Busca avançada



Criar

História

Depois da tempestade

História de: Minervina Marques Rocha
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/04/2014

Sinopse

Minervina passou poucas e boas desde que decidiu mudar-se para o Estado de São Paulo, saindo do interior da Bahia, município de Santo Estevão. Casou com uma pessoa, que lhe tirou dos maus tratos do cunhado, mas que foi atropelado na Rodovia Ancheita. Desistiu de continuar trabalhando na barraca de temperos herdada do marido, com quem sempre trabalhou, pois tinha que enfrentar diariamente a travessia da rodovia. Minervina passou por enchentes e incêndios e chegou a ver afogamento na comunidade onde morava. Agora reside bem em um condomínio do Programa Minha Casa, Minha Vida e voltou a estudar.

Tags

História completa

Minervina Marques Rocha, nasci no Estado da Bahia, Santo Estevão, no dia 14 de agosto, tô com 69 anos. Minha mãe teve 20 irmãos, era uma situação muito difícil. Às vezes a gente tinha o que comer, às vezes não tinha. Era seca, a gente bebia aquelas águas de gravatá, sabe? Sabe, uma árvore que dava e juntava aquelas águas. A gente ia e tirava aquelas folhas, botava numa vasilha e trazia pros outros irmãos em casa beber. “Rancava” aqueles “imbu”, que tinha aquelas batatas, ralava naqueles ralos pra “mó de” mexer e fazer a farinha pra gente comer.

Eu vim me embora pra cá pra São Paulo, trazida pelos “outro”. Eu vim de ônibus, com uma moça de Mauá, a filha do compadre do meu pai. Ela me trouxe pra cá pra “mó de” eu arrumar um serviço pra mim trabalhar. Sofri muito aqui nas casas dos “outro”. Nessa aqui, em São Bernardo, já tô com trinta e poucos anos que eu convivo aqui em São Bernardo. E aqui estou até hoje, Graças a Deus, passei... Não, aqui não foi sofrimento, aqui em São Bernardo, não vou dizer que aqui eu sofri muito. E sofri, né? Fui presa pelo Juizado de Menores, que eu arrumei serviço muito cedo; em São Paulo errei o ônibus e o Juizado me pegou. Aí, minha irmã aqui de São Bernardo foi pra São Paulo e me soltou. Aí minha irmã não deixou eu trabalhar pra longe mais. Fui muito judiada por meu cunhado, que já morreu também.

Pronto, arrumei emprego e fui trabalhar. Arrumei uma pessoa, morei com ele 20 anos, 20 anos e seis “mês”, ele viu o meu sofrimento com o meu cunhado, aí ele falou com a minha irmã, se ela consentia de eu ir morar com ele. A minha irmã viu o meu sofrimento, eu fui morar com ele. Eu ia morar na minha casa sozinha, como eu vivia sozinha mesmo... Aí, eu comecei a trabalhar com ele, que ele tinha defeito nas pernas, ele era pequenininho. Nós vendia na portaria da Volks pão doce, queijo e goiabada. A gente naquele tempo chamava Romeu e Julieta. Ele pegava o ônibus, ia buscar a mercadoria no Brás. Aí nós botava no triciclo, ele montava no triciclo, que ele não podia empurrar naquela ladeira da Volks. Eu empurrava ele a metade pra descer a ladeira, ele ia “se embora” e eu ficava em pé esperando os motoristas dos ônibus me pegar e me levar lá onde ele tava. Ali no ABC nós “vendia” churrasquinho... Tinha barraquinha. Nós botava ali a churrasqueira e vendia, de frente aqui onde é o ABC hoje, que tá lá ainda. Tive os meus três filhos, porque eu tenho cinco filhos, mas dois moram na Bahia, que é João e Carlinhos; tem Simone, a Sílvia e o Sílvio, que foi nascido aqui em São Bernardo.

Depois, botamos uma banquinha de tempero no Paço Municipal, nós vendia tempero. Aí, ele faleceu, e eu comecei a tomar conta da banquinha do tempero. Como eu fiquei com medo de atravessar a Anchieta, que ele foi atropelado lá, e eu vi muita gente morrer, eu fiquei com medo de atravessar a Anchieta com o Silvio com oito anos. Não tinha passarela e a passarela foi feita porque nós “botemo” a boca pro ar e fizemos um protesto. Eu me alembro como hoje! A primeira telha quem botou no chão do protesto foi eu, porque meu marido morreu naquele lugar. Foi importante aquela passarela. Agora, hoje desmantelou tudo, foi aquele negócio lá, ficou parece “mais ruim” pra gente, porque tem um ponto do ônibus que não dá pra gente descer. O ônibus pra gente ir pra São Bernardo é bom, quando ele vai pra Anchieta desce lá perto do areião, é muito longe pra gente “vortar” e é perigosíssimo. Depois que meu marido morreu, eu fui pra Biquinha. Meu cunhado comprou um barraquinho na Biquinha, fiquei lá sete anos; vendi o barraquinho, e fui lá pra onde tava meus filhos tudo, que eles estavam morando lá, Simone, Sílvio e a Sílvia. Eu falei “eu vou pra onde tá os meus filhos, porque eu tô aqui sozinha”, vendi lá e comprei lá.

Eu tô no apartamento, eu tô bem, Graças a Deus, tô no Céu em vida, mas quando chove enche ainda, porque eu moro embaixo e ser uma chuva grossa ainda molha o meu apartamento. A gente saiu da sujeira e fomos pra limpeza. Hoje tá tudo bonitinho, tudo limpinho, tudo na cerâmica, a gente entra dentro do banheiro tá tudo limpinho, chega na cozinha tá tudo limpinho, chega no chão tá tudo limpinho. A minha filha, ela é síndica do prédio que eu moro, ela é muito caprichosa, é tudo limpinho, tudo arrumadinho, muita planta na frente, que eu gosto de plantar. Minha decoração: minha cozinha, meu armário novo, os azulejos na cozinha, nas paredes, né? Agora eu vou passar grafiato na sala, guarda roupa novo, tudo. Que não era que nem aqueles barraco que a gente morava, botava uma panela, não podia deixar em cima do fogão que quando era no outro dia os ratos já comiam tudo. Nós vivemos na sujeira ali, filha. Muito sujo! Então, eu não posso dizer nada, fia. A comunidade tá muito boa.

Meu sonho? O sonho que eu tenho é de eu fazer a minha redução no estômago pra eu tirar um pouco da dor da minha coluna. Eu peço a Nosso Senhor Jesus Cristo que ele me ajude nessa daí. E que a gente seja feliz todo mundo. E o prefeito que entrar seja bom. Não tem mais coisa pra dizer. Mas muito bom, tem escola agora pra gente estudar... Que eu não sei ler. Já tô na escola estudando. Aí, que benção, não é? Só de eu estudar, que meus pais nunca me “botou” na escola, pra mim já é uma benção. Já tô na natação, fazendo natação, tudo pra mim já é uma “bença”. Não é uma “bença”? E depois a gente vai sair de lá, vai pro Baetinha, que vai arrumar lá, vai ficar mais chique pra gente. Então, quer dizer que tudo isso pra gente é uma “bença” pra nós! Pra nós que somos humildes, né? 

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+