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História

“Deixa eu viver, estar feliz é onde eu estou”

História de: Cleusa Maria Ximendes Huber
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/10/2021

Sinopse

Filha caçula, de nove filhos. Infância rodeada de irmãos e amor. Família humilde. Descoberta de um problema cardíaco. Cirurgia e melhoria na qualidade de vida. Vivência na escola. Casamento e gravidez. Maternidade. Momento de tirar a carta para dirigir caminhão. Primeira vez dirigindo um caminhão. Trabalho como caminhoneira em diferentes empresas de Porto Alegre. Dificuldades e preconceito por ser mulher. Quebra de paradigmas. Sensação de viajar pelas estradas do Brasil. Maiores desafios como motorista. Materiais e tipos de carga que carrega. Rotina. Solidariedade na estrada. Pandemia. Sonhos.

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História completa

P/1 - Cleusa, pra começar, eu queria que você começasse se apresentando, dizendo o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R - Eu sou Cleusa Maria Ximendes Huber, nasci dia 25 de fevereiro de 1969. Nasci em Herval do Sul, Rio Grande do Sul.

 

P/1 - E quais os nomes dos seus pais?

 

R - Falecidos: Hugo Gonçalves Ximendes e Jurema Moreira Ximendes.

 

P/1 - E como você os descreveria?

 

R - Os amores da minha vida, né? E [sou a] caçula de nove irmãos. Então, imagina a dor que é, a saudade. Os dois faleceram, eu estava na estrada. Tentei chegar, mas não deu tempo, mas Deus sabe (choro). E isso me emociona, falar deles. Sinal que eu fui bem educada, bem amada e bem criada, muito amor. E isso eu transmito às pessoas, eu fui bem-amada e sou também, até hoje. Os irmãos, os sobrinhos, os netos, todo mundo se ama. A gente não tem aquela coisa assim, disputa de alguma coisa que venha nos desunir, pelo contrário, a gente se une na doença, na saúde, é unido, muito unido. Eu vivo nas estradas, mas meus irmãos estão sempre ligados em mim.  Meus irmãos, filhos, netos, todo mundo. Quer dizer assim, tô mal em algum lugar, eles dão um jeito de me buscar. Mas a empresa me dá bastante suporte também.

 

P/1 - E o que seus pais faziam, quando eles eram vivos?

 

R - Meu pai é militar. Meu pai foi militar a vida inteira. E a minha mãe dona de casa, sempre cuidou de nós, nove filhos não tinha condições, né? Mas nós somos de família bem humilde, mas a gente é feliz do jeito que a gente foi criado, a gente lembra das coisas, a gente adquiriu algumas coisas, mas não perdemos a nossa essência. E sempre diz assim: lutar sempre e se unir. Os filhos, agora a nova geração, têm espaço na federal. A mãe não estudou, mas a mãe sempre foi presente no sentido assim: “Tem que estudar, tem que estudar”. E com muito amor, muito amor envolvido.

 

P/1 - E você sabe como seus pais se conheceram?

 

R - O pai tem uma história meio assim: o pai era da cavalaria de Bagé e a mãe trabalhava em carvão. A minha família é muito, muito humilde. Daí, eles se conheceram, viram um ao outro, e ela pegou e disse: “Tu gosta de mim? Tu vem a cavalo, do comandante” - ela disse que falou brincando: “E vem aqui”. E o cavalo do comandante não poderia sair do quartel. E ele foi, não é que o cavalo sumiu dele e foi pro quartel sozinho? E ele ainda levou uma advertência. Mas ele foi lá vê-la. Eles tiveram muita dificuldade pra nos criar. Mas sempre unidos, sempre juntos. Deixou uma história muito grande, de vida.

 

P/1 - E como é essa relação e como que era, quando você era pequena, com os seus irmãos?

 

R - Como eu era pequena, eles me tinham como uma boneca deles. Então, ia pro colo de um, dormia com outro, porque eu não dormia sozinha, eu sempre queria dormir.... as minhas irmãs eram como as minhas mães também. Então, a mãe, às vezes, tinha que trabalhar, todo mundo trabalhava com quatorze anos, estava todo mundo trabalhando na época, em Pelotas, na fábrica de doce. E eu ficava o dia inteiro no banheiro, com a mulher que cuidava do banheiro, porque eu não tinha quem me cuidasse. E o resto tudo trabalhava. Mas eu sempre fui protegida como a filha menor de todo mundo, andava pra lá, andava pra cá, levava pra qualquer lugar. Então, meus irmãos, eu sinto que ultrapassa, assim, irmãos, parece que são os meus pais, minhas mães. É esse amor que eu tenho por ele.

 

P/1 - E você chegou a conhecer os seus avós?

 

R - Não, nem por parte de pai, nem por parte de mãe, porque eu acho que eu sou a última, né? E aí acho que não resistiram esperar chegar (risos), mas eu sei que, por mais humildes que eles eram, também transmitiam muito amor pros filhos.

 

P/1 - Você sabe a história deles?

 

R - Não, eu não sei muito, porque meu pai e minha mãe, eles falam muito que eles eram bem-amados, mas é isso aí.

 

P/1 - E quando você era bem pequena, você lembra de cheiro, de comida, de festa, data comemorativa, que vocês comemoravam em família? Como eram essas lembranças, você lembra?

 

R - A gente não tinha muito dinheiro pra comprar carne, muita carne, mas o que a gente comprava, sempre, assim, pedia e às vezes... eu tinha problema, eu nasci com problema de coração. Então, eu tinha dificuldade de comer, eu era muito magra e o médico acha que é mais por causa do coração, que eu tinha falta de ar, tudo. E a gente não sabia, eu fui descobrir por acaso no colégio e foi o médico do colégio: “Tu tem um problema, teus pais têm que vir aqui”. Mas senão, eu não ia descobrir nunca, só tinha falta de ar. E, assim, eu sempre via os meus irmãos esperando eu comer, aí quando eu deixava: “Tu não vai comer mais?” “Não, não quero”, aí eles comiam o que sobrava de mim. Então, é aquela coisa assim, aquela cumplicidade: eu não comia, eles comiam, mas eles esperavam eu não querer, às vezes forçava pra eu comer, eu não comia. Mas era do meu próprio organismo. E eles esperavam e aquilo ali era, assim, eu tinha um sentimento que eu não sabia explicar, deles esperando eu comer, pra eles poderem comer mais um pouco. A situação: só ter café, não ter pão, situações assim. E nem por isso, todo mundo dava um jeitinho daqui ali, fazia umas batatas doces, alguma coisa assim. Minha mãe inventava umas comidas que a gente não sabia o que era, mas pelo menos alimentava a gente. Era o jeito.

 

P/1 - E você sabe como foi escolhido o seu nome?

 

R - Não, mas acho que deveria ser alguma vizinha, alguma coisa que deu a ideia, porque todo mundo: Gladys Maria, Gleici Maria, Cecília Maria, Cleusa Maria, é tudo... (risos) eu acho que já estavam sem opção, daí: “Vou botá-la de Cleusa” (risos).

 

P/1 - E, Cleusa, você lembra da casa e da rua que você passou a sua infância, como que era?

 

R - Eu me lembro lá em Jardim América, perto de Pelotas, lá eu cresci, no colégio... lá foi a minha primeira vontade de fazer doações, não, mas de ajudar, porque com oito anos, por aí, eu via as crianças com os pés descalços, meu pai sempre tirava serviços na frente de lojas, trazia presentes dos lojistas pra nós, os lojistas davam pra ele. Daí, eu dizia: “Pai, os meninos lá no colégio estão indo com os pés descalços e está frio. Por que eles andam assim?” Daí ele fazia um jeito de ir lá, pedir pros lojistas e levar pra minha professora dar pra eles e hoje são empresários, eles lembram mais do que eu. Eu não lembro tanto assim. O pai diz que desde pequena eu sempre [estava] preocupada. Ganhava ovo de Páscoa, pessoal que é militar, ganha pros filhos e eu ganhava um grande assim e eu ia correndo nos meninos, dar um pedacinho pra cada um, todo mundo comia. Então, eu sempre gostei de dividir, repartir, doar, sempre, sempre, acho que isso aí já veio no DNA, já.

 

P/1 - E como era a casa?

 

R - Era metade de madeira e metade de alvenaria, mas nós chegamos a morar numa casa de barro, o pai já chegou a morar na cela da cadeia, que ele era destacado, mas era muito filho, não tinha como alugar, o salário não dava. Aí, o comandante deixava a gente dormir, morar dentro da cela. Antes, isso era pequenininho, bebezinho. Depois a gente foi pra uma casa que era de barro, depois dessa casa que meio a gente enxergava do outro lado, era metade... e o pai ficava abanando mosquito em mim, de noite, pra mim não... ele trazia um pedacinho de carne no bolso pra mim, que tinha os meus irmãos, mas eu ficava em casa, os outros já estavam trabalhando, quatorze anos e tudo. Sempre tentaram ajudar em casa também. Daí, o pai trazia no bolso, enroladinho, um pedacinho de carne pra mim: “Eu trouxe uma carne pra ti”, que eles ganhavam no refeitório lá, deles. Então, eu cresci assim, todo mundo se amando. A gente não teve aquela coisa de disputa, de nada, tanto que o pai e a mãe faleceram e deixaram uma casa em Pelotas, pra quem quiser morar lá, até o último irmão. A casa está lá, é bem localizada, se eu quiser morar, eu moro. Tenho três irmãos solteiros morando lá e eles diziam: “Aqui é pros netos. Deixa essa casa pra todo mundo, vai ter sempre um lugar pra ficar”.

 

P/1 - E você lembra das suas brincadeiras nessa época, qual você gostava mais de brincar?

 

R - Andar de calcinha, tomar banho e se atirar numa grama, deixavam o pai e a mãe furiosos (risos). Eu ficava roxa de tanto frio e aí vinha a chuva e eu só de calcinha. Aí, a mãe: “Não pode, tu já está virando mocinha, não pode estar sem camisa” “Mas vai sujar”, aí ela dizia: “Você está roxa de frio” “Mas eu gosto, deixa eu brincar”. Eu brinquei muito, ela virava as cadeiras, botava cobertor dentro de casa e ali ela fazia bonequinhas de pano, costurava, eu adorava. Que a gente não tinha como. O meu sonho era ganhar uma boneca macia, hoje eu vejo as bonecas macias, parece aquilo que eu não tive. Hoje, às vezes, tem até no lixo. Eu fico olhando, era tanto o meu sonho ter uma boneca dessas. Então, vivia assim, mas não era infeliz, eu pegava e brincava com aqueles... ela fazia fogãozinho com tijolo, pra eu brincar de cozinhar. Sempre ela fez esse apoio assim, pra eu brincar. Eu que brincava, os irmãos maiores já estavam trabalhando. Então, ficava eu lá, na volta dela.

 

P/1 - Todos os seus irmãos já eram crescidos, nessa época?

R - Já, já, eles já tinham em torno de quatorze, quinze anos, já estavam tudo trabalhando. Naquela época podia. Daí, ficava eu e a mãe em casa e eu fui das [filhas] que mais mamou. Eu ia pro colégio, chegava do colégio e mamava um pouquinho (risos). Eu sempre quis, pegava um banquinho, lavava a mesa e a mesa era de madeira, tinha que escovar, né? E aí, eu pegava o banquinho, onde ela ia, eu ia atrás dela, pra mamar. Sempre indo atrás dela, sempre agarrada nela, pai também. Doze anos, eu andava no colo do pai: “Pai, quero ir pra casa no colo”, vinha do colégio, ele ia lá me buscar, no colo. Sempre tive problema de falta de ar e ele não sabia o que era.

 

P/1 - E nessa época você tinha algum sonho do que você queria ser quando crescesse ou você nem pensava nisso ainda?

 

R - Eu sempre me imaginava [como] médica, lidar com pessoas. Mas o tempo foi passando, passando e eu resolvi que não. O pai usava uma farda e a ________ morava longe e ela tinha dificuldade pra ter alimentação. O pai pegava umas sacolas grandes e pegava carona, eu dizia: “Pai, quero pegar carona de caminhão, porque caminhão dá bala pra gente” - eu não gostava de pegar carona de carro - “De carro não, pai, tem que ser de caminhão, porque eles dão bala”. Daí, hoje eu estava falando pra ele como é o destino, mas não tem ninguém caminhoneiro na família. Ou militar ou enfermeiro.

 

P/1 - E qual é a sua primeira lembrança da escola?

 

R - Foi quando eu fui fazer a tabuada e não soube fazer e fiz xixi na calça (risos). Isso nunca mais eu esqueci (risos). Eu sou péssima, eu sou péssima em Matemática. E aí, demorou e ela não deixava eu sair do quadro, eu dizia: “Eu quero, eu quero fazer xixi” e ela dizia: “Não, tu vai toda hora, agora você vai fazer tabuada” e eu fiz e todo mundo riu, isso aí eu não esqueço mais, nunca.

 

P/1 - E teve algum professor que foi marcante, alguma professora que foi marcante, nessa época?

 

R - Foi, a professora Eliane, ela levava a gente pra casa dela e como a gente era uma região muito pobre, ela fazia bolos e refrigerante e levava todo mundo de ônibus pra casa dela, pra comer na casa dela e a gente achava o máximo tomar refrigerante, comer bolo, essas coisas, pra nós era meio difícil. Era toda a turma da escola, a turma dela.

 

P/1 - E você tem alguma outra história marcante dessa época, da escola? Você contou do professor que descobriu o motivo da sua falta de ar, como foi?

 

R - Assim, eu fui pra cidade, daí quando passava pra sexta série, tinha que ir pra cidade, tinha um ônibus __________ que levava. Só que lá na cidade fazia educação física e é um colégio maior. Daí foi um médico lá pra fazer exame em toda criançada. E eu lá na fila, quando vê, chegou minha vez e ele mandou ficar do lado dele, foi passando todo mundo, todo mundo e já estava... o meu pai sempre controlou pra não chegar tarde em casa e eu preocupada que eu não estava indo pra casa: “O senhor tem que me liberar, eu tenho que ir embora, meu pai vai ficar bravo”. E ele disse assim: “Não, mas espera um pouquinho. Chama teus pais, então. Vai pra casa e chama os teus pais”. Nisso, o pai já estava vindo. Daí meu pai disse: “O que houve?”  “Não, o homem lá que disse que quer falar com o senhor, o médico”. O pai: “Mas médico, no colégio?” Eu falei: “É”. Daí foi lá e o chamaram no cantinho, pra falar que eu tinha um problema de nascimento e eu tinha que fazer uma cirurgia urgente, que já estava em estado bem avançado. E essas faltas de ar e não engordar, não comer, essa deficiência de não conseguir comer talvez fosse por causa disso. Daí, eu tinha que ir lá em Pelotas, na faculdade _______ de Medicina e nós não tínhamos passagem. Daí, ele ensinou como pegava, passava por baixo da catraca e eu passava por baixo e ia sozinha, só que foi crescendo os meus seios e eu tinha que ficar cinco, seis estudantes ali mexendo, ficava a tarde inteira lá. Mas era o único jeito pra que eu pudesse conseguir a cirurgia de graça, né? Daí, fizeram exame e tudo: “Não, tem que ser cirurgia mesmo”, aí fizeram. Mas eu não tinha passagem pra ir, eu não podia passar da parada. Tinha um medo, um medo (risos).

 

P/1 - E como que é? Foi o que mudou sua vida, isso? Chegou a mudar alguma coisa na sua vida, esse problema, como foi?

 

R - Eu senti que eu tive mais fôlego, mais vontade, mais força, tanto que eu joguei futebol muito tempo. Tinha os filhos pequenos e jogava futebol. Então, assim, eu senti que eu tinha mais... o fôlego melhorou, comecei a comer até demais, que eu engordei. Então, deu uma mudada, parecia que eu estava sempre cansada, depois não, parece que me deu ânimo. Daí, tudo que era esporte eu queria fazer: vôlei, futebol, tudo (risos). Eu gosto de esportes. Agora não, por causa que o joelho já foi, né? Mas sempre fui envolvida com esporte e já estava com os três filhos, já.

 

P/1 - E como você foi seguindo a sua formação na escola, até que época você estudou, como foi?

 

R - Eu estudei até a sétima e na época, eu estava com quinze anos pra dezesseis, não, dezesseis, eu conheci o pai dos meus filhos, que ele também era militar, ele era sargento do Exército. Daí, o pai não deixava eu sair, naquela época a gente não podia sair, acho até correto. E eu tinha dois irmãos maiores que saíam comigo, quando eles queriam sair, tinha um carro, levava pra sair, meus irmãos junto. Mas eu achava normal, eu achava ______, né? Daí, chegou uma época, seis meses de namoro: “Eu queria sair só contigo, mas o pai não deixa”. Eu não brigava por causa disso, eu achava que era normal. Daí ele foi falar com o pai e o pai, como militar: “Aqui em casa não existe juntar, é casar. Como homem, sabe que se acontecer alguma coisa, é casamento”. Não deu outra, deu dois meses, eu estava grávida. Daí eu disse: “Meu Deus, o que eu faço agora”? Eu noivei num mês e casei no outro. E o pai chorou quando eu disse: “Pai, eu tô grávida”. Depois que eu casei, antes eu não falei. Daí: “Agora que eu tô grávida, eu vou assumir a minha filha,” que hoje é a minha bebê de 34 anos.

 

P/1 - Como é nome dela?

 

R - É bem estranho, o pai dela botou uma junção das irmãs, é Aniane, Nane, eu a chamo de Nane.

 

P/1 - E como foi descobrir que estava grávida tão nova?

 

R - Passou um filme pela cabeça assim, tipo: eu queria ter um futuro, eu queria estudar, eu queria ser alguém e ali eu senti que travou. As minhas amigas todas saíam pra festa ou aniversário, alguma coisa assim, eu podia ir com os meus irmãos, pra mim era o máximo. E eu não podia mais, aí a minha vida se transformou e eu me dediquei totalmente aos filhos, sempre com eles. Já que eu tô grávida, eu vou assumir que eu sou mãe. Tive apoio da minha mãe, das minhas irmãs, dos meus irmãos, tanto que eles, depois vieram os outros filhos, eles iam lá na minha cara, botavam dentro da sacola, mochila nas costas, levava um pra mãe e eu ficava com o outro e assim eles revezavam. Então, todo mundo participou no crescimento deles, junto com o pai deles também, que eu fui casada [por] 22 anos.

 

P/1 - E como foi se tornar mãe pela primeira vez?

 

R - Foi estranho até de falar assim, eu achei estranho, parecia que eu não estava, não era comigo, eu me senti diferente com um bebezinho que saiu de dentro de mim, eu olhava, como que pode, né? E dar de mamar, eu me constrangia, parecia que eu queria, mas alguma coisa me constrangia. As primeiras mamadas eu tive que... foi difícil, depois ela mamou até... bastante também.

 

P/1 - E daí você teve seus dois filhos... você teve mais dois filhos?

 

R - Tive mais dois depois dela, depois de seis anos veio um, que o casamento já estava balançando, de repente vir mais um dá uma melhorada, né? E aí veio menino e nisso eu usava o DIU, que eu também não posso tomar anticoncepcional, por causa do coração, mesmo depois da cirurgia. Daí, eu usava DIU e fui lá com o bebezinho no colo e falou: “Está grávida de novo”. Eu chorei, disse: “Meu Deus!” (risos) Eu lembro que a mãe [estava] com visita em casa, cheguei chorando: “Mãe, eu estou grávida de novo”. E eu dando de mamar, achei que não ia engravidar. Minha mãe: “Quem cria um, cria dois, cria o terceiro. Nem te preocupa, que tu tem mãe, pais e irmãos pra te ajudar e tem um marido também”. Foi o que aconteceu, né?

 

P/1 - Como é o nome dos outros dois?

 

R - O do meio é Ariel, que mora em Pelotas e o outro, que faz Engenharia Mecânica na federal, é Beriel. Puti, a gente chama de Puti, por causa do nome estranho. Mas são todos assim, pessoas sempre direcionadas a crescer, a estudar, a trabalhar, a cuidar dos seus filhos, a dar muito amor aos seus filhos. Eu tenho muito orgulho deles.

 

P/1 - E daí, como que seguiu, assim, a sua vida depois que você se tornou mãe, você começou a trabalhar ou você ficava... você era dona de casa, como foi?

 

R - Ele tinha - ele saiu do quartel - ele tinha uma oficina de caminhões em casa, acho que por isso alguma coisa veio aí, pra auxiliar. E tinha que levar, era estrada de chão, interior, e naquela época eu não tinha carteira e tinha que levar os caminhões pros clientes. E como as estradas eram largas, eu dirigia um Opala sem carteira e aquele Opala ________  pra levar o pessoal pro médico, que era interior e as pessoas não tinham… as pessoas de idade não tinham, ou se machucavam, ou levar as crianças... eu passava por isso tudo e levava. Então, até tem relatos que são bem _______ e tu acredita que eu não lembro? E as crianças... a minha mãe fala criatura ______, tu saía correndo com um carro velho pro hospital”, eu digo: “eu não lembro”. E até hoje ela diz no Face[book] dela, assim: “Tu me salvou?” Eu falo: “Eu não lembro (risos). Mas é tanta gente, agora aqui no posto eles falaram: “Você que levou o rapaz?” “Foi”. Aqui no posto eu já levei um rapaz também, pra Curitiba, pra ser internado, no caso dele, né? E ele está internado agora.

 

(24:19) P/1 - E como era, você ajudava na oficina?

 

R - Adorava, tinha que fazer, a minha mãe é pequenininha, então, dava certinho para brunir as camisas do… brunir e botar uma lixa. E eu morava grudado na oficina. Era um galpão, com metade oficina e metade casa. Daí, eles: “Vem cá, que tem que brunir as camisas do motor dos caminhões”. E aí eu ia lá e fazia, com o bercinho do lada, com as crianças. Daí eles: “Ah, tem que lixar pra pintar esse caminhão”, daí eu ia lá e lixava. “Tem que passar...”. Eu só não gostava de mexer em solda, tem que dar o ______, eu ia também. Depois teve revenda de gás também, a gente levava gás, subia escadaria, sempre ajudando. Quando as crianças eram pequenas, eu achava que tinha que dar um tempo, para até eles crescerem e poder  ______ e ir pro colégio, serem independentes. Depois, sim, aí tem a mãe e os irmãos ajudando. E como a gente ganhava pouco, eu sempre disse: “Ó, eu vou ter que trabalhar”. Comecei a trabalhar em faxina, cozinha, que era a única coisa que eu poderia trabalhar. E trabalhei bastante em faxina e cozinha.

 

P/1 - E como foram essas experiências, trabalhando como faxineira e cozinheira? Tem alguma história marcante?

 

R - Eu creio que tudo isso serviu pra crescimento, tudo que eu sou hoje, eu sinto assim: se não fosse ter passado por esse período, eu acho que eu não teria essa minha mentalidade de dar valor a tudo que a gente tem. Então, cada dia que eu tiver, por mais que eu tenha problema de doar. Eu me aperto com as contas. Mas ontem mesmo, eu fui na _____ e uma senhora estava precisando de aliança. Eu não consigo ficar com dinheiro, não tenho casa minha, não tem nada e eu só tenho os meus filhos. Então, tudo que eu ganho, eu vejo que o momento é pra mim, tem que ser pra mim, mas eu me aperto bem, mas mesmo assim, beleza.

 

P/1 - E você lembra dos primeiros dias de trabalho nesses lugares, como foi, como era essa rotina?

R - No caso, na cozinha, na faxina? É. No começo foi difícil, porque elas queriam, às vezes, que limpasse de novo, porque não ficou bem-feito e eu: “Mas eu tentei fazer bem-feito”. Eu ia lá, fazia tudo de novo. Então muita coisa eu via que algum detalhe que eu esquecia, elas diziam: “Ó, aquele detalhe lá eu tô vendo”. Eu não discutia, só ia lá e fazia. Depois, quando eu ia nos outros dias, eu já sabia o que ela queria e aí fui me aperfeiçoando. Até chegar à perfeição na limpeza, alguma coisa sempre dava: “Não, pode me falar que eu faço de novo”, sempre. Na cozinha, nós tínhamos uma nutricionista. Então era sempre tudo, ela que dava o comando, aprendi muita coisa também, que eu uso até hoje, na cozinha.

 

P/1 - E quando surgiu esse interesse de dirigir caminhão, como foi?

 

R - Foi quando os meus filhos eram pequenos, eu levava da oficina pra casa dos clientes, mas só que não tinha carteira. Naquela época podia tirar carteira direto pra caminhão, daí eu fui lá fazer a papelada. Chegou na hora: “Carro ou caminhão?”, eu falei: “Caminhão”, mas assim, né? E na época, só dava uma volta na pista, assim, o inspetor te dava a carteira. Aí, vim pra casa e digo: “Consegui a carteira de caminhão”, daí eu já andava com os caminhões dos clientes, eu já sabia um pouquinho mais. E já podia andar sem medo da polícia me pegar, né? Aí, começou assim, mas sem ganhar nada, só pra levar. Daí, trabalhando em cozinha, em faxina, daí o meu cunhado, o irmão do meu marido é médico, em Porto Alegre. Daí, ele comprou dois caminhões, dois trucks, pra trabalhar na obra da prefeitura. Aí, ele disse: “Ela trabalha em um. Eu faço a oficina dos outros e bota motorista no outro”. Só que não chegou... na primeira saída, assim ________, porque eles molharam a terra e eu saí de lá e disse: “Eu não quero isso”. E na cidade grande eu não estava acostumada, né? Fiquei dois anos assim, sem trabalhar, depois surgiu a vaga na Braspress, em 2001 e sabia dirigir, só que eu tinha medo de carro. Daí, surgiu no  ________. Fui lá, fiz o teste, foi a minha primeira assinatura em carteira, em 2001, na Braspress, em Porto Alegre. De lá pra cá, eu queria sempre estar perto de casa. Então, eu não queria viajar. Quando eu me separei, meus filhos estavam grandes, daí eu resolvi viajar.

 

P/1 - E você lembra da primeira vez que você dirigiu um caminhão, como foi?

 

R - Foi muito nervosismo, porque eu já peguei o trânsito de Porto Alegre, tava acostumada só interior, estrada de chão, eu achei que eu não ia conseguir, pelo nervosismo e a pressão psicológica de trânsito, tudo. Mas eu dei o tempo certo e retornei de novo na Braspress.

 

P/1 - E nessa época não era... era carteira D?

 

R - D, não tinha carteira E, ainda. Rodei quatro vezes pra tirar a carteira E. E era só das faxinas que eu tinha que tirar, o pai e mãe me ajudavam um pouquinho, mas eu rodava, chorava, levava as crianças: “Rodei de novo, rodei de novo”, até que na quarta vez eu passei.

 

P/1 - E de onde que vinha essa vontade de dirigir carreta, por que você queria tirar a carteira E?

 

R - Naquela época que eu tirei a carteira E eu não imaginava viajar, mas eu achava lindo, sempre fui assim, eu gosto de desafios. Uma carreta de quatro composições atrás, eu quero dirigir. Se tiver três, eu já peguei de três, também. Então, tudo que é diferente, eu quero dirigir, caminhões antigos, eu quero dirigir. Então, é uma coisa que eu tenho que desafiar, porque nesse mundo é muito homem e eu penso assim: “Mas se eles conseguem, será que eu não consigo?” Daí, eu vou lá, tento, tento até conseguir e sempre tem pessoas que deixam mexer nos caminhões deles, transportadoras e tudo, pra ver se eu consigo e geralmente eu consigo. Demora um pouquinho, mas eu consigo.

 

P/1 - E me conta mais de como foi o processo todo de tirar a carteira E, você não passou das primeiras vezes, o que você sentia, quando você não passava?

 

R - Uma frustração muito grande, porque eu mudei de autoescola e eu senti... por isso que eu gosto de treinar, eu amo treinar. A voz, o jeito da pessoa falar, eu sentia dificuldade com os instrutores, eles gritavam. Eu já não sabia nada e eles gritando, eu travava. Então, pros meus filhos, às vezes eu falo assim: “Por favor, a voz é tudo. Você tem que saber falar, não pode apavorar. Tem que largar aos pouquinhos, tem que ser paciente”. E aí, nesse aí eu senti que eu fiquei com esse trauma, deles não... hoje em dia já tem até... estão selecionando melhor, mas eu sentia que eram muitos gritos pra gente fazer mais aula e acabava dando nervoso, a gente fazia um monte de aula e o medo e o psicológico ia no fundo. Quando eu passei, eu digo: “Pronto, essa fase passou”, só que eu fiquei com essa coisa assim, mostrando no que eu posso, que é a voz, o jeito é que faz um bom motorista. A gente não pode traumatizar com gritos. E a gente tem que ter um pouquinho de bom senso, pra poder fazer isso.

 

P/1 - E nessa época que você estava tirando a habilitação, tinha outras mulheres tentando também, você via outras mulheres ou só você?

 

R - Minha amiga tirou de primeira, né? Ela disse: “Faz” “Mas eu rodei duas vezes” “Faz, uma hora passa”. Só que ela tinha um familiar que a ensinava, ela já saía viajando. Ela chegou lá, fez a prova e passou, mas foi incentivo dela também, pra eu tentar mais e mais vezes. Mas já tinha mulheres no mercado.

 

P/1 - E qual é a diferença desses outros caminhões, dirigindo como motorista? Qual é a diferença de dirigir esse, pra dirigir uma carreta?

 

R - Esse meu aqui é trinta metros, eu já trabalhei com trinta metros com ________, seria com três carretas atrás. Então, assim, ele é muito bom, pra fazer ultrapassagem, que você precisa. Pra subir uma serra, tem que ser lento, pra passar num local apertado tem que ter muita atenção, senão bate em muros, sobe no meio-fio. Então, eu lembro muito que tem lugar que é apertado, a polícia me ajuda, todo mundo me ajuda. Então, tem que ter o gênio mais calmo, porque precisa, no que tu está fazendo. Se tiver que arredar todo o trânsito pra trás, pra ti fazer de novo a manobra, tem que fazer, não pode desistir, daí estoura pneu, estraga, faz um “auê”.

 

P/1 - Cleusa, quando você começou a dirigir, quando você foi pra Braspress, o que seus filhos achavam disso, eles te apoiaram, como foi?

 

R - Eles me apoiavam, porque todos os dias eu estava em casa. Eles eram adolescentes, então eu tinha que ter o controle de tudo, do colégio, de dar comida, tudo, roupa. Então, eu conseguia, eles gostavam que eu ia pra casa todos os dias. Depois que eu comecei a viajar, eles não gostaram muito, ficaram meio... acho que o mais novo, até hoje ficou meio traumatizado com isso (risos). 

 

P/1 - Mas eles falavam pra...

R - Eu nunca os deixei fazerem nada, nem fritar um ovo. A menina, com dezesseis anos, ia pro consultório do tio dela e ia pro colégio. Quando ela chegava do serviço, que ela fazia estágio também lá no consultório, ela chegava em casa, já estava tudo pronto, que eu fazia até salmoura pras pernas dela, que ela tinha dor nas pernas. Ela era novinha, mas tinha. Então, tinha todo esse mimo com eles. Com os guris, sempre o leite na mesma medida, ________ o leite na mesma medida, tem que olhar assim, tem que botar certinho. Então, eu já deixava a roupa esticadinha do colégio, tudo direitinho e depois terminou que eles não sabiam fritar um ovo. Errei nesse sentido, eu sempre protegi demais. E a hora que eu fui pra estrada, eles se sentiram meio abandonados, eu acho, também.

 

P/1 - E como seguiu essa carreira como motorista, que empresas você passou, como foi?

 

R - Eu assinei a carteira na Braspress, depois na Movilar, tudo lá em Porto Alegre. Nova Era. Sempre perto, eu vinha pra casa. Quando eu tirei a carteira E, consegui tirar a carteira E, eu pedi demissão da empresa, que o patrão e a patroa me levavam pra casa deles. O filho dele é autista e o menino gostava de mim, acho que ele tinha uns oito anos. E eu sempre tive, assim, os autistas gostam de mim, até pelos vídeos, mandam beijos, eles gostam do jeito que eu faço. Então eu sempre tive contato com eles e ela me levava pra casa dela, tudo, lá na praia, __________, que cuidava dele. De motorista de caminhão deles, eu passava até... tenho boas lembranças deles e o menino sempre gostou de mim. Mas o encarregado lá não deixava eu pegar os caminhões maiores e eu com a carteira E. Daí, eu vou pra Nova Era, eu digo: “Eu vou pedir demissão, porque eu quero seguir em frente” “Mas Cleusa, tu ganha bem aqui _______ e tu não faz quase nada”. Eu disse: “Eu não quero não fazer quase nada. Eu quero fazer alguma coisa, que eu possa dizer: ‘Eu sei’. Não adianta eu ter uma carteira assinada, se eu não souber desenvolver. Eu quero carreta só pra passar pro outro lado da rua, não precisa mais nada” “Ah, mas aí não vai dar” “então eu vou pedi demissão”. Pedi demissão, eles até me ofereceram: “Se precisar, a gente está sempre aqui, às ordens”. E deu uma viravolta, que eu peguei o rodotrem e fui lá descarregar e o encarregado estava lá, dei altas manobras e ele só abaixou a cabeça. E a minha patroa foi lá e bateu palma pra mim (risos). O mundo dá voltas, dá muitas voltas. Nunca mais fui lá e fui de rodotrem, pra descarregar lá, na mesma empresa. Ele teve que olhar e abaixar a cabeça. Mas eu não tenho vingança, eu não tenho raiva de ninguém, eu só acho que muitas pessoas que travam a nossa vida profissional, por achar que a gente, sendo mulher, não tem condições pra fazer também o serviço.

 

P/1 - E o que você sentiu aquele dia, que você conseguiu manobrar um rodotrem?

 

R - Uma sensação de vontade de chorar ao mesmo tempo que: “Olha só!” Porque o tempo todo parecia que ele me puxava pra trás e eu já estava botando a cabeça que eu não ia conseguir. Então, quando eu consegui... sei lá, às vezes você tem que sair do lugar que está acomodado para novos horizontes. E foi o que aconteceu. 

 

P/1 - Eu ia te perguntar se você já enfrentou... você já deu um pequeno... assim, já explicou um pouquinho disso, mas eu ia te perguntar se você sente que já enfrentou algum tipo de preconceito por ser mulher, dirigindo?

 

R - Até hoje (risos). Ainda mais nos caminhões que são próprios para homem, é muita força, é muito peso, é muita lona, é muito lugar difícil e eu vou lá e faço, mesmo com dor na coluna, mesmo com hérnia, mesmo com o braço doendo, eu vou lá e faço. E eu sinto que eles nem me ajudam, porque sei lá, querem que eu desista dessa profissão. E quanto mais eu vejo que eles querem isso, mais me impulsiona a ir em frente. Às vezes pessoas que eu já ajudei, pessoas que eu já dei a mão. Eu não vejo maldade em ninguém, aí quando eu vou ver, são as próprias pessoas que estão, parecem que torcendo pra que dê tudo errado. Essa solidariedade que eu passo nas estradas, também acham que não vêm do meu coração, eles acham que isso é pra aparecer na mídia. Não, isso vem daqui ó, de dentro (risos).

 

P/1 - E qual lugar você mais gostou de visitar, trabalhando?

 

R - Ipatinga, Minas Gerais, os mineiros são receptivos. Vou em todo lugar, todo mundo quer me ver agora, todo mundo quer que eu vá pra casa deles, eu tenho um monte de casa que eu vou. Daí, eles vão lá me buscar, as vezes no posto. “Vamos lá pra casa”. Lavam minha roupa, tudo. Eldorado, interior de Porto Alegre, tem uma família de evangélicos que também, eu vou, chego lá, tem um sofazinho, já tem um afundadinho no sofá, eu digo: “Esse é meu”, porque eu durmo sentada, pra olhar a televisão quando eu tô lá e ficar. Tomei a vacina, passei mal, eles cuidaram de mim também e eu com o caminhão carregado ali pertinho (risos). Mas falou: “Dá o tempo pra tu melhorar, pra seguir viagem”. Mas toda cidade onde eu vou, tem sempre alguém com um sorriso no rosto, querendo me receber, mas em Minas Gerais eu me sinto muito bem. E fora a minha região, o sul, Porto Alegre, tem a casa da gente.

 

P/1 - E como você se sente, viajando?

 

R - Eu me sinto assim: dona de mim mesma. Eu fui criada, educada sempre por pai militar, nunca bateu em nós, mas a gente tem compromisso moral, de respeitar e ser respeitada. Então, assim, meu pai, antes de falecer, eu e ele fomos pra praia, ele sempre me tratou como uma adolescente, mesmo nessa idade. Então, assim: tudo que eu faço é visando o respeito, respeito sempre visando aos meus familiares, aos meus netos, os meus netos, olho todos os meus filhos também e dão opinião. Então, eu penso assim: a gente tem que viver livre, mas sabendo usar essa liberdade, sem pegar e envergonhar a nossa família, a sociedade, a todos.

 

P/1 - E o que você mais gosta, na sua profissão?

 

R - É encontrar alguém e falar: “Vamos tomar um banho, vamos trocar a roupa? Onde você mora? Quer ir pra casa? Eu dou um jeito pra você ir pra casa, nem que seja com passagem”. Alguém que eu possa encontrar e levar pra sua família ou a família perguntar onde ele está e eu poder dar um pouco de carinho, cortar o cabelo e dar um banho. Eu não tenho nenhum pouco de preconceito de dar um banho, de balde, porque geralmente não deixam banho de chuveiro, mesmo pagando. Eu pego um balde, e esfrego, eles ficam quietinhos esperando eu limpar, cortar o cabelo e quando eu vou embora, eu olho pra trás e pronto, esse carinho teve, e ele se sente amado também. E eu sempre faço questão de perguntar nome, nome, sobrenome, cidade e porque saiu, sempre com a esperança de que Deus vai encontrar a família dele.

 

P/1 - Cleusa, o que tem de mais difícil na estrada, o que você acha mais difícil?

 

R - Como a gente trabalha com caminhão grande, estacionamento. Às vezes você está cansada, quer estacionar e não tem lugar. Os postos também são privativos, eles podem nos mandar sair, não temos direito de ficar, se não abastecer. Então isso aí é a dificuldade: chega a noite, você fica pensando onde eu vou conseguir estacionar, é a grande dificuldade.

 

(44:18) P/1 - E qual foi o momento que você considera mais desafiador da sua jornada como motorista, como foi?

 

R - Pode repetir?

 

P/1 - Qual o momento que você considera mais desafiador, que você já enfrentou como motorista? 

 

R - Foi quando eu peguei um caminhão com dolly, pela primeira vez. O dolly é mais uma composição, a minha são duas carretas e a que eu peguei eram três carretas. E o dolly retorce muito e as docas também são muito apertadas. Teve situações que eu saí fora, pra no outro dia conseguir colocar de novo, mas eu persisti e coloquei porque, se um colega fosse lá, colocar pra mim, eu falei assim: “Não, deixa eu tentar de novo, mais uma vez”. Dá suadouro, dá nervoso, porque tem horário, as pessoas estão olhando, tem as paredes que pode derrubar, de repente. Então, com bastante persistência, eu consegui colocar, mas esse foi marcante: a primeira vez com dolly de ré foi nervoso, mas consegui. No outro dia, porque no outro dia me deram mais uma chance.

 

P/1 - E como é a sua rotina hoje, trabalhando? Por onde você passa, o que você transporta?

 

R - No Rio Grande do Sul eu venho sempre com arroz, leite, sempre é arroz e leite. Daí, chega em São Paulo, temos o depósito nosso, da empresa, faz uma entrega de uma carreta e volta com bobina de aço ou tudo que for em aço, assim, a gente volta, bobina. Às vezes vai pra Goiás, carregar açúcar. E agora nós estamos carregando piso também, mas tem bastante coisa diferente pra carregar. Mas a prioridade do Sul pra São Paulo ou Rio, é arroz e leite.

 

P/1 - E tem alguma carga, que você prefira carregar?

 

R - Eu prefiro arroz e leite, que é uma carga completa, os ferros e as bobinas são perigosas, então não ocupa toda a carreta, mas é um peso muito grande concentrado no meio da carreta. Como ela é comprida, ela fica oscilando, balançando, então a gente tem que estar dirigindo com um olho pra trás, pra ver se... pelo retrovisor, pra ver como é que está a coisa ali, aí vai lá, pra cima, mais pra trás. Tem segurança, as carretas são preparadas. Mesmo assim ______, tem que estar sempre de olho, então é uma viagem que você fica louca pra descarregar de uma vez, pra se livrar.

 

P/1 - E como é essa rotina trabalhando, viajando?

 

R - De manhã, acordo, eu tenho que fazer meu chimarrão e tomo um pouquinho de café, eu não gosto de pão, nada de manhã. Lá pelas dez, se tiver pão eu como, ou fruta. Meio-dia, se tem comida da noite anterior, que eu fiz, eu só requento, nem cozinho. Se não tiver e eu estiver com pressa, eu não como, eu como fruta e de noite eu janto. Então, assim, às vezes eu almoço, às vezes eu não janto, às vezes eu janto e não almoço. Mas sempre tem que ter bolacha, fruta, ali ao meu alcance, pra não me deixar ficar totalmente com fome.

 

P/1 - E quantas horas você viaja no dia, você sabe, você faz essas contas?

 

R - Nós somos liberados das cinco da manhã às dez da noite, só que nós temos intervalos. A gente faz intervalo de almoço, intervalo pro café, a gente faz todos os intervalos que a empresa pede, pra deixar o corpo descansar e dar uma caminhada também, pra circular o sangue nas pernas. Mas eu acho interessante, eu gosto de cinco da manhã liberar e dez da noite não ter mais que parar. Às vezes nem vai às dez, nove e meia eu já tô parando.

 

P/1 - E quando você está na estrada, você vê outras mulheres também?

 

R - Sim, na nossa empresa tem mais casais, tem mais três casais... tem quatro casais. E mulheres têm bastante na estrada, agora as mulheres não querem mais carro, cozinha e fogão, querem estrada (risos). Eu sempre falo pra elas: “Primeiro, deixa os seus filhos pequenos com pessoas que vocês vão saber que vão cuidar deles. Não deixa os seus filhos assim, na estrada. Primeiro, seja mãe, pra depois ser motorista. Se tiver alguém pra cuidar e cuidar bem, tudo bem, mas a criança não pediu pra nascer, a criança precisa dos cuidados da mãe”. Então, sempre ressalto. Eu fui com os filhos grandes pra estrada, mas acho que foi no momento certo.

 

P/1 - E quanto tempo você está nesse trabalho?

 

R - Eu trabalhei na Rodolatina, no Cebolão, mas a minha escola mesmo, [onde] aprendi rodotrem, foi a Busy - Transportes, em Porto Alegre, fiquei dois anos lá, me ensinaram tudo, eu não sabia nada. E depois da Rodolatina, no Cebolão, fui a primeira mulher no rodotrem, carregando cimento. Não gostei muito, porque era muita correria, não era o meu perfil, nunca gostei, eu tenho que dormir, eu penso assim: o corpo não resiste, se não dormir. Vim pra Jowanel e na Jowanel eu [estou há] nove anos e seis meses. E aqui a gente consegue dormir, consegue descansar, se está doendo, para. O patrão dá bastante auxílio pra nós, se a gente ficar doente na estrada, tem todo o apoio. Então, a gente se sente protegido. É isso que a gente quer.

 

P/1 - E como é ser mulher numa profissão que, por muito tempo, foi considerada só de homens? O que você sente?

 

R - Eu sinto que eu tenho que ser assim, quase uma psicóloga, eu tenho que entender a cabeça deles, eu tenho que chegar até eles, sem provocar. Eu tenho que deixá-los ver o que eu faço, que eu tenho condições de fazer. Então, assim, eu não posso bater de frente, porque eles foram moldados, que o homem tem que trabalhar, que está tirando a vez de alguém, um pai de família. Eu também tenho os meus compromissos com os meus filhos, com a minha família. Mas eu sinto que eu não posso bater de frente, não posso retrucar, eu tenho que fazer o serviço, mostrar. Eu não peço ajuda, se alguém quiser, me dá ajuda. Então, eu chego, eles estão lá sofrendo entre eles, fazendo, e eu sozinha, às vezes escorre uma lágrima, mas eu escondo, e faço. Demoro duas, três horas, mas eu faço. Não tenho orgulho, mas eu tenho que mostrar pra eles que eu também consigo. Não brigando, falando: “Ô, vai vir aqui me ajudar ou não? Eu faço”. Mas aí é uma luta constante pra mostrar que tu também tem força e, com o teu jeitinho feminino, tu dá um jeitinho daqui, dali e consegue fazer. Mas é ainda esse tipo de coisa. A roupa adequada também, eu sempre tento estar com a roupa adequada, pra não chamar atenção por eu ser mulher, eu sempre digo: “Não me vejam como mulher”. Tanto que as abordagens pra tirar foto, conversar comigo, são sempre as mulheres dos motoristas, às vezes, quando elas estão participando, que vêm falar comigo. Eu acho lindo. Ou eles mandam foto pra elas: “Olha aqui, tu gosta, né?” Então, eu sinto que eu tô transmitindo respeito e carinho, principalmente com as esposas de motoristas, tanto que ele é casado, o rapaz que está comigo e ela que foi levar pra mim e falou assim: “Dá um cansaço nele” “Tá, (risos) vou botar mexendo nas lonas”. Então, é assim: nós estamos num lugar que é pra homem, mas a gente pode se moldar, não complicando e fazendo certinho, pra que não seja vista de outra forma, mas como profissional. Eu não quero ser vista como mulher, mas sim como uma profissional, que eu posso fazer igual a eles e receber o salário igual a eles também.

 

P/1 - E há quanto tempo que você é motorista de caminhão, contando toda essa sua experiência?

 

R - Como motorista de rodotrem? Ou desde o começo? Em 2001 assinaram a minha carteira. Mas de rodotrem, nove anos... em torno de treze anos no rodotrem. Aprendi direto no rodotrem, na empresa Busy, em Porto Alegre.

 

(53:28) P/1 - E como é o rodotrem, como é dirigir um?

 

R - É uma coisa assim, como dizem as meninas do pedágio: “Meu Deus do céu, eu não pegaria nunca essa carreta”, eu digo: “É só não olhar pra trás”. Não, mas eu brinco com elas. É uma satisfação poder controlar um caminhão muito grande, ele é grande. Ele ocupa muito espaço, pra fazer ultrapassagem, curvas, tem vezes que tu tem que diminuir, pra outra pessoa, outro caminhão passar, pra tu não bater no outro caminhão. Então, assim, eu sinto que o meu cérebro está sempre criando espaço terreno local, tudo pra dar certo. Então, todos os dias eu tenho que estar sempre ligada no que eu tô fazendo, porque o grau de dificuldade é grande, no sentido de espaço. É grande e exige mais espaço e exige mais técnica, como se diz, pra poder desenvolver sem causar acidente. Graças a Deus, nunca tive acidente.

 

P/1 - E pensando assim, como você concilia... o que a Cleusa é, assim, a Cleusa como mulher, como mãe, as suas vontades pessoais, com essa rotina de viajar, como é, pra você, conciliar tudo isso?

 

R - Eu penso assim, eu tô numa fase que os meus filhos estão criados, então é a fase de viver o meu eu. Eu tenho que ser o que eu sempre quis. Eu estou ao contrário: eu era adolescente, dona de casa, mãe, depois trabalhando em cozinha. E agora eu tô ao contrário: uma pessoa que não tem filhos pequenos, estão todos com as suas famílias definidas. E que eu tô pra fazer alguma coisa, eu digo sempre, nesse mundo, pra não passar em branco, como se diz. Então, eu escolhi o quê? Fazer bastante solidariedade, o máximo que eu puder e mostrar, nas redes sociais, como é trabalhar com o respeito e se dar ao respeito, pra que nós, mulheres, possamos trazer mais mulheres e ser um exemplo de como fazer bem-feito. E como o patrão gosta, o cliente e as mídias, redes sociais, como querem ver o verdadeiro profissional. E ser um espelho pra outras mulheres, porque eu não vou ficar pra semente

 

P/1 - E você também filma, você grava pro Instagram, pro YouTube. Como é filmar o seu dia a dia, o que você acha disso?

 

R - Eu creio que muitos ali saíram de depressão, às vezes me ligam, chorando. Às vezes a solidariedade que eu passo, as crianças que têm câncer ou as pessoas que têm câncer, vou na casa deles, faço vídeo pra doações ou pra cirurgias que tem urgência. Então, eu sinto assim, eu sempre falo: “Vocês trocariam a vida de vocês, que está com depressão, com essa criança? Ele trocaria, ele trocaria porque está preso a um corpo doente e vocês têm toda a saúde e estão aí com depressão. Se você pensar sempre positivamente, com certeza, e trabalhar, ocupar sua mente, você sai dessa depressão. Vamos fazer uma coisa: troca a sua vida com a vida dele”. Aí as pessoas: “Cleusa, aquilo ali me deu um tapa na cara, porque aí eu vejo aquela criança que está com uma doença sem cura, um adolescente ou um rapaz que tem outro rapaz também. E nós aqui temos depressão por causa de outra pessoa. Eu vou botar na cabeça que estou com depressão? Não, eu vi que você falou certinho” “Se trocar com ele, ele quer a tua depressão, ele quer as tuas contas, as suas dívidas, essa pessoa que não está doente, ele quer tudo que você tem, ia ser feliz com todos os seus problemas, por que o dele é difícil resolver, só Deus”. Aí, eu sinto que eu levo isso pras pessoas e muitas pessoas: “Não, Cleusa, está certo, eu vou sair dessa aí e vou lutar pra ser diferente”. Já teve gente que já quis se matar por causa dessa profissão, que a mulher não deixa e é o serviço e é a sociedade. Eu disse: “Não, então faz assim: larga da mulher, larga do serviço e vai ser feliz. Seja como ela, os filhos estão grandes, então vai ser feliz”. Eu sou contra desmanchar casamento, mas tem uma hora que a gente tem que dar um choque, que se Deus quiser ele vai realizar o sonho dele, que é ser caminhoneiro.

 

P/1 - Cleusa, e o que você gosta de fazer nas suas horas de lazer?

 

R - Eu? Eu gosto de ir lá pros meus netos, em Canoas. Eles são muito divertidos, eles estão numa fase, tudo eles puxam pra cá, o outro quer ir pra lá e: “Vó, vem aqui, vó, vó, vó”. São três netos e tem uns de Pelotas, que eu tenho que ir lá, às vezes, dar uma olhada, ou ele vem para me ver. Mas esses três de Canoas estão muito na fase de futebol, de escolinha. Então, eles querem que eu olhe, que eu abane, que eu atire beijinho (risos). E eu faço as brincadeiras com eles também. Então, eles: “Olha, vó, eu vou chutar lá. Olha, vó”. A vó olha, mas às vezes cansada, mas vai olhando. Entã isso aí me deixa feliz, é o máximo da felicidade, estar com eles.

 

P/1 - E como foi se tornar avó?

R - Olha, é como ter um filho, só que é um filho que eu não posso comandar. Às vezes, ela é meia... ela é muito, assim: fazer as coisas do jeito dela e bem certinho, ela faz a coisa certa e às vezes ela entende um pouquinho eu olhar pra ela: “Nane, não era assim, tu não foi criada assim” “Mãe, outra geração, se eu afrouxar, aí não tem como, né?” Daí, quando eu a criei era um jeito, ela está criando de outro jeito, mas deu certo também. Eu fico com peninha, às vezes, deles.

 

P/1 - Cleusa, fiquei pensando: quando você viaja, você viaja sozinha?

 

R - Geralmente, agora nos últimos anos, eu sempre vou com alguém, sempre com alguém que queira me ajudar, pessoas que eu já conheço, já tenho afinidade e como eu tenho cirurgias no corpo, coração, joelho, eu tenho várias cirurgias, duas hérnias. Então, eu consigo o caminhão, preparar, aí eles vêm comigo, pessoas que eu já conheço, meus amigos e até mulheres vêm comigo e me ajudam nas tarefas, mas às vezes eu ando sozinha, às vezes eu falo: “Agora eu vou andar sozinha uma semana”. Mas graças a Deus, sempre tem alguém... agora, ultimamente, pra me ajudar, senão eu acho que eu não teria resistido, é muita lona grande, é muita tampa, muita coisa. Graças a Deus, sempre tem alguém disposto a me ajudar. As pessoas que eu escolho, por ter um conhecimento já com a família toda.

 

P/1 - Cleusa, e como era a sua vida antes da pandemia e como a pandemia afetou a sua rotina, se afetou, como foi?

 

R - Eu creio que essa pandemia veio pra gente se cuidar mais. A gente, antes, não... até porque a gente pegava muita doença e nem sabia, no ar tóxico. Então, ela veio pra nos... a máscara, acho que até vai ficar em certos lugares. E aí a gente viu também que essa pandemia veio pra gente dar valor, mais, à vida, porque hoje a gente está aqui, amanhã pode não estar. Então, é uma coisa que a gente não controla. Então, muitos... como é que eu vou dizer? Estão dando valor a cada minuto de vida e aquele negócio de comprar carro zero e carro do ano, isso aí já não está mais assim, já estão aproveitando tudo que eles podem aproveitar nessa vida.

 

P/1 - E agora, assim, um momento de reflexão: quais você acha que foram os principais aprendizados da sua profissão, da sua trajetória profissional?

 

R - Eu creio que, nessa minha trajetória, mostrando pro pessoal que a gente tem tudo que tu sonha, tudo que tu quer, tu consegue realizar. Se uma pessoa consegue fazer, tu também consegue. Basta ter pessoas com bom coração e que possa te dar um empurrãozinho, ajudar, em qualquer profissão. E quando tiver dentro da profissão, não se preocupe, você também precisa de ajuda, é uma corrente, é uma corrente do bem. E que a gente tem que aproveitar que está no auge, eu tô no máximo da minha felicidade: na empresa que eu quero, no caminhão que eu quero, fazendo o que eu quero. E não deixar subir pra cabeça e ser arrogante, tratar bem o frentista, o faxineiro, todo mundo igual e ser legal pra todo mundo, chega: “Cleusa, eu te adoro. Quero tirar uma foto.” “Vamos tirar”. Já me acordaram pra tirar foto. Pode ser. Aí eu fico imaginando, acho que é um carinho que eles têm por mim, pelo trabalho que eu faço.

 

P/1 - Cleusa, e o que significa pra você, o que representa pra você ser uma mulher caminhoneira, dirigir aí pelo Brasil, o que significa isso, pra você?

 

R - Eu acho que é uma superação de nós, mulheres. Que vem de uma sociedade bem restrita a homens. E que nós estamos abrindo portas, abrindo portas, mas sempre tendo aquele cuidado de não levar pro lado contrário. É sempre do lado profissional. E que nós estamos avançando aos pouquinhos e que nós vamos chegar ainda no alvo, pra ser igualado homem e mulher.

 

P/1 - E o que dirigir caminhão e o caminhão, representa na sua história?

 

R - Se você perguntasse há um tempo, o que vai ser: “Menos caminhoneira”, eu acho que eu não ia ter esse pensamento. Mas agora perguntando o que você é, sendo caminhoneira? Você trocaria por alguma outra profissão, que ganhasse mais? Não. Você pararia pra te dar um dinheiro, um montante, que pudesse parar? Também não. Deixa eu viver, estar feliz é onde eu estou. E o caminhão representa a minha felicidade.

 

P/1 - E quais são os seus maiores sonhos, hoje?

 

R - Que esse mundo se torne um mundo melhor e que eu não passe e veja essas pessoas nas estradas, passando necessidade. E que dentro das favelas não tenha criança lá precisando de auxílio, que está lá na Justiça, não sai nunca e as crianças têm fome, frio, estão com deficiência. Então, são coisas que eu quero que, nesse mundo, mude, que as pessoas tenham mais visão, não tapem os olhos pras pessoas que estão precisando de auxílio urgentemente: pessoas doentes, pessoas que têm crianças doentes, pessoas doentes dentro de casa, com alguma deficiência. E nas estradas, que eu não possa ver nenhum nas estradas e sim tudo nas suas casas, ou uma instituição os recolhendo e dando o carinho e atenção que eles precisam. Aí, sim.  

 

P/1 - E o que é importante pra você, hoje?

R - Estar viva e ter saúde.

 

P/1 - A gente está chegando no fim, eu tenho mais algumas perguntinhas, mas elas são bem rapidinhas. Eu queria saber se tem alguma coisa da sua história que eu não tenha perguntado e que você gostaria de contar, alguma passagem da sua vida? Ou também deixar uma mensagem, esse momento é seu.

 

R - Sobre relacionamentos, mulheres nas estradas. Eu cheguei num ponto que estar só e com Deus e com um caminhão, com o pessoal que eu gosto de andar, é a felicidade, porque, como eu sou uma pessoa que eu tô sempre ajudando, então se aproximam pessoas com segundas intenções. Então, eu já tive muitos, muitos problemas, o último agora, era agredida. Então, eu aconselho as mulheres: “Viver sozinha às vezes não é infelicidade, é estar muito bem consigo mesma”. E quando tiver num relacionamento, principalmente nós, que vivemos nas estradas, olhe bem como foi o último relacionamento dessa pessoa, tenta ver, pega o CPF, pra ver se tem algum problema na polícia, não bote pessoas pra dentro de casa sem saber realmente quem é. Com esse passado, eu tentei, tentei, queria ter alguém junto comigo, mas eu vejo que as tentativas foram em vão e que eu devo seguir em frente, primeiro porque eu sou feliz em estar solteira e sem ninguém. Quando alguém me dá uma cantada, eu fico até furiosa: “Olha, não é por aí”. Porque daí eu consigo me concentrar mais no trabalho e concentrar mais nas minhas atividades. E as pessoas que passaram na minha vida serviram pra lição, pra não repetir o erro.

 

P/1 - Cleusa, e o que você acha do projeto de mulheres que trabalham no setor de transportes, seja portuário, rodoviário, ferroviário, contarem as suas memórias, um projeto de memórias, de história de vida?

R - Ah, eu acho interessante, porque daí tem muitas que estão com carteira e ainda não tiveram essa atitude: “Vou, não vou; vou, não vou”. Então, assim, levando essas entrevistas a todo mundo, o que acontece? Elas vão ter essas atitudes e vão ________ que tem pessoas com depressão e não desenvolver, né? Eu tenho uma amiga de 58 anos, _______, lutou, _______, foi treinada e hoje é uma das melhores. 58 anos.

 

P/1 - E o que você achou de ter participado dessa entrevista, contando um recorte da sua vida, da sua história de vida?

 

R - Olha, ótimo, ótimo mesmo, pra levar às pessoas a ver realmente a nossa vida, o que a gente espera do futuro, né? E o que a gente quer como mulher, profissional e que as outras também sigam esse caminho, mas sempre lembrando: nós somos mulheres, nós temos que ser respeitadas e pra isso temos que nos dar o respeito, em qualquer profissão.

 

P/1 - Muito obrigada, Cleusa, foi um prazer entrevistar você, ouvir a sua história de vida. De verdade, foi importante pra gente, a gente não estava encontrando uma caminhoneira e a gente queria muito entrevistar uma. Você foi muito, assim... foi muito legal ter a sua história. Vai ficar muito legal no projeto a sua história, eu acho que fechou com chave de ouro, mesmo.

 

R - Obrigada, muito obrigada, mesmo, espero que tenha ajudado.

 

P/1 - Ajudou muito! Nossa, a gente amou! (risos)

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