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História

De volta às raízes pomeranas

História de: Iolanda Geri Ritter
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/02/2009

Sinopse

Nascida na cidade de São Lourenço do Sul. Infância vivida na roça. Culinária. Resgate cultural da imigração alemã pomerana. Sopa de galinha caipira. Spickbrust - ganso defumado. Biscoitos caseiros e pães. Informalidade. Empreendedorismo. Banco do Brasil. Crescimento.

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História completa

P/1 – Boa tarde Iolanda.

R – Boa tarde.

P/1 - Obrigado por ter aceitado o nosso convite. Eu queria que você, por favor, começasse dizendo seu nome completo, o local e a data de seu nascimento?

R – Meu nome é Iolanda Gere Ritter, eu nasci na cidade de São Lourenço do Sul no dia 22 de outubro de 1974.

P/1 – Que por sinal é hoje.

R – Isso.

P/1 – Parabéns.

R – Obrigada.

P/1 – O nome dos seus pais?

R – Reinaldo Gere e Leny Gere.

P/1 – E o que faziam seus pais?

R – Meu pai era professor e minha mãe agricultora.

P/1 – Professor de quê? 

R – Do currículo.

P/1 – De quê?

R – De currículo.

P/1 – Aqui em São Lourenço também?

R – No interior.

P/1 – E a sua mãe é agricultora, ela trabalhava no quê? 

R – Trabalhava na roça mesmo, plantava feijão, batata pro sustento da família.

P/1 – Você conheceu seus avós?

R – Meu avô paterno sim, meus avós maternos sim, minha avó materna não.

P/1 – Você podia dizer o nome deles?

R – Os avós paternos é Frederico Gere e Amália Gere e os maternos Alfredo Krenick e Ana Krenick.

P/1 – A origem da sua família é um conjunto de alemão com italiano é isso? 

R – Parece até, eu não sei bem te dizer, mas os meus bisavós vieram da Alemanha, os paternos.

P/1 – E os maternos você sabe?

R – Não sei não, nunca conversei sobre isso, mas eu creio que sim.

P/1 – Seus pais nunca comentaram com você, contando histórias de família?

R – A minha mãe comentou qualquer coisa que seriam da Alemanha também.

P/1 – Você sabe quando eles vieram?

R – Não, não sei te precisar uma data.

P/1 – E você tem irmãos?

R – Mas eu creio que há 150 anos que eles vieram pelo mar, até teve essa encenação aqui, né?

P/1 – Sei, eles são pomeranos? Alemães pomeranos?

R – Isso.

P/1 – Ah então tem um detalhe diferente. 

R – Na realidade é uma mistura de tudo um pouco, eu creio.

P/1 – E você tem irmãos?

R – Tenho oito.

P/1 – Oito? E você se coloca em que posição dessa escala?

R – No último degrau.

P/1 – A caçulinha?

R – A Caçula.

P/1 – Você pode dizer assim do primogênito até você quem são seus irmãos?

R – Claro. Eudira, Brunaldo, Rui, Elânia, Eudomiro, Leniane, Agnaldo, Leucy e eu.

P/1 – E você nasceu na cidade ou nasceu já no campo?

R – Eu nasci na cidade, mas fui a única que nasci na Santa Casa os meus outros irmãos todos nasceram em casa com parteira.

P/1 – E por que você nasceu na cidade?

R – Não sei, eram outros tempos, começa a evoluir, né? Começa já a...

P/1 – Não era porque a família morava lá não? A família continuava no campo?

R – Continuava no campo, até por causa da distância, então poucos tinham carro, tinha dificuldades naquela época, então eu acho que foi isso.

P/1 – E onde era a sua casa?

R – Era em Gusmão.

P/1 – Gusmão? Como é que era Gusmão da sua infância?

R – Ah, era muito bom, não posso... [Choro] me emociono.

P/1 – Explica por que era tão bom assim?

R – Porque lá a gente tava os nove irmãos juntos e hoje cada um seguiu o seu caminho. Então fica aquela lembrança é uma coisa muito boa. [Choro].

P/1 – Você podia descrever como era a sua casa?

R – Com certeza. Era uma cozinha, uma sala de jantar, um corredor onde era um banheiro e depois tinha uma sala, um quarto e uma sala que era um salão, né? Era pra abrigar uma família grande e depois no final tinha uma varanda que era cheia de camas, porque a gente não tinha cada um o seu quarto individual, era cheio de camas e a gente dormia. Então isso aí te traz assim lembranças... Sabe era todo mundo muito unido, muito... era bem legal.

P/1 – E como é que era o dia-a-dia da família? Você acordava que horas? O que você fazia?

R – Ah, a gente normalmente acordava cedo, né? No campo, então cada um já ia pra sua atividade, o pai era pastor e professor, então tinha que estar bem cedinho já no batente. E a mãe ordenhava as vacas e normalmente a gente estava... É que lá eu morei até os dez anos. Então enquanto eu não comecei a ir pra escola, eu estava sempre junto da mãe, sempre no pé dela, né? Estava sempre ajudando a fazer alguma coisa e desde pequena que eu tenho essa coisa com culinária se a mãe falasse assim: “é Páscoa, Natal agora vamos fazer biscoito” era o auge pra mim, eu estava sempre querendo descobrir coisas novas, sempre querendo aprender realmente, tanto é que tem coisas na vida que a gente nem sabe o porquê, mas parece que a gente já nasce com aquele dom.

P/1 – Quer dizer esse dom de quituteira você trouxe da sua mãe? 

R – Eu creio que sim.

P/1 – A família almoçava sempre junto? 

R – Com certeza, nós temos uma mesa, inclusive eu tenho essa mesa hoje, porque a minha mãe mora comigo e a gente tem essa mesa até hoje é uma mesa de cedro que deve ter uns 150 anos, era da minha avó. Então essa é a melhor parte, todo mundo em volta da mesa era fantástico, não tenho palavras pra te descrever.

P/1 – E como eram as festas? 

R – Festa era só Natal e Páscoa por causa da situação financeira, muito filho então não era tão fácil assim e aí quando se reunia todo mundo, nem um deles era casado ainda, né? Então quando essa minha irmã mais velha que casou primeiro, aí já foi aquela coisa, ficou aquela lacuna, a gente mais vivia na casa dela porque queria ir na casa dela. Na realidade ela que criou todos, porque minha mãe tinha que ir pra lavoura trabalhar, ela ficava responsável e mais a volta do meu pai também. Eu sempre mexo com ela que ela herdou muita coisa do pai que ela aprendeu muito com o pai porque ela teve muito na volta dele, eu tinha dez anos quando meu pai faleceu, eu não consegui aprender tudo que eu queria aprender com ele. 

P/1 – Ele era pastor de que igreja?

R – Pastor de igreja livre que eles falam é a Luterana, eu sempre me confundo eu não sei se é no ou do Brasil.

P/1 – Luterana do Brasil. E você disse que ele era professor de currículo?

R – Isso, primário no caso.

P/1 – Está certo. E dava aula nas escolas rurais?

R – Uma escolinha perto de casa.

P/1 – Certo. E a sua primeira escola?

R – Era lá pertinho de casa, hoje essa escola... Eu tenho um irmão que é vereador, então ele colocou essa proposição na Câmara e eles aceitaram de colocar... Essa escola hoje tem o nome do meu pai em homenagem a ele.

P/1 – Como é o nome da escola?

R – Reinaldo Gere.

P/1 – Escola Municipal Reinaldo Gere?

R – Isso.

P/1 – E vem cá como é que era essa sua escola tem alguma professora que tivesse ficado na sua lembrança? Uma história dessa escola que tivesse te marcado?

R – A única coisa que me marcou da escola é que eu não consegui aprender Matemática, era um terror a Matemática pra mim, então eu não sei por quê esse... Hoje a gente lê livros e fala com muitas pessoas, então eles dizem que isso é uma coisa até na criação, às vezes naquela época muito oprimida, nada podia, não sei se é isso. Mas dos professores eu não tenho nada, todos foram muito bons até porque a minha irmã deu aula pra mim... Primeiro meu pai, depois meu pai se aposentou...

P/1 – Seu pai chegou a dar aula pra você?

R – Meio ano, eu acho que foi.

P/1 – Ele era muito duro?

R - Não, ele era bem dinâmico, mas muito pelo correto, muito pelo justo, então isso me marcou bastante só que foi meio ano só, depois todos os professores foram meus irmãos, do currículo foram todos meus irmãos. 

P/1 – Como é que brincava essa criançada? Essa menina Iolanda com suas amiguinhas? Quais eram as brincadeiras que vocês tinham?

R – Pois é, bonecas tinham poucas a gente brincava assim mais era de casinha, fazia de conta que estava cozinhando era sempre o ponto que era a questão, né? Então sempre na rua e dentro de casa quando chovia somente se não a gente estava sempre na rua correndo, brincando, inventando alguma coisa.

P/1 – Que tipo de coisas vocês inventavam?

R – Na rua? Brincar de pegar, hoje eu não sei como chama essas brincadeiras, era pega pega, esconde esconde, essas coisas, passar anel e de casinha que era montar uma casinha, uma casa enfim que tinha suas peças, então a gente delimitava com tijolos, fazia alguma coisa assim.

P/1 – Montava os móveis, essas coisas?

R – Isso, fazia alguma coisa que representasse.

P/1 – Tinha luz elétrica?

R – Quando eu tinha seis anos instalaram a luz elétrica.

P/1 – Como foi quando acendeu a primeira luz pra você?

R – Foi bem interessante, porque até então a gente era assim, tinha que fazer tudo rapidinho, porque ao entardecer a gente falava: “vamos fazer rapidinho porque não tem luz” era liquim, luz de velas e foi bem interessante, né? Trazer tudo novo, tudo diferente, né? A mãe é que assim pra conseguir manobrar toda essa turma assim que era interessante, então ela dizia: “bom, agora chegou a hora de todo mundo tomar banho e vamos ver quem tem o pezinho mais branquinho”? Então todo mundo queria tomar banho para ver quem tinha o pezinho mais branquinho, era bem interessante só que aí depois quando veio a energia elétrica aí se perdeu aquela coisa um pouquinho, né?

P/1 – E vocês ouviam rádio? Essas coisas ou não? Vocês costumavam ouvir rádio?

R – Você sabe que nós tínhamos... Eu não peguei essa época assim, porque a gente tinha uma televisão que era à bateria e o rádio era à pilha, então eu não peguei essa fase de não ter... Isso aí eu não saberia te dizer...

P/1 – Mas uma coisa você vai saber me dizer, quer dizer você nasceu e vive no Pampa que é uma região muito particular, muito peculiar como é que você definiria esse ambiente físico que você cresceu e está vivendo hoje, o que é o Pampa se você tivesse que responder essa pergunta pra alguém?

R - Eu acho que é o paraíso, sem sombra de dúvida.

P/1 – Por quê?

R – Porque é uma coisa única, eu até não saí assim pra fora do estado, eu não saberia te dizer como é lá, mas eu não sei, o cantar dos pássaros tu apreciar tudo, esse ar, respirar esse ar puro aqui é fantástico.

P/1 – E você pelo fato de ser descendente direto de pomerano, você mantém ainda essas tradições? Participa desses eventos? A colônia tem uma atividade nesse sentido?

R – Tem com certeza está havendo um resgate cultural agora da imigração alemã pomerana, inclusive estão montando esse caminho pomerano e já está aberto a visitação inclusive e agora no dia 13 de outubro me parece que foi no final de semana do dia 13 acho que é isso teve a Oktoberfest inclusive a gente saiu representando um casamento pomerano onde a noiva casava de preto você sabia? A noiva casava de preto e o irmão da noiva, o irmão mais novo saía a cavalo pra convidar, pra fazer os convites do casamento no caso, não se escrevia naquela época era... Então pra... Como eu vou te dizer pra dizer que tinham aceitado o convite, eles colocavam uma fitinha colorida ou no casaco ou no chapéu do irmão da noiva como forma de que eles iriam ao casamento e serviam um Schnaps, você já ouviu falar em Schnaps?

P/1 – É uma aguardente?

R – Isso aguardente e serviam Schnaps pro irmão da noiva, era bem interessante assim a gente contar essa história até inclusive o meu sogro, ele saiu a convidar num dos primeiros casamentos das irmãs, acho que era a irmã mais velha dele, é bem interessante o depoimento dele. Eles contam que ainda bem que era a cavalo, porque o cavalo sabia o caminho de volta, porque chegava ao final do dia o cara já estava...

P/1 – Depois de 18 convites. E tem alguma tradição que você acha digna de nota, uma festa? Uma comida? Um evento, alguma coisa que seja muito característica dessa imigração pomerana?

R – Esse negócio do casamento é só uma... A gente está representando isso, porque o casamento pomerano se perdeu totalmente. Eu ainda posso dizer que casei mais ou menos dentro dos padrões, como vou te dizer, porque era uma fartura é uma coisa que acho que não é vista em lugar nenhum as pessoas que vêm de fora ficam admiradas olhando. Se faz sopas, se faz mocotó, carne de tudo é uma variedade assim se faz N coisas é muito diversificado. Então tem pessoas que dizem: “meu Deus não dá pra comer mais, chega”, mas é aquela coisa da cultura, de ter essa fartura e sem contar o chopp que não pode faltar.

P/1 – E é o dia inteiro?

R – Normalmente era, é claro que isso está se perdendo um pouco por fins de custo, se torna muito alto o custo, mas é maravilhoso o casamento se tu for num casamento durante o dia durante o dia na colônia aqui tu vai dizer a mesma coisa que eu que é digno de nota. A sopa era feita em latas, sabe latas de margarina é tipo um latão, não sei que material era aquele.

P/1 – Latas grandes?

R – Exato. Latas de uns 15 quilos, eu acho um sabor... Fica com gostinho de fumaça, fica algo que é digno de nota.

P/1 – É sopa de quê?

R – De galinha caipira é maravilhoso, inclusive esses dias nós fomos num casamento de bodas e tinha, eu nunca mais tinha comido sopa de lata.

P/1 – Você se fartou?

R – Oh, fantástico, muito bom.

P/1 – Você... Voltando ainda nessa cultura pomerana, fora essa recuperação da cultura aí que você está dizendo pra nós que está existindo e tudo mais as crianças como elas encaram isso? Elas também entendem isso? Têm vontade de continuar?

R – Com certeza, porque inclusive, eu levei toda a minha família, eu falei: “Eu tenho uma indústria, eu quero...” eu saí distribuindo bolachinha pra rua afora é claro que a gente une o útil ao agradável, porque é um marco que tu está resgatando, né? E aí ela disse: “Ah mãe eu não quero ir” aí eu sentei e expliquei pra ela que tem que haver esse resgate e isso é cada um que vai colocando, vai plantando a sementinha em cada um, né? E as crianças aceitam muito bem, desfilam inclusive no dia que foi a encenação do barco como se eles tivessem chegado naquele dia foi muito lindo, mas muito triste também, né?

P/1 – Por quê?

R - Porque eles vieram fugidos de lá, né? Da Pomerania, da Prúcia inclusive a gente tem um historiador aqui o Jairo Scholl, ele escreveu um livro sobre isso, porque eles foram lá pesquisar, então foi bem marcante assim.

P/1 – Você tem idéia de como era essa história?

R – Eu sei que parece que o Hitler queria tomar conta da Polônia, queria tomar conta da Prúcia, então houve massacres...

P/1 – Ah sim isso é mais recentemente, né?

R – Não, naquela época eu acho, não eu estou fazendo confusão realmente.

P/1 – Hitler já foi uma perseguição nazista é outra história.

R – Sim, não foi o Hitler desculpa.

P/1 – Foi antes disso, foi lá no século XVIII?

R – Isso, eu não lembro quem...

P/1 – Bismark talvez?

R – Com certeza.

P/1 – Você disse que o nome do historiador é Jairo Scholl?

R – Costa.

P/1 – Bom, continuando a sua escola... Ainda o seu processo educacional, aí você sai dessa escola praticamente familiar e qual foi o desdobramento disso? Você foi pra onde?

R – Ah esse é que é o ponto, aí eu caí... Lá no currículo é muito por um lado... Hoje já muda, né? As minhas filhas já tiveram cada, não eu também tive cada disciplina no caso no início que é tudo junto, né? Na quarta série já mudou, eu me senti meio deslocada, meio assim sem chão, porque chegar bah tu está tipo assim com teu pai, teus irmãos, tu tá sempre em casa e daí a um pouquinho tu chega e... Foi aqui na escola que eu comecei a fazer um...

P/1 – Que escola?

R – Na Escola Agrícola Santa Isabel que hoje é a ETESE então inclusive por isso rodei de ano, porque foi bem assim... E aí depois a coisa foi... Na sétima eu passei, aí fui pra São Lourenço estudei lá com a minha irmã, até muito por isso eu acho, o meu pai tinha falecido há pouco tempo, então a gente fica um pouquinho sem chão, né? E depois que eu passei da sétima, eu desisti de estudar, aí vim pra fora, ajudei a mãe no campo, na lavoura tinha um irmão meu dos mais novos que era solteiro, então a gente veio dar uma força pra mãe também que estava também desestruturada, né? Em função de poucos anos...

P/1 – Me conta como é que foi essa sua saída pra cidade, embora tenha durado pouco tempo lá, né? Como que é viver a vida inteira no campo e de repente ir pra cidade, o que aconteceu?

R – Bom, eu ainda era assim uma criança, eu com 12 anos achei muito bom, tudo diferente tudo novo só que parece assim que chega uma hora que a ficha cai não é muito melhor que aqui claro e tu começa a ficar com saudade da mãe mesmo, morando com a irmã, né? Então foi bom nos dois lugares, mas aqui é muito bom.

P/1 – Essa decisão de parar de estudar foi só sua? Sua mãe recebeu bem?

R – Foi minha, pois é e hoje eu como mão não deixaria, eu diria não, eu argumentaria: “Não, vai lá você tem que estudar e tal”, mas a mãe foi muito... Eu não sei se em função dela ter perdido o esposo, da gente ter perdido o pai, ela até achou melhor talvez que... Foi outra época, outra cabeça, outro pensamento, né? Aí depois com 19 anos eu me casei.

P/1 – Mas primeiro eu quero que você me conte o que você veio fazer com a sua mãe? Como é que você trabalhava com ela? Como que era o cotidiano ali da família?

R – Ah, a gente não plantava muito porque não tinha muita terra, então a gente plantava pouca coisa, era batata, feijão, milho mais pro consumo também, né?

P/1 – A terra era de vocês?

R – Alguma parte era e a outra parte a gente arrendava.

P/1 – Quem trabalhava lá, você, sua mãe...

R – E meu irmão.

P/1 – E chegava a vender alguma coisa pra fora?

R – Alguma coisa a gente vendia pra fora.

P/1 – Por exemplo?

R – Batata, mais era batata, porque era terra da batata, né?

P/1 – E aí você ainda uma jovem ali tinha algum tipo de diversão? Saía?

R – Ah, mais era jogos nos finais de semana assim e já tinha uma namorado já ia com o namorado, né? 

P/1 – Certo. Jogos que tipo de jogos?

R – Futebol mesmo.

P/1 – Futebol.

R – Era o auge da... Foram campeões e a gente ia fazer torcida, era muito bom.

P/1 – Mas vocês iam assistir os jogos? Ou jogar?

R – Íamos assistir os jogos e fazer torcida era bem legal.

P/1 – E onde acontecia isso?

R – No interior, algumas partidas até tipo final era na cidade.

P/1 – Então era um campeonato estruturado que vocês acompanhavam?

R – Era.

P/1 – E tinha alguma festa tradicional que você se lembra? Alguma coisa que todo ano se repetia?

R – Ah, a festa da nossa comunidade aqui da Igreja de São Pedro que a gente ia sempre, né? É anual a festa, então é uma coisa que tem sempre.

P/1 – No dia de São Pedro em junho? Não se trata de uma festa junina tradicional?

R – Não.

P/1 – Como é que é?

R – É a festa tradicional da comunidade no caso no dia que foi fundada a igreja, a comunidade... Aí no caso fizeram a igreja e depois a gente fazia essas festas pra arrecadar fundos pra construir um salão. E hoje o salão é enorme faz festas bem grandes, está bem conhecido, está bem estruturado e tudo. 

P/1 – É grande a comunidade aqui do município?

R – A comunidade que eu falo assim é cada localidade... Eu nem sei te dizer certo o número de distritos certos que tem São Lourenço é bem grande, são dez distritos Dona Ide? [pergunta para a pessoa que está acompanhando] Porque aí cada localidade tem a sua igreja e aqui são 200 e alguma coisa de sócios.

P/1 – Bastante, né?

R – Aqui é bem grande.

P/1 – E é um grupo coeso? Solidário?

R – Ah, com certeza, cada festa que tem assim a gente se une e todo final de semana está todo mundo imbuído em ajudar.

P/1 – E tem alguma obra que vocês fazem, algum apoio que vocês dão pra alguma obra assistencial? Ou coisa desse tipo?

R – Não, é pra localidade aqui mesmo pra...

P/1 – E a maioria desse pessoal está produzindo o que no campo assim? 

R – Hoje é mais no campo de leite e fumo, porque o fumo aqui está tomando conta infelizmente.

P/1 – Porque é uma cultura nova aqui?

R – É. Surgiu assim muito... Faz uns cinco anos que está bem assim no auge, vamos dizer assim e a gente vê crianças no meio é até lamentável, porque os pais não se dão conta, sabe? Crianças respirando aquele ar, eles acham que não faz mal nenhum só que a gente sabe que faz, né? Só que é uma das culturas que mais está rendendo, hoje em dia está rendendo infelizmente.

P/1 – Isso acaba virando um apelo, né? 

R – Isso.

P/1 – Está certo. Bom, vamos voltar você Iolanda ainda com essa tua fase aí de ficar na barra da saia da tua mãe vendo a sua mãe cozinhar e tudo mais, o que você gostava mais de vê-la fazer?

R – Ah cada... A mãe não tinha muito tempo de cozinhar, né? Porque estava sempre na lavoura e então ela passava mais pra gente, deixa ver mais o quê? O ganso assado. A gente tinha um forno de rua.

P/1 – Forno de quê?

R – Forno de rua, como é que vou te explicar, você já viu um forno de rua?

P/1 – Se for o que eu estou imaginando, eu já vi, mas explica como é?

R – É um forno que é feito de tijolos só que é feito com barro, então a gente põe lenha lá dentro aquece ele e depois assa e fica maravilhoso, o sabor é inigualável, digno de nota também.

P/1 – Quanto tempo pra assar um ganso?

R – Uma hora, uma hora e meia.

P/1 – Ah é rapidinho?

R – Muito. É fantástico, é melhor que a sopa.

P/1 – E como é que se prepara um ganso classe A?

R – Hoje até te falo... Me lembrei agora de uma das coisas que eles que eles comercializam no caminho pomerano é o que eles chamam de... Eu não sei falar o nome em alemão, em pomerano eu sei que é Spickbrust.

P/1 – Como é que se escreve? 

R – Como se escreve em alemão Dona Ide? [Dona Ide é alguém que está ouvindo a entrevista]

P/ 1- Mas do que se trata?

R – É peito de ganso defumado é fantástico. E o ganso, bom, voltando ao ganso a gente tempera bem... Eu sei falar pomerano e não sei falar alemão, eu pretendo até fazer aula de alemão pra aprender. E o ganso a gente tempera ele é bem temperado com sal, aí fica a critério de cada um, mas a mãe colocava até manjerona, colocava temperinhos assim, o forno é que dá o tempero especial.

P/1 – Sei, dá o segredo maior?

R – Isso.

P/1 – Está certo deu até água na boca. E como é que você se envolveu com produção de doce foi por causa da sua mãe também quando você era criança vendo-a mexer?

R – Eu acho que sim, sabe? Porque eu não podia ouvi-la falar que ela ia fazer alguma coisa no forno que eu estava ali pronta para ajudá-la, já era aquela coisa que eu fazia assim de coração, eu acho que a gente na vida tem que ter um hobby e desse hobby fazer a profissão da gente. E acho que foi ao meu caso, porque pra mim, porque eu hoje não faço bolachinha no forno de rua, mas eu gostaria porque em virtude da saúde não permitir. Eu até acho que deveria haver um resgate de cultura nesse sentido, porque a gente nada pode, isso não pode, aquilo é contaminante, aquilo não sei o quê. Então a gente fica meio... “Ah, não posso fazer isso aqui porque...”

P/1 – A saúde que você se refere é a Secretaria de Saúde, Vigilância Sanitária e essas coisas?

R – Isso a Vigilância Sanitária.

P/1 – Tem reservas com relação a esse tipo de forno?

R – Com certeza.

P/1 – E tem algum motivo especial?

R – Contaminantes, não é permitido, porque eles acham que contamina o alimento, eu não vejo assim, né?

P/1 – E quando que você descobriu que o teu negócio seria fazer doces? Decidiu começar a focar nesse negócio de trabalhar com pão? Doces? 

R – Olha, eu fazia na informalidade por todo mundo me dizer: “É muito bom o que tu faz.” só que aí pra eu montar esse negócio, eu não tinha condições financeiras porque o investimento é muito alto, mas aí um dia essa minha amiga da Emater a Regina que esse foi um casamento perfeito, né? A Emater e o Banco do Brasil, porque um ou outro sozinho não adianta, não adiantava eu ter o apoio da Emater e não adiantaria eu ter só o apoio do Banco do Brasil, tinha que ter dos dois, ela comentou com o Vitor Hugo dele me fazer esse convite, porque eu só precisava de um empurrão, foi o que ela disse pra ele, então ele veio.

P/1 – Você não conhecia o Vitor Hugo? 

R – Só de nome, de vista não.

P/1 – E você fazia...

R – Fazia informalmente, fazia caseiro, na minha casa mesmo e vendia assim por encomenda para algumas pessoas, era um público bem restrito, né?

P/1 – Sim, mas de todo modo deve ter feito algum sucesso, né? Porque você ficou conhecida, né?

R – Com certeza.

P/1 – E aí como é que foi essa triangulação da Emater, você e Banco, como é que se deu esse casamento?

R – Pois é aí o Vitor Hugo veio me fez esse convite de primeiro eu fiquei até assim surpresa puxa porque primeiro tu pensa assim: “Bah eu poderia ter essa agroindústria e tal” só que no momento que tu vai pensar mesmo em dar esse passo tu fica assim, né? É um passo que tu vai dar, tu não pode dar um passo em falso, você tem que estar com certeza do terreno que tu vai pisar. Então ele veio me fez a proposta me apresentou que o juro também é bem acessível, eu achei que daria pra eu começar a trabalhar, ne? E eu fiz o meu cálculo baseada no que eu vendia, né? Então o que eu vendia daria pra eu pagar só que aí depois começa assim... Tem tanta burocracia, tanta coisa que tu precisa colocar em dia, exigências inclusive aí da Crea Sanidade e tal, exigem muitas coisas e aí tu acaba gastando mais do que tu pensa que vai gastar.

P/1 – Entendi. E quais foram suas maiores dificuldades nesse negócio?

R – Ah, a reforma do prédio, começar tudo de novo assim é mais prático, mas a gente teve que adaptar ali e como eu já tinha o prédio, eu não quis demolir porque era mais um custo, né? E como eu já tinha facilitava em alguma coisa só que a gente teve que... Não ficou assim a agroindústria que eles queriam padrão e tal, mas como não era de citros que eles chamam, né? De outras que no caso não é tão contaminante pra dentro da agroindústria, então ele achou que daria pra adaptar assim e eu acho que ficou bem legal.

P/1 – Isso foi quando Iolanda?

R – Foi no verão que a gente começou em 2008, nós começamos em janeiro e em maio eu já comecei a produzir.

P/1 – Certo. E você fabrica basicamente o quê?

R – Biscoito caseiro e os pães, eu gostaria muito de ter o forno de rua pra fazer pão de milho que é fantástico, pão de milho exige um calor acho que em torno de 200 ou 300 graus nessa faixa assim. Tu até consegue nesses fornos convencionais aí, mas não fica o mesmo sabor, ele perde o gostinho e o sabor de infância, aquele que a mamãe fazia, sabe? 

P/1 – Sei, isso é insubstituível, né?

R – Ah, tu me perguntaste a minha maior dificuldade? Foi na área da contabilidade, porque foi bem difícil pra gente conseguir registrar e tal, em virtude de uma distância, eu peguei uma amiga minha e ela mora no Boqueirão e eu aqui, então pra ir lá a gente ficava se falando por telefone e deixava papel em São Lourenço e foi assim um erro meu. Eu deveria ter pegado alguém da cidade que tivesse mais fácil acesso assim.

P/1 – E como é que você superou esse problema?

R – Agora eu consegui outra contadora em São Lourenço que é muito alto o custo do contador, mas agora eu consegui uma. Dizem que na vida você tem que ter um amigo advogado, um amigo contador e o outro eu não lembro mais qual era. 

P/1 – Precisa ter.

R – Eu acho que arrumei uma agora também, outra que eu também não conhecia, bem legal ela, eu superei o trauma, então agora está tudo certo.

P/2 – Eu estou me lembrando daquele teu problema com a Matemática lá atrás. 

R – Olha, eu papel e conta eu sou um zero à esquerda.

P/2 – E como é que você consegue controlar o teu negócio?

R – O meu marido controla.

P/2 – Saiu pela tangente, né? 

R – Tem que ter uma válvula de escape, né?

P/2 – Basicamente são os seus biscoitos caseiros e os pães? E o seu dia-a-dia como é que é? Pra garantir essa produção me conta como é o teu dia típico?

R – Bem corrido, tem que ser corrido se não, não consigo dar conta até porque tipo assim eu ligo quinta feira pro pessoal pra ver quantos pães eles vão querer, né? Alguma coisa eu já vou produzindo até quinta feira, porque mais ou menos eu tenho uma estimativa assim do que eu vou vender, mas o pão não dá, o pão tem que ser fresquinho, né? Então eu sou bem exigente nesse sentido assim, eu não vou entregar coisa que já está... E aí eu ligo quinta feira para os clientes e eles me dizem: “Oh a gente quer tanto pão.” aí eu faço quinta o pão e sexta eu corto ele e entrego, porque tem que ser de um dia para o outro e a sexta feira a gente vai entregar.

P/2 – Vocês mesmos distribuem?

R – Nós mesmos?

P/2 – E pra onde vai essa produção?

R – Pra cidade.

P/2 – Só pra cidade?

R – Por enquanto.

P/2 – Mas Iolanda a sua produção desses pães e desses biscoitos são entregues sempre frescos você disse, você faz questão disso e tudo mais e quem é que... Pra quem você distribui isso?

R – Agora no momento pra mercados pequenos, porque eu ainda não tenho informação nutricional, não tem os itens que eles que eles exigem. Então eu já mandei fazer agora as etiquetas e todos os procedimentos para poder então... Porque mercado maior é assim, eles são mais exigentes, então eu fui aos mercados pequenos primeiro até pra ver qual seria a demanda e está sendo muito bem aceito graças a Deus. 

P/2 – Quer dizer você tem uma freguesia, uma clientela já fixa que compra regularmente de você?

R – Com certeza.

P/1 – Você entrega que quantidade de produtos assim por semana? Você tem idéia? 

R – Em torno de 50 a 60 pães varia um pouquinho e biscoito eu faço por massa... Eu nunca somei, eu nunca fiz esse cálculo ainda, eu tenho tudo anotado, mas deve dar em torno de 200 pacotes.

P/1 – 200 pacotes. E se isso crescer demais como você vai fazer?

R – Vou apelar pro Banco do Brasil, vou ter que fazer alguma coisa, né? Vou ter que aumentar...

P/1 – Como é que o Banco apareceu na tua atividade? Como é que foi esse primeiro contato com o Banco, porque Banco é uma coisa difícil, complicada “Vou ficar devendo pro banco” como é que você ultrapassou essa fase?

R – Era o que eu estava te falando que foi o casamento perfeito, né? Foi através da Emater que eles me sugeriram fazer esse financiamento e a gente fez e está aprovado. Esses dias eu até falando com a Nádia, ela me perguntou como que foi e eu disse pra ela, eu não posso assim falar muito porque eu me emociono, sabe? Porque é uma força muito... Se não fosse isso eu não teria como, eu não teria meios de chegar, não tem... De onde que tu vai tirar, eu investi 18.000 reais, então não é assim fazendo um estalar de dedos que tu vai ter 18.000. Então foi assim por isso que eu digo que foi o casamento perfeito porque a Emater te dá uma assistência de um lado, ela supre um tipo de necessidade e o Banco entra com a chave que é o dinheiro que sem dinheiro tu não consegue fazer nada, né? 

P/1 – E você tem idéia de como é essa relação com os outros produtores aqui da região?

R – Puxa, eu não sei te dizer, eu não tenho assim...

P/1 – E você sabe como é que os agricultores vêem o Banco do Brasil? Como é que eles enxergam?

R – Olha, eu creio que muito bem, porque cada vez que a gente vai lá é uma fila imensa, né? É muita gente pra eles atenderem e quase não dão conta por causa de tanta gente que tem, tem gente que desiste, porque vai de ônibus é bastante... O dia que nós fomos fazer mesmo o financiamento foi bem assim tinha muita gente.

P/1 – E como é a relação com os funcionários do banco?

R – Ah, é boa, a gente conhece o Guido que aprovou o nosso financiamento, a gente foi bem atendido por ele.

P/1 – Tem algum caso assim interessante dessa sua relação com o Banco que você acha interessante lembrar?

R – Ah, tem o outro que quando nós vendemos outra propriedade a gente fez pelo Banco da Terra, porque quando o rapaz que quis comprar, ele também não tinha meios, então ele apelou pro Banco da Terra. Nós vendemos pra ele e foi bem legal o negócio.

P/1 – Certo, foi um negócio de soma positiva?

R – Isso.

P/1 – Para os dois lados. Eu vou te fazer uma pergunta que vai parecer óbvia, mas eu queria mais que você refletisse sobre ela do que exatamente respondesse com obviedade, mas eu queria que você dissesse qual a importância desse trabalho, desse papel do Banco do Brasil no desenvolvimento dessas atividades produtivas aqui na região?

R – Fundamental, né? Era o que eu estava te dizendo antes sem isso pra mim... Eu não teria meios talvez até poderia recorrer a outro Banco, mas não tem como tu pagar juros altos, entende? Então esse é um... Como eles chamam Pronaf mulher é uma coisa bem acessível é uma coisa que tu pode trabalhar tranqüila que não vai ficar perdendo o sono por isso. Então...

P/1 – Certo. Quem trabalha no seu negócio?

R – Somos eu e minha família no caso e tem a minha cunhada que ela é a responsável pela... Nós somos como eu vou te dizer, sócias, entre aspas, no caso porque eu fiquei responsável por essa parte burocrática toda de montar, inclusive foi ela que fez o financiamento o meu marido é funcionário público, então a gente não se encaixa nesse... E aí ela fica responsável pelas tortas e bolos enfim.

P/1 – Tortas e bolos? Divisão de tortas e bolos fica com... Como é o nome dela?

R – Lory.

P/1 – Com a Lory e você fica com os biscoitos e pães?

R – Isso.

P/1 – Duas diretorias aí que daqui a pouco vão se consolidar. A sua família trabalha? As suas filhas trabalham?

R – Claro que serviços leves como colocar etiqueta, embalar, alguma coisinha assim amarrar com a palhinha de buriti que eu uso, né? Coisas leves nada...

P/1 – E aqui é a casa de vocês?

R – Não, nós moramos na Escola Técnica aqui pertinho, aqui é nossa propriedade, propriedade do meu sogro, da minha sogra.

P/1 – E quanto tempo fica a tua casa daqui?

R – É pertinho, dá um quilômetro e pouco.

P/1 – Você vem todo dia pra cá e...

R – todo dia.

P/1 – Certo. Bom, você é casada, né? Como é o nome do seu marido?

R – Paulo Rogério Ritter.

P/1 – Paulo Rogério...

R – Riter.

P/1 – Ritter, e como é que vocês se conheceram?

R – Olha isso é uma história, essa é a história.

P/1 – Pode contar.

R – Bom, a minha irmã que é no caso a penúltima, ela morava com a minha irmã mais velha que era professora e eles estudaram juntos, eu acho que nem a dona Ide não sabe dessa história. A minha irmã morava com a minha outra irmã e eles estudavam juntos, o Paulo e a Leucy quando ela vinha pra casa nos fins de semana, ela me falava muito no Paulo era Paulo pra cá, porque eu brincava com o Paulo disso, porque eu brinquei... “Mas quem é esse Paulo”? “Paulo é uma colega meu assim, assim” e começou aquela coisa, aquela curiosidade de saber quem era o Paulo. E um belo dia nessa festa da comunidade eu conheci o Paulo, eu tinha oito anos de idade e foi uma coisa assim que: eu olhei pra ele e parece assim uma coisa de outro mundo, eu comecei a partir daquele dia a gostar dele. E daí depois eu tinha 14 anos quando a gente começou a namorar e estamos aí até hoje. E nesse baile ele dançou com uma menina e eu com oito anos de idade, eu fiquei assim mordida de ciúmes, ele nem me conhecia é uma coisa assim fantástica, essa é a verdadeira história. 

P/1 – De amor, né?

R – É com certeza.

P/1 – Quer dizer você achava que namorava ele, mas ele não sabia?

R – Ele não sabia.

P/2 – Como era o namoro na época?

R – Ah, era mais... Hoje a minha filha diz pra mim: “Ah mãe aquela época já passou” era mais restrita a coisa, não era tão liberal como hoje.

P/2 – Mas vocês podiam sair assim ou era sempre em casa?

R – Isso com certeza, essa época de vigiar a gente não... Essa já tinha passado.

P/1 – E seus filhos são quantos?

R – Tenho duas meninas.

P/1 – O nome delas?

R – Ana Paula e a Júlia Lana.

P/1 – E elas estão estudando?

R – Estão estudando.

P/1 – E ajudam você aqui sempre que podem, né?

R – Isso.

P/1 – E como é que vai ser a sua marca? O nome do seu negócio qual é?

R – Bom, a princípio era só da pomerana que eu achei que cabia bem, em função, em virtude da gente ter esse resgate cultural do caminho pomerano e tal só que aí eu sabia que precisava de uma coisa mais forte e só da pomerania ficava muito vago assim, né? Então me surgiu a idéia de colocar quando eu li essa apostila que a gente inclusive fez esse curso do caminho pomerano como condutor e numa das páginas eu achei esse nome que era o nome do lugarejo.

P/1 – E como era o nome?

R – É Pomersh.

P/1 – O que é o caminho pomerano?

R – O caminho pomerano é esse resgate cultural onde eles mostram o que as pessoas usavam naquela época, tem vários empreendimentos e que o primeiro, conta do casamento pomerano, por que a noiva casava de preto e tal o senhor sabe por quê? Casava de preto em virtude até de luto, porque a primeira noite era do... Como é que eles falavam?

P/1 – Do senhor feudal?

R – Isso mesmo, então até isso eles contam assim como os namoros dos pomeranos era mais liberado por isso em virtude do primogênito não ser do senhor e sim do marido, né? Então é uma história até muito triste assim, mas hoje em dia é claro que a gente só tenta mostrar um pouquinho do que era e como era pra ficar na lembrança e não mais ser assim, né? 

P/1 – A memória nesse ponto é importante para inclusive reconhecer o passado e saber projetar o futuro, ne?

R – Isso, com certeza.

P/1 – E a comunidade se mobiliza em torno desse projeto?

R – Olha, tem muita gente que fala assim: “Dizem que santo de casa não faz milagre” tem muitas pessoas que pensam assim “Ah isso não vai dar certo”, mas eu não vejo assim, eu vejo que já deu certo só falta as pessoas olharem com outros olhos. O que pra nós não tem mais valor “ah aquele chuveiro velho...” Tu conhece aquele chuveiro velho, tu sabe que aquele chuveiro velho era daquela época só que as pessoas que vêm de fora, elas não sabem como que era, elas não tem idéia do que foi e se deslumbram em ver cada detalhe são detalhes tão pequenos, mas que dão uma visão bem especial.

P/1 – O caso do chuveiro qual seria?

R – É um chuveiro como se fosse uma lata com um chuveirinho só que é uma coisa bem diferente, não sei como que é em outros lugares, como seria isso.

P/1 – Dava pra tomar banho quente?

R – Claro, aquecia a água e colocava lá dentro, tinha uma torneirinha que tu regulava conforme a... Então ninguém tem idéia do que é as pessoas se deslumbram em ver que era a cama colonial, era tudo de cedro o material o colchão era de palha são detalhes riquíssimos.

P/1 – E essa idéia de fazer da sua marca uma referência dessa cultura tem a ver também com esse teu envolvimento aí na...

R – Com certeza. Na realidade é como eu te disse a gente faz um marketing em cima daquilo que tu tá buscando, tu não pode tirar as coisas do ar tem que ter um...

P/1 – Um fundamento?

R – Um fundamento.

P/1 – Certo. Qual você diria que foi o maior aprendizado que você teve em toda essa sua atividade aí, digamos empresarial que é recente, mas é consistente?

R – Que você deve ter um hobby e desse hobby fazer a sua profissão, porque tu tem que trabalhar com o teu coração, tu tem que fazer aquilo como se fosse pra ti, mas é pra servir a outros. Então se tu fizer por fazer não fica bom. 

P/1 – Certo. Eu me esqueci de perguntar, como é que foi o seu casamento?

R – Um típico casamento pomerano, eu não trouxe uma foto, mas a gente pode pegar. Não foi durante o dia, foi durante a noite, mas foi bem com essa fartura toda que eu falei, foi bem legal, não sei como é casamento em outras regiões, mas aqui a gente pega um monte de padrinhos e é aquela interação, aquela festa é muito boa. 

P/1 – É um monte de padrinhos?

R – Eu tinha quatro... Eu tenho um monte de irmãos, então eu era pra ter pego todos porque cada qual ficou com uma dor de cotovelo, cada qual queria ser. Então a gente pegou quatro irmãos de um lado, porque a família do Paulo também é grande são sete irmãos no total. Então a gente pegou quatro irmãos de um lado, quatro casais de um lado e quatro casais de outro.

P/1 – É padrinho a dar com pau, né?

R – Com certeza.

P/1 – Voltando pro seu negócio, seu aprendizado que está vinculado a um hobby, mas que é um hobby que você decidiu como sua profissão, né? Eu queria uma resposta assim bem simples, qual é o segredo da qualidade? Como é que você consegue garantir a qualidade do seu produto e onde está o pulo do gato?

R – Eu procuro usar produtos de qualidade, tem gente que diz assim: “Ah, mas teu biscoito é muito caro”, mas não adianta eu usar produtos... Ir lá ao mercado comprar a farinha mais barata, o açúcar mais barato, usar tudo de péssima qualidade e não ter um produto final  bom, né? Eu acho que a gente tem que ter um preço, claro que não... Aqui eles acham caro, porque o pessoal de origem alemã, ele está habituado a fazer todo o seu produto em casa. Então eu não acho que seja o valor alto só que eu procuro usar produtos de qualidade se eu vou ao mercado eu compro tudo assim de uma qualidade... Que eu acho que seja de uma qualidade boa pra ter um produto final bom. 

P/1 – A tua matéria prima é toda daqui da região?

R – Eu creio que sim.

P/1 – Você tem uma clientela fixa e você trabalha pra ampliar essa clientela ou os clientes vão chegando meio que vegetativamente?

R – Até agora assim a clientela é aquela coisa de boca em boca sabe? Um prova e fala: “olha que bom é da fulana” até porque a nossa família é muito conhecida aqui na região. Então a coisa vai se espalhando e agora como eu estou providenciando as etiquetas com a informação nutricional que eu tinha comentado antes, agora sim eu vou tentar procurar mais clientela.

P/1 – E você já tem planos assim de ganhar mais escala na sua produção pra poder atender eventuais aumentos de demandas?

R – Eu pretendo pegar uma pessoa pra me ajudar, contratar sei lá uma diarista que seja alguma coisa assim pra não ficar muito maçante, porque não adianta tu estar com dinheiro e tu não estar com a tua saúde, então tem que haver um equilíbrio aí para assim aumentar a demanda. 

P/1 – Você trabalha muitas horas por dia?

R – Bastante. Tem dias que eu vou dormir meia noite pra dar conta de tudo, porque ser mãe, dona de casa, mulher e microempresária não é nada fácil.

P/1 – Eu compreendo e tem a minha solidariedade.

R – Obrigada.

P/1 – Mas é uma barra pesada, mas eu acho que só as mulheres são capazes de encarar essas paradas.

R – Que bom de ter uma pessoa tão sensível.

P/1 – Mas é verdade, eu sou pelo matriarcado. Qual que você considera a maior realização da sua vida?

R - Eu acho que as minhas filhas isso é uma benção de Deus se for nesse sentido que tu está falando, né?

P/1 – Sim, e também no sentido, digamos esse é o sentido mais espiritual, amoroso assim no sentido dessa nascente empresária que está na nossa frente aqui.

R – Com certeza, filho é uma dádiva assim que não tem... Bom, diz o ditado que ser mãe é padecer no paraíso, então a cada dia tu aprende uma coisa nova com elas, cada dia elas te mostram outro lado da vida que ninguém mais consegue te mostrar só filho mesmo.

P/1 – E o futuro do seu negócio?

R – Era como eu estava te dizendo, eu pretendo contratar alguém pra me ajudar para então... Acho que vou ter que comprar um carro maior ou alguma coisa específica pra isso, porque de carro não dá mais pra mim estar entregando assim, está difícil. Então espero que cresça, ne?

P/1 – E tem que passar na distribuição, ne?

R – Com certeza.

P/1 – Tá certo. Tem alguma coisa que você gostaria de ter dito e a gente não perguntou ou você não foi estimulada a dizer?

R – Que eu lembre não.

P/1 – Bom, então isso significa que a gente está descobrindo bastante coisa. Eu queria que você dissesse assim o que te parece a idéia de um projeto como esse? Quer dizer do Banco do Brasil entre as atividades que comemora seus 200 anos contar uma história do Banco, mas não uma história oficial e sim uma história do Banco a partir e por intermédio das pessoas que têm algum tipo de relação com o Banco? Como vocês pequenos empresários, pequenos produtores que estão gerando renda, que estão se fixando no campo, como é que você avalia um projeto como esse?

R – Olha, eu acho fantástico, porque assim tu consegue mostrar a essência da coisa, a essência de cada ser humano de cada bioma como está sendo feito. Então eu acho bem interessante, bem legal mesmo.

P/1 – E o que você acha de fazer parte disso?

R – Nossa! Eu estou me sentindo a última bolacha do pacote.

P/1 – E o que você achou de ter dado esse depoimento? Como é que você se sentiu?

R – Muito bem, eu nunca pensei que receberia esse convite, mas como eu te disse é bem gratificante.

P/1 – É porque você tem uma história boa. 

R – É então tá muito obrigada.

P/1 – Nós é que agradecemos muito. Muito obrigado por essa sua gentileza.

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