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História

Dedicação e compromisso com a Saúde Suplementar no Brasil

História de: Celso Corrêa de Barros
Autor: Valdir Portasio
Publicado em: 09/06/2021

Sinopse

Infância no Rio de Janeiro. Paixão pelo cuidado com o ser humano. Amante do futebol, música e mar. Pediatra. Preocupação com a saúde e equilíbrio emocional das crianças. Participante ativo no movimento médico organizado no Rio de Janeiro. Defensor da qualidade na saúde suplementar do Brasil. Preocupação com cooperado e o paciente.

História completa

Projeto Memória Unimed Rio Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Celso Corrêa de Barros Entrevistado por Aparecida Motta e Clóvis Bucic Rio de Janeiro, 28 de setembro de 2004 Código: UMRJ_HV008 Transcrito por Ana Elisa Antunes Viviani Revisado por Mariana Correia Montenegro Pontes . P1 - Boa tarde, Dr.Celso. R - Boa tarde. P1 - Primeiro, eu quero agradecer, em nome do Museu da Pessoa, a sua presença aqui nesta entrevista para o Projeto Memória Unimed Rio e quero começar pedindo para o senhor falar o seu nome completo, data e local do seu nascimento. R - Celso Corrêa de Barros, Rio de Janeiro, 15 de janeiro de 1952. P1 - Agora, eu queria que o senhor falasse o nome dos seus pais e a principal atividade deles. R - Diógenes Sarmento de Barros, funcionário público aposentado. Ele exerceu o cargo de Delegado de Polícia durante muitos anos. Izilda Corrêa de Barros, do lar. P1 - O senhor tem irmãos? R - Tenho três irmãos. P1 - Como é o nome deles? R - Diógenes Corrêa de Barros, Deise de Barros Antunes e Lúcia de Barros Gomes. P1 - Algum deles também é médico? R - Não. P1 - Qual é a profissão deles? R - Meu irmão é engenheiro e as duas irmãs são professoras. P1 - Dr. Celso, agora eu queria que o senhor falasse um pouco sobre a sua infância, o tempo mais longínquo que o senhor lembra. Onde é que o senhor morava? onde é que o senhor estudava? R - Eu nasci no Rocha, no Rio de Janeiro. Estudei na Escola Pública José Veríssimo, que era no Rocha também, e depois fui morar no bairro do Cachambi, que fica perto do Meyer, aqui no Rio, subúrbio da Central. Fiz o meu Ginásio científico no Colégio Estadual Visconde de Cairu. P1 - Dr. Celso, quando o senhor era pequeno o senhor morava em casa? R - Não. Quando nasci, em casa. Depois, em apartamento. P1 - E quando o senhor era pequeno o senhor brincava na rua? R - Brincava. No Cachambi tinha uma calçada boa em que eu gostava de jogar bola. Então, apesar dos carros e da janela perto do prédio - de vez em quando a bola caía dentro da casa da vizinha, que não ficava muito satisfeita, mas a gente jogava muita bola ali - talvez daí venha um pouco a minha paixão por futebol. P1 - Dr.Celso, o senhor era muito travesso? R - Não. Sempre fui razoavelmente comportado. P1 - E era estudioso na escola primária? R - Era. Era estudioso. P1 - De quem era a autoridade na sua família? O seu pai ou a sua mãe? R - Meu pai. P1 - Como ele era? R - Ele era uma figura - talvez até pela profissão que ele exercia, que é uma profissão que exigia dele muita seriedade num ambiente muito conturbado, ambiente de polícia - de repente era uma figura que passava para nós uma imagem muito dura. Imagem essa que foi se modificando com o tempo, em que pareceu que ele foi relaxando mais, ficando mais tranquilo também, sem aquela necessidade de se impor tanto. E veio aí uma fase já, uma maior idade dele, pra nós uma fase muito gostosa do relacionamento. Se tornou algo bem mais próximo entre nós. P1 - E na sua casa tinha algum tipo de educação religiosa? R - Essa situação é interessante, porque meu pai é presbiteriano, protestante, e a minha mãe é católica e todos nós fomos batizados. Os filhos são católicos. Sempre convivemos com as duas religiões, mas sempre foi uma convivência tranquila. Meu pai nunca impôs essa situação, nem minha mãe. Então foi tranquila essa parte religiosa nossa. P1 - Agora eu queria que o senhor falasse um pouco sobre seus estudos na escola primária ainda. O que o senhor lembra da primeira professora? R - Eu me lembro de uma, não sei se foi a primeira. Dona Maria Conhaque, o nome da professora. Isso, eu realmente me lembro e é a lembrança que eu tenho. Mais nada. Tenho algumas outras lembranças. Uma vez, uma festa junina em que eu fiquei sozinho, já era um pouquinho maior e meus pais tinham saído. Houve lá um leilão, era um pato, alguma coisa assim e eu fiquei sem dinheiro na época. Aquilo me frustrou um pouco. Mas depois com um pouco de terapia as coisas se resolvem. P1 - Dr. Celso, nessa época da escola primária havia alguma matéria que o senhor gostasse mais? R - Não. Não tinha, assim, nenhuma preferência maior. Eu não gostava muito de matemática. Mas as outras matérias, como um todo, todas elas eu tinha uma boa relação de estudo e de aproveitamento. P1 - E o senhor sentia que havia alguma pressão por parte do seu pai ou da sua mãe para seguir determinada carreira? R - Não, nenhuma. Na realidade, nenhuma. A carreira do meu pai sempre foi muito angustiante para nós, porque era uma carreira de conflitos permanentes, uma pessoa honesta na polícia. Na realidade, mesmo naquele tempo, não era uma coisa muito fácil de se conviver, porque era um ambiente difícil. Então essa situação sempre nos afastou de qualquer ideia em relação à profissão do meu pai. Nós tivemos alguns momentos importantes de sofrimento em função da vida que ele levava, com ameaça de morte por bandidos. É uma profissão complicada. Então não houve nenhuma influência. Talvez tenha havido uma influência de tios. Eu tinha dois tios médicos. Um deles eu tinha uma convivência maior e talvez eles tenham tido influência na escolha da minha profissão. P1 - Então, Dr.Celso, vamos agora para o Ginásio. Qual foi a escola que o senhor estudou no Ginásio e como é que foi isso, esse tempo do ginásio? R - Foi o Colégio Visconde de Cairu. Naquela época você tinha concurso para entrar na escola pública. Você fazia o que chamavam de admissão. Era uma escola ali no Meyer e à época era muito boa. O ensino público naquela época ainda tinha uma qualidade superior até à rede privada de ensino. E foi tranquilo também. Até que depois veio o segundo colegial, quando então eu defini a minha escolha pra fazer medicina. E aí fiz vestibular e fui aprovado. P1 - Alguma circunstância especial levou-o a escolher a medicina? R - Não. Talvez é o que eu disse, aquela influência desses tios. Talvez, de alguma forma, tenha me encantado um pouco a beleza da profissão. Desde daquela época, a medicina está lidando permanentemente com o ser humano. Então essa situação de relacionamento, eu acho que ela foi extremamente importante e mais tarde, também, muito importante na escolha da especialidade. P1 - Dr.Celso, nessa época que o senhor era muito, muito jovem, como era a sua convivência com amigos, colegas do ginásio, do científico? Como é que passavam o tempo? Como é que era o lazer? R - Naquela época, pelo que eu me lembro, você não tinha as opções que nós temos hoje, que os nossos filhos têm hoje. Então era uma vida muito tranquila. Eu me lembro muito, eu guardo muito a história do futebol, da pelada na rua. Essa coisa me marcou, mas, no mais, eu era uma criança tranquila. Nós tínhamos alguns problemas em relação à minha mãe. A minha mãe tinha um quadro depressivo e isso foi uma coisa que sempre marcou muito a história da família, de vida. Sempre houve um certo sofrimento em função do quadro emocional que ela possuía. P1 - Mas certamente ela... então o senhor tinha convivência com médicos que iam tratar de sua mãe ou então ela ia ao hospital. Como é que era isso? R - Isso existia. O quadro da depressão é uma coisa que marcou muito, porque na realidade, ela era uma pessoa feliz, satisfeita e de repente ela mudava pro quadro depressivo. Isso, na época, para uma criança, era uma coisa que... Hoje eu entendo, mas, na época, eu vivi com um certo sofrimento, evidentemente. Era como se você tivesse a perda da mãe. Na realidade, ela estava alegre num determinado momento e, quando se deprimia, era como se você a perdesse. Isso eu acho que gerou uma infância meio triste, na realidade em função desse quadro meio sofrido. P1 - Dr. Celso, e no científico, quando o senhor então se definiu pela carreira médica? Foi também no Visconde de Cairu? R – Foi. No Visconde de Cairu eu fiz até o segundo ano. No terceiro ano eu fiz um curso, também no Meyer, que era um curso metropolitano. Naquela época, existia isso. Você fazia o terceiro ano junto com o curso e depois prestava o vestibular. P1 – Mas nessa época do científico, o senhor certamente tinha um grupo de amigos. Por exemplo, iam ao cinema? R – Ia ao cinema, ao teatro. Na realidade isso acontecia. P1 – Mas havia, por exemplo, algum gênero de filme que o senhor especialmente gostasse na época do científico? R – Que eu me lembre, comédia. Filmes românticos também. P1 – E iam a confeitarias? Iam, por exemplo, à praia? R – Ah, eu me lembro dessa situação de praia. Eu morava no Meyer, então nós íamos à praia de ônibus. Tinha um ônibus, Meyer-Copacabana, que fazia o ponto final aqui no Ponto 6. Era uma viagem terrível. Viagem de uma hora e meia. Pior era quando voltava da praia. Quando ia, a gente ia muito satisfeito, mas a volta... cansado, suado, cheio de areia. Enfrentar aquele ônibus não era brincadeira não. Mas era uma coisa gostosa, realmente, a praia e a gente morava longe da praia naquela época. Então isso eu me lembro que era interessante, gostoso. P1 – O senhor ia com seus irmãos à praia ou ia com seus amigos? R – Não, ia mais com os amigos. Eu tenho uma figura que sempre foi uma figura meio importante naquela época na minha vida, a minha irmã mais velha, que era professora de matemática, que era até a matéria que eu não gostava muito, como eu já disse. Ela foi uma figura importante que, nesse período, até eventualmente substituia a mãe naqueles momentos de depressão. Então ela foi uma figura bem importante nessa época. P1 – E bailes? Lembra de que existia essa prática no sábado, por exemplo? R – É, nunca fui muito dessa história de baile, apesar de gostar muito de música. Eu gosto mais de ouvir música e de cantar do que propriamente o baile em si. Mas eu não tinha muito essa situação de baile, não. P1 – Mas como assim música? Que tipo de música? R – Eu adoro música brasileira, esses compositores todos maravilhosos que nós temos, como o Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Milton Nascimento, Chico Buarque, Djavan. Então eu gosto muito de música como futebol. Futebol, música é uma coisa que me interessa muito. P1 – E quando jogava qual era a sua posição? R – Ah, jogava de todas as posições. Pelada não tem posição. A gente está ali para colaborar, se distrair, tentar fazer gol. Eu gostava de ser atacante. O gol é sempre o momento de paixão, o momento mais forte. P2 – Dr. Celso, quanto à música, o senhor toca algum instrumento? R – Não. Eu tenho duas frustrações: uma é não tocar nenhum instrumento; a outra é não saber nadar, porque eu também adoro o mar. A gente comentou aqui algumas coisas. Futebol, música e mar são três coisas que eu gosto muito. Mas, infelizmente eu não... Isso é uma coisa interessante porque eu fui... A minha especialidade é uma especialidade que precisa muito do diagnóstico, da fala e do exame e a música, o instrumento... A minha habilidade manual não é boa. Eu me sinto melhor falando. Possivelmente, a fase oral foi a mais importante pra mim, até pela atividade que depois eu desenvolvi, tanto na especialidade médica, como também na vida política. P2 – E nessa época de juventude o senhor cantou em alguma banda, em algum conjunto? R – Não. Porque eu sempre fui meio tímido, introvertido. Essa coisa de cantar eu só vim cantar agora, em fase mais madura da vida. P1 – Dr.Celso, foi difícil o vestibular? R – Foi muito difícil. Período tenso que continua até hoje. Quando você vê os filhos da gente é um momento... Aquela época também era muito difícil. A gente tinha que estudar muito. As provas, a concorrência. Principalmente medicina. Era muito forte. Foi um período difícil. P1 – O senhor prestou vestibular para qual escola? R – Eu prestei para a Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, que era a antiga Federação das Escolas Federais Isoladas do Estado da Guanabara, depois do Rio, que agora chama-se UniRio. E fui aprovado. Passei, acho, em vigésimo quarto lugar. E era também a escola onde esses meus tios se formaram. Antigo Instituto Hahnemanniano. Foi então onde eu fiz minha faculdade, a minha formação. P1 – Dr. Celso, o Hospital Graffrée e Guinle já era da (Ferj ?) ? R – Não. A época que eu entrei não. Mas pouco depois passou a ser o hospital hoje da UniRio e foi também onde eu fiz a minha formação dentro do hospital da faculdade, que era o Graffrée. P1 – Dr. Celso, e nessa época da faculdade, o senhor desenvolvia alguma atividade, digamos, no centro acadêmico ou alguma atividade política? R – Não. Nenhuma. Na realidade eu só fiz a minha formação e não tinha nenhuma atividade desse tipo. P1 – Muito estudo? R – É, muito estudo. Eu sofri um acidente de carro no primeiro ano da faculdade, sério, que me afastou da faculdade uns dois, três meses. Eu tinha que estudar em casa. Os colegas tinham que trazer a matéria em casa para que eu pudesse conseguir fazer as provas e ser aprovado. Foi um período também difícil dessa época desse acidente. P2 – O senhor morava então no Meyer nessa época? R – Não, nessa época morava na Tijuca, em frente ao Colégio Militar, na rua São Francisco Xavier. Essa foi uma época que eu já estava lá. P1 – Algum professor particularmente o marcou durante a época da faculdade? R – É. Logo no início, o professor de histologia, que era o Ariovaldo Vulcano, que foi o diretor da faculdade e que foi até uma pessoa que me marcou muito, porque ele me ajudou muito no período em que eu tive esse acidente. Ele esteve sempre muito próximo. E também um professor de microbiologia, que eu também não me lembro o nome, mas que também foi um outro professor que me marcou. P1 – E quando o senhor se decidiu pela sua especialização? R – Bom, primeiro eu pensava em fazer psiquiatria. Porque, como eu disse atrás, a questão do relacionamento humano e talvez até o processo, a situação do quadro da minha mãe, me interessou muito pela psiquiatria. Mas houve um determinado período que eu comecei a achar que o pediatra, de repente, era um parente muito próximo do psiquiatra. Porque, na realidade, muitos dos problemas que as crianças e os adolescentes sentem, remontam evidentemente à infância. Não é querer ser freudiano demais, mas na realidade, quer dizer, muitas das coisas que os pais, os avós colocam na cabeça das crianças, os traumas, essa situação, eu acho que isso me despertou para a pediatria, porque é um período que eu podia abordar essas questões da formação não só da saúde, mas do equilíbrio emocional das crianças, que eu poderia fazer isso de uma forma adequada junto aos pais. E aí realmente me decidi pela pediatria e fiz minha formação, internato e residência em pediatria e foi a carreira que eu escolhi, que eu me sentia muito bem fazendo o meu trabalho. P1 – O senhor desenvolveu algum tipo de pesquisa em relação a isso? R – Não. Apenas a minha prática diária, o meu dia a dia como pediatra generalista, atendendo as crianças e procurando trabalhar muito o lado emocional, procurando trabalhar muito a questão do aleitamento materno, procurando passar pra mãe a importância da doação no aleitamento, quer dizer, essa troca de amor, a mãe passando o amor pra criança através do aleitamento. E essa situação de que quem recebe isso, quem recebe carinho, afeto, proteção, amor, acaba mais tarde fazendo isso da vida. Eu tenho uma experiência interessante e triste, às vezes, quando eu fui pediatra de uma creche em São Vicente de Paulo, que era no Morro da Providência aqui no Rio, um morro muito complicado, em que uma irmã de caridade, que trabalhava na creche, me trouxe uma criança que chorava muito. Eu examinei a criança, não encontrei nada na criança e perguntei à mãe o que que tinha acontecido. Ela me disse que no dia anterior a criança tinha visto o pai ser assassinado na subida do morro. Então essa situação que a gente viveu, conturbada, de violência, em que uma criança vê o pai ser assassinado, essa marca na vida, de violência, é muito complicado que depois ela não vá mais tarde ser violenta. Então... Mas esses são casos mais extremos de situações, acho que de situações do cotidiano nosso, situação de violência que a gente vive hoje. Então o pediatra está muito próximo dessas questões na fase de formação da criança e eu acho que se nós tivéssemos, se tivermos essa visão, podemos ajudar bastante na formação da criança e do adolescente e do adulto futuro. P1 – Dr. Celso, como foram esses primeiros anos seus de recém-formado? R – Acho que foram anos bons, anos de muito trabalho. Eu tinha muito interesse pelo ambulatório na pediatria, quer dizer, eu gostava do consultório. Tem muito médico que gosta mais da parte do doente grave, da UTI, daquela coisa da emergência. E, pela formação que eu já disse, eu gostava muito do consultório. Então desde cedo eu fazia consultório. E é muito prazeroso. A pediatria é uma especialidade muito gostosa, de você lidar com os bebês, de você ver o crescimento. Eu fiz muito a sala de parto, como pediatra, na época. Receber a criança, começar a ouvir chorar, botar junto da mãe para ela curtir o filho... Então sempre foi muito agradável isso, apesar da luta pela sobrevivência, que sempre é complicada nesse período inicial, você começar a fazer seu nome, começar a ser respeitado como profissional. Mas foi um período bom. P1 – E foi aonde? O senhor já mencionou esse ambulatório no Morro da Providência, se não me engano. R – É, isso era um trabalho que eu fazia junto à Irmandade São Vicente de Paulo. A minha formação em pediatria, na época, foi no Hospital do Andaraí, antigo Instituto Nacional da Assistência Médica da Previdência Social [INAMPS], hoje Ministério da Saúde, onde eu fiz a minha residência médica. Era um serviço credenciado pela Sociedade Brasileira de Pediatria e aí fiquei no hospital. Depois fui pro posto de assistência médica em Madureira. Trabalhava no ambulatório lá e sempre fiz consultório na Tijuca, aqui no Rio, na Praça __ Penha. P1 – Nessa época o senhor já era casado? R – Não. Eu casei em 1978, depois que eu me formei, estava terminando a residência. Casei em novembro de 1978. P1 – E a sua esposa é médica? R – É médica. Eu a conheci na residência. Ela tem um ano a mais de formado do que eu. A conheci, acho, em 1976 e nos casamos em 1978. P1 – E, dr. Celso, quando o senhor começou a se interessar pelas questões políticas relacionadas à corporação médica? R – À época, nós vivíamos a situação dos convênios médicos, das empresas de medicina de grupo, seguradoras, a própria cooperativa e, na realidade, havia um fenômeno de uma certa insatisfação dos médicos, à época, com o pagamento desses convênios, como existe, de uma forma, até hoje. A partir daí eu comecei uma vinculação com a Sociedade Brasileira de Pediatria; fui indicado para ser Presidente do Comitê de Defesa da Sociedade Brasileira de Pediatria e, a partir daí, comecei a frequentar as reuniões do movimento médico, as assembléias de médicos, e aí eu comecei, nessa minha participação, a ser chamado, a me posicionar em nome da sociedade em relação aos movimentos, a partir daí foi quando efetivamente começou essa minha participação no movimento médico organizado no Rio de Janeiro. P1 – Isso mais ou menos em que época? Já é anos 90 ou anos 80? R – Acho que meados dos anos 1980. De 1980 e pouco pra frente. E eu, nessa trajetória, eu fui indicado para ser Diretor da Sociedade de Medicina e Cirurgia no Rio de Janeiro. Aí depois eu fui Diretor do Sindicato dos Médicos do Rio, presidi Comissão Estadual dos Honorários Médicos aqui. A partir daí eu fui para entidades médicas nacionais. Fui Diretor da Federação Nacional dos Médicos, que é um órgão nacional que reúne os sindicatos médicos do país e fui Diretor da Associação Médica Brasileira, onde eu fui Diretor de Defesa Profissional da Sociedade a nível Brasil, e Presidente da Comissão Nacional de Honorários Médicos. P1 – Mas eu suponho que vários desses cargos, o senhor já devia estar na Unimed, não? R – Não. Eu era só cooperado. Nessa fase inicial eu não, eu era só médico cooperado, eu não estava ainda na direção da Unimed. Eu fui candidato à Presidência da Associação Médica Brasileira. Aí eu já estava na Direção como Diretor Administrativo da Unimed. E nós vencemos em 8 Estados, mas o vencedor da eleição foi um ex-Presidente, que era do Paraná. P2 – Essa representação de classe médica envolvia disputa entre grupos? R – Sim, claro. P2 – É muito acirrado isso? R – É, aqui no Rio de Janeiro que sempre teve um movimento muito forte, tinha um acirramento dessa disputa. Nós, em 1993, esse grupo político nosso, que vinha caminhando pela sociedade, pelo sindicato, nós concorremos ao Conselho Regional de Medicina e fomos vitoriosos numa eleição que havia um grupo que já estava lá há bastante tempo. Nós derrotamos esse grupo. Fomos reeleitos em 1998 e reeleitos agora em 2003, com as renovações que acontecem de nomes, mas, basicamente, o mesmo grupo político. P2 – Esse grupo se chama? R – Causa Médica, que é o grupo ligado ao movimento médico. Evidentemente que esse grupo está representado na Unimed, mas não com essa vocação desse nome político Identidade Médica. P1 – Dr. Celso, quando é que o senhor entrou na Unimed Rio e em que circunstâncias? R – Como Cooperado em 1978 e como Diretor em 1994, como Diretor Administrativo. P1 – Eu quero, por enquanto, falar da sua vida na Unimed como Cooperado. O que levou o senhor a se filiar ou aderir à uma cooperativa de médicos? R – Olha, à época, o meu conhecimento sobre cooperativismo era muito pequeno. Essa é uma discussão que a gente trava até hoje. A falta de percepção que o médico às vezes tem em relação à cooperativa. Eu entrei como... Mas à época, era... A gente brinca até hoje como se fosse mais um convênio. Então, eu tinha lá medicina de grupo, seguradoras. Eu era credenciado e entrei na Unimed sem ter ainda a visão de que eu seria dono daquilo, apesar de ter a cota que a gente comprava lá, um valor pequeno. E entrei na busca de ter clientes para eu atender e poder fazer a prática da minha profissão e poder ter uma remuneração adequada para o meu trabalho. Então, basicamente, àquela época, era a minha visão em relação à Unimed, a cooperativa. P1 – Em 1978, como é que a cooperativa se aproximava do médico? Como que era? Tinha propaganda? R - Não. A aproximação era muito pequena. Àquela época, e isso foi uma das coisas que mais à frente tiveram uma crítica nossa, aqui no Rio de Janeiro, me parece, a cooperativa tinha um certo distanciamento do médico, não tinha uma relação muito próxima. Então o que eu sabia à época era exatamente isso. Olha, a Unimed também tem planos de saúde, tem clientes, apesar de eu ser sócio, mas não tinha essa percepção; era muito parecido, para mim, como as outras operadoras de planos de saúde - chamadas hoje de operadoras-, naquela época não eram operadoras, eram empresas, só, de planos de saúde. Então havia realmente... eu sentia um certo distanciamento, mas que aos poucos eu fui tendo uma visão um pouquinho diferente. P2 – Mas o senhor constata uma razão para esse distanciamento, mesmo avaliando à distância hoje? Porque teria sido assim nesses anos? R – É, o sistema Unimed... Quer dizer, eu conheci o fundador e fui um dos fundadores, eu acho que o sistema Unimed foi criado como uma alternativa contra a intermediação do trabalho médico. À época, havia uma grande preocupação com a entrada das seguradoras nesse mercado e efetivamente as seguradoras entraram. E depois havia, mais recentemente, havia uma preocupação com a entrada de seguradoras internacionais ou empresas internacionais. Então, eu acho que havia, naquela época, esse distanciamento que eu sentia - não sei se essa é uma verdade, mas eu pessoalmente sentia - eu acho que era próprio de um isolamento que as direções anteriores criavam em relação ao médico. Como se tivessem eles, talvez, uma importância maior do que os médicos. Então, esse é um fato que existia no início. E isso também hoje - depois a gente vai analisar isso possivelmente aqui -, mas àquela época também e isso continua até hoje, há uma diferença entre a Unimed da capital e a Unimed do interior nesse aspecto. Porque o médico no interior, de repente, está mais próximo. Na cidade grande, tudo é diferente. Competição, coisa mais selvagem. Mas, de qualquer maneira, isso não impossibilita de você buscar uma proximidade maior com o médico cooperado, com o sócio. Então, isso era uma coisa que eu acho que existia e hoje, na minha opinião, sofreu profundas transformações. P1 – Dr. Celso, vamos voltar ao final dos anos 1970 e início dos anos 1980. O senhor aderiu à cooperativa. O senhor ia às assembléias? R – No início, não. Mas depois da minha participação, como eu disse, no movimento médico, aí eu comecei a sentir a necessidade de também estar presente nas assembléias da cooperativa, porque elas são onde se decidem os destinos daquela cooperativa. Então não adiantava só ficar brigando, esperneando na assembléia do movimento sem aquela empresa que era minha, nossa, dos médicos, e que eu, talvez àquela época, não tivesse essa visão clara, eu não pudesse começar a participar ali. Aí a gente começou a participar mais e eu acho que isso foi também um dos fatores importantes que começaram a levar essa mudança de visão da cooperativa em relação aos sócios. Quer dizer, essa participação, o questionamento das ações, das práticas daquela cooperativa, daquela empresa-cooperativa ficaram muito mais fortes. P1 – Eu queria que o senhor falasse um pouco sobre esses fundadores que o senhor conheceu, o dr. Chastinet, o dr. Charles, o dr. Julio Sanderson... R – Ah, são evidentemente figuras históricas importantíssimas dentro do movimento. Nós temos também, não sei se foi citado aqui, o dr. Edmundo Castilho, que foi o fundador do sistema da Unimed - Santos, e o dr. Chastinet acompanhou durante muito tempo o dr. Castilho como vice-presidente da Unimed do Brasil e como presidente da Unimed – Rio. Julio Sanderson também, um cooperativista de primeira hora, uma figura brilhante, um orador fantástico. O próprio Arnaldo Bonfim, que foi fundador da cooperativa e que está conosco até hoje. Então foram pessoas muito importantes e que viveram um momento da cooperativa. E quando eu faço alguma crítica à essa aproximação é porque tudo isso é um aprendizado mesmo, é porque eles, na realidade, viveram um outro momento, um momento que, de repente, talvez era muito mais difícil, um momento de formação, de criação, como seria exatamente esse modelo. Então eu acho que essas dúvidas, esses questionamentos, eles deviam ter à época. Mas, de qualquer maneira, são pessoas extremamente importantes e que fazem parte da história viva da Unimed. P1 – O senhor acha que em algum momento aconteceu aquilo que se poderia chamar de “choque de gerações”? R – Acho que sim, porque de alguma forma o sistema me parece também, e eu já estou há algum tempo e talvez eu possa fazer essa análise, havia uma certa perpetuação das pessoas dentro do sistema Unimed. Mas acho que a Unimed – Rio viveu uma transição boa, que foi o fato da gente manter a experiência de alguns companheiros mais antigos, trazendo pessoas mais jovens, mais identificadas num determinado momento com o movimento, com a luta dos médicos, com a mudança de gestão da cooperativa e eu acho que a experiência desses, com uma certa ousadia desses novos que entraram e os mais comprometidos naquele momento com o movimento, com a luta dos médicos, acho que foi muito importante pro desenvolvimento da cooperativa. P1 – Dr. Celso, em que momento o senhor acredita que houve uma inflexão na trajetória da Unimed que fez com que ela se transformasse de uma cooperativa numa cooperativa-líder no mercado? Eu acho que isso foi nos anos 1980, mas eu não tenho certeza. R – Não, eu acho que isso surgiu nos anos 1990. Na realidade, quando esse grupo entrou na cooperativa, quando nós entramos em 1994, eu acho que começou um processo de virada. Começou o processo em que nós entramos e passamos a tratar a empresa não como uma empresa familiar. Nós começamos a entender que precisávamos mexer na gestão da empresa, que precisávamos profissionalizar a gestão, a trabalhar com profissionais de qualidade, preparados efetivamente para um mercado que se tornava cada vez mais competitivo. Quer dizer, nós, médicos, diretores, conselheiros, somos os responsáveis pelo caminho da empresa, pelo caminho da cooperativa, mas, na realidade, nós não temos de repente toda a formação técnica para gerenciar esse processo. Então eu acho que essa mudança da profissionalização da gestão, sem perder o comando e sem perder a possibilidade do direito e o dever de traçar as diretrizes da cooperativa, eu acho que foi um momento muito importante de mudança. Nesse momento também nós mudamos a visão do processo de comunicação da cooperativa com seus vários públicos: público externo, interno, cooperados. Nós mudamos a estratégia de marketing e nós passamos a ser muito mais agressivos no marketing, na busca de conquistar clientes. Nós, quando eu assumi a presidência em 1998, depois de ser diretor durante 4 anos, nós tínhamos 238 mil clientes. Hoje nós temos 410 mil clientes. Foi um crescimento muito importante no Rio, porque a Unimed era líder na maior parte do Brasil e não tinha essa situação de liderança no Rio. No Rio, nós éramos, talvez em market share, talvez a 3ª ou 4 ª empresa em número de clientes. Nós viramos esse jogo basicamente nesses anos 1990. P1 – Eu queria agora que o senhor falasse um pouco sobre essa sua trajetória nesses cargos de direção na Unimed – Rio e na Unimed do Brasil. R – Como eu falei, em 1994 eu fui Diretor Administrativo. Nesse período também foi aquele período que eu falei que eu fui candidato à presidência da MB (?), então havia um certo conflito na minha atividade, porque eu me desdobrava entre tocar a diretoria administrativa e concorrendo ao cargo de presidente da MB (?). Quando eu vou ver esse resultado, eu passei a me dedicar de forma mais intensa à direção e, até pela história que eu falei do movimento médico, da liderança do movimento médico, a gente conseguiu também ter um certo destaque dentro da gestão da cooperativa e eu acabei saindo candidato à presidência em 1998. Nesse período, nós tivemos uma outra chapa, então nós tivemos 75% dos votos, a outra chapa teve 25, e depois, em 2002, eu fui reeleito em chapa única para um mandato que vai até 2006. Então, eu acho que esse período foi um período de grandes transformações na Unimed. Acho que foi um período de crescimento enorme da base de clientes, de um marketing muito mais forte, um momento em que nós estamos consolidando uma política de responsabilidade social de envolvimento com a sociedade, com a comunidade, de apoio ao esporte. Então eu acho que a virada que a gente deu foi muito grande na Unimed. As conquistas de como a Unimed surgiu na Sociedade de Medicina e Cirurgia, numa salinha emprestada, depois na Rua Mayrink Veiga, depois em Benfica, no Passo do Ouvidor, chegando agora a uma moderna sede na Barra da Tijuca, que significa o crescimento, a pujança da cooperativa, a solidez de uma idéia que hoje eu tenho a compreensão, que eu não tinha quando entrei, da importância do solidarismo, da cooperação dos médicos estarem juntos, buscando resultados para todos nós, buscando distribuir riqueza para os sócios, para os colaboradores, para os parceiros, e um atendimento diferenciado e de qualidade para os nossos clientes. Acho que isso faz da Unimed basicamente hoje, não só no Rio, em que nós conseguimos a liderança no mercado, e mais principalmente no Brasil, a empresa-líder de mercado e que tem conquistado todos os prêmios. A Unimed é vista pela população como a marca mais confiável de plano de saúde, em uma pesquisa que tem 3 anos que vem sendo feita pelo Instituto Marplan, para a Revista Seleções. A Unimed é há 10 anos, pelo Instituto Data-Folha, top of mind em planos de saúde, quer dizer, é a marca mais lembrada pelo cliente no Brasil. Pesquisa que nós fizemos no ano passado mostram 94,1% de clientes satisfeitos e muito satisfeitos com a Unimed. É o maior índice de satisfação. Isso em serviço é histórico. Em uma área de serviço tem basicamente 91% de satisfação. E de clientes que foram a consultas, que foram internados, fizeram exames. Então acho que esse foi um trabalho importante. P1 – Dr. Celso, eu queria que o senhor falasse um pouco mais sobre as ações de responsabilidade social da Unimed. R – É, desde que nós... Você tinha perguntado também da Unimed do Brasil e eu não falei. Antes do segundo mandato, quer dizer, eu acho que a projeção que a Unimed Rio teve no cenário nacional fez com que a gente pudesse, de repente... E além da participação que nós tínhamos no nível central na Unimed do Brasil, fez com que gente pudesse começar a ser lembrado pra presidir a Unimed do Brasil. A Unimed do Brasil, antes que eu assumisse a presidência em 2001, ela só teve, durante 25 anos, um único presidente, que foi o dr. Edmundo Castilho. Então, foi um processo de um momento difícil. Houve uma situação de dificuldade na Unimed São Paulo, que acabou sofrendo, infelizmente, um processo de intervenção, de liquidação, e o dr. Edmundo Castilho presidia à época tanto a Brasil quanto a Unimed São Paulo. Então quando ele sai, nós assumimos um momento de dificuldade. Houve um desgaste importante à época para a marca, mas nós conseguimos e já estamos próximos de terminar a gestão da Unimed do Brasil, também ____ darmos um salto de qualidade, superarmos esse momento, equacionarmos o problema dos clientes que lá ficaram através da Central Nacional Unimed, através da nossa operadora, e conseguirmos fazer um trabalho em que hoje a Unimed do Brasil é respeitada dentro do cenário como uma instituição em que ela é hoje política e institucional de defesa de marca, inclusive por todos os outros segmentos que operam nesse mercado e acho que foi também um processo razoavelmente parecido com o que foi na Unimed Rio. P2 – Na sua avaliação, o que teria causado esses problemas que culminaram com essa dificuldade na Unimed São Paulo? R – Eu acho que tem problemas de gestão, evidentemente, que aconteceram lá, e a Unimed São Paulo se envolveu em diversos projetos – hospital, Unimed Air, uma empresa de transporte aéreo – e, evidentemente, teve problemas de gestão e de atraso em soluções que de repente deveriam ter sido tomadas bem atrás e que não foram. E com a Lei nº 9.656, a lei dos planos de saúde, na realidade foram-se criando dificuldades e que acabou num processo que quando eles procuraram pensar em recorrer aos cooperados como forma de capitalização, já estavam sem credibilidade política e infelizmente aconteceu isso. Mas agora, a situação de São Paulo é uma situação diferente, porque lá nós tínhamos duas Unimeds, que era a Unimed São Paulo e a Paulistana, que isso não existe praticamente no país, mas por questões históricas, antigas. Porque tinha sido fundada a Unimed Paulistana no início e depois ela não quis se filiar a um sistema e acabou se criando a Unimed São Paulo, mas ela está hoje lá atendendo. É a maior Unimed em número de clientes do Brasil e esse problema, graças a Deus, está superado. P2 – Esse processo em que nós estamos trabalhando, essas memórias, possivelmente vão ser vistas muitas vezes por muita gente nos próximos anos, então eu pergunto: o senhor hoje vê algum paralelo, algum alerta, alguma coisa que possa correlacionar o que houve em São Paulo com o crescimento da Unimed Rio hoje? R – Não, acho que não. O crescimento da Unimed Rio tem se dado em bases bem positivas. Nós tivemos um momento mais difícil em 2002. Nós fizemos um processo que eu acho que é um case hoje dentro do sistema, que é um processo de capitalização com os sócios. Esse processo, muito embora seja doloroso no início, de ser entendido, de ser compreendido pelos sócios, nós conseguimos aprovar com 90% dos votos da assembléia, apesar de ter sido uma assembléia difícil, e hoje, com esse resultado, nós já podemos em 2003, um ano após o processo de capitalização, ter tido um resultado na cooperativa que já fez com que nós puséssemos, distribuíssemos no final do ano, 3 milhões além da produção, e mais 5 milhões como resultado no capital dos médicos e pudéssemos até adquirir essa sede hoje. Então quase toda a parte que foi investida pelos médicos, está dentro da empresa que é deles, ou no capital deles, ou no próprio patrimônio da cooperativa. Isso é até muito interessante porque nós fizemos um processo que... abrimos a cooperativa para médicos, elevamos a cota, e hoje médicos que pagaram a primeira parcela que seria de 7,5, ou seja, através de sua produção durante 24 meses, eles já tiveram com essa distribuição de 5 milhões, uma aplicação que já transformou essa cota de 7,5, para alguns 15, para outros 20, 25, dependendo da produção. Quer dizer, foi um investimento que eles fizeram numa empresa que é deles, que eles não teriam esse retorno em uma aplicação financeira nesse país. Então, eu acho que nós atuamos no momento certo e, evidentemente, esse mercado hoje é um mercado extremamente difícil, confuso. A atuação da Agência Nacional de Saúde é hoje, em alguns momentos, também confusa. Há uma situação de se querer fazer política com essa área de saúde suplementar, com reajustes abaixo das necessidades, abaixo dos índices do setor, enfim. Infelizmente, o governo não consegue dar assistência a toda a população. Essa parte que procura a saúde suplementar muitas vezes querem exercer, na minha opinião, uma certa proteção que, no final, não é boa pro cliente. Porque as empresas precisam evidentemente manter o seu equilíbrio, se não elas não podem prestar a sua assistência. Então, no momento mais difícil que nós vivemos com a lei... evidentemente todo o setor que não era regulado, ele se sente mais à vontade e quando ele passa a ser regulado, com certas regras e constituir reservas, isso tem um lado bom evidentemente para o setor, para os clientes, mas não é possível tratar isso como se não houvesse custo – se a prótese que era três mil, em um ano ela passou para quinze mil, se uma artroscopia aumentou em um ano 300% pela inovação tecnológica – então se o governo não sentir isso, evidentemente o setor tem dificuldades, muito embora as cooperativas tenham, até pela própria formação, conseguido superar com alguma dificuldade isso, mas quem visa muito lucro no setor, de repente está começando a sair, porque ele se tornou... a margem de ganho nesse setor é muito pequena hoje. P1 – Dr. Celso, agora eu queria que o senhor falasse sobre responsabilidade social. Unimed Rio e Unimed Brasil. R – É, Unimed Rio... Nós tínhamos algumas ações isoladas na área de responsabilidade social, mas desde que nós assumimos a Unimed do Brasil, nós começamos a criar uma política nacional de responsabilidade social. Fizemos um manual de como fazer, trabalhar na área de responsabilidade social e, com isso, nós conseguimos ter um apoio muito grande do sistema no campo da responsabilidade social. E nós, na Unimed Rio, estamos aí desenvolvendo diversas ações nesse setor de responsabilidade social. A Organização Não Governamental [ONG] Criança Renascer, que nós apoiamos já há algum tempo, projeto do primeiro emprego lá do Camp Mangueira, para adolescentes de 16 a 18 anos, o apoio à Casa dos Artistas, Retiro dos Artistas, onde nós criamos um ambulatório, disponibilizamos para os artistas que vivem naquela casa o atendimento domiciliar. Temos hoje um médico que vai semanalmente àquela casa. Agora também o trabalho do Zeca Pagodinho, que é a Orquestra Mata Virgem, um grupo que ele trabalha de músicos; são 300, 400 crianças aprendendo música em comunidades carentes. Enfim, eu acho que esse é um trabalho que me deixa muito orgulhoso de ter podido a Unimed do Brasil começado a ter capitaneado isso e a Unimed Rio adotou a filosofia de estar ligada à responsabilidade social que hoje é um caminho, eu acho, graças a Deus, sem volta neste país. Porque as empresas que não estiverem comprometidas com a responsabilidade social tenderão a sumir no mercado. Nós tivemos uma pesquisa muito interessante, feita pelo Instituto Brasileiro de Relações com o Cliente, da Revista Consumidor Moderno, em que ela mostra o que é mais importante para o cliente no atendimento. O cliente fala em qualidade no atendimento e responsabilidade social em terceiro lugar já. Para os mais jovens, a responsabilidade social está em segundo lugar já. Então, eu acho que isso é uma mudança da sociedade brasileira, efetivamente, uma conscientização das empresas e da população, do cidadão. Se nós não desenvolvermos esse caminho, achando que só o governo vai poder buscar essas soluções, nossas alternativas começariam a ficar bem mais restritas. Então, eu acho que a gente tem tido um caminho muito importante e com a Unimed do Brasil e a Unimed Rio eu me sinto extremamente feliz por estar podendo presidir essas entidades e poder estar participando de forma ativa desses processos. P1 – Dr. Celso, e essa relação, essa vinculação da, digamos assim, marca Unimed com esportes, eventos esportivos? Isso foi da sua administração no início? R – É, aqui na Unimed Rio, foi. As Unimeds no Brasil tinham alguma vinculação com basquete, com alguma situação desse tipo, mas eu acho que nós ajudamos a, no Rio, lançarmos isso, e, no Brasil ,ajudamos a consolidar isso. Acho que essa é também uma situação muito importante. Esporte evidentemente é saúde, prática esportiva, qualidade de vida. Eu penso que essa foi uma opção muito interessante. No Rio, logo que assumimos, nós começamos a fazer o patrocínio do Fluminense, tivemos também, até hoje temos, as placas de assistência médica no estádio do Maracanã, que deu grande visibilidade à marca também e há uns dois anos caminhamos também para alguns atletas olímpicos, os chamados esportes amadores, na época. Com apoio à dupla de vôlei, Ana Paula e Sandra, Juliana Veloso, Cássio Durano, salto ornamental, enfim, acho que é um caminho muito importante. Os painéis, também, de campo em todos os estádios do Brasil. Aí já é uma ação da Unimed do Brasil, dando visibilidade à marca, colocando a marca junto de marcas top aí no mercado, mostrando a pujança da Unimed e nós temos uma situação que é muito interessante, que é o fato de que nós estamos em mais de 80% dos municípios brasileiros. Você não tenha nenhuma operadora de saúde que esteja presente em quase todo o Brasil como a Unimed está presente. Então, eu acho que o apoio ao esporte tem sido fundamental. E uma coisa que me deixa muito feliz, também, foi agora o apoio que nós fizemos ao comitê paraolímpico brasileiro, sendo a assistência médica oficial do comitê paraolímpico brasileiro, que está tendo aí resultado muito bons, que a imprensa toda divulga e fala até do apoio. Quando nós assinamos esse contrato, houve um fato que eu acho que foi importante. O presidente do comitê paraolímpico, o Vital, ele nos contou que à época havia uma operadora de planos de saúde que queria até patrocinar, mas não queria ver o nome dela vinculado ao comitê, por causa dos portadores de deficiência e eles não aceitaram isso. Nós temos o maior orgulho de estarmos patrocinando e podermos dizer que nós somos a assistência médica oficial do comitê paraolímpico brasileiro. É um incentivo ao esporte. É um incentivo de atletas portadores de deficiência e que são fantásticos na sua luta, na sua superação. Então uma coisa que eu acho que o esporte é importante, não só na saúde, mas principalmente no esporte competitivo, no futebol e outras modalidades, é que o esporte gera paixão, gera alegria, tristeza em alguns momentos com a derrota. Mas isso é fundamental para o ser humano. Essa felicidade de torcer, de vibrar, de eventualmente sofrer também. Então eu acho que uma marca que se associa à responsabilidade social, ao esporte, ela tende a cada vez se tornar mais forte, mais visível, mais ligada ao seu cliente, à população, à própria sociedade. P1 – Mas eu sei que a Unimed também patrocina eventos culturais, não é? R – Também. Isso tudo está ligado à paixão. Futebol, arte, música. Nós temos feito aí alguns patrocínios de música brasileira. Somos um dos patrocinadores do Claro Hall, que é a maior casa de espetáculos do Rio, do Bar do Tom, que é uma legenda na história do Rio de Janeiro, a presença do Tom Jobim lá com o Albérico, o Albérico que hoje é um grande amigo nosso e que tem muitas histórias aí a contar do Tom Jobim, Vinícius de Moraes, memoráveis aquelas histórias do Vinícius. Então nós temos uma manifestação, um apoio à cultura. Nós fizemos apoios à peças de teatro e a diversos espetáculos de música. Agora, estamos também fazendo um apoio ao Altair Veloso numa ópera que ele construiu, fantástica, que vai ser um projeto que eu acho que vai ser espetacular e a gente sabe a dificuldade para a música, para a cultura, para a arte enfrentar no Brasil, muitas vezes com essa falta de apoio e isso faz parte do que eu disse da participação da iniciativa privada nesses projetos. Eu acho que, até o governo hoje tem, me parece, a visão clara de que tem que criar essas parcerias com o setor privado para que o desenvolvimento e a qualidade de vida nesse país possam melhorar. P2 – Dr. Celso, nós não exploramos ainda, talvez, sobre a participação do senhor pessoalmente e do corpo todo da Unimed nessas convenções anuais ou periódicas, tanto da Unimed Rio, quanto das Unimeds do Brasil. R – A Convenção Nacional Unimed é um evento da Unimed do Brasil. Nesse período de gestão nosso, nós fizemos a primeira em Goiânia, a segunda em Florianópolis, a terceira em Fortaleza e agora essa que é a última da gestão vai ser aqui no Rio de Janeiro. É um evento em que participam as Unimeds de todo o país e que nós procuramos discutir os principais problemas do setor, trazer profissionais qualificados do mercado para falarem sobre. Agora, nós vamos ter nessa convenção, vamos falar sobre a Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médico (CVHPM ?), as tabelas dos médicos, representantes de entidades, vamos discutir os aspectos jurídicos em relação ao cooperativismo, vamos ter lá o Paul Singer falando sobre cooperativismo, que é um dos temas de importância também do governo, enfim, palestras motivacionais. É o momento de reunião do sistema para fazer as reflexões dos problemas, das angústias que nós vivemos, dos êxitos e a busca de soluções, crescimento nas determinadas áreas e é o momento também de confraternização nosso. Temos alguns eventos sociais importantes para reunirmos o grupo. Este ano nós temos uma expectativa de que possamos ter, no Rio de Janeiro, quase que 2 mil congressistas, convencionais e esperamos que esse seja um evento de sucesso, como foram os outros que nós tivemos até hoje. P1 – Dr. Celso, eu queria perguntar sobre alguns serviços, vamos dizer assim, da Unimed, que eu queria que o senhor falasse sobre eles e se o senhor teve alguma participação na criação. Um é o SOS Unimed. E o outro é o Home Health Care, da Unimed Rio. O senhor pode falar sobre isso? R - Todos os dois aconteceram nesse período. O SOS Unimed é um serviço de atendimento domiciliar de urgência. É um serviço importantíssimo porque salva vidas evidentemente, porque nós temos ambulâncias e médicos preparados e equipados para atender o doente na sua casa, em qualquer emergência. Se puder solucionar o problema lá, faz o atendimento, senão, encaminha para algum dos hospitais credenciados pela Unimed. Home Care também é um conceito relativamente novo que é, de você, doente, tendo condição de estar fora do hospital, você poder acompanhá-lo em casa com fisioterapia, com visitas diárias ou semanais de um médico para facilitar a recuperação do paciente e tirá-lo do hospital, por causa do trauma do paciente mais crônico ficar no hospital e podendo estar em casa. Então são dois serviços que eu acho importante que a Unimed presta ao seus clientes. P1 - Dr. Celso, em sua opinião, o cliente da Unimed Rio tem clareza, ou da Unimed como um todo, tem clareza de que ele está sendo atendido por uma cooperativa de médicos? R - É, a gente tem feito pesquisas recentes que mostram uma coisa importante por clientes, que a gente já usou isso como ouro, como assinatura, é ser atendido por uma empresa que é criada e dirigida por médicos. Eu acho que hoje, me parece que os clientes têm essa consciência, que a Unimed é uma empresa diferenciada no mercado por causa de sua formação. Meus amigos de instituições financeiras que atuam na área de saúde ficam às vezes meio chateados quando eu conto que a vocação do banco é financeira. Evidentemente que ele pode ter uma seguradora, que segure vida, automóvel, residência, mas saúde não é a vocação desse setor. Saúde é a vocação que nós temos. É a vocação da Unimed. É a vocação de uma cooperativa que tem 100 mil médicos praticamente no país e que são pessoas que vivem do seu atendimento, que vivem do seu relacionamento com os clientes. Quer dizer, a cooperativa distribui essa riqueza em nome dos médicos, mas, na realidade, os médicos estão praticando o que eles sabem na vida, que é medicina, que é atender os clientes. Ao contrário de uma instituição financeira em que tenha o médico dono e que credencie esses profissionais para prestar esses serviços profissionais que devem prestá-los com a mesma qualidade, sem dúvida nenhuma, mas eles teriam esse intermediário no caminho. A Unimed tem essa diferenciação quando ela é uma empresa dos médicos e se todos os médicos do país um dia tiverem essa consciência, possivelmente não existirão outras empresas, porque o médico não trabalhará eventualmente para o seu concorrente se ele tem a sua empresa. Isso seria uma questão de visão, de consciência. No interior, isso é muito comum. Algumas operadoras nem entram porque os médicos não tem interesse. Os médicos evidentemente não são obrigados a... Eles não podem negar atendimento a quem precisa, mas não são obrigados a se credenciar a uma empresa ou outra. Eles têm a liberdade de escolha nesse tipo de opção. P2 - Nessa mesma linha dessa defesa da vocação, eu lhe pergunto se existe alguma resistência ou alguma reação ao fenômeno Unicred, ou seja o outro lado da coisa. O fato de existir uma Unimed traz alguma dificuldade, uma incompreensão ou não? R - Eu acho que não. Eu acho que a Unicred também é uma opção. Também tem o histórico. O sistema também, houve um momento, que ele sentiu a necessidade de ter uma seguradora. O sistema Unimed hoje tem a Unimed seguradora, apesar de que também, quando eu falei que o banco não tem a vocação, mas a nossa seguradora trabalha também na área de saúde, mas ela tem por médico a forma de trabalhar, também foi criada e dirigida por médicos, e atua enfim em previdência privada. A Unicred é importante porque a riqueza do sistema fica no sistema. Se eu tenho, e aliás o governo Lula incentiva muito as cooperativas, fala muito das cooperativas de crédito, cooperativismo, muito embora o governo Lula não fale do cooperativismo do trabalho, que é o caso da Unimed. Eles falam do cooperativismo agrícola, de crédito... o nosso parece que eles passam rápidos, o que eu acho que é um equívoco também. Mas, na realidade, o cooperativismo de crédito é uma alternativa extremamente importante. É a riqueza ficando dentro do sistema. E lá também os médicos são sócios. Então é como se fosse a história de um banco. Essa riqueza gerando riqueza para o próprio dono, que são os sócios da Unimed, sócios da Unicred. Então eu acho que foi uma criação importante dentro do sistema e que não pode perder os seus rumos. Isso é uma preocupação, porque hoje algumas ___ querem abrir para determinados segmentos do setor. Mas isso eu acho que se ela perder essa finalidade da sua vinculação com a Unimed fica meio complicado. O futuro seria meio complicado. Mas, nesse momento, eu acho que é uma excelente opção para o sistema e para os médicos que também são donos da cooperativa de crédito. P1 - Ao longo da sua trajetória, dr. Celso, o senhor certamente deve ter vivido experiências interessantes, algumas pitorescas, outras perigosas. O senhor lembra de alguma para contar pra gente? R - Pitorescas? Perigosas? Difíceis? Quer dizer, eu acho que o momento que me marcou muito na Unimed foi esse momento do processo de capitalização que aconteceu em 2002. Eu acho que esse foi um momento que eu talvez tenha enfrentado dentro da Unimed mais difícil, a assembléia. Porque não é fácil você ter que discutir com os colegas as dificuldades e buscando alternativas. Então, eu acho que esse foi um momento que me marcou muito e eu penso que foi extremamente importante o apoio recebido. Eu tenho tido ao longo desse tempo o apoio da grande maioria dos colegas e isso me gera sempre uma preocupação muito grande, um comprometimento muito grande com a gestão. Eu brinco às vezes, talvez aí fosse pitoresco, eu já fui aplaudido em assembléia que eu apresentei prejuízo, talvez pelo apoio e pela confiança que os colegas têm, então na assembléia você mostra que pode ter uma perda num período, ganho no outro. Quer dizer, eu acho que isso, de alguma forma, mudou um pouco a consciência dos médicos no Rio de Janeiro, porque essa empresa é deles. Essa empresa pode produzir como no ano passado, eles capitalizaram, eles trabalharam, receberam a sua produção e, além disso, nós creditamos no final do ano 3 milhões divididos pela produção dos médicos. Nenhuma outra empresa faz isso. Esses 3 milhões de sobra, ou 5, ou 10, vai para o dono da empresa. No nosso caso, como houve, vai para os 4.300 sócios da Unimed Rio. Então, eu acho que essas são situações extremamente importantes e, como eu digo, eu saio de uma assembléia com êxito, eu já saio preocupado com o futuro. Eu sou muito inquieto, na realidade. Isso me leva de repente a hoje ser hipertenso também, mas eu já fiz hoje a minha esteira de manhã para ver se consigo sobreviver um pouco mais, e me leva a essa situação de constante preocupação com a gestão, com a busca de resultados, focada em resultado, para que você possa ter os cooperados integrados e satisfeitos com a gestão e comprometidos com a gestão. P1 - Dr. Celso, o senhor disse que hoje no Rio de Janeiro a Unimed tem 4.300 cooperativados. Como é esse processo, digamos assim, de abrir a cooperativa? Isso não é pensado para agora. E quando é pensado, é pensado a partir de que critérios? R - Hoje a cooperativa, de alguma forma, está aberta. A cooperativa, a princípio, nunca pode estar fechada. Mas, evidentemente, a gente vive uma situação de ter clientes para um determinado número de médicos. De repente ter 10 mil médicos para 400 mil clientes tem uma diluição que os médicos vão atender, independente da competência deles, muitas vezes um número de clientes que não vai trazer pra eles uma satisfação em termos da remuneração que ele recebe. É preciso ter um certo volume. Então você tem que crescer com base nos cooperados com o crescimento da base de clientes. Nós, nesse processo de capitalização, evidentemente abrimos a cooperativa. Entraram cerca de mil médicos ou entraram pouco mais de mil médicos pagando uma cota atualizada e isso gerou recursos para a cooperativa. Evidentemente foi importante essa alavancagem da cooperativa com esse capital e proporcionou também a abertura do trabalho para esses mil médicos. Os médicos, ao entrar na cooperativa, têm que ter, além do pagamento da cota, tem um processo de seleção do conselho técnico. Eles têm que ter especialização, enfim têm que apresentar o seu currículo, a sua experiência, para que nós possamos manter o compromisso de estarmos oferecendo aos nossos clientes um corpo de médicos que tenha efetivamente qualidade. Então é esse basicamente o processo. Essa situação é complicada no mercado brasileiro como um todo na área de saúde. Hoje, se formam muitos médicos, em muitas escolas e de repente esse mercado não comporta isso. É a velha história de você interiorizar o médico, mas de repente o médico não quer ir para o interior X, ficar longe do mundo mais moderno, da civilização. Então é uma situação difícil essa situação de mercado que nós vivemos. O Ministério da Saúde faz concurso para médicos já há algum tempo. Mas é mais ou menos assim que funciona na cooperativa o ingresso. P1 - Mas agora o senhor tocou num assunto interessante e que eu gostaria de fazer uma pergunta a respeito dele. O Conselho Regional de Medicina tem alguma atuação em relação a isso que a gente pode chamar de proliferação dos cursos de medicina no Estado do Rio de Janeiro? R - O Conselho busca atuar politicamente para que se evite essa criação de novas escolas médicas. Na realidade, até que se busque também avaliar a qualidade de algumas que muitas vezes estão formando profissionais que não têm uma capacitação ideal para exercer a profissão. Então, o trabalho do Conselho é um trabalho político, é um trabalho de persuasão das autoridades, da população no sentido de que contra a abertura de novas escolas médicas e até eventualmente, numa situação mais dramática, o fechamento de algumas que não tenham qualidade para oferecer de ensino para os seus alunos. P1 - Como é que o senhor concilia todas essas atividades relacionadas à direção dentro da Unimed, a prática médica e, digamos assim, a militância política dentro da corporação? R - Na realidade, não é muito fácil e hoje evidentemente eu sacrifiquei uma das minhas atividades que foi a prática médica de consultório. Hoje, exerço muito pouco porque essa atividade, principalmente na direção da Unimed, me toma todo o meu tempo. E atividade política a gente sempre arruma um tempinho. Às vezes no final da tarde, às noites pra poder trabalhar e ajudar os colegas que estão mais diretamente envolvidos nessa luta, porque todas essas lutas são fundamentais, porque eu tenho clareza de que se o movimento médico estiver organizado e não estiver lutando pelos seus direitos, dos médicos, da população, como a saúde e a qualidade, evidentemente, todos nós que estejamos nas cooperativas, ou em outros segmentos, vamos sofrer com essa situação. Então, eu acho que ter a consciência da importância de estar presente na luta dos médicos e estar comprometido com esse processo, eu acho que é muito importante na nossa direção da cooperativa. P2 - Nessas suas atividades múltiplas de prática de medicina, direção, representação, o senhor se vê prejudicado na relação com a família? O senhor é cobrador por isso? R - Sem dúvida. Na realidade, muito embora a família acabe acostumando um pouco, é complicado. Eu já tenho dois filhos, uma com 24 anos, que é a Paula, o Celso com 22. Paula já se formou em medicina e o Celso está no 5º ano de medicina. Eles já estão meio acostumados. Mas, evidentemente que sentem essa situação. Mas isso faz parte do momento, da vida, da escolha. Tem algumas outras compensações, mas a gente procura sempre estar próximo, sempre estar atento à vida deles, sempre estar procurando estar sentindo, como eles estão caminhando, as dificuldades, participando das alegrias, enfim, tem que se dar um jeito. P2 - O senhor relata dois filhos que seguiram a carreira médica. O senhor vê aí alguma influência direta sua ou é apenas um exemplo? Ou talvez um outro motivo? R - Eu não sei se eles tiveram... talvez vendo os pais, de alguma forma, com êxito, apesar da dificuldade da profissão. Pode ser que eles tenham seguido nisso. Eu confesso que pessoalmente eu senti muito orgulho com a escolha deles. Mas a gente nunca sabe como isso se passa na cabeça deles. Pode ser que eles tenham sentido algum nível de influência, mas eu acho que de forma direta, decisiva não existiu. Existe a preocupação. Hoje o mercado de trabalho como a gente falou aí é extremamente difícil. Eles enfrentaram a universidade pública. Eles dois estudam na Universidade Federal Fluminense. Greves sucessivas, desânimos diante desse caminho. Está estudando e daí fica dois meses, três meses em greve. Quer dizer, perdem férias. Emocionalmente, isso mexe com eles. Mas estão caminhando. P1 - Dr. Celso, o senhor relatou um momento da sua trajetória dentro da Unimed que foi assim, digamos, de uma certa tensão, a questão da assembleia, da capitalização. Agora eu queria que o senhor relatasse um momento seu dentro da Unimed que foi de muito êxito. R - Eu acho que nós tivemos muitos momentos de êxitos. Primeiro deles, acho que foi a vitória na eleição em que nós tivemos duas chapas, em 1998. Foi uma eleição histórica na Unimed. Compareceram dois mil médicos pra votar, dois, três mil sócios. Isso nunca existiu. Os médicos esperavam, porque era um sistema antigo de votação, de cédula, só tinha uma urna, às vezes 1 hora, 1 hora e meia. Desses dois mil, 250 não aguentaram e não votaram, foram embora. E 1.750 permaneceram e votaram. Eu acho que isso foi um momento de muita satisfação, porque deu para sentir que a expectativa que aqueles colegas tinham na nossa eleição e também já um reflexo do trabalho de 1994 para 1998, em que eu, por exemplo, era Diretor Administrativo, o dr. Bonfim era Presidente, o Armindo era Vice-Presidente. Então, eu acho que foi um momento, assim, de muita alegria. Foi uma vitória importante, uma campanha disputada em que a chapa de oposição colocou outdoor, fez uma série de agitos, menina na porta, ___ de cirurgiões para ___voto, boca de urna. E nós vencemos a eleição. Esse foi um momento muito bom. E a cada assembléia para mim tem sido... (Fim do 1º CD) P1 - Então, dr. Celso, o senhor estava falando dos êxitos, o senhor estava falando então de que cada assembleia... R - Além da eleição em 1998, a cada assembleia, eu me sinto... termina a assembleia, assembleia vitoriosa, eu fico pensando na próxima, porque eu não consigo curtir muito aquele êxito. Eu fico pensando na responsabilidade daquele êxito e no desenvolvimento futuro. A minha preocupação, que a gente tem, eu tenho dito aqui, com a gestão. Então, eu acho que esses são momentos importantes. Evidente, muitas vezes o reconhecimento dos colegas, quer dizer, reconhecimento ao trabalho, a liderança que a gente vem exercendo, isso sempre é muito positivo. São momentos que a gente guarda com muita satisfação. P1 - E, dr. Celso, o senhor estava falando de futuro, como é que o senhor imagina, como é que o senhor sonha, como o senhor planeja o futuro da Unimed? R - Eu acho que a Unimed, no caso a nossa Unimed Rio, eu acho que a vive, como eu disse, um momento difícil, pela lei, pela atuação da Agência Nacional de Saúde. Há pouco tempo também, e ainda se vive isso, a própria dificuldade da população ter o plano de saúde, a queda da renda. Evidentemente, o país parece começar numa roda de crescimento e isso será bom para esse mercado, enfim, e eu acho que cada vez mais a gente tem que aprimorar os nossos serviços, investir na qualidade, investir na formação dos nossos colaboradores. O sistema tem uma certa vocação para ter recursos próprios, hospitais, laboratórios. No Rio de Janeiro, nós estamos pensando nisso. Talvez seja um próximo passo, a construção de um hospital Unimed no Rio de Janeiro, já que nós não temos serviços próprios, só serviços credenciados. Só essa construção, caso ocorra, de um hospital, eu acho que ela será um marco na história da Unimed Rio, além da sede, além de procurar ter a melhor remuneração dos médicos cooperados em relação aos outros planos de saúde. Enfim, eu estava um dia desses na Assembleia Legislativa de Vitória, nos 25 anos da Unimed Vitória, e uma deputada, que é até mãe do prefeito de Vitória, ela dizia, cumprimentava a Unimed, e dizia que a Unimed, de repente, tinha que tomar cuidado para não crescer muito mais, para não virar um INAMPS antigo. Ela fazia essa crítica. E eu, quando fui fazer minha saudação, eu iniciei dizendo para a deputada que tinha que continuar crescendo para poder oferecer a um número maior de clientes um atendimento de qualidade na área de saúde. Mas, claro, crescendo com a consciência de que tem que manter a qualidade dos serviços, com a qualidade do atendimento. Então, eu acho que esse é um grande desafio. Crescer, assumir cada vez mais a vocação que é da Unimed, que é da assistência médica, porque isso se torna, me parece, cada vez mais visível para a população. Então, vive-se o momento que a seguradora se mostra totalmente desinteressada no setor, porque o retorno para eles não é o suficiente, porque eles visam isso, e para nós não. Para nós, o retorno é o trabalho. É a remuneração adequada dos médicos, a satisfação dos clientes, poder exatamente cumprir a missão da cooperativa. Então eu acho que nós temos uma possibilidade grande de continuar crescendo e cada vez mais nos tornarmos a opção preferencial do cliente, tanto no Rio de Janeiro quanto no Brasil, quando se fala em plano de saúde. P1 - Dr. Celso, se o senhor tivesse que resumir a Unimed em uma palavra, ou em uma frase, o que o senhor diria pra gente? R - A Unimed Rio, a Unimed Brasil, ou a Unimed como um todo? P1 - Escolhe. R - Eu acho que a Unimed seria continuar e cada vez mais ser a melhor opção de assistência para o cliente no Brasil em plano de saúde. P1 - Dr. Celso, eu vou começar a encaminhar para as questões finais. Me diga como é o seu dia. Um dia típico. R - Um dia típico hoje é acordar, fazer 40 minutos de esteira e ir para a Unimed Rio trabalhar. Até, às vezes... ontem eu saí de lá às 10 e meia da noite. Quando eu vou para a Unimed do Brasil, saio daqui para o Santos Dumont, ir para a Alameda Santos, na Unimed Brasil trabalhar. Dormir, voltar para o Rio, trabalhar aqui. Eu viajo muito porque tem muitos eventos no sistema, muitas reuniões pelo país afora. Então, por exemplo, na próxima semana preciso estar em Campinas. Enfim, essa é a rotina de trabalho. Conversar, assistir um futebolzinho de vez em quando. Enfim, estar o tempo todo pensando na Unimed, pensando no trabalho. Há pouco tempo, eu estava fora do Brasil, mas a gente não consegue deixar de pensar, até porque eu fui com o presidente da Unimed de Cabo Frio, então vira e mexe nós estávamos conversando, falando, pensando Unimed, pensando nisso que vira a nossa vida, que hoje gravita em torno desse trabalho. Então, eu acho que é assim a minha rotina. P2 - E o senhor tem nenhum hobby, alguma forma de prática de esporte? Não de apreciar, mas de praticar efetivamente como lazer? R - Não. Aquela pelada que eu jogava lá atrás, quando a gente começou, na infância, eu tive um acidente de carro, eu tive uma lesão do tendão que acabou me impossibilitando de jogar. Joguei um pouquinho de tênis. Mas hoje eu tento fazer, isso eu lembro que eu falei, um aeróbico para a saúde, para preservar a saúde. Como a gente diz, o melhor plano de saúde é viver e o segundo melhor é a Unimed. Então, eu estou tentando seguir o slogan. P2 - E nesse seu relato, se alguém usar a palavra da moda e disser que o senhor é um workaholic, o senhor vai concordar ou discordar? R - Quem sabe? É isso aí. P1 - Dr. Celso, é difícil ser Presidente da Unimed Rio e Presidente da Unimed do Brasil? R - Muito. P1 - Por quê? R - Havia, numa época, uma discussão que não se devia acumular dois cargos no sistema e eu dizia, na época, que eu não sairia da Unimed Rio para assumir a Unimed do Brasil, porque eu entendo que nessa trajetória política é importante você ter a sua base consolidada e o voto na Unimed Rio é um voto direto do cooperado quando na Unimed Brasil é um voto das federações. Eu disse que o único sacrifício que eu entendia, era o sacrifício pessoal e esse eu estou fazendo. Às vezes, bate um cansaço de muita viagem, de muita tensão. Eu sou o representante na Câmara de Saúde Suplementar de algumas cooperativas em Brasília. Enfim, estive na CPI dos planos de saúde falando pela Unimed. Então, você tem momentos de muita tensão, de muita angústia e de muita responsabilidade também, porque, na realidade, você está lidando com a saúde das pessoas, então a gente fica permanentemente ligado para que tudo possa correr bem e minimizar o máximo os problemas que existem. Então conciliar isso não é fácil. P1 - Dr. Celso, o que é para o senhor ser médico? R - Ser médico é, como eu falei, ser essa capacidade de relacionar com as pessoas, ajudar, auxiliar, curar, ser uma pessoa amiga, que possa ouvir - e isso, em pediatria, eu aprendi muito ao ouvir os pais, ouvir os avós, ajudá-los nas reflexões, no caminho de formação daquela criança, fosse do ponto de vista físico, ou emocional. Enfim, eu acho que essa permanente convivência com o ser humano e trabalhando, talvez, o bem mais precioso que a gente tem que é a saúde. P1 - E o que o senhor acha desse projeto que a gente está desenvolvendo de contar a história da Unimed Rio? R - Eu acho que é um dos projetos mais importantes e na realidade também, você me perguntou ainda há pouco algumas emoções, eu acho que esse também é um dos projetos que vai nos emocionar muito. Enfim, vai nos dar muito orgulho poder estar retratando a história, a vida da Unimed Rio. Eu me lembro que ainda há pouco, fazendo até uma comparação em relação ao esporte, o Brasil muitas vezes parece que esquece da sua história, de seus ídolos. E eu estava me lembrando até porque eu falei isso, porque o Romário está encerrando a carreira e foi um dos maiores jogadores de futebol mundial, por causa de um final de ___, que tecnicamente ele já não tem mais a condição de produzir, se esquece dos mais de 900 gols que ele fez e a importância que ele teve para o futebol brasileiro como jogador, independente do comportamento dele, mas como jogador, como atleta, construiu isso tudo. Então, esse projeto é um projeto extremamente importante e é mais um êxito dessa gestão aí. Não é um êxito da gestão. Dessa gestão eu envolvo aí diretores, conselheiros, colaboradores, sócios da cooperativa, porque todos eles estão dando sustentação a todos esses projetos. Então, eu vejo com muito orgulho, com muita satisfação, e penso que isso ficará efetivamente na memória da Unimed Rio. P1 - E o que o senhor acha de ter dado essa entrevista? R - Achei ótimo. Eu não gosto muito de dar entrevista. Sou meio inquieto, meio irritado. Ainda mais com esse calor aqui porque não pode ligar o ar, mas foi bom. Me senti bem, me senti à vontade, feliz de estar aqui com vocês e eu achei muito interessante. Vou até falar com o Virgílio que não foi tão ruim como eu pensava. P1 - Muito obrigada, dr. Celso, mais uma vez pela excelente entrevista. R - Obrigado. Foi um prazer. -----FIM DA ENTREVISTA----
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