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História

Deixando a cidade mais maravilhosa

História de: Alcindo Silva Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/11/2003

Sinopse

Alcindo Pereira da Silva Filho nasceu em João Pessoa em 1944, aos 4 anos veio para o Rio de Janeiro acompanhar seus pais. Em sua entrevista, nos conta bastante sobre a sua juventude em Copacabana, Alcindo fala sobre como era o ritmo diurno, nas praias da cidade maravilhosa e o ritmo noturno, em uma cidade que começava a se tornar badalada. Por ser conhecido nas praias de Copacabana, conta como surge a oportunidade de começar a trabalhar com biquínis e abre a primeira loja de biquínis do Rio de Janeiro e do Brasil, a Bumbum, que se torna mundialmente conhecida por agradar a todos os gostos e se torna referência em Moda Praia.

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História completa

P/1 – Você nasceu em que bairro, Cidinho?

 

R – Eu não nasci no Rio.

 

P/1 - Você nasceu aonde?

 

R – Eu nasci em João Pessoa.

 

P/1 – Ah, é?!

 

R – Eu vim para cá muito criança, né? Então, meu pai já vivia aqui, já estava... sempre vivia aqui... ele trabalhava na Lloyd.

 

P/1 – Ih! Então espera aí! Que história linda! (Risos). Mas você veio para o Rio quando? Só para a gente se situar em termos de data.

 

R – Eu tinha quatro ano de idade.

 

P/1 – Aí vocês foram morar em que bairro?

 

R – Fomo. Copacabana.

 

P/1 – Você tem memória do comércio um pouco dessa época já?

 

R – Tenho né... Porque já... mais ou menos...

 

P/1 – Você cresceu em Copacabana?

 

R – Cresci até os dez anos em Copacabana. Depois eu fui para Ipanema.

 

(Pausa)

 

P/1 – Boa tarde, Cidinho, eu gostaria de começar a nossa entrevista pedindo que você me dê o seu nome completo, seu local e data de nascimento, por favor.

 

R – Meu nome é Alcindo Pereira da Silva Filho. Eu sou mais conhecido como Cidinho da Bumbum... é... eu nasci em João Pessoa, na Paraíba e cheguei aqui com quatro ano de idade... Meu pai que já trabalhava aqui no Rio e minha mãe veio antecipadamente, preparou a nossa vinda pro Rio de Janeiro. Aí já tinha umas irmã morando aqui. Chegou eu e meu irmão caçulinha de dois ano de idade. Chegamo aqui nessa cidade maravilhosa, que cada vez maravilhosa ela é!

 

P/1 - Qual é a data de nascimento completa?

 

R – 11/04/1944.

 

P/1 – Cidinho, nome dos teus pais e profissão.

 

R – O nome do meu pai é Alcindo Pereira da Silva e minha mãe Antônia Costa da Silva, já falecidos.

 

P/1 – Antônia o quê?

 

R – Antônia Costa da Silva. Meu pai era... trabalhava... era funcionário do Lloyd e minha mãe era jornalista e pintora... É, aí tamos aí, a família de cinco irmãos... eu sou o sexto, o penúltimo, e tô aí na área! (Risos)

 

P/1 – E teus avós? Você lembra do nome? Lembra deles como figuras e tal?

 

R – Lembro pouco dos meus avós. Eles morreram cedo ou eu nasci tarde, não sei... (Risos). Mas tenho assim... me lembro do meu avô Meneguel, lembro de passar de meus tios assim... de tios-avós... é... Mas minha vida foi muito, também distanciou, porque já estava morando no Rio... Então quer dizer, eu me lembro de ter... morava ali perto do Lido, do... estudei ali no Colégio Marechal Trompoviski [Trompowski], ali perto da Felipe de Oliveira, ali. E dali fui primeiro patrulheiro escolar da... do colégio... foi muito legal! Foi uma vida nova ali e fui crescendo ali naquela área de Copacabana.

 

P/1 – Pera aí! Antes da gente entrar em Copacabana, vamos fal...é, vamos voltar! Queria recuperar da tua infância... O quê que você lembra desses avós... tinha alguém da área de comércio...qual era a profissão dos avós... você sabe sobre isso?

 

R – Eu sei que tinha... era mais ligado à arte mesmo! Eu tive um avô que era maestro... Eu tive um outro que foi o primeiro que construiu lá no nordeste a primeira...é...escada rolante não! Roda-gigante.

 

P/1 – Você lembra o nome dos avós? Cê sabe?

 

R – Pô, que vergonha! Se fosse japonês, nego me enforcava aqui agora! (Risos)______________[1]...

 

P/1 – Tá perdoado! A gente perdoa!

 

R – Eu estava até pensando esta semana. Digo: “Pô, que vergonha!” Eu estava querendo saber realmente... Aliás, meus irmão mais velho, entendeu... É que eu sou mais desligado... eu sou mais esportista, tal... Meu irmão mais velho, minha irmã mais velha eles sabem toda a árvore genealógica, realmente... eu devia até ter estudado este tema para vir aqui responder estas perguntas. (Risos).

 

P/1 – Mas você falou em Meneguel...

 

R – É. Por exemplo, a minha mãe, por exemplo é parente do César Maia, porque ela era da mesma cidade do César Maia... Então quer dizer... eu sei que ela... devia ser primo...

 

P/1 – Qual é a cidade?

 

R – Era a cidade de... porra... de você falar agora me deu um branco neste momento! Deixa eu me lembrar, daqui um pouquinho eu falo...

 

P/1 – É Paraíba?

 

R – Não. Não é Paraíba não! Era... puxa vida! Não me lembro não! Era por ali. Era Nordeste, mas não me lembro agora a cidade. Posso ficar devendo essa?

 

P/1 – Pode ficar devendo! Mas então, em relação... você tem memória de João Pessoa dessa tua infância...zinha?

 

P/1 – Muito pouco. Muito pouco, muito pouco. Eu me lembro brincando na casa com meus irmão. Eu me lembro quando meu pai trouxe a primeira bola, assim... Me lembro ele batendo assim no chão com a bola de couro... ela toda embrulhada no papel...entendeu? Eu me lembro de algumas passagem assim, entendeu? Assim, subindo em árvore, descendo em árvore, e tal... mas... A minha maior infância foi ali mesmo... que  eu tenho mais memória, né? Claro que eu me lembro eu passando na lagoa, naquela lagoa ali do Salão [Solon] de Lucena, se não me falha a memória é este o nome mesmo, que é uma lagoa muito bonita lá em João Pessoa... que eu morava perto da lagoa, ainda bem né? Porque eu sempre morei perto de lagoa, né? (Risos)... De água, né? Me lembro que a gente morava perto da lagoa, e... era um lugar muito bonito, eu me lembro que tinha assim umas gincanas perto da lagoa, então eu sempre ia lá com meu irmão, com a minha irmã, é isso! Não tenho muita memória dessa época, porque eu acho que eu não sei... eu acho que as criança antigamente eram mais burrinha do que hoje em dia! Meu filho com cinco ano se lembra de quando tinha dois anos, lembra de tudo, me pergunta de tudo. Eu fico fascinado com a memória da criançada hoje em dia, mas eu com quatro ano não me lembro muito não! Eu me lembro mais do meu crescimento em Copacabana, entendeu? Ali... que frequentava...

 

P/1 – Por exemplo, o trabalho no Lloyd do teu pai? Como é que era isso? Ele estava sempre muito tempo fora?

 

R – É... eu me lembro, é verdade! Isso eu me lembro... ele sempre saía de madrugada, né? Que era um trabalho assim mais de... Ele chegava, os amigo dele passava naqueles carrinho que chamava Baratinha, aqueles carro que abria a capota atrás assim e você sentava naqueles banquinho meio conversível o carro... eu achava bonitinho aqueles carrinho que até hoje acho bonito, né? Que abre a mala e virava um banco a mala. Aí passava ali e... acordava de madrugada. Eu me lembro ele deitado... nas costa dele, no meio assim das pernas...

 

P/1 – Mas ele fazia assim... o quê? Como profissão?

 

R - Ele trabalhava no Lloyd, né? Ele era funcionário do Lloyd de... navios, né? Sabe que é transporte marítimo. E ele trabalhava no setor de comércio, mas mais burocrático. Era mais burocrata, né? Viajava esporadicamente por causa das mordomias que tinha. (Risos)

 

P/1 – E tua mãe? Você falou que ela era maestrina? É isso, não? Jornalista? O quê que...

 

R – É. Minha mãe era muito culta, ela lia muito...

 

P/1 – Como era o nome todo da sua mãe?

 

R – Antônia Costa da Silva.

 

P/1 – Sei.

 

R – Então era uma pessoa que... eu me lembro até quando ela era viva que tudo o que a gente tinha pergunta a fazer de palavra, de escrever português a gente tirava as dúvida com ela. Ela sabia tudo! Aquela mãezona que sabia tudo! Mas a arte mesmo dela era a pintura. Ela adorava pintar. Ela adora... eu ainda tenho alguns quadro dela, a família toda, cada um... cada irmão ficou com algumas pinturas dela. Então ela era mais dessa arte. Era dona de casa, né? Foi professora. E... dali...

 

P/1 – Como é que você situa sua família assim, num contexto financeiro? Era uma classe média... mais...?

 

R – Classe média... média, média para pobre, sei lá! A média aquela... que né? Média que consegue morar num apartamento, ou paga aluguel, ou que tem seis filho para... não sei como eles sustentavam seis filho, todo mundo estudando, né? Às vezes eu fico até querendo analisar isso! Digo: “Caramba, a família... acho que foi minha tia, acho que era mais unido do que hoje em dia”. Porque hoje em dia você conseguir criar seis filhos, né? Ter um salário, quer dizer, não devia ser grandes salários, e... minha mãe ajudava no que podia, vendendo pintura, alguns quadros, né? Entende? Alguém encomendava, entendeu? Então tinha só estas coisa assim. Então vivia... não era vida... vida média mesmo, classe média... média... média... média... média pobre... qualquer média... média pão com manteiga ou uma coisa assim.

 

P/1 – Então conta um pouco assim do Rio de Janeiro. Quer dizer, você lá na Paraíba chegou a estudar?

 

R – Não. Me lembro de ter frequentado algum Jardim de Infância, assim... Me lembro assim alfabetização, letra... sabe? Caligrafia? Me lembro muito rapidamente. Te dava... minha mãe ensinava sempre a gente caligrafia, até hoje... tinha uma letra! As pessoa: “Que letra é essa que você tem?”. Todo ___________[2] horríveis, né? E eu sempre tive a letrinha assim caprichada. Eu tenho um formato bom de letra, que é difícil hoje em dia na atualidade, né? Porque antigamente acho que era... a família... eu me lembro, minha mãe sempre dava uns cadernos pra gente preencher de letra a, b, c, d, estas coisas toda.

 

P/1: A família, quer dizer, vocês tinham algum evento que se reunia? Tinha uns festejos típicos, alguma coisa que tenha te marcado ainda desse período da Paraíba?

 

R- Caramba, você está levantando tanto anos atrás que eu já estou até... Porra! Já faz muitos anos, já. Não! Lá não me lembro não porque foi exatamente numa época de mudança, que eu me lembro que era... Só me lembro da mordida do cachorro... meu irmão foi mordido por um cachorro, tomou um monte de injeção na barriga... aí eu não me lembro muito de evento assim não! Me lembro dos meus primo andando de bicicleta, tenho curta memória.

 

P/1 – Que bairro você morava? Você sabe?

 

R – Era perto da lagoa lá!

 

P/1 – É.

 

R – Lagoa Barão de Lucena [Parque da Lagoa – Solon de Lucena]. Então minha vida foi pouca ali e já com a ausência dos meus pais, né? Porque já estavam de transferência para o Rio de Janeiro, e eu me lembro que eu fiquei morando com a tia enquanto meu pai veio na frente, depois foi minha mãe, e... mulher decidida, né? Vou, vou mudar mesmo, vou para lá mesmo! Me lembro dessa história e a gente ficou sem pai e nem mãe por uma época: um mês, dois meses, três meses.. um ano! Não me lembro! Até: “Vem agora!”. Eu me lembro depois que fui eu e meu irmão por último. Minhas irmãs vieram primeiro e eu vim por último!

 

P/1 – Então conta quais são suas memórias dessa viagem... você tem? Como é que você veio pro Rio?

 

R – Eu vim de navio. Eu vim de navio com meu irmão, e... era um navio acho que cargueiro, entendeu? Porque meu pai trabalhava... então...

 

P/1 – Arrumou...

 

R – ... Era amigo do comandante, e tal... Eu me lembro que a gente sempre almoçava com o comandante ali, com a galera toda, e foi aquela coisa... de... não me lembro não! É muito pouco... é lamentável! Eu não consigo me lembrar de muita coisa não. Agora me lembrar, eu me lembro que foi seis dias de viagem, mais ou menos uma semana. Eu me lembro só... eu sinto aquele cheiro quando me lembro... Às vezes algumas coisas me aparecem assim quando eu assim... Sinto cheiro (inspiração) de alguma coisa que me lembra aquela época do navio, algum cheiro de máquinas ou de cozinha, sabe? Ou de maresia, algumas coisas assim que tum! Vem à memória aquela minha viagem, né? Eu me lembro dos golfinhos acompanhando o navio também, é maneiro, né? Me lembro que meu filho... meu... meu irmãozinho era bem menor e a preocupação do meu pai era mais constante com meu filho mais caçula, porque não podia ir muito no convés, né? Então era proibido ir no convés, exatamente pelo... não tinha idade para frequentar o convés.

 

P/1 – Quantos anos você tinha quando você chegou no Rio?

 

R – Ah! Uns quatro ou cinco anos.

 

P/1 – Quatro ou cinco. Então, onde é que vocês foram morar e qual é a tua lembrança desse começo de vida na cidade do Rio?

 

R – Aí eu me lembro, imagina: eu estava vindo de uma cidade, entendeu? Pacata. Imagina há cinquenta anos atrás, né? Eu me lembro que a gente morava ali perto, bem no Lido mesmo! No apartamento de uma madrinha minha que tinha emprestado pra minha irmã... pra minha mãe. E eu me lembro do cheiro de padaria... nunca tinha visto aquela coisa... aquele pãozinho quente... aquele comércio borbulhante em Copacabana, né? Aquela... aqueles letreiros de... de...neon, né? Aquela coisa de neon toda, né? Aí você fica vendo aquela história toda... Sabe aquela entrada? Aquele tipo de comércio que não existia lá, já era um supermercado com neon, cheio de padaria, sabe? Aquele movimento de Copacabana. Ali... Copacabana naquela época era bem agitado, né? Era um point legal, né, Copacabana há cinquenta anos atrás.

 

P/1 – Você então está falando de 1950 mais ou menos?

 

R – É. Mais ou menos, é verdade, é...

 

P/1 – E aí você vai morar no Lido. O que é que você lembra do Lido? Porque o Lido também era uma área que tinha umas boates, tinha umas coisas... Já tinha isso nessa época?

 

R – É. Mas eu era muito pequeno...

 

P/1 – Bom, você era criança, né? Mas...

 

R – Eu me lembro que tinha as lambretas que faziam os pontos lá. Mas eu não tinha muita liberdade não! Sabe? Família, minha mãe tomava conta e... não me lembro de muita coisa de pequenino. Eu me lembro assim do colégio

 

P/1 – Então, fala da escola agora.

 

R - Era o Marechal Trompoviski que era rua... é... Belford Roxo, lá no final junto com a Felipe de Oliveira. Um colégio público. E ali tinha um... eu me lembro... tenho umas foto, eu tirei, eu me lembro que eu não tinha escovado o dente, aí eu tirei a foto fechando a boca, entendeu? (Risos) Entendeu? Eu me lembro dessas coisa assim: do colégio, que eu fui patrulha escolar...

 

P/1 – Que é que era ser um patrulheiro escolar?

 

R – Foi o primeiro ano que o Detran [Departamento Estadual de Trânsito] estava na campanha sobre o comportamento de trânsito, é... para as criança... a educação, né? Do trânsito, né? E aí estavam fazendo o seguinte: foi eleito dentro do colégio, parece que dez ou doze patrulheiros, um tenente e um capitão, entendeu? Os garoto que... a professora de cada sala, a professora Zoé, se não me fala a memória agora, ela escolheu dois ou três de cada sala e indicava para um policial da parte de trânsito, que estava fazendo essa campanha, e eles ficavam assim dois ou três meses dando aula de trânsito... como eles paravam o trânsito... para ajudar na saída e entrada do colégio, tinha que chegar antes... usava um (talhamarte?)[3] que era um negócio dado pelo Lions, tinha uma faixa azul, assim... Que nem o pessoal do trânsito hoje usa aí um negócio de (magic colors?)[4]. E aí eu fui logo o primeiro capitão! Isto aí nunca mais eu vou esquecer, porque para mim foi bem marcante, que eu fui eleito pelos coleguinhas, né? Como capitão... fui o primeiro comandante da patrulha, né? Então, eu dava patrulha, reunia todos eles, a gente ajudava com as professoras a saída dos alunos no colégio... no trânsito... fechar o trânsito ali com a bandeirinha e tal...É legal! Eu achei uma delícia ser capitão naquela época! Fiquei muito entusiasmado, nossa!

 

P/1 – Agora, como é que era essa coisa, por exemplo, você vindo de outra cidade... os garotos implicavam... Você, por exemplo, tinha sotaque... O pessoal implicava: “Ih! Ele não é carioca”. Rolava alguma coisa nesse sentido?

 

R – Rola sempre! Isto sempre rola até hoje, né? Não rola porque as pessoas já me conhecem há muitos... eu tenho muitos amigos aqui... eu cresci na cidade mesmo, né? Mas naquela época eu não me lembro dessas encanações não! Eu acho que mais velho, que nego dá uma encanadinha, porque até hoje eu tenho empregado do nordeste até hoje na minha casa, né? Então você sempre fica com aquele sotaque, entendeu? Não tem jeito, né? Meu irmão caçula não! Mas eu fui o único que fiquei mais, não sei por quê. Meu irmão caçula não! Minhas irmãs mais velhas não! Mais eu fiquei! Não sei se foi pelo contato de empregados, depois empregados da minha casa, empregados depois do meu... da minha vida toda eu tive empregado nordestino, né? Então eu tive empregado que era motorista paraibano, outro de Recife, Fortaleza, entendeu? Eu sempre tive nordestino na minha empresa, na minha vida particular, na minha casa. Hoje em dia mesmo o motorista do meu filho é de João Pessoa... tem minha empregada de lá também... (Risos). Então eu lido com estas pessoas toda! Ah! eu me lembro também do meu pai que tinha muitos amigos políticos... agora me lembrei que era João Agripino, até hoje! Ninguém morreu! Quem não morreu tá vivo, né? (Risos). Então são os mesmo nome! Então hoje eu vejo os Maia, entendeu? Quase que eu lembrei da terra da minha mãe agora... Eu me lembro dessas famílias toda, um amigo de papai que morreu que era político, acho que se matou. Eu me lembro assim dessas coisa meio triste, assim ou que chamou atenção... me lembro do meu pai chorando...

 

P/1 – Mas o que teu pai no Rio foi fazer? Ele continuou trabalhando no Lloyd?

 

R – Não! Depois se aposentou e ele tinha muitos amigos assim... era um cara muito querido, entendeu? Me lembro que sempre vinha gente do nordeste, assim... políticos, governadores, e ia visitar ele lá em casa. Ele sempre tinha uma turminha que ele gostava de tomar um chopinho ali no... ele ficou morando ali depois na Barão de Ipanema, em Copacabana, que passou a ser um ponto superlegal ali por uns quatro e meio e ele tinha muito contato com os amigo. Sempre, sempre até hoje...

 

P/1 – Onde é que você tomava um chopinho nessa época?

 

R – Eu não! Meu pai!

 

P/1 – Teu pai...

 

R – Ele tomava ali...

 

P/1 – Você lembrava dele...

 

R – Caravela, não! Até hoje... Barril 1500? Não! É um barzinho na esquina da Bolívar, até hoje, ficou muito conhecido naquela época, era o pointzinho da galera mesmo, da Rua Bolívar esquina com Av. Atlântica. E na outra esquina morava a Martha Rocha, eu me lembro! Martha Rocha... e há pouco tempo eu tive até trinta, trinta e cinco anos eu frequentava essa esquininha, porque aí... quando eu me lembro mais porque eu tinha dos dez aos vinte e poucos anos  eu  morei em Copacabana, ali... mas já na Domingos Ferreira com Barão de Ipanema.

 

P/1 – Quer dizer, você sai do Lido e vai morar na Domingos Ferreira?

 

 

R - Copacabana com Domingos Ferreira... com Barão de Ipanema, que era um point, que era o lugar mais badalado de Copacabana naquela época... tinha as turminha braba...

 

P/1 – Tinha Colombo também...

 

R – A Colombo era quase diagonal à minha casa... aquela esquininha ali perto do primeiro Bob’s  ali. Frequentei ali onde nasceu o primeiro Bob’s do Brasil!

 

P/1 – Vocês iam aos Bob’s?

 

R – Ah! Ia claro! A gente morava ali na esquina do Bob’s ali, na coisa, então aquela esquina... o primeiro chopinho que eu tomei foi naquela esquina... a primeira mulher que eu tive relações foi ali naquela esquina, entendeu? Então foi uma parada muito engraçada, porque eu tive essa semana, e um amigo meu das antigas, me disse: “Eu tive lá a visitar, depois muita gente no Rio, né? Eu fui pra lá visitar não sei quem...“ Aí eu vou, vou. Aí outro dia minha amiga me chamou: “Vamos lá”. Aí encontrei, hoje em dia este barzinho que eu frequentava, um dos sócios hoje é o pai do Gabriel, O Pensador, aí assim o cara lembrou de mim.

 

P/1 – Qual é o barzinho que você está...

 

R – Era o antigo Delfine, hoje é o tal de Tradicional.

 

P/1 – É na própria... que rua?

 

R – Domingos Ferreira com Barão de Ipanema. Morava Marília Batista na esquina, bem na esquina em frente a este bar. Na outra esquina era o Bar do Alemão... todo mundo frequentava. Perto da outra esquina era o Bob’s, na esquina da praia era a Martha Rocha, quer dizer, era o point show de Copacabana. E a nossa turma era a mais braba da época. Não, não, porque gente chamava a nossa turma era da barrinha. A turma mais pesada era da Barra, lá de cima. Era o Marquês, entendeu? Era uma turma mais pesada, que pegava droga, tal, que já era na Pompeu Loureiro, lá em cima na Barão de Ipanema, e tinha a nossa turminha que nós chamávamos de barrinha (Risos), que era turminha mais leve.

 

P/1 – Uma barra menos pesadinha

 

R - ... menos pesadinha, entendeu?

 

P/1 – Então conta como era essa juventude carioca no Rio de Janeiro, em Copacabana? Por exemplo, na época o quê que significava o Bob’s quando o Bob’s foi fundado? O quê que significava?

 

R – Aquilo ali era como se fosse o Bob’s Ipanema e vinte ou trinta anos atrás, as pessoas frequentavam a Garcia D’Avila. Eu estava conversando com uma amiga minha dessa época e ela falou: “Pô, antigamente a gente frequentava aqui”. Aí ela apontou o Bob’s. Aí me lembrei também, aí eu tô ligando uma coisa à outra. E a mesma aconteceu com o primeiro Bob’s de Copacabana, você imagina! Foi o primeiro do Brasil! Foi ali em Copacabana. Então era um movimento danado ali...

 

P/1 – Mas vocês iam ali tomar Milk-Shake ou não?

 

R – Milk-Shake. Eu  tomava... tinha um outro barzinho do Delfine, que era da Constantim Ramos, que era sempre naquele circulozinho pequenininho, era o meu barzinho que eu comia pizza e banana-split. Minha turminha sempre toda hora a gente estava lá comendo brotinho e banana-split. Aí fui crescendo, se eu tinha treze né? Aí quando tinha dezesseis, dezessete, tal, o primeiro chopinho foi na esquina do Bar do Alemão. Aí tomei chopinho... o pior é que eu não sou de beber muito não! Mas já comecei... meus amigos que já frequentavam... eles já tomavam dois, eu tomava um, eles tomavam dez eu tomava dois, entendeu? Mas foi ali o início da minha juventude... é... das primeiras... quando eu fiz alpinismo, quando eu fui alpinista. Eu fui aí, eu fiz um curso e fui guia alpinista lá do Clube Excursões Carioca, na Hilário Gouveia. Aí aquela época eu já estava ligado... aí fui escoteiro... Não! Fui escoteiro já morando em Copacabana, no Lido, que aí tinha... novinho e tal... aí fui escoteiro da Santa Teresinha, na... na igreja ali, perto do Rio-Sul ali, a Igreja de Santa Teresinha. E ali tem um grupo escoteiro. E dali eu fui escoteiro daquela região. Aí depois saí dali e fui para o alpinismo, fui guia alpinista. Aí fui amadurecendo , né? Aí quando eu tinha dezenove ano, servi o exército e logo depois virei chefe de uma tropa de escoteiros, ali... lá na Pompeu Loureiro já. Aí nem sabia o que era alpinismo... “Poxa, eu não quero não! Estamos sem chefe de escoteiro, não, não estou afim não!”. Fui me envolvendo, quando eu vi eu estava com vinte crianças como chefe de escoteiros. “Caramba! Eu não acredito!”

 

P/1 – Agora um pouco da vida de Copacabana de praia...

 

R – Comérc... praia! Praia, ali foi o início do meu frescobol, né?  Ali tinha as grandes porradas com a polícia por causa do frescobol, né?

 

P/1 – Por quê? Era proibido?

 

R – P. Proibidíssimo, cara!

 

P/1 – É?

 

R – Ali saía porradaria. Ali chegava, eu me lembro, chegava batalhões de polícia, né? E era futebol que era proibido também, mesmo jogando na areia. Eu me lembro, jogar futebol vinha polícia pegava um grupo de amigos e pegava a bola assim aí fingia que estava com a bola assim, aí todo mundo escondia assim... e pá! Cavava um buraco, fingia que escondia a bola, aí pegava outro lugar... Aí a polícia nunca sabia onde tinha escondido a bola... o grupo, né? E o frescobol a mesma coisa. O frescobol foi show também, né? É... me lembro que tinha um cara que era da marinha e ele ficou nadando, aí veio a marinha recolher... é... tinha o maior apoio o frescobol, né? Ali foi a história do frescobol, que nasceu em Copacabana, né? O frescobol... e eu me lembro que eu já jogava... eu me lembro que... eu era assíduo... ali... frequentador. Me lembro também lá em casa, a gente pegava mate, levava o guarda-vidas. Hoje ninguém faz, né?

 

P/1 – Levar o que para o guarda-vida?

 

R – É porque ficou amigo do guarda-vida... criança ali... chegava em casa, mandava minha mãe fazer um litro de mate e levava para o guarda-vida... era amigo dos guarda-vida. Aí, aquela vidazinha pacata, né, de cidade... Não tinha tanto crime, tanta... tantas crimes... Até hoje a gente se lembra do crime da Aída Curi que jogaram lá do décimo andar. A garotada mais velha, de vinte anos foram à festa, pegaram a garota ali e... se jogou... Foi muito conhecido esse crime, né?

 

P/1 – E de festinhas? Que tipo de música você ouvia?

 

R – Festinha... Porrada, entendeu? (Risos) A gente anda de cinto, passava um veado assim pegava tirava o cinturão assim e dava nos veado todo! (Risos) Que absurdo! A gente era muito agressivo, cara, entendeu? Sair dando de cinto, olha que absurdo! Pegava aqui... Que discriminação! Pegava o cinto assim e saía batendo. Às vezes batia mesmo com a fivela... uma coisa muito louca, né?

 

P/2 – Como é que a turma se vestia... assim? Vocês tinham alguma roupa assim... Qual era a moda assim dessa época?

 

R – Deixa eu me lembrar... Eu lembro de uma camisa que foi um sucesso danado! Espera aí... Tinha uma loja lá na Maga____[5] Menescal, que eu esqueci o nome dela... La Dance... ali que começou a usar umas camisetas, umas camisa estampadinha. Eu me lembro que ela tinha assim um vezinho aqui, cortadadinho aqui assim... sabe assim? Era a camisa da moda, todo mundo ia ali porque não tinha nada de moda assim na época. E eu me lembro também que para conseguir jeans a gente comprava de um cara... um cara que trazia de fora, não sei se existia Paraguai, mas era americana mesmo! Em frente ao cinema Copacabana, na Dias da Cruz...

 

P/1 – Dias da Rocha.

 

R – Dias da Rocha. Aí tinha uma casa e cara vendia ali, né?

 

P/1 – Proibida?

 

R – A Levis e Lee. Era proibido, entendeu? Aí de vez em quando era ________[6] , que era caro! Imagine comprar... até hoje o jeans é caro, imagine naquela época uma calça importada, né? E me lembro que tinha também a falsa, me lembro que era meio de plástico aquela parada, aqui era meio clara e o jeans era mais claro, entendeu? E a gente ficava naquela busca do jeans melhor para a gente se vestir, né? E a camisinha estampada, e tal... curtinha com negócio aqui ou com botãozinho aqui. Depois teve a sunga, né?

 

P/1 – Pois é, como é que vocês iam à praia?

 

R – É, de sunga. Esse dias eu estava olhando um filme antigo brasileiro, aí fiquei prestando atenção às roupas que o pessoal estava usando, nós todos homens usando o sungão que a gente usa hoje, a gente usava sunga naquela época. E depois teve a época da sunguinha tipo turbo, né? Que nego usava “pagando cofrinho”, né?

 

P/1 – O quê que é “pagando cofrinho”?

 

R – Com a bundinha aparecendo, né? Fica o reguinho aparecendo ali.

 

P/1 – Os homens usavam isso?

 

R – Usava. Todo mundo aí ficava com o reguinho.

 

P/1 – Então espera aí! Conta a moda de praia quando você era garoto do Posto quatro e meio lá. Qual era o material? Você consegue lembrar aonde você comprava essas coisas de praia?

 

R – Não, aí não me lembro muito não! Moda não! Eu não me ligava muito à moda não! Eu me lembro da época de... indo para a praia, que a gente tomava muito sol. A gente passava coca-cola para ficar mais queimadão... coca-cola e ficava tomando sol lá para se queimar, entendeu? E...

 

P/1 – Mas você comprava suas sungas aonde? Você consegue lembrar isso?

 

R – Não lembro. Sunga assim...

 

P/1 – E tuas irmãs, assim... Por exemplo, sua mãe.

 

R – Mas era short... short... Ah! Usava muito enchimento. Eu me lembro que a mulherada... eu ficava sempre olhando os peito da mulher na praia, usava sempre enchimento... até hoje as mulheres são griladas com tamanho de peito, né? Essa elas usavam sempre... era... tinha umas que colocava e fica dentro da costura assim.. e colocava o enchimento,  do...o bojosinho do sutiã, né? Aí sempre estavam lá (Risos) Olha, estão enchendo os peito para ver se aumentava o peito de qualquer maneira, né?

 

P/1 – Você lembra assim de como as tuas irmãs iam à praia? Um biquíni de uma irmã e um biquíni da sua mãe.

 

R – Era mais tecido, né? Tinha muito biquíni de tecido, né? Era maior... Eu me lembro assim dos estampados, né? Os de bolinha, né e tal... Aquelas calção... maiô, né? Aquele maiô que faz assim, né? Como se fosse uma sainha por cima, né? Tinha o sutiã aqui e o maiô aqui assim, e o maiô depois ficava reto assim, entendeu? Tinha feito uma perninha aqui. Não ficava aparecendo assim como é hoje em dia, né? Ele era meio travadinho assim.

 

P/1 – Mas, por exemplo, já que a gente começou a falar dessa coisa de moda de praia... é... o teu pai tinha uma sunga diferente da sua?

 

R – Ai cara... não... Meu pai usava muito bermudão, mas não me lembro dele ligado à praia não! Entendeu? Porque ele saía muito com os amigos dele para tomar chopinho. Agora moda praia naquela época... eu me lembro mais dessa história que a gente frequentava muito a praia... sungão mesmo, era frescobol, muitos...

 

P/1 – Cinema vocês iam?

 

R – Cinema a gente ia no Roxy. A gente entrava justamente pela saída, né? Para não pagar, né? A gente entrava ali pela... pelo... hoje não tem mais o Roxy. Que é exatamente o fundo dele é na Domingos Ferreira perto desse point que eu te falei, né? Quer dizer, acho que é um apart hotel, um edifício super lindo que fizeram lá. Tinha o Braseiro, que até hoje tem o Braseiro atrás e no fundo, eu me lembro, que a gente saía assim, sempre os amigos da gente tentava por trás. Eu normalmente pagava, normalmente os filme. Mas o Roxy Cinema era gostoso de ir também em Copacabana ali, só que acabou tem uns trinta anos atrás, acho... o Roxy.

 

P/1 – E música? Qual era a sua juventude? O que é que vocês ouviam de música?

 

R – Música falava muito em Rolling Stones, né? Rolling Stones. Tinha um amigo meu que tinha feito um grupozinho de Rolling Stones. Imitação do Rolling Stones. Então ele botava aquelas roupinha, cabelinho mais cumprido. É que a gente usava tudo um cabelão, né? Ah é! Me lembro que minha sobrinha me chamava de... de... eu usava um cabelo assim todo... me chamava de Gaetano, Gaetano Veloso. Eu parecia o Caetano, assim mais novo, assim... cabelão... eu usava um cabelão e ele também usava, e aí as pessoas de vez em quando me chamavam, que era magrinho. Ah! Eu me lembro: eu usava sunga de pano! (Risos) Agora que eu me lembrei... sunga de tecido. Lembro de xadrezinho e com cós branco. Me lembro dessa sunga. Olha, era com botãozinho aqui, com um cosinho branco e ela xadrezinho, entendeu? A sunguinha “pagando cofrinho” (Risos) Mas esse negócio de “pagando cofrinho” ficou até já... aqui morando em Ipanema. Eu me lembro que andando de moto, no Arpoador a gente usava a sunga turbo, aí eu já me lembro mais, que era uma sunga espanhola que fez muito sucesso, vendeu muito essa sunga aqui no Brasil.

 

P/1 – Chamava sunga turba?

 

R – Turbo!

 

P/1 – Turbo.

 

R – De jersey estampadinha, que até hoje a Speedo ainda faz. Muita gente ainda gosta de usar, o... aquele tecido, como é que é? O jersey, entendeu? E aí todo mundo usava aquela sunguinha porque já vinha pronta da Espanha e tal. E todo mundo, eu me lembro, aquele cofrinho pagando de moto, e andando de moto sem nada, né? De moto, só de sunga, descalço, não tinha japonesa, não tinha sandália havaiana também. A gente andava descalço.

 

P/1 – Mas essa coisa assim do comércio, né? Você morava em Copacabana, você costumava fazer mais compras em Copacabana, quer dizer, a juventude... onde é que tinham outras lojas? Tinham já outros bairros como Ipanema, Leblon? Você lembra?

 

R – Para te falar a verdade, nessa época a gente não podia ir até Ipanema porque levava porrada!

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque tinha a turma de Barão da Torre, que era famosíssima também, entendeu? E eu era também garoto... não tinha essa, essa liberdade que a gente tem hoje de ir e vir, entendeu? A cultura que tem meu filho com cinco anos, vai em tudo que é bairro, viaja por tudo que lugar, está entendendo? A gente não tinha essa grana para ficar fazendo compra aqui e ali, entendeu? Família de classe média, não, tinha essa história de pega roupa do irmão, sabe? E... não tem esse negócio de compras, não tinha esse consumismo. Pelo menos na minha época não vejo esse lado. Tinha ____________[7] o pessoal ficou muito famosa essa loja La Dance, lá na Galeria Menescal, que eu sei que amigos roubavam direto... chegavam: “Pô, pegamos uma sunga lá, metemos a mão!”.  É tudo movimento, roubavam sempre uma roupinha lá, né? Eu nunca participei disso não, mas era a conversa da turma lá, entendeu?

 

P/1 – Mas era para homem?

 

R – Era. Tinha para os dois. Mas acho que era mais para homem mesmo, entendeu? Eu fui até lá uma vez, mas não tive coragem de fazer e mandar a sunga.

 

P/1 – Mas quer dizer que era lá que vocês compravam as sungas.

 

R – É, né? Ficou famosa porque ela tinha muito movimento e toda loja, que nem a minha loja quando tem movimento, e a gente tem que se precaver exatamente porque a gente sabe que nego manda mesmo! Quanto maior for a fama da loja, maior o índice de roubo, né? Quer dizer então que a loja tinha muito movimento assim, e as pessoas abusavam daquilo, como hoje em dia... o sistema de alarme...

 

P/1 – O La Dance tinha marca? Você consegue lembrar disso?

 

R – Não. Não me lembro.

 

P/1 – Não tinha tanto essa coisa de marcas nas roupas né?

 

R – Não. Não tinha muita marca não! Porque, exatamente porque ela fazia uma roupa diferente mesmo, entendeu? Que essa loja chamou atenção na época porque teve um movimento que ela devia está mais dentro do contexto da moda da época né? Eu me lembro que ela era uma camiseta bonitinha. Tinha umas duas ou três delas, que eu me lembro que era cortadinha aqui, era verde com tipo cashmere, sabe? Aquela estampa meio cashmere.

 

P/1 – E aquele Shopping ali da Siqueira Campos?

 

R – Ali. Ah! Ali também é uma época legal da minha vida também. Eu me lembro que a primeira peça que eu vi Stênio Garcia, com uns dezoito anos, Cemitério de Automóveis, eu vi uma peça dele. E ali eu também tive em frente esse negócio. Aí eu estava, aí eu já estava com uns quinze, dezesseis, dezessete anos e eu já frequentava assim uns amigos que era tipo meio hippie e que fazia... aí... eu... trabalhava, já trabalhava, comecei a trabalhar cedo e consegui trabalhar no Ministério da Agricultura, uma coisa assim, até novo para lá, antes de completar dezoito anos. Mas depois eu não gostava daquilo, não!  Aí os caras começaram a me ensinar artesanato. Aí eu comecei a fazer cinto, cinto, né? Passava... cintos, cintos normais. Aí eu frequentei ali uma turminha ali, que eles expunham. Eu só expus uma vez na Praça General Osório, entendeu? Porque a gente tinha que abrir uma lojinha... abrir uma lojinha... fazia parte do grupo deles ali, eu me lembro que era ali na frente do teatro, no Shopping do 143 da Siqueira Campos. Aí essa é uma memória, também na minha cabeça, também que eu...

 

P/1 – Você lembra o nome dessa lojinha?

 

R – Não me lembro. Não me lembro, porque é uma loja só assim, um fazia uma bolsa, o outro fazia chinelo. Só artesanato mesmo, né?

 

P/1 – Ali tinha umas lojas que vendiam calças jeans, não tinha? Lixo...

 

R – Tinha. Ah! Cheguei a... também é... Você está puxando pelas coisas da minha cabeça. Eu me lembro, o lixo. A gente pegava o jeans todo recortado, que hoje em dia até hoje é moda, né? Impressionante, né? E aí o lixo... realmente... Aí comprava... alguns desse meus amigos mais avançados hippie usava esse coletes de sargento americano ou inglês, né? Aquelas calça, o jeans já todo desbotado, amarrado, costurado colocado um sobre o outro. É verdade, o lixo ali fez muito sucesso ali também, né? Copacabana sempre teve sua história também, né? Teve aquela loja muito famosa também que era Eloca, não! Qual o nome? Tem... tem muita loja, mas eu não me lembro do nome ali.

 

P/1 – Você lembra onde tuas irmãs compravam roupa?

 

R – Não. Porque, que engraçado! Eu tive uma época que eu fi... Ah é! Teve uma época que a minha família mudou toda para Brasília, aí eu: “Caramba! Eu vou fazer o quê? Porque eu digo: eu não vou!”. Aí eu fiquei lá um mês, “O quê?!”. Pá, voltei para o Rio. Aí tinha um grupo de amigas minha, que a mãe dela era holandesa, super gatas, né? E aí elas ficaram muito minhas amigas, já frequentavam, me lembro que nem morava em Ipanema ainda, morava em Copacabana e eu chegava... já estava trabalhando num, como é que se diz? Num colégio, não, num cartório! Fui concursado e fui ser escrevente de cartório e aquilo de vez em quando chegava sexta, sábado e domingo assim, elas me pegavam em casa e me levavam para a casa delas, entendeu? Eram duas gatas maravilhosas holandesas. Aí eu ficava na casa delas. Aí eu fui ficando meio agregado, sabe? Fui, fiquei assim, sabe? Aí dormia lá, e eu fui frequentando assim a Barra. Fui como se fosse... virei como se fosse da família, né? De tanto frequentar a casa, eu comecei a frequentar a Barra e só descia... e quase eu não vinha. Aí depois a minha família toda morava em Copacabana e eu tinha um irmão que foi diretor de um colégio lá em Brasília, meu irmão mais velho e outra irmã também o marido dela era funcionário do Ministério da Agricultura e aí foram para Brasília para juntar com o resto da família. Que é que eu fiz? Eu digo, fui lá, experimentei, não gostei né? Aí o pessoal: “Fica aqui!”. Aí eu fui ficando, morando com elas, não é? Aí daquilo, eu digo também: “Caramba! Não!”. Eu ganhava muito dinheiro naquela época, impressionante! Eu da minha turma eu era o que tinha mais dinheiro na época, com dezoito anos, a maioridade...

 

P/1 – Espera aí! Antes da gente entrar na coisa profissional eu queria perguntar sobre escola. Você completa o primeiro grau...

 

R – Nada! Aí eu fazia tudo o que era cursinho que tinha...

 

P/1 – Mas você fez 1º Grau?

 

R – Fiz 1º Grau e depois comecei a fazer negócio de Clássico... que eu não gostava de matemática, apesar de... só matemática intuitiva, né?  Minha matemática é intuitiva. Mas eu fazia cursinho de vestibular e negócio de Direito. Aí depois comecei a ler livro sobre Testamento, comecei a entender da parada assim... Eu digo que quem vai para a Faculdade é porque é burro, porque precisa estudar, porque não sabe! Tem gente que estudar para não ser burro. Só porque, eu não posso falar isso, para o meu filho, né? Não posso dar isso como instrução, né? Então, vai para a Faculdade quem é burro, né? Porque senão a maioria das pessoas não vai querer, quer dizer, mesmo que seja burro não vai querer né? Para não passar atestado de que quem está indo estudar é porque é estúpido, não é burro, não sabe fazer nada! Então, eu sempre fui muito autodidata mesmo, né? Então, eu tenho bastante cultura, mas tipo assim, tirando daqui, dali sem completar nada.

 

P/1 – Mas aí você vai naquele Marechal Trompoviski até...

 

R – Ali... ali foi só o primário, né? Ali foi só o primário, fiz Ginásio lá no Instituto Guanabara, o de admissão era no curso Abdul Sayão , entra burro... entra carneiro... entra burro e sai carneiro. Aí fiz o Curso de Admissão, no Colégio Guanabara, aí do Colégio Guanabara fiz o Ginásio, do Ginásio comecei fazendo o Clássico, o Clássico era para a faculdade... eu não terminei... e já queria entrar na Faculdade, sem fazer nada, né? “Não vou perder meu tempo aqui não!”. Mas aí foi isso... E aí eu fui para onde? Eu fui para... Bom, então mais pergunta...

 

P/1 – Pois é. Então agora da vida profissional. Quer dizer, teus trabalhos. Teu primeiro emprego então qual foi? Foi no Ministério da Agricultura, é isso?

 

R – Foi. Fiquei um pouco de tempo, aí fui requisitado logo em seguida. Aí fui para o exército. Que eu entrei, depois que eu fui para o exército, né? Aí quando eu voltei, meio transviado, usava jeans com a camisa de goleiro vermelho. Olha! Era muito avançado para época, é. Era super moda, né? Camisa de goleiro, né? Camisa de goleiro... ... de malha, né? Dobradinha...

 

P/1 – Quente, pra cacete, né?

 

R – Nem todo o dia, mas era... era ...

 

P/1 – Era teu estilo.

 

R – Era o estilo, né? Aí eu com vinte anos namorava gatinha de doze, né? Que absurdo! Não, mas depois o que é que tem? Com trinta pegava de quinze. Qual é o problema, né? Aí até menos! Depois a diferença ficou muito maior: com doze é um absurdo, né? Mas depois quando eu fui casado a diferença com a minha mulher é de vinte e tantos anos! Agora solteiro. ___________[8]

 

P/1 – Mas você trabalha no Ministério da Agricultura e depois...

 

R – Agricultura. Aí fui requisitado pela SUNAB. Aí trabalhei com os milicos. Só tinha general... Aí trabalhei no Ministério da Agricultura e fui para a SUNAB [Superintendência Nacional de Abastecimento]. Já ganhava o salário do Ministério da Agricultura, mais um salário da SUNAB. Show, né? Imagine com dezoito anos eu era o manda-chuva da turminha, né? Todos estudando, um que era filho de juiz, outro que era num sei quê, todo mundo estudando, ficavam com um salário mínimo, o outro era magrinho, o outro era... fazia estágio no escritório, e todo mundo ganhava aquele salário merréquinha, né? E eu já queria comprar carro! Comprei o primeiro carro com um amigo meu, tal...

 

P/1 – Qual foi teu primeiro carro?

 

R – Foi um fusquinha, depois um dorfine [Dauphine]. Mas o engraçado é que depois eu enjoei. Aí nego falou assim: “Vou embora!”. Aí pedi demissão. Não! Tinha um amigo meu que o pai dele era do cartório, era tabelião substituto, e era o cara que andava mais comigo, que naquela época eu comecei a fazer cronometragem  de automóveis, que era... o pai dele também era diretor do Automóvel Club e aí ele me chamou. Aí ele me chamava e eu ainda fazia mais uma graninha como...

 

P/1 – O que é fazer cronometragem de automóvel?

 

R – É as corrida que tinha no Aterro, as corrida que tinha na subida de montanha nas canoas, corria ________________________________[9] de Castro que até hoje eu conheço os sucessores, os filhos, os netos dos que iam comigo na lagoa, tal... são filhos dessa galera que eu conheci... nem conheci, porque eu era moleque, mas eu andava porque o pai desse meu amigo era diretor do Automóvel Club, então eu... eu..

 

P/1 – Como é que era uma corrida no Aterro?

 

R – No Aterro, fechavam o Aterro que nem corrida de bicicleta agora, corrida... de corrida mesmo de a pé, entendeu?

 

P/1 – Pois é, à pé é uma coisa, de carro é outra.

 

R – Mesma coisa! Fechava e fazia aquele circuitozinho ali onde tem aquele retorno antes do MAM [Museu de Arte Moderna] ali, aí tem o retorno . Eu me lembro que Norma Casari ali, Cândido, ______________[10] , aí tinha Dauphine, Volkswagen, Gordini, Vemaguet. Ninguém se lembra o que é Vemaguet, né?

 

P/1 – Vemaguet?

 

R – Motorzinho... Vemaguet, era...

 

P/1 – Em que ano que você está falando?

 

R – Pôxa!

 

P/1 – Vamos recuperar ano! Faz uma conta aí. Você tinha quantos anos?

 

R – Ah, não me lembro.

 

P/1 – Ah!

 

R – Tenho que me lembrar o ano, espera aí! Se eu lembrar o ano da corrida... é 1968, devia ser 1964, ou antes.

 

P/1 – Em 1964, você tinha vinte anos, você é de 1944.

 

R – É. Eu acho que era antes, então... Acho que é por aí, eu tinha dezoito anos mais ou menos. Devia ser 1962. Aí a gente fazia as corridinhas era ali. Tinha as corrida de kart, atrás do Maison de France, tinha corrida de kart ali e a corrida que tinha no Aterro.  Depois teve a última da Barra: as “500 milhas da Barra”, que era aquele percurso de passar em frente ao Pepê, entrava na Olegário Maciel, contornava por ali mesmo... ali da igreja, seguia até embaixo do viaduto, fazia a curva do S, passava pelo Flamingo, que era uma boate antiga que dava esquina na praia com a Sernambetiba, que dava 4.500 metros...

 

P/1 – Flaminco?

 

R – Flamingo! Aí uma boate famosa na época... Aí eu frequsentei muito a Barra por isto tudo.

 

P/1 – Como é que era a Barra na década de 1960?

 

R – Puxa! Era show! Muito legal, cara... Porque a gente andava, eu me lembro, que a gente ia... só tinha o Joá, né? Eu me lembro que a gente só via a luz da casa da Joana que era a mãe dessa minhas amiga. A gente só via a luzinha de longe e sabia que era a casa dela, né? Era maneiríssimo mesmo! Eu me lembro que a gente saía ali e esquiva de bugre... de bugue... de Jipe, que amarr... que construía umas pranchas de madeira e saía esquiando pela areia. À noite pela areia, ali. Tinha um amigo meu que era médico, lá do Lourenço Jorge, maluco ele! E ele acompanhava a gente, né? Aí toda hora sempre tinha um acidente, aí ele levava sempre para o Hospital, sempre, eu já era conhecido no Hospital. E ali também eu ganhei dinheiro... era rebocando carro. Mas eu pedi demissão do... Ah! Bom, vamos voltar um pouquinho atrás. Aí eu fui para o... fui trabalhar no cartório...

 

P/1 – No cartório...

 

R – Abandonei o emprego muito bom. Mas eu fui concursado junto com o filho desse meu amigo, que ele era do cartório, eu e o filho dele fizemos um concurso, passamos e fomos ser escrevente. Aí tchau SUNAB! Fui ser dentro do cartório, bá, bá... e comecei a ganhar dinheiro! Diligências, faz __________[11], lê escritura. Aí dali fui crescendo. Fui sendo tabelião, tal. Mas aquilo mesmo... puff... não aguentava aquele negócio todo dia com um pastão, um ano, dois anos...

 

P/1 – Você trabalhava de terno e gravata? 

 

R – Ô! Super engomadinho, parecia um... entendeu? Todo...

 

P/1 – Pois é, voltando ao comércio: terno e gravata se comprava aonde? Cê consegue se lembrar?

 

R – Eu me lembro que eu pegava a minha roupa, eu fazia a lavada, eu lavava minha camisa na lavanderia Quitandinha. Vinha a roupa impecável. Cada camisa que vinha, por exemplo, eu usava uma camisa branca com a gola digamos azul, com o punho azul ou rosa, usava aqueles parafusinhos aqui, assim sabe? Aquele negocinho que transpassava aqui... mas vinha tão impecável, tão lavada e engomadinha... vinha na caixa com aquele papelão aqui para segurar, para não amarrotar, parecia sempre que era uma camisa nova, né? Vinha impecável, até hoje nunca... vê como é importante este negócio de embalagem, né?

 

P/1 – Muito importante.

 

R – Até hoje eu não esque... eu me lembro da embalagem dessa camiseta... da camisa!

 

P/1 – Da lavanderia.

 

R – Da lavanderia. Eu comprava na Temper, comprava Ducal, Ducal, Temper. Fui melhorando: primeiro Ducal, depois Temper, que era... que eu fiquei mais entendeu? Sabe, gostava de roupinha diferenciada, né? E tinha outra loja. Também que eu não me lembro, que eu... A que eu mais me lembro agora é Temper... a Temper eu acho que foi a última que eu me lembro que eu comprava ali aqueles crediários, né? Aí comprava um, dois ternos, camisa. Eu andava sempre impecável, né, no cartório.

 

P/1 – A Temper era em Copacabana?

 

R – Era em Copacabana. Acho que era embaixo do prédio eu morava. Mas eu me lembro que eu comprei na Ducal da Constante Ramos.

 

P/1 – A Ducal... descreve um pouco a Ducal...

 

R – A Ducal... a Ducal é como se fosse hoje uma loja de roupa masculina, qual que eu me lembro agora? Não me lembro de nenhuma! Era a mais famosa! Ducal, Ducal (cantarola) era a propaganda deles. Vendia roupas para home, direto, tipo as Loja Brasileira... Loja Brasileira é ótimo, né? Não é mais Loja Brasileira... Era uma loja de esquina, grande, a Ducal! Tinha escada rolante, tinha dois andares e tipo aquelas lojas só de terno hoje em dia que tem aí. Tem loja aí só de homem, né? Uma loja grandona, mesmo! Magazine, entendeu? Tinha a Oggi também que era mais sofisticada, mais cara.

 

P/1 – Como é que era o nome?

 

R – Oggi

 

P/1 – Oggi.

 

R – OGGI.

 

P/1 – Em Copacabana também? 

 

R – Em Copacabana. Mas Ducal era mais famosa da época porque era assim... crediário assim... tinha várias filiais enormes mesmo! E Temper também! Tinha várias lojas também. Só terno, gravata, roupa, meia, aquelas coisa toda... Bom, dali eu não aguentei mais aquela história toda! Me enjoei de ir para a cidade, Buenos Aires todo dia, e com aquela filosofia daquelas minhas amiga morando lá na Barra, naquela época que a gente andava na areia e não tinha... saía à noite para caçar jacaré, às vezes... me chamavam até de pé no saco na época, porque eu era o primeiro que reclamava, entendeu?

 

P/1 – Então Cidinho, vamos recuperar a Barra da década de 1960. Como é que era a Barra, quais são suas memórias de Barra, Barrinha. O que é que você lembra de comércio, de barzinho...?

 

R – De barzinho...  de motelzinho ao céu aberto.

 

P/1 – Ah é?! Onde que era?

 

R – A gente sempre transava nos carro, né? Que a gente não tinha dinheiro para ficar pagando hotel, né?

 

P/1 – Antigamente era assim, né?

 

R- Eu me lembro que a gente transava sabe aonde? Nos carro, obviamente na praia, mas tinha um lugar que era padrão, que não tinha erro para a gente. A gente pegava ali como se fosse para o downtown. Acho que nós, no terreno em frente ao Canaveral ali era um matagal ali tudo, né? Então a gente passava por ali e tinha uma pista que tinham feito por ali sem... nem fui até o final, que devia ir até a via 11. A via 11 é onde hoje é a Ayrton Senna hoje em dia. Então a gente parava ali na direita, como se fosse no downtown ali, tinha algumas ___________[12], encondida ali. Aí a gente parava ali, uma mosquitada danada à noite, né? Papel higiênico rolando... papel higiênico no carro...

 

P/1 – O quê que era a Barra nessa época?

 

R – A Barra só tinha o Osvaldo, só tinha o Cavaco...

 

P/1 – Onde é que era o Cavaco?

 

R – O Cavaco era... não existia o túnel, né? Então, aquela pista ali, ali tinha várias barracas que dava...

 

P/1 – Que pista?

 

R – A pista das América, que sai do túnel ali... que não tinha o túnel. Então ali tinha um monte de barraqueiros ali que dava para o canal. Era ruim, porque tinha muita sujeira ali, porque tinha todos aqueles barzinhos antigos. Como tem lá pelo Recreio ainda, né? Pelos macumba. De madeira se jogando para dentro do canal ali. Entendeu? E era ali que a gente frequentava... tomava chopinho... todo mundo. É sempre ali, sexta-feira enchia, é chopinho ou Cavaco ali, né? Aí do outro lado da rua passando pela ponte antiga, aí vinha pela rua dos motéis. A Osvaldo, e tal... Ali que era a história toda, né? E...

 

P/1 – O Osvaldo já era um... Qual era a diferença entre o Osvaldo e o Cavaco? Perfil de pessoas que frequentavam.

 

R – Nada. A gente frequentava, sei lá. Tem um amigo meu que a gente chamava o cara de sargento, dava o apelido para o cara, ou coronel, sargento. “Ô, sargento, traz mais uma aí pra gente aí, tal!”. E meus amigos adoravam tomar um chopinho... eu achava aquilo um porre, entendeu? E ficava bebendo a noite inteira... Aí a gente criou um clube, na época éramos quatro amigos inseparáveis. Que era o SS, né? “Só Sacanagem!”. A gente tinha uma lei que era namorar garota direita ou supostamente direita já era um crime! A gente pagava... aí tinha... a votação: duas ou seis OB (ouro branco – cerveja ouro branco). Então tinha o falecido desembargador, o João Claudino de Oliveira e Cruz. Ele que fez junto com este meu amigo que é juiz também, é o Sérgio Oliveira e Cruz. Aí a gente fez, entendeu? Um estatuto, entendeu? Falando isto tudo: quem namorasse direito, quem não chamasse os amigos, não desse para a festa, pagava multa em cerveja. Nossa multa era tudo pagada em cerveja, entendeu?

 

P/1 – E a cerveja da época qual era?

 

R – Era a Ouro Branco.

 

P/1 – De garrafa?

 

R – De garrafa. Maravilhosa! Cervejinha Ouro Branco. Eu não era bebedor de cerveja e até hoje não sou, né? Até estou sem tomar ultimamente, mas nunca fui muito de be...

 

P/1 – Mas, por exemplo, você ia num bar desse, você comia? Beliscava?

 

R – Não. Só cerveja! Eu não aguentava aquilo! Era muita cerveja, entendeu? Aí eu abandonava... deixava meus amigo e ia para o carro dormir, ficava os três lá bebendo, bebendo, falando besteira. Aí eu digo: “Ah não! Deixa eu descansar!”. Mas aí a Barra era bonita por causa disso. Só tinha aquela pontezinha que descia o Juá todo e pegava esse barzinho todo. E depois frequentava depois, o é... a esquina da praia: era o Tarantella. E logo depois, bom, isto foi uma época, e tal...

 

P/1 – O Tarantella era aonde?

 

R – O aTarantella era na praia, no bairro mais antigo da Barra da Tijuca. Era uma pizzaria onde fica o pessoal do kitesurf hoje em dia.

 

P/1 – Onde que é?

 

R – O kitesurf é ali depois do Pepê, entre o Pepê e o Bob’s.

 

P/1 – Quebra-mar ali.

 

R – Antes do quebra-mar, antes da Olegário Maciel. Ali tinha uma pizzaria que era, acho que tem até hoje, ou fecharam há pouco tempo: Tarantella, mais antiga. E na época que eu estava frequentando, morando na Barra com estas minhas amigas... a gente... eu fiquei craque em desatolar carro, né? A gente tinha o Jipe de uma delas e a gente pegava assim e ficava esperando alguém ir namorar, né? Como eu tinha muita prática, que todo mundo atolava o carro, era tudo areião, ali tudo areia, areia... aí os cara chegava... os casalzinho chegava para namorar, atolava ali, aí ficava tentando sair, aí ficava acelerando e o carro ia atolando. Aí a gente chegava e: “Ó deizinho, vai?”. Aí o cara: “Vai!”, a gente desatolava... “Não vai!”, a gente: “Tá bom, daqui a pouco a gente passa aqui!”. Aí a gente ia procurar outro. Porque a nossa brincadeira era vigiar qual o carro que estava atolado para a gente fazer grana, né? Aí a gente faturava... depois a gente ia para o Tarantella e comia tudo em pizza. Era muito legal essa época, assim...

 

P/1 – Tinha drive-in?

 

R – Drive-in acho que teve, não lembro não!

 

P/1 – Você lembra de alguma coisa...

 

R – Não, acho que só ali na Lagoa. Ali onde é a Ricardo Amaral. Ali naquele onde é o Estação do Corpo, ali foi um drive-in, né? Ali foi um drive-in que eu frequentei. A Barra tudo era drive-in, porque a gente via “corrida de submarino”, né? Parava os carro ali para olhar ali...

 

P/1 – O quê que era “corrida de submarino?”

 

R – “Corrida de submarino” é você parar o carro no mar e ficar olhando o mar ali, namorando. É “corrida de submarino” porque você não vê nada! (Risos) “Corrida de submarino”... Mas a Barra foi muito interessante...

 

P/1 – A Barra já tinha lojinhas?

 

R – Tinha. O Bazar da Dinda. Tinha a Olegário Maciel. Só tinha a Olegário Maciel de comércio. Que até hoje é o comércio mais antigo do... da... coisa... a Barrinha... o Olegário Maciel, né? Ali tem as lojinha mais antiga ali... Eu mesmo tive uma sorveteria ali na época. Na esquina da Maracugina, que é dos bares mais antigos... eu quando pedi demissão do cartório, para morar na Barra, né? Aí o que é que eu fiz? Eu digo... fiquei um ano assim sem fazer nada, tal e daqui há pouco comecei a dizer: "Não vou ficar à toa, né?”. Aí tinha o namorado de uma dessas minha amiga, a gente resolveu comprar carro batido e consertar na garagem da Joana, né? Aí a gente começou a consertar carro e vendia, tal. Aí não deu certo... Aí pintou um barzinho, que é esquina com a Maracugina, era o Biondina, era o único lugar que vendia gelo na Barra na época, né. E... até é falecido, e eu esqueci o nome dele... até tinha um negócio de squash aqui na Glória, (Renato Sito?)[13], era engenheiro da Esso, mas tinha a família toda aqui, o filho dele jogava tênis e tal. E o irmão dele, o João Borges, o falecido João Borges, me parece que morreu há pouco tempo, ele... Ah, não! Volta! Volta! Não, porque com o dinheiro da venda do restaurante depois que eu vendi, eles compraram a Ilha... a Ilha do Arroz, que ficou famosa em Angra, aí foi o primeiro dinheiro que eles compraram. Aí voltando... Aí eu tive, quando eu saí do cartório, abri a oficinazinha e da oficina abri a esquinazinha, que era o primeiro comércio nosso ali...

 

P/1 – Então conta! Onde que era?

 

R – Aí eu abri, eu e um amigo meu! Era um restaurantezinho que vendia empadinha, pizza, é... gelo, que ninguém vendia! A gente tinha um frigorífico, e tal... Aí no Maracugina, que eu tinha umas morangas penduradas, não sei se você se lembra dessa época? Não! Aí do lado desse bar, tinha esse Biondina que conseguimos fazer um acordo com o cara. O cara gostou da gente, que era garoto novo, vendo que a gente estava empolgado, e o cara vendeu o restaurante para a gente.

 

P/1 – Vendeu o Biondina para vocês?

 

R – Vendeu o Biondina que era um restaurante, para eu e para esse meu amigo. Aí dali ficamos... é... ali foi por volta de 1970.

 

P/1 – Que rua?

 

R – Esquina. Em frente à igreja, ali na esquina, em frente à ponte ali. Bem na esquina da ponte com a pracinha, ali. Não tem a igreja? Em frente à pracinha tem o Biondina, tem o Banco do Brasil, tem o Maracugina, que tem até hoje! Aquela esquina que hoje em dia tem uma lojinha de cachorro, ali era o Biondina, quando vendia peixe, e tal. Aí deu uma reformada e vendia ali pizza. Eu me lembro que até o Ministro Gama Filho foi lá me visitar uma vez, o falecido Gama Filho, porque eu era assistente do Tabelião Serafim Gonçalves Pinto, que era muito amigo do Ministro Gama Filho, que fundou a Universidade Gama Filho. E aí me lembro que quando eu saí do cartório, aí esses dois passando lá, foram fazer uma escritura em algum lugar, eles passaram e foram lá me visitar: o Serafim Gomes... já morreram, o Serafim Gomes Pinto e o Ministro Gama Filho, que é o fundador da Universidade Gama Filho. E ali foi dois anos para mim ali, ficamos trabalhando. Ganhei grana, ali e tal. Aí comprei minha moto... aí...

 

P/1 – Quem era o teu consu... quem era o cliente?

 

R – Puff! Porra! Bom, o pessoal que já frequentava ali a... Eu conheci muita gente que esta... tinha pouca opção também na Barra, né? Então, o cliente que a gente ia angariando na época, outros, que eu virei motoqueiro, o pessoal ia de moto para lá, porque eu virei motoqueiro de Ipanema, Leblon, ali do Postinho. Então a galera ia sempre para lá e se reunia. A galera já ficava tradicional, ficava lá, tomava seu whiskinho, ia comer pizza. O cara que ia comprar pedra de gelo, ninguém tinha um gelo na Barra, e eu tinha gelo estocado, que eu comprava da Skol, da Brahma. As pedras grandonas assim de gelo. Eu estocava ali e revendia. Então ali, fazia empadinha, entendeu? Eu nunca mais esqueço: a primeira vez, eu mandei o alemão (era um empregado meu), e aí mandou... tinha que fazer compra... tinha uma feirinha ali perto. Aí um dia, o cara com palhaçada fez comigo, aí tinha que fazer compra, aí a Malvina (que era uma antiga cozinheira) falou assim... aí eu dei, digamos dez reais para fazer compra, né? Digo: “Então compra: tomate, não sei....“ Aí ele pegou um saco de batata vazio assim, botou nas costa, “Então tá!”. Quando não tinha... não dava para comprar nada! Aí levou um saco desse tamanho, foi fazer compra me sacaneando... Botou um saco nas costa para trazer aquilo tudo... só que não ia encher nunca com aquele saco, né? Aí foi, manda comprar meio quilo. Não! Tem que comprar uma quantidade normal. Tinha mandado comprar como se tivesse mandando comprar para a minha casa, né? Morando sozinho... Aí foi muito engraçado aquilo... Mas deu certo o barzinho, fazendo pizza...

 

P/1 – Quer dizer, não tinha muitas alterna... Naquela época não tinha muita diversidade, assim...

 

R – Diversificação ali em termos de...

 

P/1 – De picles... essas coisas... Antigamente era pizza, empada....

 

R – Era... pizza, empada. A gente fazia tudo ali... Casquinha de Siri. Que a gente tinha uma certa variedade lá, né? Casquinha de Siri, tinha empada, tinha pizza, é... frango à passarinho, tinha algumas coisinha, assim... beliscozinho... chopinho. Tinha chope na época já! E era legal, às vezes, quando pescava ali, e os cara traziam pesca e a gente fritava os peixinho também. Eu mesmo... tinha uns cara que ia jogar tarrafa ali na frente, que até hoje pesca, mas naquela época eu mesmo ia pescar de madrugada, com meu grupo, né? A gente chegava ali e pescava pitu no meio daquela lagoa. Porque era bem diferente a Barra daquela época, né? Era divertido, não tinha esse... essa... hoje em dia você fica com medo de andar em tudo o que é lugar, né? A gente andava muito despreocupado naquela época. E...

 

P/1 – Você ficou quanto tempo com esse negócio lá?

 

R – Fiquei dois anos e meio. Aí eu jurei também que com aquele negócio de dormir tarde e tinha que acordar tipo cedo, para receber o chope, o gelo e aquela batida de restaurante, é uff! Estraga muito... é muito trabalho, né? Que você pega e repõe produto e manda lavar a casa, e limpa e é muito trabalhoso. Aí eu enjoei. Aí fiquei vagabundo de praia, né? Aí virei vagabundo de praia. Aí frequentei, é moto, né? Puff! Saía, descia Arpoador... praia! Monte Negro. Monte Negro, voltava para casa. Aí tomava banho... Chegava à noitinha... à tardinha: Arpoador... pôr-do-sol! Aí depois do pôr-do-sol, voltava, mais um lustre na moto... Postinho. Aí Postinho, ficava até de madrugada andando de moto.

 

P/1 – O Postinho era aonde?

 

R – Postinho é no Jardim de Alá. Ali subia o alto, descia o alto, Pedra de Guaratiba... Assim umas trinta, quarenta moto assim... a gente ficava a noite toda bã, bã, andando prá lá e prá cá. Não sei como a gente tinha tanto saco para andar tanto de moto.

 

P/2 – Seu grupo, assim... tinha um nome?

 

R – Não. Teve... nasceu os Balaio, os ____________[14], né? E tinha aqueles dois que foram dissidentes. Os Balaios ficaram naquele posto Texaco da Lagoa. Outro dia, até encontrei com uma amiga minha a Aninha, aquela que fez tatuagem há vinte e quatro anos atrás, aí ela estava fazendo a análise dessa história... legal assim... _______________________[15]começa. Hoje em dia ela toda daquele bar é... Botequim Informal, lá do Leblon. E aí ela namorava um garotão que era dos Balaios, e ela estava falando “Todo mundo já teve morte um tanto esquisita, não teve muito sucesso daquela turma toda, né?”. Eu não fui muito fundo naquela história. Eu gostava muito de moto, mas não gostava muito de grupinho, de turminha, nunca... entendeu? Eu sempre fui mais assim... abrangia mais assim... Abrange mais a história toda. Bom, aí voltando: então eu frequentava o Postinho e dali era tipo Alto da Boa Vista, descia... pega de moto, acidente, porrada sem querer, porque o nego fechava aí vinha outro e queria bater. Aí vi muito acidente, amigo meu morrendo assim na minha frente, batendo de frente de ônibus, amiga minha amputando perna. Aí tive assim umas imagens muito... puff!... horríveis, né, naquela época... Aí da moto... que é que eu fiz? Aí virei vagabundo de praia, é. (Risos) Aí o dinheiro foi acabando. O dinheiro foi acabando e eu achava que eu tinha puff!... já estava tirando onda, imagina! Estava já mal acostumado com cartão e com dinheiro. Depois eu abri restaurante, aí vendi, aí botei uma grana no bolso, né? Só que eu achei que aquilo não ia acabar nunca mais, né? Aí o dinheiro foi definhando, definhando, definhando, aí daqui a pouco... Aí eu frequentei o Postinho – eu tinha duas motos. Aí conheci uma mulher, que era a dona da Maga Patológica.

 

P/1 – O que era a Maga Patológica?

 

R – A Maga Patológica era uma loja de moda jovem, que fez o maior sucesso na época, né?

 

P/1 – Aonde?

 

R – No 437, na Galeria Oxford. Aí ela fez o maior sucesso...

 

P/1 – Na Visconde de Pirajá.

 

R – Na Visconde de Pirajá. Ela é que me botou nesse ramo de comércio de roupa. Foi através dela, né? E aí eu estava no Postinho vendendo uma moto, aí o marido dela...

 

P/1 – Dá o nome, por favor, das pessoas...

 

R - O Sérgio era o cara, e essa mulher foi a Luísa. E aí ele começou, chegava em casa: “Pô, conheci um cara gente fina que anda bem de moto prá caramba, não sei quê... o seguinte...”Pronto! Falando bem de mim... Chegou um dia a mulher chegou lá. Aí eles tinham um carro em Arraial do Cabo. Aí ela perguntou: “Você ajuda levar a moto lá?”. Eu disse: “Ajudo!”. Eles tinham dois filho. Tinham acabado de ter um filho, estavam com um filhinho de um ano, dois anos. Aí: “Me leva lá!”. Aí eles foram de carro, um Opala, um Opalão, naquela época aquele Opalão todo metido! Aqueles que tinham um grampinho assim de 4100 cilindradas... e eu levando a moto para eles, né? Aí chegou lá, a mulher “Ai me ensina, me ensina...” Me ensina, aquele negócio me ensina! Começando a... uff! entendeu? (Risos) “O que é que eu faço?”. Aí foi passando... Aí um dia morando na Barra, estava dando meu aniversário, uma festinha na minha casa, aí a mulher de repente chegou na cozinha e PUM! Me agarrou... me deu um beijão malandro! Aí pronto, né? A mulher separou e ficou comigo... E ficamos morando dois anos depois!

 

P/1 – Essa dona da Maga Patológica.

 

R – Essa dona da Maga Patológica.

 

P/1 – Você me descreve a moda da Maga Patológica?

 

R – Ah! Vai ser difícil! Vai ser difícil...

 

P/1 – Mas era uma turma de Ipanema de Zona Sul que consumia essa moda?

 

R – É, é. É, uma turminha bem de Ipanema ali, porque era... Ela fez muito, eu não me lembro a modinha feminina naquela época. Naquela época eu não prestava atenção nessa história, né? E logo depois eu fui prestando à atenção porque ela me levou... Ela faliu também, né? Aí confusão com o marido, o cara querendo me matar, eu querendo matar ele. Imagina, eu um garoto... uma mulher dona ruiva, né? Puff! Chamava a atenção. Sabe aquelas mulheres que chama atenção, de cabelo meio ruivo. Até hoje mulher chama à atenção, agora imagina naquela época mulher ruiva. E eu magricelo, fininho, bracinho fininho, andando de ______________[16] 1000. Eu nem sei como eu segurava uma moto daquela. Porque até hoje eu sou magrinho, mas eu sou... entendeu? (Risos) Mas naquela época eu era magrinho, e comia! Como é que eu podia ficar com uma moto daquela, uma mulher maior que eu também. Maluca, né? As mulheres são doida mesmo! Aí a mulher, tal... Aí ficamos assim... dois anos e tal e três filhos, olha só! Ali foi a minha desgraça também! Aí o restinho de dinheiro que eu tinha foi acabando...

 

P/1 - Três filhos dela.

 

R – Três filhos dela! E eu magrinho! Ela da minha idade, ou mais velha do que eu, eu não me lembro, entendeu... E eu coitadinho... Fui morar na Sernambetiba, eu me lembro, no conjunto... 4216, eu acho! Aí fui morar num condomínio, e tal... E o dinheiro foi acabando, acabando. Aí a gente cismou de abrir uma loja juntos na Galeria Visconde de Pirajá, 86.

 

P/1 – Aonde que é? Localiza prá gente...

 

R – Aí é legal. Vou falar de uma marca muito conhecida também em Ipanema. É Fruto Proibido. Era... o Fruto Proibido e minha loja em cima do Fruto Proibido, na Galeria 86.

 

P/1 – Mas que altura da Visconde de Pirajá?

 

R – Em frente à Praça General Osório. Ali eu tive a minha primeira lojinha, que eu vendia roupa do Simão Azulay, _________[17]Tapajós, Pinup. Várias lojas super conhecidas (La Bagerri?), e outros fornecedores de biquíni, que eu vendia uns biquínis com elefantinho.

 

P/1 – Como é que era os biquínis nessa época?

 

R – Eram de tecido, de paninho assim _____________[18]e de algodão né? De algodão, de malha, de malha de algodão e tinha de tecido... algodão.

 

P/1 – Mas quem fazia os tecidos?

 

(Pausa)

 

P/1 – Então você estava contando dessa tua primeira loja

 

P/1 – Então você estava contando dessa tua primeira loja lá em Ipanema nessa Galeria. Tinha nome?

 

R- Tinha. Era (Aceni Lupan?)

 

P/1 – Como é que é?

 

R – (Aceni Lupan?) 

 

P/1 – O que é que quer dizer?

 

R – Um japo... um francês de casaca... Aí foi a... essa ex-mulher que deu esse nome. Gostou do nome e ela é que comandava. Na época eu fui aprendendo, eu fui aprendendo muito com ela, né? Ela é que já estava no mercado de moda, de confecção, de comércio e eu fui por ela! E fui aprendendo com ela!

 

P/1 – Que ano era esse?

 

R – Isso foi por volta de 1974, eu acho! 1975, por aí. E dali aí depois, não deu certo a loja e faliu, e tal... e... Mas aí eu tinha que sustentar, tinha eu para me sustentar, ela e três filhos, né? Porque o cara não dava nada, né? E o cara também tinha falido. E eu comecei então vendendo aí, tinha até esse meu amigo contando: “Pô, me lembro de você vendendo até joia!”. Aí que eu me lembrei que eu vendi joia também! Pegava... pegava quem... aí eu comecei a andar no Postinho e conheci um cara que vendia ouro, é... comprava cautela, tal... Aí eu comecei... “Pô __________________[19]” uma confusão danada! Isso vai fazer uma confusão com essa minha entrevista! Vocês não vão entender mais nada! (Risos) Mas eu comecei ser o, entendeu? Eu tinha que sobreviver, né? Eu tinha que ganhar a grana. Então na época eu comecei a fazer joias, antes disso eu comecei, antes um pouquinho da joia eu comecei a viajar e vender bijuteria, roupa, qualquer coisa que eu achasse... que tipo...é... com a visão que eu tinha já do comércio... já tinha tido loja, com a experiência da minha ex-mulher. Mas já estava sem ela também, né? Aí o que é que eu fiz? Aí como eu te falei há pouco, é... eu me lembro que teve uma época do cinto de elástico, foi um boom na época, né? Então às vezes, trocava um carro inteiro... falava para o fornecedor: “Tenho dois carros aqui, você me dá quantos cintos?” Aí: “Dou tanto!”. “Então tá, te entrego segunda-feira o carro!” Aí saía viajando pelas cidades. Começava por Belo Horizonte, que era a maior Praça de loja de comércio. Aí eu falava: “A última novidade do Rio aqui, não sei quê, prá lá, lá”. Aí nego comprava. Aí ia dando valinho, né? Chegava assim: “E aí? Quer quantos cintos, tal”. A pessoa já me conhecia e eu já conhecia as pessoas, me davam um valisinho: “Vale trinta cintos à tanto”, tal! Paga trinta dias, guardava aquilo... E aquilo virava uma promissória, que era sempre um cartãozinho, um papel qualquer e virava como se fosse uma forma de pagamento que funcionava! Nunca me lembro de ter levado nenhum trambique a respeito disso. Ou então já salvava logo: “Não, me dá metade, porque eu tenho que pagar minha viagem agora, pôr gasolina no carro agora, e bá, bá, bá.” Eu já salvava logo, pelo menos o coiso... E aquele produto que não vendia eu já falava o seguinte... aí já falava assim: “Não, essa bijuteria não está vendendo! Eu estou vendendo a quanto? A dez? Então agora, vou vender a dezenove! Dezenove!”  Aí eles: “Não, isso aqui é... vinte e nove...”. Aí as pessoas terminavam comprando mais caro um produto que eu não tinha conseguido vender mais barato. Eu botava mais caro e inventava uma historiazinha, e tal... Aí um outro meu amigo viajava comigo – sempre tinha um parceiro às vezes viajava sozinho, mas quando eu queria ganhar mais experiência eu pegava um parceiro que tinha mais experiência, que era um primo dessa mulher, e levava – aí os cara: “Ô calça da Smule, calça da Smule.” (Risos) Aí vendia, mas era legal porque a gente de qualquer maneira levava a cultura do Rio de Janeiro, levava um produto, e as pessoas vendiam também! Uma vez eu comprei dum cara um monte de roupa. O cara tinha fechado a fábrica. Eu comprei um monte de vestidinho. Aí levava, abria a mala assim... e era muito engraçado, que eu viajava às vezes e pegava assim a roupa, né? A gente não tinha dinheiro para pagar a gasolina... eu digo: “Olha, pega essa blusa aqui ó e me dá de gasolina”. (Risos) E... é engraçado quando a gente é mais jovem e realmente... e tudo vale à pena sempre! A pessoa realmente investir no trabalho, entendeu? Na firmeza, apesar de ser uma coisa muito meia louca, mas era uma coisa de muita responsabilidade: eu levava o produto e entregava o produto e queria só vender e receber, né? Certamente eu consegui até um bom preço, porque eu pegava produtos que alguém não conseguia vender e eu tentava levar, eu fazia sempre uma manobra qualquer... um carro, por alguma joia, trocando por cheque... alguma coisa, mas eu ia adiante.

 

P/1 – Você pagava muito com cheque naquela época?

 

R – Se pagava. Quem não pegava cheque pegava um valezinho, mas sempre... A ideia principal, não só à vista! Esse produto só à vista... obviamente só pode ser à vista: “Ah não!”. Então: “Então dá a metade à vista e o resto para trinta dias”. Porque... aí pegava cheque, e o que for! Cheque, valezinho, dinheiro, e acabava solucionando e vindo... O importante era voltar para casa sem nada! Entendeu? Aí que era delicioso! Aí trocava, como eu te falei há pouco ali, uma vez troquei um carro pelo cinto, depois outra vez comprei um carro de um amigo meu, que era o Ricardinho Burger, que a testemunha disse que eu comprei com cheque pré-datado e fui vender o que eu tinha que vender e voltei vazio! Ia para Santos, muito para Belo Horizonte, Brasília, procurava sempre ir mais longe, né? Brasília e tal... e fazia minha clientela. Eu já tinha uma clientela, já tinha um rol, é... de possíveis compradores, né? Aquilo dá uma experiência, que até hoje, tudo isto valeu! Valeu a pena!

 

P/1 – Então vamos direcionando, me fala então da sua empresa hoje e como é que ela foi surgindo, e essa coisa de se dedicar ao ramo de biquíni, ramos de praia. Como é que foi acontecendo, Cidinho?

 

R – É. Foi acontecendo o seguinte: exatamente como eu te falei eu vim naquela época, porque aí tive que vender tudo! Aí fiquei sem dinheiro e comecei a vender o que podia, depois comecei a vender joia, fiz dinheiro, precisava viver[20]. E tinha um amigo meu que tinha feito a primeira moda no Hotel Nacional de Moda Praia. Foi a primeira feira no Hotel Nacional.

 

P/1 – Feira. Primeira Feira.

 

R – Feira de Moda. E aí aconteceu que ele fabricava biquíni de tudo o que é jersey, pano e tal e ele já era meu fornecedor daquela loja que eu tive que eu te falei, que tinha uns vestidos compridos, também de malha, saída de praia e tal... E ele sabia do meu potencial de trabalho e meu trabalho. _________[21] vem cá, você quer me dar uma força? Vou fazer uma feira agora e queria que você me desse uma força, você conhece todo mundo na praia – que eu era jogador de frescobol, né? Como eu te falei, na minha época de Monte Negro, eu parava minha moto lá, mas eu jogava frescobol de onze da manhã às quatro da tarde sem tirar! Já tinha um braço que era maior do que outro! De tanto jogar frescobol, né? Quer dizer então, ali eu já era conhecido da praia, jogador de frescobol, e tal. E dali eu falei: “Tá bom!”. Conhecia todas as gata mais bonita da praia e tal... E fui para o Hotel Nacional, e já peguei uma três ou quatro daquelas, né? Que vocês gostam! Aí botei, imagina! Lycra! A Lycra nascendo naquele momento, né? Aí ele tinha feito uma roupa aeróbica, de linha de lycra com duas, três cores, roupa toda colante... Aquela mulher toda boazuda com uma roupa colante, então... Hoje em dia você vê, tudo bem, é mais uma gostosa. Mas antigamente era difícil ver aquelas... agora... as fábricas de academia todinha fazendo mulher gostosa e jogando na praça, né? E lá tinha poucas, naquela época, mas tinha mais bonita, mas agora... Naquela época com a roupa lycra, mostrando todas as curvas... Aí foi para lá

 

P/1 – Como é que era assim a coisa da mulher bonita carioca? Como é que era uma mulher gostosa de década de 1970?

 

R – Olha, é igual mulher gostosa de hoje. (Risos) É a mesma coisa! Dois peito, uma bunda, entendeu? Pernão, um carão! A mesma coisa, mesma coisa! No mesmo lugar!

 

P/1 – Mas não tão malhada.

 

R – Não. Já tinha... É. Hoje em dia tem mais, mas foi o que eu falei... antiga... hoje tem mais porque tem fábrica de fazer mulheres bonita, né? Não tinha tanto silicone, entendeu? Que apesar, que eu acho, que as mulheres elas se confundem: porque às vezes ela pode ser bonita, malhada, gostosa sem botar silicone. Porque é como modelagem, Deus sabe o que faz! Tem mulher que é mais gostosa, ela tem peitinho pequenininho e pernão. É um tipo de mulher. Você conhece esse tipo de mulher. Só que esse tipo de mulher ela quer, ela se acha ainda que está faltando alguma coisa em cima, aí quer botar o silicone. Aí ela fica grandona aqui e grandona aqui! Aí fica... não é bonito. É bonito a mulher que já é tradicionalmente gostosa: peitão aqui... não tem um pernão, mas tem perninha, mas tudo delicioso, tudo bom de usar, sem problema nenhum, entendeu? Tudo normal!

 

P/1 – Bom, voltando... o desfile.

 

R – Bom, voltando... o desfile. O desfile foi aquele sucesso, né? O meu amigo foi lá para o Hotel Nacional, recebeu os cliente dele e eu fiquei como o gerente do stand, né? O dono do stand, né? Parecia que eu era o dono da empresa, lá. Porque eu já estava distribuindo biquíni para ele na praia. Uma ro... uma rotina que eu faço até hoje que eu dou biquíni para as minhas amigas na praia! Faço até hoje! Então, o que acontece? Aí eu me lembro que o dono lá da Feira, do expositor falou assim: “Proibiu!”.  Porque foi tanta gente. Foi um tumulto tão grande no stand, que eu me lembro que tinha uma escada e que o nosso stand estava embaixo da escada perto da entrada. Então ninguém entrava nem saía. Então ele proibiu. Então, olha: “Tá proibido de vocês fazerem isso aí”. Porque eu botei duas amigas minhas só andando dentro do stand, bonita ali, mas foi um caos ali com as três gostosas andando no stand, foi um caos intransitável na Feira. Aí aquilo e tal, tudo bem. E eu já morava na Gávea, já na minha carência, sem grana e bá, bá. E aí ele foi embora. Aí quando chegou, embora ele tinha me deixado uma dívida na minha casa, telefone, mil ligações para São Paulo, para Santos, e tinha também botado umas três amigas dele de São Paulo na minha casa, e me deu um certo prejuízo. E depois ele falou: “Eu te pago depois, vem em Santos aqui que eu te pago”. Eu fui lá e ele me pagou em biquíni. E ele já tinha falado: “Porra, Cidinho você já pode parar”. Eu digo: “Não! Vou querer vender biquíni. Vou arranjar um lugar.”. Eu engasguei tudo aqui. Calma! Às vezes eu embolo tudo, mesmo! Aí eu digo: “Tudo bem! Eu não tenho grana para abrir uma loja agora...”. Mas a minha ideia era abrir uma loja de biquíni e ele foi me dando essa ideia também. Aí eu digo: “Mas com qual produto?”. Eu consegui arranjar uma lojinha, que seria na Galeria Oxford, na Visconde de Pirajá, 437 e dali foi o único lugar que eu podia me instalar porque era o mais barato possível que eu podia gastar era ali. E a roupa, o biquíni ele me forneceu, que ele me devia, e eu comprei mais outra partida com a promessa de pagar em trinta e sessenta dias. E dali foi! Aí abri a minha primeira lojinha. Minha lojinha era tão pequena! Tão pequenininha, que a vitrine eu fazia no teto! O teto em diagonal de madeira, eu preenchi com taxinha de alfinete, né?  E eu prendia os biquínizinhos todo amarradinhos ali, todos cheios de desenhozinho. Foi lindo! E aí pintava todo de branquinho. Acho que foi duas cabines, duas micro cabines. Minha loja tinha doze metros quadrados! Era um banheiro, assim melhorado.

 

P/1 – Tinha nome?

 

R- Tinha. BumBum!

 

P/1 – Então conta como surgiu a ideia.

 

R – A BumBum nasceu exatamente com essa ideia que a primeira loja no Rio de Janeiro de biquíni. Não existia...

 

P/1 – Não existia?

 

R – Não existia uma loja só de biquíni.

 

P/1 – Ah! Só de biquínis.  

 

R – Só de biquínis. Então, eu abri mina lojinha com essas duas mil peças de biquíni. Aí comprei dele, aí comprei da Catalina, comprei da falecida mãe do Bernard, que fazia uns biquínis mais para senhoras, comprei...

 

P/1 – Bernardes?

 

R – Bernard, do vôlei.

 

P/1 – Do vôlei.

 

R – A mãe dele fabricava biquínis. Então comprei de diversos fornecedores. Então, a minha loja, a ideia que eu tive na época, era abranger o mundo do bumbum inteiro! Era como se fosse um banco. Tinha que ter dinheiro pequeno, grande, trocado (Risos) Então eu queria ter biquínis para todo o tipo de bunda e peito, né? Eu queria que a mulher saísse ali com a peça de roupa que não tinha em outro lugar! E daí eu ainda vendia no atacado. Aí já aluguei um aviãozinho, aí meu amigo disse: “Você é louco, você não tem dinheiro!”. Eu digo: “Não! Deixa que vai dar certo!”. Aí aluguei um aviãozinho saiu assim, nunca mais esqueço! Aí na praia todo mundo viu...  Bumbum naquela época era um nome meio que pejorativo, né? Aí apareceu em letras garrafais, letras de cego, bem vermelha, um avião puxando a faixa assim naquele domingo na praia inteira, lotada, eu conhecidão na Monte Negro, aí apareceu: “BumBum Biquínis, varejo e atacado. Visconde de Pirajá, 437”. U K? Depois eu conto essa piada. Duas mocinhas virgens que... não, brincadeira! Depois eu conto essa piada. Mas a história, aí foi um sucesso...

 

P/1 – Como é que surgiu a ideia de botar Bumbum?

 

R – Surgiu...

 

P/1 – Você criou?

 

R – Não. Foi um amigo meu. Era astro. Tinha até uma produtora. E ele tinha tido um barzinho na Tijuca com o nome de BumBum, e ali conversando: “Eu estou procurando qual nome”. Aí discutindo com ele, ele diz: “Bota BumBum!”. Eu digo: “Porra, gostei dessa ideia mesmo: BumBum!”. E aí foi BumBum. Aí coloquei, meio grilado, né? Aí já botei na nota fiscal BumBum, né? Aí todo mundo ficou assim meio...

 

P/1 – Era legalizada a loja direitinho?

 

R – Era legalizada... toda certinha. Aí a BumBum foi fila! Olha, eu nem acreditei! Eu fiz um desfile de inauguração. Aí teve a galera toda da praia foi prestigiar, né? A galera toda que frequentava a praia, imagina uma loja... um desfile de biquíni naquela época em que não se vendia biquíni! Então foi um sucesso o desfile na Galeria...

 

P/1 – Que ano foi?

 

R – Foi em 1979. E no outro dia já tinha fila na porta para comprar biquíni! Eu tinha feito um balcãozinho assim, eu me lembro, que eu ria o tempo todo, que eu não acreditava naquilo. Aí o tempo foi passando, né? Aí me lembro que passava amigos meus que já tinha tido negócios comigo, eu já tinha vendido relógio... eu já tinha vendido de tudo, né? Para sobreviver, né? Aí os cara chegavam, olhavam assim e não estavam acreditando naquilo. Aí de vez em quando eu escutava umas piadinhas assim: “Ah! Ele está empolgado assim porque é no início”. Mas eu tinha tanta certeza que aquilo era para o resto da vida...

 

(troca de CD)

 

R - ... Eu sabia que aquilo era uma marca que eu ia fazer, sabe? Para combater, sabe? Para o mundo, entendeu? Eu fiz com muita dedicação aquela marca... aquele... esse meu trabalho. Porque eu sabia que não existia, e o resultado foi tão imediato, entendeu? Que era fila todo dia para vender! E eu repondo e eu fazia, eu me lembro as embalagens que eu fazia...

 

P/1 – Como é que era?

 

R – A embalagem eu fazia... comprava na Casa Pernambucana, eu comprava aquele tecido de algodão, né? Aquele tecido meio marronzinho, não! Tecido crú, né? E desenhava essa marca aqui que era feito um bumbum, (um ledo?) então eu comprava...

 

P/1 – Que marca é essa?

 

R – Era a marca antiga da BumBum. É feito um bumbum aqui! É um bumbum, tá vendo? Aqui é um bumbum. Eu tiro a mão, não é um bumbum é um dedo.

 

P/1 – Presta atenção!

 

R – mas eu não uso mais essa marca. Essa aqui, que isso aqui fico na Visconde de Pirajá quase tombado pela Prefeitura! Porque isso aqui, vivia uma plaquinha... uma plaquinha na Visconde de Pirajá assim! Apontando dentro da galeria. Muita gente mais antiga, vocês são novinhos, mas o pessoal mais velho vai se lembrar daquela uma setinha branquinha...

 

P/1 – Era um dedo!

 

R -  ... apontando assim dentro da galeria, entendeu? Foi fantástico! Todo mundo esbarra ali, uns davam um tapa, outros não, mas...

 

P/1 – Mas estava escrito BumBum?

 

R – BumBum Biquíni! Aí apontando dentro da galeria. Ficou super conhecido! Ficou tão conhecida, tão conhecida que a Brahma registrou uma mãozinha que é o número um deles! Que eu deixei de pagar uma quota ridícula para o INPI [Instituto Nacional de Propriedade Industrial], aí também eu perdi o amor pelo dedo, né? Mas, e... aquela história, quando eu fui ver eu tinha registrado a mãozinha e não dei prosseguimento ao registro e isso há dez... isto aqui tem vinte e quatro anos que eu registrei a marca, mas dez anos atrás, quer dizer, abandonei por dez anos e Brahma registrou...

 

P/1 – E o BumBum como é que você escreve o logo assim da loja? Os dois B são maiúsculos? Ou não!

 

R – Os B, os dois são maiúsculos? São! Mais ou menos...

 

P/1 – É junto que você escreve?

 

R – Escrever eu escrevo junto! E atualmente, hoje, eu mudei totalmente a marca! Que são duas gotas como se fosse um dedo derretido. Eu tenho duas gotas que eu queria procurar, porque há seis anos eu estou procurando uma logo que representasse o nome que prá mim, pô, sabe? É conhecido no mundo inteiro, eu digo: “Caramba! Que símbolo eu posso dar para o nome, tirando a palavra bumbum que é tão fácil de ler em qualquer língua do mundo, né? BumBum”. Aí eu não achei! Aí consegui agora, um amigo meu, um designer ele desenhou duas gotas, duas gotinhas uma perto da outra assim. Fantástico! E: “É isso que eu quero!”. E aí estou lançando agora, e já faz parte do nosso símbolo. Já vai sair bordado toda a nossa roupa com duas gotas escrito BumBum. E por enquanto, até eu deletar! Porque eu queria que a leitura fosse mais rápida, né? Você olhar assim e significar BumBum! Como a Nike. A Nike faz aquela vírgula e você já sabe que é Nike, né? Então, a BumBum é um nome... eu tinha... eu adoro criar nome BumBum! Com? Quantas vezes eu deixei de bordar meu biquíni BumBum, e as pessoas dizerem: “Pô, não tem bordado, então não quero!”. Então, as pessoas exigem a marca. Mas eu quero transformar agora num símbolo. Para que a leitura seja mais dinâmica, né? Nós estamos numa outra época, né? Não tem que ficar lendo, né? Não tem que ficar lendo uma coisa para entender. Para um bom entendedor um pingo é letra! Então, eu vou botar essas duas gotas para virar meu nome BumBum.

 

P/1 – Então vamos voltar ao começo da BumBum.

 

R – Ao começo... Aí comecei ali na Visconde de Pirajá...

 

P/1 – Os biquínis. Me descreve os biquínis da época de 1978/79.

 

R – Bom, o biquíni... lacinho...

 

P/1 – Era só para mulher, você não vendia sunga nem nada?

 

R – Não. Só... nem comportava mesmo! A loja não tinha espaço (Risos) para diversificar tanta coisa. Só o biquíni por si só já era muito bonito, porque até hoje é muito complicado vender um biquíni para uma mulher, né? Porque são tantas opções, é calcinha, sutiã, tal. Então naquela época eu já vendia o lacinho, né? Depois veio a Água Viva, que era uma novela que fez muito sucesso, que era um biquíni de três cores. É... e tinha os biquínis grandões, que vendia: o biquinão, o sunquíni, né? Tem vários modelos... O fio dental que também, quando eu cheguei em Ibiza, porque eu tive lá, depois eu posso falar... E vi uma coisa tão ridícula! Feia! Aquele fio dental quadrado, o corpo da mulher ficava feio. O que é que eu fiz? Eu peguei dei uma shapeada, eu shapei a modelagem e fiz um biquíni pequeno, porque as mulheres ou botavam aquilo que era ridículo, não ia usar aqui também no Brasil, mas usava o biquíni tradicional e jogando todo aqui no cóccix. Então ficava aquilo tudo encolhido, aquele drapeado sem querer e ficava todo o biquíni encolhido em cima do bumbum. Porque quem tem um bumbum grande não pode botar um biquíni normal. Ou ela põe uma coisa feito um shortinho que abrange até lá embaixo da polpa ou ela tem que colocar dentro do “vale da perdição”, entendeu? (Risos) Aí se ela enfia tudo ali e fica feio aquele pano sobrando. Eu chequei, sequei aquela... aquela ____________[22] na empresa, né? Tirei o excesso de gordura da lycra. Então modelei, shapeei para que a lycra casasse ali, entendeu? E ficou bonito! Tanto que eu tenho o biquíni tanga que eu faço há vinte anos.

 

P/1 – Porque nessa época quando você inaugura a loja, a tanga ainda era o biquíni, ou já era, ou não era mais?

 

R – Era os dois! A tanga, a mulher sempre gostou de usar um biquíni pequeno porque a bunda sempre foi bunda, né? A bunda nunca deixou de ser bunda, né? Agora a bunda podia ser decorada ou sem decoração, quer dizer, tem mulher que até hoje não sabe botar biquíni! Até hoje ela não sabe escolher uma estampa que fica melhor para ela, até hoje a mulher não sabe escolher o melhor sutiã. Isso em termos, claro!  Porque a cultura também está vasta, né? Que a mulher hoje já discute sobre lycra, sobre modelagem, sobre estampa. Elas estão muito bem informadas hoje, a mulher atual.

 

P/1 – E antes a consumidora era o quê? Menos exigente? É isso? Tinha menos...

 

R – Ela não conhecia! Não tinha conhecimento.

 

P/1 – Não tinha tanto... tanta...né?

 

R – Ela não tinha norráu.

 

P/1 – Variedade, também.

 

R – Não, não tinha conhecimento, era novidade. Porque a lycra já foi uma novidade, né? Então com o passar do tempo, né? Quinhentos mil concorrentes, a propaganda da lycra mesmo falando: “Use só lycra, elastano, tatatá, tatatá”. Então os tecidos, né? Aí a pessoa começa...

 

P/1 – E o tricôzinho?

 

R – O tricôzinho usa, usava e se usa até hoje, né? Eu também faço tricô até hoje. Porque exatamente como eu falei esse negócio de bumbum, eu queria abranger, satisfazer a mulher num todo de biquíni. Seja o biquíni pequeno ou grande, entendeu? O que melhora as forma ou melhora mais ainda, piora não! Não, a gente só quer melhorar! A minha preocupação é melhorar sempre! Mas desde que qualquer tecido fique bem e é bem visto. Eu acho que a gente tem que satisfazer a mulher.

 

P/1 – Mas quando você abre a sua loja o quê é que você vendia mais?

 

R – Biquíni!

 

P/1 – Não. Mas qual era o estilo de biquíni que mais se comprava?

 

R – Ah, de lacinho, né? É lacinho, porque lacinho mais, ele é mais versátil, né? Você põe ele mais apertado, se você tem uma gordurinha lateral se põe ele mais folgado. Quer dizer, você tem toda essa história do biquíni para... Lacinho você já tem a opção do sutiã: pode ser o sutiã de lacinho também, pode ser de triângulo, pode ser o bionda, pode ser vários tipos de sutiã que combinam com aquela calcinha. Então agora atualmente quem troca calcinha por sutiã, puff! Está muito bom para a mulher hoje em dia. Cada vez a gente melhorando mais e dando mais recursos para ela.

 

P/1 – E maiô? Você vendia nessa época? 

 

R – Se vendia 20% em maiô, e se vende até hoje 20% em relação ao todo, é verdade...

 

P/1 – Quem, a carioca ou esse é um número para o... para a brasileira como um todo?

 

R – Para a brasileira de modo geral, é. 20%. Aqui no Brasil, 20% realmente. Sempre investiguei isso e sempre foi 20%. Então, tanto a mulher magrinha mesmo, ou quer nadar ou outra que quer... está com, entendeu? Operação... Cada uma tem o seu motivo, e tem o maiô, que fica tanto bem nas que não pode apresentar, como nas magrinhas saradas também, um maiô é elegante, fica bonito também.

 

P/1 – Bom, então essa tua lojinha você fica com ela quanto tempo? Como é que você vai se expandindo?

 

R – Eu já... como eu falei nasceu em 1979, a minha empresa nasceu em 1979 em Ipanema e dali eu fui crescendo. Fui para a Vinícius de Moraes. Aí veio outros planos e eu fui navegando de acordo com os acontecimentos, melhorando os pontos.

 

P/1 – Fala dos pontos.

 

R – Os pontos...

 

P/1 – Você sempre continuava no Bairro de Ipanema, é isso?

 

R – É. Eu sempre tive quatro lojas em Ipanema, né?

 

P/1 – Por quê Ipanema?

 

R – Primeiro eu gosto de estar, de ter a minha loja onde eu gosto de estar, entendeu? Eu já tive loja em outro bairro e eu prefiro não estar. Como eu não vou ter tempo de estar em outro bairro, eu prefiro também não estar lá. Então eu acho que tem que ter um acompanhamento, né? Porque com a minha vida que eu tomei muitas, é... altos e baixos na minha cabeça, na minha vida, no meu negócio. Então é o seguinte: delegar é o filho do acompanhamento. Se você delegar e não acompanhar. Se você tiver uma loja e não estiver perto visitando, a loja não vai ter sucesso. Porque você tem que estar, apesar de todas as estruturas que você possa ter é importante o dono, a pessoa interessada, olhar, visitar, se não, não tem jeito, porque cada um é cada um! Cada... o teu bom senso não é igual ao meu bom senso. E eu delegava muito, assim olha: “Usa o bom senso, hein?”. Cara, caramba! Ninguém tem bom senso igual ao teu bom senso, é variável, varia muito!

 

P/1 – Então você vai para a Rua Vinícius de Moraes, é isso? Se abre...

 

R – Não, hoje eu não tenho mais lá, né?

 

P/1 – Não, mas naquela época?

 

R – Ah sim! Eu tinha um escritório lá em cima. Ali era o point onde eu encontrava as pessoas que eu patrocinava ou patrocino, entendeu? Os atletas, entendeu? Os encontros, os amigos, né? Hoje em dia eu estou meio afastado, mas eu estou, como eu morei muito tempo na Barra, eu estou voltando mais para Ipanema. Voltei a morar em Ipanema. Tento passar lá de vez em quando, pela loja, e sempre estou olhando vitrine, como é que é o comportamento da roupa. Gosto de escutar o comentário do cliente, mesmo eu fico atrás de uma vitrine escutando o comentário. Eu entro na loja como se fosse consumidor, entendeu? Para escutar, entendeu? Nunca me apresento como dono, e sempre como consumidor para escutar a sua opinião, entendeu? Então, e gosto que as vendedoras também captem também essas informações, que para melhor até o atendimento, o produto, sempre para cada vez melhorar mais o produto em relação ao consumo.

 

P/1 – Mas, quer dizer, essa loja da Vinícius de Moraes você abre mantendo a sua, da Galeria Oxford, ou como é que foi?

 

R – Naquela época?

 

P/1 – Isso foi na década de 1980, né?

 

R – É, década de 1980. Exatamente. Mantive as duas ou três. Eu tive três em Ipanema. Naquela época eu mantinha a da Oxford, da Vinícius de Moraes e de outra da Visconde de Pirajá, que tinha em outro lugar da Visconde de Pirajá.

 

P/1 – Qual era diferença entre ter uma loja de rua e uma loja de galeria?

 

R – A primeira, porque já era um ponto tradicional, e então eu não queria fechar e ela tinha, entendeu? Um cana... cana... pum!... corta! (Risos) Bom, canabiliza... Ih, não quer sair! Você sabe o que eu estou falando, está entendendo o que eu quis falar. Aí, cana... ih! Estou tentando falar e não estou conseguindo... O café que faltou o ar... puff! É... eu mantive as duas lojas, e depois tive que fechar uma delas, porque eu digo: “Não vai dar!”. Porque vai ter um custo, né? Você... diminuir o custo né? Aos pouquinhos as pessoas terminam indo para uma loja que tenha mais conforto. Então, como na outra tinha mais cabine, mais conforto, as pessoas foram abandonando a mais antiga. Aí foi quando depois também deletei.

 

P/1 – E você fecha quando sua primeira lojinha da Galeria Oxford?

 

R – Eu fechei por volta de... 80 e poucos também. Na década de 1980 mesmo.

 

P/1 – E nessa década de 1980 qual foi o biquíni que se mais vendeu? Qual era o estilo de biquíni e qual era o produto do biquíni.

 

R – Olha, vendeu muito o sunquini, que as pessoas começaram a procurar um biquíni maior, né? Depois veio o enroladinho também. E o tanga, né? O biquíni tanga, né? Que ele é... muito tradicional, entendeu? Ele modela bem uma pessoa que está de bem com a vida, de bem com a praia, de bem com ela mesma! Ela gosta de um biquíni menor. Quanto maior for sua intimidade com a praia, você põe sempre um biquíni menor, quando você vai uma vez ou outra, ou vai para uma piscina, você teta botar um biquíni maior, entendeu? Não tem jeito! Esse é a mentalidade de todo mundo porque obviamente, e é normal você ir para a piscina você não vai com um biquinizinho, entendeu? Que você vai mexer, entendeu? Então, normalmente só vai quem está com muita intimidade com a praia. Você vai diminuindo... a tua intimidade vai crescendo, o biquíni vai diminuindo.

 

P/1 – E cores? O que é que mudou em termos de cores, quer dizer, de estampas desde quando você funda sua loja.

 

R – É. Estampas sempre varia todo ano, né? As cores também porque vem a tendência, não... mundial! Aí todo mundo vê a tendência mundial, apesar de que eu sempre visualizo a tendência nacional, porque nós temos oito mil quilômetros de praia, então, eu jamais... todos os fabricantes, todas as pessoas de moda, os críticos, entendeu? Sou o único fabricante, o único não, desculpa, tem vários! Eu sou um dos que mais frequenta praia! Então eu vejo a necessidade no local. Eu fico investigando o que é que serve melhor para a mulher, em termos de biquíni, de praia e de tudo! Trato de fazer o produto para ela! E tem críticos, que sempre o crítico é mais fácil do que fabricante, né? O crítico às vezes não vai à praia! Ele não sabe o que está acontecendo, entendeu? E critica a... o biquíni. Ah! Eu não sei por que eu estou falando isso?

 

P/1 – É que eu te perguntei das cores, estampas, quer dizer, de que forma isso influencia sua produção? Como é que você, quer dizer, a cor é uma moda, a tendência internacional rege este tipo de escolha...

 

R – Ah sim! A tendência internacional, a gente tem que olhar a tendência internacional só por um motivo: porque é o que vai ter na praça para se vender! Então os fabricantes... A Dupont vai fazer aquele fio com aquela tintura, com aquela cor. Então você tem que usar a cor que vai estar nos fabricantes. Que o cara, simplesmente os fabricantes de lycra, eles compram o fio da Dupont e vão fabricar o seu prod... o seu tecido. Você que tem que comprar o tecido que você quer! Agora eu uso sempre as cores que ficam muito bem para a praia e para a mulher. A tendência internacional eu abandono, vejo só, eu uso dentro da tendência internacional o que deve ser usado, o que deve ser pinçado dali. Mas nunca com a tendência: “Não, porque fulano, beltrano”. Tô fora! Biquíni é brasileiro e por isso que nós estamos com fama mundial de biquíni, porque nós temos esse compromisso e esse comportamento.

 

P/1 – Mas qual é a cor que a brasileira mais gosta num biquíni?

 

R – Azul!

 

P/1 – É?

 

R – É.

 

P/1 – Azul. E há tons de azul?

 

R – Há tons e tons sobretons de azul, entendeu? Fica bem mais bonito mesmo. A mulher... o azul sempre vende mais, fica bem melhor para a mulher!

 

P/1 – Mas para mulheres brancas, mulheres negras?

 

R – Não! Você falou a venda maior em termos de cores, né? Por exemplo, para morena eu gosto de tons laranja, com amarelo e branco, fica uma cor super linda! Laranjinha, com branquinho e amarelinho fica... Pô, essa mulher com tez morena fica linda, entendeu? O verde se vende menos, é menos comercial, o verde é bonito também, mas não é tão vendável, entendeu? O turquesa fica bom para as loiras, né? As morenas gostam de vermelho também, entendeu? Tem várias cores, e cada um tem sua tribo de cores, né? Mas o azul é o que predomina mais. E aí, como eu falei da tendência, você vê, hoje em dia, a moda praia para o Brasil está como o uísque é para a Escócia, como é... as marcas, o perfume para a França e a moda, hoje em dia a moda praia, nós estamos num momento tão maravilhoso em relação para o Brasil! Você não tem nem ideia como o Brasil, inclusive aumentou agora as exportações, as vendas de exportação da moda praia. O mundo inteiro, eu recebo e-mail todo dia de vários lugares do mundo querendo saber sobre a moda praia brasileira. É impressionante, eu estou muito feliz com esses resultados! Eu acho que valeu, sabe? Eu fiquei um tempo que eu acelerei mais na empresa, depois desacelerei, mas agora eu estou muito entusiasmado. Estou cada vez trabalhando mais. Cada vez aprimorando mais minha coleção por função disso, que é uma divisa brasileira, é uma bandeira brasileira. E o respeito que as pessoas estão tendo pela moda brasileira é tão intensa que, olha, lisonjeia todo o povo brasileiro! Para você saber que o mundo inteiro te respeita como moda praia é a coisa que poda, né? Tem que ficar muito agradecido. O Brasil exportando moda praia para o mundo inteiro.

 

P/1 – Você exporta?

 

R – Exporto.

 

P/1 – Para onde e quando você começou a exportar?

 

R – Olha, eu sempre exportei muito timidamente, porque eu sou, sei lá, centralizador até com a minha produção, né? Porque eu cheguei ter loja em Ibiza, na Espanha, cheguei em ter em  Manhattan Beach, Califórnia, eu tive o prazer de ter a minha própria loja em Ibiza. Eu era o exportador no Brasil e o importador na Espanha, quer dizer, eu ia para a Espanha, sacava na duana, pagava os impostos, levava para a loja e vendia. Eu acho que isto é tão gratificante que eu nunca pensava como lucro, né? Se eu pensasse mais como lucro, como negócio eu tinha feito diferente: pensava na exportação... exportar, exportar. Mas eu queria exportar para mim mesmo, mas eu, foi bom que eu fiz um marketing mundial. Eu tive uma loja em Ibiza e ela é conhecida hoje no mundo inteiro, graças talvez, essas minhas investidas lá fora. Porque eu fui para Ibiza e o mundo inteiro...

 

P/1 – Você vende o mesmo biquíni que você vende no Rio, lá? Ou era maior... os tamanhos...

 

R – É o mesmo biquíni que eu vendia aqui pelo fato de eu ter várias opções de tamanhos, né? Que eu tenho tamanho grande que serve tanto para uma brasileira aqui grande, como uma estrangeira que é maior também, principalmente atualmente, né? Porque a gente aumentou o tamanho do sutiã, porque hoje em dia a mulherada toda é silicone à beça, né? Então hoje em dia, o corpo de uma brasileira tá parecido com elas... então... quer dizer, não é que tem brasileira que não usa tanga, usa um biquíni maior. A estrangeira em vez de usar tanga, também usa o nosso biquíni maior. Então, eu tenho a opção dentro da minha empresa, de vários tamanhos que vai agradar à gregos e troianos, ou troianas na praia, né? (Risos)

 

P/1 – E sobre assim outros produtos na sua loja? Assim, uma canga... outras coisas, assim...

 

R – Isso é que está diferenciando o mundo do biquíni, de moda praia hoje em dia, além já do Brasil estar bem em moda de biquíni pro mundo, hoje em dia nós temos a moda praia, que não tem no mundo inteiro a moda praia. Nós temos hoje desde a canga à bijuteria, ao ____________[23], a bolsa. Tudo falando em família de cores. Então você pega um biquíni, eu faço aquele mesmo biquíni com estampa, eu faço uma bolsa, eu faço um detalhe no chinelo, eu faço um detalhe na bijuteria, eu faço um detalhe no short, faço um detalhe em vários... quer dizer, hoje em dia mulher quando vai à minha loja, ela encontra uma opção enorme! É como se você fosse na Volkswagen ou na BMW e quisesse comprar um acessório para o seu carro! Só combina com aquele acessório daquela empresa. Porque eu estou usando as nuances das cores dentro do seguimento da moda. Por exemplo, você compra um biquíni, aí eu tenho um blusão que é do tom de uma daquelas flores, ou da nuance do chinelo ou da bolsa. Então você compra, aí no outro dia você fala assim: “Está faltando um complemento, um acessório para essa roupa”. Aí você procura, procura, procura não acha! Vai na minha loja você encontra a coisa que foi feito para você, foi feito... combinando já com aquela __________[24]de roupa. Então, formou-se moda praia. Não se fala mais hoje biquíni, tal. Hoje em dia se fala moda praia.

 

P/1 – E quando é que você acha que entra esse conceito de moda praia?

 

R – Quando... já está há algum tempo já que estamos fazendo sucesso nesse tom e todas as outras empresas fizeram o mesmo. Porque, exatamente você... a mulher comprava às vezes um biquíni, ou você vai comprar uma calça que seja de um outro produto, você normalmente vai querer comprar uma sandália que combine, uma bolsa que combine com a calça, entendeu? No biquíni, na moda praia a mesma coisa! Você compra digamos a canga, ou você compra um blusão, um shortinho, você vai querer sempre comprar o complemento daquela coisa. Então, obviamente para ficar bem mais bonito, você vai comprar na família de cores. Aquela que tem um link com aquela cor, né?

 

P/1 – Então quer dizer que isso também mudou muito a sua concepção de loja, de espaço físico, né?

 

R – É. Exatamente. Eu estou precisando até de espaço físico maior. Por exemplo, minha loja de Búzios, entendeu? É das maiores que eu tenho, porque eu preciso expor mais o produto. Que você faz a vitrine fora, mas de dentro você também é obrigado a fazer uma vitrine lá dentro para as pessoas. Ela entra e não olhou a vitrine do lado de fora, então você precisa de mais espaço para mostrar a melhor o seu produto, né? Então realmente o espaço físico atualmente, você falou muito bem, é muito necessário para você expor toda essa coleção.

 

P/1 – Pois é, quem começou prendendo biquíni com tachinha, né?

 

R – É.

 

P/1 – Hoje como é que você expõe os seus produtos. Me descreve uma das suas lojas. 

 

R – Vamos descrever...

 

P/1 – Elege uma e me descreve.

 

R – Posso descrever a de Búzios ou a de Ipanema. A de Búzios pela vantagem de seu tamanho, que eu tenho muito espaço.

 

P/1 – Qual é a metragem?

 

R – São duzentos metros quadrados. Eu tenho dez cabines. Então se tornam mais confortáveis. Tenho um banheiro. Hoje em dia boutique não tem. Quer dizer, é um serviço. Tem um lugar lá onde... com sofázinho, com plantinha, com aguinha, né? Então você tem... dou um certo conforto. E o espaço físico em Búzios, eu vou falar Búzios, porque quando se vai para Búzios você tem algum convidado na sua casa. Aí você está passeando na Rua das Pedras, aí você entra na minha loja, antigamente você entrava na minha loja já acabava o teu espaço físico ali. Entrava, digamos você, seu marido, seu namorado, seu filho e mais um casal de amigos na sua casa. Caramba, só um vai comprar um biquíni. E o que acontecia? A loja ficava lotada e ela, nem sei se ela ia comprar aquele biquíni. Então não era bom, não fechava a venda, né? Então hoje em dia o que é que é? Ampliei a linha masculina, você entra na loja tem mais espaço físico, o teu marido, teu namorado, seja o que for vai ter espaço para ele circular e vai ter um lugar para ele sentar. Vai ter um produto para ele. Ou seja, se a turma toda quiser vai ter um produto para cada um. Aí você tem que ter esse conforto, aí você faz, dá mais informação. Tem uma arara com toda a família de uma cor, você tem uma estampa digamos, o tom sobre-tom que eu fiz esse ano que fez um sucesso absurdo. Foi um floral, né? No tom de azul, com azul mais claro e o branquinho. Então ficou três, quatro cores dentro das nuances do azul, né? Então você vê aquele biquíni, aí você vê, encontra um shortinho com aquele azul, com a mesma estampa. Então você vai criando a família. Aí você vê toda aquela montagem, né? Como você tem espaço físico sobrando você vê toda a montagem daquela família de cores, né? Aí fica mais fácil você visualizar o teu...

 

P/1 – Mas como é que você pen... Você pendura biquíni? Você vende enroladinho...

 

R – Eu penduro na família! Não, eu penduro na família, você tem pendurado vários tons de azuis e dentro daqueles modelos, um parecido com o outro, dentro da mesma estampa. Aí você encontra um camisão com aquela mesma estampa, você encontra o short com aquela mesma estampa. Você encontra outro short comprido nessa mesma estampa, compra o shor... E do lado você encontra o... a cor neutra, digamos o branco. Um blusão branco para você combinar com a pantalona estampada, entendeu? Então você... o top né? Então, eu dou a opção da estampa toda, para você olhar toda aquela coleção estampada. Se você gosta de sutiã é pequeno, grande, a calcinha grande, pequena, média, de lacinho...

 

P/1 – Você vende separado?

 

R – Vendo separado também. Então além de você ver isso, você vê os complementos todos. Você vê toda uma roupa montada. E do lado você vê uma montagem. Você já vê uma manequim vestida, né? Com um biquíni, com a bijuteria, com o chinelinho, com a bolsa. Então você já se vê vestida ali. Então você sabe, chegando numa loja desse tipo você está pronta para aparecer na praia, em qualquer praia do mundo você está bem vestida!

 

R – Ou entra numa loja para comprar um biquíni e sai de lá com um blusão, uma sandália.

 

P/1 – Você sai tipo consultada. Você sai como se tivesse feito uma consultoria: “O que é que fica bem pra mim?”. Porque a gente se preocupa tanto com o total da roupa dela que ela saindo para São Paulo em uma piscina, ela vai estar bem vestida. Ela vai estar em Mikonos ou Ibiza, ou em Sardenha, vai fazer o maior sucesso, entendeu? Então os biquininho, digamos azul, que combina com o azul já tem o biquinizinho branco com apetrechozinho, buziozinho, ou com coquinho, sabe? Sabe, bijuteria nacional, entendeu? Uma pedra brasileira, entendeu? Uma coisa que combina com toda aquela roupa. Aí fica muito bonito! Realmente a nossa coleção esse ano foi muito elogiada e vai ter mais!

 

P/1 – E vender assim para homens? Quando é que você passa a vender sunga?

 

R – Err! É horrível!

 

P/1 – Por quê?

 

R – Ai, porque normalmente, quando é amigo os cara depois chegam na praia te mostrando, é muito deselegante! É muito chato vender sunga, cara! Que ele depois chega assim: “Ã, aqui ó”. E eu: “Hã, hã, tá bom, já vi!” Vi de longe! É horrível, entendeu?

 

P/1 – Mas aí a menina você gosta se ela chega, né? Se ela diz assim: “Olha só, Cidinho, biquíni”.

 

R – Ah certo! Eu é que pergunto: “E aí, ficou bem?”. (Risos) Aí: “Posso olhar?” (Risos) É muito gratificante!

 

P/1 – Vamos falar então de embalagens agora. Como era e como é? Você contou das Casas Pernambucanas...

 

R – Como era... Eu tenho até saudosismo... É, eu cortava, eu chegava ali com a faquinha (alva?) , cortava o tecidinho, a modelagem era um pedacinho de pano meio retangular, fechava ela e virava um saquinho. Que ficou muito conhecido por muitos e muitos anos. Até hoje os ____________[25] : “E aquele saquinho embalagem antiga?”. Que as pessoas usavam para botar bijuteria, calcinha, guardava no seu guarda-roupa. Então era uns saquinhos de pano, muito legal. Aí tinha BumBum, tal... E aí hoje em dia...

 

P/1 – E tinha já sua marca nessa embalagem.

 

R – Tinha nossa logomarca.

 

P/1 – Os biquínis também sempre tiveram a marquinha impressa?

 

R – Só num determinado período, né? Num período que eu saquei, né? Pela cobrança na praia... É uma vez uma amiga chegou na praia e me perguntou: “Vem cá!”. Eu digo: “Por quê você não está com meu biquíni?”. Ela: “Mas todo mundo tá com seu biquíni aqui!”. Eu digo: “Não, não é verdade!”. Aí daquilo eu fui para casa e fiquei pensando: “então tenho que diferenciar meu biquíni”. Então o que é que eu faço, o que eu fiz naquela época? Hoje é estampa exclusiva, mas naquela época não tinha todo o back-off que tem hoje em dia, né? As empresas fazendo esse serviço para você. E eu comecei então a bordar, não, silkar...

 

P/1 – Silk-screen 

 

R - ... o BumBum atrás do biquíni. Foi a ideia que eu tive para diferenciar meu produto dos outros na praia. Então não estava aquele mar que era só meu o biquíni, mas parecia porque eram muito parecidos. Você faz um biquíni na malha azul, de qual fabricante que é? Você não tinha como distinguir quem era, né? Então depois com a marquinha carimbado lá. Pã! Aprovado. Aí joguei na rua! Aí foi sucesso, e depois as pessoas começara a cobrar: “Cadê, cadê o bordado?”. “Ah não tem!”. Hoje em dia é bordado, hoje em dia é só exclusividade, a estampa é exclusiva. Mas naquela época para diferencia foi o carimbo da BumBum.

 

P/1 – O que é que é ter uma estampa exclusiva?

 

R – Eu, por exemplo, estou desenvolvendo nesse momento uma estampa exclusiva. Eu escolhi uma flor. Essa flor eu escolho o tamanho dela, a pigmentação, a cor, o tom, a quantidade branco, de azul. A quantidade de cor que eu acho que vai ser aquela flor. Então eu vou direcionando, aí minhas auxiliares de estilo, hoje em dia põe no computador e vamos jogando. Troca o fundo, “Não gostei! Essa cor não contrasta legal”, e eu vou até chegar num produto, numa estampa que me agrade! Agradou, eu... aprovado!

 

P/1 – Mas você... uma fábrica faz isso para você?

 

R – A fábrica faz para todo o Brasil, entendeu? A Salete, por exemplo, é uma indústria, uma estamparia de São Paulo e ela que estampa para quem quer que estampe. Ela estampa normalmente para todo mundo. Agora quem quer exclusivo desenvolve sua própria estampa e manda ela fazer. Tem um mínimo, uma quantidade mínima de peça...

 

P/1 – Mas aí você compra o tecido e você que fabrica?

 

R – É. É eu encomendo para eles e depois com esta estampa já produzida por uma estamparia que já é agregada a uma outra fábrica e depois nós encomendamos o tecido.

 

P/1 – E isso é em São Paulo ou no Rio?

 

R – São Paulo.

 

P/1 – Voltando à embalagem: então como é que é hoje uma embalagem?

 

R – A embalagem depois passou um processo de... para plástico para ficar mas agradável... porque as pessoas começaram a reclamar.

 

P/1 – Quando? Quando é que passa à plástico?

 

R – Começou acho nos últimos oito anos... oito anos... passou a ser plástico porque as pessoas usavam o sutiã molhadinho e botava no saquinho plástico e botava na bolsa.

 

P/1 – Conta, descreve como era essa de plástico?

 

R – A de plástico é uma bolsinha de plástico que você põe e não molha. Você tira, tira ele e guarda dentro da sua bolsa, né? A pessoa sai, vai tomar um chopinho, tira o sutiã que está molhado e põe dentro do saquinho plástico e põe dentro da bolsa dela, entendeu? Aí ficou mais assim protegido. O de tecido não! Você botava e molhava a roupa.

 

P/1 – Mas hoje se uma moça compra um biquíni na sua loja, como é que é embalado? Tem embalagem para presente?

 

R – Tem. Ela vai primeiro num saquinho plástico e depois numa embalagem para presente. E hoje atualmente, a partir de um mês atrás a gente mudou a logo nova e junto com esse logo nova entrou a embalagem nova que é a forma de uma gota a bolsa meio de lado assim, no formato de uma gota com as cores de fundo do mar, né? Em azul turquesa com branquinho e duas gotas brancas escrita BumBum Ipanema.

 

P/1 – Qual é a importância de uma embalagem?

 

R – A importância de uma embalagem é muito importante porque você... pela embalagem você vê a preocupação do fabricante com o produto interno, entendeu? Porque é ela que leva o primeiro produto, entendeu? Fica muito deselegante uma embalagem pobre num biquíni rico.

 

P/1 – E, por exemplo, essa coisa da embalagem de presente: é... biquíni é um bem que se presenteia?

 

R – Muito. Bastante.

 

P/1 – Quem que compra para dar para quem?

 

R – É. A mãe para a filha, a filha para a mãe...

 

P/1 – É?!

 

R – O namorado para a namorada, entendeu? É todo mundo! É amiga para a amiga, entendeu? É todo mundo presenteia, é... inclusive no verão é um presente muito bonito. Principalmente quando a amiga diz: “Pô, adorei este seu biquíni!”, “Então no teu aniversário vou te dar um igual ou parecido”.

 

P/1 – Ah! Igual não! (Risos)

 

R – Igual de marca.

 

P/1 – E troca? Quer dizer, pode-se presentear, mas se troca muito biquíni?

 

R – Certamente troca e ela, ela...

 

P/1 – Por quê você acha que você troca muito biquíni?

 

R – Porque como eu te falei, o biquíni é muito difícil de você agradar a mulher, entendeu? Então a troca é muito importante e fazendo com todo o carinho da mesma forma como quando estamos vendendo. Acho que a troca é uma forma de você presentear a pessoa, entendeu? Da pessoa não se sentir constrangida em pedir uma troca. Eu acho que a troca faz parte da venda. Nós temos uma regra na minha empresa que trocar é a regra número um, o cliente sempre tem razão. A regra número dois: leia a regra número um, entendeu? Então não tem jeito! O cliente sempre tem razão, mesmo que ela não tenha a gente dá razão para ela! Aliás, tem pessoas cara-de-pau, né? Tem mulher que vai com o biquíni usado e fala que nunca usou! E a gente: “Está bem!”. A gente só ri, entendeu? A gente tenta mostrar que não. Você abre o biquíni em cima de um papel, de um jornal e faz trrraaák, cai um monte de areia. Você estica uma lycra você vê. Foi à praia? Estica um biquíni em cima de um papel e vê como cai areia, entendeu? E além disso, outros que não vou comentar... são biquínis que já foram usados mesmo! E infelizmente faz parte.

 

P/1 – E se experimenta muito biquíni em loja?

 

R – Por isso que você tem que ter muitas cabines. Porque um biquíni normalmente, é meia hora para vender um biquíni, quase né? Porque...

 

P/1 – Pois é, fala um pouquinho disso!

 

R - ... troca de calcinha, a calcinha ficou boa, mas o sutiã não! Aí o sutiã ficou bom, mas a calcinha não! Mas a cor dessa calcinha ela quer porque não é da cor do sutiã. Então começa aquele jogo: e a calcinha ficou boa e sutiã não ficou bom, mas a cor da calcinha não é igual a do sutiã e não tem a cor da calcinha não igual a do sutiã, e não tem a cor da calcinha igual a do sutiã que eu gostei, aquele modelo ficou maior não ficou? Ficou! Então vamos procurar? Vamos. Aí não tem mais, aí só tem dessa cor, mas essa cor eu não gosto... a preta eu não gosto, queria azul! Ai, você pode? Tem na outra loja? Tem! Isso é meia hora! Então a gente faz com o maior carinho, nossas vendedoras estão treinadas para isso. Isso faz parte, a mulher é exigente mesmo! Por isso que nós temos essa gama de opções, esse rol de opções de calcinhas e sutiãs: muita variedade! Tenho a calcinha larga, mais estreita, mais estreita, mais estreita, até chegar no tanga! Até chegar... está entendendo? Vai começando de quatro, oito dedos até chegar no fio dental se for preciso! Mas a gente quer é exatamente que a mulher saia satisfeita, bela e bonita e faceira.

 

P/1 – E o homem, quanto tempo ele demora para comprar uma sunga?

 

R – Ah! Homem é rápido. Os caras que são homem mesmo (Risos) ele chega assim: “O que tem aí? Preto?”. Tem! “Deixa eu ver! Ah! ficou legal! Qual a outra cor que tem?”. Vermelho! “Me dá duas, quanto que é? Toma!”. Pagou e tchau!

 

P/1 – Mas você não acha que esse consumidor homem está mudando neste ramo?

 

R – Está, está mudando. Os homens estão mudando também, né? Ai! (Risos) Os homens também... ah, aí tem de tudo! Há de tudo, mas daí não é o meu campo, eu não sei dizer muito sobre sunga não, porque eu nunca consegui vender nenhuma!

 

P/1 – E os atendentes na sua loja? Hoje são quantos empregados? A maioria mulher, é homem? 

 

R – É a maioria é mulher. Só tem mulher na loja, né? Não comporta loja tipo pequeno, entendeu? E ter um homenzinho para vender biquíni. Acho que constrange o público feminino, né? Você chegar lá com tua mulher e ter lá o cara para servir o biquíni para a tua mulher, quer dizer, OKÊ?! Depois eu conto essa piada...

 

P/1 – Quantos empregados você tem hoje?

 

R – Eu tenho no total? Ou em cada loja?

 

P/1 – No total!

 

R – Eu tenho um total de uns centro e trinta mais ou menos.

 

P/1 – E quantas lojas você tem?

 

R – Estou com seis lojas.

 

P/1 – Qual o bairros?

 

R – Eu tenho do Ipanema... Ipanema, Barra Shopping, Barra da Tijuca, Ipanema, Búzios e agora em Floripa.

 

P/1 – Que é um novo mercado?

 

R – Que é um novo mercado de mulheres lindas, maravilhosas, loiras show... Maravilhosas!  Floripa de-ma-is!

 

P/1 – E agora, formas de pagamento: a sua loja recebe mais dinheiro, cheque, assim...

 

R – Cartão. O cartão realmente é... infelizmente é o que mais se vende é cartão: 60%, 70% de cartão. É um absurdo, né? Porque você sempre perde um percentual. Você perde 5%, 8% em cada venda no cartão de crédito, e isto é muito ruim!

 

P/1 – Mas você tem uma forma própria de pagamento na sua loja?

 

R – Não! O próprio cartão já abrange isso e a gente até oferece para quem não quiser pagar, para dar um desconto para o próprio cliente. Em vez de dar para o cartão e enriquecer o banqueiro a gente prefere dar esta cortesia para a consumidora, né? Se ela pagar à vista, em dinheiro ou cheque a gente dá o desconto para ela! Já que a gente tem de perder para alguém, eu prefiro perder para o meu consumidor, entendeu? Eu tenho que premiar a quem é fiel ao meu produto.

 

P/1 – Você falou de, assim... você elogiou o momento de moda praia. Teve um momento muito ruim desse comércio nestas últimas décadas?

 

R – Não! Só prá mim! Para mim teve, que foi a época em que tive problema pessoal, particular e eu abandonei... Aí é como eu falei: quem abandona... quem engorda o gado é olho do dono, entendeu? Se abandonou você vai perder com isso. Eu acho que quem vai orientar bem o seu produto, teu cliente, tuas vendedores e tuas lojas é a tua presença, o seu modo de ver as coisas, entendeu? Ausência nunca!

 

P/1 – Você é o dono da empresa. Você é dono sozinho, você tem sócios, você tem um antigo funcionário, você tem um braço direito?

 

R. Tenho! Tem antigo sócio, tenho braço direito, tenho antigo funcionário, tenho tudo! (Risos) Eu acho que faz parte e eu tenho funcionários de vinte anos que trabalha com a gente, e obviamente por ser uma equipe, são as costureiras, que são o fio da meada toda. Você tem que tratá-las muito bem porque é um mercado que não tem muito... não é qualquer costureira que faz biquíni, né? Uma mulher de costura reta não é a mesma que faz uma costura de biquíni. Pregar um elástico é uma costura bem específica para a moda praia.

 

P/1 – mas você tem uma fábrica?

 

R – Eu fabrico todos os meus produtos.

 

P/1 – Aonde é que é?

 

R – Em Jacarepaguá. A minha primeira fábrica foi em Ipanema também. O engraçado foi isto: a minha empresa nasceu em Ipanema, a primeira fábrica nasceu em Ipanema. Foi no Bar 20, não sei se vocês sabem o que é Bar 20? É ali no Leblon, final de Ipanema onde o bonde fazia a curva ali... chamava Bar 20. Eu acho legal, porque faz parte da história de Ipanema a minha fábrica e meu nome de biquíni.

 

P/1 – Então agora sobre família. Você é casado? Tem filhos, como é que é?

 

R – Tenho dois filhos. Uma filha de quinze e um filhinho de cinco. Sou solteiro.

 

P/1 – Como é que é o nome deles?

 

R – Lúcia Marrana e meu filho chama-se Victor, e sou solteiro, no Rio de Janeiro. (Risos)

 

P/1 – E o quê que você acha, você tem alguma expectativa que algum deles dê continuidade aos teus negócios?

 

R – É. Normalmente sempre há uma controvérsia... Digamos que eu não sei! Porque meu filho é muito companheiro, né? E eu acho que só por ser muito meu companheiro que ele vai querer estar ali... porque eu sou meio desorganizado e eu senti que ele vai vir para organizar! Apesar que também eu só passo para ele muito a cultura de educação e esporte para ele, o resto deixa com ele! Não faço a menor questão que ele siga o que eu quero! Ele vai seguir o que ele quiser! Eu passo é saúde!

 

P/1 – E você faz biquíni ou sunga para criança?

 

R – Faço também para criança, sunga, biquíni para criança. Toda a roupinha para criança, é, sempre fica bonitinho.

 

P/1 – Teus filhos usam BumBum?

 

R – É. (Risos)

 

P/1 – Tem quê!

 

R – Claro! Tem quê? Eles gostam, né? É um produto que está bonito aí, entendeu?

 

P/1 – Então para ir finalizando conta aí como é um dia seu hoje... da tua vida?

 

 

R - Ah! Eu acordo, dou uma corrida, faço algum esporte, corro para a fábrica, aí me reuno com a galera do estilo, que é o primeiro lugar que eu falo. Ver estilo, ver estampa, _______________[26]se fizeram, não fizeram. Aí vou no outro departamento, sabe? Eu não tenho mesa, entendeu? Eu não sento. Quero saber de tudo, centralizo tudo, ando para lá e para cá, o tempo todo. Quero saber de tudo o que está acontecendo, como é que está a costura, como é que está o biquíni, como é que está a venda, como é que está os pagamentos, como está tudo! Eu tento saber de tudo, e o melhor é não ter mesa onde sentar! Eu nunca consigo sentar. Às vezes, até sento né? Mas... eu até estou sentado aqui agora... mas normalmente... é que... o departamento não pode dizer assim: “Vem aqui!”. Eu é que tenho que ir, né? Então eu tenho que olhar costura, eu tenho que olhar acabamento, como é que está os e-mails: mandaram, responderam, estamos exportando, mandamos para a Espanha, mandamos para França. Como é que está isso, como é que está aquilo. Estou correndo atrás de tudo. Gosto de estar ao par de tudo, porque como eu já estive ausente uma vez eu senti como faz parte às vezes um dia que eu não vou, penso que não tem nada para fazer, mas tem muito assunto para fazer todo o dia! Você tem que olhar a modelagem, um biquíni, um... eu fico sempre... aquele jogo dos sete erros? Eu sempre estou tentando encontrar um erro meu para consertar, entendeu? Na modelagem, no produto, na cor. Eu sempre estou querendo saber onde tem um erro nosso. Louco por informações! Eu investigo, ligo sempre à noite para as lojas: “E aí, como é que está?... Não, teve uma cliente que falou isso... falou o que, não sei quê!”.

 

P/1 – Qual é a loja que vende mais?

 

R – O Rio Sul sempre foi uma loja que me deu bastante retorno. Ipanema deu muito retorno também, e hoje em dia e acabei de fechar duas lojas: fechei uma em Vitória e outra em Downtown porque quando você está mal localizado não tem remédio, entendeu? Para você ter sucesso hoje em dia você tem que ter um bom ponto, um bom produto e um bom atendimento. Tem que ter um monte de coisas boas! E principalmente para o comércio, um ponto excelente é sinal de retorno. Mesmo que você não seja o melhor produto, já te dá retorno. Agora, imagine você tendo um bom produto!

 

P/1 – Você anuncia? Você faz publicidade?

 

R – Eu faço pouco publicidade porque eu recebo muito marketing espontâneo, né?

 

P/1 – O quê que é o marketing espontâneo?

 

R – Aqui, por exemplo, é o marketing espontâneo, entendeu? Entrevista, eu fui agora entrevistado também para um jornal francês, por um canadense, entendeu? Recebo muito, muita oferta de marketing espontâneo. Eu saio na mídia, faço desfile, catálogo. Agora, minha maior publicidade é catálogo e vitrine, né? Catálogo é importante você mostrar teu produto. E... tem que fazer um catálogo conceitual. Nem faço catálogo de venda para mostrar o produto. Meu catálogo normalmente eu faço conceitual ou com uma história sobre a cor. Agora eu estou fazendo listas, eu estava pensando listas... aí falando com minha produtora: Essas listas tem tudo a ver com os afundamentos dos navios que criam... saem aqueles óleos, depois criam aquelas cores e formam como se fossem um rio caudaloso, cheio de curvas, né?” Aí eu estou criando uma estampa cheia de cores, que imaginei como se fosse assim a ecologia sendo danificada mas trazendo uma ideia para uma estampa de cores, tal porque tem cheia de cores... isto é coisa de maluco!

 

P/1 – Bom, então... você tem mais alguma pergunta?

 

P/2 - Tenho. O senhor falou que vende muito para o estrangeiro, mas as americanas e principalmente os europeus eles continuam usando aquele biquinão enorme...

 

R – É, mas você sabe que a cultura, isto é que é o legal do Brasil, essa cultura que nós estamos passando para o mundo inteiro, hoje em dia você olha uma mulher em Miami, ou em qualquer lugar do mundo... na Califórnia, você olha por trás e você não sabe se é brasileira ou não! Porque elas já aderiram a modelagem brasileira e inclusive ficam mais bonitas. Você vê uma mulher americana com biquíni americano ela é ridícula! Porque ela mete o biquíni para a virilha dela, ela faz a frente dela, fica linda a frente, mas você olha de costa você não acredita, né? Porque o biquíni mal modelado ou mal colocado no corpo dela desvalorizando as curvas que ela tem. Porque, será que ela não tem a curva? Toda mulher tem curva, né? Ela sempre foi muito mal dirigida em moda praia. Porque eles têm... não tem oito mil quilômetros de praia, né?

 

P/1 – Bom, então para finalizar rapidamente, o quê que você acha de um Projeto de Memória do Comércio da Cidade do Rio de Janeiro?

 

R – Eu acho legal. O Rio de Janeiro está precisando de um trabalho sempre voltado à cultura, porque a cultura é o que fica, é o que vai contar o que foi ou deixou de ser. E uma cidade ela só pode ser... ficar nos anais da história se tiver alguém fazendo cultura.

 

P/1 – E o que é que achou de dar seu depoimento?

 

R – O máximo! Adorei, gostei, adorei a equipe, legal. Fiquei fascinado de poder falar alguma coisa da BumBum e falar do comércio da cidade do Rio de Janeiro. Teria muito mais assunto, mas eu sei que o tempo é curto para todos! Fica aí a mensagem e a gratidão por todo o trabalho de vocês aí.

 

P/1 – Obrigada, super obrigada!

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