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História

De uma Espanha aos riscos bancários

História de: Oscar Rodriguez Herrero
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/01/2013

Sinopse

Pais, infância e escola. Intercâmbio no Ensino Médio. Faculdade de Administração. Trabalho e desafios no Banco Santander. Contato com culturas diferentes. Área de Riscos. MBA nos Estados Unidos. Trabalho em consultoria. De volta para o banco. Convite para trabalhar no Brasil. Integração com o Banco Real. O valor e ações da área de riscos. Sustentabilidade e meio ambiente. Mercado bancário brasileiro. Futuro do Santander. Maiores aprendizados e realizações da carreira.

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História completa

P/1 - Fernanda Prado e Ana Maria Lorza

R - Oscar Rodriguez Herrero



P/1 – Primeiro, eu queria agradecer a você por ter aceitado o nosso convite e ter vindo pra cá, nessa entrevista. 

 

R – Obrigado a vocês pelo convite.

 

P/1 – Para começar, eu quero que você diga o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Oscar Rodriguez Herrero. Nasci em Madrid [Espanha], em 04 de Outubro de 1971.

 

P/1 – E qual é o nome dos seus pais?

 

R – Modesto. Minha mãe se chama Consuelo.

 

P/1 – Qual é a atividade deles?

 

R – Meu pai trabalhou em banco a vida toda, na rede de agências; e a minha mãe era professora de crianças pequenas, entre três e cinco anos de idade. Os dois estão aposentados agora. 

 

P/1 – Como era a sua relação com eles? Como você via o trabalho do seu pai quando você era pequeno?

 

R – Como toda criança que se espelha muito nos pais; sou o mais velho de três irmãos, eu e eles sempre fizemos muitas brincadeiras sobre como era trabalhar em um banco ou num colégio. Para mim era muito divertido visitar o meu pai nas agências, no seu escritório, e sempre foi muito natural o conceito de banco na minha casa. No caso da minha mãe, foi um pouco diferente, porque além dela ser professora, eu passei a maior parte da minha vida na mesma escola em que ela trabalhava. Para visitá-la era um pouco diferente, mas sempre tivemos muito proximidade em nossa vida familiar, que é muito importante. Tem sido sempre muito próximo [de] tudo o que fazemos.

 

P/1 – Conta pra gente um pouquinho de como era a sua casa, o seu bairro... Como era a Madrid da sua meninice?

 

R – Primeiro moramos em um apartamento, e depois numa casa. Minha infância quase toda eu passei num apartamento. Esse apartamento fazia parte de um condomínio com dez prédios, de quinze andares, com quatro apartamentos por andar. Era quase como uma pequena cidade. Tinha a piscina, a quadra de tênis, o campo de futebol e os parques. Foi uma infância muito feliz e com muita liberdade. Lá dentro, podíamos sair e entrar de casa. Tínhamos uma turma de amigos. Brincávamos na piscina, jogávamos tênis, futebol, andávamos de _______. Ficávamos correndo e colocando toda a energia para fora. Foi um entorno muito agradável e muito tranquilo para crescer com a família e com os amigos. Na faculdade, nós mudamos para uma casa; e aí foi diferente, porque os programas já não eram tanto para fora, mas sim trazer os amigos em casa e fazer programas, churrascos, aproveitando esse espaço maior de uma casa, e convidar os amigos para fazer festas. 

 

P/1 – Como era ir para a escola? Do que você se lembra?

 

R – Eu não fui um estudante brilhante, mas muito responsável, e parte disso era porque assumia a responsabilidade de ter a minha mãe como professora dentro do colégio. Mas, também, eu assumi desde o início que isso fazia parte da minha vida, que era algo normal. O colégio era um lugar de encontrar os amigos, de estudar e crescer bastante. Essa responsabilidade me fazia levar o colégio mais a sério do que o normal. O fato de ter que ir ao colégio, estudar e apresentar trabalhos. E o colégio ficava muito pertinho de casa. Muito amigos do colégio eram vizinhos do condomínio e então íamos junto ao colégio. Minhas lembranças do colégio são boas, legais, de estar lá fazendo coisas novas desde as primeiras aulas com computadores e estar descobrindo o mundo. A parte da escrita, de ter de escrever poesias para as aulas que por um lado era super difícil, mas que eu desfrutava muito. Uma época de descobrimentos.  

 

P/1 – Nessa época de descobertas, tinha alguma matéria que você gostava mais ou algum professor que marcou durante esse período escolar?

 

R – Eu sempre gostei mais das aulas de números: Matemática, Física... Terminei fazendo Administração, mas durante uma época grande do colegial a minha ideia era fazer Engenharia. Os professores que mais me marcaram não eram dessas matérias, mas foram os professores de Gramática, História, de Artes. Por serem temas que eram menos naturais ou fáceis para mim, eu acabei achando professores que me impactaram mais e me mostraram um lado dessas matérias que fizeram com elas fossem mais atrativas e me satisfizeram mais.

 

P/1 – O que você e os seus amigos faziam para se divertir quando já estavam mais crescidos, próximos à saída da escola?

 

R – No meu último ano de colégio, antes de ir para a faculdade, eu fui morar nos Estados Unidos, em Indiana, no "midwest" [região centro-oeste] - muito tradicional. Na verdade, eu fiz uma turma de amigos americanos que até hoje mantenho contato com eles. E aí as atividades eram um pouco diferentes: festas, o começo das saídas ao cinema. Eu sempre gostei muito de esportes e nos Estados Unidos se tem muita facilidade... Eu estava no time de futebol, fui convidado para o time de atletismo para fazer treinos e até para tentar uma bolsa para estudar na faculdade de lá. Foi um tempo de muita energia, sempre ao redor de muito esporte e muita festa também.

 

P/1 – O que te fez ir para os Estados Unidos fazer o último ano do colegial lá? Como foi sentir a diferença cultural entre Espanha e Estados Unidos?

 

R – Foi por curiosidade e, também, gana de me preparar e enfrentar os desafios e coisas diferentes do meu dia a dia. Muitos amigos me falam que eu não consigo ficar quieto consolidando o que eu tenho. Quando as coisas estão ficando um pouco estáveis e normais, eu já estou procurando um desafio novo. Ir para os Estados Unidos fez parte desse desafio de mudar totalmente o entorno familiar, mudar o idioma e realmente testar-me num ambiente diferente. Além de aproveitar para falar inglês bem e conhecer um jeito diferente de pensar. O americano pensa muito diferente do espanhol, e o espanhol pensa muito diferente do americano. Essa capacidade para entender os dois mundos foi um processo interessante para mim. E na adolescência, um momento em que se está descobrindo realmente e entrando no mundo adulto. Estar nos Estados Unidos, numa família diferente, com novos amigos, também me fez desenvolver uma maior segurança em mim mesmo. Saber o que eu quero e como construí-lo.

 

P/1 – E como foi voltar para a Espanha e daí decidir a carreira a seguir? Como foi esse próximo passo?

 

R – Foi um voltar para muitas mudanças, porque era uma mudança do colégio para a faculdade. E, também, mudar do apartamento para a casa. Foi realmente um antes e depois, como um passo nesse meio pelos Estados Unidos. Eu mantive alguns amigos do colégio, que viravam os amigos da faculdade. E o condomínio que havia sido importante na infância, ficou muito pequeno. Quando eu voltei dos Estados Unidos, eu queria mais. Queria conhecer o entorno, a cidade de Madrid, onde eu me movimentava. Foi uma etapa de mudanças. Nessa época, eu comecei a viajar para esquiar – eu aprendi a esquiar -, aprendi a mergulhar, comecei a fazer aulas para velejar. Foi uma etapa de muitas viagens ao estrangeiro, à Espanha, com uma nova turma de amigos da faculdade. Um passo à frente no crescimento como pessoa.

 

P/1 – Quais lembranças você traz de marcantes desse período da faculdade? O que te fez decidir por Administração ao invés de Engenharia, que foi o que você tinha imaginado desde o tempo de colégio?

 

R – O que me fez mudar foi que durante o ano nos Estados Unidos e nos últimos meses antes de escolher, eu comecei a refletir que engenharia era um trabalho muito técnico, que eu não era uma pessoa para trabalhar em laboratório e ficar num trabalho técnico. O que eu gostava mesmo era de administrar. Eu enxergava a Engenharia como um caminho [que] iria me dar uma formação muito forte em Matemática e em disciplinas de Física, e outras mais, para chegar depois a um trabalho de gestão, de administração. Nesse momento, chegou a oportunidade de fazer Administração na escola pequena, que estava associada ao Patronato da Banca - que aqui seria a Febraban (Federação Brasileira os Bancos) - e que tinha um reconhecimento muito grande no mercado. Perante essa opção de escolha onde eu teria de me formar mais especificamente em temas de gestão e de Administração de empresas, percebendo que esse era o meu objetivo no longo prazo. Eu resolvi mudar o foco e decidi mudar para entrar nessa faculdade, onde eu fiquei estudando Administração por cinco anos. 

 

P/1 – Qual foi o seu primeiro emprego? Como foi o final da faculdade e começar a entrar nesse mundo do trabalho? 

 

R – Meu primeiro emprego já foi no Santander, na área de Riscos, em Negócios, que era a unidade de Banco de Atacado no Santander de Madrid. Foi um primeiro emprego onde eu fiquei muito satisfeito, porque eu arrumei este emprego antes de terminar a faculdade - o que não é muito normal na Espanha. Normalmente, se termina a faculdade e daí se começa a arrumar emprego. Nos últimos cinco meses de faculdade, eu já sabia que iria começar a trabalhar no banco. Para mim foi muito bom porque era no Santander Investimentos. Além de ser o Banco de Atacado de Santander, tinha um componente internacional muito forte. Eu já comecei trabalhando no Santander Investimentos, na Espanha e Portugal, mas depois do primeiro ano, eu já comecei a trabalhar para as unidades de negócio  da América Latina, onde eu era, primeiro, o Coordenador de Riscos do Brasil Argentina e o Chile. E depois no leste europeu, quando começamos a fazer alguns negócios lá. Isso me deu oportunidade de trabalhar em diversos lugares e conhecer gente diferente e de fora da Espanha, além de trabalhar com pessoas que até hoje trabalham no Santander, no Brasil, Chile, Argentina, em Londres... Para mim sempre foi muito enriquecedor ficar procurando esses desafios e trabalhar nesse entorno.

 

P/1 – Como você se sentiu trabalhando num banco, assim como o seu pai? Como foi contar pra ele isso? O que ele achou?

 

R – Para o meu pai foi um orgulho grande, onde eu segui um pouco os passos dele e [fui] trabalhar no banco. Já tinha feitos vários estágios e trabalhado nas agências onde ele trabalhou, e depois fui trabalhar para um concorrente. Ao mesmo tempo que era uma satisfação de trabalhar na mesma linha, mas também de que eu tinha a minha independência e que estava fazendo o meu próprio caminho dentro do mundo dos bancos, em funções diferentes das que ele tinha. Ele trabalhou sempre nas equipes comerciais do banco. Depois dos estágios nas agências, eu fui trabalhar na equipe de Riscos, nas áreas mais centrais e para negócios internacionais. Acho que foi bom e criou uma maior aproximação entre nós dois, porque, além da proximidade familiar, existia também uma conversa profissional que era legal. Ainda mais que depois o meu irmão, pouco tempo depois, também passou a trabalhar em banco.

 

P/1 – Quais foram os seus primeiros desafios neste trabalho inicial, de lidar com a área de riscos e investimentos na Espanha?

 

R – Na Espanha, tinha-se poucos negócios de risco de crédito porque, logicamente, a presença do banco matriz era muito mais forte. Nós fazíamos mais assessoramento. O grande desafio durante esse primeiro ano foi implementar o Santander Investimentos, um sistema chamado Global Limits Control Systems, que fazia o controle global dos riscos das tesourarias. Implantar primeiro na Espanha e Portugal e, depois, em todas as unidades do grupo. Foi um trabalho interessante, porque se eu não sou uma pessoa técnica para implantar uma ferramenta, tive que trabalhar com as equipes técnicas que faziam o desenvolvimento das operações a as equipes das tesourarias que tinham que usar essa ferramenta, sempre com culturas muito diferentes em função do país. Foi um desafio bem interessante como conseguir alinhar todos os incentivos, as preferências e fazer com que os sistemas tivessem bom funcionamento.

 

P/1 – E como é ver tantas culturas diferentes num mesmo banco? Como fazer esse balanço para entender a cultura local e trazer ferramentas que são iguais para todo mundo?

 

R – O que eu tenho tentado é me colocar na posição do outro – escutar, entender e não chegar com a solução. Eu acho que não dedicar tempo para entender a problemática e as dificuldades socioculturais e tecnológicas, algo específico do banco... Chegar lá e entender como um desafio – o porque sim e não; e o porque sim, sim e o porque não, não -, isso ajuda muito a construir que as pessoas percebam que quando chegam não são "aliens", externos, que não está interessado de saber sãs suas dificuldades e desafios, mas pelo contrário: que chegam para tentar construir junto uma solução que faça com que o dia a dia fique um pouco melhor. 

 

P/1 – Como foi o seu próximo passo na carreira, trabalhar com América Latina; Chile, Argentina, Brasil? Como você se sentiu viajando nessa nova posição?

 

R – Acho super bacana. Sempre tive muita curiosidade e trabalhar em Argentina, Brasil e Chile. Estamos falando dos anos 1995, 96 e 97, eram um tempo em que a região estava desfrutando de um período de tranquilidade, após à Crise da Tequila e antes da Crise da Rússia, onde o seu entorno era bem bom. As pessoas estavam bem “ilusionadas”, querendo crescer e fazer negócios. Era um lugar diferente em que, por um lado estava preocupado pela segurança na rua, que era muito diferente do que eu via em Madrid, mas que representava uma energia e uma cor muito diferente. Foi super bacana, e eu me lembro com muita alegria aqueles tempos de descoberta da América Latina.

 

P/1 – E qual era o seu trabalho aqui?

 

R – O trabalho era o ponto de contato para os negócios para Argentina, Brasil e Chile nos comitês de risco. Na época, estavam todos concentrados em Madrid e, em consequência, os analistas junto com os comerciais discutiam as propostas. Eu também discutia as propostas com ele e depois levava aos comitês em Madrid. Era um papel de virar o representante e o porta voz do negócio que acontecia aqui e, por outro lado, de aplicar a partir de critérios mínimos de aceitação de risco que o grupo definia. A comunicação era fundamental para que se entendesse porque alguns negócios o banco não queria fazer como, ao mesmo tempo, explicar em Madrid a importância de alguns negócios e que deixar de fazê-los teria algum impacto relevante para a franquia que estávamos tentando construir aqui na região.

 

P/1 – Como foi ver essas franquias se desenvolvendo, expandindo, se juntando a outros bancos, comprando outras instituições?

 

R – Foi impressionante, porque foi na época que aconteceram as primeiras compras: a compra do Banco Río, na Argentina; aqui, no Brasil, com a compra do Banco Geral do Comércio e do Banco Noroeste. Saímos de um banco de três andares aqui na Avenida Paulista, para ter um prédio e um monte de agências... Foi um tempo de mudanças e de perceber o dinamismo que o Santander tem como banco, e a ânsia e a ambição que tinha para a região. 

 

P/1 – E como era comparar essa realidade da América Latina com a do Leste Europeu? Como confrontar essas duas realidades e entender os negócios de cada localidade com essa ânsia comum do Santander?

 

R – Era bem diferente, porque o Santander estava muito próximo da América Latina. Mesmo que fossem em negócios novos, a cultura e a conversa mesmo que quando estava acontecendo parecia que estávamos muito distantes, mas em termos relativos era muito proximidade que existia. Podíamos nos comunicar e entender porque concordávamos e discordávamos. Quando eu falo do Leste Europeu, as culturas eram muito diferentes. Tínhamos que usar um terceiro idioma. A idiossincrasia social era dramaticamente diferente. A cautela de como entrar e entender o que realmente estava acontecendo levava a que o nível de ambição e energia que se colocava nos projetos era uma velocidade muito diferente do que estávamos fazendo aqui em Brasil, Argentina e Chile.

 

P/1 – Como você dividia o seu cotidiano entre Madrid e todas essas partes do mundo?

 

P/1 – No final, o planejamento de uma área de riscos está marcado pelo negócio. Fica difícil de planejar em função das prioridades do negócio e você tem que administrar como um bombeiro: onde se levantam os incêndios de novas oportunidades e negócios eram novos problemas com negócios existentes. A única vantagem que tinha era quando se cegava no escritório, no Leste Europeu já estava acordado e na América Latina ainda estava dormindo. E, no final do dia, o Leste Europeu já tinha ido dormir e a América Latina ainda estava trabalhando. Existia um preocupação no início do dia a redor dos temas das operações que aconteciam na Rússia; e no final do dia, uma maior preocupação do que acontecia no Brasil, na Argentina e no Chile.

 

R – Você tem alguma história que tenha marcado a sua trajetória nesse tempo? Alguma viagem, um êxito ou fracasso num negócio?

 

P/1 – Tem muita coisa de superação na época, mas eu me lembro de estar conversando com o diretor da rede de riscos quando compramos os bancos. Teve um espanhol que veio para o Brasil para assumir a posição de riscos e para ele chegar ao Brasil era um novidade e,na época, já fazia três ou quatro anos que eu trabalhava no Brasil. Não lhe diria que era mais esperto, mas que eu tinha mais familiaridade com o entorno. Eu me lembro de uma conversa que tive com ele sobre um empresa de conservas, e ele era de uma região de Alicanter. Ele me falava: “Essa empresa é muito grande. Ela fabrica sozinha toda a conserva que se fabrica no Alicanter”. E já que o Brasil é um país muito grande e maior do que o Alicanter, eu fazia uma comparação de como estava sendo a descoberta desta enorme região e, especificamente, do Brasil, por parte da equipe do Santander. 

 

R – Como foi evoluindo a sua carreira até o convite para vir para o Brasil?

 

P/1 – Saí do Banco e voltei para os EUA, para fazer um MBA e complementar a minha formação. Foi uma época diferente, porque marcou a transição de ser analista para ser gerente, para trabalhar na gestão de projetos e equipes. Morei nos Estados Unidos por dois anos e ao terminar o MBA, eu resolvi fazer uma mudança de não voltar a trabalhar em banco e, assim, fui trabalhar em consultoria. Primeiro, em Miami, um ano, e depois voltei para Madrid, para continuar trabalhando em consultoria, onde fiquei por mais três anos e meio. Um dos quais eu ficava em Madri, mas morava em Portugal. Foi o meu primeiro contato com a língua portuguesa, mesmo que depois eu entendi que o português de Portugal e do Brasil são totalmente diferentes, quase duas línguas. 

 

R – E como foi escolher os Estados Unidos para fazer o MBA? Como foi voltar pra lá nessa nova etapa de vida?

 

P/1 – Eu sempre achei que a gente tem de procurar coisas novas. E, na época, ao estudar um MBA, quando estavam começando os MBAs na Europa e começando a ter uma proposta de qualidade em comparação à proposta americana, mas eu resolvi que era melhor eu ir para lá e ter uma formação com os melhores estudantes. Fiz o MBA em Kellog, Chicago, uma cidade bacana para morar, especialmente no verão. E foi legal ir lá estudar com os americanos, mas, também com muitos asiáticos, chineses, indianos, amigos que fiz do Peru, México, Brasil, Argentina. Foi uma oportunidade para criar uma turma de amigos com experiências bem diferentes e de culturas muito diferentes. Foi uma época de muitas viagens: fui para a Rússia durante duas semanas com a Universidade; conheci Cuba; fui para o México; Nova Iorque... Foi uma etapa de descobrimentos e de conhecer coisas novas. 

 

R – Como foi esse seu trabalho de consultoria e o conhecimento da língua portuguesa? Há alguma barreira?

 

P/1 – É engraçado, porque se fala que o português e o espanhol são línguas semelhantes. Quem pensa isso é porque não teve contato com a outra língua. Eu acho que do lado tanto português quanto brasileiro se faz um esforço muito maior para se comunicar com um espanhol do que vice-versa. Parece para o falante de língua espanhola - que são línguas semelhantes. Porque o outro está fazendo um esforço para falar comigo. Quando eu cheguei em Lisboa, não falava uma palavra em português. E os primeiros meses foram duros, porque o meu cliente além de falar o português do Porto, sempre ficava com um charuto na boca. Então ficava difícil. Era um desafio impossível de entender alguma coisa da conversa. Eu lembro que eu ia com um analista na conversa para ele tomar nota de tudo para depois ele me falar o que tinha acontecido, porque, realmente, eu não entendia. Mas mesmo com as diferenças de língua, conseguimos travar relacionamentos pessoais e profissionais muito bons, tanto com os clientes quanto com as pessoas da equipe. E foi um esforço grande, pois era quase como ter duas vidas: acordava de manhã, na segunda-feira, e ter de sair correndo para o Porto para pegar um voo; ficar morando num hotel durante cinco dias e depois, na sexta-feira de tarde, voltar correndo e pegar um voo para voltar para Madrid, numa casa em que eu morava sozinho - não tinha nada. A geladeira estava triste e solitária. Ia começar a tentar fazer uma vida no final de semana, e outra durante a semana, em Lisboa. Isso foi muito trabalhoso e [um] esforço com o intento de ter uma vida pessoal para o final de semana e uma profissional por cinco dias da semana.

 

P/1 – Como foi tomar a decisão de voltar a trabalhar no banco e sair da consultoria?

 

R – Depois de quatro anos e meio trabalhando em consultoria, e os últimos três anos e meio trabalhando para bancos, num ritmo de vida um pouco duro, eu sentia que a cada três ou quatro meses mudava o destino e podia ser Lisboa, Madrid, Santiago do Chile ou podia ser Londres. Então eu resolvi que se eu estava trabalhando para um banco, mas não me adaptando ao estilo de vida, era melhor ir trabalhar num banco e ter o estilo de vida do banco, poder resolver os problemas de dentro. Além de ficar desenhando soluções, mas, também implementando as mesmas. Coincidiu que um ex-colega de Santander que recém tinha voltado ao Santander, ele me convidou a voltar junto com ele e ajudá-lo a redesenhar o modelo de funcionamento do Santander Riscos, do banco para o mundo dos grandes clientes corporativos. Voltamos juntos. Foi uma experiência bem bacana em que eu fiquei trabalhando com ele por um ano e meio, e foi muito legal. A turma de pessoas com quem trabalhávamos era muito unida. Mesmo com a intensidade de horas dentro do escritório, era muito divertido. Desde que esteja com pessoas com quem se fica à vontade. Até recebi uma proposta de sair do banco e receber mais dinheiro, mas não aceitei porque achei que o grupo era muito unido e o desafio era muito legal. 

 

P/1 – Como foi essa volta para o banco e esses novos desafios? Quem eram esses clientes do Santander? 

 

R – Foi legal, porque eu encontrei muitas pessoas com quem já tinha trabalhado no passado. Foi um reencontro. E o acolhimento que eu tive de todas as pessoas foi muito bom. Eu sempre defendo que você tem de se comportar nos relacionamentos como se fosse encontrar os outros por toda a sua vida e nunca falar: “Não. Com você eu nunca mais vou me relacionar”. A vida dá muitas voltas e essa pessoa pode terminar sendo o seu chefe, funcionário ou até o seu colega de sala. Foi legal voltar, reencontrar tantos amigos e pessoas que eu tinha boas lembranças, também pelo trabalho que fizemos juntos. Foi uma volta muito legal e num momento em que o banco estava com um dinamismo muito grande. Estamos falando da Espanha do ano [de] 2005, 2006, com uma situação muito boa, com projetos e energia positiva, crescimento. Dentro do banco, esse negócio específico também tinha uma ambição de crescer, fazer coisas e de lhe dar oportunidades.

 

[Pausa]

 

P/1 – Como foi seguir a sua carreira depois de voltar ao Santander?

 

R – Foi muito próspero. Eu voltei em Janeiro de 2005; um ano e meio depois, tive o convite para vir para o Brasil. Foi um ano e meio muito intenso e de muito trabalho para construir os pilares e as bases para a gestão de risco. Fizemos muitas mudanças, alterações e logo recebi esta ligação para saber se eu estava interessado em morar fora da Espanha. Falei que dependia do projeto e [de] demais coisas. Quando falaram se eu estaria disposto a morar no Brasil, eu disse que sim. Demoraram um pouco até acharem a posição certa, mas logo chegou a proposta para vir como um Vice-Presidente de Riscos no Brasil. Eu gostei imediatamente da ideia, porque o Brasil representava para mim um grande país, de potencial, de riquezas, de pessoas, de dinamismo. Aqui tem uma energia mágica. E tanto os meus amigos que moravam aqui, tanto nas oportunidades que eu tive de vir ao Brasil por férias ou por trabalho, dava para perceber que em algum momento o Brasil iria dar um pulo diferenciado. Naquele momento, o banco estava com uma presença importante no Brasil, e terminando um processo de integração de bancos bem grandes. Era um momento para parar de falar em integração e começar a construir o crescimento dos negócios. Era uma função grande e complexa a área de riscos. Trabalha-se dentro dos negócios, mas, ao mesmo tempo, tem que se controlar os negócios. Tem de crescer, mas crescer bem. Construir uma série de ferramentas que te permitam administrar o negócio. A combinação dos três fez com que eu resolvesse encarar o desafio e vir ao Brasil para assumir essa posição.

 

P/1 – Como foi fazer as malas para vir para cá, e qual a primeira impressão da cidade nessa vinda mais definitiva?

 

R – Fazer as malas foi demorado, porque, na época, eu era solteiro, e foi um pouco triste. Estava namorando na época, e a vinda para o Brasil resultou na ruptura do namoro. Ela não quis vir junto para o Brasil. Eu não fiz uma mudança normal. Fiquei por um mês vindo e voltando, com duas malas por vez; (véu?) vinha a casa de um amigo do MBA: chegava e esvaziava as malas. Voltava a enchia-as novamente. Até que quase dominei um dos quartos de sua casa. Cheguei na cidade e fiquei um mês morando em hotel, sorte que logo consegui um apart hotel no Itaim. Já consegui me instalar. Tive que entender o caos da cidade, o trânsito e demais coisas para achar o apartamento onde eu terminei morando. Ao mesmo tempo, a receptividade que eu tive no banco... Tenho vários amigos que moravam aqui na cidade... A energia que eu achei que o Brasil tinha; [o] que eu realmente encontrei no Brasil foi muito legal. Conheci um grupo de amigos para jogar golfe e facilitou esse negócio de fazer aulas, e também de jogar. Eu estava começando a velejar e encontrei um lugar maravilhoso em Fortaleza, perto de Jeriquaquara. Eu tirava férias lá e passava dias velejando. O mais importante de tudo foi que poucos meses depois de estar morando aqui, eu conheci a Joana. Começamos a namorar e nos casamos já faz dois anos. Temos um bebê maravilhoso de oito meses.

 

P/1 – Como é o cotidiano do Santander Brasil? Você percebe alguma diferença da Espanha?

 

R – As diferenças principais é que trabalhar aqui é continuar sendo responsável por um negócio, mas, ao mesmo tempo, com um reporte lá na Espanha. A dualidade de que você trabalha aqui, mas tem um chefe lá. Fica uma dinâmica para administrar no dia a dia e gerar a confiança para a matriz de que as coisas que estamos fazendo aqui estão sendo bem feitas, mesmo sendo diferentes do que fazíamos na Espanha. Este foi um dos desafios. O outro foi o de chegar e conhecer um mercado financeiro diferente. O Brasil tem muitas particularidades e tem muita coisa diferente que se precisa entender para que se possa fazer uma gestão do negócio. E a questão das pessoas. Aqui eu encontrei gente incrível, profissionais de muito alto nível, com quem trabalhar e enfrentar os desafios ficou fácil. No início, tivemos que fazer muitas mudanças porque a área de riscos era percebida como uma função menor. Se você era bom, terminava sendo da área comercial. Do contrário, ficava na posição de riscos. E é verdade que algumas pessoas que trabalhavam com riscos que não eram bons profissionais, mas também tinham muitos profissionais que eram excelentes. No início, eu tive que ter uma atenção muito grande em como construir e reposicionar riscos como uma posição relevante do banco; e que se percebesse que nós, os profissionais de riscos, temos um valor importante para o banco. Que também funcionaria a meritocracia; e que faz todo o sentido trabalhar em riscos, como na área comercial e vice-versa. 

 

P/1 – Qual é o valor que a área de riscos traz para o banco? Por que ela é importante?

 

R – Acho que o negócio bancário é um dos poucos em que a própria natureza dos negócios é que podem levá-lo a quebrar. A função de riscos é o de uma segunda opinião. Em outros negócios, o negócio comercial, seus segmentos, tem uma controladoria que faz esse controle. No negócio banco, é importante que tenha pessoas que conheçam tão bem os negócios como a parte comercial, de produtos, segmentos, mas que tenham uma opinião independente e que coloquem em perspectiva a pressão comercial de metas e crescimento que tipicamente são colocadas sobre as equipes comerciais, de forma a tentar evitar excessos, más práticas que no dia a dia podem parecer normais para cumprir a meta do mês, mas que colocadas em perspectivas poderiam colocar o banco em situação complicada, em termo de capitais e resultados. Essa é a função de riscos: entender o negócio e ajudar a diferenciar entre a pressão das metas por crescimento e a fronteira de quando isso vira uma coisa negativa à sustentabilidade do negócio bancário. 

 

P/1 – O que precisa ter a instituição como pilar para que ela seja perene?

 

R – A coisa mais importante é a prudência. O que temos aprendido na presente crise é que riscos existem. Durante muito tempo, tinha-se a percepção de que riscos não existiam mais e que os bancos poderiam crescer, alavancar e tudo se resolveria sozinho. Agora aprendemos que não. Aprendemos a ser prudentes e que em todos os negócios, especialmente nos negócios do banco, é importante não chegar até o último real no crédito e também não chegar a forçar para colocar clientes onde eu não entendo onde vão se reparar as operações de crédito. A prudência faz com que o crescimento seja um pouco mais devagar, mas que o banco vai estar aqui por muito tempo.

 

P/1 – E como foi estar aqui no Brasil e ver a integração com o Banco Real?

 

R – Eu acho que foi muito bom. A operação de integração foi boa para o [Banco] ABN AMRO e para o Santander. Eram bancos de mesmo tamanho e isso nos colocou num patamar diferente. A posição que temos como Santander, no Brasil, é uma posição diferenciada. Ao mesmo tempo, tivemos um processo de integração que nunca é fácil. Isso eu considero que, neste caso, foi um pouco mais fácil, porque os bancos eram muito diferentes e, ao mesmo tempo, tinham valores semelhantes. O que chamo de valores? Os valores de bancos internacionais, de serem bancos que vinham crescendo, fazendo várias integrações. Ao mesmo tempo, éramos muitos diferentes em como realizar os processos. Isso foi importante para não terem confusões. Muitas vezes quando se fala em cliente, em prudência, nas conversas, parece que estamos falando dos mesmos, mas as pessoas estão entendendo coisas diferentes. Mas, nesse caso, não. Estávamos perfeitamente cientes de que o entendimento era diferente e de que tínhamos que fazer escolhas. Fazer essas escolhas nos fez refletir sobre qual era o banco que queríamos construir na combinação do Banco Real e do Santander. E nesse processo foi importante escolher algumas âncoras que vieram a ser as diretrizes para o banco. O cliente foi uma âncora que nós escolhemos dentro desse processo de construção e integração ao redor de construir soluções, de forma que o cliente não percebesse a mudança da integração das duas instituições. Isso foi muito relevante. E lógico que depois, considerando as tensões típicas do modelo de gestão daqui com a  matriz, que é diferente, é ir arrumando e fazendo um time, integrando profissionais de muita experiência de duas instituições. Eu não vou falar que todo esse processo foi fácil, mas acho que foi bem conduzido e que eu estou muito orgulhoso de ter participado dele.

 

P/1 – Quais são as ações da área de risco para que o banco atinja a meta de ser o melhor banco do país em termos de clientes e funcionários?

 

R – Como todo o banco, nós estamos fazendo um trabalho em duas linhas: o que é específico e o que fazemos melhor, melhores scores de clientes, uma capacidade de separá-los entre os que vão pagar melhor e os que não pagar. E processos que serão melhores, mais eficientes e eficazes para fazer os processos de recuperação. Isto, olhando para dentro. Mas também olhando para fora, construindo pontes. O negócio de risco não é um negócio isolado dentro do banco, nem um segmento diferente. Acho que não se tem mais atividades isoladas no banco. Estamos embutidos dentro de um trabalho  comercial, de segmentos e de produtos; em construir parcerias e pontes para que esse trabalho e essa construção seja feita em conjunto. Não adianta fazer como se fazia no passado em que se colocava um comercial com estratégias muito agressivas e se vai pendurar nas costas dele um cara de riscos para freá-lo, para que ele não seja agressivo demais. Isso já não funciona. O mercado é muito complexo, as metas de crescimento são muito agressivas e agora temos de combinar como vamos fazer esse crescimento. Não se pode fazê-lo pulando em direções contrárias. Temos que pular juntos para não fazermos besteira. E não pular: puxar juntos para não fazermos besteira.

 

P/1 – Como é a relação do Santander Brasil com as outras filiais - Argentina, Chile - e a matriz?

 

R – O Santander Brasil ficou muito grande. Está na altura do que o país merece. Mas o fato de o Santander Brasil representar 25% de participação (do faturamento global), faz com que as outras unidades do grupo olhem para o Brasil e percebam a importância dele para o grupo, tanto na geração de resultados como nas outras linhas de negócios. O Brasil está virando uma referência dentro do grupo sobre o que e como fazemos. Ao mesmo tempo, [é] uma referência em termo de resultados, porque todos percebem a importância do Brasil para o resultado do grupo no mundo todo. Se o Brasil vai bem, fica mais fácil para o grupo ir bem. Se o Brasil vai mal, fica bem difícil para o grupo ir bem. 

 

P/1 – Por que foi importante manter esse olhar para a sustentabilidade, para o entorno, para o meio ambiente e para a sociedade? 

 

R – Eu acho que é importante, porque não temos outra escolha. Um dos valores que compartilhamos, mesmo fazendo de um jeito bem diferente que o banco Real vinha fazendo em termos de colocar a sustentabilidade, não somente como um elemento de posicionamento estratégico e de comunicação, mas entendendo e transmitindo internamente e de maneira explícita a sustentabilidade como um elemento de diferenciação na condução dos negócios. E por outro lado, se o Santander tinha uma essência de mesmo não fazendo de forma explícita a sustentabilidade, estava e está muito presente. Se nós deixávamos de fazer negócios por questões sustentáveis, não se falava que eram por essas questões. Quando se produz a integração, o banco Real como uma interlocução muito fácil, potencializa-se o trabalho que já vinha sendo feito. O Santander encontrou uma comunicação, um jeito de falar que encaixa perfeitamente com o sentimento que já existia. Para um banco, sustentabilidade é essência. Diferente de outros negócios, o banco não existe sem confiança. Para que exista essa confiança, a sustentabilidade é um pilar que não pode ser desconsiderado. Quando me falam: “Por que é importante a sustentabilidade para um banco?”. Se os meus clientes não são sustentáveis, eles não vão poder pagar suas dívidas de volta ao banco. É a essência. Nós estamos reconhecendo agora. Quando o British Petroleum não cuida da sustentabilidade e não faz um entendimento adequado de suas plantas no Oriente Médio e no Caribe e se produz um desastre natural, como o que aconteceu há um ano e meio, impacta na capacidade financeira da companhia – capacidade para fazer frente às dívidas. Não é uma coisa diferente, um olhar em paralelo. Quando eu estou avaliando um cliente para saber se ele irá poder assumir o crédito que ele está tomando, eu tenho de considerar se esse cliente está cuidando do seu negócio com uma visão sustentável. Se quer perdurar no tempo, de forma que possa manter o seu negócio funcionando e pagando as suas dívidas. Se vamos descobrir posteriormente que ele está contaminando o terreno e, em consequência, vai ter de pagar multas milionárias em compensação aos prejuízos ambientais, a capacidade de pagar suas contas fica claramente comprometida.  

 

P/1 – Vindo de fora, como você enxerga o mercado bancário brasileiro em termos de concorrência e potencial?

 

R – O Brasil é um mercado ótimo, porque tem três bancos públicos muito bons e bancos privados excelentes. Eu acho que o entorno competitivo é muito duro, difícil, mas isso faz com que nós tenhamos que ser melhores. Em contextos competitivos em que os bancos não são bons, a gestão se relaxa e a sustentabilidade fica comprometida. Aqui no Brasil, não dá. Se você é somente bom e não é excelente, os outros concorrentes vão comer o seu terreno e o seu negócio vai ficar comprometido. O entorno do mercado é excelente para fazer banco. E tem outro elemento adicional: quando se trabalha com bancos bons, não se faz bobagem; e muitas vezes os problemas que se têm nos negócios, é por se ter concorrentes que não entendem a dinâmica do negócio e acabam fazendo bobagens que prejudicam a indústria como um todo.

 

P/1 – Pensando daqui a dez, quinze anos, como você imagina que estará o banco nesse cenário?

 

R – Eu acho que, em dez anos, eu enxergo um banco muito forte, que depois de um período de crescimento muito acelerado no Brasil... Não que não se fale mais em integração, que em sua maioria já aconteceu, mas os funcionários e os clientes com a consolidação e integração de bancos. Ao mesmo tempo, já teve tempo suficiente para crescer e demonstrar sua capacidade de fazer bons negócios, algo que a infraestrutura que temos hoje e suas equipes de profissionais levam a construir um banco melhor para os clientes. Estamos criando um banco para a preferência do cliente brasileiro e que entrega a sua oferta de um jeito diferenciado. Entendendo perfeitamente que a sustentabilidade passa por um bom relacionamento com os clientes.

 

P/1 – Voltando para questões mais pessoais, como foi para você ser pai?

 

R – Inteiramente indescritível. Acho que, realmente, é a grande mudança na vida de uma pessoa é ser pai, ser mãe, porque deixa de se preocupar consigo mesmo. Nesse momento, se coloca uma outra pessoa à frente de qualquer decisão que se toma. A vontade que eu tinha em cada minuto para jogar golfe e sair de férias, agora, cada minuto que eu tenho disponível e mesmo os que eu não tenho, eu estou pensando no melhor para Eduardo [nome do filho]. Tenho me organizado de um jeito diferente no trabalho, para poder passar mais tempo com ele. Até pensando se ele está bem e como ficar melhor... Se ele está mal, o que posso fazer para que ele fique bem.

 

P/1 – Como você define o negócio banco? 

 

R – O banco é, para mim, uma empresa de serviços, e como toda empresa de serviços, tem de satisfazer o seu cliente. Isso tudo em torno de três negócios principais: uma é ajudar o clientes a manipular o seu dinheiro. Toda parte transacional, que eu acho fundamental. Hoje, na sociedade em que vivemos, ainda bem que temos esse serviço transacional que facilita que os bens, e os serviços sejam intercambiados de um jeito muito mais eficiente e melhor. Por outro lado, o banco ajuda que as pessoas que realizam, que tem poupanças, que possam fazer com que esse dinheiro chegue onde faz a diferença nos investimentos, empreendimentos, crescimentos de companhias e projetos pessoais. O terceiro e mais importante, é que as pessoas que não conseguem  fazer uma poupança possam desfrutar de coisas antes de ter o dinheiro para desfrutá-las. Isso significa tomar empréstimos para comprar uma casa, para comprar um carro, tirar férias, comprar um presente... Quanto aos riscos, eu não penso nos Reais ou nos Dólares quando estamos emprestando dinheiro. Penso na pessoa que está comprando seu apartamento ou que está comprando o seu carro, começando o seu negócio, expandindo a fábrica... Isso é muito importante para que muitas pessoas possam construir e realizar seus sonhos. Logicamente, na disciplina de comodato, em que estou aproveitando o apartamento, o carro, a viagem, depois vou ter que pagar por ele. Eu diria que estes são os três pilares que fazem com que os serviços bancários e financeiros sejam tão importantes para a sociedade hoje.

 

P/1 – Quais foram os seus maiores aprendizados nessa carreira?

 

R – Os dois principais aprendizados são: um, em qualquer negócio o cliente é o mais importante. Isso significa pensar nas necessidades e na minha capacidade para satisfazer as mesmas. O que eu posso e o que não posso fazer. Às vezes é tão importante falar “sim”, como falar “não” para um cliente. O “não” sempre será maior que um “sim” mal feito. Por outro lado, as pessoas, muitas vezes não damos importância suficiente. Como somos uma empresa de serviços, as pessoas fazem a diferença. Nesse sentido, fazer e construir times que trabalham bem juntos, que se complementam e acreditam no projeto são fundamentais para o sucesso da organização. Uma vez que não tenha uma organização que entenda o cliente e entenda a si mesma, como pode entregar serviços e produtos para o cliente e um grupo de pessoas que desfrutam trabalhando juntas, se complementam e realmente apresentam capacidades diferenciais frente a outros grupos de pessoas faz com que os resultados e o retorno para os acionistas chegue de um jeito natural e fácil.

 

P/1 – E em termos de realizações, quais foram as principais na sua carreira?

 

R – Acho que perceber hoje o reconhecimento que o time de riscos tem dentro do banco. É a minha grande realização. Eu tenho trabalhado muito, com muitas pessoas e grande apoio por parte do presidente do banco aqui e a direção corporativa de riscos; e, assim, criando uma equipe de riscos que realmente se percebam, que agregam e que são profissionais competentes, que ajudam o banco a ser melhor, a crescer e a crescer de um jeito prudente.

 

P/1 – Quais são os seus valores pessoais que se alinham aos do banco?

 

R – Os valores do trabalho bem feito. Eu me preocupo muito que as coisas que eu faço sejam bem feitas, sem comprometer o todo. Eu acredito que eu não posso dedicar-me 100% ao banco e esquecer da minha família ou de meus amigos ou de mim mesmo. Ao mesmo tempo, eu tenho que fazer as coisas bem. Ou seja, manter esse equilíbrio: cuidar de minha família, estar com os meus pais, meus amigos, de eu me desenvolver como pessoa e, ao mesmo tempo, chegar ao banco e fazer um trabalho bem feito. Oferecer algo para os clientes... Acho que isso é algo que compartilha o banco. O banco está ciente dos desafios que existem, em ter funcionários engajados e ter clientes satisfeitos, acionistas que recebem o seu retorno. Não dá para se sacrificar por  apenas um deles e deixar os outros. Deve-se fazer num conjunto, entregando algo que realmente seja um diferencial. Eu compartilho muito dessa visão e me dedico, tanto no nível pessoal como profissional para garantir e ser um exemplo de trabalho nessa linha.

 

P/1 – O que você acha dessa iniciativa do banco de contar a sua história e a sua identidade através da história dos seus colaboradores?

 

R – Acho uma iniciativa super bacana, porque no final das contas... Às vezes existe uma percepção de que no banco, as decisões são tomadas, como brincam, falando, por uns fantasmas que ficam caminhando pelo banco e que ninguém ouviu falar, ninguém vê, porque é sempre: “O banco que decidiu; que não subiu o salário. O banco que decidiu mudar o orçamento, que decidiu mudar esse negócio...”, mas os bancos somos nós, as pessoas. Esse grupo de pessoas é que tomam decisões, e essas decisões sempre vão estar condicionadas ou dirigidas sempre por quem somos e como nos relacionamos. Colocar a realidade, olhos e cara para as pessoas; que estamos aqui, todos nós, compartilhando e enfrentando juntos os desafios do dia a dia, do mês, do trimestre ou do ano. E acho que vai dar um pouco mais de transparência para que todos nós entendamos [o] porquê estamos onde estamos. Muitas vezes pensamos que é por uma questão mágica e, provavelmente, não é assim. É muito mais como uma consequência da experiências e dos esforços que cada um de nós traz para construir o banco que hoje temos.

 

P/1 – O que você achou de estar aí, desse lado, contando um pouquinho da sua história para a gente?

 

R – Eu gostei. Espero que as pessoas, desta forma, entendam um pouco mais que não há somente o Oscar, VP de Riscos, mas, também, o Oscar pessoa; e que isso ajude a nós fazermos um trabalho melhor, que possa ser percebido melhor no dia a dia.

 

P/1 – Há alguma coisa que não perguntamos e que você queria deixar registrado? 

 

R – Queria dizer que estou feliz onde estou. Acho que não faltam desafios, mas que é muito importante demonstrar a felicidade. Essa felicidade tem de ser transmitida e não estar em conflito com ansiar e procurar sempre melhorar o que eu faço. Acho que é importante para todos nós colocarmo-nos nessa perspectiva, porque muitas vezes, numa organização com muitas pessoas que são muito exigentes terminamos focando na metade do copo vazio e não percebendo o meio copo cheio até que saímos daqui. Eu gostaria de terminar com um convite a todos para continuarmos a construir um banco melhor sem esquecer aquilo que nós já temos. E que o dia a dia de nossos clientes, colegas e todas as outras pessoas que são influenciadas pelo banco – se estamos mais felizes e contentes, isso vira um dia a dia melhor. Temos que continuar a pensar e a trabalhar para fazer com que cada coisa que fazemos pode ser melhor ainda.

 

P/1 – Em nome da VP de Marca, Marketing, Comunicação e Interatividade, e do Museu da Pessoa, nós agradecemos a sua presença aqui.

 

R – Tá certo. Eu que agradeço.

 

[Fim do depoimento]

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