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História

De professor a engenheiro

História de: Waldir Juruena Pereira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/04/2020

Sinopse

Infância no Rio de Janeiro. Vocação para professor. Deu aula até terminar o ginásio. Trabalho em escritório. Ingresso na Companhia Vale do Rio Doce. Mudança para os Estados Unidos. Retorno ao Brasil. Ingresso na Mineração Rio do Norte.

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História completa

P/1 - Bom dia. Vou começar pedindo pra você se identificar, você mesmo, falar seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R – Meu nome é Waldir Juruena Pereira.  Eu nasci no Rio de Janeiro, em 31 de dezembro de 1936. Portanto, já estou com 64 anos, e, no último dia deste ano, já poderei entrar no ônibus sem pagar, (risos) completando 65 anos. 

 

P/1 – Seus pais são do Rio de Janeiro?

 

R – Não. Realmente, eu sempre brincava, antes de meus pais morrerem, que eu tenho um cruzamento meio complicado, porque meu pai era bem do interior de Minas Gerais. Aí já tem uma ligação com a Vale. E a minha mãe, de Corumbá, Mato Grosso. Então, antigamente, nas chapas de carro, seria MG e MT. Depois, o Mato Grosso se (fundiu?) em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Eu nasci no Rio por acaso. Meu pai servia na base naval de Ladário, que é ao lado da cidade de Corumbá, Mato Grosso. Conheceu minha mãe, com ela casou e depois ele foi transferido para o Rio de Janeiro, onde eu vim a nascer. Ele ficou aqui, talvez dois ou três anos no máximo, mas teve que voltar pra lá, porque achavam a vida aqui muito cara. Então voltou pra lá, morando na casa do meu avô materno. Lá nasceu a minha única irmã, Maria Helena. Ficou mais uns anos lá e depois voltou pro Rio de Janeiro para servir aqui, na carreira normal. Não pode mais voltar pra Ladário.

 

P/1 – O fato de ter nascido em 31 de dezembro, sua mãe conta uma história referente ao fato?

 

R – Um dia realmente complicado.  Eu li ali no Livro do Bebê...  Quando minha mãe morreu, eu fui lá ler o Livro do Bebê com meu tio. Ela tinha três irmãos, e um irmão dela estava todo paramentado, de terno branco, para a festa no Passeio Público do Rio de Janeiro, que era um lugar elegante naquela época, com as festividades, quando ele soube, não sei como, porque não tinha celular, que ela estava para dar a luz. Então, o grande problema dele foi encontrar um táxi para ir dali do Passeio Público até a Casa de Saúde São Sebastião, no Catete, onde eu nasci às vinte horas e quarenta e cinco minutos. Eu acho que eu sou um pouco... Digamos ressuscitado, porque quando eu nasci, eu só ouvi barulho de fogos...

 

P/1 – E sirene.

 

R – Sirenes e champanhe espocando. (risos) E aquele alvoroço, naquele tempo, a comemoração pelo nascimento. Mais um bebê no mundo. Um fato seria esse. 

 

P/1 – E seus avós, seus familiares, sua ascendência? 

 

R – Meus avós, conheci um muito bem e os outros três, pouco. Acompanhando meu pai, eu fiz uma viagem para o interior de Minas no ano anterior que meu pai veio a falecer. Então eu conheci meus avós, num lugarejo chamado Florália, que hoje fica ao lado do leito do ramal da Vale do Rio Doce. Até um dos meus colegas forçou pra eu ir lá ver a cidade, e eu, de preguiça, não fui. Era um lugar tão pequeno que só me lembro que quando subia um carro, isso em 1948... Quando subia um carro, todo mundo ia na janela pra ver o carro. Incrível. Por parte de pai, era de uma família numerosíssima, como manda a boa no interior de Minas. Na maior idade, eles eram nove filhos. Pra vocês fazerem umas contas. Eu, quando estive lá, tinha um quadro. Nós éramos 64 primos de primeiro grau, descontando meu tio que era padre, descontando meu pai que só tinha dois. Dos 64, menos dois, 62. Dividido por sete, dava uma média de nove filhos por… Por parte de mãe, o meu avô era da Alfândega, e, com isso, ele viajou bastante pelo Brasil. Minha avó morreu cedo, eu não a conheci, e meu avô esteve rondando em Corumbá por causa também da Alfândega, como tinha base em Ladário, tinha Alfândega também lá. Esteve em Florianópolis, esteve em Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul. Ele fez a carreira dele toda na Alfândega. Foi a pessoa que realmente influiu na minha vida, porque como meu pai morreu muito cedo, nós não teríamos condições de continuar levando o mesmo nível de vida que nós levávamos, principalmente a parte de escolaridade. Nós estudávamos no Colégio Santo Inácio, um colégio muito bom. Minha irmã estudava no Colégio São Paulo.  Então foram feitos certos arranjos, amigos vieram, conseguimos bolsa, e meu avô foi morar conosco e aí ajudou na criação dos dois netos. Então aí estão os quatro avós. 

 

P/1 – Você lembra um pouco dessa sua casa de infância?

 

R – Casa de infância. Quando eu vim pro Rio de Janeiro, eu morava na rua Barão de Itaipu, no Andaraí, e eu tenho uma vaga lembrança da casa, como ela era. Casa bem modesta. E o melhor é que meu pai foi servir durante a guerra, na ilha de Trindade. E a casa era tão velhinha, tão ruinzinha, que toda noite minha mãe botava a cristaleira contra a parede, que era a tranca, (risos) para não invadirem a casa. Eu tive uma rapidíssima passagem pela rua Desembargador Isidro, na Tijuca, e, logo após, minha mãe tinha uma roda de amigas que se reuniam para chás. A maioria delas morava na Urca. Então induziram minha mãe a mudar pra Urca, e coincidência, nós conseguimos uma casa bem modesta na Urca, cujo aluguel era o mesmo do aluguel na Tijuca. Meu pai não queria que nós fossemos pra lá, porque meu pai era todo quadrado, militar. Ele dizia o seguinte: “Vocês não vão, não temos condições…” Isso antes de ele morrer. “Não temos condições de viver na Zona Sul. Zona Sul é a melhor __ da cidade. Meu filho vai estudar no Colégio Militar e minha filha vai estudar no Instituto de Educação.”  Pronto. Está resolvido o problema. Mas minha mãe dizia: “Não, eu quero lá na Urca, porque lá eles vão ter outras amizades, estudar em outros colégios.” Mamãe entendia  assim. Ficamos na Urca, que se tornou, assim, parte da minha vida, porque eu me recordo que, de 43 até hoje, descontando os sete anos de Estados Unidos, e dois anos que nós moramos, logo depois de casados, em Ipanema, não tínhamos encontrado lugar na Urca. Nós sempre moramos lá, e minha irmã, única irmã, também ____ em 42, comigo. Ela casou-se com um rapaz da Urca, de modo que ficamos, assim, uma família na Urca. Nós temos duas unidades, que são nosso apartamento e a minha sogra, que mora na Urca. E meu cunhado e três filhos, são mais quatro unidades familiares, também lá na Urca. É isso, mais ou menos. 

 

P/1 – Como é que era a Urca nesse tempo?

 

R – A Urca era um bairro totalmente diferente, porque, em 43, uma das coisas importantes: eram poucos carros. Não tinha indústria automobilística no Brasil ainda. Os carros eram importados. Gente que tinha carro importado era gente mais abastada. Era um bairro em que todo mundo se conhecia. Então, pra você ser educado realmente, se saísse andando pela rua, você cumprimentava cinquenta pessoas. Se fosse andar como eu ando hoje, pra fazer exercício, caminhada, eu cumprimentaria cinquenta pessoas no mínimo, todo dia. Porque todo mundo se conhecia. Mudou pouco a Urca. Claro que todo mundo tem carro, não tem onde parar carro, isso tudo, mas é um bairro com uma cultura própria. É, na realidade, uma cidade do interior, encravada na Zona Sul do Rio de Janeiro. Os costumes das pessoas são totalmente diferentes do centro. A gente vê as pessoas andando, elas são diferentes. De chinelo, cachorrinho, lá ____. O próprio ritmo de andar, não é o ritmo de cidade grande, da Zona Sul da cidade grande.

 

P/2 – E sobre a educação religiosa? Porque na realidade seu pai era... 

 

R – Não, mas também ele era muito católico. A educação religiosa. Eu esqueci de falar. O meu avô, pai de pai, fez uma coisa que algumas famílias faziam no interior de Minas. Mandava os filhos estudarem no Seminário do Caraça.

 

P/1 – Ah. O Caraça. 

 

R – Lá, a educação, naquela época, era de altíssimo nível, mas só um dos filhos é que foi realmente ser padre. Os outros todos saíram. Eliéser fala muito nisso. Roberto Campos, por exemplo, esteve lá. Então, sobre formação religiosa, eu me lembro que ele fazia rezar, eu e minha irmã, antes de dormir, toda noite, quando éramos pequenos. Formação religiosa. 

 

P/1 – E a mãe também?

 

R – Mamãe também. Agora, vovô era espírita. Um mestre espírita de alto nível, não sabe como é chamado. Eu me lembro. Ele recebia pessoas lá em casa pra dar conselhos. O resto, tudo religioso, tudo Católico Apostólico Romano. 

 

P/1 – E daí, o Santo Inácio?

 

R – Olha, também. O Santo Inácio, na época, eu me gabava, hoje eu não concordo. Para mim, era o melhor colégio do Rio de Janeiro. Eu tinha uma relação de ex-alunos, minha mulher ficou chateada porque eu joguei fora o livro, mas o Santo Inácio era uma coisa incrível. Era ensino de primeiríssimo nível. Religião, eu acho que havia uma pressão muito grande em cima dos alunos por causa de religião.  Imagina que o ônibus passava todo domingo, sete horas da manhã, para a missa de oito horas, no Santo Inácio. E tinha um cartão que tinha que carimbar: se ia à missa ou se não ia.  E depois, o pessoal que fosse à missa, e os que comungassem – alguns não comungavam – tinham uma mesa de café com leite, pão doce, e depois tinham os jogos de futebol no colégio. O São Paulo acho que era menos apertado, um pouco, sobre religião, mas também muito, de modo que não segui... Aliás, eu tenho que dizer que o Santo Inácio teve uma influência negativa sobre minha pessoa, no tocante à religião. Quando eu saí do Santo Inácio, eu me afastei da religião. É como se eu tivesse ficado livre. Nós tínhamos... Lá no Santo Inácio, no científico, por exemplo, rezava o terço todo dia. Reunia lá num lugar e rezava o terço. Então aquilo ali… Eu fiquei mais de quarenta anos fora da religião. Eu voltei à religião católica,  estou praticando há dois anos, como  se nunca tivesse interrompido. Mas realmente… Minha irmã e a maioria de meus amigos… Era demais. Hoje não é assim mais. Meus três filhos estudaram no Santo Inácio. Eu não estava muito entusiasmado de ver eles estudarem lá, eu achei que o Santo Inácio diminuiu muito de qualidade, no padrão de ensino, porque eles cresceram muito. E também a dificuldade dos professores. Professores ganham menos. E os professores de lá eram excepcionais. Entravam pra dar aula de terno e gravata, e sabiam tudo, tudo. Depois, quando eu fui lá olhar meus filhos… Bom, primeiro, lá começava com o Admissão. Não tinha primário. E só eram homens, claro. Hoje não. Homem e mulher. Quando entrei no Santo Inácio, a primeira vez depois, por causa dos meus filhos, o pessoal todo de cabelo grande. Moça sentada no colo do padre. Digo: “Virgem. Não é Santo Inácio, não. Acho que eu errei o endereço.” (risos) Mas é um outro mundo. 

 

P/1 – Na sua formação escolar, alguma professora, alguma pessoa que tenha te marcado?

 

R – Por coincidência, faleceu hoje a diretora do Colégio Primário da Urca. Noventa e cinco por cento das pessoas que moraram na Urca passaram pelas mãos de Dona Ivone Braga Furtado. Eu fui um aluno muito bom mesmo, mas ela se gabava mais era do Mário Henrique Simonsen, e do Jorge Bornhausen. Mário Henrique Simonsen foi o melhor aluno de todos os colégios e faculdades onde ele passou. O Jorge Bornhausen, porque é político. Mas muitos alunos importantes estarão hoje à tarde, às seis horas, no enterro dela, se é que vou poder avisar. Ela marcou muito. No Santo Inácio, o professor de Matemática, chamava Jacques (Shandriá?). Me impressionava bastante. Todos eles eram bons. Realmente todos eles eram bons e o nível de ensino era excepcional. Me lembro do professor de Geografia. Geografia é coisa simples. Parece. Ele sabia tudo. Ele descrevendo o curso do rio São Francisco, parecia que ele estava fazendo uma oração, de tão entusiasmado. Ele fazia sobre as voltas do São Francisco: banhava a cidade A, B, C, D, etc. De modo que foi um colégio muito bom. 

 

P/1 - Vocês tinham um ensino especial de Matemática?

 

R – É. Matemática. Eu gostava de Matemática. Gostei desde o primário.

 

P/1 – Por conta da professora?

 

R – Não. Acho que foi uma tendência natural. Meu pai, por exemplo, ele me fez falta, como muitos outros campos, mas ele me fazia... Isso ele trouxe do Caraça, do Seminário do Caraça. Fazia-me ler os livros, mas eu nunca gostei muito de ler. Eu queria fazer a conta. (risos) Equação e problemas de Matemática é uma coisa horrorosa, depois, quando você chega na vida. Eu não consegui passar nada disso pros meus filhos. Também, tudo tem a ver com a Matemática. Todo mundo gosta de Matemática. Então, do primário, os alunos do Externato Conselheiro Antônio, da Urca, ele dirigia homens, quase todos pro Santo Inácio. E pra lá fui eu. Colégio de Santo Inácio de Loyola. Católica. Quer saber como é que eu cheguei na Católica, Engenharia? Na onda. Porque a maioria dos colegas ia fazer engenharia na PUC e o Santo Inácio era interessante, porque tão bom era o colégio, que nas férias, nas últimas férias, eles faziam um cursinho lá dentro mesmo. Dois meses. E a minha turma, como éramos 35, passamos 33, direto para faculdade, só com o cursinho do Santo Inácio. Desses 33, trinta foram pra PUC e outros... Um foi ser militar; outro, não sei o que. Mas era tão bom o ensino, que prescindia daqueles célebres cursinhos que a gente tinha que fazer. Eu fui estudar Engenharia mais ou menos na onda. Naquela época...

 

P/1 – E seu pai já havia falecido?

 

R – Foi. Em 49. Era jovem. Estava no segundo ginasial. Naquela época, não se falava muito em ser economista ou ser administrador de empresa. Ninguém sabia onde é que ficavam essas faculdades, de modo que, veja bem, o que eu podia fazer? Eu podia ser engenheiro, médico – que eu não tinha a menor vocação –, advogado, que eu não tinha a menor vocação. E a vocação maior, que era ser professor, que eu pensei muito em seguir, mas tanto a minha mãe quanto as outras pessoas falavam: “Olha, você vai ser professor, você vai ganhar muito pouco.” Então eu fui ser engenheiro, muito menos por vocação e muito mais por ter a Matemática e, vamos dizer assim, perspectiva de uma remuneração maior. Então eu fui pra Católica. 

 

P/1 – E o esporte? Sua ligação com o esporte começou em que época?

 

R – Minha ligação com o esporte começou ali na Urca. Primeiro foi o voleibol na praia e depois eu fui pro Flamengo, e a Urca tinha aquela fortaleza de São João, que tem uma praça de esportes. Lá eu jogava muito basquete também, apesar do tamanho, da altura. E eu gostava muito e jogava bem ping pong. Tinha uma casa na Urca onde tinha uma garota, cujo pai preparou dois quartos, uniu dois quartos e botou uma mesa de ping pong, então o grupo nosso ia lá jogar ping pong. E eu gostei muito de ping pong, e treinei tanto que quando eu entrei na faculdade, no primeiro ano, eu fui campeão individual da escola. Depois entraram outros muito melhores, pessoal até bolivianos, paraguaios, que jogavam muito melhor. Então, o voleibol e o basquetebol. Futebol eu tentava jogar, mas eu era muito ruim. Deus me livre. (risos) Eu tinha uma vontade louca de jogar futebol, mas nada. Quer na pelada de praia, quer nos jogos do Santo Inácio, eu era segundo time. Mas em compensação, eu gostava muito de ver o futebol.

 

P/2 – Torcia pra que time?

 

R – Flamengo. Você quer saber como é que eu me tornei Flamengo? Tem um certo charme. Eu estava no segundo ano primário, acho que era em 1944, e uma professora, não a diretora, uma irmã dela, professora, Dona Yolanda Braga Furtado, ela era uma tricolor, doente. Eu era o primeiro aluno da turma, xodozinho, era aquele menininho que a professora gostava. Ela dizia: “Tem que ser Fluminense, meu time.” Aí terminava a aula, eu ia pra casa e meu pai dizia: “Tem que ser Flamengo.” (risos) Um quase menino com conflito entre duas pessoas, não que eu não gostasse mais. Tinha mãe, mas… Flamengo, Flamengo, Fluminense, Flamengo, Fluminense... Aí, meu pai, que era um Flamengo doente, ele ia ao campo, mas torcia pelo rádio, aquele rádio capelinha que tinha antigamente. Então era a semana do último jogo com o  Vasco pro tri-campeonato. O Flamengo precisava ganhar para ser campeão. Se empatasse, o Vasco seria campeão. Meu pai só falava naquilo. Ele me passou uma tensão nervosa incrível, que eu, no meio da semana, sonhei. Sonhei que o Flamengo ia fazer um gol no finalzinho do jogo e ia ser tri-campeão. E contei pro meu pai. Meu pai era do quadro de farmácia da Marinha. Servia no corpo dos fuzileiros navais. Ele chegou lá e espalhou: “Fiquem calmos que o meu filho já sonhou que o Flamengo vai ganhar os…” Muito bem. Aos 44 minutos do segundo tempo, o Flamengo faz o gol que deu o tri. Eu me lembro que nós estávamos ouvindo no quarto do papai com o rádio. A bola não tinha acabado de entrar, meu pai deu um salto, ele era pequenininho, menor que eu ainda. Ele deu um salto, foi no telefone, ele nem ouviu os comentários, porque ele ficou telefonando para cada colega: “Não disse pra você que o Flamengo ia ganhar?” (risos) E aí me tornei Flamengo. 

 

P/1-  E não foi o primeiro.

 

R – Foi a ligação com meu pai.

 

P/1 – Depois que seu pai faleceu, o senhor falou que o senhor precisou dar aula?

 

R – Dava aula de Matemática, bastante, ali na Urca. Com isso, até eu me tornei um pouco popular, porque viam aquele garoto que dava aula, os que já me conheciam muito bem. Os amigos que não me conheciam passaram a conhecer e eu fui levando assim. Terminei o ginásio.

 

P/1 – E cobrava?

 

R – Claro que cobrava. Era tão pouco. O dinheiro que eu ganhava era o dinheiro que minha mãe não precisava me dar. Então eu mesmo administrava o dinheiro. Entrei para o científico e não tem dúvida que eu vou continuar dando aula. Aí entrei pra faculdade. Continuei dando aula. Quando um dono do escritório de cálculo de concreto me convidou pra trabalhar com ele, Doutor Antônio Armínio (Gaviola?), eu comecei a trabalhar, mas eu ganhava menos no escritório do que eu ganhava como professor. Aí eu, primeiro, parei e expliquei pra ele. “Ah, está bem.” Mas depois eu disse: “Não. Eu tenho que trabalhar em alguma coisa de engenharia, senão eu vou ser professor, não vou ser engenheiro. E eu estou estudando engenharia.” Voltei a trabalhar no escritório de cálculo até me formar. Mas cálculo de concreto é um ramo muito bonito da Engenharia Civil, mas só os grandes calculistas ganham realmente dinheiro. Ganhavam dinheiro, ou ganham, hoje, dinheiro. Aquele tempo não tinha muitas especialidades no curso de engenharia. Civil, Mecânico, Eletricista, Metalúrgico... Em civil, eu me lembro, tinha Cálculo, Construções, acho que era Portos,  não sei bem. O fato é que eu não tinha nenhuma vocação para Construção Civil. Nada. Achava chata. O pessoal dizia: “Construção Civil, tem que ter muita paciência para lidar com as madames pra quem você vai construir _______.” Aí eu digo: “Meu Deus do céu. O que eu vou fazer da vida?” __________ Estava na semana da formatura, tinha voltado a calcular concreto. Apesar de ser uma boa época, em que era uma boa coisa ser engenheiro, porque era uma carreira valorizada, por outro lado, no Brasil não tinha… Tinha A CSN, tinha a Petrobrás, tinha a Rede Ferroviária, construção civil, construir prédios... Aí eu comecei a procurar emprego. Eu não conhecia muita gente, era muito tímido. Poucos empregos apareceram pra mim. Um foi uma firma de construção de piscinas. Eu me lembro de:  “Construir piscinas? Eu não sei nada. Sei cálculo de concreto, mas construir piscina?”  Mas não chegou muito perto de ser contratado, não. Aí apareceu a Rede Ferroviária Federal. “Ah, isso é bacana, ferrovia.” Era um amigo do meu tio. Me lembro até o nome, inclusive foi deputado pelo Rio Grande do Sul, Daniel Faraco. Ele… Ficou aquele tempo: ia, não ia. Tinha vaga, não tinha vaga. “Quero sim. Eu tenho prestígio lá, mas não tem vaga.”  Aí, um dia, chegou e falou pro meu tio: “Oh, o jeito é o seguinte: o seu sobrinho entra como escriturário datilógrafo e depois, lá dentro, faz um concurso para engenheiro.” Aí meu tio me falou. E eu: “Mas como? Eu não  sei nem bater máquina.”  “Ah, mas isso é emprego público. Você aprende lá dentro com o pessoal.” Eu digo: “Ah. não. Entrar como escriturário, não. Deixa tentar mais um pouco.” Mas o único primo irmão, por parte de pai, que morava no Rio de Janeiro era o Doutor Carlos Pereira Neto. Aí foi um dia almoçar lá em casa com Maria Helena, que esteve com aquele grupo de mulheres aqui, e falou: “Olha, acho que eu tenho vaga pra você na Vale do Rio Doce.” Eu não sabia nem quem era a Vale do Rio Doce. 

 

P/1 – Não tinha nem escutado falar?

 

R – Por alto. Era muito pequena. Depois eu vou contar como era a minha visão da Vale. Daí minha mãe falou: “Vai. Vai trabalhar com seu primo.” Ele me telefonou dias depois: “Como é, você quer ou não quer?” “Ah. Quero.”  Então eu me formei no dia 22 de dezembro de 59, e comecei a trabalhar na Vale no dia seis de janeiro. Seis, não, porque é dia de Reis. Sete de janeiro de 1960. E aí mergulhei na Vale do Rio Doce.

 

P/1 – Teve algum tipo de teste para você entrar?

 

R – Nada. Naquele tempo não tinha isso, não. Entrei por indicação. A Vale do Rio Doce, eu posso dividir em três fases: antes do Doutor Eliezer Batista, uma fase; entre o Doutor Eliezer Batista e a privatização, a segunda fase; e a fase que estamos vivendo agora, que é a privatização. Então, quando eu entrei pra Vale, eu não sabia que eu estava entrando para uma companhia excepcional. Veja bem. O Doutor Eliezer entrou pra ser presidente, se não me engano, em março de 61. Então o primeiro ano que eu entrei pra Vale, teste, não sei o que, a pessoa indicou. Mas não era considerado um emprego muito bom. É companhia do governo. Negócio meio...

 

P/2 – Que função?

 

R – Eu trabalhei... Eu comecei na área que se chamava, naquela época, Serviço Geral de Compras. Depois, quando houve a reorganização, feita pela Ecotec, com o professor Antônio Dias Leite, passou a ser chamada Divisão do Patrimônio. Bom, eu entrei lá, e a primeira coisa que eu poderia dizer, e aí já começam os elogios pro Doutor Eliezer, eu tomei um choque na Vale, porque eu saía às cinco, cinco e meia, já tinha feito tudo o que eu tinha feito. No verão, eu ia jogar meu voleibol na praia. 

 

P/1 – O que você fazia? O que era esse Serviço Nacional de Compras?

 

R – Compra. Todas as compras. Eram centralizadas as compras naquela época. Hoje está tudo descentralizado. Tanto pro mercado nacional, como para importação, eram feitas pelo Serviço Geral de Compras. Então comprava tudo quanto era material: ferroviário, de minas, pra porto… A primeira reação foi decepção. Uma decepção muito grande, porque não tem movimento, não tem dinâmica. “Vou ficar aqui pouco tempo, ganhando relativamente bem, e depois vamos ver o que eu vou fazer.” Aí, uns ano depois, entra o Doutor Eliezer. Foi uma mudança assim, da água pro vinho, porque nós éramos só três engenheiros na parte de compras: Doutor Carlos Pereira Neto, Doutor Luis Cláudio Góes e eu. E logo depois, o Doutor Eliezer, com a criatividade dele, decidiu que nós íamos construir o porto de Tubarão para exportar, e que poderíamos exportar até pro Japão. E os comentários dos funcionários que lá estavam eram: “Entrou um louco para presidente da Vale, e disse que a Vale vai exportar minério pro Japão.” Era tido como louco. O trabalho multiplicou por dez ou por vinte. Eu vivia esgotado, porque normalmente a gente chegava lá cedo, almoçava correndo, voltava, trabalhava até tarde, não tínhamos estrutura para um ritmo de trabalho daqueles, um volume de trabalho daqueles... Era uma área árida. Área de Compras não é como a área de Vendas, como a Financeira, mas foi uma área importantíssima para toda aquela fase de crescimento rápido da Vale do Rio Doce, que era colocar os equipamentos e materiais. 

 

P/2 – Uma dúvida.  A sua formação técnica era importante nesse setor?

 

R – Importante, mas não indispensável. Realmente, se eu estava numa empresa que é mineração, ferrovia e porto, e eu estou comprando equipamentos para isso, estaria sempre muito melhor que outro, um advogado ou um...

 

P/1 – ...Médico.

 

R – Médico ou coisa parecida. Até porque, naquela época, como eu já disse, eram muito fracas as escolas de Economia e de Administração. Ninguém ouvia falar. E, então, eu ajudava muito. Ajudava muito, porque você nunca comprava exatamente sozinho. Você tinha que ter uma interface com os órgãos operacionais. E os órgãos operacionais só tinham engenheiros. Então, pra ter diálogo com eles, pra entender o que eles falavam, as opiniões deles, as restrições deles, você tinha que ser da mesma máfia. Agora é uma máfia de engenheiros. Era uma companhia de engenheiros. Até 75, oitenta, era uma companhia de engenheiros. Só. Raro o não engenheiro que se distinguia dentro da Vale.

 

P/2 – Como é que era esse processo de compra, quer dizer, o que você comprava no mercado? As pessoas iam vender aquelas peças?

 

R – A requisição da manutenção, requisição do material, vinha dos órgãos operacionais: da mina, da ferrovia e do porto. Nós tínhamos um cadastro para cada material. Tinha a relação das empresas que nós achávamos capacitadas a fornecer os materiais, nós pegávamos cotações nessas empresas, depois fazíamos a análise. Muitas das análises, principalmente as mais sofisticadas, nós contávamos com a assessoria dos engenheiros da parte operacional.

 

P/1 – Pode nos dizer se tinha algum tipo de lobby, alguma coisa...

 

R – Bom, lobby sempre tinha, porque imagina naquela época, a Vale... Até hoje, claro. Era uma empresa com grande poder de compra. Então havia lobby de políticos, políticos de esfera  federal,  esfera estadual de Minas Gerais. Não eles diretamente, mas pessoas que eram donas de empresas, e que sempre achavam que as cotações deles eram melhores e deveriam fornecer. E o Doutor Carlos Pereira Neto, extremamente... Com veia política grande, conseguia contornar quase todos os casos. Os outros casos, eu ia lá falar com o presidente da Companhia: “Olha, o negócio está... Eu não posso mais aguentar essa pressão, assim, assim assado. Quero que saiba que o deputado tal ou o senador tal está patrocinando esse fulano, assim, assim assado, e para eu comprar dele, alguém tem que assinar, porque eu não compro.” E eu acho que, na média, uns seis anos se conseguiu contornar com relativa facilidade, essa questão do lobby. Graças a Deus. Se eu pudesse falar um pouco mais sobre a... Um rapaz com 23 anos, recém completados, trabalhando na área de Compras de uma companhia como a Vale do Rio Doce, aquilo era estranho pra mim.Todo mundo me bajulando, porque o comprador era um engenheiro. Bajulando... Eu me lembro de um sujeito, vou dar um exemplo assim. Esse sujeito, não me lembro nem o nome, mas ele era de uma fábrica de vagões. Até ele era Fluminense. (risos) Fla-Flu. Se o Fluminense ganhasse, ele não ia lá a semana inteira. Se não ganhasse, segunda feira estava lá. Pra elogiar. (risos) E esse sujeito toda hora convidava para almoçar. Faz parte do negócio almoçar com… Almoço comercial. Mas ele era muito insistente. Um dia, cheguei assim pra ele e falei: “Oh, Fulano, me diga uma coisa. Tudo bem,  isso faz parte do negócio, mas toda hora você me convida pra almoçar. Você não tem outro... Por que você faz isso?” E a resposta inusitada: “Enquanto você está almoçando comigo, não  está almoçando com meu concorrente.” (risos) Essa aí vai morar lá em casa. (risos) Na verdade, eles usavam muito a área da... Principalmente depois que a Companhia começou a crescer rapidamente, a demanda era muito grande, e o pessoal reclamava da demora, porque se faltava material ou peças de reposição ou equipamentos novos, a pressão era uma coisa insuportável. Eu era solteiro, e eu inventei um método de... Não sei. Foi o menos ___ criticado pelos engenheiros da parte operacional. Eu viajava pra Vitória e Itabira. Veja bem, naquela época, eu tinha ____ pelo menos Itabira, a Ferrovia e os portos da pequena Vitória. Era um porto baratinho. Então eu viajava com um caderninho e ia anotando reclamações dos colegas. Depois, na outra vez que eu ia lá, eu já ia com aqueles assuntos todos resolvidos. Então o pessoal gostava de mim e, como eles diziam: “Você trabalha no Rio de Janeiro, mas você vive aqui dentro.” Porque havia, naquela época, uma distinção inacreditável entre os órgãos operacionais e a famosa administração central no Rio de Janeiro, que veio da administração anterior ao Eliezer. O pessoal não queria muito com o trabalho. O pessoal de Vitória e Itabira, da linha, trabalhavam, e, então, eles achavam que o pessoal só ganhava bem, não trabalhava nada... Então alguns do Rio de Janeiro, Carlos Pereira Neto era um que eles  gostavam muito, e eu fui nessa trilha, tentando vencer essa barreira que eles impunham entre o Rio de Janeiro e os órgãos operacionais. Então eu ia lá, discutia com eles, ia à oficina, dava uma voltinha na linha, ia no porto pra ver. Então eu aprendi muito da parte operacional através desse órgão de Compras, onde eu fiquei seis anos. Que mais que eu poderia dizer?

 

P/2 – Você tinha nessa época _______? A que você atribui esse seu espírito de sair daqui do Rio de Janeiro, ir lá pro campo? Esse “vestir a camisa”, que a gente fala?

 

R – Porque eu gostava muito dos colegas operacionais, e porque você, olhando a operação, as minas, chegava na mina, ouvia aquele __ da dinamite. Depois, ver a perfuratriz, ver a escavadeira botando minério no caminhão. Rende muito mais do que a gente passar o dia inteiro em cima de uma pasta, dizendo que o preço é este, o preço é aquele, a entrega é essa, a entrega é aquela… Quer dizer, a operação em si e as pessoas que estavam lá operando, com as quais eu travei amizade, foram as razões principais.

 

P/2 – E os meios de comunicação eram só por telefone? Como é que era o serviço?

 

R – Telefone e telex naquela época. Primeiro era rádio, depois telex. Impressionante não? Ah, deixa contar um fato importante que agora me lembrei. Na requisição do material, o controle era feito por um tipo de máquina, não era o computador. E de repente, apareceu na Companhia Vale do Rio Doce uma coisa chamada “Cérebro Eletrônico”, como eles chamavam o computador. Meu chefe, muito responsável: “Ih, vem esse pessoal com novidade aí. Vem com novidade.” Aí o pessoal do computador, do “cérebro eletrônico”, foi lá, mostrando como seria o novo sistema, todo mecanizado, com controle mecanizado, e tudo isso. Ele disse: “Oh, vocês podem fazer aqui o que vocês quiserem, mas eu só destruo as minhas fichinhas de controle quando vocês me apresentarem umas fichas de computador que batam exatamente  com as fichas de controle.” (risos) E o pessoal, eram meio doidinhos: “Ih, esse pessoal aí de computador...” Isso foi em 62, 63. Também houve a tal reorganização na Vale do Rio Doce, em 62. Contrataram a firma chamada Ecotec, que era o professor Antônio Dias Leite Júnior e Mário Costa Vale. E eles fizeram a reorganização: como é que é? Como é que não é? Fizeram um documento chamado Regulamento de Transição, que era o que estava e o que iria ser, mas redigido numa linguagem pomposa. O Mário Costa Vale redige muito bem. E ali a Companhia foi reestruturada, e o professor Antônio Dias Leite Júnior veio a ser presidente da Vale, e, depois, Ministro de Minas e Energia. Então o “cérebro eletrônico” invadiu a Divisão do Patrimônio. Fato mais interessante, não tem.

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho. Nessa época em que o senhor estava em Compras, o senhor tinha alguma pretensão, tipo: “Vou sair disso aqui. Quero ser outra coisa na empresa, quero ter uma trajetória aqui”?

 

R – Aí tinha um conflito: querer, queria, mas quem tinha me aberto a chance era o meu primo, que era onde eu trabalhava. Aconteceu que o Doutor Raimundo Pereira Mascarenhas, que também se tornou presidente da Vale, tinha sido colocado assim, digamos, num desvio, porque havia mudado a política da Companhia. E ele foi pra aquela usina da Bahia, mas com sede no Rio de Janeiro. Então ele vinha... O Mascarenhas foi uma das pessoas que eu mais gostei na Vale, ele já faleceu. Ele vinha na hora do almoço, coitado, Pereira Neto e o Carlos sempre tinham aqueles convites para almoçar, comerciais. E eu passei a almoçar com o Raimundo Mascarenhas. E ele começou a me dar ideias sobre economia do Brasil que eu não sabia nada, sobre a Vale, mercado de minérios, coisas que eu desconhecia completamente. Aí, há uma mudança da Companhia Vale do Rio Doce, e o Mascarenhas vai ser Superintendente Geral de Vendas. E eu tinha desenvolvido com ele uma amizade muito boa. Aí, conversando, ele falou assim: “Você não quer vir trabalhar comigo, não?” “Mas como trabalhar com você? Eu não sei nada. Sei muito mal comprar.” “Não. Houve uma mudança política e eu preciso um homem de minha confiança na posição tal.” “Ah, mas tem o problema do Carlos.” “Não, o Carlos, eu falo com ele.” Eram compadres, se não me engano. Aí eu vi  aquela oportunidade. Eu queria  deixar de trabalhar com a pessoa que era meu parente, que sempre tinha essa conotação, essa coisa. Eu fui trabalhar na área de Vendas. Eu falava até mal o inglês naquela época. E ali foi a primeira grande virada minha dentro da Vale do Rio Doce. Foi passar de Compras para Vendas, que era uma área muito mais valorizada do que a área de Compras. Eu fiquei lá dois anos, só. Aí tinha um amigo que saiu da Vale, chamado Marcos Pereira Viana. Depois tornou-se presidente do BNDES por sete ou oito anos. E criaram, essa coisa é meio artificial, uma tal Divisão Industrial para tomar conta da pelotização. A pelotização era lá em Vitória e a Divisão Industrial, aqui no Rio de Janeiro. Para o Marcos Viana ocupar a posição. E o Mascarenhas chegou pra mim e falou: “Olha, você está indo muito bem aqui na parte de Vendas, mas eu queria que você ficasse um ano com o Marcos, porque o Marcos tem umas ideias sobre iniciativa privada, etc. Você precisa ajudar ele.” Tudo bem, fui trabalhar com Marcos Viana. Por sinal, foi uma passagem efêmera na parte administrativa, nunca na parte técnica, que era em Vitória, com o Elder.

 

P/1 – O Zenóbio?

 

R – Elder Zenóbio Filho. É Zenóbio, não é? Muito bem. Ele era o supervisor do departamento de pelotização. O Marcos Viana, superintendente geral industrial; o Elder reportava ao Marcos, e eu era assessor coordenador do Marcos. Nisso, ocorre o seguinte, isso também estou puxando pela memória: houve um problema com o Ministro do Interior do Brasil, esqueci o nome dele. Se desentendeu com o Andreazza e o presidente Costa e Silva foi obrigado a demiti-lo. Deslocou o Ministro de Minas e Energia, que era o Costa Cavalcante, de Minas e Energia para o Interior. Nessa época já era presidente da Vale o Antônio Dias Leite, que tinha apoio, ou posto, o Mascarenhas e o Marcos Viana. E convida o professor Antônio Dias Leite pra ser Ministro de Energia. O Dias Leite, por sua vez, convida o Marcos Viana para ser presidente da Vale. Aí o pessoal dizia: “Você é bom. Saiu da área de Vendas pra...” Vocês não sabem nada. Nossa amizade vai muito além de divisão. E ele ficou tão tenso quando foi convidado para presidente da Vale, e ele aceitou, é claro, que ele me chamou no gabinete deles – e eu tinha trabalhado antes na área – e me contou: “Mas você não pode contar pra ninguém.” Mas era uma pessoa excepcional o Mascarenhas. Agora ele falava assim... É mais mineiro... Ele é baiano, mas é mais mineiro que os mineiros. (risos) Ele falava assim: “A Verinha…” – minha mulher – “...está grávida não é?” Digo: “Tá. Segundo filho.”  “Quando é que ela vai ter criança?”   Digo: “Mais ou menos no mês tal, sei lá.” Aí eu cheguei em casa: “Olha, eu não posso contar nada pra ninguém, aliás, não me contaram nada, eu desconfio que o Mascarenhas me convidou pra ir pros Estados Unidos, porque pra que ele quer saber que mês que você vai ter criança? Ele quer saber quando eu posso ir.” Bom, aí o Doutor Roney _________ tinha aberto o escritório na _____, por sinal um escritório, uma lindeza. E começou... Ele, muito inteligente, muito dinâmico, começou a desenvolver a atividade e precisava de uma segunda pessoa lá. Eu falei: “Se for por curriculum vitae, só pode ser eu.”  “Mas por quê?” “Ué, quais são as atividades que tem lá? Compra e Venda.” (risos) “Me diga, qual é a pessoa aqui de Compra e Venda?” Agora, se for por parentesco ou qualquer outra coisa, pode ir qualquer um, mas se for por…

 

P/1 – Compra e Venda...

 

R – “Você agora vem com essa história.”  Digo: “É, tá aí.”

 

P/2 – Sou eu.

 

R – Lá bati eu pra Nova York.

 

P/2 – Em que ano?

 

R – Eu cheguei lá no dia seis de setembro de 69. Foi realmente a parte mais importante da minha vida na Companhia Vale do Rio Doce. Morar no exterior não é fácil. Levei um filho de dois anos e pouco e uma menina de 45 dias. Minha mulher não falava inglês e tinha pavor de morrer. Morrer. Não fala inglês. Mas fomos muito ajudados pelo Roney _____ e pela esposa dele. Então, aí eu fui pros Estados Unidos. E, me antecipando, essa primeira fase minha, de cinco anos – a segunda, de dois anos–, foi uma fase ótima, depois da adaptação, naturalmente, que todo mundo passa. Eu gostei muito, me identifiquei muito com Nova York. Engraçado, eu sempre fui uma pessoa muito tímida. Urca, esporte. Nunca pensei que eu pudesse morar em Nova York. E eu fui para aquela cidade maravilhosa. Para mim, a cidade mais maravilhosa do mundo, porque ela não é bem uma cidade, ela é um pouco do mundo. Embora tenha aí Paris, que é a cidade mais linda que possa existir, mas Nova York é a cidade mais internacional do mundo. E ali você não sabe bem o que é Estados Unidos, se é Israel, se é Itália. (risos) Eles fazem aquelas contas: até a terceira geração, tem mais judeu em Nova York do que em Tel Aviv. Até a terceira geração, tem mais italiano em Nova York do que em Roma. É uma cidade excepcional, onde eu aprendi muitíssimo com o Doutor Roney ______, que é uma pessoa que...

 

P/1 – Ele morava lá? 

 

R – É. Ele tinha ido um ano antes Era uma pessoa internacional antes mesmo de morar no exterior, enquanto eu não. Eu era um caboclo. Fui lá pra… Ali que eu fui abrindo minha cabeça. E nós fizemos um trabalho excepcional, por incrível que pareça, um trabalho da Rio Doce. Chamava, antigamente, Itabirian International Company, Itaco.  Depois veio a chamar-se Rio Doce América. E o trabalho mais forte lá é na parte de compras. Porque a Vale estava se expandindo rapidamente, e as nossas estruturas não conseguiam dar a mesma celeridade do que a demandada pelos órgãos operacionais, quer seja de equipamentos novos, quer de materiais de reposição. Então nós tivemos que abrir uma estrutura forte de compras nos Estados Unidos, e nós mudamos todo o perfil da compra para uma coisa muito mais ágil. 

 

P/1 – E qual era o critério dessas compras? Tecnologia? Equipamento?

 

R – As compras, tinham vários aspectos. Geralmente, vinha aqui do Brasil para lá e a gente já sabia que escavadeira, ou era (Besilence?) ou era (Rangisféria?). Caminhão, ou era esse ou era aquele. Entendeu? As peças de reposição, já sabia. Mas o relacionamento com os fornecedores... Eles tinham uma idéia assim: “Que adianta pedir cotação pra Vale do Rio Doce se ela leva um ano pra comprar?” Nós fomos fazendo visita, mostrando. O Roney ________ conseguiu uma coisa que era impossível naquela época, chamava bank leasing, licença em banco, em que você só fazia a descrição das peças. Era para peças, na hora de embarcar. Então aquilo reduziu o tempo de ________, tremendamente. E toda aquela facilidade de estar nos Estados Unidos, nós... Por exemplo, uma vez que estourou um motor, não sei se foi do cardam, um pane. Nós botamos o motor dentro do avião e trouxemos aqui. Pode parecer um absurdo você alugar um avião, mas o prejuízo que seria... Cada dia que nós ganhávamos era uma coisa inacreditável.

 

(Interrupção)

 

R – Duas vezes. Em 69 a 74, e de 76 a 78. 

 

P/1 – Aí você voltou pra cá, pro Bozano Simonsen. 

 

R – Eu tirei uma licença e fui trabalhar lá no Bozano Simonsen. Estive fora, no Bozano Simonsen. Depois, numa dessas coincidências, tinha mudado...

 

P/1 – Por que foi...

 

R – Eu estava querendo ter uma experiência em empresa privada, para melhorar a minha experiência profissional, de conhecer alguma coisa que fosse além da empresa estatal. Mas eu não gostei dessa primeira experiência. Saí duas vezes. A primeira experiência não foi bem sucedida. Até eu estava meio chateado...

 

P/1 – Como é que foi? Você falou: “Eu quero sair da Vale, vou pra _____”? Como é que foi? 

 

R – Uma pessoa, um amigo em comum, soube que eu andava falando que estava querendo voltar pro Brasil, cinco anos já tinham sido uma boa experiência, queria ter uma experiência no setor privado. Por coincidência, alguém me levou lá pro Bozano Simonsen, mas para uma empresa do grupo que não estava ligada ao banco. Não gostei muito, não, e, por coincidência, a Vale do Rio Doce me telefona um dia. Me telefona pra lá o Diretor Comercial da Vale, uma equipe nova que tinha chegado da Vale. “Você vem almoçar comigo.” “Tá bom.” Fui lá. Chegou lá, ele falou: “Você quer voltar pra ser o diretor gerente lá da Rio Doce América?” “Fui surpreendido com isso. Se fosse só por mim, eu diria sim, mas eu tenho que falar com minha mulher e meus dois filhos.” Mas não houve dúvida nenhuma. Quiseram voltar. A Vale teve algumas mudanças. 

 

P/1 – Mas para ir pro Bozano Simonsen você pediu demissão? Como foi?

 

R – A Vale do Rio Doce tinha tudo de bom. Tinha. Hoje, não sei. A famosa licença sem vencimentos. Então, continuei dentro da Vale. A pessoa passa a pagar a contribuição dela e a da valia e continua na empresa. Mas foi uma passagem episódica, sem grandes interesses, sem grandes novidades. Aí, eu voltei pros Estados Unidos. Nos Estados Unidos, houve um fato… Vendíamos minério de ferro razoavelmente. Porque os Estados Unidos e o Canadá têm minério de ferro. Então a competição é muito acirrada, e nós só conseguimos vender minério de ferro ali na região Leste, na costa Leste dos Estados Unidos, porque nas usinas que estavam localizadas pra dentro, nós perdíamos em preço para o minério do Canadá, e dos próprios Estados Unidos. Então era grande a dificuldade de vender minério de ferro. Não era fácil. Muito difícil. Até hoje eu acho que deve ser muito difícil. Mas, eu tenho uma passagem sobre Carajás, nos Estados Unidos, que acho que seria interessante mencionar. Tá na hora?

 

P/1 – A gente tem a água.

 

R – Posso mencionar?

 

P/1 – Claro. 

 

R – Eu era então Diretor Gerente, e tinha feito a mudança. Era Itaco, Itabirian International Company, e eu mudei para a Rio Doce América, por razões fiscais.  Eu cheguei à conclusão que nós estávamos pagando impostos demais nos Estados Unidos, pegamos um advogado fiscal e houve uma mudança. Em vez de pagar imposto de renda sobre o lucro, nós passamos a pagar imposto de renda sobre a despesa. Isso caía o imposto de renda muito, porque era da Vale. Mas o lance interessante que eu acho: como vocês sabem, a Vale do Rio Doce tinha 51 por cento de Carajás, Amazônia Mineração, e 49 por cento era do United State Steel, que tinha sido a primeira siderúrgica do mundo – naquela época, acho que era a segunda –, e o presidente, que já faleceu, Doutor Roquete Reis, conseguiu negociar a compra dos 51 por cento. Não, dos 49 por cento do United State Steel para a Vale, porque os americanos não queriam botar dinheiro no projeto, porque o projeto requeria três ou quatro milhões de dólares, sei lá quanto era. E eles ficavam só, como a gente costuma falar, sentados em cima do projeto. Fica aí... Uma mexidinha aqui, outra coisinha ali. A gente via que não queriam ir pra frente com o projeto. Doutor Roquete Reis, uma figura marcante na história da Vale do Rio Doce, conseguiu que os americanos caíssem fora, pagando cinquenta milhões de dólares. E essa transação foi  concretizada lá nos escritórios da Rio Doce América. Estávamos três pessoas, apenas: o vice-presidente da United Steel; o Doutor  Euclides (Triclache?), conselheiro da Vale do Rio Doce; e eu. Uma mesa desse tamanhozinho, assim. Eu vi o Doutor (Triclache?) passar, pago em cheque, um cheque de cinquenta milhões de dólares.

 

P/1 – Beleza.

 

R – Aí, quando eu fui na agência, falei: “Por obséquio.” “Que foi?”  “Deixa segurar esse cheque pra ver se algum dia, algum dinheiro parecido cai na minha mão.” (risos) Fifty million dollars. Cinquenta milhões de dólares. Agora, vocês vejam as coisas, como é que são. Os países são diferentes, os interesses são diferentes. Passaram-se algumas semanas, não sei quanto tempo, eu estava em Pittsburgh, hoje é a sede da United State Steel, já numa missão de vender minério, de programar navio, etc., quando uma pessoa lá falou assim: “Olha, hoje está havendo uma reunião dos acionistas da United State Steel e vai ser comunicado para eles a venda, para a Vale do Rio Doce, dos 49 por cento de Carajás. Você quer ir à reunião?” “Quero.” Nunca tinha ido à uma reunião de acionistas de uma empresa gigantesca americana. Umas cem pessoas. Aí, o presidente da empresa, comentando os resultados do exercício, falou, assim, com grande orgulho, da grande operação que nós tínhamos feito, recebendo cinquenta milhões de dólares pelas ações de Carajás. Agora, se você pegar esse fato, pra hoje... Porque ele achou que era uma maravilha esse projeto espetacular que a Vale fez. Espetacular, muito mais para o Brasil do que pra Vale, mas a visão do ____ invest americano, é que ele tinha conseguido cinquenta milhões de dólares. Satisfeitíssimos. Acionistas comentando: “Ainda bem que venderam.” 

 

P/1 – E eles não tinham informação desse potencial  todo ou eles tinham...

 

R – O potencial, eles tinham. O projeto, inclusive, no começo, era pra duzentas milhões de toneladas, mas o investimento era muito grande, e num projeto como esse...

 

P/1 – ...Não compensava?

 

R – É. Se você calcular na ponta do lápis, você vai ver que a taxa de retorno não é muito alta. Mas a taxa de retorno começa a melhorar com uma série de exterioridades. E, hoje, o projeto é o que é, e a Vale é o que é, extremamente lucrativa, muito por causa do próprio Carajás. Aquele instante da passagem pra Vale, daquele cheque, e a gente vendo hoje o que é esse projeto de Carajás, vocês veem que decisão bem dada  a Vale teve, e como os americanos bobearam. Teria sido difícil conviver com os americanos no projeto de Carajás, embora fosse uma ótima empresa e tudo. Mas aí o projeto cresceu muito e hoje está em quarenta e tantos milhões de toneladas, investimentos. Realmente teria sido difícil. A Rio Doce América foi sempre voltada para as compras e para as vendas, por causa das dificuldades do mercado americano.  Me lembro, não sei quanto é que estão vendendo hoje, mas eu me lembro que o pico de vendas nossas lá foram seis milhões de toneladas, uma relação excepcional. Quando houve um boom econômico nos Estados Unidos, eles começaram a comprar o minério adicional que eles precisavam, importado. Aí nós entramos e conseguimos vender mais minério. Mas hoje está...

 

P/1 – Como é que o Brasil era visto lá, nessa época?

 

R – Boa pergunta. Houve uma época, vamos pegar uma época. Aí a Vale já tinha crescido em relação a pesquisa, como eu disse antes pra você, em que os organismos internacionais, tipo Banco Mundial, Bird, as grandes empresas...Eu ouvi muitas vezes uma coisa que me chateava e que era a seguinte: o Brasil estava com problemas grandes de dívida externa. Então eles diziam assim: “Se for pra emprestar pra Vale do Rio Doce, nós emprestamos, mas pro Brasil, não.” E aquilo, ao invés de me alegrar, porque eu era da Vale do Rio Doce, me entristecia, porque, antes de ser da Vale do Rio Doce, eu sou...

 

P/1 – Brasileiro.

 

R – Brasileiro. Mas era assim o cartaz da Vale. Boa pagadora, empresa bem administrada, esse negócio todo. Era em 77, 78. Tanto é que anos depois, a Vale conseguiu financiar esse gigantesco projeto Carajás com os melhores organismos financeiros do mundo.

 

P/1 – Então havia essa distinção.

 

R – Vale, sim. Brasil, talvez. 

 

P/1 – Aí você ficou quanto tempo?

 

R – A segunda vez, fiquei só dois anos. Voltei, e aí mudou a política. E aí eu fui pra Mineração Rio do Norte.

 

P/1 – Como você recebeu esse convite? Quem te convidou?

 

R – Antes de ir pra lá, eu voltei pra Divisão de Vendas, área de Vendas, para tomar conta do far East, Oriente longínquo, Japão, Coreia, etc., porque naquela época, a Vale não tinha empresa lá. Então era eu e o Armando Santos, que também já era meu assistente de novo aqui no Rio de Janeiro. Nós pegávamos o avião aqui... Imagina, não tinha escritório nenhum em Tóquio, como tem agora. Agora tem em Tóquio e tem na China também. Nós viajamos por esse mundo afora. Naquela época, os aviões só tinham duas classes: primeira classe ou classe econômica. Não tinha classe executiva. Então era tudo ou nada. Quando eu era diretor da Rio Doce América, ia na primeira classe, um nababo. Aí, eu estava nessa área aí – classe econômica. Então era um negócio danado, porque você faz viagens, me lembro da viagem de Seul para Jacarta, levava oito horas, quase como daqui a Nova York. E com várias paradas e iam entrando aquelas pessoas que a gente via pela cor: amarelo, cinza. Coisas  impressionantes. Era muito desgastante. Até que a Vale chegou e abriu o escritório lá em Tóquio. 

 

P/2 – Mas que diferença fazia? Não fazer viagens? Isso?

 

R – Eu viajava muito, mas eu estava ficando esgotado. Porque eu tinha tido uma filha muito depois e eu tinha chegado à conclusão que, pelo menos de um filho, eu tinha que acompanhar o crescimento. Os outros dois, trabalho, trabalho, trabalho. Aí fui ficando chateado. Vai pra cá, vai para Taiwan, vai pra Coreia, vai pra Indonésia, vai pro Paquistão. Não tem graça nenhuma. Você que já morou sete anos em Nova York... Pra  quem está começando, vinte e poucos anos, trinta e poucos anos...

 

P/2 – Fazia essas viagens para venda?

 

R – Venda. Vender minério. 

 

P/1 – Tem alguma passagem interessante em algum país? Paquistão, sei lá...

 

R – Paquistão? Que você quer saber do Paquistão?

 

P/1 – Paquistão, modo de dizer.

 

R – Já posso meter um caso no meio?

 

P/1 – Claro.

 

R – Talvez tenha dois. Um, contei lá fora, vou repetir. Que nós fomos à casa do embaixador da Coréia, e a primeira coisa que eu perguntei pra ele foi se ele era casado, porque não estava vendo a mulher dele lá. “Sou casado sim, há não sei quantos anos. Só que minha mulher passa seis meses aqui, seis meses em Paris.” Aí ele falou, descrevendo, que ele morava no Leme, gostava muito do Leme. Aí eu, brincando, falei assim: “Do Leme, também eu gosto muito. O segundo melhor bairro do Rio de Janeiro.” Aí ele falou: “É, Waldir, todo mundo que mora na Urca é vaidoso.” Isso aí na Coréia. Ah, na Coréia também, quando eu cheguei, eu estranhei, porque a avenida que ia do aeroporto pra cidade, era assim, umas oito pistas: quatro de cada lado, só que não tinha divisão no meio, não. “Mas como é que vocês fazem uma avenida tão bacana, tão larga...” Aí o sujeito me explicou, o motorista no caso. “Isso aqui é pra poder descer avião aqui. É que a Coréia do Sul e a Coréia do Norte estavam em permanente estado de guerra, não sabendo se vai haver uma invasão, se não vai.” Enquanto eu estava lá, por exemplo, um cara me contou: “O grande assunto aqui na cidade é que descobriram esta semana um túnel cavado desde a Coréia do Sul, porque Seul é bem no paralelo 38, por onde a Coréia do Sul... Porque a Coréia do Sul é bem no paralelo 38. Tinha um túnel cavado, por onde a Coréia do Norte ia infiltrar um batalhão de soldados com uniforme da Coréia do Sul para tumultuar aqui dentro.” Aí, depois, me levou para visitar o célebre paralelo 38, que a gente lia no tempo da guerra, a guerra da Coréia. É uma cidadezinha americana entre a Coréia do Sul e a Coréia do Norte. Tem tudo: campo de golfe, igreja. Uma cidadezinha pequena, e lá estão os soldados americanos para, pelo menos simbolicamente, eles não invadirem. Deve ter lá uns dez mil soldados. Outro dia, jantando com um sujeito, ele falou assim... Num  edifício bacana que tinha lá, o restaurante  era em cima. Ele falou assim: “Waldir, o caso é o seguinte: sabia que com um canhão – sei lá o tipo do canhão – da Coréia do Norte, eles podem explodir esse restaurante aqui?” Eles viviam pensando e só falavam nisso. Em permanente estado de ansiedade com a possibilidade de uma guerra entre os dois países. Você falou Paquistão? Quem falou Paquistão? Paquistão. Paquistão. No Paquistão, nós tínhamos um... Esses que intermediam viagens. Um agente, que estava nos acompanhando lá. Depois do almoço, ele foi dar uma volta na cidade com a gente. Aí passamos numa casa, no alto, parecia um meio castelo. “Sabe quem é que está ali?” “Não.” “O Ali Bhutto. Depois de amanhã ele vai ser decapitado.” (risos) Ele foi decapitado, o Ali Bhutto. Ah, também do Paquistão, tem um negócio interessante. Você pode ir pra Karachi por duas rotas. Ou você vai via Japão, ou você vai via Amsterdam. É mais ou menos a mesma distância. Como eu estava lá em Seul, então eu desci, enquanto o Armando Santos e um rapaz _____ vieram via Amsterdam. Não sei quantas horas de vôo. Dez horas, sei lá. O fato é que, por uma coincidência incrível, mais ou menos às três horas da manhã, nós nos encontramos no aeroporto. Então você ia pro Paquistão, você tem uma série de vacinas que você tem que tomar: febre amarela... Então, o rapaz foi na frente. Seguraram o rapaz. “Você não pode entrar.” Eu, metido como era, morava nos Estados Unidos, comecei a conversar com o sujeito. “Que é isso? Esse aí é um membro da delegação do governo brasileiro, vem aqui fazer um grande negócio com o Paquistão...” O rapaz falou assim: “Guarde seu discurso. Nem o presidente do Paquistão tem autoridade pra fazer esse sujeito entrar aqui.” Ele tinha tomado a vacina, mas não tinha tomado tantos dias antes. Tinha que amadurecer a vacina. Resultado: puseram o bichinho numa quarentena, junto com aquele pessoal de tudo quanto é país, e ele ficou lá. Japão. Vamos falar do Japão em geral, embora, depois, eu tenha negócio da Alumínio, quando eu fui. O Japão é um país interessantíssimo sob vários aspectos. Um dos aspectos é que os training camping japoneses, você bota os pés no Japão, e eles tomam conta de você. Onde é que você almoça, onde é que você janta. Uma parte é gentileza deles mesmo, mas uma parte é interesse comercial. Lá na Vale do Rio Doce, nós viajávamos com diária fixa. Coisa de empresa estatal, porque empresa privada não. Você vai pra um lugar, você pega a conta do hotel e depois o sujeito te reembolsa. Mas na Vale do Rio Doce era conta fixa, e o Japão era um lugar onde ninguém queria ir, porque o Japão é muito caro. E então, você está roubado. Muito bem. Eu estava até com o Romeu Nascimento Teixeira, ele deve ter vindo aqui e talvez já chegou a contar este caso. O Romeu foi ao Japão umas vinte ou trinta vezes, sei lá. Eu fui umas cinco ou seis. Uma noite... Claro que a gente tinha que sair com o japonês, da Mitsue. O japonês tinha marcado naqueles barzinhos naquele bairro chamado Ginza. Chegamos lá, o Romeu já conhecia a gerente do bar, chamava Nonasan. Beijou o Romeu, pa, pa pa. Aí, tomamos o primeiro Scotch. O Scotch, naquela época, devia ser uns quinze dólares. E o Romeu: “Cadê o Fulano? O japonês.” “Ah, deve estar um pouco atrasado.”  Pediu o segundo Scotch. Eu disse: “Romeu, com esse segundo Scotch já está em perigo a minha diária.” (risos) Ele: “Relaxa, rapaz. Não tem nada que ver com isso.” Tomamos três ou quatros Scotchs.

 

P/2 – Cada um?

 

R – Cada um. Aí o Romeu disse: “Acho que houve um engano.” Eu: “Agora que eu quero ver.” (risos) “Você quer ver, você tem que aprender.” Falou pra mim. Aí chamou a Nonasan, falou lá em um inglês muito do mixuruca e falou: “Ah, o Fulano não apareceu.” Ela: “Não tem problema.” Fomos embora, não assinamos nada. Nada. Quer dizer, o relacionamento que existe do japonês com esse negócio de parte comercial... Devia ser o barzinho onde aquele sujeito sempre levava os clientes dele. E nós saímos de lá com uma conta de miseravelmente cento e poucos dólares, sem assinar nada.  Muito interessante o Japão. Muito interessante. 

 

P/2 – Começando pelas diferenças culturais que havia entre o Brasil, Estados Unidos, Oriente… No crescimento econômico da Coreia, Paquistão... O senhor acompanhou todo esse...

 

R – Eu fiquei pouco tempo, um ano e meio, porque depois eu saí pra a Alumínio, embora com a Alumínio eu tivesse algum contato. Talvez eu devesse pegar um gancho nessa sua observação e me atrever a responder a uma questão muito difícil. Por que todo esse sucesso da Vale do Rio Doce? Claro que eu vou responder, porque eu já pensei nisso. Eu tenho a minha versão. Eu acho que a Vale do Rio Doce teve todo esse sucesso, primeiro, porque ela era uma companhia internacional. Agora é uma companhia multinacional,  e esse embate com essas diferentes culturas que você falou, exigiam de nós uma sensibilidade, uma acuidade, uma capacidade de saber que o coreano não é igual ao japonês. Você pode achar que porque o sujeito está com cara amarela o negócio dele é igual, não é. Paquistão, tudo bem. É outro povo. Agora, depois foram pra Malásia, Filipinas, essa exigência, essa demanda que o executivo da Vale do Rio Doce sempre teve de estar em contato com culturas diferentes... E olha que vinte, trinta, quarenta anos atrás o Brasil e a Vale do Rio Doce eram muito pouco internacionais. As pessoas que andavam lá, você notava logo, porque fala inglês, francês. Viajou. Hoje, todo mundo viaja. Antigamente não era assim, não.  Quando eu fui pra fora, aquilo parecia um galardão. “O sujeito vai morar em Nova York.”  Essa é a primeira grande razão do sucesso da Vale: o fato dela exportar e estar em contato  com diferentes culturas, com muitas culturas. A segunda razão, muita gente vai concordar, é o Doutor Eliezer Batista. Ele conseguiu... Como ele tinha uma cabeça internacional, ele conseguiu fazer com que as pessoas que trabalhavam pra ele se tornassem internacionais num grau maior ou num grau menor. E com isso, toda companhia desenvolveu. Então isso, pra mim... Claro que muitas pessoas falavam: “Ah, a Vale do Rio Doce não sofreu muita ingerência política do…”  Tudo bem. E aí tem o “mas”: o fato dela ser internacional, pensar, pensar grande, pensar sofisticado deu o sucesso nosso. Bom, lá, a sua pergunta, já desenvolveu tremendamente esses países todos que nós falamos. Nós estávamos com o Japão que passou a ser individualmente o maior país comprador da Vale do Rio Doce, passando mesmo a Alemanha e o bloco asiático, que segue toda a política de preços do Japão, política de compra do Japão.  _____ muito importante aqui, tem agora já uma usina de pellets, que é uma associação entre a Vale e uma empresa coreana. Já havia duas em associação com o Japão. Então o Japão foi... Tudo começou, essa explosão... Porque nós não exportávamos pro Japão. A construção do porto de Tubarão, teve várias vantagens: poder chegar ao mercado asiático, poder chegar ao mercado europeu, com frete muito mais barato. Mas eu acho que ela foi, sobretudo, uma obra que mudou a dimensão da Vale. Foi a primeira grande obra que a Vale do Rio Doce fez. Hoje ela chega a qualquer mercado com navios maiores que existem no mundo.

 

P/1 – Você, nesse momento, tinha... Continuava com alguma pretensão dentro da própria Vale? “Quero chegar, fazer uma outra coisa, quero fazer aquilo…”? 

 

R – Bom, eu fui tudo na Vale, menos diretor. Não consegui ser diretor, mas Diretor Gerente de uma subsidiária nos Estados Unidos, que eu fui. Eu fui Diretor Comercial da Rio do Norte. Fui Superintendente Geral de Não Ferrosos. E, na verdade, eu nunca tive assim, uma... Não tinha tino político bom. Eu acho que, pra ser diretor, a gente precisa ter um tino político pra venda ou coisa comercial. Muitos colegas meus também não foram diretores, com muita capacidade, como é o meu caso. Depois, por incrível que pareça, eu fui pra Mineração Rio do Norte. Por que eu fui pra lá? Porque eu estava cansado de viajar para o Japão, Coreia, Paquistão. Cada viagem dessas, chegava morto... Então eu conversei com meu chefe, o Doutor José Clóvis Ditzel, ele já deve ter dado depoimento aqui. Nós conversamos, e eles precisavam de um Diretor Comercial na Mineração Rio do Norte. Eu poderia falar um pouco sobre a Rio do Norte?

 

P/1 – Claro.

 

R – A Mineração Rio do Norte, a meu ver, era a empresa mais sofisticada de todo grupo Vale do Rio Doce. No meu tempo, eram acionistas da Rio do Norte: Alcoa, Aluminium Company of Canada; a North (Kilvery?), da Noruega. Está lá ainda. A (Avó?) da Noruega, que saiu. A (Aluota?) da Espanha. Tem uma dos Estados Unidos que eu não guardei o nome, e tem o grupo Ermírio de Moraes. Então, veja bem, era uma verdadeira Nações Unidas, uma companhia só. Votorantim. Na verdade, era Companhia Brasileira CBA. Do grupo Votorantim. Então eles trouxeram pra cá, e todas essas empresas de fora eram empresas multinacionais, porque o mercado de alumínio era controlado pelo que se chamava Six Sisters. Eram extremamente organizadas, muito agressivas, e eu, apesar de já ter estado duas vezes nos Estados Unidos, aprendi muitíssimo sendo diretor dessa Mineração Rio do Norte. Viajei muito. Ia muito ao Canadá. Depois, tive a oportunidade de negociar um contrato com a Alcoa e a Alcoa, depois, veio a ser também sócia da Rio do Norte. Uma experiência muito interessante, durante três anos. Depois, como eu não parava, gostava sempre de mudar as coisas. Depois de um certo tempo, tudo caía em rotina. Aí eu recebi um convite pra ir pra Sul América de Seguros, porque o Doutor Roney _____, que tinha sido meu chefe nos Estados Unidos durante quatro anos, acho que, naquela época, era vice-presidente executivo da Sul América. Foi pra lá e eu peguei outra licença. Aí fiquei cinco anos na Sul América. Depois voltei e aí é que começou a fase mais difícil da minha carreira na Vale. Quando eu voltei, eu voltei no dia primeiro de julho de 87. Voltei porque eu me dava muito com o Doutor Mascarenhas, como eu falei antes. Presidente da Vale. Ele era muito calmo, fazia as coisas todas com muita calma, e falou assim: “Você vai voltar, mas vai ficar na minha assessoria pessoal, para que você possa se atualizar com os problemas da Vale do Rio Doce. Você ficou cinco anos na Sul América. Depois, então, eu vou te dar um cargo executivo. Experiência, você já tem aqui na Vale, as posições que você ocupou.”  No dia seis de setembro, ele faleceu em desastre de carro. Aí eu fiquei perdido na assessoria do presidente. O presidente, eu não conhecia. Aí me arrumaram pra ser coordenador da Californian Steel.

 

P/1 –  Aí o presidente era...

 

 R – Agripino Abranches Viana. Eu fiquei perdido. Me deram a posição de coordenador da Californian Steel. Era interessante, mas não me ocupava cem por cento do tempo. Aí foi, foi, foi, eu me aposentei. 

 

P/1 – O que foi a Californian Steel? O que você fez como coordenador?

 

R – É a Associação entre a (Calafac?) e a Vale. Então tinha reuniões de comitê comercial, comitê financeiro, comitê técnico e tinha reunião dos acionistas. Então eu assessorava o pessoal da Vale lá em cima pra quando fossem lá. Preparava essas reuniões, acho que semestrais ou trimestrais, não sei bem quanto era o tempo. Eu me vi, então, sem muita perspectiva na Vale e me aposentei.

 

P/1 – Em que ano foi isso?

 

R – Saí em janeiro de 91. 

 

P/1 – 91 foi a privatização. 

 

 R – A privatização, cuja qual eu era contra. Mas hoje está...

 

P/1 – Mas nesse período, antes disso, tinha alguma discussão que você participou, acompanhou, de desestatização? Como é que era essa discussão internamente, até pelo fato de ela sempre ser vista já como uma empresa diferenciada de outras estatais?

 

R – Isso é o que a gente pensava, era o que pensavam alguns políticos. Mas em 91, o Wilson Brumer, já como presidente, já antevia essa privatização, tanto é que no meu ano, nós saímos, foram uns quatro mil. Ele deu indenização pra demissão pra desligamento ou demissão voluntária. Já começou a preparar a Companhia pra uma privatização. Mas nós, naquela época, achávamos que a Vale não ia ser privatizada, porque era muito boa. Mas na verdade, era uma tendência universal, uma tendência brasileira de privatização. E ela está aí, indo bem, pelo que eu sei. Lucro altíssimo. Indo bem. As coisas todas têm que ser... Tanto na vida, quanto na vida das empresas, elas têm que ser colocadas no tempo. Foi ótimo ter privatizado. Mas por quê? Porque a Vale já tinha tingido uma liderança no mercado mundial de minério de ferro.

 

P/1 – Estava apta?

 

R – Estava apta. Tá certo. Então, tudo o que veio com a privatização, melhorou. É claro que hoje eu acho que eles tiveram muita sorte, os novos acionistas, porque eles compraram uma empresa antes da desvalorização do dólar. Desvalorizou o dólar, o lucro foi lá pra cima. Claro que por mais eficiente que uma empresa possa ser, a empresa tem sempre excesso de funcionários. Você vê que de vez em quando, dá no jornal que a General Motors cortou não sei quantos mil funcionários. A G.E. cortou não sei quanto mil funcionários, a IBM cortou... E ela não está sendo vendida. Quando uma empresa privada compra outra empresa privada, pior ainda. Ela bota pra fora... Então, há redução de custo com o pessoal, muito grande... E agora, já direcionando os investimentos, estão vendendo a área de Madeira e Celulose. A Vale, ninguém mais segura. Forte, lucrativa. De modo que é isso. Vocês querem...

 

P/1 – Dentro da sua trajetória na Vale, qual foi o fato ou a passagem que mais te marcou?

 

R – Profissionalmente? Quando me mandaram pra Rio do Norte, que eu já tinha lá meus 45 anos de idade. A Vale é excepcional, mas tem umas coisas também... Ninguém me disse exatamente o que queriam de mim. E havia o que eles consideravam a maior conquista profissional. Eles tinham acabado de negociar os contratos de fornecimento de bauxita, porque eles eram sócios e eram obrigados a levar uma quantidade proporcional de bauxita. ______________. Tá certo? E todo mundo falava, lá na Vale do Rio Doce, que tinham negociado esses contratos com preço muito baixo. Eu fui pra lá. Eu não conhecia nada de bauxita, de alumínio, de coisa nenhuma. Mas estava ali implícito que alguém ia esperar que eu ia aumentar aqueles preços. E a gente não tinha muita força. E eu: “O que eu posso fazer aqui pra aumentar esse preço, se os compradores são também os acionistas da Companhia?” Aí, pa, pa, eu soube que os contratos de bauxita ainda não tinham sido aprovados pelo Departamento Nacional de Produção Mineral, o que era obrigatório naquela época. Hoje não é mais. Aí, desculpe a palavra, mas eu me mancomunei com o Departamento Nacional de Produção Mineral, cuja sede é em Brasília, mas a sub-sede é no Rio de Janeiro, era no caminho pra Urca. E todo dia tinha que passar por ali. Então praticamente morava ali. Biscoitinho, chocolate pra secretária. Eu fui, fui, e consegui como aliado, vamos chamar de DNPM, o Departamento Nacional de Produção Mineral, o DNPM.  “Ainda bem que você veio pra cá. Isso é uma vergonha pro Brasil, esses contratos. Nós não vamos aprovar.” Digo: “Isso mesmo, não aprova mesmo.” Foi pouco mais de um ano de renegociação com os compradores, que eram os acionistas. Esse é que era o problema. Quando eu disse o que eu queria, todo mundo: “Você está louco. Está completamente fora. Você não tem noção, você veio lá do minério de ferro. Isso aqui é outro mundo.” Fui negociando. E foi todos os pontos do contrato. Eu ia pra Brasília, chegava de lá, redigia um fax. Era fax? Naquele tempo não era fax, era telex. Espera dois dias, eu voltar pro Rio de Janeiro, e você manda esse telex pra lá. Devo ter mandado telex botando senões no contrato. E foi passando o tempo, e o projeto foi ficando pronto. Os acionistas angustiados. Bom, resumindo: aceitaram todas as modificações. Não vou dizer o nome da pessoa, mas essa pessoa chegou lá e disse: “Você perdeu, porque eles vão retirar menos tonelagens do que está no contrato, porque você botou um preço muito alto.” Disse: “Bom, isso vai acontecer? Não precisa se preocupar, porque baixar preço é muito fácil. Difícil é subir.” (risos) Bom, essa empresa – depois eu saí pra Sul América – não só levou as tonelagens do contrato, como mais do que duplicou. Então aconteceu o seguinte: se pegar a história da Vale do Rio Doce, a Rio do Norte é, de longe, mais lucrativa. Não sei como está hoje, mas uns cinco anos atrás a taxa de retorno era muito maior do que qualquer outra empresa, inclusive a Vale propriamente dita.  Aí, depois, eu tenho um amigo meu que entrou como presidente. Os acionistas, compradores, acionaram a Rio do Norte na corte de Paris, a quebrar o contrato. E aí, eu estava na Sul América, mas os advogados do pessoal lá recorriam muito a mim, porque eu tinha redigido os contratos. Eu vi a carta dos compradores, dos acionistas. Eu ficava orgulhoso.  “Primeira vez que eu vejo país subdesenvolvido, e a gente exporta matéria prima a preços exorbitantes. Nunca vi isso na minha vida.” Estão lá os quadrinhos daquele negócio todo. (risos) Eu acho que isso aí foi uma coisa concreta. A gente faz muita coisa pequena, mas a coisa concreta que… Que mais? Nada de relevante. Tudo rotina.

 

P/1 – E um caso engraçado da área de trabalho? Alguma coisa...

 

R – Fausto Aguiar. Vou contar um. Depois vou contar um do Doutor Marinho, que não está querendo vir aqui. Fausto Aguiar foi o seguinte...

 

P/1 – Você fala para ele que não dói. 

 

R – Não dói. Costa Aguiar morava ali no Jockey, numa rua ali de cima. Pode chamar até de Gávea, mas não é bem Gávea. Eu morava no Jardim de Alá. Morei dois anos lá. E o filho do Costa Aguiar, o Quico, Mário Henrique, ele era da idade de meu filho mais velho. Então, sábado e domingo, o Fausto costumava vir de carro, trazia o filho pra brincar com meu filho, em Ipanema. Eu costumava ganhar muito Scotch no fim do ano. Negócio de Compra, me davam muito Scotch. Eu sou meio bagunçado, eu abria garrafa de Scotch, abria outra antes de acabar uma. Minha mulher achava aquilo o fim. (risos) Tinha um carrinho que nós tínhamos ganhado de casamento. Usava muito isso antigamente. Botava as garrafas.

 

P/1 – De bebida. 

 

R – Ali no carrinho. E tanto eu abri garrafa que um dia, ela, com a simplicidade que mulher tem, objetividade, pegou uma garrafa de Whisky Queen _____ e fez um blend.  Pegou uns três ou quatro restos de garrafa e botou tudo na mesma garrafa de Queen ___, que é um vidro escuro e tinha aquele troço, rotulado. (risos) Bom, daqui a pouco o Fausto Costa Aguiar, que é um rapaz muito inteligente, muito preparado, porque ele veio do ITA, e ele tem uma personalidade muito assim, out current, como chama aqui: pra frente... Chegou lá com o Quico pra brincar com meu filho. Chegou lá e daqui a pouco veio: “Como é que é? Hoje não tem bebida, não?” Digo: “Tem. Escolhe aí o que você quer.” “Queen _____? Gosto muito desse whisky.” (risos) Tudo bem. Fui lá dentro pegar um copo, entornei a garrafa de Queen ____. “Quer com água?” “Que com água? Um whisky desse, três pedrinhas de gelo só.”  “Nunca tomei um Queen __ igual a esse. Deixe eu lhe ensinar, porque você bebe sem saber. Você tem que botar o whisky entre aqui e a língua, pra você sentir a acidez do Scotch. Esse é um Scotch. Tem gente que compra whisky doze anos. Esse aqui é um Scotch de oito anos muito melhor que muito Scotch de doze anos.” E ficou falando, falando. Aí minha mulher chegou na sala e ele foi falando, falando. “Não é tão bom assim.” “Como não é tão bom? Olha que você não entende de Scotch. Eu que sou bebedor de Scotch.”  E depois eu contei pros amigos, o Marcos Viana, e o Fausto: “Waldir, você é muito gozador. Pensa que eu vou acreditar nessa história de ter misturado os whiskys pra eu tomar?” (risos) 

 

P/1 – É verdade.

 

R – Em cima do Bob's, na cidade, tinha uma firma de turismo nova, chamada Waldir Tour. Então a gente almoçava muito junto por ali.  Marcos Viana, que era o chefe, eu e o Fausto. Fausto ia pro casamento da irmã dele em Brasília. Aí passamos por ali e o Marcos falou: “Waldir, como é que está indo sua companhia de turismo?  Waldir Tour.”   “A Companhia não é minha. É de meu sogro.” Já entrei na jogada. Aí o Fausto: “Como é que é, como é que é? Aquela companhia é de seu sogro? Saiba que as empresas de turismo ganham dezoito por cento por cada passagem aérea vendida. Vou querer faturar esses dezoito por cento, porque eu preciso ir no casamento da minha irmã.” (risos) “Quando você chegar lá no escritório, você liga lá e você mesmo negocia com eles. Eles te conhecem. É meu sogro. Vão te dar senão dezoito, dezesseis, sei lá. Quinze.” Dona Marlene era a secretária. “Eu esqueci daquele… Marcos foi pra outro lado.” Daqui a pouco: “Como você não sabe o telefone da Waldir Tour, do sogro do Waldir? Isso é uma esculhambação aqui dentro. Eu quero, porque eu preciso telefonar, porque eu quero pegar uns descontos.” E aí, pra convencer a dona Marlene… O Fausto é muito engraçado. Ele é uma pessoa tão inteligente, tão preparado, que quando ele chegou na Companhia, sempre queria fazer umas coisas que ninguém sabia. A primeira coisa que ele foi fazer foi pellets, aquele troço, garfo  pra fazer negócio de obra. Então pegou o apelido de Fausto Pellets. Só ele fazia pellets. Enrolava todo mundo com aquele pellets. Depois ele foi para pelotização. Aprendeu a pelotização. Inteligente. E fazia todo mundo ficar num pé e noutro por causa da pelotização. Depois ele foi pra Celulose. Mesma coisa. E, depois, pra Alumínio. Se ele aprendia alguma coisa que ninguém sabia ainda, botava uma banca danada. Doutor Marinho. O que Doutor Marinho fez talvez não tenha graça, porque vocês não conhecem fisicamente ele. Doutor Marinho foi diretor muitos anos da Companhia,  Diretor Financeiro. Doutor Marinho, antes de ser Diretor Financeiro, era assistente da presidência da Vale do Rio Doce e viajava acompanhando o Diretor Comercial, o Presidente, porque ele fala o melhor inglês que passou na Vale do Rio Doce, inclusive está escrevendo um dicionário em inglês. E havia um Diretor Comercial, acho que ninguém mencionou ele antes, da área de ________, chamado Rolando Rangel. Um sujeito realmente internacional. Falava várias línguas, conhecia o mundo inteiro. Eu estive com ele em Genebra e ele conhecia Genebra. O _________ cumprimentava ele. No restaurante, cumprimentava ele. E ele era tão internacional que chegou num ponto em que ele tinha um guarda roupa em Paris, na embaixada. Na Europa, o que ele fazia? Viajava com pouca coisa e já estava tudo lá. Não precisava carregar malas. Fomos olhar as lojas, junto com a esposa dele, dona Alice, e o Doutor Marinho. Por uma razão ou por outra, tinha uma mala só com roupa de Dona Alice. E o Marinho tinha que voltar via Nova York para o Brasil. Rolando Rangel já pediu pra ele levar a mala. E ele, educadamente... É uma chateação.  Pega a mala. Quando ele entra no aeroporto em Nova York, passa por inglês chato, porque a frase é em português. O cara pega, abre a mala... Isso é em 1961. Hoje, se você chegar com a mala com roupa de mulher é normal. Abre aquilo… Doutor Marinho, com aquela pinta dele: “O que é isso aí?”  Ele respondeu em inglês perfeito o seguinte: “Mas isto aqui não é suposto ser um país livre?” (risos) Ele chegou com a mala: calcinha, combinação, o diabo a quatro. (riso) E contava história. Lá em casa, eu recebia muito do pessoal.  Ele conta umas histórias. Nem me lembro mais. 

 

P/1 – Vocês se frequentavam, os familiares?

 

R – Aquela época, muito. Você vê que até hoje tem um que é compadre do outro, comadre um do outro. Já falei muito sobre o Roney _______. Sujeito extremamente inteligente. Advogado no meio de engenheiros, porque na Vale só tinha engenheiros, e ele se destacava e se sobrepunha aos engenheiros. Ele tinha dificuldade de pegar certas coisas, porque ele era advogado, e coisas técnicas... De vez em quando, ele pedia para eu resumir. “Faz um resumo desse artigo de revista técnica em linguagem que eu possa entender.” Aí absorvia aquilo e entrava com uma inteligência incrível. Aí nós, jantando, almoçando, no restaurante Blu, lá em Montreal, o presidente da City Bank Unesco, o Roney estava bla bla bla, chutando de tudo quanto era jeito. Aí o sujeito chega para ele e fala assim: “Roney, nunca perguntei pra você. Você é um engenheiro metalurgista, não é?” Ele respondeu: “Não exatamente. Eu sou advogado.” O cara não acreditava, de tanto chute que ele dava em assunto que ele não... Vou te contar uma com... O João Márcio Queiroga não vem? Eu vi ele aí.

 

P/1 – Ele foi pra cidade.

 

R – João Márcio Queiroga. Primeira viagem minha ao exterior. Eram três da pelotização, e eu, da Divisão Industrial. Então eles vieram de avião, de Vitória, e ficou dividindo apartamento meu lá em Ipanema. Íamos comer alguma coisa e depois íamos pro aeroporto. E eu não falava bem o inglês. Minha esperança era que os três que chegavam de Vitória falassem bem pra me aliviar lá a comunicação. Falava pro gasto. New _______ new __. (risos) Chegaram lá e: “Olha, fizemos uma reunião no avião e você é nosso intérprete.”  Ih, meu Deus do céu. O assunto que eu não dominava, pelotização. Falar inglês, muito bem. Então tudo na viagem, eu que tinha que entender e passar pra eles. Nós fomos lá pro nordeste do Canadá. Inclusive, eu vi, pela primeira vez, neve, onde tinha as usinas de pedra em minas. Tudo bem. Na volta, o vôo era Montreal até Caro Lake. Na volta era Caro Lake, tinha uma parada na cidade de Quebec e depois, Montreal. No avião, eu estava na frente e os três estavam pra trás. Parou em Quebec e começaram a sair as pessoas que tinham que sair em Quebec. Aí tinha um sujeito canadense de mais de dois metros. Mais de dois metros e falou assim: “Olha, tem quatro pessoas que tem que sair aqui em Quebec, e não estão saindo. Por favor, queiram verificar seus tíquetes.” Ninguém. Eu na frente, e os três atrás. Daqui a pouco o cara vem andando, pega meu tíquete, me dá uma esculhambação, primeiro em francês, depois em inglês. O que eu podia fazer? Me levantei, e comecei a sair do... No que eu fiz isso, os outros levantaram para ir atrás do seu Waldir. Saímos os quatro, e quando chegamos no balcão, a mulherzinha: “O que é isso? Vocês tinham que estar no avião.” Ela teve a reação de pegar o microfone, parar o avião e nós entramos. Bom, igual a essa, houve umas dez nas  viagens. Eles não discutiram. Saíram atrás. Marcos Viana com Mascarenhas. Marcos Viana gozava muito o Mascarenhas. Ele tinha primeira classe e eu tinha classe econômica. Foi de primeira classe pro Japão. Primeira viagem dele pro Japão. Primeira classe da Varig era um exagero. Era, agora não é mais. Eu não viajo mais. Era um exagero. Parecia um hotel cinco estrelas. Você comia o que você queria. Aí o Marcos contando. Mentira, absolutamente mentira. Chegou o sujeito com caviar: “Quer um bocadinho?” “Quero.” Ele botou, o Mascarenhas botou. Dizem que o Mascarenhas olhou pra ele e falou assim: “Poxa, esse carocinho de mamão é gostoso hein?” (risos) Ele contava isso de gozação, e o Mascarenhas com aquela calma dele.  Foi uma época maravilhosa, conheci pessoas maravilhosas. Eu duvido. Porque uma empresa, na verdade, é uma reunião de pessoas. Claro que tem o produto, se não tiver um produto bom pra vender, você não vai vender. Veja bem quantas pessoas excepcionais. Ah, deixa contar uma do Doutor Eliezer. Um caso. Dele, eu podia contar uns cinco ou seis, mas não vou contar. Ele disse assim: “Você vai contar umas coisas sobre mim, danado.” É uma pessoa que conheceu o mundo inteiro. Onde ele viajasse, se alguém quisesse falar com alguém, governo, ligava pra ele que a gente chegava lá.  E ele levava, muita vezes, dona ____, não sempre, com ele na viagem. E dona ___ ficava chateada, porque ele levava, botava no hotel e ia fazer o negócio dele. Ela que se virasse lá com a vida dela. Diz que estava lá em Genebra. Alguém aqui conhece Genebra? Eles não chamam Genebra. Como é que eles chamam? É uma cidade onde até os gatos morrem de tédio. É uma cidade que sempre está cinzento. Bonitinha, mas muito cinzenta. Isso foi num domingo. Dona ___ falou assim: “Olha, vamos almoçar nós dois. Viagem atrás de viagem e eu não consegui ficar com você.” “Ah, boa ideia. Então escolhe, por favor, um restaurante pequeno, onde não apareça  nenhum japonês.” Ela escolheu lá um restaurante. Sentaram. Não tinha ninguém. Daqui a pouco, entra um bando de árabes: “Mister Batista.” Acabaram... E num domingo. O homem, terrível. Eu morava na casa da Companhia. A Companhia tem uma casa em Nova York. ________onde eu morava. Um dia, o Eliezer foi lá e eu dei um almoço pra banqueiros, o diabo a quatro, pra homenagear o Eliezer, pela passagem dele lá.  E o pessoal todo bebendo, comendo... De repente, eu vejo o Eliezer na frente da casa. A casa é muito bonita. O Roney que escolheu. Tinha uma árvore do tamanho de um bonde. Aí eu fui lá dar atenção pra ele, lá fora, e ele falou assim: “Você sabe que árvore é essa aqui?” Eu falei: “Eu não.” “Waldir, não me diga que você não sabe. Tão culto, tem uma árvore dessa em sua casa e você não sabe.” Começou a falar aqueles nomes de árvore, pa pa pa pa. Dá nas Filipinas, dá na Malásia, não sei o que. Impressionante. Eu visitei, em 1971, a antiga Itabira  ________, porque a sede da Vale, antes de ser em Bruxelas, era em ________. Ele estava viajando e o gerente do escritório foi me mostrar como era a estrutura dele de ler. Você não acreditava. Ele veio com três folhas de papel, com a lista de periódicos que ele assinava. Não é possível. Lia em dez línguas. Aí mostrou ali na sala, tinha tudo umas divisõezinhas de madeira que o cara tinha feito. “Mas como? O Eliezer não acredita em computador, não?” “Não. Não acredita. Tudo que ele tem está arquivado aí e se é em frente e tal... O local, sabe onde está arquivado, sabe tudo direitinho.”   Ele foi realmente a razão maior de todo esse sucesso da Vale do Rio Doce. Incrível. Ah, vocês souberam como é que ele  foi escolhido? Alguém já contou? Como  é que  ele foi escolhido presidente?

 

P/1 – Já contaram, mas é bom contar, porque cada um tem a sua versão. 

 

R – Bom, como eu disse, eu morava na Urca. E morava perto de mim, a dois quarteirões, o Ministro das Minas e Energia, Doutor João Agripino. Ele era conhecido nosso, amigo. Mamãe conversava muito com ele. Ele passava com chinelo, como o pessoal costuma andar. A primeira parte, me contaram. Tinha saído o Juscelino Kubitschek e entrado o Jânio Quadros, em janeiro de 1961. Essa primeira parte foi contada. Então escolheram, dentro da Vale, um deputado mineiro que nem me lembro o nome. O sujeito, antes mesmo de tomar posse, apareceu na Vale, e foi presidente da Vale. Com deputado mineiro, a coisa não há como desistir. Aí começou lá, e ele dizia o que ele ia fazer na Vale. Olhou um quadro, um mapa que tinha uma estrada de ferro. “Mas essa estrada está toda errada. Tem que ser mais reta essa estrada de ferro.” Como se pudesse fazer mais reta. Tanta besteira ele falou, que ele foi demitido antes de tomar posse. Recorde.

 

P/1 – Quem era?

 

R – Não sei o nome. Doutor Marinho pode saber. Bom, aí ficaram sem presidente. Já era carnaval. Ele ficou de fevereiro a março. E o João Agripino foi passar as férias, os dias de carnaval, em Vitória. Naturalmente, quem ia fazer a corte a ele era o superintendente da estrada, Doutor Eliezer Batista. Aí ele ligou pra presidente da Vale, dentro da própria Vale, Doutor Eliezer Batista. Aí começa a chutar, que ele foi pra Brasília, ficou com muito medo, encontrou o Jânio. “O senhor é que é o Eliezer Batista?” “Sou.” “O senhor é meu amigo?” “ Sou.” “Então o senhor vai ser presidente da Vale.” Coisas desse tipo, assim. Mas o lance foi o sujeito anterior, que tinha sido demitido, e aí ele foi passar uns dias de férias em Vitória, e aí... Por sinal, uma casa que eu acho muito bacana, Chama Clube Cauê. Ele ficou no Clube Cauê, e imagina  alguém exposto à conversa do Doutor Eliezer. Pronto. Virou presidente. Eu acho esses casos mais interessantes. Os outros já devem ter tudo repetido. O do Fausto, eu acho interessante. Muito interessante. 

 

P/2 – Waldir, se você pudesse mudar alguma coisa na sua trajetória de vida, o que você mudaria?

 

R – Trajetória de vida?  Boa pergunta. Eu tenho até pensado nisso. Eu não teria saído da Vale do Rio Doce em licença. Teria continuado e, talvez, minha carreira fosse mais...

 

P/1 – Nenhuma das duas vezes?

 

R – Bem sucedida. Não me acarretaram nada. Pelo contrário. Só me dão saudades. O máximo que eu consegui lá, foi saber que realmente eu tinha feito uma grande escolha ao me juntar à Companhia Vale do Rio Doce. Parece... No meu caso, eu não posso falar, porque eu sou casado há 35 anos. Parece com alguém que se separou de alguma mulher que era espetacular, e vai lá fora e: “ Ih. Não é nada disso.” 

 

P/1 – Falando em mulher, o senhor teve quantos filhos? 

 

R – Eu tenho três filhos. Minha mulher esteve aqui. É uma grande companheira, há 35 anos. Foi comigo pra Nova York com um filho de dois anos e meio e uma filha de 45 dias. Me acompanhou, me ajudou, me apoiou esse tempo todo.

 

P/1 – Conheceu ela na Urca?

 

R – É, na Urca. Embora ela seja também engenheira pela Puc, mas não tem nada a ver, não, porque é uma geração depois. Ela é sete anos mais moça que eu. Moramos perto. Conhecia ela desde garotinho. O mais engraçado é que os amigos: “Você vai acabar casando com aquela garota lá.” E acabei casando mesmo. Dos três filhos, o mais velho é casado, tem um filho e está trabalhando agora na Telemar. Estava num banco, e agora passou pra Telemar. É muito estudioso, tirou um ______ nos Estados Unidos, na Wharton School of Business. A número dois é mulher. Diz ela que vai casar no ano que vem. Não sei não. Estão lá fazendo os preparativos. Ela vai casar, sim. Ela está na ___ e ela tem muito contato com a Vale, porque ela está numa área que _____, interface com a Vale. Depois, nós tivemos uma bem mais moça, Renata. O primeiro é César, a segunda é Claudia, a terceira é Renata, que estava na consultoria financeira do Banco _________. É a mais moça. Está com 23 anos. São os três.  Vamos ver se a família cresce. Aliás, minha nora já está grávida e já vem o segundo neto. Somo uma família...  Veja bem. Meu pai era oficial da Marinha. O pai da minha mulher era oficial do Exército. Urca. Urca. Então, engenheiro, engenheiro. Pode ser até... Embora os temperamentos sejam muito diferentes. Aí é que eu acho que a coisa vai bem. Eu sou mais tenso, ela é mais calma, mais reflexiva. Mas eu, na Companhia Vale do Rio Doce, realmente conheci grandes pessoas. Eu tenho pena que nós tenhamos, depois, com a idade, aberto essa amizade. Ninguém se frequenta nem nada. As mulheres, por exemplo, que se conheceram através de nós, são muito mais inteligentes. Elas se reúnem ainda. A viúva do Clodoaldo, a viúva do Carlos Neto, a viúva do Mascarenhas, que está morando em Vitória... As falecidas. A ____ do Eliezer, a Silvinha do Roney, Lalu do Costa Braga, são poucas agora. Diminuiu o grupo. A outra também era a esposa do Emério, que faleceu  também. Então elas foram muito mais inteligentes que nós. Mantiveram essa amizade, se falam, um telefonema ou outro. A gente está mais… É o tempo pesando. O tempo pesa. Interesses mudam e a  gente vê que, na verdade, era a Vale que nos unia. Não era a amizade, não. Era a Vale. Se fosse amizade, continuava conversando. De vez em quando, eu encontro com o Doutor Eliezer, é sempre um prazer estar com ele, ele sempre conta as coisas engraçadas… Mas pouca gente. Mas é isso. Que mais vocês queriam saber?

 

 P/1 – Quais são seus sonhos?

 

R – Sonhos? Meus sonhos são agora a parte familiar. Ver as duas filhas casadas, me darem netos e nós acompanharmos essa fase da vida, porque já tenho 35 anos de casado, já viajamos o mundo inteiro. Viajar hoje, pra mim, não diz muita coisa. Aquela excitação de viajar, explorando. Temos amigos. Tentamos nos manter em forma com exercícios, caminhadas e ginásticas e musculação. Então a vida... Agora a Vale está cada vez mais longe. 

 

P/1 – Waldir, o que você acha de estar participando do Projeto Memória, e ter dado esse depoimento pra gente?

 

R – Em primeiro lugar, eu queria me congratular com a direção da Vale do Rio Doce, agora uma empresa privada, em fazer um projeto dessa magnitude, dessa  importância, porque as empresas privadas, geralmente, gostam de fazer coisas mais objetivas, de retorno mais imediato. A Vale faz um projeto em que ela trás para o presente e para o futuro tudo aquilo do passado que a levou a ser tão bem sucedida. Então o projeto é... Eu fiquei encantado aquele dia, estou repetindo aqui, agora, para que as gerações futuras possam entender o porquê desse sucesso todo. É gente da Vale do Rio Doce. E gente vai e volta, mas a pessoa do Doutor Eliezer Batista que realmente foi o excitador, o catalisador de todos esse sucesso. Então eu não esperava que fosse entrevistado. Com tanta gente boa na Vale do Rio Doce, a gente acaba se repetindo nas coisas que a gente fala. Mas eu fiquei impressionado, satisfeito e agradeço muito essa oportunidade. 

 

P/1 – Obrigada.



 

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