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História

De rifa em rifa nós construímos algo juntos

História de: Valdeci Cavalcanti de Lima Dias
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/05/2020

Sinopse

Valdeci Dias relata brevemente sobre a criação do Centro de Formação Profissional e Cidadania Padre Humberto, uma organização de bairro que tem o intuito de fornecer cursos profissionalizantes. Narra as dificuldades e alegrias de se administrar um centro educacional na periferia sem possuir apoio financeiro. Conta como foi importante o apoio do Comitê de Democratização da Informáticapara o desenvolvimento de cursos, assim como o apoio fez o centro ganhar mais notoriedade no bairro. Discorre sobre a falta de acesso ao computador em periferias e como o fácil manuseio é um grande diferencial para o currículo profissional.

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História completa

P1 - Bom dia Val?

 

R - Bom dia.

 

P1 - Você poderia começar dizendo o seu nome, data de nascimento e local?

 

R - Sim. É Valdeci Cavalcanti de Lima Dias. Eu nasci no dia 27 de agosto de 59. Na cidade de Canhotinho, no estado de Pernambuco.

 

P1 - E qual é a sua formação?

 

R - Eu tenho terceiro grau completo. Nível superior completo.

 

P2 - Você poderia contar um pouco da sua trajetória até chegar no CDI [Comitê para a Democratização da Informática]? O que é que você fez?

 

R - Eu comecei a participar de grupo de igreja, né? Grupo de jovens no tempo de ____________ de _____________ aqui em Recife. Na pastoral do Jovem do Meio Popular.

 

P1 - Em que ano isso?

 

R - Ah, eu acho que em 1980, 1981. Na década de 1980 mais ou menos, né? E daí eu aprendi muita coisa lá no movimento do jovem, do meio popular. Depois a gente tinha um trabalho na comunidade. Eu era catequista lá na igreja e depois eu acompanhei grupo de jovens e participei de alguns outros grupos. O grupo de luta, associação dos moradores. E outras lutas do bairro. Aí depois nós concorremos à uma associação do moradores. Ganhamos e ficamos lá um tempo com o João Paulo. Hoje ele é o prefeito da cidade e antes ele era o presidente. Aí depois eu me afastei do bairro, fiquei 10 anos fora, voltei e nós fomos concorrer mais uma vez à associação dos moradores. Dessa vez sem João Paulo, porque ele já era prefeito da cidade. E nós perdemos por 27 votos essa eleição. Então a gente já não tinha mais espaço na comunidade. E nós decidimos criar uma entidade com apoio de Padre Humberto, que é um sociólogo aqui do nordeste muito reconhecido. Que hoje é falecido. E nós criamos um Centro de Formação Profissional e Cidadania Padre Humberto _________________, que é o que eu faço parte, né? Aí então, o sonho dele era colocar um projeto para atender jovens e adolescentes da comunidade. Foi quando a gente estava discutindo o projeto do centro. Alguém indicou para a gente o CDI. Fizemos a inscrição, passamos dois anos esperando. Foi uma espera muito longa, mas também foi o período que a gente estava documentando o centro, né? Porque levou dois anos para deixar tudo legalizado. E quando foi Maio de 2003, aí o Anderson entrou em contato com a gente e perguntou se a gente ainda tinha interesse no projeto. E foi o tempo que tínhamos terminado de legalizar o centro. Chegou na hora certa. Aí ele foi lá, conversou com a gente e em agosto já estávamos começando a nossa Eike. No dia 4 de agosto de 2003.

 

P2 - E você falou do bairro, né? Você poderia falar qual bairro era?

 

R - É o (R Seis ________?).

 

P2 - E descrever esse bairro. Qual é a população, o grupo que vocês atuam? Qual é a situação do bairro?

 

R - A população de lá hoje deve estar em uma média de 3000 habitantes o bairro. E ele é distribuindo assim, porque tem muitas ocupações ao redor. Favelas. Então, cresceu muito nos últimos anos. E o trabalho que a gente desenvolve é lá no centro. Tem a Eike com 60 alunos hoje, tem uma escola de alfabetização para adultos. Para pessoas de idade. Já teve uma turma que se formou e agora tem outra turma. Tem o trabalho com as mães dos alunos que a gente está iniciando agora. E a gente está correndo atrás de outros projetos, porque a instituição é nova, não temos recursos. Então fica difícil. Temos que conseguir tudo com parceria. E como todas as pessoas são voluntárias, e todos os voluntários trabalham para se manter, a gente só tem tempo de fazer esse trabalho à noite ou final de semana. Aí fica difícil para a gente correr atrás das parceiras, dos recursos.



P2 - Você poderia descrever um pouco o geral das atividades mesmo desses projetos que vocês desenvolvem da instituição?

 

R - A alfabetização de adultos são aulas. As pessoas chegam lá e lêem. É método Paulo Freire e em nove meses as pessoas aprendem a ler e a escrever. Já tem pessoas que já estão fazendo o primeiro grau menos. O colégio. Então são aulas três vezes na semana, duas horas de aula. E tem duas educadoras que acompanham, que são também voluntárias do centro. E tem a parte do CDI que são...

 

P1 - Um minutinho. Qual é a média de idade desse grupo de alfabetização? 

 

R - A partir dos 14 anos. Passou a faixa etária de primeiro grau em escola pública, eles já podem entrar. Mas a nossa faixa lá, a gente não tem jovem nem adolescente. Só temos adultos mesmo. 40 anos, 50 anos, 70 anos. Tem pessoas até com mais de 70 anos. Tem uma senhora que ela já está no colégio fazendo de 1ª à 4ª série. 

 

P1 - O outro programa?

 

R - É o CDI, né? Nós temos cinco turmas hoje, com 11 alunos cada uma. Funcionam nos horários de segunda e quarta, de 18 às 20 horas. E de 20 às 22 horas. Terça e quinta das 20 às 22 horas, porque o horário de 18 às 20 horas está em aberto. Tem uma turma terça e quinta de oito e meia às 10 e meia da manhã, e tem uma turma no sábado, das 15 às 18 horas. Que é para o pessoal que trabalha. Que não tem condição de fazer durante a semana nem no horário da noite. Aí a gente tem 3 horas de aula, porque só é um dia na semana. 

 

P2 - Quem é que é o público do CDI? Quem são os alunos? Vocês têm um perfil?

 

R - Tem. A nossa preferência lá são os alunos das escolas públicas. Porque são os que não podem pagar um curso. A gente não exclui uma pessoa da escola particular. Mas na hora da seleção, esse ano nós tivemos 120 pessoas inscritas para 60 vagas. E a nossa prioridade foi escola pública. Então acho que não entrou nenhum aluno de escola particular. Porque na compreensão da gente, quando um aluno pode estar em escola particular, ele pode pagar um curso de informática. Quer dizer, tem mais condição de pagar do que aquele que está em uma escola pública, com a defasagem que tem hoje o ensino público ele é obrigado a estar lá. Então ele não tem condições de pagar o curso. E nós temos hoje quatro alunos que não podem pagar o curso. Então ele presta um determinado serviço para a Eike, porque ele não tem condições de pagar. E a gente não exclui a pessoa que não pode pagar. 

 

P1 - E qual é a idade? O sexo? São mais homens, mulheres?

 

R - Não. Nós temos mais mulheres do que homens. E o perfil, a idade, está de 15. A gente tem 14 também, mas é minoria. A gente tem de 14 a 50 anos. Na Eike. Nós temos 27 alunos que estão dentro do programa Interjovem, que a gente tem que completar até 50. Mas a gente não podia fechar as portas para as pessoas que estão no mercado de trabalho pensando no curso. A gente teve essa dificuldade lá na hora da seleção. Porque era para colocar 50 alunos do Interjovem, só que nós não tivemos coragem de pegar uma pessoa, que coloca lá na entrevista dele que depende daquele curso para arrumar um emprego e ele tem 20 anos, 25, 27, 30 anos. Então nós fizemos todo mundo junto.

 

P2 - E esse projeto Interjovens? Você poderia contar para a gente?

 

R - É um projeto do CDI, né? Eu não sei falar muito dele. Eu sei que é uma instituição estrangeira que o CDI entrou em uma licitação, foi vencedor junto com outra instituição que eu não me lembro o nome agora. A instituição se chama ______________. E é para trabalhar o jovem para o mercado de trabalho, né? É de 14 a 21 anos. 

 

P2 - E a atividade de você junto ao CDI, é dentro desse projeto?  

 

R - É dentro desse projeto. Mas ele não exclui, porque tem a parte do CDI antes desse projeto, até o ano passado, era aluna normal, né? A inclusão digital, né? Tirar o jovem da inclusão digital, né? Mas depois do Interjovem, aí acrescentou a preparação para o mercado de trabalho. Então mudou um pouco as aulas. Mas não impede que as pessoas façam parte das aulas. Elas só não podem receber os certificados e nem os benefícios do projeto. As pessoas adultas que estão incluídas nas salas de aula do interjovem, ele recebe a mesma aula. Mas o certificado dele vai ser diferenciado e também os benefícios do projeto ele não pode entrar acima de 21 anos. 

 

P1 - A Eike tem quanto tempo mesmo?

 

R - Tem um ano. Foi em agosto de 2003. Tem um ano e três meses.

 

P2 - Quem são os educadores da Eike, e como foram selecionados?

 

R - Olha, a primeira turma de educadores, foram jovens da comunidade que já faziam parte de alguma atividade da comunidade. que a gente conhecia. Nós fizemos uma inscrição e selecionamos 12 jovens que gostaria de passar sua experiência de ser voluntário no CDI. Mas desses 12 que iniciou nós só temos um hoje. Depois de um ano, a maioria saiu porque conseguiram emprego, outros passaram em vestibular, outros passaram em concurso público. Duas pessoas tiveram problemas pessoais na família e não puderam continuar. Então hoje a gente já tem outro público. E temos já seis alunos do próprio curso que estão sendo educadores. Tem um na primeira turma e tem dois nessa turma que começou agora em setembro. Eles já fizeram a capacitação do CDI e agora eles já são educadores. Porque o objetivo do projeto é multiplicador. É agente multiplicador. O próprio aluno, quando ele termina o curso, ele pode se cadastrar para ser educador. 

 

P1 - E as capacitações são feitas no CDI?

 

R - São feitas aqui no CDI. A Eike dá a passagem para o educador e o CDI dá a capacitação. 

 

P2 - E os projetos que vocês desenvolvem? Como é trabalhada a questão pedagógica nas Eikes? 

 

R - A orientação é feita por Ana Maria, né? Ela têm as capacitações de pedagogia. E a gente tenta desenvolver lá na medida do possível. Nós tivemos dificuldade no primeiro módulo. A gente chama de ciclo o curso. Era para desenvolver um jornal, era para desenvolver um trabalho de emprego e renda na área de reciclagem, mas nós não conseguimos. Nós ficamos perdidos e não conseguimos. O único projeto que a gente está conseguindo desenvolver é a auto-sustentação da Eike. A gente faz bingo, faz rifa, faz festinha, vende latinha. A gente junta latinha para vender para ajudar na manutenção da Eike. Mas até agora a gente não conseguiu desenvolver assim nenhum projeto administrativo. 

 

P2 - Essas atividade que tem aqui nas imagens que você mostrou, né?

 

R - Sim, uma delas é a festa que nós fizemos para conseguir dinheiro para a formatura da primeira turma. Aí foi feita uma festa junina onde teve uma gincana. Porque a gente trabalha cidadania lá também. Porque a gincana, ela tinha que arrecadar material de limpeza. E era para deixar para a Eike. E nós conseguimos 1300 itens de material Copo descartável, papel higiênico, bombril, detergente, desinfetante, água sanitária e saco de lixo. Que é o que mais se utiliza aqui. Aí foi feita uma gincana que tinha a equipa mais chique. Tinha uma dupla que era assim uma pessoa chique que ia desfilar. Teve o brega. Teve o concurso de dança, quem dançasse brega melhor. Tinham duas duplas. Teve aquela brincadeira de morder a maçã pendurada no cordão também. E teve a torcida. Tinha que ter uma torcida. E a torcida mais animada também contava pontos para a gincana. E era tudo coisa assim participativa. E as equipes fizeram arrecadação desses materiais que eu citei. Então a equipe vencedora foi a minha. Na época eu era aluna do curso. Conseguimos material que deu para ficar de junho do ano passado até agora. Copo descartável foi só agora que a gente começou a comprar. Nós conseguimos 1300 copos descartáveis. Vários sacos de lixo, materiais de limpeza. E agora, quando foi em outubro do ano passado, nós fizemos uma festa para as crianças. Era um dia fazendo arte. Na véspera do dia das crianças. Nós conseguimos um colégio, porque a gente tem parceira com ele. Usamos a quadra e conseguimos material de doação. Fizemos uma sopa, conseguimos confeito, pipoca, pirulito. Então a criança quando chegava de manhã, ela recebia um lanchinho já com biscoito, suco. E na hora do almoço ela recebia um pratinho de sopa e um pão. Aí essa turma ia para casa e entrava outra turma à tarde. Fizemos dois horários. Tivemos 390 crianças. E teve a participação da escola aberta com o pastoril, com a repercussão que é um grupo de música. Aí tinha oficina de dança, oficina de música e oficina de arte. Divididas em salas de aula, onde os alunos da Eike foram e desenvolveram essa atividade. Ela foi elaborada pelo centro, pela instituição, mas os educadores e os alunos se envolveram. Todos participaram. Nós tivemos 40 voluntários nesse dia. Foi muito boa. ___________ estava lá, ele acompanhou um pouco. E foi uma atividade assim, interessantíssima. No final do dias as crianças estavam felizes da vida e a gente super cansadas. Mas foi muito bom. E agora em agosto, nós tivemos outra em junho. Tivemos outra atividade. A gente queria comprar um ar condicionado para a sala, porque era muito quente. Mas não tinha dinheiro. Aí nós fizemos uma festa junina. Infelizmente não deu muito resultado porque caiu um temporal no dia da festa. E a gente não conseguiu vender as comidas. Mas a rifa a gente conseguiu 250 reais. Não dava para comprar nem a metade do ar condicionado. Então nós ganhamos um ar condicionado usado. Um educador doou para a gente e deu para consertar e instalar o ar condicionado. E está lá funcionando. Mas nós alcançamos o objetivo, né?

 

P2 - Você poderia descrever para a gente qual é o acesso dessa comunidade à computação, aos computadores? E qual é o uso que se faz nessa região de computador, como ele é usado?

 

R - Atualmente a gente só está conseguindo usar no horário de aula mesmo. Porque o objetivo da gente era abrir durante o dia, para que os alunos pudessem usar o computador. Porque o CDI permite isso, que o aluno tenha acesso até para fazer um trabalho de colégio. Se tivesse internet já fazia uma pesquisa. E também já tirar as dúvidas dele das aulas. Ele ir lá, treinar, para na hora da aula ele já estar mais capacitado. Mas infelizmente nós não temos voluntários para ficar lá durante o dia e a gente não pode deixar a Eike só por conta dos alunos.

 

P2 - Na verdade, essa pergunta é mais ampla assim. Qual é o acesso da comunidade? Não à Eike só? Qual é o acesso deles à tecnologia de computação? Para que é que se usa computador? Como isso está inserido no dia-a-dia das pessoas?

 

R - Ah sim. Lá tem as escolas, que tem as secretarias computadorizadas. Os supermercados também são. Tem a rádio comunitária que também usa computador e tem as famílias, né? Tem muitas famílias que tem até internet lá. 

 

P2 - E os alunos, eles tinham, dá para você perceber pelo que você sabe. Eles tinham algum contato anterior com o computação?

 

R - Não. A maioria não. É a minoria. Acho que 5% já teve contato com computador. E 1% tem computador em casa. 1%. A maioria nunca tinha pego em um computador. Não sabia nem como ligar o monitor. 



P2 - E qual é a perspectiva deles? Por que é que eles procuram um curso de computação? Por que é que eles procuram? 

 

R - Para melhorar a qualidade da capacitação para o mercado de trabalho. Sempre quando eles colocam na entrevista, a gente faz uma “entrevistazinha” na inscrição, e eles colocam que é para melhorar os conhecimentos para conseguir emprego. Tem alguns que colocam que é para aprender, né? Quer aprender a mexer com o computador, que conhecer o computador. Mas isso é a minoria. A maioria é para o mercado de trabalho. 

 

P1 - Você tem algum exemplo de algum caso de aluno que entrou e a partir do aprendizado da Eike conseguiu melhorar a sua posição?

 

R - Não porque a nossa escola é novinha. A primeira turma foi muito jovem o pessoal, né? A gente pegou mais de 14 a 18 anos. Então eles, assim de alguém que entrou mesmo no mercado de trabalho eu não tenho conhecimento. Mas de alguém que melhorou sua participação no trabalho mesmo, eu tenho, né? Porque eu tenho uma vizinha que fez o curso e ela tinha dificuldade de manusear o computador no trabalho dela. E hoje ela já conhece os programas de lá, já mexe no computador, né? Ela trabalha no departamento pessoal e ela disse que ajudou muito ela. 

 

P1 - Em uma empresa?

 

R - Em uma empresa. E tem outras pessoas também que fizeram o curso e melhoraram no trabalho. Porque eles tinham computador mas ele só sabia fazer aquele programa que a empresa coloca. Por exemplo, um vendedor de sapatos. No computador dele ele só tem aquele programa. Nota fiscal, valor, né? Tal e tal. Eles não dão acesso. E ele aprendeu a mexer em outras coisas no computador. Ele é vendedor de loja e disse que aprendeu. 

 

P1 - Ei gostaria que você falasse um pouco sobre a dificuldade que vocês tiveram de desenvolver projetos, né? Onde é que está essa dificuldade? Por que é que vocês não conseguiram desenvolver os projetos?

 

R - Eu acho Lídia, que foi nessa parte da gente não ter tempo de acompanhar os alunos. Da gente não ter tempo para pesquisar. E a parte pedagógica também. Porque foi primeiro ano da Eike e a gente não tinha uma pessoa que acompanhasse. Que elaborasse uma pesquisa com a gente. Que desenvolvesse a pesquisa. Hoje fica até mais fácil porque o ano passado eu fiz o curso de pesquisadora de campo no CDI. E me deu uma visão assim legal para ajudar o pessoal. Mas só que eu não tenho tempo. Porque eu trabalho 12 horas. Então, eu tenho que trabalhar para me sustentar, né? Porque eu sou voluntária do CDI, não sou funcionária.

 

P1 - Como foi esse curso que você fez de pesquisadora de campo?

 

R - Foi um curso do projeto Ainda é Jovem. E aí tinha que ser alunos e tinha que ter coordenador acompanhando também. Aí eu me dispus. Fiz um sacrifício e consegui uma liberação lá na empresa. E o curso foram duas semanas. Uma semana com mais dois meses. E a outra semana veio um pessoal de São Paulo para dar esse curso. E foi feito aqui mesmo no CDI. Foi bom. A gente aprendeu a parte teórica aqui e foi fazer a pesquisa mesmo nas empresas. Nós pesquisamos 30 empresas. Foi uma experiência ótima. A gente entrevistava falando do projeto Ainda é Jovem. E a pesquisa era saber como estava o mercado de trabalho para esses jovens. Foi bom. 

 

P2 - E como é a questão. Você é coordenadora da Eike, né? Como é a questão do voluntariado? A sua experiência com isso? Como você vê a questão do voluntariado em relação aos educadores? Como isso interfere no trabalho? 

 

R - Olha, é bom viu? Agora, o difícil é que as pessoas precisam trabalhar para se manter. Aí ficam com o tempo limitado para desenvolver os projetos e o trabalho. Porque lá mesmo tem um educador. Dois, né? Que eles tinham muita capacidade de desenvolver os projetos, de acompanhar os alunos. Mas eles fazem faculdade. E ainda prestam serviço para uma empresa para ganhar um trocado para ajudar na despesa da faculdade. Porque são dois da turma que iniciou. Um que saiu agora e o outro agora é vice-coordenador comigo. São meninos assim ótimos. Com muita experiência de comunidade. Mas o tempo é a falta de condição para a gente se manter sem trabalhar é que não dá para desenvolver um trabalho melhor. Eu, por exemplo, eu trabalho seis horas aqui na Caxangá e trabalho seis horas Hospital Libanês. Então, eu faço um percurso, eu acho que de 30 minutos por dia. Vão uns sete ônibus por dia.

 

P2 - Sete ônibus?

 

R - Sete ônibus por dia. Aí fica muito difícil, né? E à noite eu ainda tenho que ir na Eike. Então eu não tenho condição de dar um acompanhamento como eu gostaria. 

 

P2 - Na entidade também, você não tem alguém que receba profissionalizado que se dedique?

 

R - Porque lá na instituição, a gente ainda tem que ajudar financeiramente, né? Porque a instituição não tem dinheiro. A gente ainda colabora mensalmente cada um com uma “graninha” lá para ajudar. Porque a gente não tem uma pessoa que tenha tempo de sair procurando recurso, parceria nos projetos. E geralmente as pessoas que tem vontade de fazer um trabalho desses, elas não têm tempo. Porque os que têm tempo eles não têm boa vontade. Tem muita gente que passa o dia inteirinho em casa sem fazer nada. Mas ele não se preocupa de estar fazendo alguma coisa pela mudança da sociedade. Ele não está preocupado com isso. Geralmente as pessoas que se preocupam, são as pessoas que estão ocupadas em alguma atividade.

 

P2 - Você já tocou nesse ponto, né? Mas talvez falar um pouco mais da sustentabilidade. Que você falou que é uma coisa que vocês estão correndo atrás. De onde vêm os recursos da Eike, né? 

 

R - Na Eike, né? Cada aluno contribui com cinco reais. Que era de três a sete o valor que o CDI estipulava. Mensal. A gente pediu cinco porque nem é pouco e nem é muito, né? Fica no meio. Então cada aluno, ele dá cinco reais mensal. E esse dinheiro, a gente bota lá na caixinha e dá para cobrir as despesas do __________ e mais esse que a gente faz as atividades por fora, né? Rifa, sorteio, essas coisas. Esse ano a gente está com uma metade comprar um “Gelágua”, porque a gente não tem, né? A gente está tomando água natural. Então a gente está pensando em fazer mensalmente um bingo, né? Toda a sexta-feira do mês, juntar todas as turmas. Fazer um encontro, cada um traz 50 centavos e a gente faz um bingo. Pode ser um caixa de chocolate, alguma coisa que tenha um valor menor de 10 reais, né? Que é para não ter prejuízo. E a gente vai juntando dinheiro. E cada aluno no final do mês, ele tem que levar 10 latinhas de alumínio. E aí quando tiver, a gente vende as latinhas. A última que a gente vendou agora deu 25 reais, e a gente vai juntando. 

 

P1 - E os pais? Vocês envolvem os pais?

 

R - Olha, a gente começou isso, no final dessa turma que a gente terminou agora em agosto. Mas já está na nossa meta agora de começar esse trabalho. Porque nós vimos que foi muito bom que nós reunimos as mães, porque os pais não foram, só forma as mães. E elas conhecerem o projeto. Elas têm outra visão. Tem até uma mãe que disse: "Quando o meu filho começar a trabalhar, eu vou obrigar ele vou conscientizar ele de todo mês ele vir e dar 10 reais aqui para ajudar esse projeto". E melhorou também o pagamento da mensalidade, né? Porque tinha muita inadimplência. Porque elas passaram a acreditar mais no projeto quando elas conheceram. Então, o objetivo da gente nesse ano, é trabalhar mais com os pais. Tem até uma reunião marcada, né? Tem uma para o dia 28 agora. E a gente quer fazer uma reunião mensal com as mães. A gente faz uma reunião quinzenal com os educadores. Então uma vai ser com os pais. Uma só com educadores e uma com os pais para a gente trabalhar isso aí. E lá na entidade surgiu um projeto. Um rapaz lá da rádio comunitária que ele está entrando com a gente. E já é nosso parceiro, né? Porque tudo o que a gente divulga lá ele não cobra. E eles estão com a proposta de um projeto e fazer curso de padeiro e curso de pedreiro e auxiliar de pedreiro para os homens da comunidade. Homens e mulheres. Se tiver alguma mulher que queira, e isso hoje é normal. Então ele já fez o contato. Ele tem que fazer com os comerciantes dessa área. Então vai falar com os donos das padarias. E tem cinco padarias no bairro. E aí eles já concordaram, já gostaram da idéia e a gente está marcando uma semana na próxima semana para começar a construir esse projeto junto com eles. A nossa idéia é conseguir a parte teórica em uma empresa de fornecedor de massa de pão, né? Tem já a proposta de uma empresa que eu não me lembro o nome. E os donos de padaria vão ceder o espaço para a parte prática. E o centro ficaria com o cadastro desses alunos. E quando eles precisassem de um profissional nessa área eles procurariam a gente e a gente localizava essa pessoa que fez o curso. Isso é uma coisa nova que está surgindo agora, né? E tem também um projeto com o SENAC [Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial] que a gente está esperando uma resposta para curso de cabeleireiro e curso de culinária. Mas esse vai ser pago. Eles não fazem curso grátis. Eles diminuem o valor em 50% porque é feito na comunidade e a gente cede o espaço. Mas um curso de cabeleireiro deve estar em torno de 120 reais no SENAC. Então ele faria por 60 na comunidade. Que já é mais acessível, né? Nem todo o mundo pode fazer, mas tem muita gente que se interessa.

 

P2 - Val, teve alguma mudança? A Eike provocou alguma mudança dentro da instituição? 

 

R - Sim. Teve um crescimento, né? A divulgação, a participação das pessoas, a procura. Acho que na parte da divulgação mais é que houve mudança. E hoje a instituição só existe por causada Eike.

 

P1 - Como assim?

 

R - Porque ela não está conseguindo desenvolver nenhuma outra atividade. E a Eike está crescendo. Se não fosse a Eike, a gente não teria quase nenhuma atividade no encontro hoje.

 

P2 - E na comunidade, como é vista essa atividade da Eike e da instituição lá no bairro?

 

R - Olha, agora é que está começando ter uma visibilidade, né? Porque a gente ficava em outra casa. Ficava mais escondida, né? Não era muito divulgada. E agora nós alugamos uma casa na avenida, uma casa de esquina. E chama muita a atenção, né? Porque o pessoal vê muito movimento à noite do pessoal entrando e saindo. É tanto que nós abrimos inscrição agora e foram 120 pessoas inscritas. E se a gente tivesse demorado mais dava para 200 pessoas. Se a gente tivesse voluntário, hoje a gente teria 200 alunos na Eike. Infelizmente a gente não tem voluntário para trabalhar durante o dia. Só tem uma equipe.

 

P2 - Para quantos computadores?

 

R - 10.

 

P2 - 10? São duas salas?

 

R - Não. Uma sala só. Uma sala grande com 10 computadores. E a gente tem um aluno por computador.

 

P1 - E o que é que você acha desse crescimento assim, você acha que é pelo fato de ter formado uma primeira turma?

 

R - Sim. Sim. Duas turmas já. Estamos na terceira. A primeira turma já divulgou bastante. Nós fizemos uma formatura, convidamos um representante da comunidade, os pais estavam presentes. Teve um pai que deu um depoimento sobre o filho. Inclusive hoje ele é educador. E alguns alunos que deram depoimento também, né? A gente tem esse trabalho que a gente fez também no colégio, que o pessoal divulgou. E a própria divulgação mesmo. Quando o pessoal viu o movimento, disse: "O que é que funciona aí nessa casa? O que é que tem aí?".

 

P1 - E quais são as dificuldades maiores que os alunos têm para o aprendizado, né? Porque são pessoas que nunca viram um computador, nunca mexeram. Apresentam algum tipo de dificuldade? 

 

R - Apresenta. Tem uns que tem dificuldade. Mas é porque ele estuda em uma escola pública que não puxa muito o QI dele. Ensina ele a aprender mas não ensina ele a descobrir as coisas. Porque a escola pública ela não tem uma metodologia de uma escola particular, né? Que faz o aluno ir em busca do aprendizado. Eles já dão ali tudo pronto e o aluno já sai da sala com o questionário elaborado, já sai da sala com o exercício para fazer em casa. Então ele não desenvolve muito. E o ensino é muito precário também. Então isso é o que atrapalha eles. Então hoje tem aluno de 6ª série. E tem aluno que não sabe escrever. Na 6ª série e ele escreve nomes de pessoas e lugares com letra minúscula. E se ele for responder à uma entrevista, tem coisas que ele não sabe. A dificuldade que a gente tem é essa. Mas tem muito aluno bom também. Mesmo sendo da escola pública, tem aluno que desenvolve com muita rapidez. Pega muito fácil as coisas. Porque o método também é muito prático. O método do CDI é muito bom. 

 

P2 - E o acompanhamento do CDI? Como é que é feito?

 

R - Tem coordenador de campo, né? Até o ano passado nós tivemos dificuldade, né? Porque o CDI demorava muito a ir na Eike. E a própria capacitação dos educadores, eles dizem que deixa a desejar. Porque eles gostariam que ensinasse mais o método. Mas o CDI ele só dá o caminho, e o educador tem que se virar, né? Ele tem que descobrir a metodologia. Ele mesmo vai desenvolver a metodologia. Então eles têm, né? Agora esse ano melhorou um pouco. A gente começou a cobrar mais. A Paula saiu.

 

P1 - Paula quem é? 

 

R - Paula era a coordenadora de campo. Que visita a Eike, quem acompanha. O Anderson estava meio ______________, mas agora ele melhorou. Ele já foi agora, em dois meses ele já foi duas vezes lá na Eike. Ana Maria também foi agora. A Cláudia, a gente teve uma conversa sábado passado e elas ficaram quase duas horas lá. E a gente conversou bastante sobre as dificuldades. E eu acredito que isso vai fazer melhorar mais agora. O pessoal está chegando mais junto e está suprindo mais as necessidades da gente. A questão das máquinas melhorou também. Porque os computadores eram muito velhos, muito lentos. Mas melhorou, mandaram máquinas melhores depois do projeto interjovem.

 

P1 - Que tipo de apoio vocês precisam mais na Eike?

 

R - Eu acho que apoio para desenvolver projetos. E apoio financeiro né? Porque se você desenvolve um projeto e consegue uma parceria já está tendo um apoio financeiro né? A maior dificuldade hoje é desenvolver projetos para a captação de renda. E o próprio projeto da Eike também. Deveria existir um acompanhamento pedagógico mais forte, porque nós não estamos prontos ainda para desenvolver projetos dentro da Eike. A capacitação do CDI é pouca para isso. Eu acho. Tinha que ter uma pessoa que chegasse junto, que ajudasse mais a desenvolver os projetos com os alunos. Mais a parte pedagógica.

 

P1 - Porque os educadores não dão conta?

 

R - Até por essa falta de tempo. Porque você não tem tempo de estar indo pesquisar de estar correndo atrás né? Então isso deixa a gente muito... Porque se eu tivesse tempo eu tinha como sair em busca de parceria de outras organizações. Mas infelizmente a gente tem que trabalhar, né? 

 

P1 - Tem alguma questão que você queria ressaltar? Alguma experiência que você queira contar, ou algum aspecto que a gente não perguntou?

 

R - Não, eu acho que a experiência eu já coloquei, né? Nas atividades que nós desenvolvemos. A experiência que a gente tem lá essa. Dos alunos que já se tornaram educadores, que para a gente foi um grande passo. Em um ano e três meses a gente já tem cinco educadores dentro do próprio curso. Eu acho que isso foi muito bom. Um dos educadores agora é vice-coordenador comigo, porque era meu esposo, mas por conta do trabalho dele ele não pode continuar. E eu acho que é isso mesmo. E a experiência boa é essa, né? Da gente estar levando aqueles jovens a sair da exclusão digital, né? Porque hoje quem não tem um curso de digitação, quem não tem computação, ele é um analfabeto de novo. Eu mesmo, eu me sinto analfabeta. Porque até então eu não tinha o curso. E isso me atrapalha também para acompanhar os projetos, porque eu não entendo de computação. Eu fiz o curso ano passado, estou reciclando agora em uma turma dos meninos. Porque eu me envolvi muito com a coordenação e perdi muito conteúdo do curso. Então não aprendi o que eu queria. E esse ano não, aí eu estou com uma turma. Eu entrei de novo. Porque precisa aprender, desenvolver os projetos fazendo os trabalhos no computador e tudo. Vai me ajudar muito.

 

P2 - Então nós agradecemos a entrevista em nome do CDI e do Museu da Pessoa. Obrigado.

 

R - De nada.

 

P1 - Obrigada.

 

R - Estou à disposição, qualquer coisa.

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