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História

Dedicação à família

História de: Matilde da Silva Coimbra
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Infância no Rio de Janeiro. Paparicada pelos irmãos. Casamento com imigrante português, vinte anos mais velho. Eventos na sua casa. Gosto pela cozinha. Orgulho dos filhos. Presença do Flamengo na vida familiar. 

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História completa

P/1 – Dona Matilde, boa tarde.


R – Boa tarde.


P/1 – A gente gostaria de começar a entrevista com a senhora falando o seu nome completo com o lugar onde nasceu.


R – Matilde da Silva Coimbra, nome de casada. E eu nasci em Quintino Bocaiúva, na Rua Luciano Barbosa, número 7, onde moro até hoje.


P/1 – Que dia?


R – Eu nasci dia 19 de janeiro de 1919.


P/1 – E os seus pais, quais eram os nomes de seus pais?


R – Arthur - nome do Zico, né - Arthur Ferreira da Costa e Silva.


P/1 – E a mãe?


R – Minha mãe Josefina, era italiana, Tancredo Silva. O meu pai era português.


P/1 – E qual era a atividade dele?


R –Meu pai? Era negociante, tinha fábrica de cerâmica, cimento armado. Tinha loja na Rua Buenos Aires, nº 85, Cerâmica Brasileira.


P/2 – A senhora sabe como a família da senhora veio para o Brasil? De Portugal, Itália?


R – Meus avós, pai dos meus pais, da minha mãe, eles vieram com a Guerra, então eles vieram como imigrante, no navio. Essa novela, até as netas: “Ah, até parece que eu estou vendo a vovó e o vovô vindo de navio.” Mas eles vieram como imigrantes e aí eles chegaram aqui no Rio, eles tinham cinco filhos também, a mãe só ela de menina, quatro rapazes e ela. Aí meu avô empregou-se na Prefeitura e a minha mãe, ela fazia coletes para a alfaiataria, ela sempre contava.  E eles, os irmãos, cada um tinha a sua atividade. Então não é, um sabia que pintava muito bem. 


P/1 – A senhora teve quantos irmãos?


R – Eu? Comigo sete. Eu era a caçula, depois de seis homens veio eu.


P/1 – Seis homens. E como era a vida na infância, como era na casa da senhora?


R – Ah! Meus irmãos eram muito bons. Nossa mãe! Eu era para eles a boneca, andavam comigo no colo, meus irmãos. Até hoje, tem um, eu e ele, pôxa vida comigo ele é uma coisa, um cuidado. Ele telefona de dois em dois dias, ele tem 86 e eu tenho 81, não, 83, dois anos de diferença. Mas o senhor imagina os meus irmãos, eles eram maravilhosos. Não posso me queixar, graças a Deus. Uma infância maravilhosa.


P/2 – E o pai da senhora?


R – Meu pai, eu era a única menina, tu já viu como ele era comigo, ele era. “Ela é inteligente, os outros são uns bobocas.” Às vezes ele falava assim.  “Ela é inteligente, mas os outros são muito bobocas.”


P/1 – Seu pai, como é que era o jeito dele?


R – Depois que veio para aqui, para o Brasil, ele montou um armazém de secos e molhados primeiro, a vida era difícil e aí ele casou com a minha mãe. Aí depois começou a ter os filhos, cresceram, aí ele carregava os filhos todos para a primeira loja que ele botou, de cimento armado, se não me engano. Depois ele foi à Portugal duas vezes e trouxe uma indústria cerâmica para _____ que minha tia tinha lá, em Oliveira de Azeméis, onde meu pai nasceu. E minha tia tinha fábrica, aí botou o nome da fábrica de cerâmica que era dela. Tem a fábrica em Quintino de Araújo até hoje, está lá. Meus irmãos venderam e agora é uma empresa de óleo. Mas ele lutou, graças à Deus deixou um bom patrimônio para todos. 


P/2 – O pai da senhora veio para o Brasil por quê? A senhora sabe? 


R – Eu?


P/2 – Não, o pai da senhora.


R – Não, é porque os pais morreram, então ele ficou com uma madrasta, parece, aí ele resolveu, rapazinho, a vir para o Brasil. Fazer a vida dele aqui no Brasil, já veio rapaz. Tanto é que logo depois ele botou armazém de secos e molhados. Dali ele foi.


P/1 – E quando a senhora era menina, menininha mesmo, a senhora brincava de quê naquela época?


R – Eu?


P/1 – Quais eram as brincadeiras?


R – Ah, brincava de tudo, de boneca, de comadre, de batizado. A minha infância foi muito boa, a minha casa era um sítio, então você já viu, era uma beleza. As minhas amiguinhas, as vizinhas todas iam brincar em casa, tinha muita fruta, tinha tudo quanto era fruta na minha casa. Depois fizemos apartamento e tiraram tudo quanto era fruta, sapoti, coisa que a gente quase não vê. Tinha tudo quanto era fruta no quintal, jaca, laranja, tangerina. Porque o meu pai tinha também uma fábrica em Oswaldo Cruz, aí tinha chácara lá, aí depois ele mandava sempre o jardineiro cuidar da horta, mamão tinha horta. Até porcos o meu pai criava, naquele tempo podia, ele botava numa caixa d’água, eu me lembro tanto disto... A gente matava aqueles porcos no Natal, era uma coisa muito boa, sadia. 


P/1 – A senhora falou uma coisa que me deu curiosidade, que era “brincar de comadre”, como era isso?


R – É batizado. Aí tinha a comadre, o compadre que batizavam, que eram os padrinhos, a gente chamava de compadre, era isso. Fazia o batizado, mamãe dava as coisa e a gente fazia. Naquele tempo era groselha, me lembro tanto, comprava groselha. Aí tem o batizado, com a comadre, o compadre, batizava, meus irmãos quase sempre eram os padrinhos do batizado, meu irmão menor, o Miro era o padrinho do batizado o meu irmão. Nós éramos mais ou menos do mesmo tamanho, os outros já tinham crescido mais. Gangorra! Tinha gangorra, meu pai comprava balanço, aqueles balanços, a gente brincava muito, era muito bom. Olha, eu gostava muito sabe de quê? Trepar nas árvores. Uma vez cai do jamelão, do pé de jamelão. Minha sorte é que eu bati na garagem, a garagem era toda de zinco, estava eu e a Dilma, uma vizinha. Aí o galho quebrou, eu cai na coisa e bati no chão, quer dizer, a queda, o doutor falou que a queda podia ter sido... eu podia até ter morrido. Mas a queda foi na garagem, desmaiei e tudo.


P/1 –  Eu queria dar uma paradinha para ajeitar o microfone.


[pausa]


R – Nós estávamos aonde?


P/1 – Na queda da árvore.


R – É! Aí eu desmaiei e a minha mãe veio correndo, eles pegaram vinagre, aí eu vim assim, me levaram no Dr. Pir, era o médico do local. Aí eu estava bem e graças a Deus não aconteceu nada, fez chapa de cabeça, aquelas coisas todas, os cuidados, não tive nada. Mas não tomei jeito não, quando soltava, jabuticabeira, lá ia eu. Pé de fruta, eu gostava de subir.


P/2 – Esfregar vinagre?


R – É, vinagre, é, mamãe esfregou e diz que é bom. Desmaiei mesmo, eu só senti quando eu caí, não vi mais nada. Quando eu cai lá embaixo eu não senti mais nada, já estava desmaiada. Primeiro o baque, foi no zinco. A garagem era toda de zinco, me lembro tão bem quando o galho quebrou.


P/1 – A senhora lembra de algum outro fato marcante da infância?


R – Como?


P/1 – Se a senhora lembra de algum outro fato, assim, como esse que acabou de contar. Lembra de outro?


R – Ah, eu não gostava de uma moça que ia com a minha tia lá em casa, minha tia morava na cidade e ia lá. Então ela contava – e eu era pequena – diz que eu começava a falar, xingar: “Manera”, uns palavrão de antigamente, bobaginha, aí que eu começava a falar assim para ela, quando eu via que ela chegava no portão, na garagem, aí eu ia lá e ela falava assim: “O que é que você está falando? Para perto de mim?” “Eu estou perguntando se a senhora gosta de flor.” (risos) Ela contava isso com uma graça. Eu não gostava dela, sabe, sei lá, bobagem, ela era amiga da minha tia. Então quando titia vinha à Quintino, ver a minha mãe, ela morava lá perto onde era a central, ali, Rua Dídimo, Rua Rui Barbosa, nós morávamos ali, então ela levava essa vizinha, acho que era vizinha dela que quis conhecer o sítio lá, da minha mãe. Aí eu impliquei com ela, lá porque eu também não sei, alguma ela fez, não sei. Aí eu ficava falando: “Vai à merda.”(baixinho) E o meu pai ele era um português e ele não gostava de palavrão! Eu vou lhe dizer, mas ele tinha um vocabulário limpo, não dizia palavrão o meu pai. Mas aí, quando a gente era criança, um fala e a gente repete. Aí eu ficava assim e ela: “O que é que você está falando?” Assim, bem braba. Eu: “Estou perguntando se a senhora gosta de flor.”


P/1 – E a sua mãe também não implicava?


R – A minha mãe nada, minha mãe era uma santa, meu filho. Sabe que quando ela faleceu, foi aqui na Beneficência Portuguesa, eu desci aquele morro abaixo e nunca mais entrei naquele hospital. Fiquei ali, os filhos todos à minha volta e quando a enfermeira falou, eu sai correndo. Aí o meu irmão, o Américo desceu atrás de mim, aí já vinha com o cordão da minha mãe e botou no meu pescoço. Aí começou, ele era espírita e tudo, e começou a me dar aquele apoio todo comigo. Eu sentei num banco lá e ele ficou comigo. Mas foi um dia muito triste quando eu perdi a minha mãe. 


P/1 – A senhora era criança quando aconteceu isso?


R – Não! Era moça, já era mocinha, moça não, já era casada. Não, casada foi quando o meu pai morreu, não era não. Estava sim, estava casada, estava sim, já estava casada.


P/1 – Dona Matilde, a senhora estudou?


R – Até o quinto ano. Mas quinto ano de antigamente é hoje o segundo grau, que hoje eu me lembro que eu estudei, eu vejo os netos lá e aquilo tudo eu estudei. Então o estudo na escola pública era muito bom, nós tínhamos a quinta-feira feira para pintar, bordar, desenhar. Tinha professor de... como é que chamava, era às quintas-feiras, não estudava, como é que fala, esqueci a agora.


P/1 – Era de pintura, corte e costura?


R – Era, de bordado, muito bom e o ensino sei lá, a gente não esquece porque os professores ensinavam mesmo para valer, está entendendo? Hoje em dia eu não sei, precisa explicador e não sei o que, está muito diferente.


P/1 – E a senhora era uma aluna...


R – Eu passei de ano sempre, eu, minha mãe falava: “Ela pode brincar à vontade, porque ela não me dá trabalho. Ela chega da escola e já vai fazer os trabalhos dela.” Eu contava isso até para os meus filhos, quando chegava, já ia fazer os trabalhos, quando estava com aquilo na cabeça. E depois estava liberada para brincar. Tive uma infância muito boa, graças à Deus. Só que a minha mãe e o meu pai naquele tempo, você sabe, eu fiquei  moça e tudo, os pais não eram como são. Era ali, marcação cerrada. Namorei ele porque ele morava do meu lado, ele me viu crescer, quando ele foi morar lá eu era uma menina, ainda trepava nas árvores, ele contava. Deixou eu crescer, aí quando eu fiz 18 anos, aí eu comecei a namorar, 18 não, eu acho que já tinha 20. A gente namorou dois anos, em um ano nós casamos, montamos a casa e casamos. Meu pai gostava muito dele, ele vinha para uma alfaiataria aqui na Teófilo Otoni, então trazia o carro para o meu pai, trazia o meu pai. O meu pai gostava muito dele, aí foi um casamento que fazia gosto para o meu pai. O meu pai me deu tudo o que eu tinha direito. Só comprava para mim tudo do bom e do melhor, se era comida: “Tá. Toma o dinheiro!” Para que  tudo fosse do bom e do melhor.


P/2 – A senhora parou de estudar por quê?


R -  Não, é porque é o que eu te digo, porque antigamente, hoje estuda para faculdade, meu pai português, sabe como é que é, então ele achava que filha mulher é dona-de-casa. Tinha de estudar, limpar, cozinhar, passar, entendeu? E foi o que ele fez. Mas a minha mãe, com o dinheirinho dela, me botou para aprender a fazer flores. Eu faço qualquer flor e aí me botou para fazer piano. Tenho o meu piano, que os meus filhos me deram. Eles ficaram bobos, eu com quarenta e tantos anos, quando eles me deram o piano e eu ainda tocava, fiquei lembrando. Estudei três anos, não deu para formar, mas deu para tocar. Quando eu olho para a letra da música, eu lembro da música e eu toco. Mas o ensino era muito bom antigamente, de modo que... Eu saía no carnaval com o meu pai, com  a minha mãe no carro. Íamos ver o corso, ver a Sociedade, naquele tempo era a Sociedade, ele ia. Lá no São Pedro onde ele tinha a loja, deixava o carro ali, levava as coisas de comer e tudo e a gente ia até a esquina ver passar. Mas com meus irmãos eles deixavam, com o Américo atrás no carro, a gente saía na capota, meu pai só confiava nas irmãs da minha cunhada, moravam na esquina. Era moça solta, mas não perdi nada com isso não. Graças à Deus.


P/1 – A escola que a senhora estudou era em Quintino?


R – Era, eu estudei no Haiti e depois fui para a escola Quintino, do outro lado, o quinto ano foi feito ali. Não tinha o Quinto ano no Haiti, aí tinha na Teixeira do outro lado da linha. A escola está lá até hoje!  As duas, estão lá até hoje! O Colégio Haiti e o Colégio Quintino Bocaiúva. Funcionam.


P/1 – E o bairro mudou muito?


R – Não, o bairro aqui, o Quintino, não vai para frente. Eu até já disse que o dia em que eu encontrar o Conde assim, numa reunião que ele vá, porque agora o Tonico está trabalhando na Prefeitura, tem mais coisa de encontrar com ele. O rio que canalizaram de Franco Vaz para lá e não sei, a Franco Vaz é pequenina e está um mau cheiro, aquelas garotas ali no ponto do ônibus. É um mau cheiro, uma coisa horrível, o pessoal joga, o pessoal também não sabe, é mal educado. Jogam lixo, jogam até cama nos rios, então é canalizado, faz uma pracinha, mas eu ainda vou conversar isso com o Conde, vou. Tomara que ele ganhe, vou votar nele.


P/2 – Além do corso e tal, com a família, tinha outros passeios que a família fazia? 


R – Meu pai passeou muito, ele me deixava solta, mas ele passeava, todo domingo, o chofer do caminhão era tratado por causa da gente. Barra da Tijuca era o preferido do pessoal, a minha mãe já era enjoada, ali passava um barquinho de gente. Eu e meus irmãos menores.  Em Petrópolis tinha até uma cascatinha, levava o frango com farofa, aquelas coisas e passeava. E íamos para São Lourenço, quase todo ano. Íamos para São Lourenço todo ano, ficava em São José, me lembro tão bem...


P/1 – Vamos dar uma paradinha? Um minuto.


[pausa]


P/2 – Então a  senhora estava contando desses passeios de Petrópolis.


R – Meu pai mandava o chofer do caminhão vir aos domingos para levar a gente para passear na Barra da Tijuca, passeava no barquinho, naquele lago, hoje eu nem sei o que é que é aquilo lá. E Petrópolis íamos para a cascatinha, levava frango, farofa, coisas para a gente comer. E mandava vir cerveja daquela cascatinha, refrigerante e passava o domingo, passeava. Não deixava porque, era aquele regime, tu sabe como é que era antigamente. O regime não podia dar colher de chá.


P/1 – E o pai da senhora gostava de futebol?


R – Não, quando o Zico nasceu, eu já morava na minha casa, onde eu estou de novo, porque fui cuidar de meu pai. Eu e meu marido fomos cuidar quando minha mãe morreu. Tinha o meu irmão e ele. Então o Zico era pequeno e aí jogava bola com o meu... ele cortou uma perna porque ele – daqui para baixo – porque ele foi para Portugal, não ligou, deu aquele negócio. Aí veio para a Beneficência e aí cortaram o dedo. Depois parece que começou a alastrar e teve de cortar o dedinho. Aí ficava deitado, gordo, bonitão, aí ficava deitado só, não queria cadeira de roda, meus irmãos compraram. Compraram bota, não quis, a atividade que tinha e você vê assim, mas lia, lia muito. Aí ficava na cama e eu e meu marido levava comidinha para ele e tudo direitinho.  Tinha um enfermeiro para dar banho nele lá na cama e tudo. Mas foram uns pais muito bons.


P/1 – Mas já existia essa coisa de torcer para o Flamengo, para o  Vasco, na mocidade da senhora?


R –Não, já tinha futebol, só que o meu pai era comerciante. Só o Zico, quando nasceu, que jogava bola para o Zico, o Zico jogava para ele, o Zico no meu colo. Mas meus irmãos jogavam também lá no campo da CEI, meu marido também jogava. Meus irmãos todos iam para lá ver o jogo, mas eu não namorava ele ainda não.


P/1 – O seu Antunes também...


R – Ih, jogava, jogava lá no CEI. Eu tinha um irmão que era chamado de... um que era do Fluminense, jogava bem, como é que era o nome? Já faleceu no ano passado, não sei o quê Leite. Lembra o nome do jogador? Tinha um não sei o quê leite, do Fluminense, chamava o nome daquele jogador. Jogava menino, esse menorzinho, hoje está com 83 anos, eu fiz 81 ele fez 83, mora na Glória. Tinha o Dadinho, tinha o Bentinho, o Américo, Rodolfo, já fez seis e comigo era sete. Eles todos jogavam lá no campo da Funabem.


P/1 – E o seu Antunes jogava?


R – Ih, também, ele, o Antônio irmão dele, o Emídio não jogava não, era só o Antônio e outros que tinham ali da localidade, amigos. Ia tudo, aos domingos a gente ia para lá e ficava assistindo. Ia ver os meus irmãos. Eu tinha três irmãos fluminenses. Era o Rodolfo, o Décio, fluminense eram dois. Tinha Vasco, tinha o Bentinho, Américo, o Dadinho. Ah, tinha um que era Fluminense, o outro já era Flamengo. Depois que o sobrinho foi Flamengo esqueceu o Fluminense, só torce para o Flamengo. E o Vasco era um que morreu em Petrópolis e o Américo, o outro que morreu.


P/1 – E a senhora?


R – Ah! Isso é pergunta? Uma vez Flamengo, sempre Flamengo. Não, não foi desde pequenininha não. Porque naquele tempo, jogo profissional a gente nem discutia. Só as peladas lá da rapaziada. Mas depois que eu casei, meu marido era Flamengo, eu tinha de acompanhar ele. Aí ele fazia: “Eu acho que tu é fluminense, tu tem dois irmãos fluminenses.” Eu digo: “Mas também eu tenho Vasco. Eu sou Flamengo!” E pronto, e fiquei.


P/1 – E o seu Antunes jogava em que posição?


R – Ele não ficava na frente não, não ficava na frente, às vezes era até goleiro. Ficava de goleiro. Ele foi goleiro do Vasco, né?


P/1 – Como?


R – Ah, quando veio de Portugal, o sócio dele, já tinha alfaiataria, aí obrigou ele a ir jogar pelo Vasco, aí ele era goleiro lá. É, obrigou o sócio, o Marcos. E ele se aborreceu lá no Vasco e aí saiu fora e aí foi ver um jogo lá no Flamengo. Aí ficou apaixonado pelo Flamengo. Aí ninguém mais tirou dele, Flamengo. Foi, foi goleiro lá no Vasco. Não sei se era profissional, sei que foi goleiro lá no Vasco. Mas depois do jeito que ele se aborreceu com o sócio, o sócio ia para Portugal e ele ficava trabalhando aí, entendeu? E ó! O outro comia. Então ele ficou aborrecido. Eu sei que ele largou o Vasco e que um dia foi ver um jogo do Flamengo e ficou doido pelo Flamengo. Não sabe se foi as cores, sabe? Porque é português, tinha de ser Vasco. O sócio achava que ele tinha de ser Vasco e botou ele no Vasco. Ele gostava de futebol e aí foi, mas depois ele se aborreceu e saiu fora. Aí ficou Flamengo. Aí os filhos que nasciam, cada um que nascia, ele dava a camisa correspondente ao que jogam. Olha ele deu a 10 para o Zico, deu a 9 para o Edu, deu a 8 para o Zeca, deu a 6 para o Tonico, posição dele, eu já falei 5, né? Então.


P/1 – É, porque a Zezé é moça.


R – É, é menina. 


P/1 – Agora eu queria voltar um pouco para o tempo do namoro, namoro naqueles tempos eram diferentes. Como era naquela época?


R – Naquela época a gente não dava um beijo na frente dos outros, eu hoje vejo os meus netos com as namoradas naqueles beijos e naquele tempo era tudo escondidinho, não era para ninguém ver. Depois de noiva lógico, depois de eu estar noiva dele. Mas era um caso sério. Hoje mudou, mudou muito. 


P/2 – Mas como a senhora, o seu Antunes começou a se aproximar da senhora? 


R – Como?


P/2 – A paquera, como é que era isso? 


R – Porque ele ficava com os meus irmãos no portão conversando, naquele tempo do pijama, de pijama, era de pijama. Aí ficava lá no portão e tudo. Aí depois passou a ser chofer lá do meu pai. Aí a gente passou a ter confiança. Aí um médico que eu fui à festa na casa da minha, meu irmão tinha uma namorada e ele - o médico - quis me namorar e aquela coisa toda. Aí quando ele me viu namorando esse rapaz, aí ele ele achou ruim, foi contar ao meu irmão que eu estava namorando. Já era... entendeu? Contou. E meu pai: “Não, ela é muito nova, não pode estar com esse negócio de namoro não.” Aí ele, ele que foi contar ao meu irmão, porque ele veio até me trazer um livro de poesia, esse médico, era até de tarde. Aí disseram à ele que eu estava namorando. E diz ele que quando ele, quando nós estávamos já noivos, que esse médico passou na porta da alfaiataria: “Deixei de casar com uma moça bacana – ele que veio me contar – bacana para caramba por causa dele. Namorou ela, é vizinho dela.” Mentira, porque naquele tempo nem pensava em negócio de casamento, era só namoro. Namoro assim, ele gostou e aí a Lígia fazia pressão, queria que eu namorasse ele. Naquele tempo ele era médico da saúde pública, sabe? E ela trabalhava lá, aí foi à festa na casa dela, meu irmão me levou. Aí pronto, mas aí foi falar com os meus irmãos que eu estava namorando, nunca tinha me visto com namorado. Aí expliquei: “Eu fui à festa e ele veio me trazer um livro de poesia e tal.” Aí acabei, não continuei não. Aí comecei a namorar ele e pronto.


P/1 – Seu Antunes ele veio de Portugal e foi morar direto no sítio?


R – É, a mãe dele ficou viúva com onze filhos, ela veio feito formiga carregadeira, carregando um, três de cada vez no navio, ela foi uma heroína a minha sogra. Aí foi trazendo eles, botava cada um para aprender alfaiate, que o meu marido era alfaiate. Outro era barbeiro, e foi empregando os filhos. Outro era lá com o homem da padaria e as filhas eram costureiras. Eu sei que ele era novinho quando veio para cá, era rapazinho novo ainda.


P/1 – A senhora falou das festas, como eram as festas? Eram, que música que tinha?


R – Era vitrola, gramofone, essa coisa, era gramofone de dar corda, tinha baile, ia a bailezinho, os casais dançando, as moças e os rapazes. Era legal.


P/1 – A senhora ficou noiva muito tempo do seu Antunes?


R – Não, noiva foi um ano só, depois que ele pediu ao meu pai, pediu por ano e foi um ano só. Compramos a casa lá na mesma rua onde a minha mãe morava, ele montou a casa toda direitinho. Eu também fiz o meu enxoval, meu pai me deu muita coisa e fui morar na mesma rua. Eu tive dois filhos lá na Lucinda Barbosa, onde a minha mãe morava, 84, depois tive três na outra de cima. Aí o Zico já estava para nascer quando a minha mãe faleceu, aí fui lá para a casa do meu pai, cuidar dele e do meu irmão. Quando o meu pai faleceu aí ele chamou a advogada e falou: “Já vi que não vou ter muito tempo de vida, a minha filha é muito boa para mim, cuida muito bem de mim, então quero que essa casa fique para ela.” Aí ela botou essa casa para mim. Os filhos ganharam tudo terreno, muito terreno, ia até na Barra, mas para mim foi a casa. E o negócio ficou entre os filhos, porque era: Arthur Silva & Filhos, eram sócios com o pai. A fábrica foi para os meus irmãos, mas aí venderam tudo tão barato, por um preço de banana. 


P/2 – Então essa casa é a mesma casa que a senhora nasceu?


R – Não, cada filho que casava ele aumentava um quarto e ficava tudo morando por aqui. Os filhos trabalhavam com ele e aí os filhos juntavam dinheiro faziam uma casa e iam embora. Aí entrava outro. Então a minha casa é enorme, foi, você não sabe o tamanho da minha casa, é enorme. E muitos quartos, sala, enormes. E eu gosto, eu tenho a impressão que eu estou andando na rua, dentro de casa. É verdade.


P/1 – Tem quadra de futebol de salão?


R – Tem, isso já é no terreno que o meu marido deixou, meu marido comprou quando solteiro e aí ficou para a gente e quando... Ah! Metade fez a casa do que faleceu e a do Mando, ele faleceu e a mulher ficou lá, mas a casa vai pertencer ao meu neto porque essa não era casada. Ele separou da mãe do garoto e ficou com essa, viveu oito anos, ela tem direito de morar, mas não pode colocar no nome dela. Eu queria que ficasse com os dois, assim que ele faleceu eu pedi para o advogado, mas o juiz não deixa, ele é registrado, então fica para o meu neto, pode morar, não faz mal. Também tirar ela do cantinho dela, não pode, viveu bem oito anos, ele era feliz com ela.


P/1 – O seu marido ele falava de como era Portugal, o local em que ele nasceu?


R – Ah sim, porque a mãe... eu tive lá em Portugal na Copa do Mundo de... essa que eu falei ainda agora, eu estive lá, fiquei mesmo em Portugal, na casa dos parentes.


P/1 – Na Espanha em 1982?


R – Fiquei um mês, fiquei lá mesmo na casa dos parentes do José Antunes, fui ver a minha prima, fui na casa duma que morava lá em Quintino, tem casa lá. Eles que compraram o terreno do meu pai, hoje é uma empresa de ônibus. Fiquei lá com ela uns três dias e aí a gente ia passear. Aí a Márcia e o Fernando foram me buscar, aí eu fiquei na casa dele até a gente perder o jogo para a Itália. Aí eu vim embora, mas eu fiquei em Portugal na casa deles. 


P/1 – Como era o seu Antunes, com era o jeito dele? Calado?


R – Calado não, ele era expansivo até demais. Ninguém ficava quieto não perto dele, moça se encostou, ele já estava abraçando, beijando! Todo mundo gostava dele. Era muito dado, nem parecia português. E outra coisa, não tinha egoísmo de nada. Qualquer dinheiro que ele tinha ele botava na minha mão. Ele dizia: “Não, deixa na tua mão que na tua mão está melhor porque na minha eu já não tenho a mesma cabeça que você não.” Ganhou uma casa que você vendeu e os garotos: “Ah pai, compra um carro, a gente nunca teve um carro.” Aí eu falei para ele: “Faz o que tu quiser.” “O dinheiro vai ser para você, pode vender o apartamento e comprar o carro.” Aí nós vendemos e compraram em Engenho de Dentro. A minha cunhada deixou uma casa para cada irmão, aí eu comprei o carro para eles e quando ele fechou a loja, a padaria, com o dinheiro ele pagou as contas todas de mercadorias, porque comprava tudo em consignação, pagou tudo e o resto colocou tudo na minha mão. Não tinha egoísmo não. Ele não ligava para dinheiro, para essas coisas.


P/2 – A senhora lembra do dia em que ele pediu em noivado?


R – Olha, o dia em que ele me pediu em casamento, ele tinha ido ver o Flamengo e Bangu, ele nunca esquecia isso: “Me deu uma coragem e eu vou falar com o velho!” (risos) O Flamengo tinha ganho em Bangu e foi, aí ele diz: “Ah, me deu uma coragem e aí eu fui falar com ele.” Aí falou e o meu pai gostava dele, ia dizer não porque? “Seu Arthur dentro de um ano a gente vai se casar.” Tudo bem, foi bem. Sabe quanto anos eu tinha? Ele tinha 22 e ele tinha 41, 42. É! Ele era 19 anos mais velho do que eu, ele era de 1901, eu de 1919. É, mas ele estava forte, 86 anos, mas ainda bebia cerveja, ia para o botequim e tudo. O quê! E depois então que fechou a loja, aqueles amigos lá do botequim, já viu. Ele só não admitia que não falasse do filho dele. Se algum falasse do Zico ele quebrava o pau. Ah, tinha um gênio danado ele. Eu é que sabia viver, eu sempre calma, entendeu, quando ele estava nervoso, eu estava calma. Aí vinha a minha filha: “Você não tem medo do papai?” Eu digo: “Medo não, eu tenho respeito, ele bebe lá uma cervejinha, chega meio atacado e no dia seguinte ele está bom.” É um homem carinhoso, bom pai, me ajudou a criar aquelas crianças. De noite ele levantava se um filho chorasse, nem me acordava. As crianças de noite queriam mamar, ele nem me acordava e botava para mamar. Que eu estava cansada, que eu trabalhava muito. É! Era muito bom. Hoje em dia não tem isso. Vamos ver, depois que a gente viveu 45 anos, juntos, 45 anos, faltava cinco para ser Bodas de Ouro. Hoje em dia sei lá, a coisa está tão... eu vejo pelo filho, já estão separados. Ah, eu não tenho mais ânimo, já fiquei 45 anos com um homem só, homem foi só aquele, acabou. O homem mesmo, ele é dos meus filhos e eles são meus homens. É, é sério, uma vida muito bonita que a gente nunca mais vai ter igual. O que é isso? Não, não dá.


P/1 – E o seu marido, ele gostava de comer o que? As comidas...


R – Ah! Ele gostava da minha comida. Olha, quando ele foi para o hospital para fazer a cirurgia na próstata, ele tinha marca-passo, ele levou muitos anos com marca-passo, ele ficou internado no hospital primeiro. Menino! Elas depois é que contaram os meus filhos, que elas vinham com aquelas comidas: “Leva isso para lá que eu não quero comer!” Acho que ele ficou sem comer lá, não sei não. “Eu gosto é de comida da minha mulher.” Está bom “Comida boa é da minha mulher.”  Fez a cirurgia, fez o CTI e morreu no CTI.


P/1 – Comida de hospital é muito ruim.


R – É, acostumado com aqueles cozidos. Sopa, aquela sopa de tudo. Ensopado com vagem, ervilha, batata, tudo, legumes, ele comia muito legume, muita verdura, brócoli, essas coisas todas eu fazia para ele. Hoje eu enjoei até de fígado um pouco porque eu fiz tanto fígado, para ele, com batata corada, com aquele molho que ele gostava no fígado e tudo. Enjoei, é a única coisa que eu quase não como é fígado, mas eu compro para o cachorrinho porque ele come. Não me animo muito a comer não. Mas eu sabia, até as empregadas da minha mãe, elas faziam alguma coisa e mamãe sabia que eu gostava, aí mandava: “Quem fez essa comida? Essa comida não foi tu que fizeste.” Ele sabia. “Essa comida não foi tu que fizeste.” “Porquê?” “Ah, porque não é, não é, eu sei que não é.” “Ah, você tem razão, foi mamãe que mandou para mim.” Graças a Deus, fui muito feliz, ele dizia assim: “Eu sou o homem mais feliz do mundo, eu tenho os filhos melhores do mundo, eu tenho a mulher melhor do mundo.” Ele dizia, para o pessoal lá, dizia mesmo. “Sou o homem mais feliz do mundo. Então se vou embora, já vou tarde! Mais de 50, já vou tarde. A minha vida foi muito boa, já estava na hora” Com 86 anos ele achava que não ia mais viver, no final ele falava: “Acho que já gozei tudo o que tinha para gozar. Agora se for embora, está tudo bem. Já vivi uma vida muito feliz. Sou o homem melhor do mundo, tenho os filhos melhores do mundo, eu tenho a mulher melhor do mundo! É bom que eu me vá logo!” Se ele tivesse uma vida ruim, mas ele teve uma vida boa graças à Deus. Mas é aquele negócio: mudou, os tempos mudaram, as mulheres passaram a trabalhar fora, não é? Aí mudou tudo. O meu pai dizia: “Não, já estudou um pouco.” Não queria que fosse analfabeto, ele botou para estudar mas só até o quinto ano. Meus garotos, meus irmão acho que também foi só até o quinto ano, representava o segundo grau, porque ia trabalhar todos com ele na loja, na fábrica, outro trabalhava no caminhão. Era assim. Era Arthur Silva & Filhos a firma, mas...


P/1 – Dona Matilde, a senhora lembra do dia do casamento de vocês? 


R – Lembro, ele não quis casar na igreja porque disse que já estava muito coroa. Aí a minha mãe montou um altar em casa, o padre veio, um padre conhecido dele, lá da igreja Santa Rita. Aí trouxe o padre e eu de noiva. Ainda ontem a minha filha trouxe o álbum de retratos e eu de noiva com ele e as almofadas no chão – umas almofadas bonitas -, e eu de buquê, e ele todo de terno, Mas já tinha 41 anos quando casou comigo. E aí a minha mãe fez, quando acabou o casamento, a minha mãe fez uma mesa de doce, biscoito, aquelas coisas, aí eu só me lembro de uma coisa, que juntou tanta criança na minha porta para ver o casamento, entendeu? A porta estava aberta, que eu peguei uma vasilha com biscoitos e sei lá e eu fui dar para as crianças, com vestido de noiva, ainda me lembro disso. Outro dia, a Terezinha me disse: “Me lembro dona Tidinha que a senhora veio dar biscoito para a gente. Eu fui ver o seu casamento, eu estive lá, eu era pequenininha.” Elsa está lá, a Leila, aquela, a filha dela que falou, quando você for lá, você pergunta para ela. Ela disse que lembra direitinho, que estava chovendo. Ainda me lembro disso que eu estava vestida de noiva e mandei eles tirarem uns biscoitos, sei lá. Pergunta à Léia, Terezinha, ela foi no casamento. Aí dali foi um irmão dele, já estava o carro, aí fui eu, ele e o irmão e aí já estavam outros de testemunhas lá no civil. Foi lá embaixo, na Rua Dom Manuel. Depois a gente foi ao cinema e depois a gente foi para casa, estava chovendo. E só isso que eu me lembro, mas ele não quis casar na igreja: “Ah, já estou muito coroa para casar e todo mundo olhando.” Não quis não e então está bem. Mamãe fez o altar em casa e o padre veio e fez o religioso. E o civil a gente foi lá na cidade. Meu irmão foi testemunha, o Emídio, o Mário não sei porque foi, acho que eram os amigos deles que foram os padrinhos, o casal, não me lembro bem não, isso eu não me lembro não. 


P/1 – E já na vida de casada e antes de ter os filhos a senhora, os dois, seu Antunes e a senhora, dona Matilde, chegaram a ir em algum jogo de futebol? Alguma coisa assim?


R – Não, ele me levava no teatro, a gente ia lá na Rua Gomes Freire, tinha o Teatro República e eu gostava daquela portuguesa Beatriz Costa e tinha aquela outra que cantava e outra que tocava o violão. Não me recordo o nome dela. Quase todos os dias a gente ia ao teatro, mas depois que vieram os filhos, acabou. Aí eu ia assim, por exemplo, uma feijoada na casa de um amigo. Mas passear mesmo, só assim, uma vez a gente foi, ele alugou um carro e nós fomos passear, para onde foi? Acho que foi Petrópolis, não me lembro bem não. Nesse tempo eu tinha dois só, mas começa a ganhar muito filho e aí não, a gente fica preso. Ou a gente pensa em criar os filhos ou pensa em passeio. Primeiro os filhos, eu cuidava muito da instrução deles, eu levantava às quatro horas da manhã para ir para a fila do concurso, entendeu, para o concurso, né? É, minha filha, ela formou professora e tudo e os filhos, o Zeca no Pedro II, eu ia para o negócio do concurso, tinha de apanhar o negócio e eu ia. Ele dizia: “Eu tenho de trabalhar, então tu vá.”  Eu ia lá. Quase todos estudaram em escola que não pagava, muito filho, era muita despesa para ele. Seis! Não é brincadeira! O Zico estudou no Rivadávia Correia, o Nando no Madureira e no...  onde é que foi mais? Eu sei que o Tonico estudou no Central do Brasil, porque eu tinha uma vizinha e ela tinha o cartão do pai que era funcionário, aí ele entrou como se fosse parente e aí estudou lá no Central do Brasil, o Edu no Brasília lá na Piedade e na Gama Filho. O Zico foi no Rivadávia Correia e depois foi para a Castelo Branco fazer para ser professor de Educação Física. Agora o mais velho, ele fez, olha professor de educação física, fez administrador de empresas, economia, no Pedro II, começou no Pedro II. Teve três cursos, foi preparador físico, ele foi o melhor companheiro, 10 e o melhor da turma. Foi aquele do América, como é o nome dele, que é da Marinha, eu sei que ele já morreu, ele que enfaixou eu, eu fui lá na Urca lá na escola e ele recebeu a faixa de melhor companheiro e 10 em tudo, era um capeta. Você perguntava um número à ele, de cabeça assim, não precisava escrever, quanto dava tanto por tanto, te dizia na hora. Minha filha também, minha filha era muito estudiosa, ela fez ginasial, fez Carmela Dutra, depois fez filosofia, depois fez psicologia. Pediu para estudar, foi namorar com quase trinta anos. Viveu para estudar e o Nando fez comunicação na Gama Filho e o Tonico é advogado, na Gama Filho também. O Edu é preparador físico e o Zico. Mas o Zico eu acho que ele não tem vontade de ser técnico não, não tem não. Lá ele dirigiu o Kashima, mas aqui eu acho que ele não tem essa vontade não. Agora  presidente do Flamengo, eu fiquei boba, outro dia escutei ele dizendo: “Daqui a dois anos quem sabe.” Ele tinha dito que não ia ser presidente, não sei, Deus queira porque pelo menos pode contar que um nome honesto eles tem lá dentro. Você soube o que aconteceu com ele lá, porque é que ele saiu lá da política? Quando foi o Collor. Sabe o que aconteceu?


P/1 – Não.


R – Ele...  eu posso falar, não sei... Os ministros ficavam todos reunidos lá na hora do almoço e aquelas lavadeiras, cozinheiras, pessoas humildes que tinham o Zico como um ídolo, queriam um abraço, um autógrafo e o Zico dava a maior atenção à eles. Entendeu? E aí eles ficavam assim: “Olha lá, não tem personalidade. Olha lá, essa gentinha aí e ele beijando e dando abraço.” Aí o... como era o nome daquele ministro que era Flamenguista? Ele gostava muito do Zico, esqueço o nome, era um que era Flamenguista... Ah meu Deus, não me lembro o nome, esse negócio... Aí ele contou para o Zico: “Olha Zico, eles estão falando.” “Deixa eles falarem. Eu vou continuar.” Não foi aquele povo que elegeu eles para estarem lá dentro? Bom, um dia um ministro chegou perto do Zico, um deles e disse: “Zico, tem um projeto, você quer assinar? Tem tantos dólares.” “Eu vou olhar, se eu ver que está direitinho eu assino, não tem problema. Agora dólares eu não quero, fica para vocês. Porque eu ganho o suficiente para me manter.” E não ganhava tanto assim não. Lá o trabalho não era lá essas coisas não, naquele tempo ele passava ainda “meio coiso.” Agora você vê, para andar com o projeto tinha de ganhar tantos dólares. Maracutaia. Ah! Ele disse para mim e para a irmã, a gente estava sentada: “Ah, não vou ficar lá não, cansei, não estou gostando dessas coisas, não é o meu sistema.” Eu falava isso para ele, o resto eu não me metia não: “Você continua com essas pessoas humildes, a dar o teu abraço porque foram essas pessoas que elegeram esses camaradas. Então você continua, continua, porque Deus te ajuda.” E ele: “Não, eu sou a mesma coisa, só que eles não me vêem como ministro de Esportes, o dinheiro era tão pouco para fazer o que ele desejava. A única coisa que ele ainda fez foi na Mangueira aquela quadra municipal que ele foi lá, arranjou aquele negócio de médico para as crianças. Porque o resto vai fora mas dinheiro que é bom para dar, é como ele diz: “Do que adianta dar aula de futebol e não dar alimentação? Uma criança mal-alimentada não pode jogar futebol.” Então ele saiu fora, mas foi assim e é por isso que eu estou te dizendo. O honesto não fica no meio desse povo não, não fica não.  Ah, não fica mesmo. 


P/1 – Dona Matilde. A gente vai dar uma parada, vai encerrar essa primeira parte porque a gente vai ter de entregar o estúdio, então...


R – Fica para outro dia?


P/1 – Exatamente. 

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