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História

Dentro da quadra, dentro de casa

História de: Priscila Regina da Silva Lourenço
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/09/2015

Sinopse

Nesta entrevista, Priscila nos fala sobre como seus pais se conheceram, a história de sua família, a separação de seus pais e a sua infância no bairro do Butantã. Vemos também sua trajetória na escola, suas brincadeiras na rua e sua descoberta do basquete, na escola fundamental. Depois, vemos como foi sua entrada no PET e ela nos fala como era o cotidiano, as atividades e as amizades no projeto. Em seguida, Priscila nos conta sobre o OLIPET, sua saída do PET e as dificuldades para entrar na faculdade de Educação Física. Priscila também nos fala a respeito de seu retorno ao PET - agora PRODHE - a situação atual de sua família, seu casamento e seus dois empregos.

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História completa

Meu nome é Priscila Regina da Silva Lourenço, nasci em São Paulo, dez de junho de 1983. A família do meu pai é metade de Avaré, metade é de São Paulo. A família da minha mãe é toda de São Paulo. Eu tenho quatro irmãos. O Paulo Sérgio, que é o irmão mais velho, que é de um casamento que meu pai já tinha antes de casar com a minha mãe. Tenho a Cibele, que acho que é dois anos mais nova que o Paulo Sérgio. Tem a Luana, que é quem eu tenho o maior contato hoje, que a gente mora no mesmo quintal, que de junho a agosto a gente fica com a mesma idade, que nem hoje a gente tem a mesma idade, eu estou com 32 e ela também, aí em agosto ela faz 33. Com os meus dois irmãos mais velhos eu não tive muito contato porque eles moravam com a minha avó, eu sempre tive contato com a Luana, né, que a gente desde pequena sempre muito junta e a minha mãe também trabalhava muito e minha irmã que cuidava de mim. Tão nova, mas ela que, que eu jogava e estudava, então eu ficava fora o dia inteiro, mas quando eu chegava ela que estava ali com tudo, sabe? Tipo roupa, comida e: “Onde você estava? Chegou tarde. Você precisa de alguma coisa para amanhã? Como é que está na escola?”, era sempre a Luana. A gente cresceu na casa da minha bisavó, eu e minha irmã Luana, a gente cresceu junto. Numa travessa de onde eu moro hoje, João Pessoa de Queiroz Sobrinho. Depois do EMEI eu fui pro Emygdio, Emygdio de Barros, uma escola que tem aqui em cima. Eu fiquei lá até a quarta série. Quarta? Acho que até a terceira série. É, fiquei lá até a terceira série, depois eu fui pro Ibrahim, fiz a quarta no Ibrahim. Aí a quinta a minha mãe morou um ano em Caucaia do Alto, a gente foi morar com ela porque ela casou, arrumou um homem e tal, a gente foi morar com ele e fiquei um ano em Caucaia do Alto. Quando eu voltei eu estudei no Almeida, no sexto ano, sexta série antigamente. Aí na sétima, oitava, primeiro e segundo eu fiz no Emygdio de novo. Minha mãe conseguiu a vaga no Emygdio, eu fiz no Emygdio e aí no terceiro colegial. Conheci o PET no Emygdio, na escola. Apareceu um cartaz lá na escola e aí a professora, a gente jogava no time da escola e apareceu o cartaz lá, ela falou: “Tem um lugar que tem treino de basquete num período que vocês vão passar mais tempo jogando, que a escola não pode suprir isso que vocês querem e acho que vai ser bom pra vocês, então, vai lá”. E aí eu vim aqui fazer o teste, mas a escola que indicou. Na época o que eu sabia é que aqui a gente ia aprender a ser jogadora, o que eu imaginava: “Lá eu vou conseguir jogar e vou conseguir um clube, e lá que eu vou jogar basquete”, eu tinha essa percepção. Mas o que eu tinha também muito era assim: “Lá estão os meus melhores amigos. Lá estão as pessoas que eu quero me espelhar, lá é onde eu quero estar mais tempo”. Eu tinha muito isso comigo, tanto que quando tinha aula eu estava aqui de manhã, eu saía de casa e não tinha aula: “Ah, eu vou pra casa? Não, eu vou pro PET”. Tipo, vinha pra cá com a roupa da escola, sabe? Muito sem noção, vai pra casa, troca de roupa e vem pra cá. Não, vinha pra cá direto, depois ia pra casa e voltava. A partir de um momento gente passou a perceber que o PET estava mudando e isso foi bem difícil pra gente entender porque a gente treinava os cinco dias, segunda, terça, quarta, quinta e sexta, a gente treinava todos os dias. De repente não treina mais todos os dias, então, vai chegar um dia que a gente vai sentar e ficar conversando com psicólogo. Nossa. Era a revolta de todo mundo. Mas depois de bastante tempo, a gente brigou bastante com os psicólogos, porque eu já era das mais velhas. Mas você passa a entender a importância que é você sentar em grupo e entender por que o outro não consegue jogar e qual a dificuldade do outro. E entender que você está prejudicando o outro. E depois disso você passa a perceber assim: “Nossa, ele precisa de algumas coisas que eu posso auxiliá-lo”. A partir da psicologia aqui dentro que a gente passou a perceber isso, mas demorou um pouquinho e isso só veio na adolescência. E aí eu prestei Mackenzie e passei, que eu acho que a concorrência era bem menor, o Mackenzie era uma faculdade que era nova no curso de Educação Física, então a concorrência não era tão grande, só que era muito longe. Eu moro aqui no Butantã, o curso é em Alphaville. E eu trabalhava na Paulista, era muito contramão. Mas eu falei: “Meu, eu vou porque eu quero ser professora de Educação Física, então essa é a minha oportunidade e eu vou”. E aí eu fui embora e, graças a Deus eu consegui, com muito esforço. Eu lembro que pra entrar na faculdade foi uma tensão porque eu não tinha grana da matrícula e aí a Korsakas: “Não, vai, vamos a gente dá um jeito”. E foi, ela ajudou a minha mãe. O primeiro semestre eu corri atrás de bolsa que nem uma doida porque faculdade era 800 paus e eu recebia, sei lá, 400 reais, nunca ia conseguir pagar. Eu fui na Atlética e os caras: “Ó, não paga nem uma mensalidade, não paga nada e joga. Não arruma confusão, nada, vai jogar e mostra pros caras que você sabe jogar”. E foi isso que eu fiz. Fui jogar, teve jogo que a gente arrumou briga, o cara falou: “Não, desencana, continua jogando”. E aí no último minuto, eu falei: “Putz, ferrou”. A gente estava jogando e era encerramento do semestre, era Intermack. E aí o gestor de esportes do Mackenzie estava assistindo o nosso jogo e ele chamou eu e a Talitinha e falou: “Vocês são as meninas que estão precisando de bolsa, tal, passa na minha sala na semana”. A gente foi na sala dele e ele assinou o papel e a bolsa integral. Puta, a gente ficou muito feliz. Eu lembro um que a gente perdeu numa semifinal ali naquela faculdade que tem ali na Pedro de Toledo, na faculdade de Medicina? Unifesp. Ali na Unifesp. E a gente tinha ganhado do time das donas da casa uma semana antes mas elas foram no jogo, que elas tinham jogo e torceram contra a gente, isso deixa a gente muito mal. Porque a gente ganhou delas mas não ganhou assim: “Ah, vamos zoar com elas”, e elas conversavam com a gente. A gente sofrendo, a gente: “Ah, nem pras meninas torcerem pra gente, torcendo contra a gente”. E a gente perdeu por pouco no final. Eu lembro que eu saí com cinco faltas, tinha a Bartira também, a Bartira saiu com cinco faltas e a Karina saiu com cinco faltas. Meu, e quem restou em quadra? Restou quatro contra cinco e cinco muito fortes e quatro que não estavam sempre. Lembro que tinha a Andreia, a Amanda, a Clau e a Cíntia. E não eram meninas que jogavam muito tempo junto. E elas abriram no final e nossa, a gente ficou, eu fico com muita raiva, né? Porque você não poder estar em quadra é muito ruim, tipo, eu podia ajudar o time no banco, mas eu queria estar em quadra, né, pô? No banco não faço cesta, né? (risos) Em quadra eu faço cesta, roubo bola, marco. Aquele jogo foi um dos piores nosso. Eu lembro do nosso técnico muito bravo, gritando muito. A gente xingou o técnico, xingou o juiz, foi o pior, o pior de tudo. Mas teve um jogo que eu não pude jogar porque eu saí com cinco faltas e eu não lembro por que eu não pude jogar na final, mas eu fui, né? Aí o técnico me colocou como auxiliar. Nossa e eu lembro que eu ajudei muito ele, de ler o jogo, sabe? Eu lia o jogo e falava assim: “Meu, tal menina está destruindo, está jogando muito no time adversário, marca ela box e fecha a nossa defesa ali no garrafão que as outras não vão fazer nada”. E ele: “Você acha, meu?” “Eu acho, vamos tentar”. E deu muito certo. Foi a primeira oportunidade que eu tive de estar fora de quadra, ajudar muito e aí eu pensei: “Mano, é isso que eu tenho que fazer da minha vida”, que eu consegui ter uma leitura bacana das pessoas que estavam em quadra e até das meninas que estavam no meu time, que eu percebia: “Meu, essa não está bacana em tal fundamento, coloca tal pessoa”. E falei: “Meu, quero fazer isso”. E foi uma das vezes que eu fui tendo estalo assim, sabe? Eu entrei aqui no PET como educadora, aí trabalhei com 11, 12 anos, no Pequeninos. Mas a gente ensinava todos os esportes, não era nada específico. Lógico que a gente tinha que ver as do basquete, sempre a aula do basquete os alunos que: “Nossa, a aula hoje foi muito mais legal!”, e a gente: “Ah, mas isso acontece porque você gostou”, mas é porque a professora é diferente, né? É o seu esporte, não tem como. Mas aí depois eu entrei numa ONG que é só de basquete, que é onde eu trabalho hoje. *E aí meu, ali eu me encontrei de verdade, sabe? Eu comecei a ensinar basquete pra criança de seis a 17 anos. Aí vamos supor, você pega um menino com seis anos. Com 15 anos a gente levou eles pra jogar um campeonato muito mais forte e você vê o menino jogando muito, destruindo, sabe? De você olhar e falar: “Nossa!” E o menino olhar pra você e falar assim: “Isso é pra você. Você que me ensinou”, é gratificante, nossa. E isso eu me recordo de lá, de quando a Paula me ensinava e naquele jogo eu falava: “Meu, preciso mostrar pra ela que eu jogo muito, ela não pode ficar brava comigo”. E aquele menino depois falando pra mim: “Eu jogo assim por causa de você”, muito gostoso, é algo que não tem dinheiro que pague, sabe? Você vai falar: “Mas você vai trampar nesse lugar, você vai trabalhar muito”. Eu falo assim: “Vou, mas algo ou outras coisas recompensam, não é só a questão financeira”

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