roupa pra cada um deles. Se o aniversário era do Gualter, ela dava para o Gualter, Geisa e Kelly. Se o aniversário era da Geisa, Geisa, Gualter e Kelly. E assim sucessivamente. O meu aniversário, nunca esqueceu meu aniversário, nunca. Ela brigava comigo que eu fumava, mas quando eu abria a gaveta, estava lá uma carteira de cigarro. Quando eu chegava à casa dela, lá na lavanderia tinha uma carteira de cigarro dentro da gaveta.


[Parte 2]


P/1 – Oi, Jildete. De novo eu queria agradecer muito de você tirar mais uma tarde da sua semana pra terminar de contar a sua história pra gente. Na última parte você conversou com a gente como foi a saída da casa, aí você indo para o barracão. Eu queria voltar um pouquinho esse seu tempo no barracão, como foram esses dias até ficar pronta a casa aqui.

 

R – Ah, no início foi meio complicado, porque é difícil você morar numa casa de alvenaria e depois ir pra um barraco de madeira, é totalmente diferente. E era de telha, então ficava aquela insegurança também, por ser de madeira eu achava que alguém poderia chegar e, sei lá, chutar, quebrar, invadir, mas não, graças a Deus não aconteceu nada disso. Também o prefeito fez tudo muito bem feito, então não tinha como, a gente tinha bastante segurança. E a creche ficou bem perto, a escola dos meus filhos também ficou bem perto, tive que transferí-los pra cá para o Emei Luiz Gonzaga [Escola Municipal de Educação Infantil Luiz Gonzaga], aí foi assim. O bom de tudo isso foi porque eu o Givanilson, a gente se reconciliou.

 

P/1 – Fala isso pra gente.

 

R – Foi muito importante isso pra nós, porque a partir daí que os meus filhos ficavam: “Mãe, o pai tá vindo muito aqui. Mãe, eu queria que vocês voltassem”. Os vizinhos, os amigos, falavam assim: “Nossa, seu ex-marido tá vindo muito ver os filhos, ninguém vê os filhos duas vezes por semana”. E ele estava noivo, ele estava se relacionando com uma pessoa e estava noivo. Só que aí eu descobri que o noivado era tipo de fachada, porque ele realmente queria voltar comigo e eu não dava oportunidade. Mas ele precisava de alguém porque ele disse que não nasceu pra viver sozinho, ia casar mesmo sem amor. Tudo bem. Só que aí eu o conquistei de novo e a gente voltou, graças a Deus, estamos juntos. Mas foi a partir de lá que muita, muita, muita coisa aconteceu. E outra coisa, era pra nós ficarmos seis meses, nós ficamos... De seis meses a um ano. Nós ficamos três anos e meio pra sair, porque aqui era um terreno particular. Então todos os moradores falavam assim... Não os moradores daqui, os vizinhos dos prédios, tudo. Falavam assim: “Ah, Jildete, tenha fé em Deus, que essas casas não vão sair nunca, nenhum prefeito nunca conseguiu urbanizar o Capuava, então não vai ser agora que esse prefeitinho vai chegar e vai fazer alguma coisa, pode ter certeza”. E o terreno era particular. E o prefeito anterior... Alguns moradores invadiram, da favela, invadiram aqui e fizeram as casas, aí o outro prefeito mandou o maquinário vir e derrubar tudo. Então passou até na televisão, tudo, foram muitos anos atrás, eu não lembro quando, só sei que aconteceu. Aí eu não sei dizer direito, mas eu sei que esse terreno foi leiloado, aí o prefeito conseguiu fazer a documentação, tudo, onde construíram os prédios, fizeram a escola, que é aquela que está ali, a creche, e fizeram as nossas casas. E foi uma coisa assim, excelente, porque eu tenho uma filha deficiente, que é a Paula Eduarda, e era um sorteio, só pegava casa de esquina assim... Não era simplesmente chegar e falar assim: “A casa de esquina vai pra Jildete, vai pra Maria, pra Antônia”. Não. Era um sorteio as casas de esquina. Aí eles começaram a sortear.

 

P/1 – Por que a casa de esquina...

 

R – Casa de esquina é maior e você tinha um privilégio, porque você acabava ganhando uma parte mais da metragem da casa, então você poderia fazer um cômodo a mais. E a Paula era cadeirante, então ela precisava de um espaço maior por conta que a casa ia ter que ser adaptada. E hoje em dia eles já fazem casas adaptadas para deficientes, mas naquela época não, eles entregavam a casa com dois cômodos prontos, mas ela tinha degrau, a garagem não era pronta, tinha escada, não tinha rampa, tinha um degrauzinho pra subir, porque é alto. Na hora que vocês entram ali na garagem, vocês podem ver que tem um degrau, aquele degrau, quando eles entregam a casa, já tem aquele degrau, porque é alto. Então não tinha como, eu precisava de ajuda pra descer com cadeira de roda. E quem conseguisse a casa de esquina poderia fazer isso, poderia desmanchar o projeto do que eles fizeram e fazer rampa, aumentá-la e tudo. E no dia do sorteio foi interessante, que eu não ia vir para reunião. E eu sempre participei de todas as reuniões, e nesse dia eu não ia ir. A Paula tinha médico no Hospital de Serraria e aconteceu que no mesmo dia, coisa que eles não fazem, assim em cima da hora não, eles sempre avisam um dia antes ou, por exemplo, se a consulta é de tarde, eles avisam de manhã, e foi, acho que faltava mais ou menos uma hora e meia, por aí, duas horas, pra eu sair pra pegar o transporte pra ir para o Hospital de Serraria em Diadema, aí ligaram lá do Hospital de Serraria avisando que não ia ter atendimento, que aconteceu um imprevisto, aconteceu um imprevisto com uma cirurgia lá com um paciente e o doutor Chen não ia atender a Paula, que era o fisiatra dela. Então assim, naquele momento pra mim foi marcante, porque até hoje eu não esqueço, porque eu achei muito bom, porque eu estava muito preocupada em saber onde eu ia ficar. Eu fiquei com medo de eu ia ser uma das últimas, que eu ficasse numa rua sem saída, que eu não queria morar numa rua assim sem saída, totalmente fechada. Eu queria morar num lugar assim, onde fosse livre, desse para ver mais, porque aqui dá para ver tudo, você pode ver, dá para ver tudo. Então eu queria morar perto de área verde. E Deus é tão bom que aconteceu esse imprevisto e eu não fui para o hospital. Aí eu fui para igreja, onde era a antiga pastoral, igrejinha na Avenida do Estado, onde tinha as reuniões da prefeitura, o pessoal, agente comunitário, agente de saúde, o pessoal da habitação, do conjunto habitacional, estava tudo lá, inclusive o Felipe, a Roseli, a Márcia. Aí teve o sorteio, eu cheguei, eu era representante de bairro, então era importante a minha presença, só que eu já tinha avisado que eu não ia. Aí eu cheguei, todo mundo: “Nossa, você chegou”. Aí começou a sortear, aí saiu o nome de acho que umas seis pessoas, e eu: “Nossa, não vai sair pra mim”. Aí saiu o nome de um rapaz e ele não tinha nenhum filho, falei: “Nossa, ele não tem nenhum filho, é solteiro, ganhou uma casa de esquina”. Aí eu fiquei naquela: “Vai sair pra mim. Vai sair”. Aí chamou o meu nome e eu conversando, tere tete, tetete, conversando com o pessoal assim do meu lado e acabei não prestando atenção, que foi o meu nome que chamou. Aí até que a Márcia encostou perto de mim junto com a Mônica e falou assim: “Ô tagarela, chamou o seu nome, você ganhou a casa de esquina”. Aí eu comecei a pular feito uma boba, muito feliz. A Paulinha estava comigo, como ela tinha médico, então eu tive que levá-la junto comigo, que ela não teve médico. Quando chamou meu nome, depois que eles me avisaram que era eu, aí eu pedi para repetir, eles repetiram. Aí eu comecei a chorar, me emocionei, falei: “Não acredito que eu vou ganhar casa de esquina”. Aí eles já pegaram todos os meus dados, porque já tinha, mas aí eles queriam o número do setor. Porque todo mundo que mora no Capuava tem um cadastro, então eles queriam saber o setor, o número do cadastro, tudo certinho já para poder fazer o mapa. Eu tenho a planta da minha casa, eu tenho um mapa, tudo, o nome da rua como ia ser, o nome da praça, tem tudo o projeto do antes, o depois e o agora. Quando eu cheguei a minha casa com os papéis... Eles tiraram uma foto do projeto, como se fosse uma maquete, que realmente tinha uma maquete lá, mas eles deram para todo mundo uma cópia de como seria. Nossa, foi motivo de chacota, todo mundo ria, ninguém acreditava, falava: “Imagina, que isso, tenho fé em Deus que não vai fazer essas casas”. Porque até então não tinha nem uma máquina aqui, não tinha nada, absolutamente nada ainda. Só o terreno estava pronto e assim, já tinham tirado algumas pedras, algumas árvores tinham removido, mudado de lugar, essas coisas. Mas ainda não tinha nenhum pedreiro, não tinha ninguém ainda. Eu sei, menina, que eu vou falar uma coisa pra vocês, eu fiquei brava, comecei até xingar os vizinhos: “Seus línguas grande. Tá bom, quando eu estiver lá, vocês vão ver”. E muita gente hoje, são meus amigos ainda, graças a Deus, se arrependeram, porque eles não quiseram vir pra cá, eles voltaram para o Capuava. Porque conforme o prefeito urbanizou o Capuava, a favela do Capuava, eles fizeram também outras casas, cederam alguns terrenos, pessoas que tinham lotes grandes. Como o terreno era da prefeitura, então eles saíram dividindo para as famílias. O que eles fizeram? Essas mesmas pessoas que moravam com a gente perto lá no barraco, eles resolveram voltar para o Capuava. E nós na expectativa que nós íamos conseguir, porque, gente, três anos e meio não são três dias, nem três meses. E nós naquela expectativa, e passava um ano, um ano e meio, e dois anos, e nada. Com dois anos e pouquinho, aí começou. Aí começou a levantar as casas, bater aquelas lajes, que é um monte de laje que eles vão construindo, colocando uma em cima da outra, para depois montar o alicerce, vindo um monte de gente de fora, e eles fizeram uns contêineres bem grandes assim, acho que para o pessoal poder dormir, os trabalhadores. E acabou que saiu a nossa casa, e o pessoal que está lá no Capuava, até hoje, quando eles vêm me visitar, que a gente se vê, fala: “Nossa, como eu me arrependo de não ter acreditado”. A gente acreditou, a gente foi até o fim, só que nós não perdíamos nenhuma reunião. Era complicado, eles davam atestado e tudo, mas a gente não podia perder. Era um compromisso assim: “Olha, vocês têm que participar das reuniões, vocês têm que não trabalhar registrado, pegar uma declaração com a patroa, com o patrão”. Porque tinha que comprovar renda, tá entendendo? Então foi tudo muito no início, muito burocrático. Mas era uma coisa que muitas pessoas se irritaram, falaram: “Ah, não vou ficar não, vou ficar faltando no serviço pra ir à reunião pra resolver nada”. Mas não era. Só o fato de você assinar presença já era um significado muito grande, porque você estava correndo atrás, você estava ali. E eu trabalhava em dois empregos. E foi fundamental. A Paula foi uma peça chave, a Paula minha ex-patroa. Ela foi uma peça fundamental na minha vida, porque até então eu o Givanilson não tínhamos voltado de vez, então não tinha como juntar as nossas rendas pra eu poder pegar a casa. Então assim, a minha renda não dava, a renda que eu podia comprovar, que era do meu outro serviço, não dava, não era compatível com o valor que eles estavam pedindo. Aí foi que a Paula fez uma declaração, aumentou até um pouquinho, coisa pouquinha, mas deu uma aumentadinha para que eu pudesse conseguir a casa. Antes de sair a documentação da gente no cartório de notas, aí foi que eu o Givanilson voltamos mesmo de vez pra morarmos juntos e foi que aí juntou a renda dele também, mas aí já tinha feito a documentação, tanto que saiu tudo no meu nome, depois que eles foram colocá-lo como segundo sacado, que chama avalista, sei lá, sacado, é uma coisa assim que aparece lá no carnê. E hoje eu falo, eu abro a boca e falo aos quatro ventos, porque tem pessoas que consideram aqui como favela, eu não considero, eu falo para todo mundo: “Imagina, que isso”. Hoje a gente pode falar, somos cidadãos. Porque, olha, correspondência não chegava. Quando a gente morava no Capuava, ia para as residências de cima, as casas de cima, então se eles quisessem receber, ótimo, se eles não recebessem, a gente ficava sem correspondência. A gente não conseguia abrir uma conta num banco, a gente não conseguia abrir um crediário, porque tudo era mais burocrático que hoje. Hoje qualquer um tem um cartão de crédito. Naquela época, em 1997, em 2000, vou só chutar 2000, 2001, era muito mais difícil que hoje. Hoje está tudo mais fácil, hoje você compra um produto pela internet só com os dados, número do cartão e CPF. Antigamente, onde que alguém ia fazer isso? Nunca. Só rico. E hoje não, hoje a gente tem endereço fixo, a gente recebe comprovante de residência, a gente tem conta de água, de luz, tudo, o pessoal varre a rua. Nossa, é um privilégio muito grande, eu vou dizer eu moro na favela? Eu não moro na favela. E eu sou muito feliz, eu falo que foi um sonho. Foi muito sofrimento, mas foi um sonho realizado. Foi de muita luta, mas foi um sonho realizado, que acabou assim com... Muitas pessoas acabaram perdendo a fé também por conta do assassinato do prefeito, muitas pessoas. Porque quando o prefeito morreu nós estávamos no barraco, nós não estávamos aqui ainda. Então você imagina o que não passou na cabeça de todo mundo, de nós todos. O projeto não vai ser concluído, ele morreu, o outro não vai dar continuidade. Mas como ele era o vice-prefeito, ele teve que dar continuidade, e esse que entrou também, porque o projeto já estava sendo assinado, estava tudo resolvido, já tinham enviado as verbas e tudo. Aí eu entreguei meu cargo de representante de bairro.

 

P/1 – Como funcionava essa coisa de representante de bairro? Como as pessoas eram escolhidas? Como funcionava?

 

R – Porque assim, eu não faltava às reuniões. Eu tinha meus compromissos, eu trabalhava fora, eu tenho um compromisso com a Paulinha, a minha filha, até hoje, que às segundas e quintas ela tem tratamento, então nos feriados e nos domingos eu trabalhava para compensar as segundas e as quintas-feiras, que eu tinha que sair mais cedo para levar a Paula para fisioterapia. Se eu tiver, por exemplo, eu tenho médico, vou ao posto de saúde, aí eles marcam ginecologista, ortopedista pra mim, e cai na segunda à tarde ou na quinta à tarde, eu desmarco, nem que venha fazer daqui a três, quatro meses, eu desmarco por conta do tratamento dela. Então foi assim que muitas das vezes o pessoal começou a me observar, porque não fui eu que pedi para ser escolhida, começou a me observar, viu que eu não faltava. E eu gostava de anotar tudo, até hoje, eu sempre tenho um caderninho que eu anoto tudo: data, horários, o que a gente vai falar, o porquê da reunião. E eu sempre fui muito especuladora, eu sempre quis saber: “Por quê? Quem vai vir? Quem é essa pessoa? Vai dizer o quê? Faz parte de quê? Que benefício vai trazer pra nós?”. Então eles começaram a me observar, os moradores. E tinham que escolher um representante de bairro, no caso um representante do Sorocaba, do Alzira Franco, que no caso era eu, do Capuava, Unidos do Capuava, iam selecionando alguém. E no fim conversaram entre eles e acabaram me escolhendo, que quando eu vim saber, eu já estava entre eles, na turma, aí perguntaram no mesmo dia que ia ter a votação, a eleição... Não. Que eles iam escolher os candidatos, aí falaram: “Jildete, a gente selecionou você. O que você acha?”. Eu falei: “Gente, mas o que eu tenho que fazer? O que é um representante de bairro?”. Falaram: “Olha, representante de bairro é o seguinte, o que eles precisarem, os moradores precisarem, eles vão até você e você vai passar pra nós”. Se, por exemplo, algum dos moradores fica desempregado e não tem condições de pagar as prestações, arcar com... Porque você tem um compromisso, você tem que pagar, são três meses, se em três meses você não quitar e você não... Como eu vou dizer? Não justificar o porquê você não pagou, suja o nome, tem todo um processo. Então o que acontece? Aquela pessoa ficou doente: “Olha, Jildete, eu tô doente, eu tô assim, assim, assim, entendeu? A minha situação financeira...”. Aí eu iria resolver. Tinha uma reunião na prefeitura, o pessoal entrava em contato comigo e eu avisava para todos os moradores: “Olha, vai ter uma reunião, é a respeito da nossa moradia, é a respeito da pracinha que eles vão fazer, é a respeito da escola que eles vão construir”. Então representante de bairro era para isso, para não ter que ir todo mundo para prefeitura, e sim uma pessoa só. Tinham reuniões, orçamento participativo, eu tinha que estar para orientar o pessoal o que eles estavam fazendo com o dinheiro, quanto tinha vindo de verba para construção das moradias e quanto tinha gastado, quanto sobrou, o que iria fazer. Então representante de bairro era isso. Só que chegou um momento que eu tive que entregar o cargo, porque aconteceu muita coisa, aí também teve um assassinato aqui na rua de trás e meu marido não gostou nadinha, porque eu, como representante de bairro, eu que tive que chamar a polícia, chamar ambulância, e acabou tendo que ir lá prestar depoimento também. E o meu esposo é... Como eu vou explicar? Ah, ele não gosta de confusão, ele não gosta de... Sabe? Então assim, foi uma coisa que até hoje ninguém nunca descobriu o porquê mataram o coitadinho do rapaz. Porque ele era um carrinheiro, não fazia mal para ninguém, e a gente achou que ele tinha morrido de morte natural, caiu dentro de casa e morreu, que ele tomava umas cachacinhas. Mas não foi, porque a gente descobriu que ele tinha levado uma marretada na cabeça, tinha sido enforcado com arame. Porque até então você não vai mexer no corpo. A pessoa está lá morta, os moradores encontram a pessoa morta lá dentro de casa, eu não ia mexer, o máximo que eu podia fazer era ligar para ambulância, ou para polícia, que foi o caso. Aí meu esposo fez com que eu saísse: “Não, você não vai mais ser mais representante de bairro”. Se uma mulher, por exemplo, umas das moradoras sentisse dor para ganhar neném, aí eu tinha que ligar para ambulância vir, poderia ser de madrugada. Aí meu esposo começou a se incomodar com isso, porque, como eu disse, nós dois tínhamos dois empregos, então a gente tinha que trabalhar muito, dormia tarde, acordava cedo.

 

P/1 – Quais eram... Você trabalhava ainda na Paula...

 

R – Eu trabalhava na Paula e depois eu fiquei só com a Paula e trabalhava no Liebe, que é um motel que tem ali... Liebe não, perdão, porque eu já trabalhei também. Perto aqui no Taj Mahal, o Enigma, da Neuza, que agora eles venderam. Então assim, o meu esposo trabalhava também para eles, porque eles tinham um comércio de sucata e trabalhava para o dono do motel. E eu trabalhava na Paula e trabalhava com eles. E o Givanilson trabalhava no motel e também com eles na empresa de sucata. Então dois empregos nós tínhamos. E tudo, tudo que eles precisavam, era um remédio, tudo que eles precisavam eles vinham aqui em casa. Aí meu esposo começou a se incomodar, porque a gente não tinha liberdade, eu não conseguia dormir, não conseguia ter uma vida. Aí ele pediu para eu entregar o cargo, eu tive que entregar o cargo. Agora a gente está sem representante já faz alguns anos.

 

P/1 – Era isso que eu ia te perguntar, não tem?

 

R – Não tem. Porque ninguém quer essa responsabilidade. Ninguém quer. É igual, sabe, nas escolas não tem o... Como chama? Meu Deus do céu, fugiu da minha mente. Conselho de classe, aí você escolhe uma pessoa. Então, é a mesma coisa. As pessoas não querem mais responsabilidade hoje em dia, eles não querem, não adianta. A Vera, por exemplo, ela é agente de saúde, ela que cuida da Pastoral da Criança, ela que abre a igreja, que ela é muito beata, então assim... E as pessoas também não a deixam respirar. Porque eu acho que tudo tem... Não pode abusar também. Então assim, às vezes ela está dormindo, as pessoas chegam batendo à porta. A gente tem que pensar também que tem a outra pessoa do lado, que não é todo mundo que é igual, o esposo não gosta, entendeu? Às vezes quer sair final de semana, não podia, porque a vizinha estava muito mal, tinha que levar para o hospital, não tinha uma acompanhante. Que era o meu caso também. E hoje estamos sem representante de bairro, mas graças a Deus, o que dá para eu resolver, eu resolvo por telefone, porque eu ainda tenho um contato com eles. Mas assim, foi uma bênção. Eu falo para vocês, foi uma bênção ter conhecido o pessoal da prefeitura, estar aqui onde estou hoje. Foi muita luta para eu chegar até aqui, não foi fácil. Porque foi através do Enigma, onde meu esposo trabalhou, que e a gente comprou um carro, foi nosso primeiro carro. E foi com esse carro que nós conversamos, eu fiz um curso de cabeleireira, então assim, era uma loucura a minha vida, eu trabalhava em casa de família, trabalhava no motel e ainda fazia curso. Aí chegou um momento que eu resolvi fazer esse curso, porque eu falei: “A minha garagem é grande, eu vou montar um salão e eu preciso cuidar mais dos meus filhos”. Os meus filhos estavam muito... Como eu vou dizer? Eles estavam sentindo muito a minha falta, porque eu era muito ausente. Eu era presente assim, de ir à reunião da escola, de se eles estivessem doentes, levar ao hospital. Mas aquela coisa de sentar, conversar, almoçar, jantar todo mundo junto, não tinha isso na minha casa, não tinha como, eu não tinha tempo, eu não tinha espaço. Então os meus filhos aprenderam a se virar sozinhos, um cuidar dos outros. Eles são muito responsáveis. Pela idade deles, os meus filhos são muito responsáveis. Mas tudo o quê? Tudo por conta da situação financeira, que era difícil. Eu tinha que mantê-los. Quatro filhos, cinco com a minha enteada, então é muita gente. Se você analisar, é muita gente. E é escadinha, como vocês sabem, um tem vinte, outra tem dezoito, outra tem quinze, a outra tem treze. Então assim, a Gilmara, a mais velha, que é minha enteada, tem vinte e dois anos. Então é um processo muito difícil e você tem que ter todo um jogo de cintura para cuidar de adolescente, cuidar de uma criança especial, que requer muito cuidado, que não é só levar para as fisioterapias, tinham outros médicos. Tinha alimentação, tinha a escola, porque no início foi muito difícil também para conseguir escola. Você tinha que conseguir uma escola perto de casa, que você poderia levar e buscar. Então assim, é meio complicado. Aí foi quando nós resolvemos comprar esse carro, a gente conseguiu financiado, é claro. Eu lembro que a gente pagou esse carro foi em trinta e seis. Três anos são trinta e seis meses, não é isso? E foi com muita luta, a nossa refeição mesmo era muito... Como eu vou dizer? Era muito regrada. Não tinha aquela coisa, pizza, gente, pelo amor de Deus, nem pensar. Algumas guloseimas que a gente comprava na despesa, a gente não comprava mais por conta para pagar o carro. E foi uma bênção. Eu aprendi a dirigir também, foi muito bom, serviu muito pra mim, já dispensei o transporte, dei a vez para outra pessoa, já comecei a levar a Paula de carro. Depois chegou um momento que meu esposo já estava com nove anos e meio que estava trabalhando nessa mesma empresa de reciclagem, então assim, ele já sabia, praticamente conhecia tudo, tudo sobre reciclagem, os compradores, como nós conseguimos o lugar para trabalhar, a gente começou a pesquisar tudo, nós não tínhamos capital, aí... Vocês querem perguntar alguma outra coisa ou posso continuar?

 

P/1 – Não. Não. Pode ir falando. Vai falando.

 

R – Aí ele falou assim: “Filha, eu preciso do seu apoio”. Eu falei assim: “O que você quer fazer?”. Porque ele sempre falava que queria trabalhar por conta e eu falava para ele não se precipitar, porque eu morria de medo de acontecer alguma coisa e nossos filhos passarem necessidades. Que é como eu falei para vocês, eu já passei muita necessidade na minha vida, mas eu não quero mais passar. Se eu tiver que passar, é por doença, mas não porque eu, sei lá, fiz algo precipitado. Não pensei e vou prejudicar os meus filhos. Não. De jeito nenhum. Tudo que eu faço é muito bem calculado, muito bem pensado, seu eu posso, se eu não posso, é assim que funciona na minha casa, até com os meus filhos. Quando o meu filho mais velho mesmo estava trabalhando, eu falava para ele: “Olha, se você ganhar cem reais, por favor, te peço, filho, gaste só cinquenta. Gaste cinquenta e guarde cinquenta, porque você não sabe o que vai te acontecer amanhã”. E ele aprendeu, e até hoje. O meu filho quando casou, ele montou a casa dele todinha, sozinho. Assim, nós ajudamos entre aspas, nós ajudamos no casamento, mas, os móveis dele, ele comprou sozinho. É muito gratificante abrir a boca e falar: “Eu juntei dinheiro”. Porque ele casou com dezenove anos, então por isso você tira. Então foi isso, aí ele chegou a mim e falou: “Vamos montar um negócio, eu preciso do seu apoio”. “E o que eu tenho que fazer?” Ele: “Vender tudo que você tem”. Porque eu já tinha comprado as coisas do salão, já estava trabalhando de cabeleireira. Eu já não estava mais trabalhando no motel, estava só com a Paula. Que a Paula demorou muito tempo ainda, eu morando nessa casa, trabalhando de cabeleireira e eu com ela. Não era nem tanto assim... Sim, precisava do dinheiro, mas não era nem tanto necessidade. Eu senti uma obrigação de ficar com ela, eu tinha no meu coração que eu tinha que ficar com ela, porque ela precisava de alguém pra cuidar da casa dela, do Leozinho. Porque, como eu falei para vocês, ela era professora, eram dois horários, e ela tinha um filho mais velho que estudava praticamente o dia inteiro, o marido dela trabalhava fora, e tinha o Leozinho que era pequeno, precisava de alguém para cuidar, que no caso seria eu, eu cuidava da casa dela e cuidava do Leo. E foi assim por muito tempo. Então eu conversei com ela, com a Paula: “Paula, o Givanilson quer que eu venda tudo”. Ela falou assim: “Ele entende do ramo. Se ele entende, corra atrás. Se vocês não conseguirem, uma coisa eu te garanto, voltar de mãos vazias vocês não vão. Então você pega, compra as suas coisas de volta e continua no seu salão. Você já tem uma clientela, converse com eles, prepare o terreno”. Então isso foi muito importante pra mim. Aí eu comecei a conversar com ele, falei: “Givanilson, você tem certeza? Você tem os contatos, certinho? Tem certeza que a gente não vai passar necessidade?”. Ele: “Tenho”. Fui com a cara e com a coragem, ofereci minhas coisas, vendi lavatório, vendi cadeira, vendi tudo, tudo que eu tinha eu vendi. Algumas coisas eu fiquei para uso assim, para usar em casa comigo e com as meninas, porque uma vez cabeleireira você acaba cuidando dos filhos para não ter que gastar dinheiro, também nem podia. Só que o meu esposo falou pra mim que eu iria ficar trabalhando com ele, mas só meio período, que eu poderia continuar na Paula sempre. Na Paula eu trabalhava aos sábados. Então o que ele fez? Ele não saiu do serviço. Vendeu o carro, na época não era tão baratinho como hoje, foi mais fácil para vender, a gente juntou uma grana boa e a gente conseguiu um terreno lá em Mauá, um terreno vazio, que não tinha portão, não tinha nada, a gente que colocou tudo. Fizemos banheiro, fizemos um escritório, uma cozinha, colocamos um portão bem grande mesmo. Aí nós entramos em contato com o pessoal lá em São Paulo que tem caçambas de papelão, de ferro, colocamos as caçambas, compramos big bags para colocar os plásticos. E como nós alugamos o terreno numa avenida, avenida principal, que é a Barão de Mauá, então lá não poderia ter um ferro-velho, porque a pessoa tem um ferro-velho como um lixão. E no nosso não é assim, é tudo bem organizado, a gente separa todo o plástico, a pet, o P, o PP, e são todos colocados em bags, esses bags são todos separados. Material de risco a gente não compra, carros a gente não compra, só se for porta, lataria assim, do contrário a gente não compra. Tem muita coisa assim a gente não compra já para trabalhar direito, porque é muito complicado esse ramo. Além de ser muito visado pela polícia, porque muitos ferros-velhos compram coisas ilícitas, material roubado, essas coisas, também por ladrões, porque você não trabalhava para o cliente vir receber depois, você trabalha com dinheiro ali, você vai me vender um quilo de latinha, eu tenho que te dar o dinheiro. Então ladrão ali é uma porta aberta ali pra eles, então ele vai lá, sabe que alguma coisa vai ter. Então a gente sofreu muito assalto no primeiro ano, a gente achou que não ia continuar: “Não, a gente não vai aguentar, a gente não vai continuar”. Porque era muito assalto. Aí nós tivemos a ideia de trabalhar com o portão fechado. Aí começamos a trabalhar com o portão fechado. E tudo melhorou trabalhando com o portão fechado, tudo, tudo melhorou. Porque aí o meu esposo acabou não cumprindo com a palavra dele que eu iria trabalhar de segunda à sexta, acabei tendo que sair da Paula. Claro que foi difícil, mas a gente continua amiga até hoje, muito amiga, ela é uma irmãzona pra mim. Mas ela me deu muito apoio, até hoje, graças a Deus. Então eu a dispensei e comecei a trabalhar direto, direto, eu e meu filho. Tínhamos um funcionário e tínhamos um segurança que ficava tomando conta lá dos comércios, mais ou menos uns quatro comércios lá que ele cuida. E a gente trabalha de segunda a sábado. E nas segundas-feiras e nas quintas-feiras, que foi bom eu ter aprendido a dirigir por conta disso, porque a gente vai, abre a Kelly Fer, fica até meio-dia. A Paula entra uma e quarenta para fisioterapia, então eu venho pra cá, a perua a deixa aqui meio dia e vinte, ela fica com a minha nora, aí eu a pego, a troco rapidinho, come, às vezes eu levo até marmita pra ela comer lá. Aí ela faz a fisioterapia, termina às quatro e vinte, eu a deixo com a minha nora e volto para Mauá pra pegar o pessoal. Então assim, se fosse de ônibus eu não ia conseguir, então tem o outro lado bom da história. Então foi isso. A gente, quando completou um ano, voltando atrás, quando a gente completou um ano que nós estávamos na Kelly Fer, que começou a acontecer tudo isso, meu esposo falou: “Eu não vou conseguir. Se continuar desse jeito, a gente vai ter que fechar”. E a gente não tinha mais aquele capital que a gente tinha para trabalhar, porque levaram embora. Eles vieram, assaltaram a gente e acabou levando. Então o lucro da latinha, do material reciclável, é pouco. Aí foi onde o meu esposo resolveu voltar para empresa, voltar para mesma empresa que ele estava antes, de reciclagem. Ele ficou trabalhando lá e eu sozinha com meu filho na Kelly Fer. Chegou um momento que eu falei: “Eu não aguento mais. Eu não estou dando conta”. E era tão sofrido que meu esposo... Era assim, na hora do almoço dele ele ia correndo para o centro de Mauá para poder ir ao banco pegar algum troco pra gente poder trabalhar, pra ele voltar. E eu já pegava o marmitex dele, já pedia o marmitex, ele ia comendo no carro. Quando parava no farol, ele ia comendo até chegar ao serviço. Se ele conseguisse comer tudo, bem, senão ele tinha que pegar, tinha que trabalhar. Muitas das vezes chegava à casa dez horas da noite sem almoçar, cansado, foi muita luta mesmo. E ele querendo desistir, e eu: “Não, eu aguento. Eu aguento”. E ele: “Não, eu preciso voltar pra Kelly Fer”. Eu falei: “Não tem como, você precisa trabalhar pra manter”. Porque nós não tínhamos mais dinheiro e tínhamos que pagar os clientes, tínhamos que pagar os funcionários que trabalhava com a gente. E a minha filha ficou doente, a minha filha mais velha, ela entrou em estado de depressão, foi uma coisa que a gente não esperava, foi uma depressão... Como os médicos falam? Depressão de infância. Que no início pensavam que ela estava com... Nossa, tem um nome. Uma doença de nervo. Que dá. Eu esqueci o nome. Aí os médicos descobriram que não era isso, aí foi que eu comecei a passá-la no psiquiatra e eles falaram que ela estava com depressão. Isso começou a atrapalhar muito lá no meu serviço, aí meu esposo não teve alternativa, teve que sair da empresa que ele estava pra ir pra KellyFer. Ele comprou... Meteu com a cara e com a coragem, que a gente sempre encontrou pessoas boas, o dono da caçamba de ferro emprestou um dinheiro pra ele e ele comprou uma perua pequena. Aí foi onde a gente começou a ganhar dinheiro, porque ele ia às escolas fazer carreto. Aquelas cadeiras quebradas ele ia lá recolher, os pais doavam garrafa pet, latinha, papel, então ele ia recolher, fazer esse carreto. E acabou conhecendo muita gente, acabou ganhando a clientela. Aí o pessoal que morava perto da escola que morava em condomínio fechado também começou a contratar os nossos serviços pra fazer carreto, toda a reciclagem do prédio. Então já começou a render lucro pra nós, graças a Deus. E eu na luta com a minha filha Geisa, levando-a para fundação para passar com psicóloga duas vezes por mês, que era a cada quinze dias. E tinha que fazer tratamento, porque ela não estava bem mesmo de saúde. Aí quando a gente pensou que estava tudo bem, falou: “Olha, tá tudo bem, graças a Deus”. Parou o tratamento, já estava entrando um dinheirinho, eu consegui uma pessoa para cuidar da minha casa, para ficar com a Paula, porque ela estudava, eu tinha que vir buscá-la para ficar comigo, era muito complicado. A minha Kelly tinha... Deixe-me ver, ela tem quinze, tem seis anos que eu tenho a Kelly Fer, então ela tinha dez anos. É, ela vai fazer dezesseis, dez anos ela tinha. E eu tinha que vir buscá-la, quando ela não ia de ônibus com a outra irmã mais velha para Kelly Fer, para ficarem todos comigo. Porque eu não podia deixá-los aqui, eu morria de medo de deixá-los sozinhos e eu ainda não tinha uma pessoa. Aí eu já estava com dinheiro, consegui arrumar uma pessoa para cuidar da minha casa, para cuidar deles, da Paula. Então aí a Geisa já estava muito bem, graças a Deus. E na minha cabeça está todo mundo bem, está ótimo. Eu comecei a pagar curso pra elas, coisa que era um sonho meu elas poderem fazer um curso de Inglês, de Informática, o meu filho fazer um curso de Administração de Empresas, eu também. Então você já começa a sonhar, planejar a sua vida, que foi realmente acontecendo aos pouquinhos. Eu consegui curso pra elas lá em Mauá, elas começaram a fazer. Só que a minha filha continuou apresentando uns probleminhas dos quais eu não entendia, por que ela vivia chorando sozinha, por que ela não tinha amigos. E o tempo foi passando, eu acho que eu deixei ainda essa situação rolar acho que por um ano, mais ou menos. Quando ela completou quinze anos a situação começou a piorar, ela começou a ficar pior, começou a ficar muito nervosa, não queria mais... Como eu vou explicar? Tipo, chegava alguém em casa, ela não sentia vontade, queria se isolar, ela queria se isolar. Aí eu comecei a observá-la e eu consegui uma psicóloga no posto do Capuava, ela começou a fazer tratamento lá, mas ela não queria por conta que já era adolescente, então ela dizia: “Ah, vão dizer que eu tô louca e eu não sou louca”. “Filha, não é isso, você precisa de um tratamento. Você não fala o que você tem.” Então passa um monte de coisa na cabeça da gente, os professores ficam perguntando, os médicos, se foi abusada sexualmente, se a gente batia, o porquê. Depois que a gente conseguiu essa médica, que é a doutora Regina, lá na fundação, ela descobriu que a minha filha tinha um problema de depressão sério por conta da minha mãe. Porque assim, a minha mãe foi muito marcante na vida dela. Assim que eu conheci minha mãe, que a gente veio para São Paulo, minha mãe cuidou muito da Geisa. Então assim, marcou muito a vida dela. E nesse intervalo ela sentiu muita falta da minha mãe. Coisa que ela não fazia comigo, porque eu não tinha tempo, ela fazia com a minha mãe. Então ela sentia muita falta disso e ela começou a guardar aquelas coisas pra ela. E ela não sabia expressar, não sabia falar para as pessoas, ela não queria compartilhar com ninguém. Então nos pensamentos dela ela dizia que pessoas falavam com ela, que ela ouvia vozes, falavam com ela assim: “Ninguém gosta de você, ninguém te ama, você tem que morrer, faça o mesmo que a sua avó fez”. E ela tentou. Premeditou tudo certinho. Ela catou chumbinho, que era um veneno que antigamente a gente podia comprar, qualquer casa de ferragem você ia lá e comprava para os ratos. Hoje já não compra. Então eu tinha isso lá no meu comércio, porque como era um comércio de reciclagem, tinha ratos, e no fundo tinha um rio. Então eu tinha e eu colocava frutas, eu colocava na ração do cachorro, molhava a ração, fazia uns bolinhos e saía jogando nos cantos para os ratos comerem e morrerem. Só que ela achou um pouco num vidrinho assim, um pouquinho, e ela tomou. Ela pôs no suco e tomou, e passou muito mal, nós tivemos que levá-la para o hospital entre a vida e a morte mesmo, ela já estava defecando muito, vomitando, já estava sangrando. E quando nós chegamos ao hospital foi que... Só que até então nós não sabíamos que era chumbinho. Depois foi que ela conseguiu falar e falou que tinha tomado chumbinho. Então assim, foi muito difícil, porque você vê a tua vida melhorando financeiramente, e do outro lado você olha para os teus filhos e fala: “Mas o que levou a fazer isso? Poxa, eles têm tudo. Hoje eles têm um curso, têm roupa boa. Abre a geladeira, tem Danone, o armário tem bolacha, têm tudo que outras crianças não têm. Uma roupa bonitinha, um brinquedo, um DVD, coisas que eu sempre sonhei dar pra eles, eles tinham. Por que fazer isso?”. E ficava aquela pergunta no ar, e também os outros perguntando pra gente: “Mãe, o que aconteceu? Mãe, a gente vai ter que pesquisar o que foi que aconteceu”. Então teve que juntar tudo. Depois ela melhorou, graças a Deus, porque foi muito sofrido, foi praticamente uma semana de internação, ela ficou entre a vida e a... Ela foi ressuscitada duas vezes. E ficou com sequelas, até hoje ela tem sequelas disso. Ela faz tratamento com gastro, porque o estômago dela ficou muito ferido. Ela ficou mais ou menos dois anos, a alimentação dela era mais líquida, era uma alimentação muito balanceada, nada de gordura, nada de maionese, nada de margarina, de leite. Era suco só de fruta natural, frutas cítricas não. Pipoca, que ela gostava, não podia, batatinha não podia, carne de porco até hoje ela não pode comer, temperos. Você vai fazer uma sopa, você não pode colocar um Knorr. Embutidos enlatados, nada disso. Chocolate, que ela ama, não podia, hoje ela já pode. Coca-cola, refrigerante. Então assim, foram dois anos de sofrimento, quinze, dezesseis, dezessete anos e meio, sofrimento pra ela. Hoje tudo dela é regrado. Se você faz uma batatinha, a batatinha não pode ser no óleo, não pode colocar maionese, não pode colocar... Aquilo que eles gostam, não pode. Então assim, foi muita luta, foi. E o mundo desmoronou pra mim, porque aí eu tive que abandonar a minha vida conjugal com meu esposo, muitas das coisas que eu fazia com meus filhos já não podia mais fazer. Porque eu tinha que cuidar dela e da Paula. E por conta do que ela fez, ela não podia ficar só, então ela tinha que ficar comigo sempre. Eu tinha que levá-la para escola, buscá-la na escola, eu tinha que estar pelo menos uma vez por mês conversando com os professores para saber alguma coisa que estava rolando lá dentro, se ela se mostrou estar bem, se ela se mostrou diferente para os professores me falarem, para eu poder falar para psicóloga, psiquiatra. Então assim, foi um processo muito terrível na nossa vida. Ela tinha feito um curso para entrar na guardinha, já estava tudo certo, por conta do que aconteceu ela não pôde entrar, porque ela não estava preparada psicologicamente. Ela não perdeu o ano porque ela sempre foi uma menina muito inteligente, muito estudiosa, então ela tirava excelentes notas. E ela ficou alguns meses sem ir para escola, só que os professores mandavam os trabalhos, os exercícios, eu fazia com ela, o meu filho mais velho. Porque a gente sempre foi uma família muito unida, então o que um não podia, o outro fazia. Se eu precisasse do meu filho, por exemplo, vamos supor que meu esposo tivesse que resolver uma coisa muito importante, ele tinha que se ausentar da Kelly Fer, então o meu filho ficava com ela e eu ia para Kelly Fer, por eu ser maior de idade e ele era menor. Então assim, a gente sempre trabalhou desse jeito, a Kelly faltava da escola para ficar com a irmã. Aí eu ligava: “Olha, a Kelly precisa faltar dois dias, eu preciso dela”. A Paula vai ter que fazer uma cirurgia, eu preciso da Kelly cuidando... Então assim, eram duas crianças, praticamente, que eu cuidava, porque se você olhar no ponto de vista, a Geisa se comportou como uma criança, ela não estava bem, precisava de mim. E foi muito, muito, muito, muito difícil e sem contar os preconceitos que sofre. Porque eu falo para você, o ser humano é o bicho mais terrível que tem no mundo, mais falso, mas traiçoeiro que você pensar, é o ser humano. Porque eles não perguntam para você: “O que te aconteceu?”. Ou então assim, eles não perguntam: “Você tá bem?”. Não. Eles já vão tirando conclusão, já vão falando para amiga: “Ah, não sei não, acho que estava era grávida, ficou com medo e fez isso. Ah, não sei, de repente estava namorando, por conta disso fez”. Então as pessoas levantam algumas conclusões. E se você tem uma mente fraca, o que você vai fazer? Você vai se retrair, se esconder, não quer falar com ninguém. E estava voltando a acontecer isso tudo de novo, as pessoas estavam tirando conclusões precipitadas. Aí ela começou a querer se isolar novamente, aí eu tive que dar um basta, eu tive que virar uma psicóloga: “Chega”. Eu comecei a chorar, comecei... Coisas que os meus filhos não sabiam a meu respeito eu tive que falar pra ela: “Filha, é o seguinte, a mãe passou fome, a mãe não tinha pai, nem mãe”. Então eu comecei a contar do comecinho de onde tudo aconteceu. Porque nós temos um hábito, eu acho que são de todos os pais, de a gente poupar os nossos filhos das coisas ruins e a gente não entende que aquilo ali vai... A partir do momento em que você conta as coisas ruins que te aconteceram, ou que você está fazendo, ou espera, tudo, tudo que acontece na tua vida de bom e de ruim, você contar para teu filho, mesmo dele pequenininho, sem entender, e ele crescendo, crescendo, crescendo e entender, você vai fazer dele uma pessoa melhor. Ele não vai precisar ter medo de se abrir, ter medo de se defender, de falar, de gritar. Eu tive que dar um basta, eu tive que falar pra minha filha: “Eu te amo, você é a coisa mais importante pra mim”. Porque acabou todo o ciúme da Paula. Porque eles tinham ciúmes da Paula. Eles falavam assim que tudo era pra Paula. Mas não é que tudo era pra Paula, é porque a Paula realmente precisava mais de mim do que eles. A meu ver. Só que a Paula precisava mais de mim em termos de cuidados, cuidados que eu falo assim, levar ao médico, dar comida, dar banho. E eles precisavam da minha atenção, do meu carinho, de contar histórias pra eles. Então era isso. E eu tive que dar um basta com a Geisa, eu tive que falar para ela que eu amava, que ela não era diferente dos outros, que ela era igual. Eu tive que levar a minha filha num sanatório, eu levei a minha filha num sanatório para minha filha ver que as pessoas que estavam lá tinham sim problemas de saúde e que poderiam ficar boas, e o problema dela não chegava nem aos pés do que estava acontecendo. O problema daquelas pessoas não chegava nem aos pés do que estava acontecendo com ela e que nem por isso aquelas pessoas estavam tentando tirar a sua vida. Então eu fui abrindo os olhos da minha filha dessa maneira, gritando com ela, mostrando pra ela a realidade do mundo lá fora. Que a minha filha achava que porque ela era mais escurinha, na escola, de pequenininha... Que ela não contava pra mim, esse era o problema. Como eu era uma pessoa muito ausente, ela achava que não tinha que passar os problemas dela pra mim. Então a chamavam de negra preta, ela não contava, chamavam-na de cabelo de bucha, ela não contava pra mim, só chorava, se trancava no banheiro, ela já agrediu o professor porque queria ir embora, o professor não deixou, ela mordeu o braço do professor, mas não se explicou o porquê, porque os meninos ficavam rindo dela, chamavam-na de... Porque assim, ela sempre foi muito magrinha, mas ela sempre tinha um corpo bem definidinho, mas criança, criança não tem o corpo definido, é corpo de criança. E ela tinha os braços fortinhos assim, como se tivessem músculo, até hoje, e chamavam-na de Maria homem por causa dos braços dela. Então são coisas que saem da imaginação da criança. E a outra não sabe separar isso. A Paula é uma criança especial, e a chamam de manquinha, chamam-na de quatro olhos, chamam-na de aleijadinha, mão do gancho, é uma coisa assim que chamam a mão dela, porque ela fica com a mãozinha assim. Agora que melhorou por conta das aplicações de botox, então melhorou bastante, não fica mais fechada a mão dela. Mas ficava fechada e ficava assim. Chamam-na de mão do gancho. Então são coisas que realmente acontecem na vida da criança. Só que a Paula conta tudo. Ela conta, ela bate nas crianças, ela briga, ela se defende. A Geisa não fazia isso e não me contava, tanto que eu vim saber conforme o tempo foi passando. Por conta que o nome dela era Geisa, a chamam de Jason, ela odiava, ela odeia o filme “Jason”. Sabe? Não tem o filme “Jason”? Ela não gosta por conta do apelido, até hoje. Então assim, são coisas que ainda não apagaram da memória dela, são coisas que ela não esqueceu ainda, porque ela não assiste a esse filme, ela muda de canal. Se estiver pronunciando, vai passar o filme do “Jason”, alguma coisa, “A volta do Jason”, um exemplo assim, ela muda de canal. Ela não gosta do nome dela. Nossa, eu briguei com o mundo inteiro, eu pedi para os vizinhos que, por favor, parassem, conversassem com seus filhos pra parar de ficar zoando com a minha filha. Minha filha é uma moça. Mas eu tive que tomar iniciativa de uma maneira pra que a minha filha não tirasse a vida dela, porque eu percebia que ia acontecer de novo. E aquilo estava me martirizando, porque eu não sabia o que era corresponder a minha vida conjugal com o meu esposo, porque eu só pensava nos meus filhos. E ele também sofria, só que homem é diferente da gente, o homem quer e pronto. Se você falar: “Hoje não, não tô legal”. Ele até aceita, mas no dia seguinte ele quer, concorda? E comigo não foi diferente. Mas eu não estava sabendo separar as coisas. Aí foi que a minha própria filha falou assim: “Mãe, quem tá precisando de médico também é a senhora. A senhora não tá percebendo, mas seu casamento tá acabando”. A minha filha falou isso pra mim, a Geisa. E todas as mães do Crem, onde a minha filha faz fisioterapia, que é no Centro de Reabilitação na Rua Betânia, nós temos uma psicóloga também para as mães. Tem a psicóloga da criança, a psicóloga pra mãe. E eu nunca me importei em passar por psicóloga, eu sempre achava assim: “Ah, eu sou forte, eu aguento”. Só que meu mundo desabou quando ela falou isso pra mim. Eu não chorei na frente dela, mas sozinha lavando a louça eu comecei a chorar, chorar, chorar, chorar: “Meu Deus, o que a minha filha falou pra mim?”. Eu estava tentando ajudá-la e ela falou isso pra mim. E o que ela falou não era mentira, era verdade, eu estava precisando de ajuda, porque meu casamento estava se acabando. Eu só pensava em trabalhar e cuidar deles, eu não conseguia mais olhar para o meu marido como mulher e homem. Era muito diferente, era como se a gente fosse irmãos, “boa noite”, um vira as costas para o outro, um beijo de bom dia quando lembrava, quando não lembrava, nem isso. “Você tá bem?” Era assim. E isso foi por muitos meses, muitos meses. E eu procurei a psicóloga Márcia lá onde minha filha faz fisioterapia e comecei a relatar pra ela o que estava acontecendo comigo. Ela perguntou há quanto tempo, aí eu falei que desde quando tinha acontecido o problema com a minha filha Geisa. Que eu não estava conseguindo lidar com tudo. Eu achava que ser mulher era muito luxo, que por conta do que estava acontecendo comigo, eu achava que era até um pecado eu querer ser mulher. Você entendendo o que eu quero dizer? Eu ter uma vida sexual ativa. Então eu achava que não tinha como, eu tinha muita coisa pra eu me preocupar, eu vou me preocupar com sexo? Então aquilo pra mim não era normal. Só que aí ela falou pra mim: “Então é você que não é normal, você que não está sendo normal”. E eu comecei a conversar com ela, comecei a passar para meu esposo o que eu estava sentindo, porque meu esposo até então não sabia. Eu comecei a passar para o meu esposo que eu estava com muitos problemas, só que esses problemas têm que ser dividido entre nós dois e não só pra mim. Que do mesmo jeito que eu poderia ausentar da Kelly Fer pra levar a Geisa na psicóloga, no psiquiatra, ele também poderia fazer isso. Do mesmo jeito que eu tinha que me ausentar do serviço para ir à reunião de escola dos meninos, ele também poderia fazer isso. E foi uma das melhores coisas que aconteceu na minha vida. Porque o nosso diálogo voltou novamente, aquela cumplicidade que a gente tinha voltou tudo de novo, aí a gente começou a conversar, começou a dialogar e a gente começou a entender que não era o nosso casamento que estava se acabando, éramos nós que estávamos acabando com o nosso casamento. Era diferente o casamento se acabar e a gente acabar com ele. Então éramos nós que estávamos dando as costas para o nosso casamento e que aquilo não era justo com a gente, porque a gente sofreu muito antes de a gente ficar junto, antes do nosso... Tipo assim, no nosso namoro, na nossa união, que como o pessoal fala, não é casado, é amigado. Então assim, no tempo que a gente ficou separado, então a gente sofreu muito por estar separado. Então já que a gente estava junto, porque a gente ia sofrer junto assim, se a gente estava junto, a gente tinha que sofrer de maneira diferente, um ajudando o outro. E foi o que aconteceu. O meu esposo começou a me ajudar em casa, porque tinha muito serviço. Então assim, era muita responsabilidade, eu chegava do serviço, como ele, cansada. Ele estava cansado? Eu também estava e eu ia pra cozinha, então ele poderia também descascar uma batata, ele poderia também lavar um arroz, um lavar a louça e o outro secar, e as minhas filhas cuidar cada uma das suas coisas, do seu quarto, da sua roupa, da escola. Porque eu nunca abri mão, eu nunca falei para o meu filho assim: “Olha, você vai trabalhar, deixa pra fazer o seu trabalho de escola se der”. Nunca. “Tem trabalho de escola hoje, mãe, é muito trabalho.” “Vai fazer.” “Mãe, mas tem muita louça pra lavar.” “Calma. Espera. Tudo ao seu tempo.” Sempre foi assim. Então a gente começou a se ajudar e hoje nós estamos aqui, graças a Deus, para honra e glória do Senhor. A minha filha está curada, quinta-feira fez oito dias. Quarta fez oito dias que ela arrumou emprego, é isso mesmo. Que ela foi entregar um exame de endoscopia, que foi um dos últimos exames, e o médico falou que ela estava curada, que não ia precisar mais tomar a medicação por tempo prolongado igual ela estava antes, porque ela terminava uma medicação, aí vamos supor que descansava sessenta dias, aí voltava tudo novamente, mais sessenta dias, voltava tudo novamente. Então que ela ia parar um tempo a medicação, porque já estava cicatrizando. Mas só que a dieta, continuar com a dieta, que tem muita coisa ainda que ela não continua, que sou eu que pego no pé, sou eu que tiro. Ela põe a coca-cola no copo, eu ponho o suco de jabuticaba. É assim. Sou eu que mudei os hábitos da minha casa. E hoje a gente chegou onde chegou. Realizamos um sonho maravilhoso, que o nosso sonho sempre foi um dia a gente ter um lugar de lazer, um lugar de veraneio, e nós conseguimos, financiado, com luta, estamos pagando ainda, a gente comprou uma casinha na praia. Quando a gente trabalha pra gente, a gente não tem férias, a gente tem o quê? O feriado pra descansar. Fora isso, nós não temos férias, e quem trabalha com a gente é só família. A Geisa é a única que não se adaptou, então como ela não se adaptou, também não podia forçar. Eu pago curso de Necropsia, que era um sonho dela, ela sempre quis entrar para a polícia, só que de maneira diferente. Ela faz curso de Necropsia, ano que vem ela vai fazer curso de Anatomia, pra depois ela entrar e fazer faculdade de Perito. É um sonho dela, ela está trabalhando, juntando dinheiro pra isso, não é pra comprar roupa e calçado, não. Roupa e calçado eu vou continuar dando. Ela está trabalhando fora porque o sonho dela é juntar uma quantidade, fazer um intercâmbio nos Estados Unidos, porque ela já está quase terminando o sexto ano de Inglês, então tem que fazer o intercâmbio, senão são muitos anos de dinheiro jogados fora, são seis anos de inglês. E ela quer juntar esse dinheiro para fazer intercâmbio, para quando ela retornar, aí ela dá continuidade aos estudos dela, e o curso de Necropsia ela termina no meio do ano que vem. E para honra e glória do Senhor, a minha filha está curada, não precisa mais tomar medicação que ela tomava. Ela tomou medicação forte por muito tempo, não toma mais. Perdeu muito peso por conta da situação, porque não é fácil, tratamento todo mundo sabe que quem tem problema de gastrite, problema estomacal, tem que ter uma dieta balanceada, medicação muito forte, então não tem nem como ganhar peso. Mas hoje ela é feliz, ela namora. Não tenho mais medo de deixá-la sozinha. Ela tem uma vida independente, hoje ela abre a boca, ela dá palestras na igreja, conversa com jovens, fala para eles que um dia se pelo menos sonhar, sonhar, não precisa imaginar, sonhar que quer tirar a própria vida por conta de um probleminha tão pequenininho, não precisa ter medo de procurar um psicólogo. Não precisa, porque psicólogo não é para doido, psicólogo é para são mesmo, para você ficar melhor do que você era. Nossa, quando ela diz isso, eu desabo, eu choro. Ela pode repetir a mesma coisa todos os dias, eu choro, porque é muito gratificante. Hoje eu falo, eu abro a minha boca mesmo de todo o meu coração, eu e a minha casa serviremos ao senhor. E os meus filhos são tudo pra mim, tudo pra mim. Nós somos uma família muito unida. Meu filho casou, saiu de casa, eu sinto muita falta dele, ele mora bem ali, trabalha comigo todo dia. Mas Deus me deu outra filha, que é a minha nora Fernanda, e uma netinha linda, que é a Isabela, que eu creio em Deus que eu também vou conseguir fazer com que a Isabela também tenha uma vida digna, uma vida boa, com muito trabalho, porque se você não trabalha, você não consegue nada. Não pense que nada vai cair do céu, porque não vai. Cai sim, para ladrão só, para ladrão cai do céu, mas também para ele cair para o inferno é rapidinho, porque ninguém nunca viu nenhum traficante velho, eu acho que é muito difícil existir, e a maioria dos ladrões vem do tráfico. E as pessoas têm a favela como... Eles falam que a favela é o ponto de tudo, é de onde vem o ladrão, é de onde vem o traficante, é de onde vem tudo de ruim, mas na favela... Pode até ser, que eu não penso assim, mas da favela tem muita gente boa, muita gente que tem muita coisa boa para contar, tem muita coisa boa para fazer por esse mundo, tem experiências bonitas para passar adiante. Porque eu tenho na minha mente que Deus fez o mundo para nós, mas é para nós cuidarmos dele, não destruir. Eu continuo trabalhando com reciclagem, por conta da reciclagem eu tenho essa família toda unida trabalhando comigo, porque senão uns estariam trabalhando num lugar, outros estariam trabalhando em casa de família, porque eu não sei se eu ia poder dar a vida que dou pra eles hoje. Tem mais ou menos um ano que nós estamos com um projeto de parar com o comércio de sucata por conta de assalto. No ano passado o meu esposo foi assaltado, saidinha de banco, eu fui assaltada também, saidinha de banco em fevereiro desse ano. Tem mais ou menos um mês e meio que eles pegaram a minha filha Kelly na entrada do portão ao lado do depósito e assaltaram a gente, levaram lá pra dentro e eu tive que dar o dinheiro, levaram o celular, tudo, perdi alguns contatos. Então a gente está com projeto que quer parar, a gente quer fechar o depósito porque não aguenta mais, é muito assalto e a gente não aguenta mais essa vida, porque é muito perigoso. É bom, é muito gostoso, você aprende muita coisa. Olha, você conhece muita gente boa, você faz muitas amizades. Se você quer escrever um livro da história da humanidade, você procura esses carrinheiros que trabalham com reciclagem, porque eles não são daqui de São Paulo, muitos são do Pernambuco, da Paraíba, de Alagoas, eles têm cada história pra te contar que você fala: “Não, isso não existe”. Só que depois você vai lá fundo e realmente existe. E são todas pessoas de bem, não são pessoas más. Não são ladrões, não são traficantes, não são assassinos, são pessoas boas mesmo, pessoas da terra.

 

P/1 – Como funciona o processo de trabalho, Jildete? Assim, eles chegam até vocês, aí vocês... Como funciona?

 

R – É assim, eu sei que eles se levantam de madrugada. A época que os carrinheiros ganham mais dinheiro é no dia da coleta do lixo. Na verdade, eu creio que trinta por cento só da população recicla o lixo. Então o que acontece? A pessoa joga o lixo, põe o lixo para coleta do lado de fora, aí os carrinheiros vão, passam, os catadores passam, abrem as sacolas, dali eles tiram o plástico, a latinha, o papelão, a caixinha de leite, o metal, às vezes até mesmo a roupa, um calçado, porque tem muitas pessoas que não sabem... Não é que não sabem. Às vezes eu creio que é porque não querem juntar, levar a um Corpo de Bombeiros, a um supermercado, uma roupa ou um calçado ao orfanato, então jogam no lixo. Os carrinheiros recolhem ali para eles. Aí o que eles fazem? Eles juntam aquela reciclagem que eles recolheram, a sacolinha de plástico também, e levam lá para o meu depósito, que eu abro às oito horas. Aí eles levam, ali é separado. O papelão é um preço, o papel branco, que é o papel de caderno, outro preço, o ferro é outro preço, a latinha, o alumínio, que é panela, latinha de cerveja, de refrigerante, outro preço. Tudo é selecionado, porque cada material daquele ou volta para fazer... Que é muito difícil fazer a mesma coisa. O papelão sim, o papelão é reciclado, ele faz outras embalagens de papelão, faz cartões, cartolina, faz um monte de coisas. Mas assim, o alumínio vai para fundição, derrete, faz outro material. Ali faz, vamos supor, uma peça de carro, uma bijuteria. Mas outra panela, aquela panela que derreteu, ela não vai fazer outra panela, porque ela vem da matéria prima. Então uma vez que foi feita a panela, ela não vira panela novamente, dela vai ser feito outra coisa, uma peça de um carro, como eu estou te falando, um maquinário, uma peça de computador, qualquer outra coisa ela vai virar. E o ferro, que o ferro eu falo para todo mundo, o ferro e o plástico, principalmente o plástico, que ajuda muito, muito mesmo os carrinheiros, porque o plástico dá muito dinheiro. Porque o plástico tem... Como eu vou te explicar? Uma sacola de plástico, dali você vai extrair seis tipos de plástico, ali vai ter o vidro de xampu, que é o material colorido, que é o P colorido, é um preço. Ali você vai ter... Como eu vou dizer? Um pote de Danone, sabe esses vidrinhos de Danone? Não o potinho, o vidrinho de Danone, ele é branco, quando você tira aquele plastiquinho, ele é branco, o material mais caro que tem do plástico é ele. Então ele é outro preço, que depois ele é moído, vira umas bolinhas, aquelas bolinhas fazem outro material, mas não o pote de Danone, ali já vai fazer balde, bacia, pá de lixo, vai fazer vassoura, essas coisas. As sacolinhas de plástico vão fazer pipa, saco de lixo. A pipa que eu falo é a rabiola. Tudo, tudo, tudo que a gente consome, ele é reciclado para outra coisa. E a sorte do mundo somos nós, que temos os pequenos, que são os ferros-velhos, que compram de tudo um pouco. Porque tem aquela empresa que compra só o plástico, aí tem outro que compra só o papelão, outro que compra só o ferro. Nós não, nós compramos tudo, nós compramos de tudo um pouco, que nós somos os pequenininhos, então a gente de tudo um pouco. Aí esse pouco tem que transformar num muito para poder vender para as firmas grandes. Porque você não vai comprar, vamos supor que eu compre uma tonelada, eu não consigo vender uma tonelada, eu tenho que vender no mínimo dez toneladas. E é um processo muito cansativo. E é cansativo, eu trabalho, eu pego no pesado. Eu ponho uniforme como todo mundo lá, os meus filhos, o meu esposo, a gente põe uniforme, a gente põe luva, a gente põe máscara, a gente se suja, põe bota. Lá tem chuveiro, a gente toma banho, se troca, fica cheirosinho de novo, cada um vai para sua casa. E é assim. É a nossa vida. Lá é assim. Brinquedos, a gente ganha muito brinquedo, porque o brinquedo, por exemplo, a boneca não recicla, ela recicla o corpo, mas não recicla a cabeça. Então o que a gente faz? A gente pega, compra assim mesmo para o carrinheiro não levar embora, porque ele tem que comer, o bichinho, todo dia ele tem que comer. Então o que acontece? A gente recolhe aqueles brinquedos e doa aqueles brinquedos para nossa igreja, tem um orfanato lá perto, tem uma casa de recuperação também lá perto que recolhe lá na gente. Cadernos que o governo doa, as pessoas levam lá para vender, só que está misturado com um monte de coisa, você não vai saber o que presta, o que não presta. Então na hora que vai selecionar, porque você tem que tirar o ferro do papel branco, que é o arame, aí estão lá aqueles cadernos bons, a gente separa tudinho, aí doa para outras pessoas, para as favelas. Então tem uma parceria, nem tudo a gente joga fora, tem muitas coisas que eu trago para minha casa. E compro um suporte, por exemplo, como aquele que está ali de planta, o que eu faço? Eu compro um spray, pinto-o e uso na minha casa, fica novinho, eu não vou comprar. Um pé de máquina antiga, sabe essas coisas antigas? Que nem máquina de costura, máquina de escrever, moinho, ferro de passar antigo, essas coisas são muito procuradas, isso vende separado, porque donos de chácara, de antiquário, que fala, eles vão comprar para fazer decoração, essas coisas. Então a gente aprende muita coisa. Eu aprendi muita coisa, eu aprendi também a ser mais humana. Porque a gente vê cada história, a gente vê cada situação. É muito difícil. Gente que mora na rua, dorme dentro do carrinho, aí no outro dia passa... De noite, não é nem no outro dia, de madrugada, passam uns “boyzinhos” metidos à besta, que eu falo logo o Português correto, aí judiam dos bichinhos, batem, até mesmo matam, sabe, por maldade, pura maldade. Então assim, muitos deles que vieram para São Paulo para tentar a vida aqui e acabaram se envolvendo com droga, e a família largou. Outros acabaram se envolvendo com bebida e acabaram virando alcoólatra, a família largou, aí ficaram na rua. Então a gente acaba conhecendo um pouco da história de cada um, acaba passando mensagens boas para eles, eles passando para nós. É um conhecimento, é muito bom. Uma troca de conhecimento. Eu me sinto realizada. Eu consegui reformar a minha casa, hoje eu tenho o meu carrinho, o meu esposo também tem o dele. Então assim, nós temos um propósito hoje que é o quê? Mais ou menos em um ano, um ano e meio, se Deus permitir, a gente conseguir, a gente vai parar com o ramo de sucata e vamos abrir uma lojinha, uma lojinha de um e noventa e nove, de alguma coisa do tipo. Que na verdade, na casa que o meu filho mora tem uma garagem e nós já montamos lá uma lojinha, eu já até abri firma e tudo, chama JG Utensilios e Presentes. Eu nem tinha falado, lembrando agora, na Bahia eu fazia crochê, aqui eu também fazia. Quando eu tinha tempo eu fazia crochê, fazia tapete, fiz curso de decoração, montar vasos, então eu faço vasos, eu pinto madeiras. Então eu faço kit de bebê, utensílios domésticos de decoração, eu faço de madeira, aí eu coloquei nessa lojinha, aí pus bastante coisa assim de utensílios domésticos, como tupperware, talher, pratos, essas coisas assim, enfeites dentro de casa, e abri essa lojinha pequenininha, aí minha filha toma conta. A minha nora fica na semana e a Kelly fica aos sábados. Porque assim, é um meio de eu poder ajudar a minha nora e um meio também de a gente já começar a fazer alguma coisa no ramo que a gente quer no futuro quando fechar a Kelly Fer. Porque a gente não fechou ainda a Kelly Fer, primeiro eu creio que é porque meu esposo ainda está empurrando com a barriga achando que dá, mas eu não aguento mais trabalhar nessa adrenalina, nesse medo, porque a gente trabalha com medo. Naquela Barão de Mauá, se você procurar saber, é assalto todo dia. Tem uma comerciante perto da gente, que é uma casa de ferragem, que num mês só ela foi assaltada quatro vezes. É bem pertinho da gente. A gente só não é assaltado mais vezes por conta que a gente trabalha com o portão fechado. Chega um motoqueiro com capacete, a gente já vê se ele está com material e já pergunta o que é o material dele, tem um jogo de cintura para não ter que já de imediato abrir o portão. E quando a gente abre o portão, sempre vai em dois, porque a gente fica preocupado, para dar tempo de um sair, pedir socorro, porque está muito complicado, eles estão matando muito comerciante. Antes eles só roubavam e iam embora. Hoje não, eles roubam e atiram. Então está ficando muito preocupante e eu não quero mais isso. E essa lojinha, do meu ponto de vista, hoje se trabalha muito com a maquininha, então não vai ser uma coisa que eu vou trabalhar muito com dinheiro. Eu sei que também vai chamar atenção do ladrão, mas não vai ser como o ferro-velho, que eles vão porque sabem que lá tem dinheiro. Porque eu não tenho como trabalhar sem dinheiro, eu tenho que dar dinheiro todo dia para aqueles catadores, para os carrinheiros, para os meus clientes que vão vender o material deles, que eles vão vender. É diferente de uma loja, uma loja eu vou vender e vou receber o dinheiro. Então, no caso, eu vou por um objeto, são vinte reais, passa o cartão. É diferente, eu vou ter pouco dinheiro. Então é meio complicado.

 

P/2 – Eu queria perguntar desde quando que vocês têm essa loja de reciclagem.

 

R – Seis anos.

 

P/2 – Tem seis anos.

 

R – Vai fazer dia dois de maio, seis... Dois não. Dezessete de maio, seis anos que a gente abriu essa loja de reciclagem. Mas já rendeu muitos frutos para nós, porque assim, a gente soube... Como eu vou explicar? Aproveitar. E também porque trabalhou sempre em família, a gente sempre trabalhou em família. Então não tínhamos condições de contratar funcionários, só temos um funcionário até hoje, registrado mesmo que trabalha com a gente, que a gente registrou, é um funcionário, os demais são tudo família. Ou precisa de alguém ir lá, por exemplo, para fazer um serviço pesado, aí pega naquele dia ali para fazer um bico. Porque não dá, não tem condições. E o meu esposo é tudo, ele dirige caminhão, dirige empilhadeira, ele sabe mexer nos maquinários, então assim, ele faz de tudo um pouco, então que é para dividir para duas, três pessoas fazerem, ele faz sozinho e ensina para o meu filho também. Porque hoje o meu filho tem habilitação, também dirige, já ajuda bastante, eu também dirijo. Então ajuda muito nessa parte, porque a gente tem que fazer carreto nas escolas com a perua. Então ajuda muito nessa parte. Porque quando éramos só eu e ele, era muito complicado. Agora não, agora somos nós três. A Geisa também já vai tirar habilitação, mas essa não quer trabalhar conosco, então Deus abençoe-a no serviço dela, na vida dela.

 

P/1 – E Jildete, eu queria saber de você quando você recebeu a casa, quando você mudou para casa, conta pra gente o sentimento de vir morar aqui.

 

R – Ah, foi um sentimento... Quando eu vim pra cá, nossa... Sabe você nunca teve nada? Eu não sei explicar. Porque assim, foi uma emoção tão grande, porque não era aquela casinha do Capuava, pequenininha de dois cômodos. Era uma casa grande, uma casa que eu ia ter endereço fixo, era uma coisa que eu queria ter telefone, porque sabe uma coisa você falar assim: “Poxa, eu tenho telefone na minha casa”. Nossa, é muito bom. Lá onde eu morava, quando morava no Capuava, naquela casa pequenininha, eu tinha uma televisão, eu tinha que subir, era tão baixinho que eu subia no muro do vizinho e colocava os pés na grade da janela, subia no telhado e girava a antena, aí ficava gritando: “Tá bom? Tá bom?”. E alguém respondia se estava bom ou não. Aqui não, aqui eu ia ter... Era diferente. Nossa, uma garagem, nossa, ter uma garagem, só rico para ter uma garagem. E eu falei: “Nossa, eu não tenho carro, mas eu tenho uma garagem”. E para nós, naquele momento, ter uma garagem era muito bom, era uma segurança, uma casa bonita, você vê o portão, plantas, tanto que eu tinha um monte de plantas na minha garagem, muitas plantas. Eu tive que dividir, um pouquinho eu doei, outro pouquinho eu fiquei aqui, que eu punha ali embaixo, porque eu não tinha como cuidar, as bichinhas estavam morrendo de sede. Mas eu tinha muita planta, aquilo ali me enchia de vida quando eu entrava, que eu olhava minha garagem. Foi muito emocionante, foi uma alegria imensa, foi tudo pra mim, tudo. E do jeito que eu quis. Sempre eu sonhava em ter uma casa assim, que tivesse um piso que eu escolhi, a parede pintada do jeito que eu escolhi, não uma casa de aluguel, que você entra e não pode fazer modificações porque é alugada, você vai devolver para o dono uma coisa que você também não vai poder mexer muito. E nela não. Aí eu fui mexendo aos pouquinhos, eu tirei a porta de madeira, coloquei uma porta sanfonada, eu tirei uma parede, fiz uma cozinha americana, mas sem mexer na estrutura da casa. Ficou uma coisa bem legal, eu gostei muito, ficou a minha cara. Eu falo, ficou a minha cara, do jeito que eu queria. Porque assim, eu não sonho tão alto também não, mas foi do jeito que eu queira. As cores que eu escolhi, do jeito que eu escolhi, aquele corredor quando você sobe tem os degraus da sala, aquele corredor fui eu que desenhei ele todinho, como eu queria, que eu fiz aquele vitral como se fosse uma sanca no teto. Se você olhar para cima, você vai ver que tem uns vidros, não sei se você olhou. Quando você descer, você olha. Aí tem aqueles vidros assim. Nossa, quando você abre a sacada do meu quarto e você puxa a cortina, então entra toda aquela claridade, aí reflete nos vidros e fica aquela... Aí a claridade vai toda para o quarto das minhas filhas, para o quarto da Paulinha, então fica aquela coisa bem arejada, bem gostosa, do jeito que eu sempre quis. Porque lá no nosso lugar, na Bahia, as casas são todas arejadas. Entra sol de um lado, sol do outro, então assim, é aquela coisa bem gostosa. E eu sempre quis. Aí comecei a desenhar, usar a imaginação, sozinha. Depois conversei com meu esposo, com o pedreiro, e nós conseguimos fazer aos poucos, mas foram cinco anos. Cinco anos assim, mexia num cômodo, deixava-o de jeito que queria, aí mexia no outro. Não pense que foi de uma vez não, porque não foi, foi tudo pouquinho. É igual essa cobertura. Que eu sempre quis ter uma área grande, onde eu pudesse ter a lavanderia, onde a gente pudesse fazer uma reunião de família, juntar as mesas, um churrasquinho. Falta só a churrasqueira, mas já está lá o cantinho dela, no jeitinho ali, só colocar a churrasqueira. A mesa já tem. Mas já está no jeito mesmo, do jeito que eu sempre quis. Fazer um banheiro aqui em cima, todo de vidro, foi uma luta para colocar esses vidros, mas consegui fazer com que meu esposo colocasse. Então são algumas vaidades que a mulher gosta. E essa casa, para mim, eu não abro mão dela, não abro. Por isso que eu não penso de ir embora para Bahia. Que os meus conterrâneos que me perdoem, que eu vou lá só passear quando der. Eu não penso. Porque assim, para mim, no momento, lá não tem nada para mim, na minha terra. Não tem nada para mim, não sei do que eu vou viver, o que eu vou fazer lá? Não tem. E lá a expectativa de vida das pessoas é muito pequena. É um aposentado que ajuda um casal de filhos a cuidar dos netos. Você tá entendendo? Eu não quero isso pra mim. Eu sempre quis dar uma vida para os meus filhos, mas também eu sempre quis ter uma vida melhor pra mim também. E não é à toa que eu trabalho muito, não deixo de contribuir com o meu INSS, porque eu não sei o que vai ser de mim amanhã. Então essa é a minha vida, essa é a minha história.

 

P/1 – Jildete, me conta, como é hoje a sua relação aqui com os arredores, com os moradores?

 

R – É muito boa. Mudaram algumas coisas assim, porque vieram outras pessoas de longe, que eu não conhecia, vieram de outra comunidade, da Gamboa, de outros lugares que eu não conhecia. Mas o pessoal aqui em si, que veio do Capuava, esses a gente tem uma relação muito boa, todo mudo conhece todo mundo. Aqui é de uma maneira que é assim, se o filho da minha vizinha cair, eu vou lá e o levanto, se for uma coisa grave, eu tenho autoridade para chamar uma ambulância e chegar à casa do pai e: “Olha, teu filho caiu, acabei de chamar a ambulância”. Você tá entendendo? É assim, você vai à escola, aí você avisa: “Olha, eu tô indo pra escola, não precisa você ir, eu trago teu filho”. A gente é assim até hoje, desde quando nós morávamos lá. Se elas, por exemplo, vamos supor que eu viaje com os meus filhos, que nem, tem essa casa nossa lá em Itanhaém, e por um, não sei, por alguma, sei lá, uma distração minha eu deixei uma janela aberta, não pense que eles vão me ligar para me incomodar, eles vão fechar a minha janela. Eles vão fechar a minha janela, quando eu retornar, vai ser a primeira coisa, aquela pessoa que fechou a minha janela vai estar me esperando: “Olha, Gil, você deixou a janela aberta” – até briga comigo – “Eu fui lá, fechei, não consegui fechar da maneira que tinha que fechar, eu amarrei”. Mas é assim que funciona, a gente se ajuda. Se o gás do meu vizinho acabar, por exemplo, e eu tiver, não me custa nada ceder o meu gás pra ele. E a gente é assim até hoje. A gente ainda é daqueles vizinhos que o meu açúcar acaba, eu vou lá pedir. Você tá entendendo? Para eu não ter que sair para ir comprar na venda, porque é de noite, eu vou lá: “Fulano, me empresta um quilo de açúcar, eu vou fazer compra, aí eu te dou. Empresta-me um copo de açúcar. Um limão”. É. Nós somos assim. A gente faz um, vamos supor, final de ano, a gente faz um churrasquinho, aí eu não vou comer um churrasco sozinha, de jeito nenhum, todo mundo aqui. Se a Célia não tiver a batatinha, a Vânia vai ter a cenoura, o Petrúcio vai ter os ovos para fazer uma maionese, cada um dá uma coisa, aí nós fazemos. Que seja na minha casa, que seja na casa da Janaina, na casa da Célia, ou mesmo a gente fecha a rua se precisar, porque aqui é sem saída, não sei se você viu. Então a gente combina desde o primeiro vizinho até aqui em cima. Todo Dia das Crianças, dia 12 de outubro, aqui na rua de trás juntam todos os moradores daqui desse pedaço, não do lado de lá, que é como eu te falei, é o pessoal que veio depois. O pessoal daqui tudinho, mas o de lá também participa, só que assim, não todo mundo, porque eu não posso também falar o que eu não tenho certeza. Mas aqui a comunidade todinha junta, aí eu doo o refrigerante, aí a vizinha ali doa as pipocas, os brinquedos, outra bala, o pirulito. A gente monta saquinhos de doce, a gente compra brinquedos mais baratos, mas quantidade grande, que a gente possa ter um desconto em São Paulo, e a gente faz a festa das crianças. Todo Dia das Crianças, 12 de outubro, você pode vir aqui que está aquela festança. Temos bolos, cachorro-quente, pipoca, temos brincadeiras. Tem um pessoal de uns bufês aqui que doam brinquedos assim, cama elástica, aqueles... Como chama? Sabe que tem aquelas bolinhas? Esqueci o nome. Que tem um monte de bolinha.

 

P/1 – Piscina de bolinha.

 

R – Piscina de bolinha. Então assim, um palhaço doa uma fantasia, aí alguém se veste, um vizinho se veste de palhaço. Então a gente é assim. Até hoje a gente não consegue. Só que também tem o outro lado, antes a gente dormia até de janela aberta, sem cadeado, sem colocar cadeado nos portões. Hoje a gente não faz mais isso. A gente deixava a roupa no varal, no quintal, que o muro é baixinho. A gente não faz mais isso hoje, mudou muita coisa. Então assim, são coisas que hoje já mudaram. Nós ficávamos, por exemplo, até nove e meia, dez horas aqui na pracinha, sentados, conversando, os vizinhos, em vez de estar no sofá vendo televisão. Ou que um não vai para igreja, vamos supor que não é dia de culto, que não tenha missa, então a gente ficava na pracinha conversando. Hoje a gente procura não fazer muito isso com frequência, porque a gente tem um pouco de medo, sempre está passando polícia, tem uns infelizes que vêm, trazem carro roubado, deixam aqui perto. Por quê? Porque é perto da favela. Isso pra mim é um preconceito muito grande que as pessoas têm. Aí todos pensam que foi o pessoal da favela que roubou, e não é. Quantas das vezes polícia já prendeu gente aqui de classe média, classe média alta, falar o Português correto. Prendeu mesmo. Carrões, que deixam carrões aqui. Eles roubam para cometer algum, sei lá, fazer alguma coisa errada com esses carros. Só que aí eles não destroem o carro, nem nada, largam aí e pronto. A gente tem que chamar a polícia para polícia vir: “Olha, tem um carro assim, assim, e não é da comunidade”. Isso é muito ruim para nós. É muito ruim. Passam com som estrondando nos carros e não é o pessoal nosso, não é o pessoal da comunidade, é o pessoal que vem do outro lado. Passam por aqui zoando bem alto. Então assim, incomoda. Porque tudo é a favela, mas não é. Isso eu falo para vocês que não é, porque não é. Eu sei quantas das vezes que eu cheguei tarde da igreja, de madrugada, e não era o nosso pessoal que estava na pracinha fumando, com o carro à toda altura perturbando o sono da gente. O nosso pessoal daqui da comunidade não tem esse desrespeito com a gente, eles não fazem isso com a gente. Tanto, para você ter uma ideia, que quando tem festa, você está vendo o som? Agora é à tarde, eles estão com o som ligado, você chega aqui de noite, não está assim. Se eu for fazer uma festa, uma festa, vamos supor, de aniversário, uma comemoração assim, legal, e vai vir muita gente, a gente vai participando uns para os outros: “Olha, vai ter uma festa, vai lá, vai ter um churrasco, nós vamos ficar tal hora”. Todas as pessoas vão saber. Mas quando são esses carros, que eles põem aquelas caixas de som bem alto nos carros e vêm fazer funk... Até isso já teve aqui, mas graças a Deus a polícia tirou. Estavam vindo dos bairros fazer funk aqui dentro, lá embaixo, fechavam a Ayrton Senna todinha. E não era o pessoal da nossa comunidade. Tudo bem que o pessoal da comunidade estava junto, mas assim, não o pessoal nosso que pegou, eles que vieram com toda aparelhagem, montaram o palco e tudo sem autorização. Mas graças a Deus acabou, não tem mais, fizeram acho que umas três vezes. Então são muitas coisas que eu queria muito, muito, muito mesmo que alguém lá no plenário, que algum governante falasse que a favela não é tudo de ruim como as pessoas mostram. Porque lá eu tenho bastantes conhecidos lá em Limeira, no interior, em Bragança, que eles têm a favela como o pior lugar do mundo, como que os favelados, dizer o Português correto, nós favelados não somos ninguém, não somos nada, como se nós fôssemos ladrões, traficantes, usuários de droga. Não é assim que funciona, não é mesmo. É de fora que vem tudo isso pra cá. Então eu queria que esse preconceito acabasse, porque nós somos pessoas de bem, nós não somos tudo isso que pensam. Eu fico muito triste quando eu vejo aquelas reportagens no Rio de Janeiro, aqui em São Paulo. Pode ver, na maioria das vezes já colocam um negro, um pobre, um da favela, dificilmente eles estampam ali que realmente aquilo está vindo dos grandões. É um recadinho, tá? Que se der, um dia, vocês podem mostrar para todo mundo esse recado. Que eu gostaria que mostrasse mesmo, porque é muito chato. Eu não tenho vergonha de falar não, aonde eu vou eu falo. Eu vim da favela, moro do lado da favela, só que não moro na favela. Eu moro num bairro urbanizado, num conjunto maravilhoso, porque aqui é muito bom, é muito gostoso, é sossegado, você pode deixar o seu carro aí, não acontece nada. Não acontece nada. Vem é carro de fora que eles desovam aqui para sujar a nossa imagem, denegrir a nossa imagem. Mas não é assim não. Nós somos pobres e dignos, e trabalhadores.

 

P/1 – Jildete, eu queria te perguntar, quais são as suas expectativas para o futuro daqui, o futuro da comunidade?

 

R – O futuro da comunidade? Olha, a expectativa que eu tenho, que com fé em Deus... Já está acontecendo uma delas. Que sempre foi um sonho nosso, que a gente pediu muito para o Celso Daniel e ele colocou no projeto dele, mas não deu tempo de concluí-lo, mas agora, aqui dentro, atrás daqueles prédios eles estão fazendo um posto de saúde. A comunidade é grande, veio muita gente pra cá, nós levamos em torno de três meses para conseguir fazer uma mamografia, uma ressonância, ressonância não, ultrassom, que são exames que não são exames difíceis, são exames fáceis. Mas a gente não estava conseguindo, estava demorando muito para fazer. Mas agora não. Agora com esse posto de saúde aí vai melhorar muito, porque todo mundo é cadastrado no posto Capuava, então é o Parque Capuava, o Capuava inteiro é lá, Alzira Franco, tudo lá. Então agora não, agora nós vamos ter um posto de saúde aqui para comunidade, graças a Deus. Que a gente sempre sonhou com isso. O nosso sonho era ter uma escola, já tem, uma escola profissionalizante nós temos, João Amazonas, a creche nós temos, que é bem pertinho, uma aqui, não sei se vocês passam na frente. Essa escola é uma maravilha. Nossa, tudo de bom. Temos agora o posto de saúde. E em nome de Jesus, logo, logo vai ter uma quadra de esporte, que precisa muito para os nossos filhos, muito, muito, muito. Para os meus netos que vão vir, que eu creio que vão ser muitos, que eu quero um monte de netos, minha casa cheia de netos, eu só tenho uma. E são muitas crianças, então eu gostaria muito que tivesse uma quadra de esporte, que aqui tivesse vários eventos, muita coisa para as crianças, cursos de grafiteiro, aula de dança, de música, de instrumentos, para que nossas crianças não fiquem só vendo essas coisas na televisão, viver na frente do computador, nos vídeo games. Nossa, eu fico revoltada quando eu vou à casa da minha irmã, que eu vejo os meus sobrinhos o tempo inteiro, eles nem te cumprimentam. “Oi, Luquinhas.” “Oi, tia.” “Oi, Matheus.” “Oi, tia.” Não te olham. Eles ficam ali o tempo inteiro, eles não sabem o que é brincar, o que é correr, brincar de bola, pular corda, brincar de cirandinha, coisas que eu fiz e que hoje em dia você vai ao interior, as crianças brincam de roda, as crianças brincam de pega-pega, não é de polícia e ladrão não, e nem desses jogos violentos. É uma vontade imensa que eu tenho. Que eu creio que tudo vai dar certo, a gente vai sair desse ramo de sucata, porque está perigoso mesmo, muito perigoso lá para onde a gente está. E que a vida da gente não vai ser mais essa turbulência que está, porque é muita correria, muita mesmo, muita agitação. Que vai chegar um momento que a gente vai amenizar um pouquinho, não parar de trabalhar, mas descansar um pouquinho mais, e eu creio que eu vou poder correr atrás de um monte de coisa, sabe? Conversar com a população pra gente correr atrás de alguém que pode fazer por nós. Porque eles vêm atrás dos nossos votos, então a gente tem que ir atrás deles cobrar o que a gente quer para nossa comunidade, para que mais cedo ou mais tarde não venha a polícia aqui querer matar um dos nossos filhos, dos nossos netos, sobrinhos, porque se envolveram com o tráfico, porque se envolveram com latrocínio. A gente quer que os nossos filhos tenham alguma coisa para fazer. A maioria, hoje em dia, dos comércios que pega para trabalhar, tem que ter experiência de tudo. Então assim, nós temos o Amazonas que tem curso profissionalizante, mas não tem curso profissionalizante para criança. E se você colocar na ponta do lápis, tem um monte de coisa que criança pode fazer, primeiro de tudo, brincar. Se a criança não brinca, fica trancada em casa, ela não vai aprender coisa boa, ela vai ficar na frente da televisão ou de vídeo game aprendendo um monte de coisa errada. Ou no computador falando com quem não deve, fazendo o que não deve. É o meu ponto de vista, porque o computador é bom, mas o computador trouxe muita desgraça, muita, muita. Eu conheço muita gente, eu conheço mesmo, não de ouvir falar, que eu conheço muita gente que teve problema com os filhos por conta do computador. Pedofilia, problemas de filha se envolver com gente de idade, com esses velhos sem-vergonha que não têm o que fazer, aí marca encontro, fala que é adolescente da mesma idade, quando chega lá, não é. Tem pessoas que eu conheci, tem uma mesma que eu conheci que era motorista de ônibus, todo mundo já sabe, ele está preso. Nós não sabíamos, a gente o considerava como uma pessoa excelente, respeitador e tudo, e ele era um pedófilo. Então assim, a mãe acabou percebendo que tinha uma coisa errada com a filha e descobriu que ela estava se encontrando com esse cara. Ele prometia dar dinheiro, daí ele dava, prometia não, ele dava, aí aconteceu isso. Eu gostaria que os nossos filhos tivessem alguma coisa para fazer, tivessem uma área de lazer, tivessem mais coisas para brincar, não só parque. Porque eles colocam um parque ali, pronto. Um parque requer segurança, um parque requer cuidados, cortar o gramado, sempre fazer manutenção dos brinquedos. E se você tem uma quadra de esporte, se você tem um segundo João Amazonas, por exemplo, mas que tenha uma área de lazer e outra área para aprender, que é a área profissionalizante, por exemplo, a área de escola, tudo em um só, um conjunto disso tudo, muito coisa vai mudar. Muita coisa, porque vai contratar mais pessoas para trabalhar, mais funcionários, colocar mais policiais na rua também, a ronda escolar, porque precisa muito disso. Muitos dos nossos filhos falam que vão para escola, não vão, ficam do lado de fora. Eu vejo muito isso também. Lá perto do meu serviço tem duas escolas, aliás, são três, mas bem pertinho tem duas escolas, e a gente vê muitos meninos assim que você fala: “Nossa, os pais tão trabalhadores, tão decentes, e os filhos fazendo cada coisa errada”. Que se você for contar para o pai ali, ele vai dizer: “Não, não é verdade, não é o meu filho”. E você vê o filho fazendo coisa errada mesmo, grave, grave. Então isso é o quê? Falta de ronda escolar, porque se a ronda escolar tivesse lá, aquela criança não estava do lado de fora. Criança, porque moleque de doze, treze anos, ele é uma criança. O meu ponto de vista é esse, é um projeto que eu creio que para o futuro seria muito bom para nós. Muito bom para nós todos.

 

P/1 – E Jildete, o que você acha dessa ideia de a gente montar uma exposição contando a história do bairro, que é a história de vocês também que moram aqui?

 

R – Olha, de verdade, quando vocês vieram, eu não tinha dado muito crédito não (risos).

 

P/1 – (risos).

 

R – Eu comecei a conversar com uma pessoa, duas pessoas, aí eu falei: “Nossa”. Li o livro de vocês. E demorou, pra mim demorou alguém contar a história do nosso bairro, do Capuava. Porque o Capuava foi muito sofrido, foi muito criticado, foi muito espezinhado. Porque o Capuava escondeu muitos traficantes, matou muita gente inocente, foi uma história de vida muito sofredora para muitos trabalhadores, para muitos pais de família, teve muitas perdas também, não só a perda sentimental, que é de um ente querido, mas também perda material, porque a estrutura era área de risco, então eram muitos morros, não tinha esgoto. E hoje tem tudo isso, então hoje está tudo muito bem urbanizado, tudo muito bem bonitinho, vocês foram lá, vocês viram. Nossa, quem conheceu o Capuava antes, e hoje vamos supor que tem vinte anos que não vem aqui, e vir hoje, não consegue andar dentro do Capuava, porque você entra num... Não falo nem viela, porque são poucas vielas que tem. Você entra numa rua, já sai na avenida, você entra em outra, já sai num supermercado, já sai numa lojinha, numa farmácia, porque nós temos tudo isso lá dentro, açougue. Nossa, lan house, nós temos mercados aí dentro, esses depósitos de material de construção. Nossa, nós temos de tudo, de tudo dentro do Capuava. Vários comércios. Se você andar ali, você vê. E é tudo gente de bem, trabalhador. Igrejas. Nossa, é perfeito. Está maravilhoso. Eu creio que ninguém tem medo mais de andar no Capuava à noite. E há alguns anos, misericórdia, ninguém andava. Todo mundo tinha medo, então assim, se você tinha que sair com o teu filho de noite para levar ao médico, misericórdia, coitado. Ou você esperava o dia amanhecer, ou... Nem a polícia não dava para chamar, porque até a polícia encontrar a tua casa, não tinha nem como. Porque não tinha uma referência. Viela tal, Viela Seis, vamos supor, casa dois, como ia achar se não eram nem numeradas as vielas, não tinham nenhum acesso e ainda por cima era de barro? Não tinha um ponto de referência, não tinha como ter um acesso. Só os próprios moradores que conheciam uns aos outros. E sempre foi assim. A comunidade do Capuava sempre se ajudou. Até hoje é assim. Sempre se ajudou. O vizinho empresta o tanquinho para Fulano, uma centrífuga... É assim que funciona. A minha vizinha não tem centrífuga, vai lavar o cobertor: “Ah, eu vou torcer lá na tua máquina, eu vou levar a tua centrífuga”. “Não, leva a centrífuga pra tua casa.” “Ai, eu queria tomar uma vitamina, me empresta o teu liquidificador.” Você tá entendendo? É assim a nossa comunidade, a gente é muito unido, a gente é gente da gente. É uma coisa muito bonita, muito bonita. Só quem sabe é quem convive. E é um trabalho muito bonito que vocês estão fazendo. Eu espero que vocês continuem com esse projeto, porque é muito bom vocês conhecerem outros lugares, outras pessoas, porque cada um tem uma história de vida para contar. E tem muitas coisas que nós temos que mostrar de verdade, hoje em dia, para as pessoas, porque as pessoas estão perdendo a fé nelas mesmas. Estimula a pessoa. Muitas das vezes a gente tem um probleminha deste tamanho e acha que é um problemão. E aquele Fulano do teu lado, aquela pessoa que está ali do teu lado tem um problema tão imenso que o seu se torna um grãozinho de mostarda. Isso é muito importante. Muito importante mesmo. Eu gostei muito do que vocês fizeram por mim, estão vindo aqui, sabendo um pouco da minha história para passar adiante. E eu gostei mais ainda porque é falar sobre o bairro do Capuava, e eu fui integrante de lá. Eu sei um pouco de lá, não tudo, eu sei um pouco de lá, conheço bastante gente de lá. É importante.

 

P/1 – Então, Jildete, em nome do nosso projeto, eu agradeço de novo. Muito obrigada.

 

R – De nada.

 

P/2 – Obrigada.

 

R – Por nada, gente.

 

P/1 – Parabéns pela sua história.


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