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Democracia pela base

História de: Olgamir Amancia Ferreira
Autor:
Publicado em: 16/12/2021

Sinopse

Olgamir lembra que a única obrigação que tinham ela e seus irmãos era estudar. Em 1966, deixou sua cidade natal e transferiu-se para Planaltina, no Distrito Federal, onde estudou na Escola Classe 1. Mais adiante quis ser contadora, mas foi convencida a entrar para a Escola Normal e, então, tornou-se professora. Fez concurso e foi admitida na Secretaria de Educação do Distrito Federal. Deixou temporariamente o magistério em 1978, por ter passado no vestibular de Engenharia Química na Universidade Federal da Paraíba. A partir de 1982 voltou a dar aulas e dali em diante participou de todas as mobilizações lideradas pelo SINPRO-DF. Foi titular da Secretaria da Mulher no governo Agnelo Queiroz, no Distrito Federal.

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História completa

Não tínhamos nenhuma obrigação além de estudar: eu cresci numa família em que o princípio era estudar. Minha mãe era professora e ela dava aulas na cidade. Então a gente ficava muito mais tempo com a minha avó, por isso eu tive uma convivência forte com a minha avó materna, ela cuidava mais da gente, junto com pessoas que trabalhavam na casa, e minha mãe passava uma boa parte do tempo dando aula, fora de casa. Mas a grande obrigação que nós tínhamos na atribuição cotidiana era estudar. Eu fui alfabetizada com seis anos, em casa, pela minha mãe. Minha mãe inicialmente pensou em se mudar para Formosa ou para Anápolis, ou Goiânia, que são cidades que eram referências importantes para o pessoal que morava ali no interior de Goiás. Um primo dela orientou que não, que ela deveria vir para Brasília, que aqui teria mais possibilidade de os filhos estudarem do que ir para um outro local. De forma que em 1964 meus pais compraram uma casa aqui, que é onde a gente cresceu posteriormente, mas a gente só se mudou em 1966, porque todos os anos meu pai adiava mudança, porque tinha uma justificativa de uma fazenda, de uma coisa ou outra e ia adiando. Aí por fim minha mãe meio que radicalizou e exigiu, de forma que em janeiro de 1966 nós nos mudamos para cá. Eu fui para escola Classe 1 de Planaltina, que é bem pertinho da casa onde a gente cresceu, dava para ir a pé, e aí de fato foi um outro mundo, é uma outra realidade, porque era uma Escola Classe, à época uma das principais escolas aqui da cidade. Essa escola era um mundo, gigantesco. Eu me lembro que quando eu fiz a minha primeira amiguinha na escola, eu ficava procurando por ela a partir do sapato que ela usava, para poder achá-la no meio daquele mundo. Como ela tinha um sapato muito bonitinho, diferenciado, eu vivia procurando por ela pelos pés. Como o sapato era diferente, era a forma de eu achá-la em um mundo que era muito grande para mim. Terminei o normal em dezembro, fiz o concurso da Secretaria de Educação, passei no concurso e fui chamada imediatamente porque havia poucos professores no Distrito Federal. Em fevereiro eu já era professora, em março eu já era professora contratada, concursada na rede pública de ensino do Distrito Federal. Eu assumi a primeira turma em 1978. A primeira experiência como professora do ensino fundamental, da primeira série, é uma experiência ao mesmo tempo muito bonita, no sentido de que eu tinha ali a oportunidade de colocar em prática o que eu tinha aprendido na Escola Normal, mas era uma tensão muito grande, porque eu era também muito jovem. Porque a gente não entendia muito o que eram as pessoas, o que era o ser humano, os níveis, os ritmos de aprendizagem, isso não estava claro para mim naquela minha fase inicial. Em 1978, no meio do ano, eu saí da Secretaria de Educação, pedi demissão porque havia passado no vestibular na Universidade Federal da Paraíba, para o curso de Engenharia Química, que começava no segundo semestre. Então eu fiz o vestibular no início do ano, mas as vagas desse curso eram abertas para o segundo semestre. Então eu continuei dando aula até a metade do ano, e tive que pedir demissão, porque a época a secretaria não tinha nenhuma política para você se afastar para estudar: tinha que pedir demissão. Quando retornei, em 1982, para a Secretaria de Educação, a gente estava exatamente naquele momento de muita luta por democracia no Brasil, os sindicatos tomando cada vez mais força e fazendo a luta social. Eu comecei a participar das assembleias, de forma que todas as agendas que aconteceram do período de 1982 em diante, eu participei de todas. E como eu era uma pessoa muito ativa, acabei participando sempre como comando de greve, naqueles coletivos que organizavam os processos no âmbito das escolas. Sempre participei muito atentamente, principalmente nessa segunda fase [A adoção da direção colegiada no SINPRO-DF] foi um movimento importante porque sai dessa condição do presidencialismo para a questão do colegiado, muito nessa linha de que precisava democratizar os espaços. Você passa a ter uma estrutura mais horizontal na gestão do sindicato. Isso eu penso que fortalece, porque você não centraliza mais as decisões numa pessoa, ou numa executiva, mas você socializa, você divide, compartilha com os gestores do sindicato, que na verdade representam os interesses da base da categoria. Por que não são porta-vozes de si mesmo, ou pelo menos não deveriam ser. Então você tem um espaço mais democrático. A democratização se dá porque se fortalece também, cada vez mais, a atuação da base do sindicato, por meio dos organismos de base. Nós só temos chances de construir uma escola mais democrática, uma educação com qualidade que se referencie nas pessoas, na sociedade, se nós tivermos organizações fortes, e a organização forte é uma organização que se sustenta no coletivo, nas construções mais coletivas possíveis. Nesse sentido, sustentar o nosso sindicato não é só a sustentação financeira, também importante, mas sustentar no sentido de estar ali, de contribuir, de refletir junto, de caminhar junto, de fazer a crítica ao sindicato e à direção do sindicato. Sindicato é a nossa representação como categoria profissional. Fortalecer o nosso sindicato eu penso que é algo que todos e todas devemos assumir como uma tarefa cotidiana.
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