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História

De ‘Tatao’, ‘tio Boto’ a um grande influenciador digital

Sinopse

Uma vida constituída nas tensões de classe, entre a família materna, espanhóis industriários de São Paulo e a história paterna, emergente do mercado automobilístico, depois de muita disciplina e economia. O percurso de formação universitária entre jovens das famílias mais ricas da cidade e a percepção humanista e crítica sobre a vida dos menos favorecidos. O auge da carreira e a chegada do diagnóstico de Esclerose Múltipla. A reconstrução da vida com a doença. A criação da Associação de Amigos Múltiplos pela Esclerose.

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História completa

Gustavo San Martin Elexpe Cardoso, tinha 31 anos quando narrou sua história. Nasceu em São Paulo e cresceu em Guarulhos – SP. Sua história é mais uma história de sonhos de um jovem que queria vencer na vida, ganhar seu dinheiro e dar orgulho aos pais. O “Tatao”, como era carinhosamente chamado pelas irmãs Pamela e Priscila, é filho de Galmar Marcos Cardoso filho de uma família tradicional do interior de São Paulo e Maria Tereza San Matín Elexpe Cardoso, descendente de espanhóis que fizeram fortuna no Brasil depois de uma árdua história de conquistas. Gustavo lembra do começo humilde de seus familiares.

 

O pai nasceu e cresceu na zona rural do interior de São Paulo, muito cedo começou a trabalhar na roça catando algodão, no ano era 1959. Já mais crescido trabalhou de engraxate e office boy. Os avós maternos desembarcaram no Brasil e quatro anos depois sua mãe nasceu. Como qualquer outra família de imigrantes enfrentou dificuldades ao procurar espaço para deitar raízes. A avó trabalhou de doméstica e em um bar servindo um cafezinho, que segundo Gustavo, era o café mais famoso da Vila Prudente, bairro da capital paulista. Já o avô foi mecânico. Passado alguns anos os avós maternos começaram a prosperar, mudaram-se para Guarulhos e montaram ali uma pequena metalúrgica. Justamente nessa boa fase econômica os pais de Gustavo se conheceram.

 

Ele conta sobre os detalhes que lhe contaram sobre o dia em que os pais se viram pela primeira vez. Maria Tereza tinha cerca de vinte anos e estava de carro parado em um semáforo quando um rapaz piscou para ela. Assustada perguntou: “mamãe ele piscou para mim, o que eu faço agora?”. A avó do Gustavo, Isaura, respondeu: “Ah, pisca de novo”. A partir dali houve troca de telefones e Galmar fez sua primeira visita a casa da futura namorada. Caprichou no visual para a primeira visita com roupas brancas e um carro. Era 1983. Tanto foi a boa impressão que o pai de Maria Tereza pensou que Galmar fosse médico, mas logo descobriu que ele era um vendedor de carros da Vila Maria, bairro da zona norte de São Paulo. A desconfiança fez com que o sogro não concordasse mais com o namoro. Porém, o jovem rapaz foi ganhando espaço na família, mas com ressalvas.

 

Casou-se com Maria Tereza em 1985 depois que a filha foi convidada a assinar o termo que a deserdava. Essa foi a condição para o casamento e um ano depois Gustavo nasceu. Gustavo lembra dos almoços aos domingos na casa da avó Isaura, onde havia espanhóis barulhentos e divertidos. Outra boa lembrança vem dos passeios de carro com a mãe, que possuía um Gol GTI e juntos ouviam Barbra Streisand, Tina Turner e Whitney Houston e se “esgoelar” de cantar. Outra boa lembrança foi na locadora da mãe. Longe da cidade, o campo era outro lugar de boas lembranças. O pai era proprietário de um sítio em Piracaia, cidadezinha do interior paulista e ele narra momentos em que fazia algo junto com o pai, como dirigir um trator. Duas personagens de sua história foram referencias para Gustavo. De forma antagônica em seus perfis, mas cada um a sua maneira o influenciaram bastante. Narra um encantamento por seu tio Zé Luis, irmão de sua mãe. Um “cara que sabia viver a vida”, era divertido, espontâneo e falava alto. Chegava de helicóptero, carros importados e tinha bom gosto para o consumo. Durante um bom tempo ele era a referência do adolescente Gustavo. Por outro lado, a tensão de classe estava presente na relação paterna.

 

Ele lembra de um aniversário em que o pai lhe deu de presente R$60,00 para comprar “umas calças”. E ele pensava que lhe sobraria a opção de comprar calças no Brás com aquele valor. O tio que ostentava o consumo e o pai que o chamava para a vida real de um não herdeiro daquela riqueza. Além disso, Galmar, seu pai, não demonstrava afeto, era sério demais, não falava alto e portador do lema “homem não chora”. Ao discorrer sobre a rotina em casa, Gustavo lembra com pesar que os poucos momentos em que poderia falar com o pai estavam restritos ao intervalo do jornal televisivo, o Jornal Nacional, mas só quando autorizado. A relação difícil com pai também esteve atrelada as Abrigas do casal. Ele lembra de algumas dessas ocasiões em que interveio, em defesa de sua mãe, mas era só uma criança e acabava apanhando. Foram momentos difíceis e que contribuíram para um déficit de comunicação entre pai e filho. Nessa fase Gustavo disse que Maria Tereza resolveu procurar ajuda psicológica para o filho. Esse foi só um dos fatores que contribuíram para o afastamento do pai e a admiração pelo tio. Gustavo narra o momento em que as referências começaram a trocar de posição.

 

Ele lembra que quando a empresa da família materna, a metalúrgica Vaska e Kromma, uma das maiores fábricas de rodas de carro do país naquele momento, passou por uns problemas, o pai já havia consolidado seu investimento no mercado automobilístico com a empresa Revebras. Dentro daquela relação intricada de família e negócios, Gustavo começou a enxergar o pai com outros olhos. Descobriu que o tio Zé Luis, seu herói, tinha defeitos, apegado ao dinheiro e ao consumo desenfreado prejudicou os negócios da família. Ao passo que a imagem do tio de desvanecia a do pai ganhava nova incidência de luz. A filha e o genro que renunciaram à herança para se casar, foram os mesmos que acolheram a avó, já viúva quando a Vaska e Kromma passou por problemas com questão de impostos. A adolescência de Gustavo se dá no meio a esse contexto de conflitos de classe. Ele destaca que a tensão vivida nessa época dizia respeito ao fato de a família da mãe ser rica e o seu pai sempre mostrando que se devia ter os pés no chão. Gustavo chegou a usar o helicóptero e o jatinho conquistados pelo sucesso da empresa, mas via no pai no outro prato da balança.

 

Era o pai que incentivou os estudos em uma das escolas de Administração mais conceituadas de São Paulo, a FAAP. Gustavo recorda que convivia com os filhos de famílias mais ricas da cidade, e não tinha como não observar o padrão de vida dessas pessoas, carros, roupas etc. Dentro de sua família também era se deparava com essa disparidade. De um lado o tio com uma Ferrari, do outro lado o pai com um Escort. Quando do ingresso a universidade, o pai não concordou com o curso de Arquitetura e o incentivou a formação em Administração. Tentou buscar algo dentro da empresa dos avós maternos, enquanto cursava, mas não deu certo. Seu pai lhe aconselhou buscar bagagem em outros lugares, para ir pegando experiência, então, resolveu empreender um negócio, comprou um lava rápido de automotivos. Encontrou apoio em uma sociedade com a mãe. Trancou a faculdade e assumiu os riscos.

 

Os negócios funcionaram por um tempo, mas Gustavo acabou desistindo por não conseguir gerir os problemas que surgiam. Devolveu a mãe o investimento inicial e em 2009 retornou aos estudos até concluir o curso de Administração. A experiencia na universidade, entre os jovens filhos das famílias mais ricas da cidade, o fez repensar sua condição de classe, as experiencias com o tio e com o pai, seu lugar responsável no mundo. Foi um momento de escolher um lado da história, entre aqueles que lutam para conquistar e manter suas propriedades, como fez o pai. Depois de formado, trabalhou na Associação Paulista de Supermercados. Teve algumas boas experiências até surgir a oportunidade de trabalhar como gerente do grupo Anhanguera, rede de escolas e faculdades. Foi uma ótima oportunidade com possibilidade de crescer dentro do grupo. Nesse momento foi experimentando os caminhos da ação social. Promoveu uma campanha de vacinação e lembra que se sentiu muito bem por ter encabeçado aquilo.

 

No ápice de uma satisfação profissional, começou a sentir os primeiros sintomas da Esclerose Múltipla. Procurou dois oftalmologistas, depois de uma falhar na visão e na segunda consulta o médico cogitou várias causas entre elas a Esclerose Múltipla. Até ali ele estava com férias agendadas e uma proposta para o cargo de diretor de uma das unidades do grupo Anhanguera. Gustavo saiu de férias para o exterior e viveu intensamente. De volta ao Brasil, ele estava bem e se convenceu de que não havia nenhuma possibilidade de doenças. Mas a realidade bateu a sua porta em um jogo de futebol, quando sentiu fraquezas na perna esquerda. Com a persistência do sintoma, no dia seguinte comunicou aos pais e foi ao médico. Em 2011 fechou o diagnóstico de Esclerose Múltipla. Gustavo narra o auge de sua vida profissional, descreve o momento como se a vida tivesse acabado, como se estivesse num “quarto escuro e gelado”.

 

De início pensou em guardar isso para si, em carregar os fardos impostos pela doença sozinho. Mas contou de um sonho, no qual ele era criança que brincava com um caminhãozinho e colocou uma pedra maior do que o brinquedo suportava. Com o brinquedo quebrado ele correu para sua mãe, que lhe disse: “filho, você tem que colocar o quanto o caminhãozinho aguenta levar. Você colocou uma pedra muito grande aqui”. O sonho lhe serviu de válvula de escape para aliviar a pressão inicial do diagnóstico. Gustavo usa o sonho para ressignificar sua postura. Nesse tempo a proposta de assumir a vice direção da Faculdade Anhanguera foi rejeitada e escolheu um tempo sabático, em uma experiência como monitor em um acampamento para crianças. Nesse período era chamado de “tio Boto” pelas crianças pelas suas bochechas rosadas ao sol e experimentou a sensação de afeto e responsabilidade pelos outros. O período que passou ali reativou aquela sensação de satisfação que já havia experimentando quando se engajou em ações sociais.

 

Depois do acampamento, ele saiu decidido que iria se engajar em trabalhos sociais. As experiencias com a doença, o prognóstico envolvendo medicação de alto custo, a experiencia com a falta da medicação levaram Gustavo a uma nova rota em sua vida. Descobriu o árduo caminho da burocracia para adquirir remédios ou viajar com medicação em baixa temperatura com Gelox. Além do preconceito por falta de informações sobre a doença. Isso tudo foi forjando um ativismo, um senso de propósito. Gustavo não parava de pensar que se ele, de uma família que tinha condições para comprar a medicação, estava com dificuldades para adquirir remédio, o que dirá as pessoas como sua ex-sogra que tem Esclerose Múltipla e por quem ele nutre um forte carinho. Ele começou a entender que a sua luta era a luta de outros.

 

Ao se queixar das dificuldades sobre isso, um amigo da promotoria aconselha Gustavo a buscar uma coletividade. Gustavo replica dizendo que tentou, mas não deu certo. Então, foi-lhe sugerido organizar ou montar uma associação. E assim nasceu a AME, Associação Amigos Múltiplos pela Esclerose. Mas ela nasceu primeiro de um perfil no Facebook, onde ele angariou amigos para postar conteúdos e informações sobre como viver melhor numa condição de doença como a Esclerose Múltipla. Ele compartilhava sua experiencia em busca da medicação de alto custo, as experiencias com a doença. A mobilização social e política começava a ganhar corpo virtualmente. Atualmente Gustavo administra a AME com sua equipe e enxerga sentido no seu curso de Administração. Reconheceu que, até o momento, a AME é o maior projeto de sua vida. A AME condensa a história de Gustavo, sua possibilidade de se reconstruir no mundo com a doença, de sentir construindo um diferencial social e humano. Ele narra o reconhecimento recebido de seu pai, quando a caminho do aeroporto para receber o prêmio em Washington, da melhor plataforma de saúde do mundo, dentro do carro ele viu o pai publicando algo nas redes sociais. Emocionado ele leu “Orgulho”.

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