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História

De volta para casa

História de: Lucenildo Oliveira Lameira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/02/2021

Sinopse

Infância na zona rural do Pará. Família de 12 filhos. Pai trabalha com caça e roça em busca de sustento e mãe cuida da família. Contato com caça e pesca, na floresta, desde os oito anos de idade. Relato da lenda do Curupira. Mudança para a cidade de Óbitos e, depois, Manaus. Conclusão do Ensino Básico. Descoberta pelo gosto da corrida de rua. Busca por trabalho e educação formal. Retorno para cidade natal e atuação na comunidade como catequista e fomentador de melhorias para a localidade.

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História completa

Projeto Santa Cruz Cabrália e Belterra - Memória e Vida de seus Moradores

Realização Museu da Pessoa

Entrevista de Lucenildo Oliveira Lameira

Entrevistado por Gustavo Ribeiro Sanchez

Santarém, PA, 23 de Setembro de 2012

Código SCCB_HV019

Transcrito por Rachel Augusto

Revisado por Fernanda Micoski da Costa

 

 

 

 

 

P/1 - Oi, Lucenildo. Então, boa noite!

 

R - Boa noite!

 

P/1 - Vou começar sua entrevista. Vou pedir pra você falar seu nome completo, a data e o local de seu nascimento.

 

R - Sou Lucenildo Oliveira Lameira, da Comunidade (Padoleta?), é claro. Nascido em primeiro de fevereiro de 1978. 

 

P/1 - Está certo. E aí, me conta uma coisa, você conheceu seus avós? 

 

R - Conheci, cheguei a conhecer os meus avós.

 

P/1 - Que lembranças você tem deles? Como é que eles eram? O que é que você lembra deles?

 

R - Eu lembro muito do meu avô por uma coisa interessante, que foi ele que me ensinou a pescar. Já com minha avó, eu aprendi muito a respeitar as pessoas mais velhas. É o mais importante que eu tirei deles, né? Uma coisa que eu botei na minha cabeça foi o que consegui recolher deles pra usar até hoje.

 

P/1 - Está certo. Me conta um pouco de como eles eram, do que eles faziam. Você já falou que seu avô pescava. Me conta como é que eles eram, o que é que você lembra mais.

 

R - Em relação ao meu avô, a pesca era a profissão dele. Da minha avó, ela gostava muito mais era de roçada, cuidar mais da roça. Porque nessa época em que eles viveram, não existia como hoje. Naquela época, tudo que eles conseguiam era através... Se fosse algo da cidade, tinha que ser por troca, trocava o objeto. No caso, um saco de farinha com coisas da cidade, tipo troca. Hoje não, hoje já se faz diferente. Faz o produto, vende e já se faz compra em dinheiro. Antes era só por troca. 

 

P/1 - Entendi. E você falou que aprendeu a pescar com seu avô, com é que foi essa história aí? Me conta um pouco isso.

 

R - Bom, o meu avô foi interessante. Eu tinha oito anos de idade e, em casa, apesar de fazer parte de 12 irmãos, inclusive nove irmãs e três irmãos homens, eu sou o caçula deles. Na casa, eram todos pequenos, mas com oito anos, eu entendia alguma coisa, que eu não tinha alimento suficiente. Meu pai estava na floresta, atrás também de alimento. Aí, eu resolvi ir com meu avô, só que eu não sabia como conseguia fazer pra puxar o peixe. Quando eu levantava, no caso, o caniço, o peixe já tinha aproveitado e tirado a isca de anzol. Eu chorava porque não conseguia. Então, eu chegava com ele "Como é que o senhor consegue? Eu não estou conseguindo". Aí ele disse "Não, meu filho, faça da seguinte maneira: o primeiro toque você observa, no terceiro você se concentra, no quarto você fisga, mas sempre... Por exemplo, se o peixe está comendo a isca, normalmente direta, aí tinha que fisgar ao contrário pra revelar o anzol pra pegar o peixe. Aí, foi que eu conseguia. E, desde lá, eu gostei muito de fazer esse tipo de pescaria. 

 

P/1 - Está certo.

 

R - Achei interessante!

 

P/1 - E seus pais, Lucenildo? O que você pode me falar dos seus pais? O que é que eles faziam? O que eles fazem?

 

R - O que eles faziam antes dessa época... Também que eu falei da minha avó com meu avô, agora já eles... Já tem mais ou menos, já tem um pouco de... É, o mundo está ficando cada vez mais moderno junto com a tecnologia e estão fazendo o processo que vai também pra zona rural, que agora já tem coisas que antes não existiam. Agora meus pais são aposentados, estão com 60 e 65 anos. E eles dão trabalho assim, meu pai gosta de riscar seringa, extrair o látex da seringueira e a minha mãe não trabalha mais, fica mesmo no dinheiro do seu aposento. 

 

P/1 - Mas na sua infância eles trabalhavam? Nessa época quando você nasceu? Como é que eles mantinham os 12 filhos?

 

R - Olha, interessante isso aí, gostei da pergunta! Pra fazer esse processo, meu pai ficava... A vida dele era caçada e da minha mãe era cuidar dos 12 comportados na casa, né? Então, ele conseguia comprar um quilo de açúcar e dava um mês. Um mês e um quilo de açúcar pra 12 garotinhos daqueles dos mais danados, você nem imagina. Tive uma época que eu era mais danado, aí pensei que minha mãe botava regras no açúcar. Por exemplo, ela adoçava o café da manhã e balançava onde colocava o açúcar e ficava bem reto. E eu que não tinha experiência, deixei ela sair e consegui tirar um pouco. Só que eu não balancei, deixei aquele furo. Quando ela chegou e foi ver, eu apanhei bastante, mas não foi pra... Tudo isso já servia como experiência da vida. Então, se eu fosse esperto, o que eu ia fazer? Tiraria, balançava e ficava normal. Meu pai, a vida dele era no mato atrás de alimento pra conseguir criar os filhos, porque ele não tinha outra coisa diferente pra ajudar na família, deixar mais fácil mesmo. Não tinha conhecimento, ele era analfabeto, aí fica muito mais difícil pra arranjar emprego. Então, era só na lavoura mesmo, caça, pesca, roça e tudo mais. 

 

P/1 - Está certo. Você falou um pouco do que eles faziam, como é que eles eram? Eles eram bravos? Sua mãe era enérgica pelo o que você falou, como é que era?

 

R - O meu pai realmente é daqueles tipos de pessoas do interior, antigos, que não gostam que filho ou filha namorem. Inclusive, a maioria da minhas irmãs, que tem agora marido, fugiu de casa pra conseguir o namorado, até mesmo o marido. Isso eles não eram contra. E, realmente, o que a gente fazia de errado o que restava era só uma surra pra não fazer. E, também, ensinava a respeitar as pessoas mais velhas. As pessoas que passavam em nossa em frente tinham direito de ter uma benção. Se passasse por vinte pessoas, todas elas tinham direito de te dar uma benção, na comunidade, né? Já é diferente da cidade, que você passa pelas pessoas, mesmo que tivesse correndo no meio da floresta, perto dos matos.


P/1 - Legal! E aí me conta um pouco, Lucenildo, quais eram os hábitos da sua família, os costumes? Por exemplo, todo mundo comia junto na mesa? Tinha alguma tradição que sua mãe tinha dentro de casa? 

 

R - A tradição na hora do almoço... Até hoje eu lembro quando... Eu gosto de celebrar! Não tem aquelas imagens de Jesus e seus 12 discípulos? Pois era assim que era lá em casa. A minha mãe preparava almoço e na hora reunia, como tinha uma mesa desse tipo e tudo junto ali. Ela conseguia dividir um pouco pra cada filho, assim ela fazia. Eu achava interessante. Só que depois que crescemos, tive a oportunidade de sair também, quando eu voltei já estava crescido, só estavam os dois. Aí, eu achei muita dificuldade pra tentar de novo organizar a família, porque um cresce e já começa a pensar coisa diferente. Apesar de sermos muito iguais, mas temos que... Cada pessoa tem um modo de pensar diferente e de agir também.

 

P/1 - Agora Lucenildo, como é que era o cotidiano dessa casa que tinha 12 moleques, 12 crianças lá? O dia a dia, ir ao banheiro e brincadeiras? Como é que era?

 

R - A brincadeira era direta, né? Inclusive meu pai passava mais na floresta caçando por causa do incômodo do barulho dos filhos, porque não tinha como dormir de dia pelo menos cinco minutos, era muita gritaria de garotinho. E quando ele colocava um poste bem no meio da casa e, para as laterais, colocava uma rede. Como a menina era sempre grande, ele conseguia amarrar no canto da casa. Ainda mais pequenininho, eu amarrava lá e passava a noite. E assim a gente ia levando a vida. Era a vida levando a gente e a gente levando a vida. Do pouco que tínhamos, compartilhávamos. Se não tivesse, não reclamava. Já tinha na mente porque era bastante. Se fosse comprar um objeto, se comprasse pra um, eu não podia reclamar porque não tem condições de comprar pra todos, né? Porque o pobre tem o seguinte, não sei o que tem na cabeça porque, as vezes, é logo meia dúzia. E quando não tem condição, compra uma coisa pra um filho e os cinco querem. Não tem condição. Aquela briga de garotinho. É isso.

 

P/1 - E você mesmo falou agora que vocês dormiam em rede, como é que era isso?

 

R - Rede? Sim.


P/1 - É. Vocês dormiam onde? Vocês dormiam, você falou que era um lugar que tinha um poste no meio.

 

R - Colocava um poste no meio da casa e para as laterais tinha os caibros, que a casa de palha tem, lá a gente conhece como caibro. Então, do poste bem do meio barrava as redes para as laterais da casa. Ficava tipo uma sombrinha, né? A sombrinha não tem aqueles arames? 

 

P/1 - Tem, tem.

 

R - Que segura a cobertura? Pois é. Só que aqui era por baixo. Era muito legal.



P/1 - Como é que era? Fala mais dessa casa. Como é que essa casa era feita?

 

R - A casa é feita por... Essas casas de palhas do sítio. Aqui na cidade não dá nem pra comparar porque elas têm modelos diferentes. Mas o mais ou menos eu vou fazer aqui com a mão. Ela tem a cobertura dessa forma, colocando duas estacas até se formar assim, tipo uma forma de pirâmide. Mas só que ele não vai direto ao chão, até meia altura, (bacana?), entendeu? Pois é, e aí a gente fazia esse processo. Só que lá não tinha quartos. Era salão mesmo, direto, pra poder dar pra todos. Era isso. 

 

P/1 - E me conta uma coisa, você já falou um pouco das coisas da pesca e um pouco da caça, mas como é que era a relação de vocês com a natureza? Vocês brigavam no mato? Nadavam no rio? Como é que era a relação da molecada com a natureza?

 

R - Agora com a natureza, desde de dez anos eu... Ele me convidou para caçar e eu acabei me viciando também nessa coisa de caçada. Quando eu voltei pra estudar eu já tinha onze anos. Então, ele me ensinou muita coisa da floresta, pra brigar com os bichos ferozes da mata e a respeitar a mata também. Porque não é só recolher coisas da natureza, porque a natureza também tem a mãe. Se você não obedecer, o famoso que chamam Curupira, ele pode perder você. Então se você quiser caçar, você tem que respeitar a natureza para poder entrar no limite dela. Eu acho que é como se fosse aqui no prédio, né? Que tinha suas, suas... Como se diz?


P/1 - Regras. 

 

R - Isso, obrigado. Regras. Assim também é a natureza. Se o cara for qualquer um e chegar de primeira e quiser caçar e bagunçar... Na mata tem aquelas árvores, tem a sapopema, que ficam em cima, bem altas. Se você chegar e pisar nela, bater com machado ou outra coisa, gritar, você não consegue dormir à noite, não. 

 

P/1 - Me conta uma coisa, Lucenildo, você falou agora do Curupira, que outras lendas assim vocês tinham na comunidade que você lembra? Coisas que...

 

R - Na comunidade, inclusive, eu levei o nome de (Patauê?) porque fui contar uma história sobre essas lendas. Uns dizem que já faz parte do passado, outros dizem que é realidade. Eu só sei dizer que o Curupira eu não enxerguei, mas eu fui vítima do ataque dele. Essa foi interessante. Eu fui caçar só eu, a mais ou menos dez quilômetros ou quinze a caminho, que não é estrada, é a caminho, tipo picada, rasgando o mato com seu próprio corpo. Então, eu encontrei a fruteira muito boa pra conseguir o que eu queria. Aí, quando foi meia-noite, escutei um assovio na mata, todos os bichinhos pequenos ficaram calados, ficou um silêncio. Eu não sabia o que era, primeira vez também, né? Daí, eu fiquei lá em cima e eram dois, um assoviava de um lado e outro assoviava do outro e eu fiquei bem no meio e disse "Vão passar aqui". Olhei no relógio e era uma hora da madrugada e disse "Até de manhã eu vou apanhar muito", meu pensamento. Aí, peguei e me enrolei na rede, coloquei o armamento sobre o meu corpo, me enrolei na rede e eles passaram. Aí, foi no outro dia, contei para meu pai e ele disse "Não, esse aí é o famoso Curupira. Quando tu for de novo lá, você leva o famoso tabaco pra fazer um cigarro porque eles estão afim de fumar também". Só que ele me explicou, né? Aí, no dia seguinte, só eu mesmo que fui lá. "Eu quero ver", porque eu também queria ver se realmente era em carne e osso, aí me mandei pra lá. Quando foi o mesmo horário, assoviando. Eu já estava com o rosto com sono e fiquei pensando assim: "Bom, se ele quiser fumar, vou preparar". Puxei do bolso o material e eu teci, peguei e me enrolei. Poderia pegar nas minha pernas porque eu tava trepado. Eu peguei enrolei, acendi e joguei pro chão e me embolei na rede. Aí, o assovio de um lado e do outro continuou, um assovio bem agudo, só que eu também não olhei para o chão porque é escuro, bastante escuro na mata, aí fiquei só na minha pensando. De manhã, desci, cheguei e o cigarro estava inteiro lá embaixo. E disse "Meu pai me enganou". Porque eles não vieram fumar o cigarro, então eu desci. No outro dia, cheguei e disse "Papai, eu acho que você me enganou porque os bichos não fumaram o cigarro, está inteiro". Ele disse "Não, meu filho, era pra ti fumar, porque eles só querem a fumaça". Só que agora não vou mais, não. Não fui mais. Essa foi uma delas, mas fiquei com medo.


P/1 - Está certo, Lucenildo. Você falou um pouco de caçar a noite. Quais são os jeitos de caçar? Você sempre caça à noite abrindo trilha? Como é que se caça?

 

R - Tem dois métodos de caçada, tem o do dia e o da noite. Eu não sou muito chegado de caçar de dia. Eu sou mais da noite porque a gente anda menos e é menos gasto até mesmo de material. Só que você tem que ter a inteligência em mente, porque você tem que observar uma fruta que cai de longe e ver pra onde é que o vento sopra pra você poder trepar e fazer o famoso mutar, que chama. Porque não tem aqui algo, senão eu ia desenhar pra você como que se faz um mutar. A gente se coloca lá no alto mas não foca, não acende qualquer objeto, fósforo, isqueiro, você fica no escuro, é o mesmo que se você estiver de olho fechado, não está vendo nada, está por conta dos seus ouvidos. E você tem que imaginar que é um tatu ou um veado, você tem que imaginar que é aquilo. Então, você deixa chegar embaixo de onde você está trepado e quando chega, você foca. Pega seu armamento sem barulhar na lantena. Tem que ser tudo mesmo... Tipo pensamento. Você foca mas não mexe a luz, deixa fixo, faz a mira, que chamam, e você consegue. Mas você não mexe, deixa lá, só de manhã. É isso que eu eu sei de espera. Agora de arramal eu não sou muito chegado porque é muita cobra. Isso eu não consigo muito, não sou muito apaixonado por isso. E também nem gosto que as pessoas façam porque às vezes não é só a caça que vem, vem a cascavel, a surucucu, essas coisas, à noite. Se você focar nesse animais, eles reagem e a reação deles é correr atrás de você. E à noite a gente não é igual de dia. A gente se perde facilmente. Isso que eu entendo um pouco de caçada. 

 

P/1 - Entendi, está certo. Então, Lucenildo, agora eu quero te perguntar um pouco da rotina na sua casa. Você já falou que seu pai saía pra pescar, sua mãe ficava cuidando de vocês, como é que era? Alguns iam pra escola, alguns ficavam limpando a casa, como é que era a rotina? Como se fosse um dia inteiro.

 

R - Olha só, bom, essa daí é uma coisa, realidade. Por causa do meu pai, às vezes, apesar de caçar e caçar, a minha mãe sempre ficava em casa e os garotinhos todos pra escola. Porque de ano em ano acho que tinham um filho. Então, todos iam pra escola. E a minha mãe ficava cuidando da casa e meu pai sempre na roça, às vezes caçando pra na hora de... É por isso que nesse sentido eu pensava em ajudar eles. Com oito anos, eu comecei também a pescar, riscar seringa, essas coisas, pra tentar ajudar na casa. Nesse processo todo, também estudava. Só que naquela época só tinha até a quarta série e muitos dos meus irmãos não chegaram a fazer um terceiro ano ou alguma coisa parecida. Como agora tem facilmente o estudo, a educação hoje realmente é moderna e lá onde eu moro tem até ensino médio.


P/1 - Entendi. E da infância? Quando você pensa assim na infância o que é que você mais gosta? Do que você sente mais saudade, Lucenildo?

 

R - Da infância? Olha, realmente da infância o que eu sinto saudade eu acho que é... O que ainda faço até hoje, né? Pescar, caçar, essas coisas. Agora as outras coisas que experimentei não foi suficiente, não como eu imaginava. 

 

P/1 - E eu vou te perguntar... Essa é uma curiosidade minha, assim, foi uma infância sofrida? Como que você lembra da sua infância? Foi uma infância pesada?

 

R - A infância é quando a pessoa realmente depende dos pais, é esse caso?


P/1 - Isso.

 

R - Nesse caso, eu acho legal por uma parte. Por outra, eu acho um pouco difícil porque a gente ainda está nas ordens ou na responsabilidade dos pais. A gente quer fazer uma coisa, mas se der errado os pais vêm e te dão uma surra. Já quando a gente é independente, é diferente porque a gente faz aquilo que quer e se der errado, se perder ou ganhar, você não apanha. Você se concentra e você começa a pensar e logo você acha uma solução de resolver seus problemas. E, já quando é pequeno, na infância, dependendo dos pais, dando errado ou não, às vezes o cara tem que pegar um puxa. 

 

P/1 - Está certo. E da escola, quais são suas primeiras lembranças da escola? Quando você pensa em escola qual a primeira...

 

R - A primeira lembrança da escola essa até hoje eu lembro porque você me fez lembrar agora. A minha mãe chegou a me matricular… Eu gostava de caçar com dez anos. Com onze, eu quis ir pra escola. Então, eu não sabia, eu imagina assim: "Olha, tu vai pra escola." Inclusive, a professora era minha tia. Aí, fiquei pensando "Será que meus colegas vão me aceitar na escola? Será que vão me bater?", eu imaginava isso. Tinha três irmãs minhas que me acompanhavam pra escola. O que eu fiz no meu pensamento de ser inteligente? Então, a distância da onde morava era mais ou menos cinco quilômetros, andando a caminho da escola. E quando chegou mais ou menos em três quilômetros eu disse pra minhas irmãs: "Olha, eu não estou com coragem de chegar na escola porque eu não sei como é lá. Tem muito garotinho que vai querer me bater. Se vocês quiserem ir, vão, mas eu vou ficar trepado aqui" e trepei em uma árvore na beira do rio, que é praia. As meninas foram. Aí, quando eu tava imaginando que já tava para dar onze horas, onze e meia e tem que chegar de volta pra casa, a gente saia onze horas, eu imaginei e desci e fiquei lá esperando. As meninas vieram e tal, aí eu acompanhei. Sempre entre três, tem um que diz que é assim o traidor, né? Aí, eu chego em casa, bacana, e de repente fui dar uma volta no quintal, quando eu voltei, já estava entregue. A irmã falou pra minha mãe que eu não tinha ido. Só que custou muito, não, só custou uma surra. Desde lá, eu nunca deixei de estudar, foi uma lição.

 

P/1 – [Risos] e aí quando você chegou na escola como é que foi? Foi bem recebido? Fez amigos?

 

R- Já no segundo dia, eu fui no colégio e não era o que eu estava pensando. Todo mundo chegou comigo e ficou "Bora brincar bola no recreio?". Eu não sabia brincar de bola e disse "Vamos ver então". Desde lá então, no outro dia, foi e foi, até acabei me acostumando. Quando eu passava um dia sem ir à aula, eu não conseguia. Ficar sem aula, eu já ficava triste. Quando eu ficava doente eu ficava pensando "Como eu faço para chegar na escola já que eu estou doente?", isso que lembro até hoje.

 

P/1 - Você falou que não sabia brincar de bola. Como é que era isso?

 

R - Eu não sabia brincar porque realmente em casa... Uma regra que todo mundo tinha que obedecer. Uns tinham que varrer o quintal, outros ir pra escola, fazer qualquer coisa, né? A gente não tinha aquela chance de brincar de futebol. Inclusive quando era pra gente jogar, a gente fugia. Eu não sei como foi que eu aprendi a jogar futebol porque eu fugia. Mas quando estava no momento de jogar futebol, estava tudo legal. Os colegas brincando pra cá, joga para mim e tal. Coisa bacana que quando dá assim “Olha já terminou a brincadeira”, eu já ficava triste porque lá em casa já tinha algo guardado pra... No caso, pegar uma surra. Mas sempre eu fugia, não tinha como, não.

 

P/1 - E ainda da escola, qual é a lembrança mais marcante que você tem, Lucenildo? Assim como você falou que eu te fiz lembrar de alguma coisa, quando você pensa na escola você fala assim "Poxa, tem uma coisa que é marcante pra mim". 

 

R - Por exemplo? Me ajuda aí.

 

P/1 - Algum professor? Algum dia que foi marcante? Alguma coisa que aconteceu e que... E tanto faz escola como um todo a escola, até ensino médio. Tem alguma coisa que te marcou?

 

R - Porque nesse processo de estudar eu consegui chegar até o terceiro ano, mas já por minha própria conta, por causa que meu pai não tinha condições de comprar caderno. O que eu fazia? Eu pegava as frutas e ia com a minha professora "Professora, eu não tenho caderno. Será que a senhora troca... ?". Você conhece a bacaba?

 

P/1 - Não. Conta pra gente o que que é?

 

R - É uma frutinha que tem... Inclusive tem uma ali só que ela não tem fruta, está só a árvore e o cacho sem fruto. Ainda agora eu estava olhando e consegui enxergar uma bacabeira. Então, eu chegava com ela e dizia “Eu não tenho condições, meu pai não tem condições, são 12, será que você poderia trocar essa fruta por um papel almaço?”. Aí ela dizia "Ah, meu filho, não te preocupa não que eu tenho". Aí, eu fazia um caderno de papel almaço. E quando acabava, sabe esses cartazes que tem agora de vereador, prefeito, então, não tem aquele verso que é branco? Pois é, quando tinha eu pegava e fazia o caderno no verso daquilo e ficava feliz da vida. Então isso é coisa que me marcou durante o estudo, nesse caso do fundamental. Já no médio é outro processo, que eu saí já pra cidade.

 

P/1 - Então, vamos segurar. Agora eu quero te perguntar outra coisa. Agora você já está... Você começou a ir pra aula, pra escola com dez, onze anos e começou a conhecer a comunidade? Como é que é a comunidade nessa época? Quando você pensa na sua comunidade quais as características dela? Como que ela estava organizada? Como que ela era? 

 

R - Olha, realmente, eu nasci em uma comunidade, mas agora eu estou em outra comunidade. Inclusive, quando foi fundada a coordenação, eu fui o primeiro a ser o coordenador. Mas depois que eu vi de fora, então, quando eu morava onde eu nasci, na comunidade, os trabalhos eram dessas pessoas que hoje eu acho difícil encontrar, que a gente luta para tentar organizar, mas eu acho que entrou aí o negócio do capital e atrapalhou muito. Mas na época ainda não existia o capital no sítio, onde tudo era trocado, eles faziam um tal de puxirum, trabalhava todo mundo junto, alegre, feliz, e na produção você repartia. Eu achava interessante isso. Se você estava precisando fazer seu trabalho e estava aperriado, convidava a vizinhança ou então a comunidade que chama. Todo mundo ia fazer seu trabalho e você não levava muita hora de trabalho, no caso, meia hora já estava tudo resolvido. Então, "Tal dia é o trabalho do fulano", aí todo mundo ia, um ajudava o outro, tipo assim, coletivo, né? E, hoje não tem mais, não. Eu as vezes fico pensando assim: "Por que é que isso acontece?". Só que são coisas que fazem parte do passado e hoje, a maioria é mais individual. São essas coisas que marcam muito.

 

P/1 - Entendi. Você falou então do puxirum, mas e a comunidade em si? Porque você falou que morava em outra comunidade que é diferente da que você está hoje. Mas as casa eram próximas? Tinha posto de saúde? Não tinha? Como é que era? 

 

R - Nessa época, nessa comunidade que eu nasci, realmente isso não existia ainda não. 

 

P/1 - Qual que é a comunidade que você nasceu?

 

R - Em São Tomé.

 

P/1 - São Toné?

 

R - São Tomé. 


P/1 - São Tomé.


R - Realmente, não tinha o que tem agora. Por isso que eu falei o que tem agora, antes era tudo em relação. Se você tivesse, por exemplo, um quilo de feijão e eu um quilo de farinha, eu ia fazer troca com você para a gente compartilhar, tipo troca. É por isso que nessa época não existia esse negócio de hospital, a escola era até a quarta série, é muito fraco. E hoje não, hoje está totalmente diferente, tem casas de projeto, tem um posto médico, tem outras visitas de pessoas de fora até. Apesar de agora ser Resex, então mudou muito.


P/1 - O que é que é isso? Quando você fala que ele é Resex, porque as pessoas falam muito aqui em Resex, para quem não conhece, o que é que é uma? O que é que quer dizer isso?


R - Realmente, as pessoas que moram dentro da Resex, que agora eu também faço parte, elas pensam que Resex também é ter liberdade de tirar qualquer coisa, só que uma reserva que eu cheguei a conhecer lá para onde eu saí, tinha até para a pessoa conhecer pessoas, visitar pessoas da família, tinha que entrar com um acompanhante. Isso aqui, nessa Resex, assim, eu ainda acho que vai acontecer. Mas o caminho não tem outro, né? As vezes, fico conversando e explico para eles que essa Resex ainda está bem, as pessoas estão bem à vontade. Por exemplo, a pessoa da comunidade tem direito de tirar o produto da floresta para servir a si próprio, só não pode fazer para vender em outro lugar, mas dentro da comunidade, comunidade vizinha, eles podem fazer. Nós podemos fazer esse processo. Então, as pessoas ainda estão com todo o direito de ser, digamos assim, tem toda a felicidade ainda de trabalhar e fazer tudo até como era antes, usar o puxirum, as coisas boas.


P/1 - Mas então a Resex é uma reserva onde você, as pessoas, só podem tirar da mata o que serve para elas.


R - Exatamente.


P/1 - Perfeito, está bem. E aí, Lucenildo, a gente começa a entrar na sua juventude. Você falou que foi para o ensino fundamental, como é que foi? Você falou que era difícil, contou, você ainda está na...


R - Isso. Agora eu vou entrar para a vida da realidade.


P/1 - Como é que é isso? Me explica.


R - Essa daí é a vida de experiência, né? Agora que eu vou entrar e ser independente. Então, olha só os pensamentos, quando eu era dependente dos meus pais, meu pensamento era um dia sair de casa para tentar ajudar a família. Aí, eu ficava imaginando "Como é que eu vou fazer para fugir de casa?". Teve um tempo que eu comecei a trabalhar. Trabalhava assim, fazia bico, nessa época tinha algumas pessoas que eram aposentadas, aí eu chegava lá "Minha vó ou minha tia...", eu fazia qualquer coisa, eu dizia "Tem alguma coisa para fazer? Eu preciso de um dinheiro porque tal dia eu tenho que ir a Santarém fazer o alistamento". Daí, eu começava a guardar um real, dois, dentro do tênis, e minha mãe não sabia. Já estava programando. Daí, quando eu disse assim "Mãe, eu vou na cidade", porque eu nunca tinha vindo na cidade, quando cheguei, no meu sapato não tinha nenhum dinheiro. “Cadê o dinheiro?”, eu só fiz coçar a cabeça. "Será que a mamãe não quer que eu saia de casa?", fiquei pensando assim e tal, mas eu vou conseguir. Aí, chegou para mim a ficha de alistamento. Eu, "agora é hora de sair. Quem sabe não dá certo?", aí eu vim pra cidade, fiz a inscrição com o pensamento "Poxa, quem sabe eu não seria um soldado".


P/1 - Deixa eu só te fazer uma pergunta, Lucenildo. Você falou que nunca tinha vindo para a cidade e que imaginava... O que é que você imaginava quando falavam em cidade?


R - Eu imaginava coisas que eu poderia conseguir tão fácil, ou um carro ou uma coisa assim ou, até mesmo, um emprego para ajudar a família, que nessa época era carente. Esse era meu pensamento.


P/1 - Entendi. Você já tinha visto na TV, você tinha visto onde? O que é que você ouvia falar? As pessoas falavam? Como é que era?


R - Era um tempo em que só no centro da vila tinha uma televisão, que na época de jogos da seleção a gente fazia tudo para fugir para lá. Eu via na televisão coisas bonitas, que dá para a gente ficar um pouco parado observando. Que a gente pensa que não tem, mas, na realidade, não é o que pensamos, existe. Esse era meu pensamento de sair para a cidade para tentar ver o que eu poderia fazer em prol de ajudar a minha família.


P/1 - Então você vem para se alistar. Pode continuar daí. 


R - Pois é, então, depois eu me alistei e tal. Aí, o policial falou "Tal mês venha aqui que nós vamos ver se tu consegue alguma coisa. Mas tu quer ser soldado?", eu disse "Não, mas se for uma oportunidade eu estou para... Quem sabe até lá não cresce também? Fazer o que, né? Vamos esperar". Quando foi no dia seguinte, eu trabalhei lá no sítio e me mandei para a cidade de novo. Só que eu não gostei da cidade, mas era obrigado. Aí, eu vim, cheguei lá, o cara pegou "Você quer ser soldado mesmo?", falou para mim. Eu disse "Bom, eu estou para o que der e vier, né?". Só que eu não estava imaginando que iam... A altura não ia passar, aí o cara "Se escora aqui", pegou no meu peito e meteu assim, disse "Ah, rapaz, você não cresceu nada não. Não vai ser não, volta para a tua casa." Então, libera os documentos que eu vou voltar para casa. Meu pensamento era voltar para casa, mas já estava planejado. Só que eu já vim de casa com material de transpasso de escola tudinho já. Tudo legal, sem minha mãe saber. Daí, ele "Pega teus documentos". Eu peguei os documentos e comecei a conhecer a cidade que eu vim. Cheguei em Santarém e fui bater na Caixa Econômica, eu fui falar, através de vidro, que eu enxergava a pessoa e pensava que ela não estava me escutando. Eu batia no vidro, a pessoa olhava para mim e deveria imaginar "Esse cara é doido" e foi embora porque eu fiz aquela loucura lá, eu batia no vidro. Se eu pudesse puxava a pessoa, mas não conseguia. Fiquei agoniado. Mais outra aí.


P/1 - E você falou acabou de chegar na cidade e que ainda não gostou. Quais são as coisas que você viu? O que você viu aqui que era diferente do que você imaginava? Como é que foi essa chegada?


R - Muito diferente. A diferença, na cidade, que eu achei foi porque a gente, no interior, não sei se os meninos falaram, tem preconceito, né? Na hora que a pessoa bota o olho em uma pessoa do sítio diz "Vixe, esse aí é do sítio, vai embora!", e outras coisas também. A gente passa perto das pessoas e não tem aquela comunicação como no sítio. No sítio, você fala para um pessoa "Oi, como é que vai? Está bom?", na cidade, não. Não tem essas coisas, não. São coisas que a gente, tipo assim, está vítima do paredão, difícil de tentar ultrapassar, mas às vezes, com sorte, a gente consegue, depende do costume. 


P/1 - Está certo. Agora, você me contou então que você vem e já com o papel de escola de transferência mas sem casa, sem nada. Como é que é isso?


R - Sim, venho, eu acho, em uma aventura. Aí, eu consegui através de... Eu consegui fazer um milagre! Daí, eu me mandei para Óbidos. Meu avô disse assim "Rapaz, tu quer voltar para a roça? A roça não é futuro, não”. Eu disse "É, o senhor paga minha passagem?". "Eu pago, tu quer ir para onde?". "Me mande para Óbidos. Quem sabe lá não dá sorte?". Aí, fui para Óbidos. Chegando lá em Óbidos, estudei seis meses, consegui fazer minha inscrição no colégio de São José, de Óbidos. "Quero ser professor? É, vamos ver, né? Quem sabe nós...". Fui e não consegui, seis meses só de magistério. Pensei "Agora não tem condições, vou atrás de um emprego". Eu fui até quebrar castanha. Lá em Óbidos tem uma fábrica de quebrar castanha. Cheguei lá, ele disse "Ah, rapaz, não tem vaga não", eu ficava triste pensando "E agora, o que é que eu faço?". Aí, eu me dei com outra família lá que disse "Rapaz, seguinte, você quer ir pra Manaus? Eu te arranjo uma passagem". "Você que está mandando. Para onde você me mandarem aqui... Pra Manaus...". "Só não quero é que tu volte para a roça". "Bom, se você pagar eu topo". Aí, eu fiquei pensando que eu tinha uma irmã que saiu de casa bem mais nova, e eu disse assim "Quem será que sabe do endereço da minha irmã?", liguei para minha mãe e ela disse "Ah, ela mora em Manaus, me dê o endereço dela". Deu só o número do telefone, aí eu disse "Vou arriscar". "Mas tu tem certeza que tu tem irmã lá em Manaus?", falei "Posso ter mas não conheço, mas eu vou arriscar. Essa daqui é perder ou ganhar, vamos lá! Se não der para rir dá pra chorar, um dos dois". Daí, peguei o barco lá de Óbidos e me mandei. Mas era muita lágrima caindo não sei de onde saia tanta lágrima do rosto. Consegui chegar em Manaus. Cheguei lá, outra coisa muito difícil que eu encontrei é que lá tem preconceito com paraense. Isso foi o mais pesado que eu encontrei, mas eu consegui ultrapassar esse preconceito. Daí, eu cheguei lá e encontrei... Veio meu cunhado a bordo ver, pegou uma foto e disse que foi me procurar. Se ele passou perto de mim eu não sei, eu não conhecia ele, mas ele estava com minha foto. Se eu tivesse com a dele era até capaz. Ele voltou, conseguiu. Voltou e falou "Olha, não achei teu irmão, não". Então, ela veio, eu conhecia ela. Deu tudo certo, fui para a casa dela. Cheguei lá  "Tu moras aonde, meu filho?". "A gente mora ali na grande circular”. Cheguei lá, tinha uns carros assim em cima de uma laje, eu olhei na minha frente e não vi casa e disse "É onde que vocês moram?". "Não, é aí embaixo, atrás da laje". Fiquei pensando, fiquei imaginando "É, já estou começando a não gostar. No sítio, terra é para quem quer. Da união e aqui eu saí de lá para morar em um buraco? Será que é dessa vez que eu vou conseguir uma toca?", disse assim mesmo. De lá, fui me adaptando. Eu consegui e disse “Agora vou ver o que é que eu faço”. Aí, meu cunhado disse assim "Você sabe lavar carro?". "Eu não sei, mas estou vindo do sítio, estou arriscando aqui a vida, se você me ensinar é capaz de conseguir lavar um carro". "Então vai lá para o posto de lavagem". Era dele mesmo. Eu cheguei lá "Isso aqui, lava esse carro". E o cara falava assim "Lava o caixa de roda, o para-choque, para-brisa, passa pano tudo bacana aí!". Eu não sabia o que era,  e disse "Não, meu patrão, só se o senhor me mostrar. Me aponte o que é para... Caixa de roda", chegava e mostrava. "E o paralama? Longarina", essas coisas tudinho.  "Daí sim, agora posso lavar", aí comecei a lavar e quando terminei de lavar o carro, puxou do bolso o dinheiro. Eu disse "Acho que agora dá para estudar porque eu mal terminei de lavar o carro e já ganhei até gorjeta", eu disse assim "Agora eu quero uma vaga na escola, vê se tu consegue". Me mandei lá, comecei a procurar até conseguir uma vaga à noite, “É, serve.” Comecei a  estudar. Primeiro ano, segundo ano, me apaixonei também, nesse espaço, por atletismo, corrida de rua. Achei muito legal! Só que eu nunca consegui conquistar o que eu queria, mas consegui fazer umas seis provas de corrida de rua. Consegui fazer meu certificado de terceiro ano. Já que não tinha quem para levar na formatura, pedi a devolução do dinheiro e fui para o igarapé tomar banho. Eu consegui tirar uma conclusão do certificado. A corrida eu abandonei e deixei o estudo bacana, tudo com certificado, só a declaração mesmo. Já tinha terminado de estudar, bacana e disse "O que é que eu faço? Vou prestar vestibular". Não consegui. Ficava pensando "Vou atrás de emprego". Não consegui. Agora vou capinar quintal. Passei a capinar quintal lá. Era muito mais rápido conseguir dinheiro. Aí, um tempo minha mãe falou assim, recebi uma ligação dizendo que se eu não viesse eu ia morrer de fome. Aí pensei "Porra, acho que agora é vez de voltar para casa". Aí me mandei.


P/1 - Deixa eu te atrapalhar então. Antes de você falar agora da volta.


R - Eu estou voltando agora. 


P/1 - De tudo que você falou, você tinha me contado que até na rua você chegou a morar. Quando que foi isso? Como que foi? Foi...


R - É na (ponte da parte de cá?). Quando eu não consegui dinheiro para voltar para casa, eu me socava no meio dos jornais porque os carapanãs só queriam sugar o sangue do nosso amigo aqui. Essa parte foi a mais amarga que eu encontrei. 


P/1 - Antes de falar assim da volta, porque a gente vai falar bastante depois de você voltar, que balanço você faz da vida na cidade? O que é que você percebeu? O que é que você entendeu com essa vinda para a zona urbana? Qual o balanço que você faz desse momento da sua vida?


R - Desse momento da vida ainda na cidade, né?


P/1 - Isso. Quando você olha para trás e pensa "Pô, passei dez anos na cidade". O que você leva de lá? O que é que você aprendeu?


R - Bom, eu sei dizer que quando eu morava no sítio, eu não compartilhava e dialogava com ninguém. Já depois que eu entrei para a cidade, eu comecei a falar com todas as pessoas, fazer amizade. E a única coisa que eu consegui para tentar o que eu estou conseguindo agora, né? Que com o corpo, que com o diálogo trancado, eu não tinha sucesso. E não tive. Eu tive que mudar. Eu procurei. "Esse caminho não dá. Vou tentar arriscar no outro”, pelo qual eu consegui, estou até aqui agora. Se continuasse trancado, não conseguiria. Isso foi uma experiência que me fez ter mais conhecimento e desenvolver muito mais o meu conhecimento de aprendizado, de aprendizagem, essas coisas boas. Aprendi muita coisa, mas tudo depende da pessoa, porque no mundo tem dois caminhos, tem o caminho bom e tem o caminho mau. Tem uma diferença grande. Então, se a pessoa tiver sonhos para realizar, ela escolhe o caminho que ela acha que vai um dia ser alguém que pode até ajudar a família ou até a comunidade. São coisas boas, né?


P/1 - E, Lucenildo, tem uma outra coisa que me desperta curiosidade, é que você sempre teve a opção de continuar para tu estudar, apesar de todas as dificuldade. Por que é que você tinha essa coisa de "Eu quero continuar estudando?”. Então, você foi lá e terminou o terceiro colegial mesmo em Manaus e o que é que te motivou?


R - Não, as pessoas que motivavam. Diziam "Olha, Lucenildo, aqui nesse mundo, jovem tem que estudar para conseguir um bom emprego". Eu colocava na cabeça "Bom, se for isso, eu vou estudar". Eu colocava na minha cabeça e botava para estudar. Estudava de noite, trabalha de dia. Ainda pegava um mapa da cidade e fazia cooper na cidade, para conhecer ainda mais a cidade. Essa é uma coisa de colocar na minha cabeça, só que quando eu queria fazer uma faculdade, não tinha condições lá. Eu lavava carro e capinava quintais e disse "Bom, eu não consegui fazer faculdade, mas eu consegui não ficar pelo menos, na dificuldade". O pessoal ficava sorrindo. “Não, eu sou assim porque eu gosto de ver a outra pessoa feliz. Hoje minha vida é essa”. Só vivo sorrindo.


P/1 - Está certo. Aí você falou com sua mãe e acaba voltando, é isso?


R - Isso. Certo dia vem uma ligação dizendo que se eu não voltasse eu ia morrer de fome, e eu disse "Bom, eu acho que agora não tem ninguém mais. Dos 12, eu acho que só estava faltando eu voltar". Aí meu pensamento, eu estava até cavando um burraco para fazer uma piscina, lá na Colônia, na Manaus Colônia. Saí, cheguei em casa, minha irmã falou e eu peguei uma televisão, bicicleta e vendi. Peguei o barco e me mandei, triste da vida. 


P/1 - O que é que você levou para a comunidade? 


R - Não, eu vendi uma televisão e bicicleta para conseguir o dinheiro para inteirar o dinheiro da passagem para eu voltar. Eu peguei o barco e fui para Santarém, tudo bacana. Quando telefonei lá do sítio, na cabeça, a tristeza. Aí, cheguei em Santarém, era uma semana santa. Cheguei lá, não tinha barco. O cais estava limpo, parecia que estava todo mundo para outro lugar, que estava o mesmo. Que é semana santa, feriado. Aí fiquei imaginando... Até minha irmã que mora aqui em Nova República disse "Por quanto você me leva na Nova República?", o moço falou assim "Vinte reais", "Eu acho que é melhor você me largar lá que é três dias e eu não posso ficar três dias aqui no cais dormindo só". Fui para a casa da minha irmã e voltei na semana seguinte eu peguei o barco, agora para o sítio. Só que quando eu estava na cidade, estava tudo legal. Aqui também tem umas corridas, eu gostava muito de corrida. Daí eu fiquei dentro do barco. O barco saiu às seis horas. Eu olhei para trás, o claro estava ficando escuro. Eu disse "Bom, o sonho que eu tinha, não consegui. Eu vou para uma área que não tem sonho, que é a zona rural. É melhor eu esquecer disso, melhor esquecer. Eu vou para o sítio, vou voltar para a roça. Mas vamos ver". Aí, cheguei em casa, sumiu as luzes da cidade. Bom, agora estamos no escuro, na escuridão. Amanheci na porta de casa. Cheguei lá, a casa tinha mudado, não era mais de palha, já era de madeira coberta de telha. Cheguei em casa e cadê meus irmãos? Ninguém mais, só eu e um neto, dois netinhos pequenos que tinham lá. Papai veio, estavam doentes, um estava em um canto da casa em uma rede e... "Que que eu faço? Eu vou fazer um remédio aqui. Primeiro eu vou dar um banho na casa". Eu aprendi por aí que quando tem problemas na família é algum olho grande, que fala, na casa. Eu peguei um sal grosso, fiz um banho bacana, joguei na casa e no quintal tudinho, legal. Só que antes de eu chegar em casa já tinham me falado que era de outra religião. Aí, fiquei também... Fiz aquilo mas também não perguntei nada. Fiz o trabalho lá e depois de um semana meus pais ficaram bons de novo e tal, aquela alegria. Aí, recomeçaram a me ralhar e tal. Eu disse "Pô, se eu soubesse que ia pegar ralha não tinha vindo da cidade". Eu comecei a pensar "Eu vou já voltar, vocês não querem?". Aí, começavam assim "Eu pensei que você tinha crescido", porque eu mandei uma foto e mandei ampliar 15cm x 25cm e fiquei grandão. Minha mãe pensava que eu realmente era grande. Quando ela chegou, eu era pequeno, um metro e cinquenta. Aí, disse "Eu pensei que tu tinha crescido". Eu disse "Olha, se você não me quiser de volta é só me despachar, eu ainda estou com a bolsa nas costas". Foi interessante. Disse "Não, venha para cá, é brincadeira". Eu não cresci porque eu não tinha que crescer. Aí, o pessoal diz "Olhe, seu pai e sua mãe sonharam outra religião”. Eu disse “O que que eu faço agora?". "Olha, tu vai ter que entrar para nossa religião porque nós mudamos de religião". "Mas por quê?", eu. "Não, porque teu pai e a minha mãe ficaram muito doentes e nós resolvemos apelar para outra religião". Eu disse "Mas eu acho que a mudança de religião não é cura de saúde, não. É só ter fé". Daí começou aqueles negócios, né? O pessoal falava que meus pais eram de outra religião que já estavam salvos. Tudo vinha para cima de mim, aquela pressão. Fiquei pensando assim "o que é que eu faço agora que muitas pessoas da comunidade, tanto faz daqui quanto da comunidade vizinha, falam que sonharam com outra religião. O que eu faço com tanta pressão?", fiquei imaginando "É, já sei". Aí foi que eu mandei comprar uma lata de tinta, um pincel e coloquei bem assim na frente da casa "Subindo para o céu", bem grande. Não conseguia, aí "Poxa, agora nós vamos subir para o céu porque tem uma casa lá e eu quero subir para o céu". A pessoa chegava comigo e "(Zico?), você deixa eu subir para o céu?", "Você fique à vontade, meu patrão. O portão está aberto". Só era mesmo para xavecar, só mesmo para ver se realmente eu ia partir para alguma reação de ignorância. Mas só o que eu tive de experiência na cidade é que a ignorância não levava a lugar nenhum e que fazer amizade e saber suportar era o caminho que eu escolhi. Daí, o que é que eu fiz? Eu coloquei mais embaixo "Eu vou. E você?". Com uns três meses eu consegui dominar o pessoal, todo já esqueceu que meu pai e minha mãe eram de outra religião. Estava tudo legal, a casa ficou boa. Eu não quis seguir a religião deles, que era outra. Fiquei imaginando, aí minha mãe queria. "Não, lá é bom que lá tem teclado, violão, tem tudo. Se for pra ir por conta de violão, sou capaz de comprar um". Eu consegui comprar um. Eu trabalhei na roça e comprei um. Eu só não sei como tocar. Eu peguei e consegui o manual. Acabei me apaixonando até hoje por violão, eu gosto muito. Estava tudo bacana. "Bom, eu não vou seguir vocês, vou para minha religião que é a católica. Vocês me batizaram lá quando eu era garotinho e eu não sabia de nada, mas agora eu acho que estou... Não cresci, mas amadureci muito. Vou voltar para lá". Comecei a participar da igreja católica, visitando comunidade, celebrando missa, essas coisas. Falavam "Olha, tu pega a tua bolsa e vai embora porque se tu quiser comer, vai para a casa do padre. Pior que a gente come, que o padre tem um negócio de fazer no coletivo, que ele consegue alimento tão fácil, a gente não passa fome não, é muito legal lá. Aí começou aquele empurra, né?.


P/1 - Então deixa eu te perguntar. Então você começou a trabalhar na comunidade atrás da igreja?


R - É, comunidade vizinha, porque lá ainda não era realmente a comunidade. Depois que eles vão fazer um processo, vão me chamar para ser o primeiro coordenador da comunidade. Essa que está com mais ou menos sete anos de fundação. Voltando, me ajuda aí, onde eu parei?


P/1 - Então, você está saindo da casa dos seus pais.


R -  Naquele negócio de xaveco sobre religião. Aí, disso já não deu mais certo porque eles queriam que eu seguisse a religião recente e eu estava exercendo a minha, que foi a pelo batismo. Então, falaram que não dava mais certo, que eu não quis seguir o caminho. Eu já era também do Sindicato Rural. Eu disse "Bom, já que não me querem em casa, eu vou mudar de sindicato". Eu peguei e fui ser sócio da  (Az20?). Eu tive que dar uma pedrada neles. Aí disse "Bom, agora se tu quiser ir embora, tu não quer mais me obedecer, está livre”. "Não, vocês já estão com certa idade, eu não vou embora mais. Eu não gostei, não. Eu vou morar aqui perto de vocês, bem vizinho", disse. Eu pedi um terreno lá e arrumei minha casa. Inclusive, não sei... Foi, aquele puxa e encolhe, foi até eu consegui dominar também. Eu consegui fazer que eles voltassem para a católica. Todo mundo chegava e me abraçava na rua, "Pô, tu conseguiu". "É, eu consegui". A gente estava, agora, junto. Eu faço agora meu trabalho de catequista, dou encontro de crisma para jovem também, eu trabalho. Trabalho com comunidades, no caso, distrito, quatro comunidades juntas. Foi o que eu consegui com muitas e muitas experiências. Eu acho que a igreja também me ajudou muito porque, apesar de não ser mais estudante, a igreja é, eu acho, uma segunda escola, você aprende muita coisa lá.


P/1 - Mas, então, vamos lá. Você está na igreja, como é que começa de fato sua atuação como o grupo de jovens? Como catequista você visita as comunidades? O que é  que você faz? 


R - Já com um grupo de jovem, de crisma, eu trabalho em função de fazer com que ele entenda que a força não é o que eles estão pensando, né? Tem que fazer com que ele entenda que o... A sentir do coração da pessoa, do coração. O jovem pensa o seguinte, que a força dele resolve qualquer coisa, mas, na realidade, não é isso que a vida pede. A vida pede que o jovem seja educado e também que obedeça as regras, até mesmo da vida. Se o jovem for ultrapassar as regras da vida, ele pode encontrar coisas que não vão valer a pena. Vai prejudicar a sociedade e outras coisas mais. Então, eu converso muito com esses jovens, apesar de eu ter também já um conhecimento da vida, tanto faz na zona rural, que eu chamo, e da zona urbana, uma diferença muito grande. Eu começo a conversar com eles quando a gente está em encontro, eles perguntam assim "Ah, um dia eu quero ir morar em Manaus". "Ah, um dia eu quero morar na cidade, em uma cidade bonita assim, em uma cidade satélite”. Aí, digo assim "Uma coisa eu vou dizer para vocês, o conselho que eu daria para vocês é que vocês nunca imaginem sair de primeira para uma cidade grande porque não é o que vocês estão pensando. Aqui onde nós estamos morando, onde a gente nasceu, já é de nascença uma terra adequada para qualquer um que nasce na zona rural. Na cidade, sinceramente, eu não queria que vocês fossem passar o que eu passei, não é muito fácil, não. Primeiro, eu vou ser tão tímido aqui no sítio, e na cidade, a pessoa que não tiver diálogo, realmente ela está perdida, totalmente”.


P/1 - E, Lucenildo, deixa eu te perguntar, quando você conheceu o Saúde e Alegria?  


R - São perguntas interessantes, eu estou achando. Estou gostando. O Saúde e Alegria veio, eu acho que, como diz o meu amigo lá, algo veio através de outra pessoa para fazer com que ele chegasse a mim para fazer esse convite. E aconteceu assim, olha, já minha comunidade, já era comunidade. Certo dia, nos fomos para outra comunidade fazer um jogo de futebol, uma festinha. Eu ainda jogava uma bola nessa época. Cheguei em casa, voltei e tinha um celular lá em casa. Só que esse Saúde e Alegria já existia há anos atrás, só que minha comunidade não pertencia a esse projeto. Então, tinha um celular lá em casa e eu ficava pensando "Papai, quem que deixou esse celular?". "Foi o Natanael, um homem que trabalha aí para o pessoal da Resex e tal". Eu ficava só na minha pensando, eu vinha para igreja e começava a falar em grupos de jovens, ia lá para o centro da vila. Grupo jovem de Boim, inclusive (Maikson?), só que eu não sabia como é que era. Eu tinha um tio, Nazareno, que fala assim "Sou PSA". Eu ficava perdido, arranhando a cabeça assim, às vezes ia para a roça, "Mas o que é que é PSA?". Certo dia, mandaram uma carta do pessoal da Alegria para as comunidades, um encontro aqui no Suruacá. Eu disse "Bom, acho que agora é o momento de saber o que é que é isso", porque eu realmente estava em dúvida. Peguei a carta. No dia seguinte, eu fiquei "É, já que os meninos não querem me acompanhar, agora eu vou descobrir o porquê desse celular nessa comunidade aqui.” Aí eu me mandei. Cheguei em Suruacá, jovens de Arapium, os Tapajós, do fulano do outro lado do rio, Suruti, essas comunidades. Até essas cidades pequenas, estavam todas lá. Eu vinha na frente pensando "Celular". Levei o celular, eu não sabia de nada, cheguei na sede, vi aquelas teias, aí fiquei imaginando, logo fiquei imaginando "Vixe, será que vão assistir o filme do Homem-Aranha aqui na Vila Franca?". Bolsa nas costas como sempre e tal, sorrindo, mas pensando. Quando foi na hora, não foi realmente o que eu estava imaginando. Eu fui entender o porquê da teia e comecei a pensar. Eu cheguei a entrar para fazer a ficha, estava a dona Elis fazendo a ficha. Chego lá e chegou minha vez. "Tu é pelo celular, pelo jornal ou pela comunidade?", fiquei arranhando a cabeça. Ela falou assim "Ah, você não sabe de nada". Eu sorri. "Eu realmente não sei de nada mesmo. Agora que eu vou descobrir o que realmente é isso. Eu vim pelo celular. E, coloquei meu nome". Foi a primeira vez. Aí, no encontro, começaram a fazer aquelas brincadeiras todas. Só que antes disso, pela Tapajoara eu já tinha feito vídeo e também programa de rádio pelo grupo Jovem Liderança, pela Tapajoara.


P/1 - Peraí, vamos terminar aqui a teia. Você está com o celular no bolso e chegou lá. E você descobriu para o que é que era esse celular? Qual é que era desse celular?


R - Eu fui descobrir que o celular era para produzir os trabalhos comunitários para mandar todos os meses para o Saúde e Alegria. Então essa era a função de deixar o celular na comunidade. Veio em mente que já que em outras comunidades tinha grupo de jovens e na minha não tinha, eu cheguei lá, conversei com umas garotas, chamadas ____ e disse assim "Vocês querem montar um grupo de jovem? Porque só a gente não tem grupo de jovem. Todo mundo tem, todo mundo é animado. Só aqui que não tem e vocês estão aí. Acho que é o momento de vocês também tentar se organizar". "É, vamo criar então". Inclusive, eu sou coordenador. Tudo começou assim, foi aos poucos. Montei o nosso jornal, fiz o nosso grupo de jovens e começou a desenvolver. Do nada eu ganhei uma impressora. "Bom, agora vai dar legal". Eu comecei a trabalhar com o celular. "O que é que eu faço com celular agora?" porque a gente não tem dinheiro. Então "Bom, faz vídeo, tira foto. Eu só não faço o dinheiro, mas a gente dá de trabalhar aqui". Eu tirava as fotos, mandava revelar, o dinheiro que eu conseguia, eu comprava o papel bacana e tal. É um bom começo, faz,  manda revelar. Agora ____ a impressora, consegui ganhar uma, de graça mesmo, eu acho que pelo meu jeito de ser, comecei a conquistar as pessoas. Inclusive, as coisas que eu tenho em casa, a maioria é tudo, o cara chega lá "Tu quer? Eu te dou esse objeto". Eu agradeço muito a Deus por isso. Desde então, nós estamos agora com outros jovens, agora é a segunda vez que eu estou aqui. Na primeira foi na décima teia e já vim participar da segunda. Mal eu voltei, tinha uma carta me esperando. Foi para eu estar aqui e agora, fazendo também essa entrevista, que eu estou começando a gostar, também. E, foi interessante, olha.


P/1 - Me conta um pouco. O que é que muda ao ter um celular e passar a participar desse grupo? O que é que muda na sua vida? 


R - Olha, muda muita coisa porque eu acho que a tecnologia já está avançada. Então, eu aprendi muitas coisas. Eu aprendi a mexer com o aparelho, que eu não sabia. Eu sabia, mas só na teoria, na prática, eu não sabia. Então eu disse "Oxe, para quem tem a mente já desenvolvida e sabe como começar eu acho que não é muito difícil não.” Da minha parte, mas eu acho que uma camada das pessoas do sítio é a timidez. No meu caso, sou um pouco assim, solto porque eu já tive a experiência da cidade. Então, fiquei pensando "Então agora eu vou e vou meter na cabeça dos meninos, tentar fazer conhecer e deixar a timidez pegar o que eles são mesmo, cada qual no eu, por exemplo, “Eu sou eu, você é você. Então, se você sente alguma coisa, abre o seu coração e fale a verdade, fale o que você está sentindo porque se fosse você, o que você poderia fazer? Mas não fique calado porque calado a gente realmente não adivinha o que você está sentindo, né?". Então, isso eu converso muito com eles. Tanto faz com meus grupos como as pessoas de outras comunidades, não importa também idade, se é jovem ou adulto. Eu gosto de conversar com todos eles nesse sentido. Por isso que eu falo também que mudam muitas coisas nesse mundo. 


P/1 - E me conta, um pouco, vocês fizeram o vídeo? Vocês tiraram foto e fotografaram? Me conta o que é que vocês fotografaram, o que é que vocês tiraram fotos, o que é que vocês filmaram?


R - Do jornal, nós tiramos fotos de placa das Resex, campo de futebol, o coordenador da  comunidade quando não era mais eu, era outro jovem lá. Crianças brincando na água do rio, no rio Tapajós, transporte do colégio dos garotinhos até a escola.


P/1 - E os vídeos?


R - Os vídeos foram sobre o álcool.


P/1 - Foi sobre o álcool?


R - É.


P/1 - E qual que era a questão?


R - A questão é porque realmente há pessoas alcoólatras. Para fazer aversão à pessoa alcoólatra, ao que acontece com ela. Aí, as pessoas dançando lá, só que, no dia do vídeo local mesmo, eu não estava. Eu estava para a igreja rodando em encontros de crisma, eu só fiz um... Eu tive a oportunidade de gravar... Eu fiz uma música que era por mim mesmo,  mas era bem pequeno, peguei o violão e gravei. Daí, eu mandei para elas e não passou. O pessoal do PSA mandou um convite para eu chegar até o centro da vila que tem o Centro Cultural. O centro da vila dos meninos aqui, eles já são mais práticos nesses trabalhos. Eu fui fazer um papel também de oficina de vídeo, tinha de personagem e também o pessoal que trabalha com computador. Eu disse "Eu não sei mexer no negócio de computador. Há muito tempo eu trabalhei, mas eu não sei mais. Eu quero ser personagem, nisso eu sou legal. Então, fomos fazer o vídeo e tal, bacana. Mas eu não imaginava que eu estava conseguindo alguma coisa ali. Quando foi no encontro aqui em Vila Franca, já no décimo primeiro, que eu fiquei surpreso. De repente, eu estava bacana lá, sentado, sempre na minha alegria. Chamaram "(Patauê?)" e era eu, só que eu não sabia o que era (Patauê?), receba seu (Mocoroxi?). A coisa começou a animar, eu disse "Bom, eu já comecei dando certo". Consegui um (Mocoroxa?) aqui do pessoal do Saúde e Alegria. 


P/1 - Explica o que é o (Mocoroxa?).


R - O (Mocoroxa?) é o um palhacinho. O pessoal do vídeo gostou que eu fiz o bêbado, imitando o bêbado. Como eu sou assim "Bom, se já me escolheram, eu tenho que fazer, me sentir o personagem." Porque se eu for fazer o papel do personagem e não me sentir o personagem, eu não tem o que retirar. Então, estava dando tudo certo porque era mais de duas, eu já com fome e dava pra fazer bacana um bêbado. Eu acho que foi por isso que gostaram e me premiaram como o melhor ator. Eu disse "Bom, eu acho que dessa vez a roça vai ficar um pouco de lado". Foi isso de interessante dessa parte. 


P/1 - Então hoje, Lucenildo, o que é que você faz? Você tem o trabalho na igreja, me conta um pouco como é que você está hoje? Se fosse contar para alguém o que é que você faz hoje. 


R - Se eu fosse contar?


P/1 - Você está me contando. Você está contando para mim o que você faz hoje da sua vida.


R - Bom, hoje o que eu faço da minha vida é: sou o segundo celebrante da igreja católica da comunidade de São Tomé, que é comunidade vizinha e sou secretário da (AZ20?), no centro da vila. Coordeno também o distrito, quatro comunidades. Sou também professor de crisma, na comunidade vizinha. Agora, na minha comunidade, eu sou coordenador do grupo de jovens, sou cinegrafista e faço com que as pessoas do grupo entendam que a comunidade deve me ajudar porque nós temos que lutar pelo nosso objetivos. Não só por nós, pelas criancinhas que tem lá na comunidade. Eu também sou secretário de fazer recibo, tem o núcleo de base da Maíra na minha comunidade. Ajudo meu pai, porque ele não tem conhecimento. Então, já que ele não tem conhecimento, eu estou para isso. E, também, eu coordenava o clube de futebol tanto faz de feminino quanto masculino. Tudo isso. Aí quando dá tudo só em um dia, eu tenho que escolher um para poder ir. Isso é o mais difícil. 


P/1 - E, focando agora no grupo de jovem, qual é a importância de ter o grupo de jovem, a rádio, o jornal para a comunidade? Qual é a importância dessa...


R - Inclusive, nós na comunidade, apesar de eu ainda estar reanimando ela para tentar adquirir o que nós queremos... Agora não estou lutando mais para minha família. Eu estou lutando para conseguir as coisas para a comunidade. Esse ó meu objetivo agora. Então, nós não temos rádio ainda na nossa comunidade, nem energia elétrica. Tudo ainda depende de outras pessoas. Tem um motor lá mas não é realmente nosso, é de uma associação, nós só tomamos conta. 


P/1 - Entendi. Então a importância do grupo de jovem, me fala sobre isso. Qual a importância do grupo?


R - A importância do grupo de jovem para mim é que o grupo de jovem tem um olhar ou as pessoas têm um olhar no grupo de jovem porque tem a capacidade até mesmo de... Porque eles são acho que o lado mais que a pessoa põe assim, tipo uma visão que acreditando nos jovens, os jovens se desenvolvendo eles têm a capacidade de adquirir juntos os objetivos da comunidade. Eu acho um lado muito forte quando o jovens se dedicam e lutam juntos pelos seus objetivos. Eu acho muito importante esse lado quando é em relação ao jovem. 


P/1 - Está certo. Agora, estamos encaminhando para o final. Eu vou te perguntar, Lucenildo, da comunidade. O que é que falta na comunidade hoje para você? O que é que você acha que falta lá ainda?


R - Na comunidade ainda falta muita luta. Inclusive falta coragem, luta e dedicação. Primeiro tem que lutar para conseguir uma escola, porque a escola é mais ou menos uns dez quilômetros. Inclusive eu dei o meu barco, tem cinco metros e oitenta, para levar uns garotinhos, de seis a...


P/1 - Fala de novo, desculpa. Vamos ficar tranquilos. Então, fala de novo o que é que você acho que tem que mudar hoje na comunidade. Você estava falando sobre o barco. Fala de novo.


R - É. Inclusive o meu barquinho eu deixei na mão do garoto para levar os garotinhos de seis a dez anos no colégio do Santo Inácio, de Boim. Eu estava pensando assim: às vezes, a gente reúne os grupos jovens, mete requerimento para a prefeitura para ver se a gente consegue alguma coisa, inclusive para tentar ajudar os garotos pequenos, porque dez quilômetros andando, tanto faz pela praia quanto de bicicleta, é um sofrimento muito grande. Eu deixei o barco para ver se facilita a chegada tanto de ida quanto de volta. E, a gente está tentando lutar, em busca de parcerias, né? Tanto faz se pelo próprio grupo de jovens quanto pelo sindicato, já tentamos meter requerimento para ver se a gente consegue alguma coisa. Conseguir energia, no caso, o motor de luz. Eu estou tentando organizar também a numeração de casas, nome de ruas. Tentar organizar já é o caminho de modernização. Os jovens já têm que pensar, tentar organizar a comunidade. Então, por isso que eu digo que ainda faltam muitas coisas para serem feitas na minha comunidade.


P/1 - Mas aí na sua visão, qual é o futuro da comunidade? Como você vê o futuro da comunidade?


R - Bom, o futuro da comunidade, eu vejo que ela está entregue aos próprios moradores, né? De ter a visão de um dia ela clarear, como se fosse essa lâmpada, no caso. Nesse momento que ela está andando está claro porque quem faz brilhar a comunidade são os comunitários. Acho que os comunitários são a estrela da comunidade. Se eles não se esforçarem eles não conseguem fazer a comunidade brilhar. Então, nesse ponto, eu acho que a gente tem que pensar bem porque é sobre coisas delicadas. Tem que pensar bem se realmente mais tarde quem sabe não terão algumas coisas boas para a comunidade, tanto faz para os adultos quanto para as crianças, para facilitar, porque nós somos seres humanos, todo mundo sente e também pensa.


P/1 -  E quais são as coisas mais importantes para você hoje, na sua vida?


R - O mais importante para mim agora nesse momento na minha vida? Poxa, nesse momento é poder estar aqui em uma coisa que eu não imaginava, sendo entrevistado por uma pessoa que é de São Paulo. Coisas boas! Muito bacana, estou gostando muito. Acho que tem uma coisa que não precisou nem eu ir longe para fazer uma entrevista, tudo tão fácil. Tem coisa que eu estou conseguindo aqui que não precisou ir tão distante, tudo perto. Eu tive a oportunidade de ser entrevistado agora pelo Gustavo, aquele lá de São Paulo. Agradeço muito a presença. E já tive também a oportunidade de fazer aqui em Santarém o curso de sistema de fotomontagem, que eu achei interessante. E, também, já tive a oportunidade de fazer jornal e também de fazer entrevista. 


P/1 - Legal!


R -  Gostei muito, muito bacana! E eu vou levando a vida e vou aprendendo cada vez mais, né?!


P/1 - E aí, Lucenildo, para a gente fechar tem duas. Qual é o seu sonho hoje? Qual é o seu principal sonho hoje?


R - Bom, um deles é o que eu falei, é ajudar a adquirir algo para a minha comunidade. Agora, eu não estou pensando mais na  minha família, eu estou pensando de modo geral. Que ela consiga com que a gente possa voltar e fazer alguma coisa diferente de lazer para as crianças, até mesmo para mim. Eu estou lutando para isso. Esse é um dos meus maiores sonhos. O segundo é uma coisa que eu acho muito legal. Eu tenho vontade de aprender a tocar violão e, ao mesmo tempo, cantar. Eu acho muito bacana. Gosto de alegria! Esse é um dos meus maiores sonhos, o que eu tinha vontade...


P/1 -  Está certo. 


R - Quem sabe um dia tenha alguém disponível que queira, pelo menos, me ensinar e a gente fica horas e horas brincando. 


P/1 - Está certo. E, ao longo de toda a entrevista, você falou "Eu estou começando a gostar". Como é que foi para você contar a sua história? Como você se sentiu? Como é que foi?


R - Nesse momento?


P/1 - É. Como é que foi contar sua história para mim? Como é que foi ser entrevistado?


R - Bom, para contar não foi muito difícil porque eu estou contando, né? Difícil foi conseguir fazer o... Quando a pessoa está fazendo aqueles momentos que passa aqueles momentos, né?


P/1 - O personagem.


R - O personagem da realidade, né? Agora, eu estou conversando e realmente eu não estou mais em movimento. Eu estou só sentado aqui passando o que eu já tive de experiência na vida e o que eu já passei. Isso não está sendo muito difícil, não. Eu estou até gostando dessa parte. Agora quando eu estava em movimento fazendo e sendo a vítima, aí era um pouco difícil. E, também, eu nunca pensei que um dia eu ia ter pessoas disponíveis para fazer uma entrevista da minha vida. Isso que eu fiquei pensando, "Mas quem é esse que vai um dia fazer pergunta de histórias da minha vida?", quando eu vi o convite lá assim. Quando acaba, realmente tem pessoas no mundo que se preocupam com esses momentos, com essas coisas. Na verdade, fico imaginando, como falei antes "A gente fica pensando em ver coisas que a gente pensa que não existem e, na realidade,  existem". Como está acontecendo nesse momento que pensei que não era capaz de um dia eu ser entrevistado por pessoas importantes, pelo mundo afora. É isso.


P/1 - E tem uma coisa que eu deixei de perguntar que você queira falar, ou alguma coisa que... Lógico, sempre tem alguma coisa, né? Mas tem alguma específica que você queira falar?


R - Específica eu acho que no momento não.


P/1 - Não tem nada?


R - Não, não. Por enquanto eu acho que vamos ver daqui para frente. Porque esse processo que eu contei foi dos dez anos aos 34 anos. Tenho 34 anos de experiência. Agora vamos ver, porque agora eu estou voltando à vida. Quando te vendo de pequeno até 30 a gente subindo a vida, agora eu acho que estou no alto. Tenho 34, mais tarde poderá estar baixando a vida. É por isso que eu  tenho pensamento e tenho visão de fazer com que as pessoas entendam que realmente a vida não é o que muitos pensam o que é. Na realidade, ela é diferente. Porque muitas das vezes falar é fácil, agora fazer que é o problema. São essas coisas que diferenciam uma da outra. As vezes, nunca dá tudo igual, as vezes, a gente pensa "Não, é fácil”. Se o cara ali está fazendo um trabalho, no caso, nosso patrão você diz, né? Sem ele nós não somos ninguém. Então se ele falar assim que parou, parou, né? Diz ele, "Não, segue mais para o meio que está andando". Então são esses coisas. A gente só brilha com o patrão do lado, só o empregado não consegue brilhar. Tem um time de futebol, não é só um que joga, né? É o grupo todo que faz uma estrela brilhar. E esse que brilha sempre é o bom mas na realidade é todo mundo junto que faz aquilo acontecer. 


P/1 - Está certo. Eu queria te agradecer. Obrigadão!


R - Eu que te agradeço também pela oportunidade e até outra oportunidade, quem sabe.


– – FIM DA ENTREVISTA – –


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