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História de: Andrea Mendes Lyra
Autor: Andrea Mendes Lyra
Publicado em: 03/09/2008

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História completa

Apresente-se
Meu nome é Andrea Mendes Lyra, nascida em Santos, em 06/08/1974. Nasci em família de imigrantes portugueses que tiveram que deixar suas terras em Portugal após a fome que se abateu sobre a Europa durante e depois da 2ª Guerra Mundial. Meus bisavós eram agricultores da zona rural e tiveram toda a sua colheita confiscada pelo governo ante a guerra e o fim da guerra. Minha mãe e sua família passaram fome no Brasil, mas conseguiram depois de muito trabalho construir uma vida com dignidade. Quando nasci, a família já estava com emprego e já tinha imóvel pelo financiamento do plano de habitação do governo federal. Fui criada em Santos, em bairro de classe média, e estudei em escolas públicas até a 8ª série.

Conte sobre a sua infância/adolescência
Os fatos mais marcantes na minha vida foram os relatados pela minha genitora e minha avó paterna sobre a dificuldade finaceira que enfrentaram, especialmente os relatos da família de minha mãe. Ela sempre nos dizia que nós tínhamos que agradecer a boa vida e saber dar valor até às pequenas coisas que tínhamos. Ela nos relatava com o maior orgulho que numa determinada época, ela e sua mãe foram abandonadas pelo pai e vieram a passar muita fome, apesar de muito trabalharem e viverem no campo trabalhando em colheitas. Ela nos contava que, num determinado dia, a fome era tanta, tanta, que ao verem uma senhora jogando arroz no lixo não tiveram dúvidas e, após essa pessoa sair de perto, lá foram comer e chegaram a matar a fome. Ela sempre nos contava tal drama e sofrimento com muito orgulho de ter conseguido dar a volta por cima e ter conseguido superar todas as adversidades trabalhando de forma honesta e acreditando num dia melhor. Essa dura realidade serviu para fortalecer a sua família e torná-los mais fortes e, ao mesmo tempo, mais solidários Essa é a maior lição que tive em minha vida... que as dificuldades não são mais fortes do que nós, que podemos sempre nos superar e, se acreditarmos em nós e trabalharmos de forma honesta e com persistência, um dia chegaremos mais longe do que sequer podemos sonhar quando estamos em dificuldades A minha escola também deixou muito boas recordações e, apesar de ser pública, a Escola Lourdes Ortiz, em Santos, era um exemplo e tinha ótimos professores, que amavam o que faziam

Suas primeiras idéias
Apesar de ter crescido em ambiente muito bom, se comparado com a realidade da maioria dos brasileiros, sempre tive em mente as dificuldades que meus pais enfrentaram e como tal sofrimento deixou sequelas neles, isto apesar de terem conseguido virar o tabuleiro da vida. Sempre que nos deparávamos com a realidade dos menos favorecidos, eu me lembrava que meus pais e avós já sofreram algo semelhante. Fiz parte de grupo de jovens, mocidade, desde cedo. Depois, entrei para o movimento bandeirante e o sentimento de mudar o mundo tornou-se mais viável, mais concreto e eu passei a perceber que não é preciso muito para que o mundo se torne um local melhor e que qualquer um pode, da sua forma, ser o agente mutiplicador de idéias e de ações que ajudem a transformar as pessoas e as realidades sociais a sua volta. No Movimento Bandeirante aprendemos que todos temos um potencial e que ele deve ser descoberto e que para tanto só é preciso fazer O método utilizado pelo movimento bandeirante é o aprender fazendo. A missão do movimento é desenvolver crianças e jovens e torná-los líderes pró-ativos em favor da comunidade. Nosso trabalho é através do ensino de valores morais de forma lúdica.

Conte a sua história de mudança social
Em 2007, voltei a ser ativa no Movimento Bandeirante, pois fui compelida a me afastar em função dos estudos universitários e das dificuldades do início de carreira e de casamento. Apesar do afastamento, continuei com a mesma necessidade de ajudar as pessoas e de encontrar meios de fazer o mundo um local um pouco melhor. O que ocorre é que, por uma série de razões, em termos de voluntariado, é muito mais difícil o trabalho solitário, em carreira solo. O pouco que conseguimos realizar se torna a custa de muito sacrifício pessoal. Ao retornar ao grupo e, com a vantagem do trabalho em equipe, constatei que poderíamos trabalhar na área de educação ambiental, uma vez que em nossa cidade, apesar de ser uma estância turística dotada de recursos naturais, não possuía política de incentivo a reciclagem de óleo de cozinha. Vivemos em área de preservação ambiental, Costa da Mata Atlântica, sendo que esta floresta é a que possui maior riqueza e biodiversidade ambiental. Que os manguezais são um ecosistema riquíssimo de vida e que é o responsável em manter as águas do mar dentro do limite da praia. Esse óleo despejado normalmente nas pias de cozinha vai para as caixas de gordura. Ao receber tratamento, esse material recebe muita química e depois é despejado no meio ambiente. Esses resíduos químicos agridem o meio ambiente, penetram no solo alterando o seu equilíbrio e atingem os manancias de água doce e salgada. Nas águas, esse material poluente diminui a concentração de oxigênio da água provocando o aumento da morte de peixes e espécies marinhas. A pesca ainda é um meio de vida para muitos pequenos pescadores de nossa região e é uma atividade comercial que também gera muitos empregos direitos e indiretos. Além disso, aumenta a poluição do meio ambiente e concorre para o super aquecimento do planeta. Como a reciclagem tem sido uma forma barata e simples de promover a subsistência de diversas famílias, antes desempregadas, pensamos em iniciar uma campanha de educação ambiental e atingir a comunidade local. Percebemos que muitas pessoas já fazia a separação do óleo, mas que o guardavam esperando que alguém ou o governo viesse buscar. Fechamos uma parceria com duas empresas de SP e região que faziam a reciclagem de óleo de cozinha e passamos a ser simplesmente Ponto de Coleta para essas empresas e de entrega para à comunidade. Todo óleo de cozinha é doado para as empresas que o transformam em biodiesel e sabão e que geram empregados. Iniciamos a Campanha: "Na pia nem Pensar, óleo de cozinha é para reciclar". A campanha se tornou um sucesso e conseguimos, desde então, evitar que milhares de litros de óleo fossem parar no meio ambiente. Quando jogado diretamente na pia ou no vaso sanitário, além de ir parar diretamente nos rios e nos mares, o óleo pode entupir as tubulações. Cada litro de óleo contamina até 20 mil litros de água. São fatores que encarecem o tratamento da água para o consumo humano e contribuem para o esgotamento dos recursos hídricos potáveis. No início foi muito difícil, pois não conseguíamos divulgar o projeto em jornais e meios de comunicação. Depois jornalistas ambientalistas passaram a divulgar em seus blogs e posteriormente a mídia local passou a divulgar a campanha. Alguns meses depois, o Banco Real passou a ter ponto de coleta de óleo nas suas agências de Santos. Conseguimos divulgar a campanha até na TV local e hoje já possui projeto semelhante do jornal local mais importante, no qual ele incentiva às escolas a serem ponto de coleta de óleo através de gincana e prêmio no final. Em agosto, recebemos uma grata surpresa. Recebemos um prêmio internacional de reconhecimento pelo mérito no desenvolvimento de Projetos em favor da comunidade - Prêmio Olave Baden Powell, o qual muito nos alegrou Os maiores desafios foram conseguir convencer a imprensa local a divulgar o projeto, em conseguir novos pontos de coleta atráves de parcerias com empresas e setores da administração pública. Os empresários não tinham interesse porque não teriam lucro ou retorno financeiro, só social. Uma das nossas maiores dificuldades foi, sem sombra de dúvida, conseguir que as empresas tivessem interesse em vir até Santos para coletar no início pouco óleo, pois, na região não tinhamos empresas ou cooperativas que fizessem essa reciclagem. A despesas para virem a Santos buscar o óleo é alta, isto em razão do pedágio e do gasto com motorista e combustível. Outra dificuldade incrível foi conseguir a divulgação, isto apesar de sermos uma ONG, sem fins lucrativos. Enviamos solicitação a diversas entidades locais, aos órgãos públicos, às câmeras de lojistas da região metropolitana, aos meios de comunicação... Enfim, nós não tivemos patrocínio nem para a divulgação do projeto social. Somente após alguns meses, uma jornalista e ambientalista da região, através do nosso perfil institucional no Orkut, tomou ciência da campanha e passou a divulgar entre seus amigos e a inserir em seu blog. Ela, como jornalista, nos auxiliou e passamos a conseguir a publicação na coluna agenda cidadã do jornal local. Portanto, imprescindível inicialmente foi a parceria entre empresa de reciclagem e o movimento Bandeirante de Santos. Em seguida, mas igualmente imprescindível, foi o auxílio dessa jornalista e de outros anônimos que acreditaram em nosso ideal e passaram a não despejar mais seu óleo na pia ou no lixo e o levaram até nossa sede ou nossos pontos de coleta.

Conte sobre as mudanças que sua idéia provocou
Os resultados da proposta foram a conscientização da comunidade local de que é possível, com hábitos simples e do dia-a-dia, contribuirmos para a melhoria do mundo e do meio ambiente que nos cerca. Conseguimos incutir na mente das pessoas que todos nós somos cidadãos do planeta e que somos responsáveis pela defesa do meio ambiente. Nossos bandeirantes, que têm de 05 a 21 anos, passaram a ser responsáveis por darem um fim útil e ecologicamente correto ao óleo da batatinha frita que tanto gostam. Eles passaram a ser agentes do meio ambiente e passaram a trazer o óleo do parentes e vizinhos. Viraram até fiscais do meio ambiente, na medida em que brigavam com seus pais quando os mesmos, por esquecimento ou falta de hábito, jogavam óleo na pia da cozinha. Nós não esperávamos atingir tantas pessoas Conseguimos ponto de coleta de óleo até fora de Santos, em Cubatão, cidade da região metropolitana, que possui unidade de conservação florestal, o Parque Estadual da serra do Mar. Depois do nosso trabalho pioneiro, o Banco Real trouxe a coleta de óleo para as agências em Santos em parceria com uma empresa que o transforma em BioDiesel. O volume de óleo aumenta cada vez mais e nos é muito prazeroso notarmos que cada dia mais pessoas nos trazem seus recipientes cheios de óleo e que estão felizes por estarem contribuindo, de alguma maneira, para melhorarem um pouquinho que seja o mundo. Esse compromentimento da comunidade nos deixa alegres e confiantes de que nosso povo é predisposto ao voluntariado e só não faz mais porque não encontra mais espaço e oportunidade. Esse projeto nos trouxe um novo parceiro, que é a Associação Beneficiente de Catadores da Baixada Santista, que hoje reume 55 moradores de rua. Eles reciclam papel e outros materiais, exceto óleo. Então, aumentamos nossa campanha e agora o papel e demais materiais doados pela comunidade é doado a Associação de Catadores que tem sede em Cubatão. O lixo limpo é muito útil se reciclado e pode ser a solução de parte de nossos problemas socio-ambientais, uma vez que resgata das ruas pessoas não incluídas na sociedade e lhes dá trabalho e dignidade. Esse lixo deixa de poluir o meio ambiente e gera mais qualidade de vida a todos e mais empregos. O fator mais relevante na minha vida gerado pelo projeto e pela minha iniciativa foi ver o meu marido se tornar mais um voluntário, dedicado e que acredita no poder da boa ação e no serviço em favor do próximo Ele agora está motivado, trabalhando no nosso novo projeto de inclusão social - inglês comunitário. Ele não teve uma infância ou adolescência como a minha, não fez parte de grupos ou organizações que incentivem o voluntariado e só não fazia porque não acreditava em seu potencial Esse projeto despertou pessoas, empresas, entidades e organizações civis para a necessidade de mudar nossos hábitos em favor do meio ambiente e que basta isso para estarmos contribuindo para a melhoria do mundo e do meio ambiente. Esse projeto despertou novos voluntários e novos agentes adormecidos em favor da comunidade.

Conte sobre o potencial de mudança de sua idéia
Esse projeto despertou pessoas, empresas, entidades e organizações civis para a necessidade de mudar nossos hábitos em favor do meio ambiente. Mudou a mentalidade local. Esse projeto despertou novos voluntários e novos agentes adormecidos em favor da comunidade e do meio ambiente. A reciclagem de óleo cresceu muito em nossa região após um ano do início do nosso trabalho. Milhares de litros de água foram poupados e milhares de animais aquáticos e seus sucessores na cadeia alimentar. Adquirimos novos voluntários importantíssimos. A associação de catadores e um professor de inglês voluntário, que está ministrando aulas de inglês em nosso novo Projeto social - Inclusão Social - Inglês comunitário. O maior jornal local este ano alterou o foco do projeto de lixo no lixo e iniciou campanha junto com as escolas de reciclagem de óleo Esse projeto terá seu ápice no momento em que as cooperativas de catadores da região conseguirem o maquinário para processar e beneficiar esse óleo e tal material contribuir para o desenvolvimento sustentável desses cidadãos antes marginalizados socialmente. O ideal seria que as prefeituras se preocupassem com a coleta desse material, montassem uma fábrica para a comunidade e doasse o óleo e o lixo limpo para as cooperativas, oferecendo renda e inclusão a população da região. Eu me sinto como uma agente dessa mudança porque idealizei, implantei e coordenei esse projeto social com o auxílio do Movimento Bandeirante, que doou a sede para a coleta, com o auxílio de pessoas e empresas que firmei parceria e que convenci sobre a importância da educação ambiental, do exemplo. Eu tive que lutar para a sua implantação até mesmo dentro da minha instituição, que o tinha como simples demais, com pouca viabilidade de sucesso e com pouco retorno social. Eu fui a percursora na minha região. Realmente o projeto é simples, barato e sem retorno direto financeiro ou social, só ambiental. Senti a necessidade, vi a carência de empresas na região, encontrei as empresas de reciclagem de óleo de SP dispostas a acreditar na região e no crescimento da coleta. Eu promovi o encontro da comunidade, divulguei a necessidade do meio ambiente e disponibilizei um local para entrega do óleo. Assim que as bombonas de 50 litros estavam cheias, ligava para as empresas e elas vinham buscar o material. É realmente só isso a minha parte A maior contribuição foi a da população que acreditou na idéia e passou a se onerar para levar o óleo até nossos pontos de coleta. Por isso, me considero agente da mudança comportamental em face do meio ambiente.

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