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História de: Regiane Corrêa de Oliveira
Autor: Regiane Corrêa de Oliveira
Publicado em: 24/03/2009

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História completa



Apresente-se
Nasci em Campinas-SP em 30 de janeiro de 1976. Morava na periferia da cidade, sempre morei em casa pequena e humilde, com o necessário para sobreviver. Morava com meu pai, minha mãe e minha irmã mais velha, a maior parte da família, por parte de mãe, morava lá.

Conte sobre a sua infância/adolescência
Quando fiz quatro anos, meus pais se separaram e meu pai foi embora e sumiu por um ano. Após três anos, quando eu ia completar sete anos, minha mãe encontrou um novo companheiro e fomos morar em Cuiabá-MT. Os dois, desde Campinas, participavam de movimentos sociais e continuaram fazendo este trabalho em Cuiabá. Eu e minha irmã sempre participávamos junto, em teatros em comunidades periféricas, onde também atuávamos com pequenas participações. Quando chegamos, morávamos em uma república para rachar o aluguel, pois não tínhamos condições de alugar uma casa sozinhos. Estudava em uma escola estadual bem próxima. Logo, meu padrasto e minha mãe conseguiram comprar um terreno com um barraquinho em um bairro de invasão e nos mudamos para lá. Ficamos um pouco distantes da escola, mas era o mais próximo possível. Minha mãe e meu padrasto são o maior exemplo de superação para mim, pois pouco a pouco foram construindo uma casa e jamais deixaram de trabalhar com o que acreditavam, além de nos incentivarem constantemente a estudar. Essa era uma prioridade na nossa vida, eu e minha irmã nunca reprovamos, pois reconhecíamos a importancia do estudo e do esforço que meus pais faziam para nos dar o melhor dentro das condições que tinham. Minha mãe trabalhou durante um bom tempo em creches comunitárias e nós íamos junto e convivíamos com histórias bem reais socioeconomicas dessas comunidades. Na escola, sofríamos um pouco de perseguição por morar em um "grilo", que chamavam de Canjica. Isso para os colegas era motivo de gozação. Nossa situação econômica era cheia de altos e baixos, pois meus pais foram mandados embora do serviço na mesma época e foi um período bastante difícil, pois meu padrasto estudava o mestrado e ainda tinha que trabalhar e minha mãe não tinha muita escolaridade, por isso sua renda era baixa e tinha que manter a casa e as filhas. Vivemos assim por um período, mas logo a situação se estabilizou. Hoje minha mãe trabalha com massagem terapêutica, meu padrasto é professor na Universidade Federal de Mato Grosso, eu fui mãe aos 19 anos e tive uma vida bastante difícil, pois nunca tive condições financeiras para assumir uma família, mas assumi e nunca deixei de estudar. Hoje tenho três filhas que crio praticamente sozinha, me formei em biologia e fiz mestrado em Agricultura Tropical e estou me preparando para o doutorado na UNESP em Horticultura com a professora Maria Christina de Mello Amorozo.

Suas primeiras idéias
Desde a graduação trabalho com comunidades rurais. Iniciei como bolsista em um projeto com os afetados pela usina hidrelétrica do Manso, para investigar a incidência de vetores da leishimaniose era meu foco, além de dengue, malária e febre amarela, feito por outros pesquisadores, fiz estágio na FUNASA, que tinha convênio com a UFMT para execução desse projeto. Desde então me interessou a forma como essas pessoas que tinham sido levadas a outros locais para reiniciarem suas vidas, se readaptavam ou não, pois existiam locais com terras muito precárias para a produção rural que era seu meio de subsistência. Após o término da graduação, conheci o professor Rodrigo Aleixo Brito de Azevedo do programa de pós-graduação em Agricultura Tropical, e fui convidada a participar de um projeto denominado Sonhos da Terra com assentados em Lucas do Rio Verde-MT para investigar as expectativas numa perspectiva de passado, presente e futuro, que os agricultores tinham da terra que iria ser dividida. Foi então que percebi que era com o que eu queria trabalhar, pois me encantava o conhecimento prático que eles têm da terra e das plantas. Me inscrevi no mestrado sob orientação do mesmo professor e passei a trabalhar em um projeto de sistemas agrícolas da Morraria, em Cáceres-MT, cujo foco foram os quintais com o aspecto etnobotânico e socioeconômico. Aprendi muito e me encantei com a relação que os agricultores tinham com a terra e aproveitamento dos recursos naturais sem destrui-los, pois é seu meio de subsistência. Tive também a oportunidade de trabalhar no projeto Biodiesel-Guariba, que tinha a intenção fazer uma investigação agronômica da região e levantar as plantas com potencial oleaginoso para produção de biodiesel, foi uma experiência comovente, pois é um local muito distante sem eletricidade, com transporte precário e grande incidência de malária, e a economia gira em torno da extração de madeira, mas que os que permaneciam lá produziam e conseguiam garantir sua subsistência no local, mesmo em condições precárias. Com essas experiêcias percebi que o mundo poderia ser diferente se as pessoas tivessem essa relação harmômica com a natureza, a extração dos recursos é necessária, mas manter esses recursos é fundamental para nossa geração e as gerações futuras. Acho necessária uma mudança de atitude e consciência em relação às plantas, ao lixo orgânico, à água, à saúde e ao planeta. Pois percebi que esses agricultores garantem sua subsistência, com escassez de recursos e que este é um problema que já começamos a enfrentar na aqricultura convencional que garante a demanda de alimentos da população, mas que não garante sua produção futura pela previsão da escassez de muitos dos recursos que estão se acabando. As respostas para muitos desses problemas está no conhecimento e relação que os pequenos agricultores e os índios tem com os recursos naturais.

Conte a sua história de mudança social
Depois de todas essas experiências e percepções achei que não adianta apenas saber mas é preciso fazer algo que contribua com o meio ambiente. Então surgiu a ideia de trabalhar com permacultura com as pessoas adultas e jardinagem com as crianças, pois percebo que se as crianças conhecem e sentem as plantas a relação delas com os recursos naturais será diferente, será de respeito e consciência de sua importância. Assim como se os adultos e mesmo as crianças aprenderem a reaproveitar o lixo orgânico e permitir o ciclo biogeoquímico, contribuem com a separação do lixo e seu reaproveitamento. As plantas podem ser cultivadas em variados espaços em apartamentos, quintais, não só para embelezar os ambientes, mas contribuir também com a alimentação, saúde e o meio ambiente. Comecei trabalhando com reciclagem com uma turma de pedagogia onde dei aula em 2008, além de trabalhar durante o ano todo, levamos essa aprendizagem para uma comunidade escolar carente onde foram feitos vários brinquedos reciclados para as crianças e foi muito gratificante o resultado. As alunas que participaram serão professoras e trabalharão com seus alunos. O projeto não foi adiante, pois a disciplina que ministrava foi cancelada este ano. Na outra escola em que trabalhava, cheguei a escrever o projeto de reciclagem e compostagem para a produção de uma horta e envolvimento com as pessoas da comunidade, mas fui demitida e não pude desenvolver o projeto. Enfim, agora conseguimos formar um grupo de pessoas com as mais diversas habilidades e saberes para ofertar cursos e oficinas, assim como serviços permanentes que atuam na área da saúde, arte, meio ambiente, atividade física e com o intelectual, trabalhos com as diversas idades e classes sociais. Foi a oportunidade que encontrei de executar meus projetos e contribuir com o que acredito, mas os custos são altos para manter a casa e isto está sendo uma dificuldade. Mas o mais fundamental encontrei que são pessoas com os mesmos ideais e com diversidade de saberes que querem contribuir com a qualidade de vida das pessoas. Através da minha experiência profissional, tive contato em minha pesquisa com quintais, com as plantas medicinais e, por ter tido contato com trabalhos de saúde popular através da Aneps, um de meus projetos é trabalhar com plantas medicinais, a partir do etnoconhecimento com a valorização e produção de plantas medicinais do cerrado para consumo, sem exploração desenfreada de plantas nativas. O Mato Grosso importa plantas de SP e GO, ou exploram de forma desordenada as plantas nativas do Cerrado, levando muitas à extinção. Esse é um projeto que pode dar certo, pois há varias discussões e propostas de implantação do uso de plantas medicinais no SUS. Já existe uma área provável para desenvolver o projeto falta buscar mais parcerias execução do mesmo.

Conte sobre as mudanças que sua idéia provocou
As pessoas buscam contribuir com o meio ambiente e às vezes não sabem como a permacultura ajuda neste sentido, permitindo que algumas pessoas possam fazer sua parte. O contato das crianças com as plantas, seu desenvolvimento, sua produção, sua sombra, seu abrigo para alguns animais, ou alimento, faz com que as crianças tenham um outro olhar para a natureza e cresçam e atuem, com uma percepção diferenciada do ambiente. Na minha vida o que mudou é que realizo um trabalho que, além de poder prestar um serviço aos outros, faço isso com prazer e dedicação. Descobri que posso ser multiplicadora, que quando fazemos esse trabalho com algumas pessoas, elas passam para outras e as outras para outras e assim quem sabe poderemos ter um mundo melhor. Algumas pessoas estão tendo resultado com a permacultura e produzindo várias espécies em seus quintais que contribuem na alimentação.

Conte sobre o potencial de mudança de sua ideia
A ideia é de trabalhar além das oficinas e cursos de jardinagem e permacultura no espaço que montamos (Canto do Acuri), trabalhar também em comunidades carentes para que além de contribuir com o meio ambiente também seja uma proposta de produção de alimentos para melhorar a qualidade alimentar dessas pessoas e de montar equipes que atuem em cada comunidade e depois formem equipes que passem a ideia adiante atuando em outras comunidades, que os quintais passem a ser produtivos. Além de trabalhar com as plantas medicinais com criticidade e de forma ética e científica, considerando também o conhecimento popular sobre essas plantas. É uma forma de levantar as espécies, perceber a viabilidade de produção de algumas espécies, seu potencial bioquímico e produzir para consumo e evitar a exploração desordenada de plantas nativas. Sou uma agente de mudança porque o que aprendi quero passar para as pessoas, assim como trocar ideias e conhecimentos é uma forma de contribuir para que cada vez mais se crie um diálogo entre conhecimento científico e conhecimento popular na busca de soluções para criarmos um mundo melhor.

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