Busca avançada



Criar

História

Dedicação ao trabalho

História de: Antonio Max dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/09/2013

Sinopse

Max é carteiro e adora sua profissão. Em seu depoimento recorda sua infância na Ilha de Marajó e os estudos que fez em Belém. Lembra porque decidiu fazer o concurso dos Correios e como foi transferido para Monte Dourado. Com desenvoltura fala sobre o dia a dia de um carteiro naquela região e o tipo de correspondência mais comum que entrega. Por fim, fala sobre o sonho de ver todos os filhos formados e como trabalha como se todo dia fosse o primeiro dia de trabalho, com muita dedicação ao que faz.

Tags

História completa

Eu nasci em Cachoeira do Arari, Pará, na Ilha do Marajó, no dia 24 de dezembro de 1966. Eu fui registrado sem o nome do pai e a minha mãe se chama Antônia dos Santos. Na ocasião a minha mãe era mãe solteira e não registrou o nome do pai. Ela tinha 17 anos. Ela ficou grávida, mas o cidadão já era casado e não pôde me assumir. Já tinha outros filhos no mesmo lugar. Ela morava com a minha avó, só elas duas. O pai dela já tinha falecido, meu avô. Cheguei sim a conhecer meu pai. Ele nunca me discriminou, sempre me deu pequenos presentes, mas eu nunca me aproximei dele. A gente morava no mesmo lugar na Ilha do Marajó. No caso assim, eu me aproximei dos meus irmãos por parte de pai depois de grande já, com dez, 11 anos. Tenho mais duas irmãs por parte de mãe. Ela não chegou a casar, mas ela chegou a arranjar outro homem e conviver estável com ele.

Ele não chegou a me criar porque quando ela chegou a ficar com esse outro rapaz eu já vim morar em Belém com um tio, irmão dela. Eu vim com 15 anos pra Belém. Eu fui criado parte do tempo com a minha avó porque devido as dificuldade na Ilha do Marajó minha mãe teve que sair pra vir trabalhar em Belém. Ficou morando só eu e a minha avó na ilha. Minha casa era simples, de chão de terra, cercada de madeira mesmo, muito simples, coberta de palha. Casa típica da ilha do Marajó. Era no meio do campo. Cachoeira do Arari é o município, só que no Retiro Grande onde a gente morava mesmo, ele é um distrito do município de Cachoeira do Arari. Um lugar muito legal, tem rio, os animais são criados soltos, búfalo, cavalo. Além de estudar a gente brincava, jogava bola, tomava banho de rio, pescava. Eu lembro que acordava, a primeira coisa era a escola, geralmente. Eu estudei os primeiros anos do ensino fundamental numa escola que ficava distante assim, uns cinco quilômetros de casa, na beira do rio. Então a gente tinha de ir pra lá.

No inverno era a pé, com shorts, descalço, levava toda roupa, os cadernos, tudo num saco. Por causa da chuva, da lama, tinha muita lama. Ao chegar na escola a gente ia tomar um banho no rio mesmo, trocava a roupa pra poder começar a estudar. A gente tomava café em casa, geralmente só café preto com bolacha água e sal. Estudava até onze, onze e meia, merendava. A escola era na casa da própria professora, era tipo uma fazenda, só que a casa era muito grande, tinha as salas, a gente estudava lá mesmo. Isso nos primeiros anos até a terceira série. Estudava bastante aluno, faixa de 20, 25. A escola tinha uma espécie de convênio, que nesse tempo a professora dava aula, só que ela optou em dar aula na própria casa dela. Era melhor do que ela ir todo dia pro grupo, que era longe. Acredito que foi numa faixa de uns seis, sete anos que aprendi a ler.

Caminhava de volta pra casa. A gente saía às 11 horas, onze e meia, mais ou menos, numa faixa de uns 30, 40 minutos. A base da alimentação no Marajó ainda hoje é peixe e farinha. Mas geralmente tinha em casa feijão porque a minha avó também já era aposentada na época. E a minha mãe trabalhava em Belém, provia a gente. Geralmente em casa tinha feijão, arroz. Pescava a minha avó e depois de maiorzinho pescava eu, quando não a gente comprava. Dá peixe de pele, traíra, aracu, piranha, essas coisas assim. O anzol era de vara de pescar, aquelas varas artesanais mesmo que a gente fazia. Pegava a varinha, cortava no mato e fazia. De isca camarão. A gente ia de manhã cedo pegar o camarão pra poder pescar. Pescava mais de final de semana. Lá se a gente quiser pescar todos os dias a gente pesca, a gente pega pro almoço, pro jantar.

Farinha a gente comprava porque a gente não tinha roça. Depois eu fui estudar no grupo mesmo da localidade que a gente morava, que era mais próximo, pertinho de casa. Fiz até a quinta série. Eu estudei mais ou menos uns três anos, ainda fiz duas vezes a quinta série, depois parei. Eu gostava principalmente de Português. A gente estudava só Português, Matemática, Estudos Sociais, Ciências. Eu era muito franzino, magrinho e na horas da brigas geralmente eu apanhava . A principal brincadeira era a bandeirinha, queimada, bola, futebol mesmo. Eu jogava no gol e na zaga. Uma época de outubro o meu tio foi pra uma eleição, ele disse: “O Max está aqui perdendo tempo”. Eu estava com 15 anos na época, 14 pra 15, ia fazer 15 em dezembro. Ele perguntou se a minha mãe deixava eu vir com ele pra morar em Belém, no Coqueiro e ela aceitou.

Minha mãe tinha voltado já. Nessa época ela já tinha um outro marido e tinha mais uma filha. Eu já estava com 15 anos, quando minha irmã nasceu eu tinha 13 anos. Foi uma convivência de um ano, dois anos. Eu, na verdade eu conheci o marido antes. Fui morar em Belém, no bairro do Coqueiro. Meu tio era mestre de obra, construção civil. A princípio eu fui pra estudar, só que ele me botou pra estudar à noite, durante o dia eu arranjei um emprego de vendedor de pipoca na rua, desse carrinhos assim que vendem aquela pipoca pronta. Era de um amigo meu, da Cidade Nova. Pessoa conhecida, fiz amizade e consegui isso. Eu saí do Retiro Grande com a quinta série, então eu fiz a quinta e a sexta nesse colégio, Joaquim Viana, em Coqueiro. Fiz a quinta, a sexta, a sétima e a oitava. Em seguida eu passei pra fazer o ensino médio no colégio Deodoro de Mendonça, colégio público. Fiz o primeiro ano, no segundo ano eu passei pra escola técnica. Na época o próprio professor do Deodoro de Mendonça aconselhava a gente a fazer as provas da escola, que era escola técnica, era uma garantia maior de emprego, era um curso técnico. Por isso eu fiz a prova, passei e fui fazer. Eu concluí a escola técnica no meio de 91.

Eu fiquei procurando o estágio, só que não arranjei porque era difícil. Fazia uma coisinha aqui, uma coisinha ali, trabalhava só com meu tio na área de construção. Depois que eu comecei a estudar o ensino médio, comecei a trabalhar com ele, área de construção, carpintaria, essas coisas. Passava o dia trabalhando. Geralmente dava uma folguinha porque ele sabia que eu estudava. Mas ele sempre foi muito bom comigo. Eu sei fazer serviço de carpinteiro, só não sei fazer de pedreiro, mas de eletricista, de carpintaria. Trabalhava, eu gosto de fazer até hoje. Fiquei um tempo trabalhando com ele, só que nessa época, praticamente no mesmo tempo que eu me formei, eu fiz a prova dos Correios. Em Belém concurso é muito divulgado, todo mundo sabe e eu queria arranjar um emprego mais estável. Na época muita gente fazia, os meus parentes fizeram e eu me inscrevi e fiz também. Na época eu tinha o ensino médio e a prova era nível de quinta série, em 1991. Era prova pra carteiro, era o atendente comercial que na época chamava executante operacional e outro cargo. Ganhava uma faixa de três salários mínimos, mais os benefícios, tíquete, o vale alimentação, cesta. Era razoável. Eu fiz o concurso no meio de 91, só que era muita gente.

Na época que eu fiz foram 14 mil só pra minha vaga, pra carteiro. Fui o nono. Fiquei esperando em Belém e no final de 91, dezembro já, os Correios mandaram um telegrama pra casa que era para eu ir fazer os exames, na Presidente Vargas. Eu fui. Fiz os exames em janeiro, sei que no dia 6 de fevereiro de 92 eu assinei a minha carteira. No dia 12 eu já estava aqui em Monte Dourado, seis dias depois. Na época as primeiras vagas eram pra aqui pro interior. Quando estava apto, já tinha assinado a carteira, perguntou: “Tem vaga em Monte Dourado, você topa ir pra lá?”. Eu digo: “Eu topo”. Mas rapaz, nunca tinha ouvido falar de Monte Dourado, Beiradão na época, que não era Laranjal, era Beiradão. Mas eu topei e vim. Nós tínhamos uma república de outros funcionários dos Correios. Chegaram a morar sete, tinha um do Banco do Brasil, na época que eu vim vieram três, de Belém, veio mais um carteiro e um outro que era um outro cargo, já foi até extinto, era executante operacional. Viemos os três de Belém. O primeiro trabalho foi ser carteiro mesmo, quando eu cheguei tinha um rapaz de Santarém aqui, que estava cobrando aqui, só tinha um carteiro na época. Ele foi me ensinando. A gente vai, tal, coleciona desse jeito, pela rua tal, termina a rua tal, em tal número pergunta a rua assim. Ele me ensinou, com 15 dias já estava apto pra estar na rua já. Aqui chegam diariamente carta, Sedex e registrada. E malote.

Chega semanalmente PAC, que vem via fluvial. Vem de Belém. Tudo vem de Belém. Vem o PAC de barco e o Sedex de avião. PAC é uma encomenda mais barata que o Sedex. O gerente que faz a abertura da carga que chega e ele já lança. Na verdade é ele que faz a abertura da mala de conferência e vai separando já. Ele abre a mala, confere se está tudo ok e vai separando o que é de caixa postal, no caso que é pra ser entrega interna, e o que é de rua. De rua ele já lança aqui pra mim, ó: “Lista de objetos entregues ao carteiro”. Já é minha responsabilidade, já tem a matrícula dele, a minha. Ele lança no sistema de informática e eu faço só colocar o nome do destinatário, endereço e vou pra entrega. A gente faz tudo junto porque dá tempo, mas quando não dá tempo de fazer tudo num dia, a prioridade é do Sedex, sempre do Sedex.

O Sedex vem diariamente, via área e o PAC não, vem via fluvial uma vez por semana só. Só tem quatro modalidades aqui, a carta simples, a carta registrada, o PAC e o Sedex. A carta simples é essa que não tem registro, só que ela também é urgente. É fatura, coisa de banco, é urgente. Tem a mesma prioridade, praticamente, do Sedex, tem que ser feita diariamente a entrega. O que muda é o código de barra, que tem o acompanhamento do tempo real dele aqui, você sabe onde ele está. Chega mais Sedex. Manda todo tipo de objeto porque é fechadinho. Mas vem roupa, muitas vezes vem remédio. Carta de pessoas físicas infelizmente não existe muito. Muito raro a gente ver. Carta é conta. Hoje é conta, é coisa de banco, de cartão de crédito, de telefonia móvel, fixa, essas coisas. Antes entregava era carta mesmo, catálogo, revista.

O cartão postal não é muito comum, mas ainda mandam hoje porque é um tipo de lembrança. O cartão postal é uma lembrança de alguém que viaja, compra de onde está pra mandar pra um parente, pra um familiar. Foi mudando, mas o cartão postal ainda é comum. Desde a propagação maior da internet a carta foi diminuindo. Não amigo assim, pessoal, porque deve haver uma separação muito grande porque no caso a gente é funcionário público, a gente não pode fazer, como funcionário, favor que depois a pessoa queira cobrar da gente como funcionário. Então a gente tem que saber separar amizade do trabalho. Por exemplo, às vezes a pessoa quer dar um presente pra alguém, só que não quer que o carteiro vá entregar na casa. Ele já diz, liga: “Entrega essa mercadoria pra mim pra outra pessoa”, ou “Eu vou pegar aí”, isso acontece bastante.

É uma coisa que a gente, não é muito usual, mas a gente faz. Eu faço. Faço quando conheço a pessoa. Hoje estão trabalhando cinco. Trabalham os dois atendentes, o Gerente, seu Ademir, eu, de carteiro e mais outro carteiro, que está de férias no momento. No final do ano aumenta o volume de entrega de Sedex, PAC. Mês de dezembro é complicado, é muito presente. Material pra ir é postado na frente, do mesmo jeito que o gerente abre as malas quando chega, ele também é o responsável por fechar e encaminhar. Eu entrego de motocicleta. Eu encho o baú de encomenda, tem encomenda que cabe uma só no baú, tem encomenda que cabe dez. Se cabe só uma eu vou e em cinco minutos eu volto e pego outra é assim. Se couber dez eu já levo, entrego as dez, demora meia hora, uma hora, eu já volto, encho de novo. Praticamente é a mesma coisa. Não posso dizer que é um trabalho rotineiro porque sempre a gente encontra pessoas diferentes, mas o trabalho sempre é praticamente o mesmo do carteiro, não tem muita mudança. A previsão, a gente se aposenta com 35 anos, agora não sei quanto tempo eu vou trabalhar. O futuro é imprevisível. Hoje, meu sonho mesmo é continuar empregado e ver os meus filhos se formarem.

Tenho três filhos. Maria Carolina, que tem 19 anos, Ana Beatriz, com 18 anos e Gabriel com 16 anos. Eu estava recém-casado quando eu vim de Belém. Eu vim, me adaptei um pouquinho aqui, depois de seis meses, no caso eu vim em fevereiro de 92, ela veio em julho. Tenho uma filha fazendo Engenharia Ambiental e a outra fazendo Engenharia Química, em Macapá. E o outro faz o ensino médio. Por enquanto eu quero que eles se formem nisso mesmo, dali pra frente eles sabem. Hoje, eu trabalho depois de 21 anos, como se fosse meu primeiro dia, com o mesmo empenho, a mesma responsabilidade. É o que eu procuro fazer pelo meu trabalho, pela empresa. Porque tem gente que, não vou dizer que se acomode, acaba que tem tantos anos, diz assim: “Ah, eu vou deixar os que são novatos trabalharem”. Eu não penso assim. Se a gente chega, vai trabalhar oito horas, a gente tem que fazer o nosso trabalho como deve ser. Eu gosto da rua. Só se fosse pra uma função técnica, assim, só que aqui não tem.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+