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De volta para casa

História de: Ronilda dos Prazeres Cassimiro
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/11/2013

Sinopse

Ronilda dos Prazeres Cassimiro narra sua infância vivida em Belo Horizonte, Minas Gerais. Adorava brincar de corda, amarelinha e até hoje se lembra de um papai Noel que ganhou que foi sua boneca. Antes de morar nas ruas de São Paulo, Ronilda teve duas filhas e vivenciou as ruas de Belo Horizonte e Vitória.  Dormiu nas ruas São Paulo, mas passava os dias na Associação Minha Rua Minha Casa por onde envia e recebia e escrevia cartas de suas filhas. Ronilda conseguiu retornar a Belo Horizonte através de uma doação.

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História completa

P/1 – Ronilda, primeiro eu queria muito te agradecer de você dar a tua entrevista para a gente, sentar aqui para contar a tua história. Para começar, deixar registrado, eu queria que você falasse o seu nome completo, onde você nasceu e quando você nasceu.
R – Eu me chamo Ronilda dos Prazeres Cassimiro, moro em Belo Horizonte, Minas Gerais. Nasci em 21 de janeiro de 73.
P/1 – E, Ronilda, qual que é o nome dos teus pais?
R – Geralda dos Prazeres Cassimiro e Antônio Cassimiro.
P/1 – E dos avós você sabe?
R – Não. 
P/1 – E, Ronilda, me conta um pouquinho da história da tua família, fala um pouquinho da tua mãe e do teu pai. 
R – Complicado, mas minha mãe é uma pessoa passiva, gente boa, compreensiva. Meu pai Deus já levou e tem as minhas irmãs, tem duas filhas lá em Minas. Tem minhas sobrinhas, é tudo de bom a minha família.
P/1 – Ronilda, você sabe como que a tua mãe e o teu pai se conheceram?
R – Ah, eu só sei se que eles namoravam na igreja. Aí, meu avô descobriu que eles namoravam e fez eles casarem, minha mãe casou com 15 anos, muito nova. Não sei muita coisa da vida da minha mãe.
P/1 – E, Ronilda, você falou do teu avô que descobriu que seus pais namoravam, você conheceu seu avós?
R – Pouco.
P/1 – E quais lembranças que você tem dos avós?
R – Ah, minha avó tinha uns traços de índia. Era curandeira, fazia muito remédio pra criança, xarope pra bronquite. Meu avô era tipo alemão, meio claro, dos olhos azul. Era uma família unida. Com o tempo foi se apagando. 
P/1 – E você tem memória de alguns eventos da sua família, algum momento de todo mundo junto?
R – Tenho. Quando eles se enturmava pra jogar baralho, tomar cachaça, contar história na beira na fogueira, assava milho, batata doce. Tive uma infância regular, nem muito triste, nem boa, mas pacífica.
P/1 – E você lembra de alguma história dessas que contavam na fogueira? Alguma história que você tenha escutado quando criança?
R – Ah, era mais lobisomem. Tinha Quaresma, tempo de Quaresma minha avó falava que não era bom de ficar na rua até tarde porque tinha mula sem cabeça, lobisomem que pegava criança, homem do saco, essas coisas.
P/1 – E essa avó índia? Você conviveu com ela, ela era curandeira, você via como ela fazia os remédios?
R – Sim, conviver eu convivi pouco. Porque quando foi a falecer quando eu era bem nova. Mas, assim, lembro que ela benzia, curava destroncado, quebrante, mal olhado, essas coisas de pirraça. 
P/1 – E como que era a casa que você morava?
R – Ah, era de telha. Era de quintal, tinha cisterna, tinha galinhas, tinha cabrito, essas coisas. 
P/1 – E  teus pais faziam?
R – Meu pai ele mais bebia. A vida do meu pai era beber mas, ele capinava, limpava o quintal, cuidava das bananeiras, da canas, pé de maracujá, pé de pimenta do reino que tinha cereja. Punha a fogueira pra gente esquentar quando tava frio. Era assim.
P/1 – E a tua mãe?
R – Ah, minha mãe ela sempre trabalhava. Trabalhava na casa de família, cuidava de nós, dava atenção pra nós, dava banho, dava as coisas... 
P/1 – E, Ronilda, de que você gostava de brincar?
R – Ah, eu gostava de brincar de talhador, pega-pega, serra no bitoco, rouba bandeira, queimada. De quitanda, a gente fingia que era uma abóbora e carregava a gente assim. Aí, era legal.
P/1 – E, Ronilda, você contou agora as brincadeira que você gostava de fazer, quem eram os seus amigos, com quem que você brincava?
R – Ah, brincava mais com os meus primos. Porque era família grande e tinha alguns vizinhos, algum colega na rua. Era assim, queimada, búfalo bandeira, amarelinha, pula corda, até futebol a gente jogava, uma peladinha. 
P/1 – E qual que era o bairro que você morava? 
R – Ah, era um bairro simples, porque tinha a igreja em frente a minha casa, eles estavam começando a por asfalto, que ainda era de terra e na frente da casa cheio de cabrito na tia. Ela tirava leite, a gente ficava mexendo com as cabritas, montava nos cabritos, era bom, era só divertimento.
P/1 – Como que era o nome do bairro? 
R – São Marcos.
P/1 – E, Ronilda, desse tempo de infância, tem uma memória especial, alguma coisa que você guarde com você até hoje?
R – Deixa eu ver? Ah, mais das brincadeiras mesmo, correr, de pega-pega, de esconde-esconde, cair no poço... 
P/1 – E, Ronilda, dessa infância tem alguma molecagem, alguma vez que você tenha ficado de castigo, alguma história pra contar pra gente?
R – Ah, as vezes a gente começava a brincar e já brigava, aí minha mãe batia na gente. Punha a gente de castigo, punha a gente ajoelhada. Quando ela saía a gente fugia do castigo, ficava sentando e quando ela tava chegando a gente corria, ajoelhava de novo (risos), pra não ficar com as pernas muito doendo de tanto ficar dobrada. Ela falava “ah, eu vou ali e tô voltando”. Na hora que ela virava as costas, a gente levantava e ficava sentado vigiando e quando ela tava chegando voltava pro joelho, pro castigo. E da molecada são as brincadeiras, não dá pra esquecer, a quitanda, o pega-pega, as correrias, cair no poço, passa anel, tudo isso coisa de criança mesmo.
P/1 – E agora, Ronilda, me conta uma coisa, tinha festa no bairro, na tua casa?
R – Tinha mas era de Judas. Eles queimavam Judas, tinha o pau de sebo, as pessoas subiam pra pegar o dinheiro lá em cima, eles punham fogo nos bonecos de pano. A gente tinha que ir na casa dos outros pra roubar as coisas, que era dia de Judas. Aí, roubava as coisas no quintal, roubava pra enfeitar os bonecos. Depois devolvia. A gente pegava panela, o que tinha no quintal da casa dos outros levava. Fazia as fogueiras, festa, soltava bombinha, punha bala nos bonecos, as pessoas iam rasgando os bonecos, pipoca, era divertido, só alegria.
P/1 – E na tua casa tinha Natal, aniversário, alguma festa assim?
R – Tinha. No aniversário não tinha festa não, mas no Natal sempre tinha uns brinquedinhos. Era coisa da gente dormir mais cedo, Papai Noel vai passar, deixar presente no chinelo. Agora, aniversário não tinha. Eu lembro que ganhei um Papai Noel, ele era de boneco, ele era um cofre. Eu chamava ele de meu filho, porque era só ele que eu tinha, quem me deu foi meu pai e, com o tempo, acabou, foi acabando. Aí, eles levaram, sumiu.
P/1 – E, Ronilda, tinha alguma coisa que a sua mãe, sua avó cozinhavam que era mais especial, mais gostosa?
R – Ah, eu sempre gostei de macarrão. Sopa; o meu prato preferido era sopa. Mas minha avó fazia doce de feijão, que era bom, angu com leite, mingau de milho, essas comidas assim. Pele com feijão, arroz, feijão, sempre no fogão de lenha, porque naquela época tinha mais era fogão de lenha.  P/1 – E, Ronilda, o carteiro chegava na tua casa, alguém recebia correspondência? Alguém recebia carta na tua casa?
R – Ah, meu pai. Ele tinha que trabalhar, quando ele trabalhava, ele falava que era apontador, tipo vigia. Sempre chegava correspondência pra ele do Rio, ele trabalhava fora, ele trabalhava de segurança, tinha arma dentro de casa. Uma vez ele bebeu demais, começou a dar tiro, eles foram lá, tomaram a arma dele, criou a maior confusão.
P/1 – E, vocês conheciam o carteiro da região?
R – Não, isso não. Não posso falar porque eu não conhecia. 
P/1 – E, além dessas brincadeiras que a gente falou aquela hora, da brincadeira, da comida, tem alguma coisa que tenha acontecido, assim, nesse período que tenha marcado a tua vida?
R – Ah, o que marcou a minha vida foi a minha avó que contava história, a gente sentava na noite de lua cheia, ela contava história pra gente, a gente ficava sentada ao redor da fogueira, lá, assando milho, sempre. Só isso, não tinha muita coisa, assim.
P/1 – E, Ronilda, você me falou que você fez até a segunda série. Você chegou a ir pra escola lá em Minas Gerais, pequena?
R – Lá em Minas.
P/1 – Me conta um pouquinho como que era a escola?
R – Ah, não era muito boa, não, porque a professora me batia muito, acho que por isso que eu saí da escola cedo, não aprendi muita coisa porque a gente ia pra estudar e ela ficava gritando, batia e uma hora eu saí, pulei o muro e não voltei mais. Eu já tinha, o que, uns oito anos; jardim eu nunca frequentei. 
P/1 – E tinha alguma coisa na escola que você gostava?
R – Ah, as Festas Juninas, a gente começava a ensaiar quadrilhas, mas também nunca participei, não. Só ensaiava, mas no dia não ia. Era Festa Junina, era dia de festa, e as vezes, quando era aniversário lá na escola das crianças algumas mães levavam bolo, refrigerante, alguma surpresinha pra gente. Assim era bom (risos).
P/1 – E, Ronilda, quando você cresceu, mais jovenzinha, do que gostava de fazer? Como que era?
R – Quando eu comecei a crescer eu trabalhava em casa, cuidava da roupa, da casa. Minha mãe trabalhava, meu pai morreu quando eu tinha nove anos, então minha mãe não deixava a gente sair, a gente tinha que fazer as coisas dentro de casa, trabalhava. Era chegar e encontrar lenha pra casa, por vasilha no lugar, roupa limpa. Com o tempo minha irmã também começou a trabalhar e eu fiquei por conta da minha irmã pequena. Nem sei a idade dela, só sei que ela casou. 
P/1 – E quando teu pai morreu, o que mudou na tua casa e na tua vida?
R – Mudou muita coisa porque quando meu pai era vivo, minha mãe era doente, minha mãe desmaiava, minha mãe tinha problema. Meu pai morreu e ela curou, de uma hora pra outra, não dá nem pra explicar como que isso aconteceu, porque ela vivia no hospital de louco, ela tinha problema mental. E meu pai morreu e ela mudou da água pro vinho, não teve desmaios, não teve que precisar se internar, não tomou mais calmante. Mas é uma coisa que marcou, porque depois da morte de meu pai minha mãe curou, meu pai morreu com 33 anos de tanta pinga. Eu acho que a minha mãe sofreu muito na mão dele. A gente era pequeno e era só a minha mãe.
P/1 – E, Ronilda, tinha algum lugar que você ia com seus amigos na adolescência? 
R – Ah, ia na igreja, só na igreja.
P/1 – E como que era na igreja, tinha evento?
R –Tinha, fazia parte do catecismo. Minha mãe pôs a gente no catecismo mas não tinha passeio, quando tinha era pra adulto, que era, exemplo, o Mineirão, acontecia alguma coisa assim, assembleia de oração... 
P/1 – E quando que você começou a namorar, como que foi isso?
R – Ah, comecei a namorar, namorava com medo, comecei a namorar escondido. Aí, quando eu fui levar algum rapaz lá em casa eu já tinha filho, já, porque arrumei filho nova.
P/1 – Com quantos anos você foi mãe?
R – Eu engravidei com 17, assim, foi uma gravidez inesperada, porque o cara me agrediu, me pegou à força. Tenho essa menina de 23 anos hoje mas não foi uma gravidez desejada mas tá aí, gosto dela, amo ela, coisas da vida. E tem a caçula de 15 anos, que eu morei com o pai dela nove anos. O pai dela também veio a falecer, acabei sozinha de novo, com um filho nos braços. 
P/1 – E como que foi pra você ser mãe? 
R – Ah, foi complicado porque eu não tinha experiência. Minha mãe nunca sentou pra conversar com a gente, explicar para gente o que era, como é que era ser mãe. Então, eu fui aprendendo com a vida. Tudo o que eu sei hoje, na minha mente é cópia dos outros, aprendi olhando.
P/1 – E, alguém te ajudou?
R – Ah, minha mãe. Criticou, criticou, mas a única que acabou me ajudando foi ela mesmo. Ela, a minha irmã e até hoje, porque meus filhos tão lá, tem neto.... Então, só minha mãe.
P/1 – E, Ronilda, e o teu segundo casamento, você falou que ficou nove anos com ele, como que foi?
R – Ah, foi bom até quando durou. Morei com ele, foi o meu primeiro parceiro, eu saí de casa, fui morar com ele. Aprendi, também, muita coisa com ele mas, depois, quando a minha filha tava já com sete anos ele veio a falecer, morreu em 2004. Aí, eu conheci esse, hoje tô grávida dele. Hoje tenho mais noção da vida, a experiência, mas não deixo, ainda, de estar sofrendo um pouquinho, porque ele não tem muito juízo ele, não tem responsabilidade pra isso. Então, acaba pesando só pra um lado. 
P/1 – E, Ronilda, como que você veio pra São Paulo?
R – Olha, eu saí de casa por motivo de briga, brigava muito com meus irmãos, me desentendia com a minha mãe. Aí, eu fui pra Vitória; de Vitória tava dando passagem pra gente ir pra qualquer lugar. Eu peguei e vim pra cá, tô aqui há dois anos.
P/1 – E por que Vitória?
R – Ah, eu tinha vontade de ir pra Vitória, eu sempre falava “um dia eu vou pra Vitória, um dia eu vou pra Vitória”, um dia eu arrumei um dinheiro e fui pra Vitória de trem e fiquei lá uns 17 dias e depois vim pra cá.
P/1 – E como que foram esses dias lá em Vitória?
R – Ah, foi bom, muita água, muito mar. Gostei de lá, uma paisagem maravilhosa e eu vim pra cá contra a minha vontade, porque eu não queria vir pra cá. Ele insistiu muito, falei “ah, fazer o quê, né? Tô com ele tem que acompanhar” e nisso eu tô aqui, tem dois anos. Mas, se eu pudesse, eu voltaria pra Vitória, ficaria lá.
P/1 – E como que vocês se conheceram?
R – Ah, ele era amigo do meu ex-marido. Quando ele morreu nós começamos a conversar, fazer amizade, ele falou que tava querendo arrumar alguém, eu falei que também tava sozinha, foi indo, foi indo e hoje já tem nove anos (risos). Foi assim, conheci ele através do meu marido.
P/1 – E, Ronilda, porquê que vocês não ficaram em Vitória? Por que vocês vieram pra São Paulo?
R – Porque, como tava no final do ano, eu tava no albergue lá e não podia ficar mais tempo. Eles estavam dando a passagem pras pessoas, ou pra voltar pra casa, ou pra casa de algum parente, pra outro estado, pra outro lugar. 
P/1 – Como foi a tua chegada aqui em São Paulo?
R – Ah, foi muito árduo, porque eu não conhecia nada, não tinha experiência, nunca tinha saído de Minas, ainda mais só ouvia falar em São Paulo pela televisão. Aí, chega aqui é esse tumulto de carro, poluição, fui pro albergue, hoje tô na rua, não tem nem albergue mais. Só isso porque eu lamento.
P/1 – Como que foi tua chegada? Qual albergue que você foi, como que era no albergue?
R – É, fui para o Ipiranga, no Bem Estar. Fiquei lá uns oito meses. Eu discuti lá dentro e eles puseram a gente pra fora. Nisso eu fiquei mais em dois albergues, depois saí, vim pra cá, conheci aqui e tô aqui até hoje.
P/1 – E você já tinha ficado na rua antes?
R – Lá em Minas. Lá em Minas eu já tava na rua, pelo motivo de briga dentro de casa. Eu com vergonha de ficar no Centro, porque todo mundo passava, com vergonha de falarem, chegar no ouvido da minha mãe “ah, eu vi sua filha na rua, deitada”. Falei “não, eu tenho que ir embora, não posso mais ficar aqui, fui para Vitória e vim parar aqui.
P/1 – Como é que foram os seus primeiros dias na rua lá?
R – Ai, foi terrível porque eu só chorava, chorava. Sem saber o que fazer, sem saber pra onde ir, com medo de ficar na rua, dos outros fazerem covardia,  eu já ouvi muita história de gente que tá dormindo e eles põem fogo para matar. E nunca tinha passado por isso,  caí em depressão. Só chorava, chorava, com medo, com medo. E o tempo foi passando, passando, a gente acha que passa, dá uma trégua, mas fica uma trégua dentro. Aí, eu parei de comentar, de ficar lamentando, foi indo, foi indo, afastando os pensamentos ruins mas sempre dá uma caída. Igual, hoje mesmo fiquei chorando com saudades das minhas filhas. Elas tão longe; meu neto eu nunca vi até hoje, conheço só pela foto. É uma contradição ruim, na hora que dá o vazio por dentro, não tem como preencher esse vazio.
P/1 – E, Ronilda, eu vou querer saber um pouquinho de como é a sua vida aqui na rua. Mas eu queria perguntar primeiro, lá em Minas, essa primeira experiência, essa primeira vivência tua, como que você fez pra se virar, essa questão de sobreviver.
R –De doação, viver de doação, onde passava comida, comia; onde não passava pedia, alguns davam, outros não davam. Tinha uma casa, igual aqui, que eu tomava banho, lavava roupa e depois ia dormir, pegar papelão e dormir, na rua. 
P/1 – E como você escolheu onde você ia dormir? 
R – Na rua, debaixo da marquise. Não tinha casa, não tem casa. 
P/1 – Mas tinha uma marquise que era melhor pra dormir ou outra mais segura, talvez a região da cidade?
R – A marquise era aberta mas pelo menos não chovia. Quando chovia não molhava. Até o dia que eu ia pra Vitória, eu tinha comprado a passagem, no outro dia perdi o trem, eles roubaram as minhas coisas, tive que conseguir tudo de novo pra depois IR embora. Aí, cheguei aqui, vim pro albergue, do albergue eu tô na rua, eu estou na rua, embaixo da marquise. Venho aqui, eu almoço, espero doação, vivo de doação. Não tenho trabalho, não tem emprego, não tem nada. Dia que tem pra comer, come; dia que não tem não come.
P/1 – E, Ronilda, você chegou a trabalhar aqui em São Paulo?
R – É, eu cheguei a trabalhar em lava a jato. Comecei a lavar uns carros e a mulher vendeu o lava rápido e eu fiquei desempregada. Esse dinheiro eu até cheguei a mandar pras minhas filhas lá em Minas, depois eu não pude mandar mais.
P/1 – E quando você chegou em São Paulo, você ficou no albergue e do albergue você veio direto pra cá? Como vocês escolheram aonde vocês iam ficar?
R – Eu cheguei aqui e fui pro albergue; depois passei em mais uns dois albergues ou três albergues e depois que eu vim pra cá, aqui já tem uns oito meses que eu frequento. E hoje tá difícil de encontrar albergue. Porque é tempo frio, então não tem vaga. A gente continua na rua. Vem mais um desespero porque eu tô grávida,  tem hora que eu não sei mais o que eu vou fazer quando o meu menino nascer. Como é que eu vou ficar na rua com um filho nos braços? No frio, chuva? Eles estão querendo que eu vá embora mas eu não tenho condições de ir embora, eles não dão verba. Minha mãe não tem como vir me buscar; minhas filhas também não têm. Esperar um milagre.
P/1 – E, Ronilda, como que você ficou sabendo aqui dessa associação?
R – Foi pelos moradores de rua que me falaram “ah, tem uma boca de rango”. Eles chamam de boca de rango. 
P/1 – Por quê?
R – É porque a comida é de graça. Aí, eles falaram “ah, tem uma boca de rango lá no Glicério”, foram dando o endereço, eu vim conhecer e o dia que eu cheguei eu gostei. Porque a gente mesmo que ajuda a lavar as verduras, picar, dá pra ver que é uma comida limpa. Tem a música, tem a televisão pra gente distrair, foi através dos moradores de rua que eu passei a conhecer aqui e tô aqui. Eu chego aqui sete horas, saio daqui às cinco, espero as lojas fecharem, que é sete e meia pra eu deitar. 
P/1 – E, Ronilda, você falou que os moradores de rua te falaram daqui. Como que é com os moradores de rua, como que foi? Você começou a conhecer, tem amigos?
R – Ah, amigo, amigo eu não falo que eu tenho, não. Mas, assim, tenho conhecido. Eu conheci algumas pessoas, igual aqui embaixo do viaduto tem um monte de gente ali fora, muito homossexual, a gente conversa e tudo, mas não tem aquela amizade. Por essas pessoas a gente vai aprendendo outros lugares, igual muitos falam que tem no Pedroso, tem umas duas ou três bocas de rango, mas eu nunca frequentei não, só aqui mesmo.
P/1 – E tem alguém que tenha te ajudado nesse tempo aqui em São Paulo. R – A ajuda que eu tenho é só aqui dentro. Eles fornecem o banho, a comida, alguma doação de roupa, só essas ajudas que eu tenho. Agora que eu comecei, meu cartão bolsa família chegou mas é pouca coisa, não é muita coisa. Chegou sexta-feira esse bolsa família e tô com isso, só essa ajuda que eu tenho; não tenho mais nada. Tem, assim, acompanhamento médico, através dessas pessoas aqui, de associação, faço pré-natal, cuido de mim, cuido do meu filho, que é o mais importante.
P/1 – Agora eu queria te perguntar, Ronilda, como que é pra mandar carta? Você manda carta pra família, fala pra gente um pouquinho.
R – É, as vezes eu pego e peço às meninas pra escrever, ou para ele escrever. Aí, eu mando pra elas.
P/1 – E o quê que você pede?
R – Ah, eu vou falando, muita coisa. Falando que eu tô com saudade, falo que estou bem pra não preocupar eles, porque não adianta eu falar que eu tô numa situação ruim, pra eles ficarem lá sofrendo, chateados. Então, eu falo que tá bom, que tá tudo bem. Peço a eles pra escreverem, mandarem foto. Eu vou ditando, ele vai escrevendo (risos). Eu falo que tô bem, que tô com saudade, que se eu pudesse eu queria estar lá de novo. Eles perguntam se eu mudei e eu falo que mudar não tem jeito porque pau que nasce torto morre torto, não tem jeito de mudar, é a mesma coisa. Mas melhorei um pouquinho, em vista do que eu era eu melhorei bastante, com todas as dificuldades, melhorei bastante.
P/1 – E, Ronilda, você acabou de falar que eles perguntam se você mudou. Você recebe carta?
R – Recebo da minha filha. Quando ela escreve, chega aqui.
P/1 – E o que ela te escreve?
R – Ela fala do filho dela, fala da minha filha, conta alguns babados lá das irmãs, o que aconteceu, que as minhas sobrinhas estão tristes, uma tá fumando, outras tão bebendo, umas saindo demais, namorando demais. Umas até chegando a se envolver com drogas. Essas coisas assim, contando o que acontece lá, o dia a dia. 
P/1 – E, Ronilda, tem alguma carta que você tenha recebido que tenha te emocionado mais? 
R – Ah, só a foto do meu neto.
P/1 – Como que foi receber a foto?
R – É, só foto do meu neto, quando eu vi eu fiquei emocionada. Um neto? Nunca imaginava que eu ia ter um neto assim tão cedo. Então, foi uma emoção saber que eu sou avó hoje e que ele é perfeito, ele é saudável, pra mim é gratificante, muito bom. Tenho a minha sobrinha que chama Eisla, a Brenda. A Eisla é triste (risos). Terrível, ela disse que tá fumando, que tá bebendo, não tem namorado certo, cada dia tá com um, mas é fase. Não pode deixar, se a mãe não cuidar ela vai ficar pior. Mas a vida é muito complicada, sempre foi complicada, foi cheia de dificuldades mas eu tento espairecer, porque ninguém tem culpa de nada. 
P/1 – E, Ronilda, essas cartas que chegam pra você, você mesma lê ou você pede pra alguém ler pra você?
R – Eu peço a alguém pra ler.
P/1 – E como que é pra você ter alguém contando as palavras? Fala um pouquinho o que você sente na hora.
R – Ah, me dá vontade de chorar, porque eu sou muito sensível. Eu fico prestando atenção nas palavras, eu tento ler um pouquinho, mas eu acho mais legal a pessoa ler pra mim, acho que encaixa mais na minha cabeça. Acho que é melhor a pessoa lendo do que eu, porque lê as palavras corretas, as letras corretas, dá o pause ali, no tempo. 
P/1 – Tem alguma pessoa que você pede pra ler suas cartas que, aí, você acha que essa pessoa lê melhor, que você entende melhor a carta?
R – Tanto faz. Eu presto mais atenção na pessoa lendo do que eu olhando, ali, soletrando talvez. Eu não sei ler muito bem direito também, não sei escrever direito. Quase nada, escrevo mas não é muita coisa, sempre eu peço a ele pra escrever, pra ler, ou as meninas aqui mesmo, pra ler. Nem todo mundo, porque senão todo mundo fica sabendo da vida gente. Eu olho bem pra quem eu vou pedir. Eu peço, falo que eu queria mandar resposta. Aí falam “uma hora eu vou sentar, você vai falando e eu vou escrevendo”, aí acontece. 
P/1 – E, Ronilda, como é que teu dia a dia, como que funciona aqui? Você já contou até que vocês ajudam a limpar, se você puder contar um pouquinho.
R – É, a gente ajuda a varrer, limpar, lavar banheiro, lavar os copos, os pratos, os talheres. Pica verdura, serve o alimento.? Hoje eu servi a sobremesa. Não foi muita coisa mas não deixa de estar, hoje foi uma fruta e eu ajudei, participei. Tem dia que eu não ajudo nada, eu vou dormir porque eles me deixam dormir lá dentro porque eu tô grávida. Aí, abriram essa exceção pra mim e tem vezes quando eu tô na cozinha que eu ajudo a fazer a comida lá dentro. Uma panqueca, uma coisa assim. P/1 – E aqui pode dormir, como que é?
R – Não, não pode. Não pode. Eu durmo porque eles abriram exceção, pra mim, só cochilar durante o dia, eu cochilo as vezes, tomo banho, deu cinco horas, pula. Só que eu saio daqui seis horas, vou enrolando, enrolando até as horas passarem pra subir, pras lojas fecharem. 
P/1 – E como que é essa coisa do horário, de ter que ir pra rua, assim? Tem um horário que é melhor ir, outro que não? Como que funciona?
R – Ah, não tem horário. Assim, o horário de saída aqui é cinco horas. Deu cinco horas, ninguém entra, ninguém pode entrar mais. Aí, cada um vai caçar seu canto. Como tem que esperar as lojas fecharem, ela fecham sete e meia, eu fico andando na rua ou fico aqui conversando com os meninos no portão até dar as horas pra mim subir lá pra Sé.
P/1 – E como que faz pra achar o seu canto?
R – É só subir na Sé que eu vou estar lá, na Sé.
P/1 – E tem um lugar que você gosta mais de ficar, tem os melhores lugares? Como que é isso?
R – Olha, na onde que eu durmo vai fazer quase um ano que eu tô dormindo. Cheguei e acomodei e fiquei. Eu ponho a lona, na porta de aço, e ponho tapete, tampo e ponho lá. Aí, não entra chuva, não entra friagem. Eu durmo lá porque é mais calmo, não tem muito tumulto, não tem muita gente e já vai pra um ano que eu tô dormindo lá. 
P/1 – E tem disputa pelos lugares, assim?
R – Lá não.
P/1 – Mas tem lugar que tem?
R – Tem.P/1 – Como que é?
R – Ali, no Brás, no que você chega pra arrumar sua cama de papel, eles falam “não, esse lugar é meu, eu tava aqui ontem, vai caçar outro lugar”, aí já tiram a gente à força. Agora lá já é mais tranquilo. Todo mundo que tá lá já me conhece, então eles não mexem e tem pouca gente na rua. Onde eu durmo é pouca gente. É mais uns dois carroceiros que catam papelão e mais gente de idade. Lá eu não sinto que eu tô correndo perigo. Fiquei com medo da manifestação que teve. Eu já tava com a lona aberta, com medo deles rasgarem, porem fogo na gente. As bombas caindo lá na gente, mas tirando isso lá é tranquilo, dá pra dormir. Quer dizer, dá pra eu dormir, agora com a criança vai ficar difícil. 
P/1 – Alguma situação difícil, algum perigo que você passou? 
R – Ah, situação difícil. Tem dia que tem coisa pra comer, tem dia que não tem e perigo mesmo foi só a manifestação que teve, eu achei que ia correr perigo. Porque era muita gente, muita quebradeira, muita bagunça. Então, foi só esse dia que eu acho que eu corri perigo mesmo, porque era muita bomba, muito gás que eles estavam soltando lá, tirando disso eu acho que não teve grande perigo, não. Vejo, assim, pela outra parte das outras pessoas, mas não onde que eu fico, mas lá na praça eles brigam, dão facada nos outros, pedrada, arrancam sangue, mas, comigo mesmo, graças a Deus, isso nunca aconteceu e nem quero que acontece.
P/1 – E, Ronilda, você falou pra mim que tá muito difícil de emprego, de trabalho, como que é? Você procurou bastante aqui em São Paulo, por que foi mais difícil? 
R – Eu, no meu caso, foi mais complicado porque eu não tenho estudo direito. Uma pessoa sem estudo não tem futuro. No meu caso complica mais. Difícil, não acho nada, arrumar serviço em casa de família não encontro; babá tem que ter estudo; tudo tem que ter estudo, eu não tenho. Cada dia fica mais difícil. Eu lá em Minas catava latinha, hoje aqui nem latinha eu cato.
P/1 – E esse filhinho que vai nascer? Você falou que eles te dão acompanhamento aqui, você já viu ele no ultrassom?
R – Já, é uma menina, mais uma menina. E acompanhamento é o médico, por que eles aqui guardam meu documento. Tem dia que eu tenho médico, tem esse acompanhamento, deles me pegarem e me levarem.
P/1 – Agora, Ronilda, eu queria fazer umas perguntinhas finais, assim, pra gente terminar a entrevista. Queria perguntar quais que são os seus sonhos?
R – Ah, meu sonho é ter minha casa, ter meus filhos dentro dela, ter dinheiro pra dar pra eles, esse é o meu sonho. Não precisa de ser muito. Pouca coisa, eu podendo ajudar meus filhos, só queria ajudar a minha família, minha mãe, meus filhos, meu neto hoje. Não tenho nem pra comprar um carrinho pra dar pra ele. Então, só sonho.
P/1 – E, além dos teus sonhos, o quê que você mais gosta de fazer, qual que é teu prazer hoje?
R – Ah, é estar com a minha família. Estar unida com a minha família, porque minhas filhas eu não considero mais filhas. Considero minhas amigas. A gente brinca, a gente sorri, a gente conversa, a gente tem uma relação bonita. Esse é o meu maior prazer, de estar com elas e não poder estar agora. 
P/1 – E elas já vieram pra cá ou você já?
R – No tempo que eu tô aqui eu vi minha filha mais velha, porque ela amigou com um rapaz e ele era daqui. Ela veio pra cá, aí eu vi ela de barriga e tudo. Mas depois ela foi embora e não deu mais. Mas sempre eu ligo pra lá, converso com elas.
P/1 – E me conta uma coisa, nessa tua vida o único jeito de você se comunicar com a família pelas cartas, qual que é a importância dessas cartas na sua vida?
R – Ah, pra mim é um tesouro porque aquilo fica guardado pra sempre. Então, é uma coisa que não vai apagar nunca do papel. Tá lá, vou sempre estar lendo e relendo, matando a saudade pelas escritas. Essa é a alegria, delas mandarem carta pra mim de saber que elas gostam ainda de mim, se preocupam comigo. Ligam pra mim, tem vezem que elas ligam “é, mãe, você não ligou mais, juízo” e mandam tomar juízo. Eu falo “quem tem que falar isso pra vocês sou eu, eu que tenho que pedir pra vocês terem juízo”. 
P/1 – E onde que você guarda as cartas, Ronilda?
R – Aqui, na associação. Com os meus documentos, minhas fotos que eu tirei.
P/1 – Tem armário aqui, tem algum lugar que você deixa as tuas coisas?
R – Tem um armário com a pasta. Cada uma das pessoas tem uma pasta com seus documentos, fica tudo lá. Remédio, eu também tomo muito remédio. Agora que eu tô meia parada por causa do neném, mas sempre tô tomando calmante, me sinto muito opressiva, assim, tem hora...
P/1 – E, agora, pra gente encerrar, Ronilda, me fala como é que foi pra você dar uma entrevista pra gente, contar tua história?
R – Ah, foi bom, foi um prazer poder participar dos 350 anos do Correio que vocês estão fazendo e espero que possa trazer coisas boas pra vocês.
P/1 – Ronilda muito obrigada mesmo, em nome dos Correios, do Museu da Pessoa, muito obrigada mesmo por você ter contado tua história pra gente, tá bom?
R – Foi um prazer.

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