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História

Dedicação em tudo o que fez

História de: Walter Barelli
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/05/2019

Sinopse

Walter Barelli começa contando como foi sua infância em uma vila operária. Filho único, perdeu o pai cedo e aprendeu cedo a assumir responsabilidades. Em seu depoimento, ele fala como foi a criação por sua mãe, seus anos de escola, o tempo no seminário e a escolha quase casual pela faculdade de economia. Narra sua entrada no mercado de trabalho e como logo passou a fazer parte do movimento estudantil. Descreve sua trajetória profissional, os anos no Dieese e como foi atuante nos movimentos sindicais. Conta como se deu sua saída do Dieese após 24 anos de dedicação e como acaba entrando para a vida política.

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História completa

P/1 – Para começar, gostaria que o senhor dissesse o seu nome completo, data e 

local de nascimento. 

R – Walter Barelli. Nasci em São Paulo, 25 de julho de 1938. 

P/1 – Qual o nome dos seus pais? 

R – José Barelli e Elza Grande Barelli. 

P/1 – Qual era a atividade profissional dos seus pais? 

R – Meu pai era mecânico de manutenção. Minha mãe era tecelã. Mas no fim da 

vida era passadeira, que é um grau maior do que tecelã. 

P/1 – O senhor tem irmãos? 

R – Não. 

P/1 – O senhor lembra o bairro, a rua que você morava quando era criança, para 

poder descrever para a gente? 

R – Meu pai trabalhou na Nitroquímica. Então, assim que eu nasci eu fui para São 

Miguel. Com 20 dias estava em São Miguel. Mas de São Miguel eu me lembro 

muito pouco. Com quatro anos eu me mudei para o Belém. Rua Arinaia. Me 

lembro algumas coisas da rua. E aí mudei para uma vila, que alguns chamavam 

de Vila Bois, outros de Vila Matarazzo. Era uma vila operária, na Avenida Celso 

Garcia. Ainda existem algumas das casas. Onde eu fiquei, onde minha mãe 

morou, eu fiquei lá até mais ou menos 1958. Depois mudei várias vezes pelo 

Belém. Mas você deve estar querendo infância. Depois eu conto o resto. 

P/1 – Como que era o dia-a-dia na sua casa? 

R – Dia-a-dia na minha casa. Olha, meu pai morreu quando eu tinha nove anos. 

Então eu não tenho muita memória da rotina geral. Mas quando meu pai estava 

vivo minha mãe não trabalhava. Tomava conta da casa. A gente levantava, tomava 

café, ia para a escola. De tarde, depois do almoço, tinha lição de casa e tinha as 

brincadeiras. Porque a vila dava toda essa condição para a gente. A casa tinha um 

quintal que a gente plantava algumas coisas. Tinha umas galinhas. Isso aí é uma 

coisa de antigamente em São Paulo, tá? 

P/1 – Com a perda do seu pai então sua mãe que assumiu? 

R – É, meu pai ficou quatro anos doente. A aposentadoria estava começando. Meu  pai morreu em 1947. Ele tinha lá uma aposentadoria, um auxílio de saúde, alguma coisa assim. Mas que era uma pobreza grande. Porque um pouco antes teve a guerra. E grandes dificuldades, por exemplo, meu pai precisava comer uma 

comida especial, e precisava de farinha. E não tinha farinha. Então a confusão era 

comprar macarrão para moer o macarrão para fazer farinha, para fazer a comida 

que o meu pai ia comer. Me lembro de ir às quatro horas da madrugada com a 

minha mãe nas padarias para fazer fila. E aí havia as invasões de padaria, por 

causa do racionamento. Então era até perigoso. Quando tinha isso, minha mãe se 

afastava, a gente ia para outro lugar. Mas foi a experiência de guerra, que no 

Brasil ninguém teve, eu tive um pouquinho. Pelo menos as restrições desse tempo 

de guerra. E minha mãe então, o que é que ela fazia? Ela fazia muito tricô para 

vender para fora. Tinha pessoas que compravam a produção da minha mãe. Ela 

também costurava, mas acho que era mais para nós. Mas tricô acho que tinha 

mais saída. Então ela fazia blusas de tricô para sustentar a família. Nos papéis do 

meu pai eu encontrei uma lista que o pessoal da fábrica, ele trabalhava na fábrica 

de papel e papelão do Matarazzo, que era ali ao lado da vila, e o pessoal fez uma 

lista: “Para passar o Natal melhor”. Isso mostra a solidariedade que o pessoal 

tinha. Meu pai tinha uma certa liderança. Todo mundo falava muito bem dele. 

Então, mas não deu para conviver tanto e saber todas as coisas. 

P/1 – Então o seu pai, só uma curiosidade, o seu pai adoeceu, mas ele estava 

trabalhando quando adoeceu? Foi isso? 

R – É, o problema dele foi um problema de coração. Na época ele dizia: “Olha, se 

me levarem para os Estados Unidos eles me curam”. Ele queria fazer uma 

operação, mas no Brasil ainda não tinha tido o Zerbini, e companhia bela, o 

pessoal que fazia cirurgia toráxica, essas coisas todas. Então era um problema, 

tinha muita falta de ar, não podia fazer esforço. Ele também fazia algumas coisas, 

ele era habilidoso, então consertava relógio. Certamente consertava os relógios do 

pessoal da vizinhança. E aí devia ganhar um dinheirinho. Pequeno, mas era o bico 

que ele fazia. E aí quando ele morreu minha mãe voltou a trabalhar na fábrica. 

Mudou o regime da família. Porque ela trabalhava das cinco a uma da tarde. 

Então quando ela saía, eu estava dormindo. Ia para a escola, voltava da escola. 

Não! No início, ela trabalhava dois turnos. Devia ser das sete às onze, e depois da 

uma às cinco. Alguma coisa assim, dava oito horas. Então era mais ou menos 

isso. Mas depois passou das cinco a uma. Nesse período, quando eu voltava da 

escola eu tinha de fazer comida. Alguma coisa. Eu sou péssimo cozinheiro. Mas 

as coisas elementares eu deixava pronto. Lavar louça, lavar quintal, casa 

inteirinha. Essas coisas a gente fazia. Depois ela mudou. Durante um tempo eu 

almoçava na casa da vizinha da frente. Era uma espécie de pensão que a minha 

mãe pagava. Depois, passei a almoçar na casa de uma tia que era lá do bairro, 

mas era mais longe. E minha mãe também pagava uma pensão, um dinheirinho lá 

para essa minha tia. Então era mais fácil a coisa. 

P/2 – Barelli, só uma pergunta, você teve que assumir responsabilidades muito 

cedo. Com a sua casa, você diz até que começou a trabalhar muito cedo. Como 

que foi isso para você? E queria saber também se você brincava. Como é que era 

essa, se você tinha atividades de criança mesmo. 

R – Olha, a vila era um bom lugar, porque eu tinha muitos amigos da mesma 

idade. Todo mundo trabalhava, os pais trabalhavam. Algumas mães não 

trabalhavam. Então era uma comunidade. E por eu ser filho único, tinha muitos 

brinquedos que os outros não tinham. Então o pessoal vinha muito brincar na 

minha casa. E o problema de limpar casa, essas coisas, era um negócio meio 

imposto mas meio aceito. Porque tinha de fazer. Alguém tinha de fazer. Então, 

uma faxina mais grossa minha mãe fazia. Mas limpar, varrer, essas coisas, fazia 

eu. 

P/2 – E a escola, como que foi? 

R – Escola. Primeiro eu estive no Grupo Escolar Amadeu Amaral. Ele existe até 

hoje. A gente ia a pé, ele fica no Largo São José do Belém. Saía da vila e ia uma 

turminha junto estudar. Eu, pelo que eu me lembro, eu me saí bem na escola. 

Quando terminei o quarto ano eu fui tentar trabalhar numa escola profissional 

chamada Piratininga que era do governo, ali na Rua Piratininga. Uma espécie de 

SENAI [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial]. Só que eles só aceitavam 

depois dos doze anos. Eu tinha onze anos. Então aí eu fiz o quê? Na época, o 

quinto ano era chamado Admissão. Foi a maneira de esperar para poder entrar. 

Porque a ideia  , já na época, era: se você aprender uma profissão você vai ter 

chance na vida. Muitos dos meus amigos sequer terminaram a escola, já foram 

trabalhar. Aí não tiveram muita coisa na vida. O que foi mais longe foi um que foi 

fazer SENAI, então, conseguiu deslanchar. Bem, quando eu estava nessa 

Admissão os amigos meus me levaram para a Congregação Mariana de Menores, 

que tinha ali na Igreja São José do Belém. A gente frequentava ali. Tinha as 

reuniões normais, mas também tinha um esquema de jogos, pingue-pongue. E, na 

época, ali nessa região, principalmente no Belém, vários jovens passaram a ir 

para o Seminário, adolescentes. Um padre italiano, que era colaborador lá da 

paróquia, o adjutor, ele levou num dia toda a meninada para conhecer o Seminário 

de São Roque. E era uma maravilha o Seminário. Bem, para entrar naquela 

escola você precisava querer ser padre. Eu, para mim, tanto fazia, né? "Vamos 

entrar no Seminário”. E foi, eu fui para o Seminário. Eu fiquei lá em São Roque 

seis anos. Onde eu fiz a parte referente ao ginásio e colegial. E fiquei um ano no 

Central do Ipiranga, que é onde eu fiz curso de Filosofia. Comecei curso de 

Filosofia. Que fez eu me diferenciar em relação ao pessoal. Porque eu tive uma 

oportunidade de educação mais aprimorada. Mas eu fui mesmo: “Olha, tudo bem, 

vamos ser padre”. A minha mãe dizia: “Olha, toda profissão é boa. Lixeiro, 

mecânico, padre, o que quer”. Minha mãe não tinha muito a ver com religião. 

Quando eu fui para o Seminário ela passou a frequentar bastante a igreja. Agora, 

não tinha nenhuma motivação da família para ir para lá. Mas foi uma decisão que 

eu tomei. Foi muito bom para mim. Mas foi uma decisão muito apressada. Porque 

com doze anos você já dirigir toda a tua vida é uma coisa complicada. 

P/2 – E de lá para, qual foi a trajetória a partir dali? Porque você chegou a fazer 

um curso superior. A fazer uma opção. 

R – Eu comecei depois. Bem, quando eu saí o que eu queria mesmo era dançar. 

[risos] Porque aquela vida reclusa tinha coisa boa. Tinha futebol, vôlei, piscina, 

estudo, tinha muita coisa interessante. Foram bons anos os anos lá do Seminário 

de São Roque. Ora, quando eu saí, bem: “Eu não tenho mais nada a ver com 

isso”. O problema era ver como fazer. E aí não tinha muita orientação para onde ir. 

Primeiro precisava ter uma fonte de renda. Então eu comecei a trabalhar como 

bancário em um banco chamado Banco de São Paulo que foi uma experiência 

boa. E aí fiz um cursinho para Engenharia, mas percebi que a base que eu tinha 

era muito ruim. Fiz, inclusive, com alguns amigos lá do próprio bairro: “Não, 

vamos, tal”. Então eu fui. Mas não tinha base para Engenharia. Não queria fazer 

Direito. Os outros amigos que tinham saído foram fazer Direito. Fiz um curso de 

Administração Racional do Trabalho, no IDORT [Instituto de Organização Racional 

do Trabalho], para ver como que se podia trabalhar em uma empresa. Aí descobri 

que tinha faculdade de Administração. Fui atrás da FGV [Fundação Getúlio Vargas]. Era muito cara. Não tinha dinheiro para pagar a mensalidade. O que eu ganhava como bancário não era bom. Aí me falaram: “Olha, tem a Faculdade de Economia da USP.” Aí fui para Economia. Fiz o vestibular, passei. Passei bem. Se não me engano fui o quarto colocado no vestibular. Bem, e começou uma outra trajetória. Aí estudei Economia. 

P/2 – Que ano você fez Economia? 

R – Ahn? 

P/2 – Só para situar, que ano... 

R – Que ano que eu comecei lá? 1959. 

P/1 – 1959. 

P/2 – Você trabalhava nos bancários nessa época? 

R – Eu trabalhava. Eu era bancário do Banco de São Paulo. E fui fazer Economia 

à noite, porque o banco era à tarde. Na época se trabalhava seis horas, mas era 

do meio-dia às seis. Então saía e ia para a faculdade. Começava às sete e ia até 

de noite. Bem, na Economia, lá pelo meio do ano, começou um buchicho de que: 

“Olha, vai ter concurso no Banco do Brasil, vamos prestar concurso”. Eu disse: 

“Olha, Banco do Brasil? Eu quero ser economista, bancário já sou”. “Não, mas 

Banco do Brasil paga muito bem.” Eu disse: “Olha, se paga mais pode ser uma 

boa coisa”. Mas não tinha essa. Eu faço esse depoimento para se ver como o 

pessoal das vilas operárias não tinham noção do que era o Banco do Brasil. Para 

outra classe social já era um negócio diferenciado. Pagava bem e tal. Então fiz o 

concurso e fui para o Banco do Brasil. Nem todos que me incentivaram a fazer o 

concurso passaram. Então aí comecei a trabalhar no Banco do Brasil. E um belo 

dia eu mudei o meu horário na faculdade da noite para o dia. Porque eu estava 

firme na política universitária, não dava para estudar à noite. Então passei a 

trabalhar no banco de manhã. No Banco do Brasil se entrava à uma, saía às sete, 

então dava para conciliar as coisas. É a outra trajetória. 

P/2 – Você falou política universitária por quê? Você teve algum contato na 

universidade com algum movimento nessa época? 

R – Logo de cara, no primeiro ano, quando houve a renovação do Centro 

Acadêmico, me convidaram para fazer parte da chapa. Se não me engano, foi 

chapa única. Não, tinham duas. Então eu comecei já no segundo ano. Tinha lá um 

“carguinho” no Centro Acadêmico. Mas, na época, um movimento forte na 

universidade era a JUC [Juventude Universitária Católica]. E o pessoal que era da 

JUC, na economia só tinha um, que chamava Pedro Calil. E ele queria ampliar o 

grupo dele, porque não podia fazer equipe, a JUC tinha equipe. Então vivia dando 

em cima de mim: “Olha, vamos participar, vamos não sei o quê.” Até que quando a 

gente conseguiu um grupinho maior eu comecei a participar. E aí a JUC foi uma 

coisa importante no movimento estudantil. Eu fui da equipe regional da JUC que 

fazia a coordenação do movimento estudantil universitário em todo o estado de 

São Paulo. Os economistas não tinham vez no Brasil. Os economistas começaram 

a aparecer na década de 1960. Um grande ícone nosso era o Celso Furtado. 

“Olha, dá para você consertar o Brasil. Vamos planejar. Tem isso, tem aquilo.” 

Bem, e dentro da JUC teve um Congresso do qual eu participei em 1960, 

chamado Congresso dos 10 Anos. Eram 10 anos de JUC, onde pontificou uma 

turma da Universidade de Minas Gerais, e eles passaram a ser grandes líderes 

nossos. Um era o Betinho [Herbert José de Souza], que era sociólogo. A faculdade 

lá era de Economia e Sociologia. O Betinho, o Aldo Arantes. O Aldo Arantes fazia 

Direito no Rio [de Janeiro], mas estava nesse grupo. Tinha o Paulo Haddad que 

era economista. Ele foi ministro comigo também. É um cara especialista em 

economia regional. Bem, tinha um grupo. A ideia   dos 10 anos era discutir a 

realidade brasileira. Foi uma coisa que envolveu muito e levou todo esse pessoal 

que militava na JUC à uma posição política. Que depois vai desembocar nas 

chamadas Reformas de Base. Então essa fase é uma fase muito rica. Essas 

transformações, embora por um ano na vida estudantil, é uma geração. Porque 

passa logo o nosso tempo de universidade. Mas o pessoal que foi para o 

Congresso dos 10 anos, quando voltou disse: “Nós precisamos aqui fortalecer a 

nossa base de economistas”. Porque havia uma certa rivalidade nesse grupo, que 

era o pessoal da [Faculdade de] Medicina e [Faculdade de] Engenharia. “Nós não 

entendemos muito o quê aqueles mineiros falam, mas eles estão falando coisas 

no caminho. Nós precisamos pensar essas coisas aqui.” Aí procuraram muito o 

Calil e a mim para sermos os fundamentadores de uma série de discussões e 

documentos sobre o Brasil, os gargalos de desenvolvimento do Brasil. Daí que 

cresceu o chamado movimento político dentro da JUC. A partir daí nós 

começamos a disputar eleições também na UEE [União Estadual do Estudantes], 

no DCE [Diretório Central dos Estudantes], essas coisas todas. E nós éramos 

maioria. Nunca o interior tinha tido vez. No interior o pessoal dizia: “O que vale é 

São Francisco [Faculdade de Direito do Largo São Francisco] e Poli [Escola 

Politécnica da Universidade de São Paulo]. [Universidade Presbiteriana] 

Mackenzie é reação. Tinha um pouco as meninas lá do [Colégio] São Bento.” O 

pessoal do interior não valia muito. Aí nós começamos. Porque nos congressos da 

JUC a gente apresentava documentos sobre a situação brasileira, análise de 

conjuntura. E o pessoal ia se engajando, era um momento muito rico na política 

nacional. Os estudantes estavam tomando a frente da movimentação. Era uma 

geração que tinha de fazer alguma coisa. Eu me lembro, por exemplo, quando 

houve a renúncia do Jânio [Quadros], houve um movimento sério de, bem, "Como 

fazer? Foi dado um golpe. Como que a gente refaz a democracia?”. Então as 

reuniões que a gente fazia, todas escondidas, pensando em como tomar posições. 

Eu me lembro de uma dessas reuniões que o Plínio de Arruda Sampaio que tinha 

sido de JUC, foi chamado para falar. E ele disse que em "1900 e antigamente”, 

devia ser 1955, o Padre Lebret disse para a geração dele: “Vocês têm cinco anos 

para estarem preparados para tomar o poder no Brasil”. E era 1961, tínhamos 

perdido. Então fiquei com aquela coisa na cabeça. Bem, houve a solução de 

conciliação no caso do Jânio, mas o movimento estudantil estava cada vez mais 

forte. O Jango [João Goulart] com as posições, “uma no cravo, uma na ferradura”, 

que ele tinha. Mas que permitia grandes discussões. Pelo nosso lado, nós 

começamos a perceber que: “Olha, a política não é uma coisa confessional. Então 

nós temos que ter um partido”. Foi daí que surgiu a chamada Ação Popular, um 

agrupamento que nasceu desses militantes. Uma parte grande eram os que 

tinham participado e participavam ainda da JUC. Outros eram pessoas que não 

aceitavam tranquilamente as coisas do Partido Comunista e eram de esquerda. 

Então a Ação Popular foi essa experiência que estava começando a se afirmar 

mas acabou tendo de enfrentar a ditadura dos militares. Aí ela passou por 

transformações. Uma parte praticamente saiu. Porque quando ela chamou-se 

Ação Popular Marxista Leninista foi um divisor de águas e uma parte foi para o 

PCdoB [Partido Comunista do Brasil]. Foram transformações. Mas aí eu já tinha 

saído da faculdade. Então a questão importante foi essa militância. O José Serra 

era um jovem da Politécnica, ele conta isso no livro que ele fez quando saiu para 

ser presidente. No ano que ele assumiu na UEE a vez era minha. Só que eu, 

quando foi feito o conchavo das lideranças, eu disse: “Olha, vocês estão loucos. 

Eu trabalho, minha mãe é viúva, vocês querem que eu largue o Banco do Brasil? 

Não vai dar para ficar trabalhando e sendo presidente da UEE. Então vamos 

escolher. Vocês escolhem outro aí que eu vou continuar trabalhando no 

movimento estudantil mas não preciso de cargo para isso”. 

Aí surgiu, o pessoal da Poli e apresentou o José Serra que era desconhecido. Nós 

ganhamos. Depois eu fiz a campanha dele para presidente da UNE. Então teve 

uma transformação. Mas esse movimento todo ele foi derrotado no golpe militar. 

Durante o tempo da faculdade, eu tinha me especializado em crédito rural. No 

Banco do Brasil eu trabalhava na Carteira de Crédito Agrícola Industrial. Então era 

um negócio mais interessante do serviço bancário. Mas a ideia   era: “Olha, nós 

precisamos de alguém na área de crédito industrial para SUPRA”, que era 

Superintendência de Reforma Agrária. Então eu estava precisando me formar para 

poder ser contratado pela SUPRA. Só que a minha formatura foi marcada para o 

dia primeiro de abril de 1964. Tinha um carro de combate na frente da faculdade. 

Não houve e também eu não fui procurar a SUPRA, porque o presidente foi preso 

naquele movimento. Depois houve o INCRA [Instituto Nacional de Colonização e 

Reforma Agrária], mas já dentro de um outro contexto. Não em um contexto de 

reforma agrária como a gente pensava. 

P/1 – Está ótima. Deixa eu voltar só um pouquinho. Pegar um pedacinho do 

movimento estudantil, uma coisa que passou batida mas é uma curiosidade aqui 

da gente. Por que Economia? 

R – Por que Economia? A faculdade era Ciências Econômicas e Administrativas. 

Eu fui procurar Administração de Empresas na FGV. Porque eu achava: “Olha, 

como não vai dar para ser engenheiro, uma coisa próxima”. Eu não queria 

Medicina, não queria Direito. Administração de Empresas era uma coisa charmosa 

que estava surgindo. "Então eu vou fazer Administração de Empresas”. Só que 

entrei na Faculdade de Economia e Administração. Fiz um bom curso de 

Administração, de Introdução à Administração, outro de Introdução à Economia, 

que eram matérias do primeiro ano. Mas logo em seguida veio essa visão política 

pela JUC. Da chamada "realidade brasileira". Você se dedicar a estudar o Brasil e 

saídas para os problemas do Brasil. Tinha de ser Economia. Quando eu entrei o 

título que eu receberia seria de Ciências Econômicas e Administrativas. Teria os 

dois. Só que quando eu passei para o terceiro ano houve uma reforma do 

currículo e passou a ter dois anos básicos, dois anos de Economia, dois anos de 

Administração. E eu já fui para Economia, não era mais Administração o que eu 

pensava. 

P/1 – Sobre o movimento estudantil. Nessa trajetória do movimento estudantil, 

você lembra, porque você começou lá na faculdade, você começou a participar da 

JUC, e várias outras atividades. Mas teve alguma atividade que tenha sido 

marcante para você? Uma Assembléia, alguma coisa, que você lembre? 

R – Teve muitas, né? 

P/1 – Uma que... 

R – Por exemplo, a greve de um terço. Foi uma greve nacional que a UNE fez 

ainda na gestão do Vinícius Caldeira Brant ou era do Aldo Arantes, não sei. A 

minha faculdade era uma faculdade conhecida como “de direita”. Mas resolvemos 

parar. Foi uma grande dificuldade. Aí, houve um debate na faculdade sobre 

reforma universitária. Os debatedores eram o Paulo Singer e o Delfim Neto. Cada 

um dizendo do seu lado. O Singer defendendo a reforma e o Delfim dizendo que a 

reforma era marxista. Aí eu me levantei e disse: “É marxista coisa nenhuma”. Aí o 

Delfim me “sinucou”: “Mas, o que é marxismo?” E era muito para um jovem como 

eu dar uma aula ali. O Delfim consegue fazer isso muitas vezes. Isso marcou, 

porque eu não tinha elementos para retrucar. Teve muitas coisas marcantes. 

P/1 – Você falou greve de um terço. O que quê é? 

R – A greve de um terço foi uma greve. Você nunca tinha ouvido falar? 

P/1 – Não. Não é terço... [risos] 

R – A ideia   na reforma universitária é que você devia ter: um terço de alunos, um 

terço de professores e um terço de sociedade civil [nos órgãos colegiados]. Então 

nós alunos queríamos ter uma representação de um terço. Por isso chamava 

Greve de Um Terço. E foi longa a greve. Não dava para continuar a greve 

indefinidamente. Mas foi um grande movimento sobre reflexão, sobre 

universidade. Foi importante. 

P/2 – Eu queria te perguntar, uma coisa que para mim passou meio batido, por 

que é que te despertou interesse de participar do movimento estudantil? Por que 

você foi chamado pela JUC? 

R – Dentro da JUC aquela coisa só religiosa não me interessava muito. Mas 

quando entrou a coisa social, política, aí mexeu com coisas que eu gostava. 

P/2 – E você teve alguma situação anterior da sua infância, ou mesmo da sua 

juventude anterior que tenha te despertado atenção pelos movimentos sociais? 

R – Não, não que eu me lembre. A gente tinha o nosso grupinho, mas não era 

pensado socialmente. Porque era time de futebol, time disso, daquilo. Não entrava 

a questão política. A questão política, inclusive, não era muito cultivada nem na 

minha família, porque como minha mãe era estrangeira ela disse: “Não dá para se 

meter nisso. Tome cuidado”. Meus primos, meus tios também iam na onda. 

Político que na época da eleição era aquele político que se apoiava. Mas não tinha 

nada disso. E no Seminário também a questão política não era muito colocada 

não. Não tinha grandes disputas. A ideia  : “Olha, esse é um terreno...” Não se 

discutia muito a questão política. Teve coisas, quando morreu o Getúlio Vargas, 

que vou contar o que aconteceu. Quem era aquele Carlos Lacerda. Essas coisas 

se falavam lá mas não se fazia proselitismo. Não tinha essa coisa. Quando 

começou mesmo esse Congresso de 10 anos, foi um negócio que mudou muito a 

igreja brasileira. Mexeu com os outros movimentos: JOC [Juventude Operária 

Católica], JAC [Juventude Agrária Católica], JEC [Juventude Estudantil Católica], 

mas quem tinha começado tudo era a JUC. E, depois, a coisa foi avançando, 

chegou na Teologia da Libertação, essas coisas mais recentes. 

P/1 – Enquanto você estava estudando, você já estava no banco? 

R – Estava. 

P/1 – 1960, 1961 você já estava no banco? 

R – Não, eu entrei no banco em 1957. 

P/1 – 1957. 

R – Eu saí do Seminário, primeira coisa foi arrumar um emprego. 

 

P/1 – Sim. 

R – No final do ano comecei a trabalhar. Em 1959 entrei no Banco do Brasil, fiquei 

até 1966 quando eu vim para o Dieese. 

P/1 – Porque nessa época de 1959 a 1966 também teve um movimento muito 

forte, bancários no movimento sindical. 1961, é, que você falou do movimento 

estudantil mas eu estava pensando em termos do movimento sindical. 

R – É, os bancários tiveram movimentos fortes em 1952, 1953, 1954 que inclusive 

estão na origem do Dieese, com Salvador Romano Losacco, que foi o primeiro 

presidente do Dieese. Em 1961 houve uma greve grande, em que eu apareço nas 

assembleias sindicais. Eu já era a pessoa que estava cuidando da parte sindical 

do movimento, dentro de uma equipe política da JUC. “Não, você está trabalhando 

então você vê essa questão de sindicalismo.” Então fui para o meu sindicato que 

era o sindicato dos bancários. Os outros também iam para as outras assembleias 

sindicais. Houve um movimento grande também em 1961, que foi no Estádio do 

Hipódromo, na Mooca. Vários sindicatos que fizeram greve juntos. E a versão dos 

que foram até lá era a seguinte: “Monte de pelegos, os trabalhadores queriam 

continuar a greve”. E ele brecaram, encaminharam o movimento para a 

conciliação. Foi o que passou lá. Na assembleia dos bancários, eu percebi 

também um movimento contra a continuidade da nossa greve. E nós não 

tínhamos conseguido aquilo que queríamos. Aí, foi feita uma votação em frente ao 

prédio Martinelli e ao prédio do Banco do Brasil, no começo da Rua São João. Lá 

tinha um andaime e o presidente do sindicato, a tendência dominante era ser do 

Partido Comunista, subiu e deu vitória para um lado. Eu estava do outro lado, com 

um grupo de pessoas que também eram bancárias e eram da JOC. Houve uma 

revolta, quiseram “pegar” ele, alguns chamavam ele de pelego. Muitos querendo 

rasgar a carteirinha do sindicato. Alguns diziam: “Nunca mais!” Então a gente 

começou a organizar dizendo: “Olha, não é assim, vamos no Última Hora”, que 

era o jornal que falava das causas populares. "Vamos lá e colocamos nossa 

posição.” Então fomos em grupo. Daquele grupo que tinha perdido a votação, nem 

todos foram. A Última Hora ficava ali, praticamente embaixo do Viaduto Santa 

Ifigênia, não era muito longe. Se não me engano é onde hoje fica o metrô. Aí, 

chamamos lá um redator para contar as coisas. E aí um vereador, acho que se 

chamava, tinha nome de passarinho. O apelido dele acho que era Bem-te-vi, um 

nome assim... Usava uma gravatinha, começou falar. Eu disse: “Mas esse cara 

não tem nada a ver conosco, por que ele está usando o nosso movimento?” Aí, 

pela primeira vez eu falei em público. Gaguejei para burro: “Olha, não é nada 

disso. O nosso movimento é de bancários. Não é para nenhum aproveitador”. E foi 

aí que comecei uma carreira, não continuada, de dirigente sindical. Porque a partir 

dali eu comecei a brigar na assembleia dos Bancários. E tem umas glórias. 

Porque não foi só essa greve. Essa foi onde aconteceu isso. Mas aí a obrigação 

era continuar a fazer sindicalismo nos bancários. Eu era da Agência Luz, onde 

tinha um tesoureiro, que é um cargo importante no banco. Em uma agência, na 

época, o tesoureiro era importante, ele era do Partido Comunista. Um 

“burguesão”, mas comunista. E disse que se eu aparecesse no sindicato ele me 

jogava do prédio Martinelli para baixo. Até que entrou um pessoal do "deixa disso”. 

Eu fui para o sindicato e não houve nada. Mas a partir daí eu fiz a Comissão de 

Banco da Agência da Luz. E a Luz tinha uma coisa importante, tinha um hallzinho 

que levava para a ABB [Associação Banco Brasil]. Que funcionava ali na cidade, 

não tinha ainda lá na Estrada de Itapecerica. Então, antes de cada assembleia, eu 

reunia o pessoal, qual a posição da Luz na assembleia. E eu falava a posição da 

Luz na Assembleia. E a nossa glória foi que quando decretou greve, a Luz não 

precisou de piquete, porque todo mundo parou. Aí, nós fomos parar o Banco de 

Crédito da Amazônia, que não tinha a mesma força que a gente. A nossa era uma 

agência, isso em 1963, enquanto o movimento sindical só foi parar, por 

consciência, nas fábricas em 1978. Aí começou a parar essa agência, eram 100 

pessoas, era mais fácil. Tinha boas condições, muita amizade, a maioria era gente 

nova, era uma agência nova. Então, nós fizemos essa proeza, que aqui eu estou 

exaltando. 

 

P/1 – Você falou que você tinha começado uma carreira de dirigente sindical que 

não continuou? Até quando você ficou assim, no movimento sindical? 

R – Não, eu continuei trabalhando na Luz. Eu ia para a SUPRA, mas depois do 

golpe, pensei: “O que é que eu vou fazer? Vou ter de procurar um emprego, vou 

ver quando surge alguma coisa interessante”. Então eu continuei no Banco do 

Brasil. Nós organizamos um “Grupo dos 11” no Banco do Brasil, que era a 

resistência do Leonel Brizola nessa agência. Tudo secreto, ouvindo a “Voz da 

Legalidade”, tentando ver o que acontecia com o Brizola e o João Goulart, que 

estavam no Uruguai, para ver se voltava a democracia no Brasil. Então tinha essa 

militância.  

Já que eu não percebia onde trabalhar com gosto, fui fazer pós-graduação em Sociologia do Desenvolvimento com o Octavio Ianni, lá na USP da Rua Maria  Antonia. No final do primeiro ano, tinha que apresentar uma espécie de monografia, e eu tinha gostado de uma aula que ele havia falado de inflação e salário. Então eu fiz um trabalho  chamado: "Inflação e Reivindicações Trabalhistas". Nesse período, eu acho que é importante também, eu e um outro economista da minha turma, que era da agência Ipiranga, nós estudávamos de manhã. Revíamos economia, porque aquilo que a gente tinha aprendido na escola nos pareceu insuficiente. A gente precisava continuar estudando, por isso, nós dois nos reunimos para estudar. E se aprofundar em Economia. E como nós dois éramos do Banco do Brasil, nós guardávamos uns livretos com a lista de preços da Cooperativa dos Funcionários do Banco do Brasil. O nosso raciocínio era: “O Dieese está fechado, mas um dia ele vai voltar. E ele vai precisar recuperar a série de preços. Então pelo menos uma parte da série de preços nós temos aqui”.

Então, todo mês a gente guardava, e a ideia   era oferecer para o Dieese. Voltando à parte anterior: fazendo esse negócio eu descobri que o Dieese tinha voltado a existir. Fui procurar dados do Dieese no Sindicato do Gás, que era onde o Dieese estava. Peguei uma série de dados e fiz um trabalho, que o Octávio Ianni gostou muito e publicou na chamada Revista Civilização Brasileira, que era uma revista de esquerda permitida, mas que avançava pelas coisas importantes do Brasil. Ele apresentou o trabalho para o Enio Silveira, e foi publicado na revista. Eu levei este trabalho para a Heloisa Martins [Heloisa Helena de Souza Martins], e disse: “Olha, o Octávio Ianni elogiou e vai publicar na revista. Eu peguei os dados no Dieese e olha o que eu fiz”. Ela disse que estava fazendo uma seleção para economistas. Eu disse: “Então me bota nisso”. E aí eu entrei para o Dieese através desse convite que a Heloisa fez. Mas, em seguida, eu fui pagar uma conta em um banco chamado Nacional do Comércio. Funcionava ali na Rua Boa Vista e no balcão estava o Salvador Tolezano, que foi presidente do Sindicato dos Bancários e morreu de uma morte estranha. Ele foi jogado com uma pedra em uma represa lá de Sorocaba. Ele foi fazer uma palestra lá em plena ditadura e foi assassinado. Hoje, é uma das mortes que mereceriam uma pesquisa maior. É o nome do Conjunto dos Bancários no Mandaqui, Conjunto Salvador Tolezano. Mas o Tolezano disse: “Ô, Barelli, estamos fazendo uma chapa para concorrer no sindicato. Vamos tirar a junta interventora, vamos fazer uma chapa. Dá para a gente ganhar. Você não quer entrar?” Eu disse: “Puxa, você devia ter me falado na semana passada”. Porque eu tinha acabado de dar baixa na minha carteira. Então já não era mais bancário. 

P/1 – E você começou a falar do Dieese. Então um pouquinho antes, como é que 

você ficou sabendo do Dieese? Qual a ideia   que você tinha antes? Como que 

você descobriu o Dieese? 

R – Olha, o Dieese é de 1955. E a Lenina [Pomeranz], que foi diretora, foi uma 

das minhas professoras. Na época eu acho que ela não estava no Dieese. Mas 

como eu militava no Sindicato dos Bancários, sempre que tinha campanha salarial 

se falava do Dieese. Já tinha a Revista de Estudos Sócio-Econômicos do Dieese, 

cujos artigos eu acabei lendo. A gente valorizava o Dieese. Não sabíamos direito o 

que era, mas era da área. Tanto que eu e o Aldino, aquele outro economista que 

foi do Banco do Brasil, e que junto comigo guardou os preços da cooperativa para 

o Dieese, não tínhamos a ideia   de trabalhar no Dieese, mas sim de resgatar a 

memória. Mas aconteceu de a gente acabar trabalhando no Dieese. 

P/1 – E você lembra como que foi o seu ingresso? Você lembra o dia? Do dia que 

você entrou como que foi? 

R – Olha, eu comecei no Dieese em dezembro de 1965. Só que fui registrado em 

novembro de 1966, porque estava indo para uma instituição pequena. Teria uma 

redução salarial indo para o Dieese. Saía de um emprego razoável, mas queria 

completar o salário através do ensino, o que depois eu consegui. Uma das coisas 

boas do Banco do Brasil eram os planos de Previdência. Então eu gostaria de ter 

ficado no Banco do Brasil como contribuinte da Previ. Por isso que eu eu passei a 

trabalhar apenas um dos trinta dias do mês, por que assim não era considerado 

abandono de emprego. Eu trabalhava um dia e faltava nos seguintes, esperando 

uma resposta do Banco do Brasil sobre eu continuar nos planos de Previdência do 

Banco do Brasil, contribuindo por fora. Só que a resposta veio negativa. Quando 

veio negativa dei baixa e fui para o Dieese. Acredito que foi dezembro de 1965. 

P/1 – Onde que funcionava o Dieese? 

R – Funcionava lá no Sindicato do Gás. Era uma entidade pequenininha, tinha 

além das pesquisadoras, acho que eram duas, tinha a Heloísa [Martins], a 

Mariana, o Rubens [Ramacciato], uma espécie de tesoureiro-contador, e o 

Fernando que era o boy. Aí entrei eu. Inicialmente me deram a tarefa de contar 

ofertas de emprego. Depois para fazer análise de balanço. O grande problema 

que teve, logo que entrei, é que houve uma assembleia sobre o Fundo de 

Garantia. A Heloisa fala um pouco sobre isso no depoimento dela. Ela foi lá e o 

pessoal não gostou do que ela falou. Então foi complicado. O Dieese tinha uma 

rotina e a gente foi caminhando com ela. Depois, aos poucos, a gente foi também 

encontrando novos trabalhos para o Dieese. Escrevi um trabalho, explicando a 

política salarial, e o Estadão publicou nos cadernos de anúncios. Na última página 

desse caderno eles sempre publicavam artigos grandes. Então eles publicaram 

esse meu trabalho com uma notinha: “Não concordamos com tudo o que está aí 

mas não deixa de ser uma discussão, mostrando novos rumos que o sindicalismo 

está tomando”. Coisa por aí. Foi daí que o Dieese começou a trabalhar a questão 

da política salarial que até então não fazia. O movimento sindical queria que o 

Dieese fornecesse um atestado, que a Heloisa dava, de quanto tinha subido o 

custo de vida. E era bem burocrático: “Atesto que no período de x a y o custo de 

vida da classe trabalhadora na cidade de São Paulo subiu 10 por cento e 11, 

vírgula 11. 10 inteiros e 11 centésimos. Então o Tribunal usava essa linguagem. Aí 

a gente começou a mudar, dizendo: “O trabalhador perdeu tanto, então ele precisa 

de tanto”. E foi, não sei como é hoje, mas foi uma época importante porque dava 

rumo para todas as campanhas salariais. 

P/2 – Eu queria te perguntar como que era o clima de trabalho dentro do Dieese 

nesse comecinho? A Heloisa era diretora técnica, como que era assim a relação 

com ela? Clima de trabalho mesmo? 

R – A relação entre as pessoas no Dieese era tranquila, afinal éramos apenas três 

pessoas. Eu me lembro da Heloisa, ela trazia um pão recheado com não sei o 

quê, que era o almoço dela. Ela namorava o José de Souza Martins, que era meu 

colega de pós-graduação. A Mariana trazia uns quibes gostosos que a mãe dela 

fazia. Lembro das coisas pela culinária. O relacionamento era bom. Não tinha 

grandes discussões. A Heloisa falava muito do Aziz Simão e do Albertino [José 

Albertino Rodrigues]. falava o que eles faziam e outras coisas. E eu não conhecia 

nem um, nem outro. Uma das coisas que começou a diferir é que eu entendia 

como o dirigente sindical agia. Sabia mais ou menos como ele se posicionava. 

Então, eu tinha mais facilidade de diálogo do que a Heloisa, por ela ser a diretora. 

A Mariana fazia levantamento em todos os sindicatos, apesar de ser uma grande 

socióloga, o trabalho dela não era muito valorizado. Mas quando precisava fazer 

um balanço era ela que apresentava todos os dados. Era bom. Para mim, a 

impressão era boa. Mas ainda não era uma equipe, em que as pessoas possuíam 

uma prática comum. Isso estava se formando. A Heloisa e a Mariana sim, pois, 

vinham juntas, indicadas pelo Aziz Simão. Lembro que elas, principalmente 

Heloisa, queriam discutir economia comigo e eu tinha lá os meus palpites. Mas, a 

Heloisa ficou pouco tempo, ela foi convidada para ser professora na Ciências 

Sociais [da Universidade de São Paulo]. Logo em seguida a Mariana também saiu. 

O fato de eu ter sido escolhido diretor técnico e ser mais novo no Dieese do que 

ela, pode ter sido a causa dela sair. Mas ela nunca verbalizou isso. Aí fomos 

contratando outros tipos de pessoas, que vieram. 

P/1 – Como foi a escolha? 

R – Olha, quem trouxe a Annez Andraus [Annez Andraus Troyano] foi a Heloisa. 

Lembro que ela disse: “Tem lá uma menina do Centro Acadêmico da Ciências 

Sociais que vamos trazer para o Dieese, nós estamos precisando de alguém”. Aí 

veio a Annez. Em seguida, veio a Cecília Comegno [Maria Cecília Comegno], que 

hoje está no SEADE [Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados]. Ela era 

historiadora e socióloga e amiga da Annez. No início, os amigos foram trazendo os 

amigos. A Cecília assumiu uma parte do trabalho que eu fazia, o 

acompanhamento de ofertas de emprego. Em seguida, foi contratado um outro 

estudante de Economia, o Antonio, porque os trabalhos estavam começando a 

crescer. Nós estávamos começando a pesquisa de 1969, 1970. O Albertino tinha 

voltado e a Annez trabalhava como assessora dele, e o Antonio era uma espécie 

de factótum, “segurando a peteca” quando ela não estava. E aí tem um fato 

interessante: um dos desaparecidos, parece que se chamava Montenegro, foi 

levado lá para identificar as pessoas. Ele era pesquisador da pesquisa de 1969. 

Identificar as pessoas que tinham trabalhado com ele, coisas desse tipo. E 

chegaram lá perguntando: “Mas quem responde pelas coisas aqui?” O Antonio: 

“Sou eu.”. Ele disse: “Não, eu sou então do Dops, eu quero isso, isso, isso, isso”. 

O cara gelou. Mas isso é história que o Mauricio deve ter repetido nos 

depoimentos dele. Ele lembra bem. E o Antonio era muito amigo do Mauricio. 

Mais tarde, vieram dois economistas através do Sato [Ademar Sato]. Hoje o Sato é 

um monge lá em Brasília, um monge taoísta. O Sato começou a trabalhar no 

Dieese dando curso no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. E aí ele disse: 

“Tenho dois alunos bons”, ele era professor na Economia da USP, "que a gente 

precisa colocar no Dieese”. Então, “nos apertamos um pouco” e entrou o Mauricio 

[José Maurício Soares] e o César Conconne. Esses foram os que entraram nesse 

período de formação de uma nova equipe, vamos dizer. Logo depois, o Antonio 

saiu porque casou com uma professora em Bauru e mudou-se para lá. Os outros 

continuaram e foram praticamente a base do Dieese até 1990. 

(FIM DO CD 01) 

P/1 – Então, duas questões. Uma primeira, quando você assume o Dieese que 

tipo de mudanças que foram incorporadas de uma fase, logo que você assumiu, 

né? E a relação com os dirigentes sindicais, como que passou a ser essa relação 

do Dieese com os dirigentes sindicais? 

R – Para fazer política e, principalmente, fazer nucleação, a gente precisa 

descobrir o que motiva as pessoas. No movimento universitário, normalmente, era 

o restaurante. Se tinha comida estragada ou coisas desse tipo. Aí dá para você 

fazer uma bela greve. A mesma coisa acontecia no movimento sindical. Apesar de 

tudo ser proibido, os sindicatos conseguiam unir trabalhadores sempre que 

pensavam nos problemas concretos que eles tinham. E isso vinha do trabalho de 

ação católica, que a gente sabia como ir no ponto e organizar uma atividade a 

partir do ponto. E era por aí que tinha que acontecer também no movimento 

sindical. Tinha uma pessoa que acompanhou muito o nosso trabalho, eu sempre o 

chamei de “meu professor” O neto dele está no Dieese hoje. Trata-se do Miguel 

Huertas. Ele era um dirigente sindical diferenciado. Acreditava no Dieese e dava 

dicas para a gente: “Olha, nós vamos precisar disso... O problema é esse, é aqui 

que é a nossa ação... É assim que se faz...”. E mostrava exatamente esses 

“pontos”. A forma de trabalhar foi sempre descobrir onde o “calo doía”. Para mim, 

era mais fácil por causa das assembléias sindicais que eu tinha participado. O 

Miguel mantinha cursos no Sindicato dos Metalúrgicos e eu era um dos 

professores, a Annez era outra e o Sato também. Lá, a gente percebia como devia 

transmitir em uma época em que não se podia abrir a boca, afinal era ditadura 

militar e havia a possibilidade de ser preso a qualquer momento. "Como andar 

nessa corda bamba?" A nossa discussão era por aí. A Annez tinha uma militância 

política forte, diferente da Heloisa e da Mariana que não tiveram essa experiência. 

A Annez vinha da Polop [Organização Revolucionária Marxista Política Operária], 

um grupo forte na [Faculdade de] Filosofia [da Universidade de São Paulo]. Ela 

sabia distinguir as coisas. A mesma coisa acontecia comigo, depois de toda a 

história que eu contei para vocês. Eu acho que isso facilitou. E facilitou também 

porque o César além de ser estudante de Economia, era químico e já tinha 

trabalhado muito dentro de empresa. Ele tinha uma outra visão e entendia os 

problemas de um ambiente de trabalho. O Mauricio trazia uma outra vantagem, 

por ter participado em movimento de alfabetização popular, ele aprendeu como 

falar com o trabalhador. Então éramos um grupo que, precisávamos estar unidos 

porque estávamos no mesmo barco, se caísse um iriam cair todos. Por exemplo, o 

Sato, deu um curso e distribuiu uma apostila. Na apostila ele fez uma pirâmide 

social em que desaparecia a classe média e passava a ter apenas patrões e 

operários. Apesar de todos os cuidados, a apostila foi cair na mão do DOPS 

[Departamento de Ordem Política e Social] que veio prender quem tinha dado o 

curso. A sorte foi que o Joaquinzão [Joaquim dos Santos Andrade] , disse: “Não, o 

curso quem deu fui eu”. Eles ainda falaram: “Não, mas tinha essa apostila”. "Mas 

quem dá os cursos aqui sou eu.” Ele discutia com o pessoal, pois tinha as "costas 

mais quentes". Isso acabou salvando o Sato, mas indicando para nós uma das 

coisas que o Miguel Huerta dizia: “Falar, você pode falar tudo. Escrever, você não 

pode escrever nada”. Por exemplo, você ia dar um curso sobre “mais-valia", você 

ensinava o que era mais-valia, mas não escrevia. Porque isso poderia ser visto 

como doutrinação. Isso tudo era uma formação constante. Você levava uma 

cabeçada aqui, outra ali. Outra coisa que eu trouxe da JUC era a questão das 

reuniões. A gente se reunia, trocava ideia  s, fazia a avaliação das coisas: “Olha, 

está certo assim. Para onde a gente vai, para onde não vai”. O trabalho em equipe 

foi uma marca importante, aproximava todo mundo. Não tinha ali quem era menor 

ou maior que o outro. Era o grupo. E isso foi uma coisa que funcionou durante 

muito tempo no Dieese. E foi responsável pela construção da espinha dorsal do 

Dieese. Havia uma ideia   que era: "Quem faz política é o dirigente sindical, a gente faz o que o sócio quer". Mas nós sabíamos que estávamos fazendo política, e como o termo deveria ser falado em cada momento. Por exemplo, a esquerda 

tinha muito os seus chavões. A gente fugia dos chavões. Eu falei aqui: “mais- 

valia". Mas só falava em “mais-valia" se alguém levantasse no grupo. E se 

militantes de organizações de esquerda, falassem o que era “mais-valia", a gente 

dizia: “Isso que eu estou chamando de lucro é o que você está chamando de 

‘mais-valia". Porque, lucro era light. Então a gente podia passar os conceitos 

importantes sem fazer de uma maneira que colocasse em risco o aluno e o 

departamento também. Foi assim que a coisa se deu. 

P/1 – Quando você assumiu a direção técnica, em 1968, aconteceu o MIA  [Movimento Intersindical Antiarrocho]. 

R – Sim. 

P/1 – Como é que foi o papel do Dieese nesse processo? 

R – Olha, o Dieese teve um pouco de influência porque ele estava começando a 

mostrar as perdas que os trabalhadores tinham. E todas as categorias tinham as 

perdas. Agora, o MIA] foi uma pausa na transição brasileira. Foi importante o cara que era presidente dos Bancários na época. Foi o que começou. Depois quem ficou responsável foi o Joaquinzão, mas o movimento foi congregando as pessoas porque estava na hora de mudar aquela política salarial. Ter um outro tipo de comportamento. Mas ao mesmo tempo estavam surgindo as reações dentro das fábricas, alguns movimentos, muita gente foi presa. Só nos arquivos do DOPS a gente vai poder reconstituir essa história. 

Mas, por exemplo, estava surgindo o Zé Ibrahim [José Ibrahim], no Sindicato [dos 

Metalúrgicos] de Osasco. Eu esqueço o nome do cara dos Bancários. Os 

funcionários dos Bancários eram da chamada Oposição Bancária. Ou seja, contra 

a direção. A direção era do Partidão [Partido Comunista Brasileiro], em geral, uma 

das correntes do Partidão. Mas com todo o jeitão de trabalho sindical, sem se 

expor demais, buscando uma posição de começar a mudança. Aí se organiza o 

Primeiro de Maio na Praça da Sé, em frente ao Fórum João Mendes Junior. O 

Sodré [Abreu Sodré] era governador e queria "aparecer". E o movimento sindical, 

naquela ideia   de conciliação de classes: “Não, é bom que ele vá, por que dá 

respaldo para o que a gente vai fazer.” Foi feito lá um palanque, uma 

concentração, para comemorar o Primeiro de Maio. Lá pelas tantas, começam a 

agredir o pessoal do palanque. Jogar pedras, paus. Foi uma radicalização da 

oposição sindical, os grupos que estavam ali e a Bancária e o grupo do Ibrahim, 

que foram os que mais apareceram. E com situações engraçadíssimas. Tinha 

surgido um dirigente sindical novo, que era um médico, puxa vida, ele era do tal do 

Senalba [Sindicato dos Empregados em Entidades Culturais, Recreativas, de 

Assistência Social, de Orientação Profissional]. . 

[risos] 

P/1 – Continuação depoimento Walter Barelli. 

R – Esse médico, tem um filho que foi vereador do PT em Santos. Tinha 

descoberto o sindicato e era o cara que estava dentro do MIA propondo: “Vamos 

agora reconstruir o movimento sindical”. Mas os filhos dele estavam xingando e 

jogando pedra nele porque ele estava no palanque no Primeiro de Maio. Quer 

dizer, havia um grupo de dirigentes achando, podia-se fazer uma transição ou 

coisas desse tipo. E um outro grupo que dizia: “Não, precisamos radicalizar”. 

Depois do Primeiro de Maio o pessoal [do primeiro grupo] sai do palanque, vai 

para o Sindicato dos Metalúrgicos, continuar a fala de alguns. O grupo com o 

Ibrahim, o pessoal da Oposição Sindical Bancária, saem pela Rua Direita, vão até 

o Citibank, vão quebrando vidros, coisas de banco. O Vandré [Geraldo Vandré], 

que tinha ganho o Festival com a música "Para não Dizer que não Falei das 

Flores" [e que era crítico ao poder], vai à tarde hipotecar solidariedade ao 

governador. Mas, isso é uma outra história. No Primeiro de Maio anterior, repeti 

uma palestra em que mostrava as diferenças entre o Brasil como colônia de 

exploração versus uma colônia de povoamento, como foi os Estados Unidos. O 

velho esquema do Celso Furtado. E a partir dali, dava para o pessoal entender o 

que estava acontecendo com as fábricas, como foi a vinda da indústria 

automobilística para o Brasil. Era uma história econômica, de preparação para a 

política. Eu já tinha feito isso em ambientes de Congresso de Metalúrgicos. Em um 

ano que não ia ter comemoração, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo me 

convidou para fazer essa palestra para o Primeiro de Maio. Não falei do Primeiro 

de Maio em si, mas da formação econômica do Brasil, da formação do 

proletariado, essas coisas. Sempre com muito cuidado. Nada disso foi motivo de 

intervenção em sindicato. Acho que o movimento sindical estava meio morto, e 

uma pessoa do Dieese vai lá e faz uma palestra, acho que o governo não ficou 

preocupado. A principal comemoração sempre era no Sindicato dos Metalúrgicos. 

E a principal foi essa que eu fui o protagonista. Na hora eu não percebi nada 

disso. Eu estou falando agora, contando a história, mas eu não tinha consciência 

da coisa. É importante para as memórias. 

P/2 – Posso fazer uma pergunta? A gente tem conversado com muita gente do 

Dieese, especialmente gente mais recente. E o que as pessoas falam é que o 

Dieese teve uma visibilidade muito grande, depois da denúncia de manipulação do 

índice em 1977, né? 

R – Isso foi em 1976, né, o índice foi em 1973. 

P/2 – E como era o reconhecimento do Dieese antes disso, dessa época, o 

reconhecimento social? 

R – Olha, pela esquerda ele era bem visto. Algumas vezes: “Quem é aquele cara 

lá? Será que ele é da CIA?”. Tinha essas possibilidades. No ambiente universitário 

era tranquilo também. Entre os trabalhadores era crescente porque aprendemos a 

falar a linguagem que ia bem nas assembleias. Na imprensa sindical ele tinha 

espaço, sempre. E tinha também a imprensa sindical dos "jornalões". A coluna 

sindical da Folha [Folha de São Paulo], do Última Hora e do Estado [O Estado de 

São Paulo]. O Estado, um pouco menos. Mas, o Estado sempre publicava o nosso 

índice de custo de vida. O Dieese tinha respeitabilidade porque as empresas 

precisavam de parâmetros, então, ou elas faziam o seu próprio índice de custo de 

vida, ou usavam o índice de quem fazia, que era o movimento sindical. As 

empresas vinham comprar aqui, vendíamos o índice numa folhinha de papel por 

algo equivalente a dez reais. Isso era uma coisa importante. Sobre a questão da 

manipulação dos índices de inflação ocorreu o seguinte: o Banco Mundial publicou 

algumas tabelas dizendo: “Olha, para 1973 não usamos os dados oficiais mas 

uma estimativa que é a mais correta, e esses dados oficiais eram muito próximos 

do que o Dieese tinha publicado no ano, aí foi a glória, né? O Herbert Levy, que foi 

um político paulista de direita da UDN [União Democrática Nacional], depois da 

Arena [Aliança Renovadora Nacional], fundador da Gazeta Mercantil, fez um 

discurso na Câmara, dizendo o seguinte: “Então, aquele tal de Dieese estava 

certo?” Eu nunca tinha convivido com ele, mas depois disso ele sempre me tratava 

muito bem, porque é "aquele tal de Dieese" que tinha mostrado a verdade. E os 

militares é que estavam errados. E ele tinha uma "gana" com o Delfim Neto 

[Antonio Delfim Neto]. Porque quem manipulou os índices foi o Delfim Neto ou a 

turma do Delfim, não foi ele que fez. Bem, aí houve algumas coisas importantes. 

Estávamos no Governo Geisel [Ernesto Geisel] e o Mário Henrique Simonsen era 

o ministro que tinha apresentado para o Geisel um documento em que dizia: 

“Olha, teve problemas no índice de 1973, nós podemos fazer isso, ou isso, ou 

isso.”, três hipóteses. E aí começou aquela briga. O movimento sindical, mais uma 

vez dividido. O primeiro que viu o negócio, falou: “Então se o índice estava errado, 

nosso salário está errado”. Foi o presidente do Sindicato dos Bancários da época 

e em seguida o Lula [Luiz Inácio Lula da Silva], não sei se foi no mesmo dia, 

apresentou a sua opinião no seu jornalzinho. Todos os sindicatos começaram a 

pedir trabalhos para o Dieese. Nós fizemos aqui uma linha de produção. Porque o 

cara do Amazonas queria saber: “Quanto eu perdi?” O cara do Rio Grande do Sul, 

também. Foi um trabalho grande. E o Governo Federal tentou calar o movimento 

sindical de uma forma mais nobre, buscando um diálogo. Então chamou uma 

reunião em um prédio da Av. Faria Lima, em que vieram o José Paulo dos Reis 

Velloso e o Mário Henrique Simonsen. Lá, a gente discutiu "o que era, como era, 

como não era". Mas acabou não dando em nada. Mas ficou aquilo presente e 

quando estouraram as greves em 1978, tinha lá essa perda, que era uma das 

perdas, mas não foi a única. Os trabalhadores foram perdendo continuamente, em 

termos de política salarial. Enquanto durou a política salarial, praticamente, 

sempre houve perdas. Eu falei que o movimento estava dividido. Porque o 

Joaquinzão, abriu um processo na Justiça Federal reivindicando as perdas. E o 

Lula, que estava surgindo como líder sindical autêntico, disse: “Não, nós não 

vamos entrar com processo, nós vamos recuperar isso ao longo do tempo. Nós 

vamos recuperar os 34,1% que era para o Sindicato dos Metalúrgicos de São 

Bernardo nas nossas campanhas salariais”. Só que ele esqueceu. Ele é 

presidente, se ele quiser eu lembro que ele falou que ia recuperar. Agora ele tem 

mais facilidade. Mas foi essa briga. O processo do Joaquim foi para a frente. Foi 

feito uma perícia, nós tivemos uma sorte danada de descobrir nos porões do IBGE 

[Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] as fichas onde o IBGE tinha fajutado 

os números. Foi um trabalho franciscano. Não, franciscano não, beneditino. 

Porque em cima. Eu fui o auxiliar do perito. Mas quem acabou fazendo a coisa 

para ele fui eu. A juíza deu vitória para o Sindicato dos Metalúrgicos. Mas quando 

o Governo Federal é perdedor via ofício, se apela para o tribunal acima. E aí eu 

perdi o contato com esse tipo de coisa. Ninguém teve, ninguém mais foi atrás. 

Mas foi um negócio importante, primeiro, porque era confessado. Para nossa 

vergonha. Porque foi um documento internacional dizendo: “Olha, as estatísticas 

de vocês não prestam. Só aquele tal de Dieese que está certo.” Segundo o 

Herbert Levy. E aí foi um período importante de crescimento do movimento 

sindical. As primeiras greves em 1978. O novo movimento grevista. A expansão do 

Dieese também se deu em cima disso. Os vários escritórios. Porque o pessoal 

precisava de dado de imediato. Tinha de ligar para São Paulo, era interurbano, 

não tinha fax. Essas coisas todas, né? E a gente tinha de mandar. Então foram 

sendo multiplicados os escritórios do Dieese, o que foi bom. Deu unidade ao 

movimento sindical, através das lutas comuns. Bem, e aí teve a CONCLAT, que foi 

o Primeiro Congresso das Classes Trabalhadoras. A importância maior foi do Hugo Perez que desafiou o Geisel em uma entrevista: “Olha, se os empresários podem fazer Congresso, por que é que nós não podemos?” E aí foi autorizado fazer. E foi um grande Congresso, terminou em conciliação e que depois deu as 20 centrais, ou 16 centrais que estão tendo aí. A ideia   era ter uma só, mas fortaleceu. Depois dentro de tudo isso também saiu a questão do Partido dos Trabalhadores. Se vocês forem na origem, a origem está no Congresso dos Metalúrgicos, não do ABC, no Congresso dos Metalúrgicos da Federação dos Metalúrgicos. Com o Jacó Bittar sendo afastado: “Olha, nós estamos lutando pelo Partido dos Trabalhadores, mas isso é um Congresso dos Metalúrgicos”. Coisas da história do movimento sindical. 

P/1 – Só uma coisinha, Barelli. Teve um período que o Dieese sofreu uma certa 

pressão do governo, não é? Os sindicatos, aliás, foram pressionados a não se 

filiarem ao Dieese. 

R – Foi. 

P/1 – Foi nesse processo? 

R – Tem de pegar o chamado ministro Barata. Ele, deve ter sido ministro em 1968, 

1969, mais para trás. E o Barata chamou todos os delegados regionais e disse: 

“Olha, se aparecer na prestação de contas do sindicato contribuição para esse tal 

de Dieese, vocês intervêm no sindicato”. Era antes da Constituição de 1988, o 

Ministério intervinha. Como que o Dieese se safou? Primeiro, o delegado regional 

de São Paulo, que era um procurador, era um cara pró-governo e tal, mas ele 

tinha aprendido a lidar com o movimento sindical de São Paulo. E disse: “Olha, eu 

não tenho condição de fazer isso”. Ele ignorou a coisa. Porque se ele fizesse, o 

Joaquim era capaz de derrubá-lo. Porque nesse momento São Bernardo vai se 

fortalecer, lá em 1977, 1978. O grande Sindicato era Metalúrgicos de São Paulo. O 

Joaquim tinha chamado um general, que tinha sido delegado regional do Trabalho, 

de general de pijama. E passava. Na boca dele essas coisas eram o que a 

ditadura deixava passar. E esse delegado ficou durante muito tempo sendo 

delegado do Trabalho. Como eu não tinha ligação com a parte de Delegacia do 

Trabalho, não guardo os nomes. Ele não fez essa ameaça para o sindicato de São 

Paulo. O delegado do Trabalho de Minas fez. E nós tínhamos alguns sindicatos 

fortes em Minas Gerais. Aí o que foi feito? Existia como sócio do Dieese, uma 

estrutura que tinha sido criada dentro da CNTI [Confederação Nacional dos 

Trabalhadores na Indústria], chamada Departamento Profissional dos 

Metalúrgicos. Hoje seria a Confederação Nacional dos Metalúrgicos, que agora 

tem uma de cada lado. Pelo menos duas Centrais tem. Mas o órgão, o 

Departamento Profissional, era composto das federações e dos sindicatos 

importantes de Metalúrgicos. Que era São Paulo, Rio, Salvador, Recife e Porto 

Alegre. E as federações que tinham era São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de 

Janeiro e Minas Gerais. Eles eram comandos dos Metalúrgicos dentro da estrutura 

sindical. E, nesse momento, quem era o responsável pelo Departamento 

Profissional, era alguém do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Eu não me 

lembro quem, não sei se era o próprio Joaquim. Era alguém. Então o que é que 

eles faziam? Em vez de pagar o Dieese, eles pagavam para o Departamento 

Profissional e o Departamento Profissional passava os dinheiros para o Dieese. 

Então deu para viver apesar das ameaças, da forma que foi tomada. Nós 

sobrevivemos. Mas sempre o Dieese sobreviveu aos trancos e barrancos, né? 

Receber atrasado, três meses depois, não foi só uma vez. Então teve um 

problema sério. E nas assembleias, quem sabe até hoje seja assim, quando se vai 

discutir: “Olha, a primeira coisa que o sindicato corta é o Dieese. Onde se viu, sem 

ele nós não temos condição.” Mas isso fala o diretor do Dieese. Não fala o cara lá 

do sindicato. O tesoureiro diz: “Não, tenho de cortar, não vou cortar o dentista, não 

vou cortar o médico, vou cortar o Dieese”. É o que sempre aconteceu. Não sei se 

está assim. Parece que melhorou um pouquinho mas não muito. 

P/1 - Dessas crises que você viveu, qual foi a pior delas, que você se lembra? 

R. Olha, a pior foi em plena ditadura, em 1968. O Dieese não tinha como pagar o 

meu salário. Então, em acordo com a Diretoria, reduzi minhas horas para trabalhar 

meio período, que eram quatro horas. Para equilibrar minha situação fui trabalhar 

no Metrô. Quase morri. Eram doze horas de trabalho por dia, quatro no Dieese e 

oito no Metrô. Mas, "antes de morrer", eu disse: “Não!” Saí do metrô, voltei para o 

Dieese e aí havia já a possibilidade de me pagar por oito horas. Esse foi um 

momento ruim, pra mim, pessoalmente. Mas também, era um período em que o 

movimento sindical era vagaroso, exigia pouco. Então dava para você reduzir as 

atividades. 

P/1 – Você chegou a falar dos congressos. Conclat, Congresso dos Metalúrgicos, 

também teve Congresso de Mulheres nessa época. Em alguns congressos, alguns 

documentos aparecem dados do Dieese que eles utilizaram nos documentos, nas 

teses. Então qual foi o papel do Dieese, por exemplo, na organização, se teve 

esse papel? 

R – A Conclat foi um comando que organizou. Mas os congressos anteriores, 

muitos deles, foram feitos pela equipe técnica do Dieese, a montagem pelo 

menos, junto com a assessoria jurídica dos sindicatos. Eu me lembro do 

Congresso dos Eletricitários, que foi dessa maneira. O Congresso dos 

Metalúrgicos de São Paulo, também foi dessa maneira. Já o Congresso da 

Federação dos Metalúrgicos possuía um jurídico, que tinha lá a sua maneira de 

ser. Mas, eles aprenderam também com os Congressos dos Metalúrgicos do ABC 

[São Bernardo do Campo e Diadema]. O segundo e o terceiro tiveram muita 

participação nossa. No primeiro, também. O Almir, a Annez, o César e eu tivemos 

participação. No Congresso das Mulheres teve lá uma participação de alguns 

grupos feministas. Mas quem tentava juntar as coisas era a gente do Dieese, para 

desgosto da Annez que não gostava de trabalhar com mulher, ou com aquelas 

mulheres lá. 

P/1 – Então, nesse período, que inclusive aconteceram as greves do ABC e 

depois em São Paulo também, teve um episódio, que foi a sua prisão. Como que 

foi isso? 

R – A minha prisão foi em 1977. 1977, né? 

P/1 – Seis de dezembro de 1979. 

R – Ahn? 

P/1 – Seis de dezembro de 1979. 

R – Foi uma coisa interessante. Porque o Figueiredo tinha ido para Florianópolis e 

resolveu ir lá em uma Praça maldita, tomar café com o povão. E aí o pessoal 

começou xingar. E ele quis "sair no braço" com o pessoal lá. Chegou a repressão 

para segurar, aquela coisa. A visita que ele fez logo a seguir foi à São Paulo. E 

nesse dia que ele vinha para São Paulo, foram "recolhidas" algumas pessoas. Era 

um dia de "calor do cão”, eu estava andando de bicicleta sem camisa na minha 

rua. Vem um Fusquinha "fuleiro". Eu olho, faço sinal, achei que era um dos 

pedreiros de uma reforma de um vizinho. Aí, eles param na porta da minha casa, 

um deles desce e vem falar comigo. Ele disse: “O senhor tem de acompanhar a 

gente. Nós somos do DOPS. O senhor está sendo convocado”. Eu disse: “Eu 

conheço o Romeu Tuma. Diz para ele que eu vou lá. Vocês não precisam me 

levar. Eu tenho que levar meus filhos à escola, deixa eu levar eles para a escola. E 

depois eu me apresento. Não tem problema”. Eu fiquei argumentando. Aí, ele 

falou: “Olha, ou o senhor vem por bem ou vem por mal”. Eu disse: “Eu vou assim, 

sem camisa?” Ele disse: “O senhor pode tomar um banho e se vestir”. O que eles 

queriam é que a minha prisão fosse anunciada. Na época, todos que tinham 

atividades perigosas, e trabalhar no Dieese era perigoso, tinham os seus códigos. 

Então a minha mulher sabia que se acontecesse qualquer coisa ela tinha de avisar 

tais e tais dirigentes, tais e tais deputados. Por exemplo, o deputado Almir 

Pazzianotto, o deputado Suplicy [Eduardo Matarazzo Suplicy]. Aí, a Lurdinha 

[Lourdes Barelli] volta da padaria. Nem liga muito para os caras que estavam na 

porta. Quando entra e me vê, eu digo: “Olha, eu estou indo com eles”. Ela disse: 

“O que é isso?”. “Estou indo com eles.” Demora para "cair a ficha" que eu estava 

indo preso. Eu disse: “Olha, avisa o pessoal”. Então fui. Me levaram para o "porão 

do DOPS “ e lá estava um antigo dirigente, o Afonso Delelis, que foi presidente ou 

vice-presidente do sindicato dos metalúrgicos. Sento ao lado dele. Ele diz: “Pô, 

Barelli, te prenderam? Olha, eu já fui preso 14 vezes, mas desta vez o negócio é 

sério. Se te prenderam, é sinal que aqui vai ser pior que na Argentina. A coisa está 

muito séria”. Aí começam a chegar uns estudantes trotskistas. Ele olha e diz: 

“Prenderam aqueles? Olha, retiro o que eu disse, nós vamos sair daqui hoje”. 

[risos] 

R – Bem, então o Delelis disse: “Olha, nós vamos sair hoje mesmo”. Dito e feito. O 

que acontece? Me chamam para o gabinete do secretário, do "dono" lá do DOPS, 

o diretor do DOPS, o Romeu Tuma. Ele não estava, tinha ido dar proteção ao 

Figueiredo. Eu entro e um cara, um delegado famoso que eu esqueci o nome, diz: 

“Professor, aconteceu um lamentável engano. Não sei o que aconteceu, mas isso 

é um lamentável engano. Não se considere preso. [risos] O senhor, fique à 

vontade”. Eu disse: “Mas se eu não estou preso eu quero ir embora para a minha 

casa”. Ele disse: “Não se considere preso, nós só estamos aguardando a 

liberação do nosso delegado. Estamos entrando em contato. O senhor pode 

sentar, aqui é a sala dele. Pode telefonar para quem o senhor quiser, pode ler 

jornal”. Aí, a primeira coisa que faço, ligo para a minha mulher e digo: “Eles 

disseram que foi um lamentável engano, que eu estou detido e que eles estão 

ligando para o Tuma para ver se me soltam”. As rádios já estavam dando a notícia. 

De vez em quando eles vinham, falavam mal do Dom Paulo Evaristo Arns e coisas 

assim. Baixaria total. Eu não entro na deles. Aí começa a chegar gente. Chega o 

Almir Pazzianotto. Dali a pouco vem o Suplicy. Aí, o Suplicy diz: “Vamos lá no 

aeroporto esperar o Figueiredo e dizer para ele essa coisa”. Vão os dois para o 

aeroporto. Desce o Figueiredo e o Suplicy do jeito dele: “Presidente, prenderam o 

Walter Barelli!” Quem é o Walter Barelli para o Figueiredo? [risos] “Prenderam o 

Walter Barelli.” Um daqueles seguranças dá uma "gravata" nele, o Figueiredo vai 

andando e acaba. Ele volta depois e conta essa história pra mim. Chegam os três 

sindicalistas do ABC: o Lula, o Marcílio [Benedito 

Marcílio] e o Lins [João Lins]. Depois, chega o Gilmar Carneiro e um outro diretor 

do Sindicato dos Bancários de São Paulo e ficam fazendo "chacrinha", contando 

coisas. Ao mesmo tempo, o Hugo Peres, que tinha ido ao Rio de Janeiro, chega 

no Rio, põe o pé no solo, quando dizem: “O Barelli está preso”. Ele pega o mesmo 

avião e volta para São Paulo. Todos os dirigentes sindicais que não foram para o 

DOPS, foram para o Dieese, que na época era no Sindicato dos Marceneiros, 

aguardar em "vigília cívica". Por volta de duas e meia da tarde chega o Tuma: 

“Olha, foi um lamentável engano”. Aí, chega um deputado importante de Ribeirão 

Preto, que trabalhava com movimento sindical rural, que foi importante, se não me 

engano, na votação das Diretas. 

P/1 – Britto. 

R – Não. Não era o Britto. Bem, ele chega e diz: "Mas, tem mais gente lá". Então, 

eles mandam subir o Delelis. Aí, chega o Tuma e manda eu descer para a porta do DOPS. A minha prisão, acho que foi a primeira da chamada redemocratização, ou como que o Geisel chamava: "democracia relativa". A primeira da redemocratização foi a minha. Durou pouco. Não teve tortura, a não ser a moral. 

Teve até uma solidariedade muito grande do pessoal. Agora, a análise feita, é a 

seguinte: foi uma operação de Estado Maior [das Forças Armadas]. Porque a ideia   

deles era que, prendendo o Delelis, eles prendiam a oposição sindical inteira. O 

Delelis tinha todas as ligações com a oposição sindical. Prendendo o Barelli, 

prendiam o movimento sindical. E prendendo os trotskistas, os estudantes que o 

Delelis chamava de trotskistas. Eu não vi porque estava muito distante, também 

não sei qual é o nome das pessoas. Prenderiam também os estudantes. Ou seja, 

todo mundo ficaria mobilizado para tirar o Delelis, para tirar o Barelli, para tirar os 

estudantes. Todos saíram naquele dia, não sei se os estudantes saíram na noite 

ou na manhã seguinte. O Delelis saiu mais ou menos umas seis horas da tarde. 

Foi uma operação do DOI - CODI [Destacamento de Operações de Informações - 

Centro de Operações de Defesa Interna] responsável por uma série de mortes. 

Tinha sido mais ou menos desmobilizado, mas se reativou para fazer uma 

"operação protege o presidente". Então aconteceu esse episódio que está no meu 

currículo. 

P/1 – Barelli, durante a sua gestão como diretor técnico, foi quando surgiram as 

centrais sindicais, né? A CUT, depois a CGT, e como, isso trouxe impactos para o 

Dieese de alguma forma? 

R - O Dieese era chamado de Central Sindical dos Trabalhadores. Porque o 

Dieese, apesar de inexistente na estrutura sindical, reunia as lideranças de todas 

as categorias independentemente de confederação. Então, ele estava fora da 

estrutura sindical, mas era considerado órgão, efetivamente central sindical. Os 

movimentos nasceram aqui. O Dieese é fruto de um movimento intersindical. Os 

outros movimentos, aquele que eu falei do Fundo de Garantia, que a Heloisa saiu 

meio "tostada", era o Dieese que estava fazendo. A fundamentação de todas as 

coisas, até terem as centrais, acontecia aqui. Porque na Diretoria, normalmente, 

estavam os líderes do movimento sindical. Então na eleição de 1978, se eu não 

me engano, tiveram três chapas. Todo mundo queria ser da direção do Dieese. 

Tinha uma chapa, acho que foi a que ganhou, onde estava o Hugo Perez, mas 

também uma série de outras pessoas que depois iriam fundar a CUT [Central 

Única dos Trabalhadores]. A outra, a Chapa 3, era presidida pelo Olívio Dutra. Na 

Chapa 2, se não me engano, estava o Lula, mas não como presidente. Então, os 

dirigentes que fundaram o PT [Partido dos Trabalhadores] e a CUT estavam 

distribuídos nas três chapas. As tendências não eram bem definidas como hoje. 

Existiam outros dirigentes importantes. O João Carlos [Gonçalves], dos 

Petroleiros, o Arnaldo [Gonçalves] era importante. Tinha o Benedito Marcílio. No 

Rio Grande do Sul não tinha só o Olívio, tinha os caras da alimentação. Em Minas 

Gerais não tinha só o João Paulo [Pires], havia o pessoal dos Jornalistas. No Rio, 

eu me lembro bem do João Carlos. Tinha alguém da Bahia, tinha alguém de 

Brasília. Eles estavam divididos na constituição das chapas, mas não por facção 

política. Pelo menos não dava para perceber desse jeito. Montaram e 

apresentaram as chapas, uma delas ganhou, mas todos continuaram 

tranquilamente no Dieese, e gozando uns dos outros: “Olha, eu não deixei você 

ser diretor do Dieese, porque eu votei na outra”. Brincadeira de dirigente sindical 

que, de vez em quando, é criança também. Então, o Dieese era a central sindical. 

O que acontece, quando se formam as centrais sindicais? A maioria da direção 

não é os que sentam nas mesas de decisão. A Diretoria do Dieese era que 

mandava no movimento sindical, não como diretor do Dieese, mas como sindicato 

importante. Era a diferença que tinha do Dieese para o DIESAT [Departamento 

Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de Trabalho]. O 

DIESAT só tinha dirigente de segunda linha. Do Centro de Memória Sindical só 

tinha dirigente de segunda linha. Do DIAP [Departamento Intersindical de 

Assessoria Parlamentar] tinha só dirigente de segunda linha. DIAP era mais 

diferenciado porque tinha também a coisa de Brasília, então não dá para dizer 

isso. Tinha de pegar gente que estava lá para poder fazer a tal assessoria 

parlamentar. E quando surgem as centrais, os dirigentes principais ficam na 

Central e mandam, mas nem sempre, o primeiro time para cá. Então de vez em 

quando a Diretoria do Dieese sofre. Quando eu estava saindo do Dieese eu fiquei 

mais três meses. Porque eu ia sair já em dezembro de 1989 e fiquei mais três 

meses ou quatro, pois tinham dois dirigentes sindicais liberados. O Dieese nunca 

teve isso. Eram funcionários públicos, então o sindicato deles liberava. Eles 

tinham todo tempo, mas não decidiam as coisas nos sindicatos deles, nem no 

movimento sindical. Foram os que interferiram muito no andamento dos trabalhos 

aqui, né? Foi uma fase muito ruim aquele período. Eu saí e fiz uma carta 

denunciando. Disse: “Olha, vocês tem de acreditar na integridade dos funcionários 

do Dieese”, alguma coisa por aí. Aí o Gilmar Carneiro: “Vamos segurar, vamos 

manter essa Diretoria mais quatro meses”. Bem, mas era efetivamente o pessoal 

que desconfiava do técnico, né? Que foi o que aconteceu com a Heloisa e com a 

Mariana, nos velhos tempos. Eram vigiados. Os telefones, aquelas coisas todas. 

No meu tempo, tranquilo. Nesse período nós respeitávamos esses dois diretores, 

e até gostamos quando eles ficaram livres. Desde que eles fizessem a tarefa de 

diretores. Mas eles quiseram começar a entrar nas decisões técnicas e coisas ali. 

Aí foi complicado. O fato da existência das centrais cria problemas desse tipo. 

Então, na reconstituição das diretorias, tanto o Serginho quanto o Clemente, eles 

têm um rodízio. Primeiro é desta central, depois é da outra que é o presidente. 

Mas os caras ficam juntos, tem um colegiado. Foi feito uma reforma de Estatuto 

para acomodar essas coisas. E aí, o que acontece? A maioria desses dirigentes 

que passaram pelo Dieese cresceram no sindicalismo, pelo menos no sindicalismo 

paulista, né? O que não era paulista era o Lavorato. Ele perdeu o sindicato, 

perdeu o vínculo, porque ele era do Rio. Mas na Diretoria constante são três de 

São Paulo, né? É um bom estágio, e eles normalmente dão bons frutos para o 

movimento sindical. Mas precisa tomar cuidado. 

P/1 – Você chegou a falar da sua saída, né? E depois de tanto tempo, tanta coisa 

que você viveu no Dieese, em 24 anos, como é que foi o processo da sua saída 

do Dieese? Como foi isso para você? 

 

R – A minha saída foi o seguinte: na eleição de 1989, no segundo turno, o Lula 

criou equipes de programa de governo. E me botou em uma das equipes. Bem, se 

ele perguntasse eu não aceitaria. Mas como ele fez como fato... 

P/1 – Consumado? 

R – ...fato consumado! Eu não aceitar significaria, talvez, alguma coisa contra a 

candidatura dele.[risos] 

R – Bem, o... 

P/1 – Fato consumado. 

R – Fato consumado. É, então eu fui, né? Durante todo esse período eu fui muito 

amigo do Lula. Tive relações bastante próximas. Contei aí do caso da prisão, tudo 

mais. E ele sabia que eu não ia entrar no PT. A gente se encontrava, quando eu 

estava no Dieese, quase sempre. Mesmo ele estando fora do sindicato. Ele 

trabalhava com o pessoal de São Bernardo bastante. Era um sindicato muito ativo. 

Mas era contra o compromisso que a gente tinha como Dieese. Eu disse: “Bem, 

selou, eu tenho de sair do Dieese. Nós não agimos politicamente, 

partidariamente”. E aí tive de ter encontro com ministros, discutir lá em Brasília 

duas, três vezes. Buscar dados, organizar, dar declarações. Não era ainda equipe 

de transição, mas era equipe. E o Sarney tinha liberado os ministros para, no 

segundo turno, atenderem as solicitações da equipe do Collor e da equipe do Lula. 

Bem, aconteceu isso: “Então eu estou saindo do Dieese”. Era a minha decisão. 

Houve esse lance da assembleia onde eu apresentei uma carta denúncia. Carta 

tranquila mas denunciando. Não tenho o exemplar dela. Mas o Gilmar põe panos 

quentes na situação. “Olha, nós vamos fazer uma reforma geral, fazer um novo 

Estatuto, não sei o quê. Mas seria importante você ficar mais uns três meses para 

dar tempo para a gente fazer essas coisas, essa transição de uma forma mais 

tranquila”. Aí eu aceitei, porque senão era uma crise instalada muito séria. Bem, 

então foi assim que eu saí. Aí o Lula criou o Governo Paralelo. Eu fui responsável 

pela pasta de Economia. Fiquei o tempo todo até ir para o Ministério, trabalhando 

no chamado Governo Paralelo. Que não era unipartidário. Era a tal Frente 

Popular. Tinha o pessoal do PSB, alguns que se diziam do PDT. Então era a 

minha área. Fiquei nessa fase como contribuição nessa área da Economia. Mas aí 

não tenho mais nada a ver com o Dieese. A história que interessa aqui para mais 

ou menos nessa saída, né? 

P/1 – Ainda sobre o Dieese, mas sobre o futuro. Que é importante até para a 

equipe do Dieese. Quais os principais desafios que você vê para o Dieese no 

futuro? 

R – [Silêncio] Não estou preparado para essa colocação. Eu saí do Dieese. Então 

não me sinto uma pessoa que deve... Eu posso falar os desafios que o Brasil vai 

ter, aí é outra coisa. Mas do Dieese eu acho que cabe agora à equipe atual. Não 

interferi em nada das duas equipes que me substituíram. Eu acho que não cabe a 

mim falar sobre isso. O que eu acredito é que seguindo a metodologia, a gente 

sempre teve de colocar os problemas em comum, refletir sobre eles, discutir o que 

é prioritário, e o Dieese vai encontrar. Porque, inclusive, eu estou afastado do 

movimento sindical. Ele mudou muito também desse período. O Brasil de 1990 era 

um Brasil vencedor. A Centrais tinham se imposto em um momento ruim em 

termos econômicos, mas os trabalhadores estavam ganhando. A partir daí 

perderam, perderam, perderam... Então a situação é completamente diferente, 

não dá para opinar. 

P/1 – Agora, voltando um pouco para você mesmo. Você disse que é casado. Tem 

filhos? 

R – Três filhos, três netos. 

P/1 – Qual o nome deles? 

R – Suzana, Pedro e Paulo. 

P/1 – Os filhos, né? 

P/2 – O que eles fazem? 

R – Suzana é jornalista, o Pedro é engenheiro de software e o Paulo é 

economista. 

P/1 – E os netinhos? 

R – Os netinhos ainda não têm profissão. [risos] 

P/1 – [risos] Os nomes? 

R – Artur, Tatiana, e Gabriela. 

P/1 – Como que seus filhos... você tem toda uma trajetória, uma história... Como 

que eles, seus filhos vêem sua história, a história desse pai? 

R – Olha, /eu acho que vocês têm que perguntar para eles. [risos] Para eles é 

muito desgastante. Porque o diretor técnico do Dieese viaja muito. Eu sempre quis 

ter uma presença grande com os filhos. Tive o bastante. Mas em determinados 

momentos eu não estava presente. Nada muito grave, mais grave pela mulher. 

Quando morreu a mãe dela eu estava, nem me lembro, acho que estava no Rio 

Grande do Sul. Então não podia estar dando assistência. E ela precisava ir para a 

Bahia, onde morava a minha sogra. Bem, tem coisas desse tipo. Agora, tem 

coisas hilariantes. A minha filha Suzana, no colégio dela, em uma aula lá de 

ginástica com o professor Jair, houve uma discussão. E ele fez coisas que ela não 

gostou. E o grupinho dela não gostou também. Disse: “Ó, Jair, você sabe, se você 

fizer isso [risos] eu peço para o meu pai me ensinar como faz greve e vou fazer 

uma greve contra você”. [risos] Essa é a situação da Suzana. Todos eles 

conheceram bem o Dieese. A Suzana mamou no Dieese, porque nos sábados eu 

compensava as horas naquele período que, em 1968, eu trabalhava quatro horas 

no Dieese e oito no metrô. Quando não dava para fazer nos dias úteis, eu fazia 

oito horas no sábado para compensar o Dieese das horas que eu não tinha 

trabalhado. Era para ficar louco... Mas então foi isso. O Pedro teve algumas 

passagens. O Paulo conhece todo mundo. A nossa turma era muito unida. Tinha 

as festas de aniversário da filha da Annez, dos filhos do Mauricio, dos filhos do 

César, dos meus filhos. Ou mesmo as festas de fim de ano do Dieese. Aí o 

pessoal se reunia. Havia uma integração, uma visão pelo menos de colaborar, 

saber o que o pai está fazendo. E apoiar da maneira possível o que a gente fazia. 

O Pedro, algumas vezes, para ver programa de computador, que ele entende: 

“Olha, estou com essa dificuldade, como que você faz?” Ele se dispunha a estar 

presente. 

P/1 – E a sua esposa? 

R – Minha esposa considera o Dieese uma forma de realização. Ela trabalhou um 

pouco no início da educação sindical... 

(FIM DO CD 02) 

R – ...que o Dieese fez, antes de surgir a Escola Sindical, dando alguns cursos. 

Inicialmente eram esporádicos, para as diretorias do ABC, principalmente. Aí ela 

passou a ter um trabalho de formação de equipe com o pessoal dos Condutores 

de Veículos. Ela estava registrada. Alguns dos diretores foram presos no projeto 

da Caderneta de Prestes. E um dos dirigentes, o tesoureiro da época, teve de ficar 

a noite inteira respondendo interrogatório, ameaçado de pau-de-arara lá no DOPS, 

para dizer que minha mulher era a filha do Prestes. Então ela também viveu..., por 

sorte, né? Nosso amigo aguentou firme. Mas até ela explicar que não era, ela ia 

sofrer algumas torturas. Mas tortura, só as dificuldades. Porque o Dieese não tinha 

horário. Ela foi a que mais sofreu com a ausência. Teve de assumir problemas em 

momentos em que eu estava fora do país. E respostas tinham que ser dadas. 

Então ela me apoiou o tempo todo. Mas para ela o Dieese foi mais peso do que 

alegria. 

P/1 – E dessa sua passagem pelo Dieese, que lições que você tirou para a sua 

vida? 

R – Para a minha vida... Eu passei a acreditar em uma frase do Celso Furtado, 

que eu repeti ainda ontem para não sei quem. Ele foi paraninfo desse Kalil que eu 

citei. Lá da faculdade, da JUC e tal. E a formatura dele foi no Teatro Municipal e eu 

fui assistir, porque era amigo do Kalil. Eu nunca tinha assistido à uma formatura 

universitária: “Municipal? Vamos ver”. E o discurso do Celso Furtado era: “Se você 

faz política, você tem duas maneiras para fazer política”, falando para os 

economistas, "Uma, entrando em um partido político, e aí cumprindo as tarefas. 

Subindo na hierarquia ou não. Sendo um militante decente do teu partido. E a 

outra, é sendo um bom profissional”. Eu vim para o Dieese quando saí de uma 

organização, que era um partido político, a Ação Popular, e fui afastado em um 

processo meio neurótico. Na época, o pessoal que vivia na clandestinidade não 

tinha porque serem os mais equilibrados do mundo. Mas, saí, de um partido, que 

nós queríamos que fosse um partido. E fui para um lugar onde eu tinha de exercer 

minha atividade profissional. E foi onde eu me realizei. Então levo isso para a 

frente ao longo da vida. 

P/1 – De alguma forma essa passagem ela contribuiu para o exercício de outras 

atividades como ministro do Trabalho, carreira política? 

R – Ah, sem dúvida, sem dúvida. Eu recebi, não me lembro o nome dele, um 

antigo, secretário do Trabalho, que é o ministro do Trabalho nos Estados Unidos, 

que veio visitar o Dieese em uma missão qualquer. Ele não era mais do governo 

americano. Ele tinha sido responsável pela recuperação do Japão. Era um 

economista. Pela idade talvez já tenha morrido, mas não sei se morreu. E ele 

disse: “Olha, as pessoas que estão mais aparelhadas, mais... “ Não é 

aparelhadas, não foi esse o termo que ele usou. "Mais em condições de exercer 

cargos de governo, são os que passam pelo mundo do trabalho.” E é verdade. 

Porque em uma situação como do Dieese, no Brasil é Dieese, mas pode ser um 

outro organismo qualquer. Você é obrigado a pensar em uma forma mais ou 

menos holística, são vários interesses. Você tem de fazer opções. Você tem de 

negociar. Você tem de negociar para ter os apoios. E tudo isso é o que se usa 

quando você é governo. Então para a atividade de Ministério, sem dúvida. De 

secretário de Emprego também. Para deputado não. Deputado, minha experiência 

é muito pequena. Lógico que serve porque a forma de no Dieese você ter 

trabalhado com um leque de categorias, de opções, de problemas, praticamente 

você fala de álcool e eu sei do que se trata e as influências do álcool. Controle de 

natalidade eu sei o que é e como é. Se é importante, se não é. Siderurgia, 

gargalos de desenvolvimento. E vai por aí afora. Porque tudo isso a gente teve de 

enfrentar em ponto pequeno, em ponto grande, como diretor do Dieese. Mas não 

é só ser do Dieese. Se pudessem, as pessoas que tentassem resolver os 

problemas do trabalho, ficariam, começando a resolver os problemas do país. 

P/1 – O que você achou de estar participando desse Projeto Memória Dieese, com 

o seu depoimento? 

R – Olha, eu aprendi que você tem de estar aberto para várias profissões. A minha 

ideia   aqui era ter uma equipe multiprofissional. Brincava muito com a Sonia, do 

Rio de Janeiro, que estava faltando um antropólogo, quando ela estava entrando 

no Dieese. Precisamos ver a realidade de várias maneiras. É importante você ter 

alguma noção de história para não errar tanto. Não que nada disso que eu falei vai 

se repetir na história do Dieese. Isso é um negócio muito particular, dependeu das 

circunstâncias do tempo que eu vivi, da equipe maravilhosa que eu tive. Não fui 

eu, foi o grupo que trabalhou comigo aqui e nos estados. Então contar um pouco 

dessa história serve para algumas coisas. No dia dos 50 anos, eu ia fazer um 

discurso mais longo. Mas quando o João Paulo não foi cassado, eu votei pela 

cassação, porque ele tinha mentido. Apesar do João Paulo ser um grande cara, 

não estou tirando os valores dele, mas ele tinha faltado com a ética. Eu votei pela 

cassação e saí porque tinha uma outra coisa [pra fazer]. Quando cheguei em 

casa, liguei a televisão, ele tinha sido absolvido. Eu disse: “Eu não volto mais para 

o Congresso. Aqui eu não estou feliz, não é uma coisa boa.” No outro dia de 

manhã eu fui andar, eu ando sempre, preciso praticar exercícios por causa da 

diabetes. Quando eu ando, eu penso e reflito. E uma das coisas que eu refleti foi a 

seguinte: “O Dieese foi feito por um número pequeno de pessoas e hoje tem 

duzentas pessoas. Mas, de primeiro, era um núcleo de cinco ou seis pessoas, 

depois foi crescendo, mas crescendo como podia crescer, sabendo como estava 

dando cada passo. Era um negócio importante que teve uma participação muito 

grande na história do Brasil". O chamado Novo Sindicalismo tem tudo a ver com a 

tese de doutorado da Annez Andraus. Que indicou: “Nós precisamos ir para uma 

categoria dinâmica, que vai estar na frente do próximo momento”. Vocês 

perguntaram sobre o futuro do Dieese. Na época estávamos fazendo a mesma 

pergunta: "O que nós vamos fazer no futuro?" Então, [os trabalhadores] da 

indústria automobilística era a categoria escolhida, e deu certo. Foi o Sindicato 

[Metalúrgicos de São Bernardo] que cresceu e entrou para a história do Brasil. 

Muita coisa que aconteceu na Constituição do Brasil foi por causa do Dieese. Nós 

conseguimos colocar muita coisa na agenda política nacional. Então é possível a 

um órgão pequeno colocar seu tijolinho em uma grande construção. Eu acho que 

o Dieese não colocou um, colocou vários tijolos. Se eu continuasse no Parlamento, onde eu não estava feliz, a ideia   era: “Não dá! Para. Vamos ver se eu não gosto assim. Como que é um bom Parlamento? O que se deve fazer.? O que se pode fazer em um mandato integral, não chegando em uma época de 

denúncias e CPIs. Quatro anos, o que pode ser feito?” E o exemplo a seguir seria 

o exemplo do Dieese. Então isso é importante. Quer dizer, a história do Dieese 

pode ser a história de muitas organizações. Elas todas vão começar pequenas, 

não vão ter possibilidade de enfrentar o governo militar do jeito que a gente 

enfrentou, enfrentar patrões do jeito que a gente enfrentou. Mas tem outros 

enfrentamentos, outras características que cada uma das organizações 

certamente vão ter pela frente. E trabalhar com elas, modificar situações. Então é 

um belo exemplo. A gente passa, mas vai ficar um depoimento. O que menos 

importa é a pessoa. O que importa é que houve uma equipe aqui, que conseguiu 

com muita integração construir o Dieese. Sobre isso, as pessoas que trabalharam 

no Dieese no meu período, posso dizer, foi um pessoal muito bem selecionado. 

Era difícil fazer seleção no Dieese, não era qualquer um que entrava, vinha muita 

gente vocacionada para aquilo que a gente achava que devia ser. Erramos muito 

pouco nesse processo de seleção. Não vou dizer que todos deram certo. Agora, 

aqui foi, espero que continue sendo, uma grande escola profissional de ação no 

social. A própria realidade do mundo do trabalho está em transformação. De 

alguma forma ela já ocorreu e a gente não sabe como que nós estamos dentro 

dela. E vai ter que descobrir os caminhos. E precisa ter aí uma massa pensante. 

Que se coloca a serviço dessa causa. Tá por aí. 

P/1 – Obrigada. 

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