Busca avançada



Criar

História

Educação em construção

História de: Marlene Neves Furlan Lozano
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/07/2020

Sinopse

Na seguinte entrevista, Marlene Neves conta sobre sua trajetória como professora e orientadora na Fundação Bradesco, resgatando memórias de seus alunos e até mesmo de sua infância na escola. Disposta e dedicada a melhorar a vida das pessoas por meio da educação desde o começo do projeto, Marlene compartilha os impactos de seu trabalho na vida de várias crianças e adultos, inclusive as mudanças em sua própria vida e desenvolvimento pessoal.

Tags

História completa

P/1- Marlene, pra começar, nós pedimos que você se identifique com seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R- Marlene Neves Furlan Lozano. Data de nascimento: 01 de Outubro, 1967.

 

P/1-  E onde você nasceu?

 

R- Eu nasci em Vera Cruz, São Paulo. Interior de São Paulo, próximo a Marília - região de Marília.

 

P/1- E o nome dos seus pais?

 

R- Basílio Ferreira Neves, Expedita de Melo Neves.

 

P/1- E onde eles nasceram, os seus pais?

 

R- Meu pai em Minas, São José das Antas. E minha mãe em Campos do Jordão, São Paulo.

 

P/1- E a atividade que eles exerciam?

 

R- Atividade exercida? Meu pai sempre foi marceneiro, carpinteiro, mexeu nessa área. E minha mãe sempre do lar. E umas das coisas que eu não coloquei: sempre, também, ligado a fazenda. Sempre com terras. E meu pai fazendo construções na própria fazenda e na região também.

 

P/1- E os seus avós? Você lembra? Paternos, maternos...

 

R- Meus avós... Eu sou filha temporona. Então, eu nasci 20 anos depois da minha irmã que era caçula na época. Então, eu não conheci os meus avós. Nem maternos e nem paternos.

 

P/1- Mas, assim, você sabe de onde  eles vieram? Se eles eram, mesmo, ali da região de São Paulo? Se emigraram?

 

R- A minha família dos dois lados, tanto paterna quanto materna, vieram de Portugal. São portugueses. Vieram pro Brasil. A família da minha mãe se instalou na região de Campos do Jordão, e ficaram. A família Melo existe em Campos do Jordão até hoje. As terras que eram dos meus avós e a família da minha mãe, praticamente, está todas lá.  E meu avô foi pra região de Marília buscar, também, desbravar Marília, na época. Terras, comprando terras, fazendo construções. E acabou ficando por lá. Acabou falecendo lá em Marília. Mas os outros irmãos acabaram retornando para Campos do Jordão. Então, acabou continuando a vida que eles tinham. E minha mãe ficou na região porque ela se casou, né, com o meu pai.

 

P/1- Então, você sabe alguma coisa, assim, como eles se conheceram, os seus pais?

 

R- Eles se conheceram por conta que eram vizinhos de fazenda.

 

P/1- Nossa.

 

R- Vizinhos. E a... Dos meus pais, também... Eles se instalaram em Minas, quando chegaram de Portugal. E aí, foram se espalhando os irmãos. Então, foram perdendo um pouco de contato. Porque veio a família bastante grande, só que perderam um pouco o contato que é família Neves. E aí, foram também pra região de Marília. Buscar trabalho, também terra, ajudar a construir a cidade, aí na região. E ficaram entre Marília, Garça, Vera Cruz, essa região toda. E acabou conhecendo a minha mãe por conta das terras. E o interessante é que assim, mesmo eu criança, muito pequena, ainda eu lembro bastante dessas fazendas, dos sitios. E as casas eram todas construídas nos arredores, assim. Era tipo uma…  Eu falo que é uma tribo indígena que constrói as ocas. Então eram construídas as casas bem próximas, e cada um cuidava das suas terras. Então, tinham as festas, tinha muita reunião. Até hoje, a família da minha mãe ainda costuma se reunir. As festas de interior que tem. Festas de reis, festa de São João, essas coisas que a gente ouve falar muito pouco, ainda tem uma tradição disso ainda, que o pessoal mais velho ainda carrega. A gente, mais jovem, vai perdendo um pouco disso. Você vai se envolvendo com outros afazeres, a tecnologia que está aí no dia a dia, as cobranças que você tem hoje. E muitas vezes você esquece um pouquinho desse lado. Até pra passar pros filhos.

 

P/1- E você tem irmãos?

 

R- Eu tenho três irmãos. Eu tenho um irmão e duas irmãs. Os meus irmãos hoje, todos estão com mais de 60 anos. Até porque eu nasci bem depois. E eu cresci junto com os filhos dos meus irmãos. Então, eu tenho uma irmã que ela é mãezona, que ela acabava cuidando... Tinha o cuidado comigo e com os filhos. E cresceu todo mundo junto. Então, nenhum sobrinho me chama de tia. Só os filhos dos sobrinhos [risos].

 

P/1- Então, você estava falando da fazenda. Você lembra, assim, o que mais que você lembra, quando você era pequena, na tua infância? Era na fazenda que você morava?

 

R- Eu morei na fazenda até os três anos. Mas, depois, eu voltava pra passar férias, Então, assim, os meus pais acabaram indo pra cidade, aí gradativamente acabou indo todo mundo. Até porque você vai perdendo... Teve época de geada, queimou plantação. Aí o pessoal acabava desistindo, indo morar na cidade. Até pra ter uma vida, achava que era mais tranqüila. E acabou perdendo um pouco disso. Então, hoje, ninguém mais tem terras. Tem algumas chácaras, alguns sítios pra passar final de semana. O restante acabou perdendo. Mas, assim, ainda a gente acaba indo nesses locais porque tem muita história da família. Apesar de não ser mais o dono, ainda você encontra muita coisa. As casas, ainda tem coisa que permaneceu, eu falei, no tempo. Prevalece.

 

P/1- Você lembra, assim, de alguma casa, como era quando você era criança? Ou não, porque você era muito pequena ainda?

 

R- Eu lembro. Porque depois - até uns 8, 10 anos - eu acabava indo porque as terras da minha mãe foram vendidas pra tios, tias. Então, acabava ficando na família mesmo. As casas eram muito grandes, inclusive os filhos acabavam morando na mesma casa. Sempre casa com porão embaixo, onde se tinha cozinha, fogão a lenha. Então, era tudo muito rústico. 

 

P/1- Então, conta um pouquinho como era a casa pra gente.

 

R- Ah, como era a casa? [risos]

 

P/1- É, da fazenda.

 

R- Sempre com escadas. Casa de tijolo, de alvenaria, mas aqueles tijolos bem grandes. Não sei você tem conhecimento desses, porque geralmente são tijolos que são construídos na própria fazenda. Não é coisa assim que você acha hoje pra comprar numa loja de material de construção. Então, assim, coisas bastante rústicas, de barro, mesmo, que é queimado em olarias próximas das fazendas. Então, eram construídas assim. Sempre com pintura branca, que é aquele cal. Janelas pintadas em verde. Então, eu lembro bem dessas janelas de madeira. Aquelas portas imensas, que você entrava fazia aquele barulhão. Eu falava: “Se alguém saísse à noite, você escutava o barulho.” O lampião a gás, porque não tinha, ainda, energia elétrica. Quando eu era pequena, nas fazendas, era bem difícil você conseguir energia. Então, assim, animais no pasto. Tinha sempre um pomar muito farto, que a gente brincava muito nesse pomar. Então, a gente montava cabana... [risos]. Montava umas tendas pra brincar com as primas, os primos, ficava todo mundo ali. Então, foi uma infância muito gostosa. Chupar laranja no pé, subir em árvore. Eu tenho as pernas todinhas raladas [risos]. 

 

P/2- Como era o dia-a-dia da casa? Você lembra?

 

R- Era assim... Sempre as minhas tias, as mulheres sempre ali, cuidando das coisas da casa. Sempre com muitas pessoas que trabalhavam na roça, porque eram plantações. Plantava trigo, feijão, arroz. Dependendo da época, do mês, era o que se cultivava. Tinha café, também, um pouco de café. Mas o que mais prevalecia, na época, era mesmo a plantação de arroz. E geralmente as mulheres ficavam responsáveis pela alimentação dessas pessoas que trabalhavam, porque o pessoal não levava o almoço de casa. Então, mesmo a minha tia sendo a dona da fazenda, a minha mãe, também... Na época eu lembro, quando eu era muito pequena, mas eu lembro. Às vezes, quando minha mãe também ia, acabava ajudando de levar a comida, de levar o café na roça. Então, aquela de colocar tudo empilhado, as marmitas, aqueles pano branquinho, de estar levando isso. Às vezes levando a cavalo, dependendo da distância. Então, era totalmente diferente. Carro, na época, eu lembro só um carro do meu tio. Porque era tudo charrete, cavalo, carro de boi. Então, eu lembro muito disso ainda. Isso é bem...

 

P/1- E depois, quando você mudou, que você foi pra cidade, aí você lembra da casa da cidade, como era?

 

R- Eu lembro da casa da cidade. Era uma casa de madeira, bem grande. E... Ai, só voltando um pouquinho lá naquela parte, meu pai trabalhava tanto nessas roças. Vendo o pessoal que trabalhava junto, quanto fazendo casas, porque ele que construía essas casas nas fazendas. E não só dos parentes, mas também de outras pessoas que iam comprando terras, porque era tudo muito novo. Então, sempre casa de madeira. Ele fazia casa, fazia banco. Eu lembro dele fazendo porta pras casas, fazendo aqueles entalhes em madeira, porque ele trabalhava muito com marcenaria também. Fazendo cadeiras. E uma coisa que me marcou muito porque, assim, não tinha - hoje que você tem o serviço funerário que toma conta. Meu pai fazia também caixão pras pessoas que faleciam, ali, da época. Então sempre, às vezes, eu lembro, que a gente estava dormindo, alguém ia bater, pra poder providenciar um caixão pra pessoa que tinha falecido. Então, são histórias assim, de interior mesmo, de sertão mesmo.

 

P/2- Era bem rural.

 

R- Bem rural, bem rural. 

 

P/1- Isso de Marília?

 

R- Isso de Marília. Na região de Marília. Vera Cruz, Garça, Marília. Nessa região. E assim, bastante perto, não é tão longe. Você consegue ir a pé, por exemplo, até Vera Cruz - que é a cidade mais próxima. Marília já não, um pouquinho mais distante.

 

P/1- E quando você mudou, pra qual cidade você mudou?

 

R- Eu fui pra Vera Cruz.

 

P/1- Pra Vera Cruz.

 

R- Vera Cruz. E meu pai continuou trabalhando como carpinteiro e marceneiro, também em casa. Porque, mesmo ele estando na cidade, o pessoal procurava ele procurava pra fazer esse trabalho. E ele sempre gostou muito, até hoje, de inventar coisa. Pegar uma roda, criar uma coisa, fazer outra. Então sempre mexia com isso.

 

P/1- Então, você estava contando da cidade, a tua casa era de madeira.

 

R- Era de madeira.

 

P/1- Teu pai que deve ter feito.

 

R- Não, essa foi comprada. Só que ele fez toda uma adaptação, que também era uma casa bem grande. Era um pouco mais moderna do que as casas que tinha lá no sítio, porque as de lá eram de alvenaria e essa era casa de madeira. Até porque na época, assim, que eu lembro, era difícil você ver uma casa de alvenaria, quando eu fui pra cidade.

 

P/1- E como era essa casa?

 

R- Isso anos 70. A cidade é muito pequena até hoje. Ela não cresce muito porque Marília expandiu. Então é uma cidade dormitório. E é muito tranqüila. Até hoje, o pessoal preserva, assim, alguns hábitos. Por exemplo, a minha mãe, ela faz bolo, a vizinha traz o café, se juntam à tarde, tomam café. Tem a novena de quarta-feira da tarde. Aí, todo mundo vai pra igreja fazer essa novena. Vira chá, vira chá beneficente. Então, tem essas coisas ainda. De estar ajudando uma pessoa que está doente. Uma vai, uma ajuda a fazer uma coisa, leva uma coisa pronta. Então tem muito disso ainda.

 

P/2- Ainda em Vera Cruz?

 

R- Ainda em Vera Cruz. Apesar de ter mudado bastante a arquitetura da cidade, mas ainda preserva ainda essas tradições.

 

P/1- E daquela época...

 

R- E o pessoal mais jovem que trabalha, né?

 

P/1- ... que você era criança, era, assim, a mesma dinâmica? Isso que você lembra, também?

 

R- É, não mudou muito. Que nem assim, eu volto pra lá, parece que você volta no tempo, né? [risos]. Assim, os mais velhos, eles continuam com uma rotina bem tranqüila. Até quando a gente fica no celular, telefone, leva notebook, digita texto, meu pai fica incomodado [risos]. Que é aquela coisa, né, você vai pra você descansar um pouco, né? Eu viajava muito até o ano passado, pela Fundação. "Poxa vida, não dá pra ir uma vez por ano, né?" Porque viagem pra eles era assim: uma vez por ano, que ia visitar um parente. Ia fazer uma viagem. Às vezes, Aparecida do Norte. Coisas assim que pra eles tinham um significado. E muita, a cidade também era muita católica. Então tem muito isso ainda na cidade, coisas assim. Tem também a parte dos evangélicos que foram chegando, mas o pessoal ainda tem uma tradição. A igreja, a praça é o ponto de referência. O Banco Bradesco, eu brinco que todo mundo marca, é ponto de encontro da moçada ainda. De ficarem em frente, de... Igual posto de gasolina que o pessoal às vezes fica. Encontro. O pessoal acaba ficando nesses postos. Mas, voltando lá atrás, então eu vejo assim, não mudou muito essa dinâmica. E eu lembro que a casa, elas eram... Eu encontrei muita casa assim lá no Nordeste, que você já sai direto da janela já dava pra calçada da rua. Então, de vez em quando, minha mãe deixava a gente, porque brincava muito na rua de bets, de bicicleta, de sair na rua. Era uma rua imensa, sem carros, sem muito movimento, porque não tem movimento. Até hoje não tem muito movimento em Vera Cruz. As ruas eram de terra ainda, não tinha calçamento quase, na cidade. Só na avenida principal que tinha. Hoje, ela é totalmente asfaltada, mas não tinha isso. Então, a gente brincava muito. De bambolê,, de tudo. Próximo à minha casa já começava a parte rural, com sítios, com pequenos sítios na redondeza. Então, a gente andava muito, tinha muito verde. Hoje ainda tem bastante, mas tinha muita área verde. E essa casa também tinha porão. Então, esse porão, minha mãe desativou e era onde a gente brincava de casinha de boneca. Se escondia, às vezes, porque fazia arte [risos]. E junto com os meus sobrinhos. Eu sempre fui muito arteira, quando pequena. Então, hoje, eu olho pros meus filhos, eu falo: "    Não, eles são muito normais." [risos] Não posso nem reclamar, né?

 

P/2- Qual era a brincadeira preferida?

 

R- Era jogar bets na rua [risos]. 

P/2- Bets?

 

R- Não sei como vocês chamam porque cada região chama diferente, que é aquela do cabo da vassoura, que você corre pra lá, joga a bolinha, outro corre, outro volta. Era o taco, né?

 

P/2- Era o taco que a gente ________

 

R- Taco. Brincava muito disso. 

 

P/1- Era o que você mais gostava?

 

R- E as brincadeiras de boneca também. Eu tinha uma outra brincadeira que a gente fazia muito, que a gente aproveitava quando minha mãe saía. A gente fazia uma fogareiro no fundo do quintal. Olha o perigo que a gente corria. Um fogareiro e fazia comida. A criançada pegava, um trazia arroz, outro trazia. Eu aprendi a fazer comida aí. 

 

P/2- [risos] Brincar de verdade.

 

R- Brincar de verdade. E acabava... Os quintais eram muito grandes. Então tinha fruta, tinha horta, tinha muita coisa no quintal. Eu lembro de um gramado imenso, que tinha época que tinha aranha. Então a gente fazia, vivia, a minha mãe falava: "Não chega lá porque tem aranha." Mas a criançada não queria saber muito [risos]. E também nesse quintal, meu pai tinha construído um banco grande pra trabalhar. E eu já, aí que eu comecei a ser professora. Porque aí eu começava a... Ia pra escola, eu e os meus sobrinhos, porque minha casa sempre foi cheia de sobrinhos por causa do… Minha mãe cuidava dos netos, era tudo muito cheio de criança. Eu era sozinha, mas ao mesmo tempo vinha todo mundo, porque todo mundo morava na mesma cidade e muito perto. Porque quando veio do sítio, meu pai trouxe todos os filhos. Então ficou em casas separadas, não mais numa casa grande, com todo mundo perto; mas próximo. E eu dava aula pra criançada da rua  [risos]. Escolinha, lousa com carvão. Então na época não tinha muito giz, não tinha muito acesso a muitas coisas. Então era muito gostoso.

 

P/2- Você brincava de dar aula?

 

R- Brincava de dar aula. Eu brincava: “Eu escolhi a profissão e acabou ficando na escola até hoje.” [risos]

 

P/2- Bem resolvido, né?

 

R- E sempre gostei muito de criança e de trabalhar, mesmo, com área de educação.

 

P/1- E aí você foi crescendo, como que foi a adolescência? Ainda foi lá?

 

R- A adolescência eu continuei uma parte nessa casa. E aí, meu pai teve que vender essa casa pra ajudar a salvar o sítio da minha irmã - que também ocorreu uma geada muito forte e ela acabou perdendo o sítio. Meu pai acabou perdendo a casa. Aí, teve que construir uma outra. Então, foi toda uma história de construção. Aí, eu tive que ir trabalhar. Meu pai não queria que eu fosse trabalhar, mas, assim, não tanto por necessidade, mas porque eu queria fazer alguma coisa. Eu sempre fui meio inquieta, apesar de ser calma aparentemente, mas eu sempre gostei de estar mexendo em alguma coisa. Isso desde criança, minha mãe fala que eu nunca sosseguei. Eu era, não era de falar muito na infância, mas estava sempre mexendo em alguma coisa. Fuçando, fazendo arte. E aí, eu fui trabalhar numa empresa de biscoito. Ainda meu pai não queria. Pra colocar aquelas latinhas no biscoito, que é aqueles fitilhos. Não sei se... Hoje nem tem mais isso. É tudo a vácuo, né? Tem a maquininha que fecha. E eu fiquei quatro meses fazendo essa função.

 

P/2- Isso você era adolescente?

 

R- Eu era adolescente. Eu tinha 13 anos na época. E eu nem podia ser registrada porque só podia contratar menor com 14, mas a empresa acabava colocando a gente. Até porque um primo da minha cunhada, que era casada com o meu irmão na época, ele era o gerente dessa empresa. Então, ele levou a criançada pra fazer esse trabalho de colocar a latinha. E, tinha um... Acho que na época parece que era meio salário mínimo. E a gente fazia esse trabalho. Ficava lá por seis horas e voltava embora à tarde. Então, dava tempo de estudar, de fazer as tarefas. O único problema é que ele adentrava um pedacinho da noite também. E depois, quando eu fui, passei pro colegial, na época. Eu comecei a estudar à noite. Até porque aí a empresa me contratou pra trabalhar na de escriturária. Escriturária, atender telefone, e eu fiquei lá até ser contratada na prefeitura lá em Vera Cruz, como professora. E nessa época eu fui mudando. Quando eu, com 17 anos, tinha responsabilidade de cuidar do RH da empresa. Eram 240 funcionários. Então, eu peguei a época que estava surgindo os primeiros computadores, que eles começavam a fazer folha de pagamento no computador. Então, eles precisavam de alguém jovem pra entender porque todo mundo tinha medo [risos]. 

 

P/2- _______________

 

R- Eram aquelas máquinas enormes, como a gente  tem no museu aqui do Bradesco, enormes. Então, tinha o processamento da folha. Então não mexia nessas máquinas porque o moço falava que era muito perigoso. Tinha toda essa situação. Mas, era pra você não aprender muito. Então, ele fazia. Eu fazia toda a conferência, devolutiva desse material, preenchia todos os formulários. Porque tinha uns formulários pra preencher que transformava em dados, pra depois digitar esses dados.

 

P/2- Perfurar.

 

R- Perfurar. Então, era uma coisa gostosa. Eu peguei essa época aí. Que na época tinha uma empresa que fazia isso, que até acabou ficando famosa por um tempo, lá na região. Era a Data Control, que só eles faziam isso na região, em várias empresas. E aprendi a trabalhar, né? Aí, eu saía desse meu trabalho e com isso eu fui estudando. Fui fazendo magistério. Na época tinha o magistério em Vera Cruz. Então, eu ia de Marília, porque essa empresa é na rodovia, próximo a Marília. Então, a empresa tinha transporte, levava, buscava. E era um número muito grande de pessoal bem jovem, até porque o curso naquela época não tinha muito. O que você vê hoje, da legislação, do pessoal fazer cumprir as leis. Então, tem muito. Eu só tenho registro na minha carteira de trabalho a partir de 1986 e eu entrei em 1983. [risos]

 

P/2- Eles faziam isso, né?

 

R- Eles faziam isso. Mas, eu cresci muito, eu falo, através do trabalho mesmo, de você ter responsabilidade desde cedo. E eu vejo hoje, eu trabalho na escola e se você vê que uma criança que tem tudo, um adolescente que tem tudo, geralmente, eles não valorizam. Então, isso faz com que você cresça bastante.

 

P/1- Voltando um pouquinho.

 

R- Voltando, né, eu vou pulando [risos]. 

 

P/1- Quando você começou a estudar, você lembra?

 

R- Eu comecei a estudar com 6 anos. E eu lembro que eu comecei a estudar. Eu fui três dias na Educação Infantil, mas a vizinhança inteira desse rua que eu morava - que era  uma rua muito gostosa - era cheia de criança. Então eu nem senti muita falta do sítio por conta dessa rua ser cheia de criança, e as portas serem abertas mesmo. A criançada toda na rua solta. Hoje, os meus filhos não têm essa oportunidade de brincar como eu brinquei. E eu tinha as crianças da vizinhança, como eram um pouquinho mais velhas, elas acabaram se matriculando direto na primeira série. E eu só tinha 6 anos, eu não tinha idade pra entrar ainda na primeira série. Só que eu fiquei dois dias, eu chorei muito. Eu queria ficar com os outros, aí me colocaram pra ficar com os outros colegas até - que eu acho que era pra amenizar, aí, o choro. E eu lembro até hoje da professora me levando e me deixando, que eu acho que não me agüentava mais, né? [risos] Me levou a hora que a Ana falou, a Ana falou do aluno que chorava e fiquei. E aí, eu ia conseguindo. A professora deu atividade e eu fiquei lá por uns dias. Quando a professora foi me buscar, eu já estava mais esperta do que as outras crianças. Conseguindo fazer as atividades numa boa. Eu consegui me alfabetizar no primeiro semestre, na época. E quando chegou no final do ano, eu lembro que tinha aquele negócio de primeiro lugar. Eu tirei o primeiro lugar. Eu tenho a foto com a professora desse, que está lá na minha mãe isso, esse registro. Eu lembro até hoje que eu ganhei um pacotão de bala de coco da professora. Na época não tinha dentista pra falar do...

 

P/1- Do veneno.

 

R- ...do veneno, né? Ganhei. E eu lembro que eu ganhei uma meia, daquelas meias que usava até aqui, com bolinha. Não sei se vocês tiveram dessa meia.

 

P/1- Sucesso. Com certeza.

 

R- Eu lembro até hoje dessa cena. E na época tinha o inspetor que fazia a leitura. Então se você tivesse lendo direitinho, na época, era tipo uma admissão pra você poder ir pra segunda série. Eu lembro que eu fiz a leitura direitinho, passei no primeiro ano, fui pra segunda série. E alguns amigos meus ficaram, [risos] que tinha retenção na primeira. E eu lembro até hoje da professora da Educação Infantil falando: "Ainda bem que eu não te busquei, né?" Eu lembro dessa fala até hoje. Na época era infância ou era Jardim de Infância.

 

P/2- Jardim de Infância, é. 

 

R- Não era que nem hoje que a gente fala Educação Infantil. Então, mas era uma época muito gostosa. 

 

P/2- E o dia a dia, como que era na escola? Como era o dia a dia?

 

R- Uma escola tranqüila, eu sempre gostei muito de estudar. Eu sempre tive, assim, boas notas. Eu sempre procurava cumprir os meus deveres. Eu estava sempre com o caderno na mão, sempre dando aula pros outros [risos]. Em casa, o carvão. Então, sempre gostei muito de chegar em casa, já tirar o uniforme. Eu lembro até hoje daquelas sainhas plissadas, eu tenho minha sainha até hoje [risos]. Eu esqueci de falar pra Ana que eu tenho a sainha. Que na sainhas toda plissada, branquinha. Não sei se isso vocês lembram, dessa época, de uniforme.

 

P/1- Sim.

 

R- Camisa era com símbolo. No bolso da camisa tinha, e era tudo fechado. Parecia coisa de freira. Tinha época dos desfiles que eu gostava muito. Sete de setembro, né? Porque a gente desfilava na avenida. Então, era essa avenida - única avenida asfaltada que tinha na cidade. Então, era onde a gente, a cidade inteira, estava ali pra ver esse momento. Então, 7 de setembro marcou muito. 

 

P/2- Comemorações?

 

R- Comemorações. Tinha muita comemoração nesse sentido. Festa junina. Então, tudo virava festa na escola. E Vera Cruz, até hoje, só tem as três escolas. Essa escola que eu estudei até uma certa idade. Depois eu mudei de casa, aí eu fui pra uma outra escola. Porque obrigatoriamente, baixaram uma determinação na Delegacia de Ensino - eles falavam Delegacia de Ensino na época - que quem morasse pra baixo da linha… A linha também era uma referência, então isso é um marco histórico, porque as pessoas iam ver o trem na estação na hora de passar. Isso não existe mais hoje, né? Mas, as pessoas iam se distrair. Era distração. O trem passava às 5 da tarde, a cidade estava lá reunida para ver o trem passar. Era um momento de lazer. Era o momento das paqueras, né? Eu era criança nessa época, mas eu via que as moças circulavam as praças. Até hoje o pessoal fica muito na praça de cidade pequena. Mas, sendo cidade pequena era o point do pessoal. Eu lembro muito disso, porque a minha mãe levava na igreja. Às vezes ela ficava tomando a fresca nos bancos da praça, sentada. E era onde o pessoal se encontrava na cidade. Não tinha muito lazer, né? Tinha e não tinha. Porque hoje a gente tem uns lazer também que é... [risos]

 

P/2- Vera Cruz tinha uma estação de trem, é isso?

 

R- Tinha uma estação. Tem até hoje, ela é preservada. A prefeitura procura preservar, mas ela está desativada. O trem não passa mais por lá.

 

P/2- Certo.

 

R- Aliás, ela não vai mais pro interior, desde... Acho que dos anos 90, que não tem nem trem de carga mais. Porque ele vai cortando cidades. Então, começaram a ocorrer muitos acidentes. Acidente com descarrilhamento de trem, porque não se preservou depois que acabou a Fepasa. Bauru tem uma história belíssima, que é bem próximo a Marília. Toda a história da Fepasa, do trem. Então, lá ainda tem outras linhas de trem que seguem pra outras regiões aí; tem linha que corta até o estado todo. Mas...

 

P/1- Tem... Continua.

 

R- Então, essa do trem, até eu ia muito na estação ver. Então, às vezes a gente estava brincando, do jeito que estava brincando, já corria. Minha mãe não. Às vezes ela queria que tomasse banho pra ir na estação porque era...

 

P/2- Um passeio.

 

R- ...um ponto de encontro, né? E o meu lazer era, assim... De final de semana era a igreja, de estar indo na igreja. Hoje eu não sou muito católica, vou bem pouco. Mas, assim, tive toda uma formação religiosa. Então, todo final de semana a gente ia à missa; então era o ponto de encontro. Continua sendo o ponto de encontro da minha mãe. Na mesma igreja. Então, eu via a igreja sendo uma construção muito antiga. Dela sendo construída aos poucos, porque como ela era muito grande. Hoje ela não está terminada ainda. Isso a minha mãe casou, nessa igreja, já sem terminar a construção. Isso...

 

P/1- Você também casou lá?

 

R- Não. Eu acabei casando em Marília. Acabei casando em Marília.

 

P/1- E voltando um pouquinho pra escola. Tem algum professor, assim, que te marcou na escola?

 

R- Olha...

 

P/1- Fora aquela da primeira lá, da pré-escola.

 

R- [risos] São vários os professores. Assim, eu acho que os professores, a gente era um grupo. Até hoje a gente se encontra, quando eu vou pra Marília. Eu tenho, eu acabo tendo o meu grupo. De vez em quando, me ligam. Às vezes a gente marca um lugar, porque não dá pra ir de casa em casa. Que nem agora, eu fui pra um churrasco, nas férias agora, que eu estive lá em janeiro. A gente sempre marca um ponto de encontro pra se encontrar.E pra falar, mesmo, dos filhos, pra ver como é que está,. A gente fala muito pouco de escola, de trabalho, porque geralmente são momentos de férias. O que mudou; o filho do fulano que já está casando; o neto que nasceu; o filho que está nascendo. Mas, eu tive, assim, bons professores, né? Eu tinha, no meu lugar ficou uma professora. Eu tenho, também, duas indicações que eu acabei fazendo. Tem as três orientadoras da escola trabalharam comigo, que estão lá hoje: a Zélia, que era professora de segunda série; a Elisabete, que eu acabei escolhendo através aqui do Centro Educacional e da avaliação da escola. De poder ter contribuído um pouquinho pra formação dessas pessoas pra continuar o trabalho. Muitos dos projetos que eu deixei na escola de Marília, eles têm continuidade até hoje, porque os professores estão lá. Mas, assim, eu tive professores. Deixa eu lembrar aqui...

 

P/1- Voltando pra tua infância, assim.

 

R- Professor meu que você acha, né?

 

P/1- É, é.

 

R- Ah, a Dona Cidinha, eu acho que é. A Dona Cidinha foi minha primeira professora de primeira série. E depois eu tive aula de inglês - sem saber - com a filha dela, no magistério. De poder ser aluna da mãe e depois ser aluna da filha. Da gente trocar. Até conheci ela nessa etapa já da vida dela - que ela já estava bem velhinha, bem idosa mesmo - através da filha dela, da Maria Aparecida, que me deu aula de inglês. Mas, a professora Claudete essa que me levou mesmo pro campo da Educação. Minha professora de Geografia da sexta série. Então, ela era fantástica, uma referência de professora. Na época, o pessoal usava sempre livro, né? Um livro só. A Claudete, ela vinha com a mesa cheia de material, de livro. Ela incentivava a leitura. Era uma professora que apesar de estar na área da Geografia, ela possibilitava você conhecer outras coisas. Não só da disciplina que ela atuava, né, mas... Porque às vezes você entrava na sala de aula de um professor, ele estava no ano. Você tinha amigos, às vezes, em série anterior. Ele estava usando o mesmo material, a mesma aula. Não, a Claudete, ela sempre inovava. E eu sempre gostei de inovar, de trazer coisas novas, de conhecer, de não parar no tempo, de conhecer uma coisa, de fazer curso. Então a gente... E a Fundação, ela possibilita muito isso pra você: de você estar sempre em contato com o que está saindo, lendo muito, conhecendo muita coisa.

 

P/1- Então, você contou dessa primeira escola, depois você falou, você continuou...

 

R- Ah, daí eu falei da linha do trem, né? Porque mudou, então quem morava pra baixo da linha ia nessa escola, que é essa primeira escola. Como eu tinha mudado, era pra cima da linha... [risos] 

 

P/1- Aí, você teve que mudar.

 

R- Eu tive que mudar de escola. Mas, na realidade, nem eu nem a minha família, a gente não queria trocar de escola. Você estabelece os vínculos, né? E aí, a gente acabou mudando, porque tinha que mudar. E acabei me adaptando também com essa escola. E nessa escola, também, fui professora. 

 

P/1- [risos]

 

R- Então, tem muito a ver com essa  escola aí, também, que acabei fazendo de quinta série em diante. Na outra, eu fui até a quarta. E acabei estudando, se não me engano, até metade do ano. Só pra ter uma idéia, a mudança foi no meio do ano. Metade da quinta eu fiz numa escola, e metade na outra - que eu fui pra essa outra escola, porque eu mudei de casa. Baixaram essa determinação e acabei indo. E nessa escola, assim, eu também fiz novos amigos. Então, não tinha muita gente que eu conhecia porque só eu tinha mudado de casa. Então tive outros vínculos, outras ____ de ter estudado. Mas, foi muito bom. E foi aí, também, que eu conheci a Claudete, na sexta série. Ela me deu aula até na oitava série. E de vez em quando, porque ela é de Marília… Ela está bem idosa, também. Eu já encontrei com ela várias vezes. Em supermercado, às vezes em outros ambientes encontrar a Claudete. E é engraçado que ela lembra das histórias até hoje: de aula, lembra dos alunos, de chamar pelo nome. Isso é bem interessante.

 

P/1- É professora?

 

R- Professora. 

 

P/1- E é a professora que marcou? _____________

 

R- É uma professora que marcou. Essa foi a que mais marcou. 

 

P/1- É?

 

R- Acho que é a que mais...

 

P/1- É a professora da quinta...

 

R- Era de quinta série em diante. Mas ela me deu aula só a partir da sexta série. Era professora de Geografia.

 

P/2- E qual a lembrança mais forte da escola que você tem ainda?

 

R- Da escola? 

 

P/2- Algum caso especial?

 

R- De como estudante?

 

P/2- É. Da escola, do seu período escolar, alguma coisa especial, alguma lembrança mais forte que tenha ficado.

 

R- Ah, a lembrança mais forte vocês vão rir. [risos] A gente tinha o magistério, então, a gente tinha um diretor que deixava os portões da escola - ele era bem moderno, muito parecido com a Claudete - abertos e a gente se acostumou. Ninguém saía.

 

P/1- [risos] Ninguém?

 

R- Não, tinha uma praça do lado da escola, ninguém saía. Assim, ele deixava a gente livre pra ir pra praça. Até porque hoje você não pode fazer um negócio desse. Com droga, com tanta coisa que tem por aí, deixar um aluno ficar solto numa praça, né? Aí, o máximo que a gente ia era dar uma olhada, comprar uma pipoca do lado da escola, e já voltava. Aí, entrou uma diretora nova. O que que ela fez? Trancou todos os portões e portas. [risos]

 

P/1- Aí todo mundo queria sair.

 

R- Nós pulamos o muro [risos]. Pulamos o muro, né? A gente colocou aqueles latões grandes, que tem esses latões que o pessoal usa com petróleo, essas coisas que vem. Enorme, aqueles. Então, o latão de lixo era isso na época. O que a gente fez? Encostou um perto do muro. Tinha caco de vidro, pra você ter uma ideia, que ela mandou pôr no muro. Mesmo assim a gente pulou. Pôs um. Tinha outro tambor do outro lado. Então arrastou esse, e passou do outro lado. E eu lembro até hoje que a Mirian caiu e quebrou o braço. E pra gente pular a Mirian com dor de volta. Aí, a diretora ficou sabendo, chamou todo mundo. Chamou os pais, fez um estardalhaço. Então isso me marcou muito. Porque, assim, eu nunca tinha ido pra diretoria.

 

P/1- Foi primeira e única?

 

R- Foi primeira e única vez que eu fui pra diretoria.

 

P/2- Pra nunca mais.

 

R- Pra nunca mais. E, assim, a minha mãe ficou muito brava. Acho que eu levei até umas varadas, se não me engano. Porque, assim, onde já se viu  a amiga quebrou o braço fazendo essa peripécia. Então, se não tivesse acontecido nenhum acidente, a gente tinha ido e voltado numa boa.  Então, a gente nunca teve nem a segunda chance de pular. E eu sei que depois foi remanejado, esse diretor acabou voltando pra escola. Porque tinha aqueles remanejamentos também. Porque essa diretora tinha vindo de uma outra cidade longe, então ela ficava no hotel da cidade. E esse também tinha ido pra longe. Eles conseguiram fazer umas trocas e ele acabou voltando dois anos depois. Aí, o portão maravilha, já ninguém saía. 

 

P/1- E isso, você estava fazendo o curso, qual curso?

 

R- Isso, eu estava na sétima série.

 

P/1- Na sétima série.

 

R- Estava na sétima série. Então, essa é uma lembrança que eu tenho até hoje. Porque eu passo lá em volta da escola, eu olho, porque tem tambor até hoje lá fora. Então, eu falei que Vera Cruz não muda muitas coisas, né? Então, hoje, geralmente, eles colocam folha, porque tem muita árvore em volta da escola. Está sempre cheio de folha. Eu falo: "Olha o tambor aí." Não sei se é o mesmo.

 

P/2- Bastava ter deixado o portão aberto.

 

R- Bastava ter deixado o portão aberto.

 

P/1- Depois que você...

 

R- Mas como estava trancado, todo mundo queria sair, né? Então, são umas histórias assim.

 

P/1- Depois que você terminou essa parte, esse primeiro grau, e aí? Você foi fazer o quê?

 

R- Aí fui fazer... Eu fiz um ano de…  Tinha o primeiro colegial normal e a gente podia fazer opção: ou técnico em contabilidade, ou magistério. Então, eu optei por fazer magistério, até porque eu sempre gostei dessa área. E paralelo a isso, eu trabalhava nessa empresa aí, na Xereta. Então, sempre trabalhei e estudei. E uma das coisas que meu pai brigava muito comigo porque, assim, eu saía cinco horas da manhã de casa pra voltar. A aula terminava dez e meia da noite, então ia dormir muito tarde e acordava 4 e meia da manhã. E a gente tinha que levar refeição pronta. Eu lembro até hoje que minha mãe levantava pra fazer minha marmitinha pra poder ir, porque não vinha pra casa pra almoçar. Só vinha pra casa à tarde, que era às três horas da tarde que a gente voltava pra casa e ficava. E depois, tinha dia que eu nem ia pra casa, quando eu fazia magistério, porque eu já fazia o meu estágio. Já descia do ônibus da empresa - que era na frente da escola -  já entrava na escola e só ia pra casa depois das cinco, quando terminava o expediente da escola. E voltava às ste pra fazer a aula. Então foi bem, foi bastante, assim...

 

P/1- Puxado.

 

R- Puxado. Puxado, né? Quando eu entrei na faculdade também. Eu trabalhava nessa mesma empresa,. Eu passei em Pedagogia, na Unesp. Também passei em terceiro lugar, sem cursinho, só com essa escola. Então, por mais trabalho que eu tivesse - de trabalhar e ter que dar conta de uma série de coisas -, sempre meus finais de semana eram dedicados à leitura, estudo, estar sempre atenta às coisas da escola mesmo. De querer crescer, de querer melhorar, né? 

 

P/1- Matéria que você mais gostava.

 

R- Olha, eu gostava muito da Geografia por conta da Claudete. Todo mundo, ninguém gostava da Geografia [risos], mas acho que era a Claudete, né? E depois, no Magistério, eu gostava muito da parte de Metodologia, sempre me identifiquei muito com isso. E eu sempre fui meia avessa pra metodologia porque, assim, enquanto todo mundo estava querendo trabalhar no tradicional, eu queria fazer alguma coisa diferente. Então, na faculdade, eu encontrei, eu falei que eu encontrei o meu porto seguro. Porque eu conheci uma professora, que essa também me marcou muito, que ela era bem jovem, a professora Roseli,. Ela era de São Carlos. Ela trabalha na Escola da Oca, não sei se vocês já ouviram falar dessa escola.

 

P/1- Hum hum.

 

R- Ela que foi, ela que iniciou a Escola da Oca na época. E ela virou professora universitária, que ela não está mais na Oca. Depois que ela foi trabalhar na universidade, passou na Unesp, ela teve que se desvincular. E eu comecei a me envolver muito com Freinet. Trabalhar com essa metodologia, trabalhar com essa, não seria bem uma metodologia; mas trazer as coisas que Freinet colocou pra sala de aula. Então, tem muito disso ainda no meu trabalho. A aula passeio, de não trabalhar só dentro da sala de aula, mostrar pra criança, pro adulto, seja quem for o aluno, que está ali sob sua responsabilidade. Mostrar outras coisas, mostrar a realidade pra ele, trazer essa realidade pra sala de aula, pra discutir, pra debater, pra tirar conclusões, pra melhorar mesmo. Porque você trabalha pra ajudar as pessoas a resolver os problemas na vida, né? A melhorar, se ter uma outra visão de mundo, uma visão das coisas diferenciada. Então, eu falei que esse meu trabalho de metodologia começou aí também. E no Magistério também, eu sempre que... de vez em quando eu levava a maior bronca dos meus professores porque eu trazia uma coisa diferente. Mandava montar uma aula, eu criava uma coisa diferente. Então, muitas vezes tinha que usar o livro didático, eu não queria usar aquele livro, eu queria usar outro material. Às vezes, eu ficava até com nota baixa por conta disso [risos]. 

 

P/2- Você queria usar o que você queria.

 

R- Eu queria usar assim: trazer um texto, trabalhar aquele texto. Então, eu não tinha muito conhecimento dos teóricos, porque eu fui ter isso só na faculdade. Os meus professores de magistério não possibilitaram muito isso, porque eram professores bem tradicionais, que estavam ali há anos e que tinham aquela metodologia. Mas, serviu muito porque se não tivesse esse conhecimento do tradicional, de como é que funcionava, eu jamais ia querer mudar, né? Me incomodava muito aquela postura, às vezes, de não poder inovar muito. Então, de vez em quando, a gente fazia a programação, fazia o plano de aula pra professora e ia substituir, ou ia dar uma aula. Fazia diferente [risos]. Só quando ela ia assistir à aula, que era coordenadora, que a gente mudava um pouco. A gente tinha muito estágio, a mudança. E isso, também, a gente tinha um grupinho que gostava de trabalhar assim.

 

P/1- Que eram cúmplices.

 

R- Que eram cúmplices. E é o grupo que trabalhou comigo na prefeitura.

 

P/1- De atividade, né, vocês tinham.

 

R- E a gente não podia criar muito, então isso me incomodava. Incomodava bastante.

 

P/1- Vocês arrumavam um jeito de criar.

 

R- Não. E você não sabe da história... Eu fiz faculdade, me formei. Aí a diretora da escola... Porque nisso eu já trabalhava com a Inês junto com a faculdade. Eu já comecei, antes de terminar o segundo ano de pedagogia, eu fui dar aula na prefeitura. Então, a minha diretora, ela me indicou como coordenadora do magistério, quando eu me formei. Aí, você imagina onde eu fui trabalhar. Com os professores que tinham me formado no magistério.

 

P/1- Ah.

 

R- [risos] Então, eu fui trabalhar com esses professores que eram, assim, bem difíceis. E aí, eles, eu tinha que inovar. Então eu fiz muito curso aqui na Cenpe, na F.D.E.. Eu fui, do Estado de São Paulo, eu fui a coordenadora mais jovem. E os professores, eu só consegui mudar a visão dos meus professores - que tinham sido meus professores na época - nessa parte de quando eu tentava mudar a parte de metodologia. De fazer muito junto, de trabalhar junto com eles e mostrar pra eles que era possível mudar. Tirar aqueles livros antigos que tinha na sala de aula. Então muito disso eu consegui fazer. Fazendo treinamento, né? Muitos foram se aposentando, porque eu fiquei três anos nessa tarefa. Eu acho que foi uma tarefa muito árdua, pesada, porque eu era muito jovem na época. Tinha só 22 anos. 

 

P/1- E a faculdade? Era em Vera Cruz?

 

R- A faculdade de Marília.

 

P/1- Marília.

 

R- Marília. 

 

P/1- Você ia e voltava.

 

R- Ia e voltava todo dia. E no começo dessa faculdade, eu não conseguia voltar pra casa, porque eu trabalhava nessa empresa aí, de biscoito, do biscoito Xereta. Eu tomava o ônibus na porta da empresa. A polícia rodoviária tinha o postinho na frente da saída da empresa, então eu ficava ali com os policiais na pista. Porque passava, todo mundo buzinava, era uma coisa de louco. E sempre eu ficava. Fiz amizade com o pessoal e ficava ali aguardando o meu ônibus que vinha de Vera Cruz com o pessoal que fazia faculdade em Marília. O ônibus, eu tomava o ônibus ali, ia pra faculdade, e voltava. Só no último ano que eu consegui comprar Fusca 67.

 

P/1 e P/2- [risos]

 

P/2- Aí, já melhorou um pouquinho.

 

R- Aí, já melhorou um pouquinho mais, né? Mas, eu já não estava mais na empresa. Eu já estava dando aula lá em Vera Cruz, então facilitou bastante. E eu falo que foi o carro que menos me deu problema porque nunca foi pra oficina, apesar de velhinho. Andava econômico. E eu dou risada até hoje, porque ele está em Vera Cruz até hoje. De vez em quando eu falo: "Ó gente, tem que tirar foto lá com o meu primeiro carro." [risos]

 

P/1- Você tem ele lá?

 

R- Eu? Não é mais meu, mas ele está lá. Ele existe.

 

P/1- Não é seu. Alguém comprou. 

 

R- De vez em quando eu estou andando lá na cidade, de férias, eu falo: "Ó, meu primeiro carro." Meu marido fala: "Ó, está vendo como você evoluiu?"

 

P/1- E a formatura, você lembra?

 

R- Estou brincando. Formatura de magistério? Tem aquela foto, né? A gente teve bons professores, que incentivaram a gente, também, a estar crescendo. Apesar de muito tradicionais, a gente tinha também a professora Maria José e a professora Doralice, até que elas estão nas fotos. Elas, essas eram professoras mais modernas, que aceitavam um pouco da criatividade. Não aceitava tudo, mas parte disso também estavam estudando, estavam tentando se inovar. Tinham saído de faculdades mais recentes. As outras não, tinham feito o Normal e a faculdade nem chamava Pedagogia na época que elas fizeram pra dar o curso. Não era nem Pedagogia, eu não lembro nem que nome que era na época que elas fizeram curso superior, mas era diferente, né? Então, você é muito fruto da sua formação. E, na Unesp, eu encontrei tudo que eu precisava pra crescer nessa parte de modernização mesmo, de metodologia, de estar buscando, de estar fazendo outros cursos.

 

P/1- Você estava na Unesp, então, e estava trabalhando.

 

R- Trabalhando na prefeitura de Vera Cruz.

 

P/1- Já como professora.

 

R- Como professora.

 

P/1- E o que você acha, assim, que te levou a ser professora, a escolher essa...

 

R- Eu sempre quis. Apesar de estar trabalhando no RH da empresa, eu estudava pra ser professora. Eu queria ser professora. Isso desde a oitava série. Quando eu fiz a escolha do primeiro colegial - que a gente tinha que fazer escolha - isso ficou claro pra mim, que eu queria ser professora. Eu não queria fazer contabilidade. E eu poderia estar escolhendo a área da contabilidade porque eu estava na...

 

P/1- Na área.

 

R- Na área. E até eu tinha muito pra crescer dentro da empresa, também. Porque eu fui crescendo. Eles iam me dando tarefas, às vezes tarefas mais complexas, apesar da pouca idade. Eu falei que eu mexia na folha de pagamento sozinha, né? E tinha umas responsabilidades. Então, o pessoal sempre me deu, eu sempre tive vontade de aprender. De conhecer, de não estar sempre parada, de estar ali tentando mexer, fuçar. Querer aprender, né? Quando saiu os primeiros micros, eu desconfigurei tudo, porque [risos] tirei todos os programas, teve que reinstalar tudo.

 

P/1- Tentativa.

 

R- Tentativa, né, de aprender mesmo.

 

P/1- Bem essas tentativas de erro e acerto.

 

R- De erro e acerto. Você tem que aprender. Mas, voltando lá, você queria saber da formatura, né?

 

P/1- É, se você lembrava da formatura, como foi.

 

R- Então foi nesse colégio aí, que eu pulei o muro. [risos] Ele tinha um auditório bem simples, mas um auditório que foi uma cerimônia muito simples. Foi a entrega do certificado e eu lembro que a gente fez uma viagem  pra Ubatuba, os alunos. Foram algumas mães, quase enlouqueceram, porque muitos nunca tinham ido na praia. 

 

P/2- [risos]

 

P/1- Muita gente?

 

R- Foram 20 meninas. Você imagina 20 meninas pra uma mãe tomar conta. A gente quase enlouqueceu ela, né? E a gente chegou na praia, tudo novidade. Chega do interior todo mundo passeando, cada um queria ir pra um lado. Eu sei que a gente deu o maior trabalho pra mãe, mas chegamos todos inteiros.

 

P/1- Você tem contato com esse pessoal que______ escola?

 

R- Tenho contato porque é todo mundo de Vera Cruz. Então, todo mundo...

 

P/1- A maioria não está lá?

 

R- Estão.

 

P/1- Estão?

 

R- E assim, o engraçado, que acabaram se casando. Eu tenho amigas que dão aula nessas escolas, mas permanecem na área de Educação Infantil, no primeiro emprego. Estão quase se aposentando e estão lá. Não cresceram muito. Viveram pros filhos e pro marido. Eu sou a única da turma que saiu. Umas não casaram. Umas cuidam de sobrinhos. Tem, assim, umas histórias. Mas, eu tenho contato com todo mundo, porque como a cidade tem duas ruas. Eu brinco: você chega e se você vai no mercadinho, você acaba encontrando; se você ficar ali 5 minutos, você vai vendo um monte de gente que você conhece. E muitas vezes, quando o pessoal sabe que eu estou na minha mãe, o pessoal já vai.  Por as casas geralmente ficarem abertas pra você tomar café, é diferente daqui. Numa cidade maior, as pessoas de Marília já não têm muito esse vínculo de as portas ficarem abertas. Ainda o pessoal vem toma café, passa na padaria já traz pão. Já pede pra dona da casa fazer um café e se reúne. É muito gostoso isso, de contar história, de pôr cadeira na calçada e ficar todo mundo. Vão trazendo cadeira, a hora que você vê tem uma festa.

 

P/1- Quantos habitantes tem Vera Cruz?

 

R- Vera Cruz está com 8 mil habitantes.

 

P/1- É pequena mesmo.

 

R- Bem pequena. 

 

P/1- Você já contou pra nós que você começou a trabalhar muito cedo, não é isso?

 

R- Isso.

 

P/1- E, com 13 anos. 

 

R- Com 13 anos.

 

P/1- Então. E você lembra do teu primeiro dia que você começou a trabalhar?

 

R- Olha, o primeiro dia, eu cortei todos os dedos [risos]. Nessas latinhas. Porque, eu via o pessoal colocar essas latinhas no pacote de biscoito com uma facilidade, enrolava e já rapidinho, né? Eu não, ia colocar, cortava o dedo. Eu sei que eu fiquei com os dedos tudo cortado, retalhado. Sei que no segundo dia eu vim com os dedos... Eu lembro até hoje, eu no ônibus, com esparadrapo em todos os dedos [risos]. E aí, eu falava: "Não, eu tenho que ficar. Eu preciso ficar, né?" E minha sobrinha estava junto, os meus amigos estavam junto. Então, todo mundo com os dedinhos cortado [risos].

 

P/2- Ah, não era só você? 

 

R- Não, o pessoal novo que ia entrando acontecia isso. Então, eu falava: "Não é só comigo. Eu tenho que me adaptar, né?" E aí, a gente ia aprendendo. A gente tinha uma chefe muito brava. Era Maria Luiza [risos], a chefe. Eu lembro até hoje, a gente da Lia, e ela ficava brava. Ela queria que enrolasse rapidinho. Aí, com umas duas semanas, a gente pegou prática de fazer esse trabalho. Eu lembro que na minha época, parece que entrou junto comigo uns seis amigos, e amigo de contato mesmo, de ir pra escola junto, de ter um contato pela cidade ser pequena. E a gente acabou ficando. Tem gente nessa empresa até hoje que entrou comigo, que também está lá. Não tem mais a latinha pra colocar.

 

P/1- É uma fábrica de biscoitos?

 

R- É uma fabrica. É aquela fábrica que fazia o matinal da Angélica. Não sei se vocês viram outdoor, que era biscoito Xereta, que teve aí...

 

P/1- E está lá até hoje?

 

R- Está lá até hoje. Ela já faliu várias vezes, mas aí acaba alguém comprando, volta. E é uma fábrica, também, que nasceu muito com Marília. Então tem pessoal, sempre os donos antigos, os filhos dos primeiros donos. Sempre que a empresa está caindo, eles vão lá, compram, fica uma temporada, sai, passa pra outra pessoa. Aí, quando cai de dono, eles vão lá e compram, porque acho que eles querem que desapareça essa memória da fábrica.

 

P/1- Da fábrica.

 

R- E ela é muito rústica. Ela tem muito a ver com o início, mesmo, da fábrica. Tem maquinário lá que é do início da fábrica, né?

 

P/1- E é preservado?

 

R- Preservado.

 

P/1- Funcionando?

 

R- Funcionando. Tem coisa que funciona. De vez em quando, eu até vou. Eu gosto muito de voltar lá, pra ver, pra conhecer. Tem os amigos, tem as pessoas que estão lá ainda. Porque é caminho pra ir pra Marília, de Vera Cruz pra Marília, é no meio da estrada. Então, você já para... [risos]

 

P/1- Toma um cafezinho.

 

R- Toma um cafezinho, conversa, mata a saudade.

 

P/2- _________

 

P/1- Então, aí quando você saiu de lá foi quando você foi dar aula. 

 

R- Fui dar aula. Aí fui dar aula numa creche, que a prefeitura tinha um convênio. Então, eu trabalhava pro Estado e Prefeitura ao mesmo tempo. Porque eu trabalhava com o programa Profic. Não sei se vocês lembram dessa época que o governo do Estado de São Paulo fez o Profic, que era pra trabalhar com crianças que saíam da escola no período normal e não tinham condições, não tinham pessoas pra tomarem conta. E, geralmente, as mães lá de Vera Cruz têm muito trabalho rural. Elas vão pra roça trabalhar, ou são domésticas, ou lavam roupa pra fora. Então, tem muito serviço, assim, bem... Tarefas que não dá pra você ficar com uma criança, tomando conta de criança. E aí, esse Profic atendia crianças numa creche. Então, eu tinha 45 crianças na minha primeira turma, de 3 a 6 anos. Eu quase enlouqueci.

 

P/1- Ficava o dia todo na escola?

 

R- Era a manhã inteira. Ficava o dia inteiro.

 

P/1- Manhã inteira.

 

R- De manhã na creche.

 

P/1- _______ o horário que não estava na escola.

 

R- Isso. A creche mandava as crianças pra escola regular num período. E eu trabalhava no período da manhã. Então trabalhava com as crianças que iam pra escola à tarde. Então, nesse momento, eu fazia atividade de leitura, atividade lúdica, atividade com as criança de recorte, colagem. Aí, eu podia usar minha criatividade, porque com tanta criança.

 

P/1- À vontade.

 

R- À vontade. Tinha criança que a gente tinha colchonete pra pôr pra dormir, porque a criança dormia no meio da aula. E eu nunca tive irmãozinho pequeno. Tive sobrinhos que cresceram junto comigo, mas nunca tão pequenos, de ter que cuidar de criancinha tão pequena. E eu me apaixonei por esse trabalho.

 

P/1- Você gostava?

 

R- Gostava muito. Tinha criança com pais com problema de alcoolismo. Então, isso me ajudou muito depois pra trabalhar com a criança lá na Fundação, quando eu entrei em Marília, também. Porque eu já tinha esse histórico de conhecer criança carente, saber da realidade deles, saber da vida sofrida. Pra você ter uma idéia, eu tive uma aluninha que o pai matou a mãe na frente da criança, porque suspeitava de traição, mas não tinha nada a ver. De ciúmes, ele matou a mãe, que era super jovem, na frente da criança. Então, essa criança ficou totalmente traumatizada, que é a Tamires. Hoje ela está uma moçona. Então, é uma criança que me marcou muito também. Porque eu cheguei a levar a Tamires muitas vezes pra casa porque o pai foi preso. A avó era idosa, não conseguia tomar conta. Até veio uma tia do Ceará pra poder ficar, morar lá na cidade, pra cuidar da Tamires. E está até hoje lá, cuidando. A Tamires, hoje, tem filho já, está casada, mas mora no quintal com a tia. Mas, não foi fácil. Então, você acompanha toda a história. E minha sobrinha tem nome de Tamires por conta da Tamires, porque pediram pra eu colocar o nome. Eu coloquei [risos]. 

 

P/1- Olha só.

 

R- Tem toda uma história, mas foi  muito difícil pra essa criança. Eu lembro, eu até me emociono, dessa criança. De ver essa cena, de a escola ter acudir. Eu lembro que nessa noite ela dormiu em casa. Não tinha com quem ficasse com essa criança. Porque a avó não tinha condições e também não batia muito bem, por conta da idade avançada.

 

P/1- E você fazia acompanhamento dessas crianças?

 

R- Fazia acompanhamento. Quantas vezes a gente fazia o dia do piolho, pra você ter uma idéia. A gente via, tinha cabelo comprido, preso, de ter que trabalhar com as mães. E também, nessa creche, eu montei o primeiro clube de mães, com elas pra ensinar, às vezes, cuidado de higiene. As crianças vinham sem tomar banho. A gente mandava bonitinho na sexta feira, quando chegava na segunda-feira, com a mesma roupa, sem tomar banho. Então, as crianças ficavam largadas, às vezes. E a gente começou com costura, porque eu também gosto de costurar. De ensinar as mães fazerem roupas de retalho. E aí, a gente se juntou com o Fundo de Solidariedade do município que tem essas senhoras que gostam de fazer tudo, que é o grupo da minha mãe também. De juntar e de ensinar alguma coisa pra essas mulheres. E trabalhar com a questão de sexualidade também.  Eu fiz um trabalho, também, eu fiz um monte de coisa. Eu estou contando pra vocês, eu vou lembrando.

 

P/1- Você fazia isso de um jeito informal ou fazia parte das suas funções lá na escola?

 

R- Não. Eu quis fazer. Na época, a gente não falava de voluntário, né? Eu lembro que a diretora da creche ficou muito brava: "Mas, Marlene, você não pode ficar aqui fora do seu período, vir à noite." Eu sei que eu consegui até com que ela abrisse a creche à noite, porque as mães só tinham tempo à noite.

 

P/1- Pra você fazer esse trabalho.

 

R- Pra fazer trabalho. E, geralmente, eu fazia esse trabalho uma vez na semana, quando eu podia faltar na aula da faculdade. A gente ia um encontro por semana, nas férias, que a gente intensificava. E, depois, a gente conseguiu abrir aos sábados pra não faltar mais na faculdade.

 

P/1- E essa creche...

 

R- E pra você ter uma ideia meu professor, ele se interessou tanto por esse trabalho - o professor Pascoal - que quando eu não ia na aula, ele não punha presença, porque ele sabia que eu estava cuidando desse... [risos]

 

P/1- Essa creche era em Vera Cruz ou era em....

 

R- Vera Cruz, Vera Cruz. E a gente... Eu fiquei 3 anos nessa creche. A gente começou a montar, montou o clube de mães e esse clube existe até hoje, porque aí o pessoal da solidariedade assumiu. São senhoras. E vai ensinando, e aí as crianças foram melhorando a questão de higiene, de cuidado. De vir com roupa velhinha, mas limpinha, de remendar a roupa, de costurar a roupa que está rasgada, porque a gente mostrava: "Olha a diferença do seu filho com uma roupa limpinha e do que todo sujo, né?".

 

P/1- Certo.

 

R- Não é porque a pessoa trabalha que ela tem que deixar, né, o...

 

P/1- Abandonar.

 

R- Abandonar, né? Então a gente fez muito esse trabalho. E um trabalho de sexualidade que eu fiz com elas. E aí, eu sei que a Secretaria de Saúde de Marília mandou uns bonecos, através da faculdade. E montar, conhecer o próprio corpo. Então todo esse trabalho eu desenvolvi com as mães. Os ovários eram em cima dos seios, elas não se conheciam, né? Anticoncepcional, elas tomavam no dia seguinte ou depois do ato sexual. Então, era muito confuso. E às vezes, assim, com números de oito, dez filhos. E a creche não dava conta. Aí, consegui contato com os médicos da cidade pra fazer, também, um trabalho com elas. Teve gente que fez cirurgia, gente que aprendeu a fazer tabelinha, aprendeu a fazer... Usar camisinha, que era um tabu. Tinha maridos que a gente conseguiu convencer e operar, porque já tinha 11 filhos. Quase apanhei [risos].

 

P/1- Imagina, foi ______.

 

R- Então, foi assim. Foi um trabalho bem legal. E a partir desse trabalho, o pessoal da LBA, não sei se... Que teve uma época que existiu a LBA, acho que isso não existe mais.

 

P/1- Legião Brasileira de Assistência, não é?

 

R- Isso. Aí, o pessoal também me contratou, via faculdade. Eu lembro que eu tinha uma bolsa pra isso, junto com a faculdade. E eu fazendo todo esse trabalho, também, com as crianças lá em Vera Cruz, como professora. Então, eu nunca parei, por isso que eu falei. E eu trabalhava na região de Marília. A gente ia em creches fazer esse trabalho com os auxiliares de creche de cuidado, de reaproveitamento, por exemplo, de como montar um trabalho com sucata com as crianças. Pra dar atividade pra essas crianças. E a prefeitura me liberava pra fazer esse trabalho. Era interessante que era uma coisa que você fazia e o pessoal, às vezes, me liberava o dia inteiro pra trabalhar numa outra unidade e passar o que a gente tinha feito na creche. Então, esse trabalho foi todinho desencadeado em Vera Cruz, que foi pra outra região. E, mesmo depois, na Fundação, eu ainda trabalhei bastante em Campos Novos Paulista com a Secretaria da Educação de lá. Trabalhando com a questão de metodologia de projetos. Mas, eles já me conheciam da época da LBA, que eu era bem jovenzinha na época.

 

P/1- É, isso que eu queria saber, quantos anos nessa época, mais ou menos?

 

R- Nessa época? Acho que eu tinha uns 23 anos, por aí. Uns 23. É 23. Porque eu entrei na Fundação com 26. 

 

P/1- E que outros lugares você trabalhou?

 

R- Eu trabalhei...

 

P/1- Antes da Fundação.

 

R- Só na Xereta, na Prefeitura. Eu comecei a trabalhar Estado, Prefeitura. Teve época da minha vida de eu trabalhar manhã, tarde e noite [risos].

 

P/1- Só trabalhava.

 

R- Só trabalhava. Quando eu entrei na Fundação, eu não quis largar o Estado, de início, porque, assim, é uma... Você nunca sabe o que tem lá na frente, e se você vai se adaptar ou não. Se é isso mesmo que você quer. E eu tinha um trabalho legal, que  eu gostava muito de fazer. Tanto com o magistério, quanto com a Educação Infantil. Porque mesmo depois, trabalhando com o magistério - que foi esse trabalho que eu fiz - de manhã eu trabalhava com... com Educação Infantil. Eu não larguei a Educação Infantil. Eu só consegui largar a Educação Infantil, quando eu fui pra Fundação que não dava mais, que foi  em 1994. Porque eu não queria largar o trabalho com as crianças. E dentro, eu trabalhei na creche, eu trabalhei em várias unidades, porque na Prefeitura tem várias unidades no município, várias salas espalhadas. Tinha creche, tinha a escola que atendia crianças com poder aquisitivo melhor na cidade, porque era a única escola que tinha pra Educação Infantil - que na época era chamado pré-escola. Eu fiquei lá, sabe quanto tempo? Só nesse lugar 2 anos. Porque eu queria trabalhar com criança carente e a minha última sala eu estava com criança carente, que eu tenho a foto lá, deles sentadinhos, que são todos carentes. 

 

P/1- E como foi esse trajeto desses trabalhos? Como você conheceu a Fundação, pra Fundação?

 

R- A Fundação, assim... Eu não tinha ouvido muito falar em Fundação Bradesco, né? Em escolas da Fundação, até porque Marília não tinha nenhuma escola tão próxima. Não tem. Era aqui em Osasco, Registro que já existia, Campinas. E o banco não divulgava muito isso, apesar de o banco ter nascido lá em Marília. A escola foi construída em Marília na ocasião de 50 anos de banco. Então, quando o banco fez 50 anos, foi construída a escola como presente pra Marília. Então, eu fiquei conhecendo a Fundação porque a minha mãe, ela tem muito contato. A família do Seu Lázaro é de Vera Cruz. Então, a gente conhece todo mundo. Então, a irmã que divulgou. Ela: "Fala pra sua filha que tem seleção pro professor da Fundação." Falei: "Mas, o Brasdesco tem escola, né?" Eu sei que eu estava trabalhando tão envolvida nesses projetos que eu não tinha horário pra ir lá fazer a inscrição. A minha mãe xerocou toda a minha papelada, que eu separei [risos], foi lá, ficou quase o dia inteiro na fila - que tinha filas e filas, por que abriu. Marília tem um bom campo pra área educacional, mas tem muita gente que conhece que estuda mesmo, tem boas faculdades, tem boas universidades. Nessa área de educação e medicina, é bem servido Marília. E a minha mãe acabou indo e levando, e me ligando, que eu consegui aparecer lá três horas da tarde, porque eu tinha trabalho pra tudo quanto é lado. Aí que eu fui fazer a ficha, né? E eu lembro até hoje de eu fazendo a inscrição com um gerente lá, que é o Seu Ivo. Eu conheço ele até hoje, porque ele mora no condomínio onde eu tenho a casa lá em Marília. Porque eu tenho casa em Marília ainda. Ele mora lá até hoje. Eu lembro dele fazendo a ficha comigo e minha mãe sentada do lado. [risos]

 

P/1- No banco.

 

R- No banco, que era na Diretoria Regional. Fechou a Diretoria Regional, mas ainda existe esse. É no prédio do Bradesco, então eu lembro até hoje. E Seu Edneu ficou falando pra minha mãe: "Ó, tem que incentivar mesmo, porque ela é nova. A Fundação precisa de gente com garra. O Bradesco tem gente, investe em gente jovem." Aí, eu fiz lá, falei: "Ah, mãe, você acha que eu vou passar? Acho que eu não vou passar nessa prova, nesse concurso, né?" E acabei, depois, um mês depois acho que foi a prova. Eu lembro que eu tinha uma formatura pra ir que era da minha prima. Minha prima fez Farmácia. E uma prima que a gente tem muito vínculo, eu não podia deixar de ir na formatura. Eu lembro que eu saí mais cedo da festa que era pra dormir um pouquinho antes da prova. [risos]

 

P/1- Difícil a prova?

 

R- A prova foi, assim… Como eu trabalhava também com magistério à noite, com aulas de magistério, tudo que eu tinha trabalhado com os professores acabou caindo nessa prova. Então era assim: era Piaget, era Emília, tudo que está de novo caiu nessa prova. Eu lembro de uma questão das gavetinhas, que hoje a gente, de vez em quando a gente pega as provas ainda tem algumas questões assim, né? Dos conteúdos compartimentado, dividido em gavetas, não conhecimento global. Então eu lembro dessa questão até hoje, das gavetinhas. Eu sei que eu fiz a prova. Eu sei que eu estava com muito sono, mas eu falei: "Acho que fiz." E acabei fazendo. Depois eu tive até contato com essa minha prova, porque elas ficaram arquivadas lá em Marília, na... E ficou isso na secretaria, um dia eles me mostraram. Eu tirei 9,5 na prova.

 

P/1- Só, né? Com sono.

 

R- E foi com sono. Eu devia... [risos]

 

P/2- Não é à toa, né, que entrou __________

 

R- E aí, eles começaram a me chamar pras entrevistas, né? E foi muito interessante que a gente estava num período de recesso, mas a prefeitura inovando umas coisas. Eu sei que eu estava fazendo um trabalho pra prefeitura, na parte pedagógica, também, nessa época que estavam me chamando pras entrevistas. A gente estava em recesso da escola, mas fazendo um trabalho à parte pra mudar algumas metodologias que eles queriam, junto com a secretária da Educação. Então, toda hora a Fundação me chamava e eles deixavam eu sair toda a hora. Eu sei que eu não consegui nem concluir esse trabalho de tanto que eu saí e voltei. Foram 12 entrevistas. Eu lembro até hoje. Eu passei pela Roseli Alves, eu passei pela Zuleica, passei pela Dona Ana Luiza. Dona Ana Luiza acho que me chamou umas quatro vezes. Que era assim: eles sempre faziam as mesmas perguntas, então...

 

P/1- A Dona Ana Luiza era onde?

 

R- Ela era daqui, do Centro Educacional, mas quando se organiza uma escola nova, eles deslocam toda a equipe do Centro Educacional.

 

P/1- Ah, tá, a equipe ia pra lá.

 

R- Ia pra lá, pra fazer o processo seletivo, né? Eu sei que eu passei por 12 entrevistas. Tinha dia que eu chegava com o meu Fusca 67, minha mãe falava: "Olha, ligaram de novo. Não é a mesma coisa, é pra você voltar lá." Porque na época não tinha celular, não existia celular ainda.

 

P/1- Você chegou, tinha que sair.

 

R- Tinha que voltar voando e o Fusca não andava muito [risos]. 

 

P/1- Voando ________.

 

R- “Estão te chamando de novo”. Então,acho que porque eu era bem jovem na época. Eu ia fazer 26 anos. Eu tinha 25, acho, 25 pra 26, em 1994. A gente pula um pouco pra fazer as contas das idades, quando vai avançando mais, vai esquecendo. E, assim, eu consegui passar nessa seleção.

 

P/1- Nas entrevistas todas.

 

R- Nessas entrevistas todas, eu falava: "Meu Deus, mas por que sempre as mesmas coisas, né?" As psicólogas do banco, eu lembro até hoje da Selma fazendo a entrevista e perguntando. Eu falei um dia, eu perguntei: "Mas, Selma, porque isso de novo?" Ela começou a rir. "Eu respondi diferente, né, eu vou ter que mudar a resposta, né?" Ela começou a rir, ela falou: "Você está mudando o foco da entrevista." [risos] E eu participei de uma dinâmica de grupo, também, que eu acho que isso é que favoreceu, porque eles ficavam sempre na escuta, na observação de criar uma situação. Então desse grupo, dessa dinâmica, saiu a diretora, saiu a assistente: eu, a Ana Lúcia, que está aqui em Osasco comigo. Porque eu falei é carma: trabalhei 9 anos em Marília com ela, eu vim pra cá, ela foi pra Ceilândia. E aí, o ano passado, eu voltei a trabalhar com ela de novo. Eu brinco. Nós estamos trabalhando juntas de novo. Então, e da escola de Marília, desse, dos funcionários que entraram nessa época, só existe a assistente de secretária e a secretária, que é a Ana Marina e a (Luri?). O restante da parte administrativa e pedagógica - que foi contratada na época - ou saíram, foram trabalhar em outros lugares, em outras instituições, se aposentaram e acabaram saindo. E só existe eu, a Ana Lúcia e a Ana Marina e a (Luri?), que é a Lourdes da secretaria - que conhece a história aí, desde o início. E foi muito gostoso esse início de Fundação. Os primeiros 15 dias que a gente foi contratado, nós viemos passar 15 dias aqui em Osasco, que foi lá no Hotel São José. Eu lembro até hoje que nós ficamos hospedados 15 dias, fazendo treinamento. Então, era aquela coisa mesmo de trazer a gente pra ver se realmente você ia querer ficar, porque passaram todo o funcionamento da escola. Era informação, informação e mais informação nesse treinamento. E a gente acabou voltando pra escola. Eu lembro até hoje que a gente voltou pra escola e a escola não estava terminada ainda, a construção. Então, as primeiras fichas de aluno, a gente foi fazendo seleção de aluno junto com os pedreiros construindo a escola. E aí, eu estava só no magistério à noite. Eu tive que deixar a Educação Infantil. Eu deixei trancado a minha vaga, porque você podia trancar essa vaga por dois anos. Depois que eu tive que liberar, né? Mas, assim, foi muito sofrido pra liberar aquilo. Eu sempre gostei de trabalhar com os pequenos, porque você tem que ter jeito pra trabalhar com criança pequena. Não é qualquer professor que consegue ir lá e fazer um trabalho com...

 

P/1- E dar conta.

 

R- E dar conta de criança pequena, né?

 

P/1- Vamos parar um pouquinho.

 

(Fim do CD 1/3)

 

P/1- Voltando, Marlene. Vamos começar, então, lá com o comecinho da Fundação, quando vocês começaram a trabalhar, que ainda estavam os pedreiros. E aí, como é que foi depois?

 

R- Não é assim. Foi... Eu já  tinha trabalhado em várias escolas, tinha passado por projetos, por trabalhar lá com o pessoal de outras creches de outras na região de Marília. Mas, assim, eu nunca tinha pego uma escola na construção, tanto na construção física, como de identidade da escola, né? Então, isso foi pra mim um trabalho bem gratificante, mesmo, de poder participar desse momento de início de Fundação. Que eram os pedreiros construindo o prédio, porque choveu muito na época em Marília. Então o prédio não conseguia ficar pronto por conta da época de chuva. Verão, então chove bastante na região. E atrasou um pouco a construção. Então, nós chegamos pra trabalhar, ainda tivemos que trabalhar junto, porque precisava organizar a parte de estrutura da escola. Então, eram cinco pessoas, na época, contratadas. Não existiam os professores ainda. Então, a gente montou todo o processo seletivo. E aí, a gente recebeu a supervisora Sônia e o Seu Eli, que eu não sei se ele vai dar depoimento pra vocês. Ele faz parte do patrimônio, a gente brinca, né? Ele ficou com a gente nesse início de escola, porque deslocam as equipes quando está se montando a escola. Só que hoje eles locam equipes grandes de todos os setores da Fundação. Na época, não. A gente tinha duas pessoas pra ajudar a gente a organizar e erguer essa escola e começar dia 10 de março. Pra você ter uma idéia, isso era 23 de janeiro, por aí. Pra montar tudo, pra começar essa escola. Com seleção de alunos, preenchimento de vagas. Então a gente trabalhou preenchendo as fichas, atendendo a comunidade. Tinha gente que dormia, a gente ia à noite, voltava pra casa. Eu morava em Vera Cruz ainda, na época. Às vezes tinha que pegar o Fusca 67 [risos], voltar pra distribuir senha pro pessoal, ir pra casa dormir, pra ninguém fazer isso. Então, assim, a gente ia se revezando. Cada dia da semana ia uma pra tirar o pessoal da fila. E às vezes a gente saía de lá 9, 10 horas da noite, porque a gente ficava atendendo as pessoas. Foram, na época... acho que 9 mil, mais de 9 mil e 500 fichas. Pra selecionar 1200 alunos. Então, vocês imaginam o trabalho árduo que foi de receber documentação, de avaliar essa documentação e selecionar pra visita. E nós visitamos mais de 4 mil alunos, desses selecionados. Desses 9 mil e 500, a gente selecionou 4 mil. Então, eu e mais duas orientadoras, na época, a gente visitava as casas. Então, esse momento de visita é onde você conhece a comunidade. Você aprende muito como é que as pessoas vivem, como é que as pessoas se comportam, como é que é o meio dessas pessoas. E isso foi muito importante pra gente montar a proposta pedagógica, que foi a segunda etapa da escola:  montar a organização de alunos. Então, eu nunca tinha feito isso, porque quando eu pegava uma sala no começo do ano, eu não tinha selecionado os meus alunos. Eles já existiam lá na escola. Tinham feito inscrição na secretaria e estava tudo certo. Deu o número de vagas, ninguém mais fazia inscrição e já estava certo. Na Fundação, não. Existe todo um trabalho de montagem dessas salas. E isso ocorre anualmente, também, com as turmas que vão chegando na Educação Infantil novas. Todo o ano tem esse processo seletivo assim. Não tão grande, né, como esse inicial. Mas, foi muito importante esse processo. Cansativo. Eu lembro que eu tenho roupas, até hoje, que estão lá na minha mãe, que têm o cheiro da construção da escola. Que você olha pra roupa, você sente o cheiro.

 

P/1- Não sai, né?

 

R- Porque você suava, transpirava, estava lá. Tomava uma água. O almoço, não tinha nada por perto, eles mandavam pra gente. Esse gerente do banco, que fez minha entrevista, o Ivo, ele acabou indo ajudar a gente, que ele via as filas. Ele largava o banco, ia lá com a gente, mandava funcionário pra dar uma mão. Levava água e mandava os marmitex de caminhoneiro pra gente. A gente comia sentado. Fazia um banquinho, os pedreiros faziam uns banquinhos de madeira, com tábua, porque as cadeiras, carteiras não tinham chegado ainda. Não tinha muito. A gente tinha uma mesa, que o banco emprestou pra atender. Umas coisas improvisadas pra fazer as fichas, pro pessoal preencher a ficha. Geralmente, o pessoal não consegue muito escrever. Você tinha que escrever pelo pessoal. Então, era o dia inteiro. Era um trabalho parecendo tiro de guerra, eu falo, era bem... [risos] E na sala de Educação Infantil, que era a mais próxima da calçada da rua, pra não atrapalhar a construção. Então, não foi feita o primeiro contato com a comunidade através dos portões, onde existe o portão hoje, de entrada da escola, né? Que foi na Avenida República. Abriram um pedaço da tela e o pessoal improvisava com pedaços de madeira pro pessoal não pisar na lama, pra entrar nessa sala da Educação Infantil. Então, primeiro local que a gente trabalhou na escola de Marília foi na sala da Educação Infantil.  Você não imagina os banheirinhos. A gente usava os banheirinhos das crianças, com os vasinhos [risos]. 

 

P/1- Tinha que ser.

 

R- Tinha que ser desse jeito. Aí, você saía, cada hora você saía dentro da construção, porque o pessoal da comunidade não tinha acesso à construção, porque eles colocaram aqueles tapumes. Tudo ficou fechado. Mas, a gente tinha acesso de uma porta, que você olhava pra escola. Cada meia hora que você saía, você via a diferença de mudança de paisagem dessa escola, de construção. E muita gente trabalhando ao mesmo tempo. Então, era muito engraçado. Seleção de professores, também, que os professores foram selecionados através da mesma equipe que selecionou a gente. Mas, a contratação deles, a efetivação foi feita pela Vanda. A Vanda aqui do Centro Educacional, ela foi fazer o processo, a documentação toda, nessa mesma sala da Educação Infantil. Então, eu lembro até hoje das professoras chegando toda elegante, de salto, porque ia trabalhar na Fundação [risos]. Toda chique, né? E no meio da lama, com a saia. A professora de Inglês a gente lembra até hoje, que é Dona Sheila. Os pedreiros precisaram levantar porque ela caiu na lama [risos]. 

 

P/1- [risos] Ai, meu Deus. 

 

R- Foi muito engraçado. Ela lembra disso até hoje. A Sheila é a professora de Inglês da escola. Ela está lá até hoje, né?

 

P/1- Ela é professora até hoje?

 

R- É professora. Então, a gente olha pra Sheila e lembra até hoje da roupa de lese dela e ela na lama.

 

P/1- Marlene, só quero interromper porque eu preciso fazer uma pergunta que você não falou. Você foi contratada em que função?

 

R- Eu fui contratada como orientadora.

 

P/1- Como orientadora?

 

R- Direto como orientadora. Como eu já  tinha coordenação do magistério e tinha essa experiência como coordenadora no estado, de trabalhar os professores - que foram meus professores -, de ter um vínculo com a Cenpe, com a F.D.E., eles me deram direto a orientação. Na realidade, quando eu preenchi a ficha eu coloquei pra vaga de professora, não foi pra orientadora. E eles que me encaminharam pra orientação. 

 

P/1- Por certo, mediante o seu perfil.

 

R- É por conta do perfil, pra trabalhar com as crianças. 

 

P/1- Uma curiosidade, Marília é a cidade da Casa Bancária Almeida.

 

R- Isso.

 

P/1- Que é a casa bancária anterior ao Bradesco.

 

R- Ao Bradesco.

 

P/1- E que é o lugar onde morou, onde o Seu Amador Aguiar começou toda uma história. Seu Lázaro Brandão...

 

R- Seu Lázaro.

 

P/1- ...também já trabalhava na Casa Almeida.

 

R- Foi office boy [risos].

 

P/1- Já trabalhava na Casa Bancária. Como que era pra cidade, você chegando, montando a escola. A cidade conhecia essas pessoas, já tinha essa informação do Bradesco com essas pessoas? Porque você disse que o Seu Lázaro Brandão era de...

 

P/2- De Vera Cruz.

 

R- A família de Vera Cruz. Ele, acho, que morou pouco tempo, não foi tanto tempo. Eu não tenho muito...

 

P/1- Todo mundo era conhecido. As pessoas conheciam esses fundadores. Tinham informações deles?

 

R- Sim, inclusive, a orientadora que foi selecionada, a Carmem. Ela é Carmem Almeida, que trabalhou comigo. Então, ela foi selecionada. Ela tinha muito dessa história, ela acabou saindo depois de um tempo, mas ela permaneceu lá até 2000. Até 2000, a Carmem ficou na escola, né? Que ela também é uma pessoa... Mas, a cidade conhece a história do banco, sabe que o banco nasceu em Marília. Tem um museu riquíssimo. Até eu falei pra menina do museu aqui,do museu da Cidade de Deus, que tem muito material no museu, porque também tinha um projeto lá com a Secretaria da Cultura. Era um projeto de cinema, que depois eu vou comentar com vocês, desse local. Tem as primeiras máquinas usadas eletrônicas, tem lá, tem equipamentos, tem máquina de datilografia do banco, igual o museu aqui tem. Tem muito da história. E esse lugar é muito visitado, porque ele é junto com a biblioteca municipal. E é bem no centro da cidade e bem próximo ao Bradesco. Então, as pessoas sabem da história. E lá em Marília existe umas famílias que são de tradições. Então, as famílias vão passando essas histórias, vão comentando. Então, a família Almeida, ela existe ainda. Lá em Marília é muito forte. Tem muitos parentes, tem muita gente ali.

 

P/2-Muita gente lá.

 

R- Muita gente. Então, acaba todo mundo se conhecendo. Apesar de a cidade ser grande, ela tem mais de 200 mil habitantes. Acho que 300 mil habitantes hoje. Ela é uma cidade que tem as famílias. Você sabe: “Ah é da família tal, é da família tal.” Tem muito disso. Coisa de interior de se conhecer pelo sobrenome, né?

 

P/1- E o senhor Lázaro Brandão, o seu Amador Aguiar são pessoas conhecidas lá.

 

R- São pessoas conhecidas.

 

P/1- Tá.

 

R- Inclusive, Seu Lázaro, quando ele vai pra Vera Cruz, ali na região de Vera Cruz. Ele passa pra visitar a irmã, tem que fechar a cidade [risos].

 

P/1- Ah, é?

 

R- Todo mundo quer ver ele [risos]. Ele não pode avisar que vai. Nem ela avisa, né? Porque todo mundo quer ver, porque conhece, tem toda uma história. Ele é uma pessoa bem simples, uma pessoa que conversa, que dá atenção, que pára pra ouvir. Então, tem muito disso.

 

P/1 Então, estávamos na seleção dos professores.

 

R- [risos] Voltando na seleção, né? Os professores, também, iniciaram o trabalho. O trabalho de planejamento, também. Eu lembro que a gente teve que adaptar à sala do, que é a sala do telecurso hoje, que a gente recebia os pais pra uma  reunião maior que era. A gente não tem um auditório na escola de Marília, não tem um espaço pra auditório. Essa sala, ela é reversível. A gente teve que adequar. Pra vocês terem uma idéia, ainda não estava com o piso que estava hoje original pra fazer o planejamento inicial dos professores, de estar trabalhando com os professores. E eu lembro que, paralelo às entrevistas, seleção de alunos, a gente já ia formando os professores. Então, assim, de reunir todo o material pedagógico que a gente tinha. A gente recebeu a assessoria da Roseli Alves, na época. Ela não trabalha hoje mais na Fundação, trabalhou até o ano passado. Ela levou pra gente toda a coordenação de filosofia, proposta pedagógica da Fundação, que depois a gente foi trabalhando e construindo aí, ao longo dos anos, porque era uma proposta bastante diferenciada. E que eu gostei muito porque era muito parecida com aquilo que eu sempre queria fazer nas escolas e muitas vezes eu não conseguia. Porque se você faz um trabalho muito diferenciado, o seu colega do lado, ele acha ruim muitas vezes. E não vê isso como um, um momento muito, às vezes de aprendizagem, mas às vezes ele fala: "Pôxa vida, quer fazer diferente, quer aparecer." E não é nada disso, né? Não é nada disso. Então, a Fundação, ela traz uma proposta educacional bastante moderna, principalmente em alfabetização. E uma concepção de alfabetização diferenciada, que nasceu muito lá com a escola de Marília. E levou a proposta aqui, da escola de Osasco, que é onde eu estou hoje. E isso foi contribuindo pra espalhar pras outras escolas, também. Então, Marília, ela acabou virando um pólo também. Por exemplo, a gente conhece muito o Nivaldo por quê? Toda a parte de tecnologia, implantando programas. Então como a escola é nova, é mais fácil de você implantar uma coisa onde já existe uma coisa tão arraigada, tão sedimentada. Então, trabalha mais fácil, né? A gente tinha um grupo de professores bastante envolvidos. São professores até hoje envolvidos. Muitos permanecem na casa até hoje. Tem muita gente que está lá desde o início da escola. E a gente foi construindo esse trabalho pedagógico, os projetos. Construindo, cada ano, melhorando. Então, foi um trabalho bem gostoso.

 

P/1- E aí, o primeiro dia de aula, quando foi? Quando tudo ficou pronto.

 

R-  Ah, e tem ainda um  pouquinho ainda das visitas. Porque, assim, as visitas eram interessantes porque a gente trabalhando, formando professor e fazendo visita. Então, você imagina. E você ia na comunidade e aí o pessoal falava: "Ah, fulano, não mora aqui." Os próprios vizinhos entregavam. Porque o pessoal dava endereço errado. Era endereço de parente, não era a casa da pessoa. Você chegava a criança não estava. Eles escondiam carro na casa de parente, de longe o vizinho contava que tinha escondido tal coisa. Você ia falar com alguém, o telefone tocava dentro do armário, porque ele tinha escondido pra você não ver o que ele tinha. Então, assim, tinha que ser carente. Então, tinha gente que não era carente e que queria uma vaga, porque falavam muito bem da Fundação. Apesar de não conhecer a estrutura da Fundação, pela distância que existia, criou-se na cidade assim: "Bradesco está trazendo a melhor escola pra Marília." Era a melhor escola. E ela acabou sendo uma ótima escola também, uma escola de referência pra concorrer com qualquer escola particular.

 

P/1- A mais próxima era qual?

 

R- A mais próxima era aqui, em Osasco. Então, as pessoas não conheciam muito esse trabalho do Bradesco porque o Bradesco não fazia essa divulgação lá na cidade. Só ficou conhecendo porque saiu em tudo quanto é jornal que estava construindo a escola. O prefeito se aproveitou e se apoderou. Punha todo dia no jornal. Isso dificultava muito o nosso trabalho. Então, o pessoal não era selecionado, ia na rádio.Falava rádio, qualquer coisa saía. A gente tinha que contornar a situação, ir na casa da pessoa explicar porque que ela não foi selecionada. Então, a gente teve um trabalhão pra organizar essas turmas. E o primeiro dia de aula eu nunca vou esquecer, porque já tinham contratado cozinheiro, já tinham contratado tudo. Nas primeiras semanas não deu pra fazer o lanche, porque a cozinha ainda estava sendo adequada. O primeiro dia de aula, a gente conseguiu, a gente enlouqueceu porque nós resolvemos uniformizar. Porque os uniformes são bonitos, né? A gente queria ver todo mundo com uniforme da Fundação. E nós vestimos todas as crianças. 

 

P/1- Todas?

 

R- Compramos sacolinhas plásticas. Eu lembro até hoje, a gente sentada no chão do pátio: as orientadoras, os professores, todo mundo botou a mão na massa. E a gente colocou tênis, sapato e ia colocando.

 

P/1- No primeiro dia?

 

R- No primeiro dia. A roupa que a criança foi dentro da sacolinha, pra não perder nada.

 

P/1- Mil e quantos?

 

R- 1200 alunos inicialmente.

 

P/1- 1200 sacolinhas.

 

R- Conseguimos uniformizar tudo. Tem a foto das crianças uniformizadas nesse dia. Muito lindo. Foi muito interessante esse dia das crianças todas no pátio, uniformizadas. E a gente, toda estourada [risos]. 

 

P/2- ________

 

R- Porque os maiores deve valer a pena, né? Porque a gente queria ver logo isso funcionando.

 

P/1- E as crianças, queriam também?

 

R- Nossa, e as crianças até hoje... Assim, porque a gente tentou levar, se chamasse uma criança. A gente tomou, apesar do trabalho ser amplo e de início, a gente tentou levar os irmãos junto. Você chegava na casa, se ele tinha mais irmão, você já avaliava a situação da família e já levava pra outras séries. Porque pra criança é muito difícil, por exemplo, ter uma escola naquele nível, uma escola super moderna, que não tem nenhuma igual em Marília, nem as particulares. É maravilhosa o ambiente, é maravilhoso o ambiente da escola. Muito bonita a arquitetura, é nova, bem moderna. E aí, um irmão ter uma escola dessa e o outro ter uma escola pública, que não tem nem uma carteira, às vezes, pra sentar. Que tem realidade de escolas de Marília que é assim: com tudo quebrado, tudo pichado, às vezes. Não deveria ser assim, né? Porque a Fundação tem uma coisa que é muito bonita: quebrou uma maçaneta no dia, ela é consertada no dia. Riscou uma parede, ela já é limpa no dia. Então, nada fica pro dia seguinte. Então vocês podem viajar por qual escola que for, vocês não vão ver nada jogado, abandonado, largado. Tudo tem que estar em ordem. Tem que estar sempre como se fosse o primeiro dia. Então, essa a filosofia, também, da Fundação E foi muito interessante, aí, esse primeiro dia. Já consegui colocar, consegui colocar todo mundo nas salas de aula. Então, de fazer as primeiras reuniões de pais, de estar conversando com os pais. Tinha pai que chorava porque achava o ambiente muito bonito. Os primeiros meses foi um caos, porque as crianças não tinham muito costume em escovar dente em pia, por exemplo, fazer escovação, banheiro era tanque. Então, assim, derrubava água no chão, jogavam papel higiênico, colava tudo no teto. Então, a gente teve que fazer um trabalho educacional muito grande, porque eram crianças extremamente carentes, e com uma escola totalmente diferente da realidade que eles tinham. Então, tiveram que fazer todo um trabalho de adequação, mesmo. E de valorizar onde eles vivem, onde moravam com a realidade que tinham na escola. E a casa deles também faz parte da vida deles, aquele ambiente que eles tinham que cuidar. Então, a gente fez um trabalho, no primeiro ano, bem grande, de preservação do patrimônio. E eu saí em 2001 e a gente tinha pouquíssimas anotações de troca de carteiras, por exemplo. A gente não tinha que trocar a carteira porque não tinha carteira riscada. Não tinha que pintar a escola todo ano porque a gente fazia um trabalho de preservação, as crianças preservavam. Preservam até hoje. Não estou mais lá, mas existe todo um trabalho da comunidade gostar muito da escola. E da comunidade ter o acesso, também, à escola, porque tem alfabetização de adultos, tem cursos pros pais, cursos pra comunidade, tem informática. Na época que iniciou datilografia, na época, por que não tinha ainda tanta informática aí, de  início. Hoje, ela já foi substituída por informática. Mas, trabalho com culinária, com costura, com padaria, confeitaria, todas essas coisas. Com a parte de artesanato, que é feito na escola e que ajuda as famílias na renda familiar, também.

 

P/1- São os cursos voltados pra comunidade?

 

R- Pra comunidade. Esses cursos ajudaram bastante. Eu cuidava de alguns cursos. A gente tinha os rodízios entre as orientadoras, e a gente ia visitar, depois de algum tempo, essa mãe que tinha feito o curso de manicure. “Está atendendo alguém? Não está? Está fazendo bolo? Que que está fazendo? Que que o curso conseguiu fazer.” Então, a escola tem esse histórico também, de...

 

P/1- Buscar o retorno.

 

R- De buscar o retorno. De ver o que essas pessoas... Se elas estão realmente aproveitando, até pra poder avaliar se o trabalho está sendo eficaz ou não, né?

 

P/1- Os cursos aconteciam paralelamente às aulas das crianças?

 

R- Isso. Porque elas geralmente acontecem num espaço que se chama Oficina Pedagógica. Existe uma sala equipada pra isso. Todas as escolas têm esse espaço, com exceção de Osasco. Que Osasco, como são funcionários, a gente não consegue fazer esse trabalho com pais. A gente tem esse trabalho no prédio do Cristo, aqui, dentro da Cidade de Deus, que trabalha com a comunidade. E geralmente são poucas mães, poucas das famílias que acabam fazendo, mas na escola é a família que vai pra esses cursos.

 

P/1- Todas as outras escolas existe esse espaço.

 

R- Isso. 

 

P/1- Oficina pedagógica que chama?

 

R- Isso, ela é equipada com material de cozinha, de costura. Com ambiente pra arte, pra cabeleireiro. Então, é um espaço reversível. Um espaço bem bonito, bem... Acho que eu tenho alguma foto aí. Vai vim mais fotos, vai vim foto desse espaço também. E é onde os pais vão melhorando, também, a sua renda, melhorando a sua qualidade de vida. Os pais estão muito dentro da escola pra conhecer a proposta da escola. Então todo o trabalho da escola é integrado com a família  pra valorizar. Marília tem um trabalho interessante aí. Eu consegui montar até um clube de mães, porque...

 

P/1- Eu ia perguntar.

 

R- Eu tenho outro clube de mães, né? Ele prevalece até hoje. A cada ano vai aumentando outras mães e eu já fiz isso aqui também, ano passado, em Osasco. Porque são mães funcionárias, mas tem as avós. A gente fez brinquedos, bonecas. Lá em Marília nós fizemos também, de ensinar a consertar uma roupa, de fazer brinquedos, de acompanhar os alunos durante a saídas dos projetos. Então, tem todo esse trabalho de intercâmbio que eu fiz até 2001. Ele não está tão forte hoje como até 2001, porque eu gostava muito dessa parte. Então, eu trazia bastante os pais pra escola. Mas, na medida do possível, os pais estão sempre na escola pra fazer alguma coisa. Pra colaborar, pra  aprender, pra estar ali junto. Eu tinha alunos com dificuldades que a gente chamava também os pais e os alunos de dificuldades. Tem o trabalho de G.R.P., que é o Grupo de Recuperação Paralela, e às vezes o pai não sabia como ajudar em casa. Então, a gente deixava entrar pra assistir uma aula junto com a professora, pra ver como o professor fazia pra ele poder estar apoiando em casa. Não fazer o trabalho do professor, mas pra entender. Porque às vezes ele punha a criança de castigo, batia. Então, pra evitar esse tipo de coisa, a gente levava o pai pra escola, também. Então, foi um trabalho bem, bem legal. Vários projetos que a gente, que eu tinha na época de 1994 até 2001, tem projetos que prevalecem. Eu trabalhava muito voltada também pra questão ambiental, que essa é uma área de... Por exemplo, aqui  as crianças de Osasco trabalham o Rio Tietê. Como o material pedagógico traz esse Rio Tietê, a gente trocava pelo Rio do Peixe, que é o rio de Marília. A gente fazia todo um trabalho da criança conhecer isso, de levar isso pra casa, pra família ter um contato : o que é o rio que abastece a cidade, totalmente assoreado, já poluído. Então, de levar a criança pra ver esses espaços, de conhecer como é que é o sistema de captação de água, de abastecimento da cidade, de esgoto. Também trabalhar com a questão do lixão, que o lixão some todo dia da porta, mas ele vai pra algum lugar. E eles se assustavam muito quando a gente levava nesse espaço, pra observar de longe, onde é que ficava esse lixo que sumia todo dia. E um projeto que eu consegui fazer integrado com a Secretaria de Cultura de Marília e de Educação Ambiental - eles têm uma secretaria muito forte - que é Projeto Curupira. Até o pessoal se interessou, o pessoal novo que está cuidando da questão ambiental, por esse projeto. E a gente trabalhava com os menorzinhos conhecendo a parte de…  Isso começava na Educação Infantil e ia até o Ensino Médio, ia se ampliando. Eu tenho esse projeto aqui também, pra mostrar um pouquinho pra vocês, de fotos.

 

P/1- Esse é um projeto de meio ambiente?

 

R- De meio ambiente.

 

P/2- De educação ambiental?

 

R- De educação ambiental. E a gente também, nas escolas... Todas as escolas, não só a de Marília, têm uma pessoa formada, um agrônomo, que é responsável, também, pela parte de trabalhar essas questões na escola. E todos os professores são envolvidos nessa questão, né? E a gente acabava puxando pra realidade, mostrar pra essas crianças não só fotos, não só slides, não só vídeos, mas mostrar pra criança na realidade. Por exemplo, tipos de solo, a gente levava num paredão, parava o ônibus e mostrava as camadas do solo. Trabalhar, durante essas visitas, trabalhar com essa questão. “Por que que o solo é pobre? Por que que é o solo dessa região? Por que está acontecendo isso com Marília? Como é que era a história de Marília antes, como é que é hoje?” Então, todo esse trabalho a gente conseguiu realizar com os professores e com as crianças. São coisas que eles acabam não esquecendo e que, se a escola não der conta disso, isso fica adormecido, porque a família também não tem esse histórico pra passar. E a própria região acaba tendo outras pessoas envolvidas, porque eu sempre fui de me engajar com outras pessoas que podem estar te fornecendo, ampliando seu trabalho, de conhecer, de trabalhar. E o Projeto Curupira, a gente ia no espaço, único espaço que tem de reserva florestal, que é o bosque municipal de Marília, um espaço de 200 quilômetros. Não existe mata nativa mais, na região, a não ser esse espaço. Então, a gente levava os pequenininhos pra saber que tudo era assim, de início, que Marília era assim, pra trabalhar essa parte. E na primeira série, a gente já começava a trabalhar com córregos. Então, a gente trabalhava nos córregos próximos à escola, mostrar que esses córregos uns já estavam totalmente poluídos. Por que que isso acontece, né? De trabalhar o bairro onde o aluno reside, que que a  gente pode fazer pra melhorar. Então, com a criança muito pequena fazendo esse tipo de trabalho. Com aproveitamento de alimentos. Por quê? Alimentação dessas crianças, de uma grande parte da escola, é a alimentação feita na escola. Então a escola tem cozinha. Diferente daqui, de Osasco, que a gente tem o lanche, não tem uma cozinha, é terceirizado. Mas nas escolas existia uma cozinha com um cardápio que valoriza o cardápio da região. Isso é bem interessante na... E as crianças vão aprendendo a se alimentar melhor com aquilo que elas dispõem em casa, e também a gente orientava a família a melhorar isso. Então, nós criamos o projeto de desperdício. Também levamos as crianças à feira, levamos no supermercado. Então isso acontecia na segunda série. Então, a gente ia ampliando essa visão. E a gente até ganhou uma premiação na Estação Ciência, aqui em São Paulo. Teve um projeto que veio pra cá, que era esse do desperdício, de fazer aproveitamento da casca da cenoura, bolo de cenoura, docinho de cenoura, tudo. Omelete com os talos. Então a gente ficou aqui uma semana cozinhando [risos]. E falando do projeto. Isso foi em 1997. Em 1997, que esse projeto...

 

P/1- Trouxe de Marília pra cá?

 

R- Trouxe de Marília pra cá, informação. E foi um projeto premiado, desses projetos. E, também fazia parte da questão ambiental. A gente fez um trabalho interessante também com a Coca Cola, em Marília, porque as crianças tinham muitas dúvidas em relação à Coca Cola. Então, foram visitar o espaço, visitaram a indústria, de saber como era feita, de saber o que eles faziam com os resíduos. E as crianças fizeram um trabalho bem interessante com o pessoal da Coca Cola. E até eles mudaram a forma de trabalhar esses resíduos, que eles poluíam a cidade. Então, a gente conseguiu mudar discretamente essa parte, também, na Coca Cola.

 

P/1- Interessante o trabalho.

 

R- Com esse trabalho de visitar e dos questionamentos que os pequenininhos da segunda série fizeram e da quarta série. Tinha um trabalho integrado também com a produção de alimentos, porque nas quartas séries o tema trabalha com a questão do alimento. Ele vem em espiral, todo esse trabalho que a gente faz, pedagógico. E a gente trabalhou com a empresa Marilan, que é lá de Marília. Marilan, acho que vocês conhecem aí, produtos da Marilan, que é de Marília. Todo supermercado tem esse produto. E a gente fez um trabalho, também, de eles saberem como é que a empresa funcionava. Como é que se produz biscoito em larga escala, como é que ele feito. E a gente fazia todo o trabalho do biscoito caseiro, então a gente trabalhava muito com culinária, também. E com essa questão de valorizar as receitas das mães: que receita que a mãe tem, né? E paralelo a isso, a gente acabou até fazendo um trabalho pras crianças aprenderem a ser solidárias. A gente produziu tanto biscoito que a gente resolveu visitar uma casa de idosos pra que as crianças conhecessem também a realidade dessas pessoas e valorizassem. De entregar esses biscoitos pras pessoas. Então, foi um trabalho bem interessante, que acabou virando um outro...

 

P/1- Foi outro prêmio?

 

R- Um outro projeto. Esse acabou não virando mais assim. Hoje tem. Hoje a Fundação trabalha muito com voluntariado, mas, assim, o voluntariado, ele não nasceu só agora, atualmente, nessas questões. Ele já vinha sendo trabalhado, embutido em outras questões, de uma forma nos projetos, na atuação. Acho bem interessante isso. E a valorização, porque se o professor valoriza, o educador que está lá valoriza. A criança, o adulto é referência pra criança. Então, ela começa a valorizar coisas que muitas vezes ela não tinha atenção pra isso, de estar valorizando essas coisas.

 

P/1- Tem mais algum projeto, assim, que você queira falar pra gente de Marília? Ou você já quer ir pra depois de Marília? [risos]

 

R- [risos] Acho que Marília tem um mais, que eu estava lembrando agora há pouco. Antes do primeiro dia de aula, da gente montar as salas de aula. Então, isso é uma coisa que marcou muito. Como eu falei pra vocês, que eu nunca… Eu já ia trabalhar, a escola estava pronta, não tinha que carregar carteira, nada. Então, assim, independente de função, de cargo na escola - se era cozinheira, se era professor, quem fosse - a gente fez um trabalho de montar as carteiras, de desembalar tudo que chegou novo. Foram chegando os caminhões, a gente ia descarregar e colocar tudo no lugar, o mobiliário. Então, esse trabalho foi um trabalho que marcou bastante, porque de você ver, de repente, tudo sem nada, tudo vazio, as salas, e de repente, tudo mobiliado. E a gente teve que fazer isso, de mobiliar tudo isso. Então, o pessoal limpando, a gente carregando, a gente entrando com o pé sujo de novo. Pra vocês terem uma idéia, a escola ia ser inaugurada no dia 10 de março, que começava as aulas, né? No dia 9, à tarde, quando nós saímos, a escola estava sem grama, sem o gramado. Quando nós voltamos de manhã, que nós chegamos 6 horas da manhã... O pessoal era bastante ansioso, porque a aula estava prevista pra começar às 8, mas eu falei: "Ó pessoal, tem gente que vai dormir lá com a criança" E nós chegamos bem cedo, até pra acudir essa situação. Já estava todo gramado. Então foi um susto. Porque quando você sai à tarde, não tinha nenhuma grama, nada verde. De repente, você volta de manhã e está tudo com vaso, tudo verde [risos]. 

 

P/1- Milagre, né?

 

R- Milagre. Tudo apareceu, assim, muito de repente. Então, foi um momento pra gente, eu falo que foi bastante mágico essa construção. De você ver tudo sendo construído, tudo sendo arrumado e com pouco tempo pra você iniciar uma escola.

 

P/2- Só aproveitar esse seu momento de montagem. Você sabe o que tinha motivado essa criação da escola em Marília. Veio de São Paulo, a idéia?  

 

R- De São Paulo. Era um dos sonhos do Seu Amador, de estar levando pra região. Apesar de ele não ter presenciado isso, era um sonho dele: os 50 anos de  banco oferecer uma escola pra Marília. Então, foi concluído esse...

 

P/2- Foi o advento dos 50 anos do banco...

 

R- Dos 50 anos de banco.

 

P/2- ... construir essa escola em Marília e entregar a escola.

 

R- Ela ficou como símbolo. É um marco, por exemplo, nessa história de 50 anos.

 

P/2- Do banco?

 

R- Do banco. Até porque ele nasceu lá, né? Então, 50 anos...

 

P/2- Começou a funcionar quando, em que ano ela começou a funcionar?

 

R- Em 1994.

 

P/2- Em 1994.

 

R- Dia 10 de março de 1994.

 

P/2- Já com 1200 alunos.

 

R- 1200 alunos. A gente teve do dia 23, mais ou menos, de janeiro até 10 de março pra montar tudo. Acabar a construção da escola.

 

P/2- Inscrever os alunos.

 

R- Inscrever os alunos, formar os professores pra trabalhar, pra tratar na filosofia, tudo junto. Montar a organização, espaço físico da escola, organizar tudo. Então, pra mim foi um privilégio poder trabalhar nesse processo. E eu trabalhei de novo no processo de criação de Boa Vista. Mas, montando E.J.A., então Educação de Jovens e Adultos. Então, foi assim, eu já tinha essa experiência. Então, quando você já chega com essa experiência, você já sabe o que dá certo, o que dá errado, que caminho você vai tomar. Então, isso foi bem gratificante. Aqui no Jardim Conceição, também, eu participei da organização da Alfabetização de Jovens e Adultos. Então foi bem interessante. Então, tudo que você vai aprendendo - eu falo - no seu processo de vida, tanto profissional quanto de vida pessoal, de alguma forma você aproveita. Então, eu falo, se eu não tivesse passado por Vera Cruz, por todo esse histórico, eu não teria chegado na Fundação. E eu falo: um terço da minha vida é a Fundação. Porque eu falei que já tenho aqui o... é um terço. Nós fizemos aí, no dia 17, 12 anos de Fundação, eu e a Ana Lúcia. Fazer um bolo pra comemorar com as meninas 12 anos de Fundação.

 

P/2- Merece.

 

R- Eu falo, é um terço. Então tem muito. A Fundação contribuiu muito com a minha vida pessoal também. Tanto profissional, quanto pessoal, porque você vai mudando, você vai construindo. A gente, eu consegui construir um patrimônio, a minha casa. De poder dar uma condição, melhor do que eu tive quando da minha infância, pros meus filhos. Hoje a gente tem. E isso graças ao Fundação, também, com o seu crescimento. Isso é bem...  E isso acontece com a maioria dos funcionários. Isso é gratificante. De ver um funcionário que, às vezes, ele entra como inspetor de aluno - isso aconteceu em Marília - de ele virar professor. De ele estar trabalhando numa área e ir pra outra. De crescer, de ser um professor, hoje ser um orientador. Então, de ter a possibilidade de você crescer, de eles investirem no profissional que está lá escola. De vestir a camisa, mesmo, e de estar trabalhando aí com... Aproveitando, né? Porque que eu falo que quem não consegue trabalhar dentro da filosofia não permanece mais do que 2 semanas. [risos] Não consegue. 

 

P/1- Não adianta.

 

R- Não adianta.

 

P/2- Marlene, quantos anos você trabalhou em Marília, você ficou _______?

 

R- 9 anos. 

 

P/2- 9 anos.

 

R- 9 anos.

 

P/2- E aí?

 

P/1- Como foi a saída? Bom, desculpe.

 

P/2- Não, quero perguntar uma coisinha pra você. Qual a influência da Fundação Bradesco lá? Como era antes da instalação da escola Fundação Bradesco toda aquela comunidade em torno na região, e depois? Quais as influências da escola da Fundação Bradesco ali, naquelas comunidades?

 

R- Olha,  a escola possibilitou um crescimento dos bairros que você não faz ideia. Assim, você chegava numa comunidade que era próxima à escola, não tinha tantas casas. Expandiu, valorizou a questão, por exemplo, dos imóveis, de valorização do imóvel, de valorização, por exemplo, das pessoas que estão ali, da mudança que a escola proporcionou pras pessoas. Por exemplo, as crianças que estavam na escola, em 1994, que iniciaram junto com a escola, hoje tem gerente de banco, que é aluno da Fundação. Tem pessoas que são professores. Pessoas estão trabalhando no fórum da cidade, trabalhando na Caixa Econômica. Muitos, grande parte, se você for no Bradesco hoje - no banco lá em Marília, nas duas agências, e no BCN - você vai ver, quase todos os funcionário são ex-alunos da Fundação Bradesco. Então, de você ver da mudança que o banco proporcionou e a Fundação proporcionou pras pessoas que estão ali. Tanto financeira, quanto a nível cultural, de aprendizagem, da mudança que você que é visível. Das pessoas poderem melhorar, por exemplo, melhorar sua casinha, de poder fazer uma reforma. Mesmo com esses cursos rápidos. Por exemplo, a mãe que, às vezes, ela tem várias crianças, não pode às vezes sair de casa pra trabalhar. Às vezes, se ela for pagar uma pessoa pra tomar conta da casa, o que ela vai ganhar fora, ela não vai conseguir cobrir essa despesa. Então, desse trabalho de conseguir melhorar a renda da família, de dar uma qualidade de vida melhor. E eu sempre fui de visitar muito as casas das crianças. Se eu percebia que a criança estava com alguma dificuldade pedagógica, eu ia avaliar se realmente era uma dificuldade lá na escola de aprendizagem, se a metodologia não estava adequada. Porque essa era a minha função na escola. Assim como é minha função hoje, aqui: de ir na casa ver o que estava acontecendo com aquele aluno. De vez em quando, eu pegava meu carro, meu combustível. De vez em quando eu levava bronca, porque não era pra fazer isso. De ir atrás, de saber o que está acontecendo. Se está faltando, porque que está faltando. De criança, de às vezes levar criança no juiz e dormir meia-noite porque eu fiquei lá com a criança  no juiz e os pais não chegavam pra  buscar. Então, com situações, assim, de vida, de abraçar mesmo, e de não sentir só como você está ali pra ser um profissional. Não. Você está ali pra ser um profissional, mas são crianças que precisam de você também. Muitas vezes, se você fechar o olho e fingir que não viu, ninguém vai ver. E que você pode fazer um pouquinho pra mudar aquela criança, né? Principalmente a auto-estima. Trabalhar com criança carente, muitas vezes, você tem que enxergar, e trabalhar muito com essa valorização dela, da auto-estima. De ver se há possibilidade de ajudar ela a resolver um problema que muitas vezes não é um problema só da escola. Um problema de vida pessoal. De chamar um pai pra conversar e dizer pra ele: "Ó, você está interferindo no desenvolvimento do seu filho." De uma forma que ele entenda, também. Porque se você usar uma linguagem pedagógica, eu brinco “pedagogês”, que às vezes trabalha com professor. Muitas vezes você não consegue chegar nessa família. Então, eu tinha um contato muito próximo. Até tem uma rua lá em Marília, de comércio, que é a Rua São Luís. Quando eu estou com pressa, eu não posso ir nessa rua, porque eu acabo encontrando os pais dos alunos da Fundação e aí eles querem saber se as crianças cresceram, como é que está, se eu estou bem aqui em São Paulo. Então, assim, sempre que encontra, existe um vínculo ainda. As pessoas não esqueceram. Então, eu falo, aí você tem a certeza de que pelo menos você fez um pouquinho do que você podia fazer lá pra comunidade.

 

P/1- Você influenciou de alguma forma.

 

R- De alguma forma. Então, estava sempre em contato com a... com a comunidade. Eu me lembro até uma história, não sei quanto tempo eu tenho.

 

P/1- Não, por favor, ______________.

 

R- Eu tenho uma história também de um senhor que era, não tinha uma vida muito correta, era bandido, mesmo. Então, assim, de roubar. E ele inscreveu os filhos na Fundação, né? E eu lembro que eu fui fazer a visita e a polícia chegou. A polícia, porque geralmente tem as bases que são mais comunitárias, e eles já me conheciam, já sabiam quem eu era. E eu sempre ia com outra pessoa da escola, até porque quando você entra num ambiente, assim, porque também tem favela. Não são tão feias as favelas quanto as daqui, que você vê um aspecto assim, mas existem favelas com um índice de carência muito grande. Muita droga também, muita coisa assim. E eu estava numa casa dessa e a polícia esperou. E ele disse assim pra mim: "A senhora está vendo? Eles não desceram ainda pra vir aqui porque me viram aqui no portão, porque a senhora está aí. Mas eu quero que a senhora leve os meus filhos pra escola porque eu não quero que eles sejam bandidos, como eu. Porque eu estou sempre tendo que me esconder de alguém, né?" Os filhos estão lá, nunca deram problema. Ele falou: "A única coisa é que eu não vou poder ir nas reuniões de pais, mas vai a minha esposa. Porque se eu chegar lá, eu tenho certeza que muita gente vai..." Ele tinha consciência. "Vai se sentir mal com a minha presença." Então, não ia.

 

P/1- E ela ia?

 

R- Ela ia. Nunca me deram um trabalho, não dão até hoje. E eu nunca esqueço do que ele falou. "Os meus filhos não vão ser como eu, porque eu sei que a minha vida está totalmente, né?" Vai preso, volta, acaba ficando nessa condição. Ele deu risada porque falou: "A senhora está aí. A hora que a senhora sair, eles vão me levar." [risos].

 

P/1- Eu já sei.

 

R- Eu falava: "Meu Deus" [risos].

 

P/1- Como alguém convive com essa expectativa de um jeito tão tranquilo. Certo.

 

R- Então, bem daquela situação de entrevista também, que isso foi bem depois do início da escola. De ter levado a Luiza pra escola. Então, a Luiza foi, também, uma criança que me marcou muito. Assim como a gente teve casos de criança com aneurisma, que acabou falecendo. Então, foi assim. Teve momentos na escola, teve bons momentos, mas a gente também teve momentos que a gente teve que trabalhar morte de professor em acidente. Então, teve momentos difíceis da gente lidar, da gente ter que trabalhar e trabalhar com essas crianças de forma de dar a volta por cima e de não ficar lá embaixo no fundo do poço, que foi bem difícil. A gente perdeu uma criança, em 20 dias, com aneurisma. Sentiu uma dor, eu chamei os pais. Às vezes eu punha no meu carro, ficavam bravos. “Você vai sofrer um acidente. Como é que fica, né?" Eu falava: "Mas, às vezes, precisa de um socorro. Até a pessoa pegar um ônibus... aApessoa não tem um carro pra ir lá." Eu já não tinha mais o Fusca 67, já era um Golzinho, que aí já andava melhor [risos]. Já estava mais rápida, já tinha melhorado.

 

P/1- Precisa ser mais rápida.

 

R- [risos] É, eu dei risada porque, assim... E o Cleber, ele acabou falecendo. Era uma criança que entrou na segunda série e ele foi até à quarta série. Então, foram 20 dias, e eu nunca vi tanta união na escola como nesse momento. Tanto dos funcionários com os pais, como das próprias crianças, de aceitar. Porque foi muito rápida a morte dele, né? Então, foi um momento difícil. E depois, da perda de uma professora também, que ela foi fazer uma ultrapassagem, entrou, bateu de frente com uma caminhonete. Ela morava numa cidade vizinha. De a gente ter que trabalhar todo um resgate. E essa é uma professora que me marcou muito. Não porque ela tenha falecido, mas era uma professora muito engajada na escola, que era a professora Viviane. Então, era uma professora de bem com a vida. Tudo o que ela podia fazer pra resolver, ela também não se importava. Ela catava o carro dela, ela ia lá na favela, ela buscava criança, ela conversava. Às vezes, se precisasse dar um banho numa criança, ela levava lá no chuveiro, dava um banho porque veio sujo. Trocava o uniforme da escola porque não queria ver a criança diferente. Conversava com a criança, ensinava. Ensinava a tirar os piolhos. Eram crianças, assim, que marcaram. E o Rafael, que é uma criança, que é  de um grupo de crianças que eu falo que são duas tias gêmeas e elas não funcionam muito bem. Elas têm problema mental e algumas pessoas acabam se aproveitando disso. Então, agora operaram, não tem mais menino que nem diz elas. Que elas tinham menino quase todo ano [risos]. E de pais diferentes. Então, é assim, e a família abandonou. Então, o pessoal das igrejas de diferentes religiões, acabavam dando um apoio de comida, dessas coisas. Só que era uma casa que não tinha nada inteiro. Um armário tudo sem porta, as roupas tudo emboladas. Era uma bagunça total. Então, a gente trabalhava muito com a Vera nessa organização. Só que a gente nunca conseguiu muito sucesso. Então, o que a gente fazia? Quando ia ter alguma coisa, às vezes a gente levava o uniforme do Rafael em casa pra lavar [risos]. Pra levar o Rafael bonitinho, até pra ele não se sentir diferente. E a gente tinha as roupas de ela ir na reunião de pais, a gente pedia pra ela tomar banho, aí ela tomava.

 

P/1- Ela obedecia.

 

R- Obedecia. "Vera, vai ter reunião. Você põe aquele seu vestido que nós arrumamos aí pra você. Está limpo?" "Está. Não, não sujou." Então, se precisa lavar, alguma professora lavava o vestido dela, você acredita? Porque os pais, às vezes, apesar de muito simples, os pais às vezes falavam: "Pôxa, vida." Cheirava mal, às vezes. "Falava, Vera, onde já se viu, você nem prestou atenção, né?" De conversar com ela, de levar. E ela não se ofendia com isso. E ela se revezava. Ela internava no hospital espírita. Tem um hospital, uma casa de repouso. E ela internava, quando ela voltava, a irmã cuidava. Enquanto ela estava internada, a irmã cuidava dos filhos. Quando ela voltava, a irmã se internava. Então era... Até hoje é assim.

 

P/1- E eles estão lá, estudando?

 

R- O Rafael acabou perdendo a vaga depois que eu saí. Até que eu estava lá, conseguiu. A gente conseguiu manter, ia atrás, muito atrás. Depois que ele começou a entrar na fase da adolescência, ele começou a faltar na escola, não ir na escola. Então, assim, a gente dá um suporte até onde dá. E tem coisas que ninguém mais assumiu porque quem assumia era a Viviana, que faleceu, e eu acabei vindo embora. Mas, de vez em quando eu vou lá, brigar com ele. Ele acabou se envolvendo com drogas há pouco tempo. Eu consegui uma escola estadual próxima, que é boa, que a diretora também ajuda a cuidar dele. E eu acho... E, assim, os irmãozinhos que ainda estão na Fundação e os primos estão. E ele acabou perdendo a vaga. Falei: "Está vendo. Era pra você estar lá até hoje, né?" 

 

P/1- Você veio embora, mas não cortou os vínculos.

 

R- Não corta os vínculos [risos]. Até porque a minha família está lá, a família do meu marido. Está todo mundo. Vera Cruz e Marília, minha família é da região. Então não tem como. Acabo indo férias, feriado prolongado.

 

P/1- E como foi essa mudança, quando você saiu de Marília?

 

R- Essa mudança foi em 2000, até tem aquelas fotos do encontro, né? Em 2000, a gente, eu participei de um encontro de orientadores aqui na escola de Osasco. Eu acabei conhecendo a professora Maria Tereza, que é de Campinas, que trabalhou com a professora Ana Lúcia. A professora Ana Luiza, que trabalhou com ela também e ela acabou conhecendo um pouco... Por conta dos relatos, do material que eu trouxe, ela acabou conhecendo um pouco do meu trabalho. Depois que eu voltei, ela ligava sempre pra saber se eu não queria vir trabalhar aqui, que ela já estava aqui no Centro Educacional. Vir trabalhar e fazer um trabalho de socializar um pouco dessa minha experiência com as outras escolas. E aí, a gente, depois de muito discutir, de fazer os acertos. E família, e de ver, porque os meus pais são idosos, também. Eu que acabava assumindo parte da responsabilidade com eles. Até porque eles não obedecem meus irmãos mais velhos [risos]. Só eu que falo, eles acabam cumprindp pra levar em médico, essas coisas. Eu saio daqui na sexta-feira, marco, porque lá todo mundo conhece todo mundo. Já liga pro médico, fala: "Posso levar meu pai aí no sábado?" Porque é o único dia que eu posso, porque eu não posso sair no meio do expediente aqui. Acabam me atendendo de sábado pra levar, porque senão não vai. Os meus irmãos não conseguem, não. Minha mãe ainda é mais fácil, mas meu pai não aceita muito. Só confia se eu for junto. E acaba ficando esse vínculo. E aí, eu estava falando, deixa eu voltar aqui [risos]. Me perdi agora.

 

P/1- Você estava saindo de lá de Marília e vindo pra cá. 

 

R- Isso, de lá pra cá. Aí, falei com o meu marido. E meu marido é uma pessoa extremamente aberta, né? A gente está aí casado desde 1998. A gente se conhece desde 1995. Então assim, ele nunca me proibiu de eu pegar o carro, de ir onde eu quisesse, de às vezes, ligar: "Olha, estou em tal lugar." Não tem isso de falar onde você foi, o que que você fez. Não tem. Não tem muito essa questão de um ficar cobrando do outro. Lógico que a gente tem, sabe da sua responsabilidade um com o outro. Mas não tem muito essa questão. E ele me deu o maior apoio. "Olha, você quer ir, você vai. eEu acho que é uma oportunidade. Se estão te pedindo pra você socializar um pouco disso, e a empresa está te pedindo pra contribuir. Então vai, né?" E aí, eu acabei vindo pra cá em novembro de 2001 pra coordenar o Programa de Alfabetização de Jovens e Adultos. Em 2000, também nasceu, lá com a gente, o programa de alfabetização pra gente escolarizar os pais de alunos, porque existe um índice muito alto de analfabetismo em todas as escolas. E a gente tinha mais de 200 pais, na época, analfabetos. Então, se você não trabalha a família, a valorização também é menor em relação ao que a criança vai aprendendo, ao que a criança vai construindo. Então, se é uma família que tem uma escolaridade mais avançada, ela vai entendendo melhor. Às vezes, então, você pega uma família que não tem estudo nenhum e que ela valoriza o estudo. Apesar de ela conhecer, muitas vezes, de não conseguir ajudar, por exemplo, o aluno nos deveres de casa, até do compromisso do aluno ter com a escola. Mas tem também um outro lado de ele incentivar: "Porque eu nunca estudei, não tive oportunidade. Você tem, você tem que ir pra escola." Então, as faltas na escola são muito pequenas. Isso quando eu estava em Marília. Era difícil você ir atrás de um aluno por falta. Mas, a gente  estava ali todo dia, cobrando, às vezes ele mandava bilhete pelo vizinho, e tinha as comadre que gostava de dar o recado no bairro [risos]. Eu fui fazendo as comadres. E, também, toda a criança que nascia, alguém levava na escola pra ver os irmãos. Eu andava muito pelos bairros. O padre ia fazer a quermesse, ligava na escola: "Ó, a senhora vem na quermesse?" "Vou na quermesse." Acabava indo, né? Acho que esse contato de você estar perto da comunidade e da comunidade que você está atuando, porque se você ficar distante, às vezes até a roupa que você usa pra uma reunião interfere nos relacionamentos com a família. Te afasta. Então, você tem que estar ali pra mostrar o que que a escola quer, o que que precisa ser feito mesmo, porque senão seu trabalho fica em vão. Você trabalha pra ajudar essa criança a se desenvolver, esse adolescente. Não trabalha só porque tem que cumprir trabalho de conteúdo na escola. Então a Fundação não tem esse trabalho conteudista. É um trabalho, mesmo, social muito bonito que, de todos os que eu passei, é um trabalho que ele tem uma estrutura diferenciada. Então, da minha experiência até hoje, na área educacional, e também com o meu emprego que eu trabalhei antes, você vê que esse lado social, ele tem uma trajetória. Ele vai crescendo, ele vai ampliando. Então, a gente vai tomando gosto por isso [risos]. E acaba ficando, né?

 

P/1- E aí, você trouxe esse curso de alfabetização pra cá?

 

R- Isso, pra cá. O curso já tinha nascido em 1999, em Marília. Foi sendo implantado aos pouco. Eu continuei a implantação desses cursos nas escolas da Fundação até o ano de 2003. A escola de Canuanã foi a última implantação que nós fizemos em termos de escola, e depois aqui, Jardim Conceição. Eu acabei ajudando na implantação e na manutenção desses cursos que já estavam aí em andamento desde 1999. De estar acompanhando, de estar fazendo formação dos professores, dos orientadores, que trabalhavam e da direção das escolas. Então, eu trabalhava com diretores, com orientadores e com estagiários, porque... Estagiários ou professores de alfabetização. A Fundação tem um outro lado bonito no programa de alfabetização que trabalha não só com os pais de alunos, que é o objetivo. Trabalha também pessoas da comunidades, mas trabalha com a formação do estagiário de pedagogia. Então, você trabalha na formação, ao mesmo tempo que ele vai trabalhando com o adulto, o orientador tem responsabilidade de formar essa pessoa. E de quase todos os estagiários que são formados nesse programa, ele é aproveitado na escola, como professor de escola. A minha última estagiária aqui de Osasco - que é de 2005, de Dezembro - ela está assumindo a licença-gestante de uma professora minha da quarta série, agora. E vai ampliando esse trabalho. Então, você vai formando na filosofia da instituição, na parte pedagógica. Vai construindo essa pessoa e essa pessoa acaba permanecendo.

 

P/1- Interessante. A formação, a coordenação e a inclusão desse estagiário é você quem cuida? Qual é o seu cargo hoje?

 

R- O meu cargo, hoje, eu voltei pra orientação. Eu fiquei até no início de 2005, ano passado, porque eu voltei da licença-gestante. Eu tinha que viajar. E eu tive bastante dificuldades com o meu filho, quando menor, porque quando eu vim pra cá, ele tinha só dois anos. Dele ter medo: vai viajar, não volta. Que que está acontecendo, de ficar muito medroso, de ter que a gente trabalhar com uma psicóloga em paralelo. Por quê? Eu saía, às vezes, ele estava dormindo. Eu ia voltar só na sexta, no sábado; ele não me via. Então, quando chegava na quarta-feira, ele não comia mais. Ele dava febre, às vezes, e eu tinha uma secretária muito boa, que tomava conta dele. Às vezes até, quando ela percebia que ele estava bem carente, levava pra casa. E ela teve um câncer, e em 20 dias ela acabou falecendo. Então, eu tive que reestruturar toda a minha vida porque eu falei: "Agora chegou essa bebê." Estava amamentando. Eu amamentei ela até 1 ano e 2 meses. Ela está com 1 ano e 8 meses agora.

 

P/1- Novinha.

 

R- Então, está novinha. Então, eu falei: "Se eu for começar a viajar o tanto que eu viajava, eu vou também provocar a mesma situação pro outro." E aí, quando a secretária faleceu, o meu filho falava: "Ela foi viajar e não volta." Ele não entendeu, porque nunca tinha falecido ninguém de dentro de casa, de tão próximo. Ninguém, ele nunca perdeu ninguém tão, da família mesmo. Nunca tinha ido num velório, nada. Apesar de a gente não ter levado. "Mas ela sumiu e não volta." E a gente falava que morreu, mas não entendia o que era “morreu”. O que era a morte pra ele. Hoje ele entende, mas ele falava: "A Vera foi viajar. Você vai viajar, você também não volta." Então virou um caos [risos]. Aí, a Dona Ana - a minha chefia na época - com o Seu Antônio, eles decidiram... Eu queria mudar pra qualquer lugar, qualquer função. Não importa se tiver que descer de função, isso pra mim não vai ter nenhuma dificuldade. Eu só quero poder lidar com isso, com os meus filhos. Trabalhar, porque eu trabalho com criança, trabalho com adolescente, trabalho com adulto. De repente vou falhar com a minha família? Que educadora eu vou ser desse jeito, né? [risos] A gente tem muito o problema da consciência, também. E aí, comecei a trabalhar. Eu vim pra escola, me arrumaram a vaga de orientadora. "Você aceita?" Eu falei: "Não, vou estar perto." E meu filho começou junto comigo na Fundação. Então ele ficou ano passado inteiro junto comigo. Até foi dispensado da psicóloga, precisava de mãe [risos]. 

 

P/1- Sarou.

 

R- Sarou. E a minha filha também ficou muito tranqüila nessa época. Agora, já é mais tranqüilo. Por exemplo, eu já consigo sair, já consigo deixar. Diferente da época do ano passado que eu não podia mais viajar. Que nem eu falei: "Eu não posso prejudicar a empresa, porque o meu trabalho é lá, em loco. Não adianta eu querer fazer um trabalho só à distância." A gente faz um trabalho à distância. Fazia vídeo conferências, fazia um trabalho por telefone, orientar por e-mail, de avaliar material, de analisar. Mas não um trabalho que dava pra fazer à distância só. Você tem que ir lá, mesmo, conhecer. Eu conheci o Brasil inteiro nesse trabalho. Foi muito importante pra mim. Tanto pra mim, pro meu lado enquanto pessoa, quanto profissional mesmo. De ver outras realidades, de ver a formação como é precária, às vezes, em determinada região. Quanto que as pessoas se esforçam, né? E principalmente a garra das pessoas na Fundação, de valorizar, mesmo, o trabalho. Isso em qualquer escola. Como você estava comentando comigo, qualquer escola você vê esse perfil. A pessoa veste mesmo, eu falo que veste a roupa e toma isso como parte dela. 

 

P/1- Então, e nesse tempo que você trabalhou, tanto em Marília como nessa outra parte que você viajou e a agora, tem algum caso que tenha te marcado de transformação de vida? Já que você entrou por esse caminho aí, de falar das pessoas.

 

R- Olha, são vários. Vários mesmo. Eu tenho...

 

P/1- Algum  mais especial.

 

R- Especial. Olha, eu fui visitar uma aluna, aluna de E.J.A.. Isso me marcou bastante. Lá na escola de Gravataí. Quando eu visitei, ela estava fazendo Medicina. Então, ela foi uma aluna que fez Ensino Fundamental, no Telecurso. Fez, prestou vestibular, fez Ensino Médio na Fundação - que é o antigo Colegial, que a gente chamava na época dela. E ela fez todinha através da teleducação. E, quando eu fui visitar, ela foi lá na escola conversar comigo. Então, isso foi gratificante. Ela estava na segundo ano de Medicina. E eu fui assistir uma aula com ela. Uma senhora de 70 anos.

 

P/1- Olha.

 

R- Mas a força de vontade que ela tem, né? De pessoas lá de Marília que faziam alfabetização, que hoje já concluíram o Ensino Médio. Foi muito interessante de ver essa mudança de vida da pessoa. Da pessoa estar melhorando, por exemplo, profissionalmente. Ela era uma cozinheira. Tem uma senhora que marcou muito, que é a Dona Dora.  Ela era cozinheira de uma, tipo uma cantina lá em Marília. Todo mundo acaba indo lá comer a esfirra e comer o, que ela faz, e o quibe, porque é muito bom [risos]. 

 

P/1- Famoso.

 

R- E as pessoas tinham que ler as receitas novas, ler pra ela. Por quê? Porque ela não conseguia ler a receita. Hoje não. Hoje ela lê tudo quanto é livro. O que ela tem de livros de receita. Tem livros na casa dela. De vez em quando eu passo por lá. 

 

P/1- [risos] Vai comer uma esfirra.

 

R- Comer uma esfirra. Então, as mudanças de vida que vão ocorrendo dessas pessoas. Aqui, esse ano, a gente está com cabeleireiro que foi pra Alfabetização II, que é o Seu Francisco. Ele é muito dinâmico. Eu já fui no salão de cabeleireiro dele, visitar ele lá no salão porque eu gosto de ver na prática. Ele não lia e não escrevia. Então, ele vem pra aula de gravata. Você vê? Ele vem todo chique pra aula, todo arrumado, perfumado. Tem dia que eu falo: "Seu Francisco, eu estou com alergia. Não posso ficar muito perto do senhor." Que ele dá risada que eu começo a espirrar de tanto perfume que ela passa. Todo produzido. Mas, ele não lia o rótulo. Um excelente cabeleireiro, mas não lia um rótulo. E conseguiu uma carta de motorista. Eu não sei de onde. Ele dirige pra tudo quanto é lado, mas não lia uma placa [risos]. 

 

P/1- ________________

 

R- E, assim, é outro hoje. Ele deu um depoimento agora, no final do ano, ele chorou que nem criança. Porque ele falou: "Hoje eu consigo. Eu não preciso de ninguém mais pra, quando lança um produto, pra eu conhecer. Hoje eu leio as revistas. Eu consigo." Eu falava, antes ele via as fotos de corte, mas ele não sabia o que estava escrito embaixo. Tinha que chamar alguém pra ler. E geralmente são pessoas que vieram da Região Norte, Região Nordeste, que é o caso dele. Estão aqui na alfabetização, e as demais também, nas outras regiões, que se deslocam. E o Sul, que tem uma cultura de não deixar a mulher ir pra escola. Então, tem gente que vai escondido pra aula da alfabetização, muitas mulheres. De, às vezes, ter que faltar uma semana porque o marido não foi trabalhar à noite [risos]. 

 

P/1- Atualmente acontece isso?

 

R- Atualmente acontece isso. São coisas que nessas andanças, eu achava que não existiam, mas que existem. Irecê, interior da Bahia, até acho que eu tenho a carta dela comigo. Acho que eu guardei isso. Foi muito interessante que, com a alfabetização, ela não tem mais que ganhar um pé do chinelo antes da eleição e o outro só depois que o candidato dela ganhou a eleição. 

 

P/1- Nossa.

 

R- Tem voto de cabresto, ainda, né? Então, são coisas que você acha que não existem mais e que acabam existindo. Uma carência muito grande, que nem no trajeto de viagem eu acabei parando o táxi no meio da estrada, porque eu passei por muitas aventuras. Porque os táxis, gente, não é bonitinho igual os nosso. Bate a porta, amarra arame pra você não cair na estrada [risos]. Um senhor bate...  Foi muito interessante, bate a poeira pra você sentar no banco e levanta aquele poeirão. Você tem que sentar lá e ir embora, não tem outro. 

 

P/1- Você senta na poeira.

 

R- Não, era. Então, são muitas histórias que eu acabei conhecendo. E valorizando algumas coisas que, às vezes, você estando em um lugar só - que nem eu estava só em Marília - jamais eu ia conhecer esse outro lado e conhecer esse trabalho amplo da Fundação. Hoje eu tenho consciência da grandeza que tem esse trabalho, tanto de... Enorme o trabalho, tanto social… Se você for ver a nível social, a nível de conhecimento, o que que ela possibilita, pras pessoas, é muito grande isso. Tem um elo muito grande. E também a dimensão que isso tem físico, porque cada escola numa localidade. Hoje quebra um negocinho aqui, conserta ali, arruma ali. Está sempre tudo, qualquer hora que você  estiver nas escolas, tem que estar tudo em dia. Tem que estar tudo muito bonito. E a alegria das pessoas. Eu não vejo ninguém triste por aí, nas escolas que eu fui, de estar às vezes descontente. É muito difícil você encontrar as pessoas numa situação de descontentamento. Mas está lá porque gosta. E, principalmente, porque gosta de trabalhar com aluno. Desde a cozinheira, da pessoa que faz a faxina, até o professor, o diretor. 

 

P/1- Gostam de estar lá.

 

R- Gostam de estar lá. E tem gente que a gente precisa mandar embora. Tem dia, porque acabou o horário, falar: "Pôxa, inspetor está chegando e você está aqui. Tem que ir embora, tem que ir embora." [risos]. O pessoal não quer embora muitas vezes. De se envolver mesmo, de abraçar.

 

P/1- Marlene, você já falou pra gente que você é casada, não é? Qual é o nome do seu marido?

 

R- É o Alessandro. Nome inteiro?

 

P/1- É. Isso.

 

R- O Alessandro também teve toda a paciência pra eu vir pra cá. Me instalei aqui, fiquei 8 meses aqui em São Paulo sozinha, sem ele. E minha irmã teve que vir comigo. Essa minha irmã que é meio mãezona, que é a Maria. Ficar comigo esse tempo até eu conseguir uma pessoa que ficasse em casa e o Alessandro vir pra cá. Porque ele era funcionário do Sesi, era advogado do Sesi. Cuidava da parte de RH da região.

 

P/1- Vamos voltar só um pouquinho. Como você conheceu o Alessandro?

 

R- Ah, você quer... Bom, o Alessandro é uma história que... Quando eu comecei a trabalhar na Fundação, eu tinha um noivo de 3 anos. Ele não aguentou eu trabalhando na Fundação [risos]. Acabou indo embora. Foi muito engraçado [risos]. Eu voltei nessa parte só pra vocês terem ideia, porque você acaba se envolvendo no trabalho. Tem a sua vida pessoal, mas você tem que tomar um certo cuidado. E no início da escola, esse trabalho foi muito pesado. E ele era uma pessoa extremamente com condição financeira muito boa. Então, ele achava assim: "Você não precisa fazer esse esforço todo, porque a gente vai se casar e você não vai trabalhar mais." Então, um dia ele chegou e falou: "Ó, você vai fazer uma opção: ou você vai ser uma boa profissional, ou você vai ser uma boa esposa." Falei: "Então, tá, vou ser uma boa profissional." E acabei fazendo essa escolha. Então, eu conheci o Alessandro. A gente terminou o namoro muito no início da escola, acho que foi em abril, logo que inaugurou a escola. Não suportou. Imagina até hoje. Ele tinha falecido já, eu brinco. De vez em quando eu encontro, eu dou risada. Agora, a gente consegue rir [risos]. 

 

P/1- Agora.

 

R- Agora, né? E aí eu conheci o meu marido no final do ano de 1995, que eu conheci o Alessandro. E foi muito interessante porque eu adoro fazer, adorava fazer caminhada, porque agora eu estou com pouco tempo. Com as crianças pequenas não dá pra caminhar muito. Eu conheci o Alessandro fazendo caminhada. Então, ele passava correndo, voltava, passava. Ele conseguiu me namorar depois de muita insistência de vai e volta. Ele falou que ele correu muito, porque eu ia andando, ele corria pra ir e voltar várias vezes. Aí, teve um dia que… A gente nunca deu abertura pra ele parar e conversar, porque se a gente estava tomando água de coco, eu e essa minha amiga, a gente saía e ia embora. A gente até achava ele meio petulante porque a gente já tinha desconfiado de tanto que ele andava. [risos] Aí, chegou um dia que a gente... Às vezes costumava sair de final de semana, tinha um barzinho que a gente costumava freqüentar. Tinha um dia que eu estava sentada na mesa, ele chegou. Aí, falou assim: "Hoje você vai conversar comigo." Eu fiquei olhando pra cara dele, eu falei: "Mas, não estou te entendendo, né?" Eu falei: "Pega uma cadeira e senta" Aí, começou a conversar, porque "Eu chego, vocês saem." Aí ele estava bravo. Foi muito... [risos].

 

P/1- Ninguém se interessava?

 

R- [risos] Ele ficou bravo. Acabou começando o namoro assim: ele muito bravo comigo. Eu olhei e falei: "Mas pôxa vida, eu não estou acostumada com uma coisa assim. Uma petulância dessa." Mas, eu falei: "Ó, se você se acalmar, você pode até ficar e conversar, porque eu não tenho nenhuma satisfação pra te dar." Essa minha amiga estava junto, começou bem por aí. Aí, a gente começou a sair, essa minha amiga saía. A gente não começou a namorar aí, não. Aí, começou sair, se encontrar. E aí o grupo de amigos. Ele trazia mais amigos, a gente conversava. De tanto sair junto, a hora que a gente viu já estava namorando. De ir no cinema. [risos] De assistir filme, né?

 

P/1- E aí, namorou quanto tempo?

 

R- Eu namorei de 1995 até 1998.

 

P/1- Aí casou?

 

R- Aí casei.

 

P/1- Como foi o casamento?

 

R- O casamento, assim... A gente queria uma coisa bem simples. E até falava que eu não me importava muito com festa, com vestido de noiva, com tudo. Mas era o sonho do meu pai que pelo menos uma filha fizesse uma festa e casasse de noiva, com roupa de bolo de noiva, eu brinco. Eu queria uma coisa muito simples, fazer uma coisa simples. Mas a família do meu marido também, queria uma coisa mais tradicional. Ele é o primeiro filho, né? O primeiro filho que ia casar. Então a gente resolveu fazer tudo bonitinho, tudo direitinho. Com a festa, meu pai entrando na igreja. Tudo bonitinho. 

 

P/1- Direito a tudo.

 

R- E nessa época, eu já morava sozinha. Eu não contei essa parte pra vocês, né? Que eu comecei a trabalhar na Fundação, tive que trocar de carro porque o Fusca não estava agüentando mais. Aí, começou a melhorar o salário, eu comprei um carro; mas ainda fiquei com o Fusca um tempão na garagem. [risos] Não queria me desfazer do Fusca, um apego. E acabei comprando um Golzinho que era aquele mais antigo, mas que andava bem. Na época era um carro novo, era um carro aí semi-novo. Não era zero, mas semi-novo. Depois, eu consegui comprar uns outros, foi melhorando. E... eu estava falando dessa história. E aí, eu comecei a pegar chuva de granizo na estrada. É pertinho: Vera Cruz a Marília dá 12 quilômetros. Teve um dia que estourou um pneu do meu carro, espatifou. Eu perdi o controle do carro, fui parar no acostamento. Aí eu parei, não tinha quem me socorresse, tudo escuro. Ainda bem que eu sempre carregava lanterna. Tive que trocar o pneu do carro. Então, foi muito difícil eu conseguir. Aí, chegou um caminhoneiro, em vez de ele me ajudar, ele me apavorou. Porque ele falava assim: "A senhora não vai conseguir fazer isso. Você não vai conseguir fazer isso. Eu não vou te ajudar."

 

P/2- Ai.

 

P/1- Nossa.

 

R- E aquilo, eu tremia. Eu fiquei morrendo de medo. Aí, o vizinho passou, que trabalhava em Marília também. Isso 11 horas da noite. Graças a Deus ele tinha ido na oficina dele, era mecânico lá em Marília. E ele parou. Quando ele parou, eu falei: "Olha, esse senhor em vez de me ajudar, ele está me incomodando. Se o senhor  conseguir sair, ir embora, porque não dá mais, né?" Não respondi pra ele porque eu estava sozinha. Não podia nem falar nada. Eu morrendo de medo. Aí, depois dessa história, que ele chegou em casa comigo, depois que trocou o pneu. Ele me escoltou até em casa. Era o meu vizinho de frente. Ele falou: "Vou falar com o seu pai. Você não pode ficar na escola até esse horário da noite e voltar sozinha e acontecer um negócio desse." Aí, meu pai resolveu montar um apartamento e ficar em Marília. Aí, acabou montando. Depois eu acabei mudando desse apartamento pra outros apartamentos maiores, até eu conseguir comprar meu apartamento. Quando eu casei, em 1998, eu já tinha metade do apartamento pago, com o meu trabalho, com o meu salário. Aí, o que a gente fez? O Alessandro vendeu tudo o que ele tinha na época pra acabar de quitar o meu apartamento porque ele também não queria ficar. Queria ir morar na minha casa e, assim, "Pôxa vida, eu quero fazer alguma coisa também." Então, na época, a minha condição financeira estava  melhor que a dele, porque ele era advogado iniciante. Então o Sesi, depois ele foi subindo e foi melhorando de cargo. E o Sesi acabou investindo mais. Acabou dando até pra gente comprar uma casa, uma outra casa num condomínio. Então, a gente foi melhorando aos poucos. E no casamento a gente foi morar nesse apartamento que era meu na época. E a gente juntou tudo. Então, foi assim. Foi tranqüilo por que eu sempre fui de conversar, de tentar pesar: "Olha, o que que você está pensando? Eu estou pensando nisso." De chegar num acordo sem discutir. Eu não lembro de nenhuma discussão que a gente teve até hoje, assim, séria. Às vezes de falar alguma coisas e já morreu ali. Mas, assim, nada de briga, de separar, de ficar. Nem no namoro, quanto nem casamento, de brigar e falar: "Não, acabou tudo!" A gente não teve esse tipo de... E ele tinha saído de um relacionamento muito conturbado que era bem assim. Bem... A noiva dele era bem assim. Então, ele estranhava um pouco porque diz que eu não ligava pra nada. [risos] Falava: "Não é que eu não ligo. É o meu jeito de ser, né?" Então, a gente tem até hoje essa convivência. Eu vim pra cá...

 

P/1- E os filhos? 

 

R- Quando eu vim pra cá eu já tinha o Felipe. O Felipe nasceu em 1999 e foi muito interessante que eu fiz uma videolaparoscopia, porque a médica falou: “´Ó, você adora trabalhar com criança, adora criança. Eu vou tirar uma aderência.". Eu tinha uma aderência bem grande. Fiz uma videolaparoscopia e nessa cirurgia ele falou: "Ó, suas trompas estão obstruídas. Você não vai engravidar sem um tratamento. Então eu quero que você já esteja ciente." Chamou o Alessandro também, antes de casar. Eu fiz um check-up, ele também, que pra arrumar um filho. Vocês vão ter que fazer um tratamento aí. Vai ter que ter paciência. Eu acreditei no médico [risos]. 

 

P/1- Imagina.

 

R- Três meses depois eu casei. E eu engravidei logo em seguida, depois da lua-de-mel. Quando eu voltei, eu liguei pro médico, falei assim: "Ai, estou super diferente. Estou me sentindo mal. Minha barriga está super estranha, parece que estou toda inchada. Eu acho que eu estou grávida porque eu já fui lá na farmácia, e fiz um teste de farmácia." Ele falou: "Marlene, aquela conversa que eu tive com você. Acho que você está… Vai no psicólogo." Eu falei: "Não, antes de eu ir no psicólogo, eu quero ir aí." [risos].  Aí, fui no consultório e realmente eu estava grávida. E o Felipe chegou de 8 meses. Ele chegou até antes da hora. Ele é sempre, ele também não é muito de parar, não. Ele está brincando aqui, daqui a pouco ele já sai, vai fazer outra coisa. E o Felipe foi muito assim, muito bem-vindo porque, pela notícia que eu tinha anterior, né? E o Felipe chegar assim. Então, sempre meu sonho era ter um filho. Só que a gente estava acabando de se adaptar com a vida, porque quando você está solteira, namorando, é uma coisa. E se adaptar com o marido, casar, juntar todas as coisas no meu espaço, que era só meu, dividir o espaço, [risos] de adequar tudo. Meu marido é extremamente organizado. Eu também gosto de coisa organizada, mas eu não vou ao extremo. O dele até os cabides é tudo por um lado só. [risos] Mas, aí eu acabo deixando ele. Ele não mexe nas minhas coisas, eu também não mexo nas dele. Eu nem mexo porque eu desorganizo. [risos] Ele é impecável. Então, a gente acaba dando certo porque você vai conversando, dialogando mesmo. E o Felipe foi o primeiro neto. Então foi bem paparicado. Foi um momento, assim, bem mágico da vida da gente. De estar vendo o Felipe até os 2 anos, a gente estar ali junto. Estar na escola de Marília, e quando eu vim pra cá, uma mudança total. Pra mim foi bem difícil pra poder adequar e poder... Tinha pouco tempo em Marília, mas eu estava mais presente. Aqui, não. Eu estava muito pouco presente por conta das minhas viagens, das minhas coisas, de ter que sair. Às vezes o taxista que me levava da Central Táxi, ele dá risada até hoje que ele me encontra, que eu ia chorando até o aeroporto. Chegava lá, eu parava de chorar de repente. Ele falava: "Nossa, né?" Falava: “Eu sei que não vai ter mais jeito. Eu vou ter que ir pro avião, né?" [risos] Isso foi...

 

P/1- E a menina, depois?

 

R- E a menina também foi. Foi sem esperar, ela veio de surpresa. Foi, também, muito bem-vinda. Foi como o outro, veio de surpresa. 

 

P/1- O nome dela?

 

R- É Ana Luiza. A Ana Luiza, eu fiz um tratamento pro mioma que eu tinha, que estava extremamente grande. Precisava fazer uma cirurgia, mas eu falava: "Ó, depois da outra viagem, vou ver se eu consigo parar. Eu consigo fazer." Aí, eu fui tentando com medicação reduzir. Reduziu o mioma. Aí, o médico, esse mesmo médico que fez a primeira cirurgia, ele falou: "Ó, vai fazer um tratamento pra engravidar. Então vai parar a medicação." Porque eu fiquei dois anos sem menstruar, e eu não menstruei antes de engravidar da Ana Luiza também porque eu parei o tratamento. Três meses depois eu estava grávida. Aí, eu estava lá em Cuiabá, fazendo um trabalho na escola de Cuiabá, e participando do ENEJA, que é o Encontro Nacional de Jovens e Adultos - que cada ano é numa região diferente. Isso é nacional, esse encontro, que envolve ministério da Educação. Então, fui representar a Fundação. Tem feira de material, então é um encontro bem interessante. Eu não podia ver ninguém com doce. Lá, o pessoal gosta muito de doce. Tem uns doces com frutas da região, umas coisas diferentes. E a outra supervisora que estava comigo, ela adorou. A Neusa, toda hora ela queria comer doce. Eu não podia nem ver os doces. Aí, eu falava: "Ai, eu acho que o vôo, eu não sei." Mas, ela falou: "Mas, você chegou no vôo no domingo, já é quarta-feira. Você continua passando mal, né?" [risos]. E eu nunca fui de me sentir mal. Aí, eu falei assim: "Ai, eu estou super estranha." Aí, ela falou: "Ah, acho que você está grávida." Aí, fomos de novo na farmácia [risos].

 

P/1- Lá foram.

 

R- Fazer o teste. Comprar o teste. Fiz o teste, estava grávida de novo. Aí liguei de lá pro médico, ele falou: "Marlene, de novo a mesma história." [risos] Eu falei: "Ah, doutor, eu acho que o senhor tem rever aí os seus laudos porque não está batendo com os meus, né?" Mas, eu falo que é Deus, quando algumas coisas que você não escolhe, né? 

 

P/1- É verdade.

 

R- E aí, chegou a Luiza. Saudável.

 

P/1- E como foi a escolha do nome da Luiza?

 

R- Ah, a escolha do nome da Luiza tem a ver com a Luiza de Marília. [risos] Essa Luiza que é a criança que eu falei que estava comendo farinha. Ela era uma criança que era muito apegada. Ela passava na minha sala pra me ver, conversava. Sempre que acontecia alguma coisa, ela vinha contar, né? Ela ia muito na minha sala. A professora já falava: "Ó, Luiza, eu vou dar pra você alfabetizar, fazer tudo, porque ela não saía da sala." É uma criança que se apegou. E quando eu vim embora, essa criança chorou tanto, tanto, que eu falei assim: "Você também acaba provocando, às vezes, algumas situações que depois fica difícil, né?" Mas, era um vínculo bastante forte. É como se você pudesse colaborar com essa criança de alguma forma. E a gratidão que parecia que a criança tinha. Mas, eu falava: "Não tem que ter gratidão porque eu fui lá na sua casa. Você tem que fazer as coisas direitinho, estudar pra ser alguém na vida." E o pai é preso por tráfico de drogas. Então, quando ela vai ver o pai lá na cadeia, ela acaba voltando muito mal. E os filhos, tudo pequenininhos. E mãe é de uma igreja evangélica que ela não pode tomar anticoncepcional. Então era um filho por ano. Ela acabou engravidando, ainda com o marido na prisão. Então, era uma história de vida muito difícil. Muito difícil conseguir comida. Então, às vezes eu ligava pro pastor, porque eu fui ecumênica. O pessoal espírita que tinha cesta. A gente arrumava. Depois que eu estava na escola, sempre a gente mandava. Os professores, às vezes, tinha essa parte social, também, da gente reunir e mandar coisas pra Luiza. Até as crianças ficarem um pouco maiores pra mãe conseguir trabalhar. Então, a mãe, ela começou a trabalhar depois de um tempo, com uma professora. Depois foi indicada pra trabalhar com outras pessoas e conseguiu melhorar. Se não me engano, hoje, o pai está solto. E o pessoal da igreja dela também acabava ajudando muito. Ela acabava recebendo ajuda. E isso me tocou muito porque eu sempre vim de uma família simples, humilde. Mas, assim, de muita fartura, de muita coisa, de fazenda, de sítio,  de ver tudo muito, e de você ver... Foi a primeira vez que eu tive contato com uma criança comendo farinha e água, por não ter o que comer. Aquilo que me deixou muito mal. E aí, eu acabei ficando muito próxima da Luiza e dos irmãos, né? E aí, acabou tendo uma Luiza.

 

P/1-Acabou tendo uma Luiza.

 

R- E meu filho, que se fosse, o Luís Felipe se fosse menina já ia chamar Luiza, né? E aí, acabou ficando Luís Felipe. Tem nome composto. E como o dele é composto, aí meus pais: "Não, tem que dar um nome pra Luiza composto, também." Aí, minha avó era Emiliana e chamavam de Ana. E a parteira da minha mãe também, que socorreu minha mãe no parto, porque eu nasci 20 anos depois. A minha mãe tinha que passar por uma intervenção cirúrgica, só que não deu, era na fazenda. Rodou a ponte, ela não conseguia ir pra cidade, de jeito nenhum. Não tinha como tirar a minha mãe do sítio. Eu nasci, foram 5 dias de trabalho de parto. E essa senhora era minha madrinha, também era Ana. E eu também gostava muito dela. Hoje ela já é falecida, né? Eu gostava muito de ir na casa da Ana. Até ela morava muito próximo porque depois que foi vendido o sítio, ela acabou mudando pra Marília. E uma vez por semana, quando eu trabalhava na Fundação, isso até 1999, que ela era viva, eu almoçava toda a quarta-feira com ela. Porque eu saía da escola, ia pra casa dela almoçar. Daí, tem a avó que é Ana, que eu não conheci, que chamavam de Ana; a minha madrinha que era Ana; e ficou Ana Luiza. E eu brinco com a Ana Luiza aqui que eu falo que ela tem personalidade bem forte. Eu falo: "É igual à senhora de personalidade." "Acho é o nome." Ela brinca.

 

P/1- Na sua opinião, qual a importância da Fundação Bradesco pra história da educação brasileira?

 

R- Olha, eu acho que eu tive contato com o pessoal de Ministério da Educação, nessas andanças todas pelo..., de Conselho Estadual de Educação e eu vejo que tem uma dimensão enorme esse trabalho que a Fundação, porque é de Norte a Sul, né? É lá da ponta. Eu falo lá do Equador porque eu fui pra escola de Macapá. Fui à linha do Equador, tirei foto, e até o Sul. Então, você vê a contribuição que isso tem. E eu não vejo a Fundação fazer tanta mídia disso, de fazer... Atualmente, até que se tem divulgado porque quando eu entrei na Fundação não se divulgava. Então, é aquela história de se dar com uma mão e esconder. De não ter uma divulgação social, mas ao mesmo tempo ter uma preocupação social mesmo.

 

P/3- Trocar o CD.

 

R- Nossa senhora, vocês vão...

 

P/2- Acabou o segundo.

 

(Fim do CD 2/3)

 

P/1- Então, Marlene, vamos voltar. Você estava falando da importância da Fundação pra história da educação brasileira. Você...

 

R- Eu acho que eu estava falando desse processo de construção, né? E, assim, quando você fala com algumas pessoas... Até porque a nossa política, ela vai mudando muito. Não tem muita memória nessa história política, em função dessas mudanças. Porque começa um programa de educação, acabou aquele espaço de tempo, esquece tudo. Vamos começar de novo, como se não aproveitasse muito a situação. Então, nessa mudança toda, nessa trajetória, o que que eu percebo? O pessoal não conhece muito desse trabalho que a Fundação faz. Isso a nível nacional, com as pessoas que mexem com Educação. Apesar que hoje ela está sendo mais divulgada, ela está sendo bem... Mas, assim, a importância que isso tem, independente de divulgação na mídia, pra mudança na vida das pessoas. Vocês não têm idéia da dimensão que isso tem. Eu que pude andar um pouquinho pelas escolas, de conhecer, da importância, de você olhar lá no Norte, olhar no Sul. Do envolvimento dessas pessoas, né? Que eu acho que se as pessoas, se a nossa sociedade tivesse pessoas comprometidas com os ideais que o Seu Amador propagou um ideal que continua, que prevalece... Se as pessoas fizessem um décimo do que a Fundação faz, eu acho que a gente teria um país muito melhor.

 

P/2- Você chegou a ter algum contato com o Seu Amador, não?

 

R- Não, não cheguei a ter.

 

P/2- A Denise e com a Dona Ana.

 

R- É a Denise, a Dona Ana, né?

 

P/1- E o que você acha, qual a importância desse projeto que está sendo feito dos 50 anos, esse resgate da memória?

 

R- Eu acho que é super interessante porque isso acaba ficando adormecido. Que nem, hoje eu ouvi histórias da Dona Ana que eu jamais sabia. Então, isso de poder divulgar, das pessoas poderem conhecer um pouquinho das pessoas que estão lá. Porque eu falo que quem faz a história são as pessoas. Você pode ter um prédio belíssimo, mas se você não tiver pessoas ali engajadas, envolvidas, ter todos os instrumentos à sua disposição - tanto tecnológicos, quanto qualquer instrumento que você precisa pra estar trabalhando na área da educação - de nada ia adiantar se você não tivesse essas pessoas. Eu acho que é super importante esse trabalho que vocês estão fazendo de poder resgatar. E até das pessoas poderem se conhecer, porque mesmo, às vezes, em um ambiente de trabalho,eu acho que eu estou contando toda essa história pra vocês. Muitas pessoas não conhecem essa história, ou participaram de parte dela, mas não conhece o todo, né? Tem pessoas que passaram pela sua vida, outras que vão passar ainda. Existe todo um trabalho de construção que eu acho que é importante. E até pra você rever, porque o que eu fiz hoje foi rever toda uma trajetória. Desengavetar as histórias [risos]. Ontem com as fotos, né?  Essa semana que eu passei recolhendo algumas fotos, de fotos que eu sei que está em Marília, de até poder organizar mentalmente, mesmo, algumas questões que estão lá, adormecidas. Isso é super importante. Tanto pra pessoa que está aqui participando desse momento, que eu acho que é muito rico, né? Que a Dona Ana, eu falei pra ela que eu sou muito grata de poder ter sido escolhida pra falar um pouquinho de Marília. Porque é uma coisa que vai permanecer, que outras pessoas vão conhecer essa história. E o quanto essas pessoas, às vezes, estão lá na escola, e eles não têm, nem elas têm idéia de quanto elas contribuem pro desenvolvimento da Fundação. 

 

P/1- O que você achou de ter participado da entrevista?

 

R- Ah, gostei muito [risos]. Gostei muito e, assim, foi um momento pra mim, também, poder rever algumas coisas e isso é crescimento. Eu acho que a partir do momento que você revê, você consegue olhar pra frente e enxergar outras possibilidades, então... Como você estava falando durante a entrevista foi aprendendo algumas coisas, foi falando algumas coisas que pode... A gente vai aprendendo, vai se organizando, que acho que todo ser humano tinha que ter uma oportunidade de parar às vezes, em alguns momentos, porque a vida da gente, a rotina é muito acelerada, de rever algumas coisas, de poder estar repensando algumas coisas. E até valorizar o que você vivenciou antes, porque você é fruto desse alicerce. Eu falo que ninguém começa a casa pelo telhado. Tem todo um alicerce pra você ir construindo. E sem um tijolinho, você não consegue. Um tijolinho que faltar, né, então... Uma coisa vai dependendo da outra. Então você vai crescendo com isso. Com os erros, com os acertos. Acho que eu tenho muito pra crescer ainda na instituição, em termos de aprendizagem. Eu acho que a Fundação possibilita isso pra gente, de crescimento. Todo dia você está aprendendo coisas novas. Você está colaborando com outros, mas aprendendo com aquele outro também. Até porque eu sempre que entrevisto alguém na escola, pra fazer seleção - tanto de aluno quanto de profissionais, de professores - eu vejo que: "Ah, mas isso eu não domino ainda. Não, mas você domina algumas coisas que eu também não domino.” Então, ninguém é 100% em tudo. Hoje mesmo, eu falei pra uma senhora, ela diz que lava e passa roupa e passa _______. Eu falei: "Se a senhora der  uma camisa pra eu passar, eu não vou conseguir." Como a senhora não sabe fazer nada, né? Ela falou: "Ai, tudo o que eu faço não serve, porque eu não leio e não escrevo." Atendi ela antes de vir pra cá, e ela me disse, Dona Isabel: "Não sei fazer nada." Claro que sabe fazer muita coisa. Então, o ser humano é assim. Às vezes uma parte que você não domina muito bem, às vezes, você fala: "Ah, pôxa vida, não sei nada. " Você sabe muito e pode contribuir muito com outros. E também tem muito pra aprender. Acho que tem que ter humildade pra dizer “Não sei, vou aprender, buscar.” Não estacionar, não parar no tempo. Mudar pra Osasco, pra mim, foi uma mudança de identidade, porque eu tive que descobrir desde a padaria, o açougue, o supermercado [risos]. Porque lá em Marília era tudo muito cômodo. Marília, Vera Cruz, eu já passava, já tinha até caderneta, né? Até isso no interior.

 

P/1- No interior ainda tem.

 

R- O Seu Zé sabe que no dia 30 você passa. Ele passa o tíquete e você já consegue pagar tudo as suas contas. Aqui, não. As pessoas não têm o mesmo vínculo, a mesma... Então, me adaptar com isso, apesar de eu ser uma pessoa - que nem diz os adolescentes lá escola - meio descolada. De estar vendo, não estar presa a uma coisa como se aquilo não pudesse mudar nunca. Não, não. Não dá pra ser assim. Então vamos ver como que dá pra ser. Vamos fazer o melhor que pode, né? E não ficar assim. Apesar de eu ter todo um vínculo com Marília, eu não sou muito apegada nas coisas que eu deixei. Eu morava numa casa, tenho a casa até hoje, está lá. É um condomínio fechado, com tudo área verde, que eu escolhi a casa pro meu filho poder ter uma vida mais tranqüila. Poder brincar na rua como eu brinquei. Aí, eu trouxe ele pra Osasco. Então, você vai mudando a partir das situações que são apresentadas. É lógico que você vai avaliando cada momento. E eu cresci muito com isso. E o meu marido acabou vindo pro Banco também. Então, ele não conseguiu vir pelo Sesi. Acabou vindo pro jurídico do Banco. Também teve que deixar toda uma estrutura que ele tinha no Sesi, já de crescimento, de vislumbrar outras possibilidades, pra poder me acompanhar, começando do zero. Que também está crescendo muito. Então, está aprendendo outras coisas. Isso é bem gratificante. Ele está aqui sempre, vocês vão ver. Ele está sempre aqui no prédio. Então, os dois muito próximos trabalhando. Isso foi super importante pro Felipe, pro meu filho. Da gente vir junto, porque a gente estaciona na vaga da escola, ele está no prédio azul, eu estou no prédio ali da escola. Então, a gente almoça junto, sai junto. Então está muito família. Muito próximo. Isso tem contribuído bastante. E pra nenê também, pra ter um suporte, porque eu falo que o que você conseguir fazer até os 7 anos com a criança é fundamental. Depois dos 7 anos, você pode melhorar algumas coisas, mas a formação de personalidade da criança é até os 7 anos. Então, se você falhar nesse espaço e não conseguir fazer alguns acertos, você pode colher uns frutos. Vai depender do como você trabalha essa questão. Então, eu penso muito nessa questão. Tanto pras crianças que são confiadas lá no meu trabalho de orientação, os adultos, quanto a minha vida pessoal e familiar. A gente também tem esse lado, né? Sempre tento equilibrar da melhor forma, pra você não viver só muito uma coisa, esquecer da outra. Então, tem que ter esse equilíbrio. E tem que ter todo um jogo de cintura porque... Tem noite que o meu marido dorme, eu levanto pra digitar [risos]. 

 

P/2- _______ fazendo isso.

 

R- Dormiu uma hora. E a gente vai se acertando. Não sei se eu respondi tudo. Valeu a pena.

 

P/2- Valeu ou não valeu?

 

P/1- Então, em nome da Fundação Bradesco e do Museu da Pessoa  nós queremos agradecer a sua entrevista.

 

R- Eu que agradeço a oportunidade de poder contar a minha história.

 

P/2- Muito boa.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+