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História

De Pirapora para o mundo

História de: Suzana Oliveira do Nascimento
Autor: Ana Paula
Publicado em: 19/06/2021

Sinopse

Suzana conta sobre a vida de seu pai, como um homem que saiu de uma cidadezinha chamada Pirapora, conheceu o mundo

História completa

Projeto Fundação Banco do Brasil Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Suzana Oliveira do Nascimento Entrevistado por Clarissa Batalha São Paulo, 16 de Maio de 2008 Código: DIHV_HV001 Transcrito por Luana Morens Revisado por Jordana Pradal P/1 - Você pode começar dizendo seu nome, local e data de nascimento. R - Meu nome é Suzana Oliveira do Nascimento. Nasci em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 1962, 21 de agosto. P/1 - Qual que é a sua atividade? R - Hoje eu trabalho na administração de ambulatórios médicos, para uma empresa de saúde. P/1 - Qual o nome dos seus pais? R - Aluísio Ferreira do Nascimento e Neide Oliveira do Nascimento. P/1 - Você queria fazer uma homenagem ao seu pai aqui hoje, né? R - É... P/1 - Fala um pouquinho sobre ele. R- Meu pai nasceu em Minas também, 1938, uma cidadezinha muito pequena, lá em Pirapora, barragem do São Francisco, ele contava que tinha onça que miava a noite, eles tinham medo... E meu pai saiu de lá, foi pra Belo Horizonte, entrou pro exército, e foi uma época em que o Brasil entrou pra participar das Nações Unidas, através da Força de Emergência, e meu pai pôde ir pro Egito! Meu pai conheceu Israel, conheceu o Egito... Era o... Estava tendo conflito no Canal de Suez, entre Israel e Egito, e o Brasil participou. Então foi a primeira vez que o Brasil entrou participando de forças internacionais. E isso mudou muito a visão do meu pai de mundo, né? De um meninozinho que saiu de uma cidade pequenininha, ele ganhou o mundo. Conheceu Roma, conheceu Cairo, conheceu Líbano, Jerusalém, Terra Santa, pirâmides, né? Então ele voltou pro Brasil cheio de histórias. Logo em seguida ele saiu do exército, foi ter vida civil, ganhou muito dinheiro; então ele pôde casar, montar negócio... Jovem, só passeavam ele e minha mãe; perderam tudo, ficaram na miséria. Aí começou a trabalhar, veio pra São Paulo, ditadura militar... Então, ele falava assim para nós, que mesmo naquela época em que ninguém conseguia saber muito sobre o mundo, ele ficava atento, e eu cresci aprendendo a observar o que acontecia no mundo. Tem dez anos, né? Faz dez anos que meu pai faleceu, em 1998... E ele influenciou todo mundo com quem ele conviveu. Nós, os filhos; eu e mais dois irmãos... Minha irmã e meu irmão, meus primos... Meu pai sempre falava: "Estuda! Conhece o mundo! O mundo é grande! Vai conhecer as coisas! Tem que estudar!". Então hoje eu tenho uma prima nos Estados Unidos, que ela sempre falava que ela lembrava do tio falando pra ela estudar, pra ela batalhar... E ela está morando lá. Meu irmão entrou pra Marinha, também viajou pra caramba! Já nem é militar mais, mas fez isso. Minha irmã morou no Canadá durante dois anos, e quando ela morou lá, antes do meu pai falecer, ele foi visitá-la, então ele conheceu as areias do deserto, a tempestade de areia, e pôde conhecer a neve do Canadá, ver a aurora boreal... Puxa, pra um cara que saiu de uma cidadezinha desse tamanhozinho é demais, né? Ele estudou, tentou estudar, entrou na faculdade no mesmo ano que eu! Ele só não conseguiu continuar porque era muito difícil, ele já estava mais velho, era o mais velho da classe... Mas assim, sempre incentivou todo mundo. Hoje, se meu pai estivesse vivo, ele estaria muito atento ao que está acontecendo no mundo. Ele estaria surpreso com o Barack Obama se candidatando à presidência dos Estados Unidos, ele estaria muito atento ao que a China anda fazendo, ele estaria assim, um pouco decepcionado com o que acontece aqui dentro, é... Ele estaria muito admirado com o que o Brasil está fazendo fora, em termos de política internacional, porque a gente tem uma força de paz lá no Haiti, né? Que está se dando muito bem, que conseguiu fazer coisas muito importantes naquele país. Então, assim, o que é que eu acho grande no meu pai? Ele ter passado pra todo mundo que conviveu com ele, que a gente é um... Que a gente pode viver em um país de terceiro mundo, mas o mundo é muito grande e todo mundo vive junto, né? Todo mundo faz parte de uma comunidade só. O que acontece aqui influencia o que está acontecendo lá, o que acontece lá fora muda nossa vida aqui também. Hoje, com a internet, com a imprensa... Isso é tudo muito fácil de constatar, mas quando eu era pequena lá nos anos 1960 isso... Ele era muito moderno para a época dele! Em termos de participação, minha mãe começou a trabalhar fora quando nenhuma mulher trabalhava na rua onde a gente morava, eles sofreram preconceito por causa disso. Meu pai era o homem que ia na escola, em reunião de pais e mestres, em uma época em que os homens não iam, não porque eles não gostavam, mas nem se falava a respeito disso! Então, eu acho que ele não pode ser esquecido, e eu acho muito importante falar disso, de uma pessoa que estava a frente do tempo dele e falando coisas lá atrás que hoje são super atuais. Que é essa história de que o que você faz aqui no Brasil, o que a gente faz aqui no nosso bairro, na nossa cidade, influencia o mundo sim! E a gente pode mudar o mundo, né? A gente pode mudar a nossa história, a gente pode mudar o mundo! Então é isso que eu queria falar do meu pai [risos]. P/1 - O que você achou de dar esse depoimento? R - Ah, eu acho importante! Eu vi a notícia no rádio, a CBN [Central Brasileira de Notícias] falando desse movimento. Eu acho interessante essa ideia. No site eu coloquei que as pessoas comuns podem ter histórias mais interessantes até do que a gente é capaz de ver na literatura e no cinema. Então acho importante trazer essa tradição oral, os contadores de história, que são da história da própria humanidade, então eu acho importante! Estou super emocionada de participar! P/1 - O Museu na Pessoa agradece muito a sua participação! P/2 - Obrigada, obrigada! ----- FIM DA ENTREVISTA -----
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