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História

De pai pra filho

História de: Moysés Cohen
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/12/2019

Sinopse

Moysés acompanhou seu pai durante a vida como referência na comunidade judaica do Rio de Janeiro, realizando as cerimônias de brit milá. Quando seu pai adoeceu, acabou assumindo seu lugar. Nesta entrevista, ele nos conta como era a comunidade judaica do início do século XX no Rio de Janeiro.    

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História completa

P - Se o senhor quiser parar a qualquer momento... 

Em primeiro lugar eu vou lhe pedir o seu nome completo, data de nascimento, local…

 

R - Bom, eu nasci em oito de novembro de 1917. O primeiro brit [milá] feito aqui no Rio com oito dias foi o meu porque a colônia era pequena, então como as crianças não nasciam exatamente aos domingos e era a única oportunidade da pequena colônia se reunir, então, deixavam o brit para um domingo. Mas eu como nasci no dia oito e quinze de novembro era feriado, então o meu brit foi feito com oito dias certos. Nasci na Rua Frei Caneca perto de onde hoje é o presídio.

 

P - O senhor quer dizer que foi feito com oito dias. Antes de o senhor nascer se fazia brit também? 

 

R - Fazia. Meu pai fazia... foi o primeiro mohel. Desta colônia. 

 

P - E antes do seu pai, quem fazia? 

 

R - Não tinha colônia aqui. 

 

P - No final do século passado não tinha... 

 

R - Colônia não tinha. Tinha alguns judeus esparsos. 

P - Qual é o nome do seu pai e da sua mãe? 

 

R - Em iídiche, Cohen. Em hebraico, Baruch Mordechai Cohen. E Rachel. 

 

E·- Era por esse nome que ele era conhecido? 

 

R - Era. E seu Marcos, em português. 

 

P - E da sua mãe? 

 

R - Da minha mãe é Rachel Cohen. 

 

P - Queria que o senhor falasse um pouquinho, se o senhor soubesse... 

 

R - Todos dois sabras. Eles eram sabras. Meus avós, eu disse também, foi esquecimento agora. Um sobrinho meu está me cobrando de onde vieram os meus avós. De um lado vieram da Rússia. 

 

P - O que que o senhor chama de um lado? De que lado? 

 

R - Não sei se do lado do meu pai. Vieram da Rússia. Acho que do lado da minha mãe. 

 

P - Foram da Rússia para a Palestina? 

 

R - Meu avô veio com três anos de idade para a Palestina. Era o turco que era o mandatário. 

 

P - Muito bem. E o senhor tinha quantos irmãos? 

 

R - Meu pai nasceu em Tzfat, que era a cidade do Ari Hakadosh.

 

P - E o senhor tem irmãos? 

 

R - Tenho. Tenho uma irmã, mais velha, falecida. Tenho um irmão sabras. Ambos nasceram em Israel. E um brasileiro caçula, Meyer Cohen. 

 

P - Qual é o nome dela? 

 

R - Ester Cohen - Esther Davidson porque ela casou. E o meu irmão e Jacob. Jacob Cohen. É viúvo. Tem eu, que sou terceiro, e tem um irmão menor, que também já tem sessenta anos. 

 

P - Mora aqui no Brasil? 

 

R - É dentista. Mora aqui também, é brasileiro. 

 

P - Como ele se chama? 

 

R - É Meyer. Meyer Cohen. 

 

P - E vocês vieram... Sua família veio para o Brasil em que ano? 

 

R - Meu pai veio sozinho em 1909, fugindo do serviço militar. 

 

P - Mas um pai de família era também chamado para…

 

R - Era turco. 

 

P - Não queria saber. 

 

R - O turco já fazia aquilo de molecagem, porque a turma sofria muito. 

 

P - Aí seu pai veio primeiro. 

R - Veio primeiro. 

 

P - Por que para o Brasil? 

 

R - Olha, por que para o Brasil... O pessoal já estava começando a emigrar e iam para os Estados Unidos ou para Argentina. 

 

P - Quando o senhor chama pessoal, é o pessoal da Palestina? 

 

R - De Israel... Palestina. Lá era muito difícil. Já estavam começando. E porque a vida lá era muito difícil. A vida era difícil, a comunicação era difícil. Não era feito hoje. Um sujeito para ir de uma cidade a outra levava às vezes três dias em cima de um burrinho.

Meu pai contava como é que ele começou a fazer circuncisão. Ele era shochet, matava, então amolava a faca, entendeu? E via quando o mohel fazia circuncisão. Mas nunca se fazia com oito dias. 

 

P - E lá também? 

 

R - Lá, lá porque... 

 

P - Problema de distância. 

 

R - A cidade não tinha... Não era cidade, era aldeia. 

 

P - Hum, hum. 

 

R - Então tinha que alguém chamar o mohel. 

Primeiro tinha que nascer a criança. Hoje em dia o sujeito pode saber, às vezes, o sexo com a ultrassonografia, mas naquele tempo o sexo era só quando nascia. 

 

P - É verdade. 

R - Então tinha que nascer primeiro, aí [quando] o sujeito ia à cidade, às vezes o mohel tinha ido para outra cidade. 

 

P -·· Entendi. 

 

R - Entao nao se fazia com oito dias. Quando nasceu meu irmão mais velho, meu pai... Ele já tinha visto vários e já cortava pescoço de galinha, via sangue, então, quer dizer… Então, o temperamento de não... Porque tem gente que nao pode ver sangue. Então ele resolver arriscar, mas só para fazer do meu irmão com oito dias porque o meu pai nasceu de uma família ultrarreligiosa, ortodoxa. O meu avô paterno era um shmire, quer dizer, o trigo era colhido e guardado no teto quando antes de Pessach levavam para o moinho, faziam tudo. O trigo era ultra-ortodoxo. 

 

E·- Isto em... Israel? 

 

R - Em Israel, na cidade de Tzfat. Então papai foi sempre também muito ortodoxo e... O que eu estava dizendo... 

 

P - Estava dizendo de seu pai, da dificuldade de ser mohel, como ele começou.

 

R - Ele começou querendo fazer do meu irmão, aí saiu tudo bem. Quando nasceu a primeira criança depois, o pai veio e disse: "O senhor vai fazer o brit dele” então ele… “Eu não sou mohel.” “Você fez de seu filho e vai fazer do meu.” E aí engrenou, a cidade não precisou chamar ninguém.

 

P - E pro seu pai ser schoichet, que tipo de estudo ele fez? 

 

R - Bom, o meu avô também era... 

 

P - Era uma tradição de família? 

 

R - Era uma tradição de família. Meu filho é a quarta geração de schoichet… Não, mas é mohel. O meu filho já é a quarta geração: meu avô, meu pai, eu e meu filho. 

 

P - Mas tinha um estudo de Yeshivá também ou aprendeu do seu pai? 

 

R - Aprendi com o meu pai. Tem aquelas regras e coisas. Eles ensinam e a gente aprende.  Quando o meu pai esteve em Israel em 35, ele foi... tinha um rabinato. Ele foi, mostrou as facas, aí deram um diploma a ele, mas antes ele não tinha diploma. 

 

P - Ah entendo, quer dizer então… Seu pai veio para o Brasil. O senhor estava me contando... 

 

R - Em 1909. 

 

P - Que as famílias… E o senhor estava me contando porque [era no] Brasil que estava interessado. 

 

R - Então, porque nos Estados Unidos eles olhavam muito a vista e o pessoal de Israel por causa da poeira, areia já vinham com os olhos assim, irritados, então os americanos não deixavam entrar. Então desciam e iam para Argentina. 

 

P - Por causa das colônias? 

 

R - Parece, nao sei... Isso ai eu nao sei. Eu sei que eu tenho um tio que foi para Argentina, depois para o Brasil. E alguns desciam aqui no Brasil. Já havia um zumzumzum que aqui se ganhava dinheiro, então desciam, não sabiam falar a língua. Minha mãe, quando veio, numa ocasião queria canela. Ela pegou um pedaço de pau e mandou o meu irmão comprar. Ele trouxe canela. 

 

P - Então... Seu pai sozinho... 

 

R - [Veio] sozinho. Ficou de 1909 até 1910 e voltou para apanhar minha mãe e meus dois irmãos. 

P - Nisso não teve problema de entrar e voltar a sair? 

 

R -- Naquele tempo, para sair de lá, ele saiu com um bilhete de teatro e o turco era completamente ignorante. Tudo estava em hebraico.

 

P - Não sabiam nem o que que era. 

 

R - Aquilo era o passaporte... E aqui descia à vontade. 

 

P - Não tinha controle, lista de entrada? 

 

R - Nada. 

 

P - Não tinha esse negócio de lista de entrada? 

 

R - Não.

 

P - E quando o seu pai chegou aqui, logo se estabeleceu como schoichet e mohel

 

R - Já tinha algumas famílias sefaradi, mas não era uma colônia. Eram famílias, mas souberam, não sei como, que tinha um schoichet e eles só comiam verduras, não comiam carne porque o sefaradi e mais religioso, respeita mais. Eles souberam que tinha um schoichet, compraram logo uns cabritos e chamaram o meu pai para matar. Aquela faquinha resolvia, então foi uma festa. 

 

P - Desculpe lhe perguntar. Não sei se estou sendo um pouco indiscreta... 

 

R - Não. 

 

P - Como era… Era com isso que o seu pai ganhava, dava pra sobreviver? 

 

 

R - Era, era com isso. Dava para sobreviver. 

 

P - Ainda não existia uma kehila organizada? Era por bicho que se matava, era circuncisão feita? O senhor nasceu então em 1917 e aí o seu pai já estava bem estabelecido aqui no Rio? 

 

R - Já, já estava. Ganhava a colônia já era porque a colônia começou a se formar com algumas famílias que vieram de Israel, de Tzfat, de Tiberíades, de Jerusalém, algumas famílias da Romênia e algumas famílias da Rússia e foi isso que... E família Galper, família Nuzman, Adler, Warshawski, Geiger, Kaufman, Klein, Lerman, Rinder, Goldberg, Schneider. 

 

P - Eu tenho uma dúvida na cabeça. 

 

R - Pois não. 

 

P - Eu vou lhe perguntar porque eu estava conversando [com] Patrícia e ela disse que a [sinagoga União Israelita] Shel Guemilut já é do meio do século passado - 1830, 1834. 

 

R - Eu não sei. Isso eu não posso dizer, mas pode ser. Isso eu nao sei. 

 

P - Bom, não importa. Em que bairro o senhor morava quando nasceu? 

 

R - Na Praça XI, não. Quando eu nasci eu morava na rua Frei Caneca. Mas a 

colônia já estava localizada na Praça XI. 

 

P - E o senhor tem lembranças? O senhor pode descrever a Praça XI, como era ali? 

 

R - Praça XI, eu me lembro de tudo. 

 

P - Então vamos conversar um pouquinho disso... 

 

R - Pois não. Praça XI... Eram duas ruas, Senador Eusébio e Visconde de Itaúna e no meio tinha casas que davam metade para cá, metade para lá e iam até o Campo de Santana. Já existia o Campo de Santana e mais adiante, do outro lado do Campo de Santana, tinha um edifício da prefeitura. 

 

P - E onde está hoje o Ministério da Guerra, não é? 

 

R - Não. Ministério da Guerra e à esquerda, onde é a Central, em frente da... Deixa eu fazer um desenho. 

 

P - Já sei qual é. 

 

R - Visconde de Itaúna e Senador Eusébio aqui. Eram casas. Aqui começava o Mangue. 

 

P - Ah.  

 

R - E aqui era o Campo de Santana. Ministério da Guerra é aqui. 

 

P - Ah, entendi. 

 

R - Do outro lado, acabando o Campo de Santana tinha um edifício... 

 

P - Onde é a Biblioteca hoje? 

 

R - E aqui tinha uma Rua, São Pedro, foi onde foi fundado o primeiro shil, sinagoga e aqui a Rua General Câmara. Isso o Getúlio demoliu e ficou Avenida Presidente Vargas. 

Aqui tinha um jardim muito bonito. Tinha um colégio que eu frequentei uns dias. De manhã ele [se] chamava Benjamin Constant [e] de tarde ele tinha [o nome de] Bernardo Vasconcelos. 

P - E esse colégio ainda está lá? 

 

R - Não existe mais. Tudo isso foi abaixo. 

 

P - Mas me conte mais como era esse bairro aqui. Como eram as casas? Os negócios? 



R - Bom, as casas tinham alto, eram lojas, e tinham sobrados. Aqui na esquina, nessa esquina foi a primeira sinagoga também, Beit-Yaakov, que é o Templo agora, e o pessoal daqui... Aqui era a Rua Santana. Essa Rua Santana continuava aqui até a Rua Frei Caneca… Até a Rua do Riachuelo, continuando, ia para a rua Frei Caneca. Aqui era uma igreja. 

 

P - Já estou lembrando. Mas tinha o quê? Açougue? 

 

R - Tinha. Aqui tinha a Rua Benedito Hipólito, Rua Júlio Carmo. Depois formaram mais dois açougues, mas o primeiro açougue passou a ficar sendo aqui. Na rua Visconde de Itaúna, sei até o número 112. Era um açougue, já era de um sefaradi. O açougue era dele, mas ele não sabia matar. 

 

P - Aí seu pai trabalhava com ele. 

 

R - Trabalhava. Ele alugou para o papai. Isso depois de 1918, quando papai voltou. Em 1918 ele foi para lá para Israel. Ele veio aqui, mas não era para ficar. 

 

P - Ele queria morar lá em Israel? 

 

R - Morar e morrer lá. Isso era um sonho dele: morrer lá em Israel.

 

P - Quer dizer que o senhor nasceu e logo que o senhor nasceu ele foi para lá. 

 

R - É, eu nasci e não posso dizer que não estive em Israel porque com um ano eu estava lá. 

 

P - Ah, foi a família toda? 

 

R - Foi a família toda. Foi para ficar. 

 

P - É por que não ficaram? 

 

R - Porque já não se adaptavam mais, depois de ver a vida aqui. Porque a vida aqui era mais fácil, apesar de tudo era mais fácil, então já não se adaptava. Ele não teve sorte porque fez uma sociedade com uma senhora lá. Uma hospedaria. Era só hospedaria: dormia, pagava e ia embora. Estava dando lucro, mas a proprietária, a sócia não era muito honesta, então todo dia faltava lençol, faltava isso, aquilo e meu pai era quem financiava. Porque quando ele ficou um ano aqui - ele ficou de 1909 a 1910 -, ele voltou para lá com um conto de réis. Um conto de réis, naquele tempo, era... Parece que cem libras. Eu me lembro que ele contava que perguntavam: “Quer ouro, quer moeda ou quer papel?” Naquele tempo, era a mesma coisa papel e ouro. O valor era igual. “Para que eu ia carregar peso?” Num ano ele ganhou isso. 

 

P - Quer dizer que quando ele foi de volta em 1918 vocês não ficaram lá muito tempo. 

 

R - Um ano também. 

 

P - E voltaram para o Brasil? 

 

R - Voltamos também. Quando ele voltou, quando ele foi pra lá… Porque o Zinger, quando veio... 

 

P - Quem é Zinger? 

 

R - Foi o outro mohel que…

 

P - Que veio de lá. De Tzfat também. 

 

R - Que veio de lá, logo depois dele, mas uma condição não dava pra dois.

 

P - Aqui no Brasil?

 

R - Aqui no Rio. Então ele foi para Belo Horizonte, que já estava formando uma colônia. Quando meu pai foi para Israel, ele soube, então veio para o Rio se estabelecer aqui. Quando meu pai voltou já o encontrou aqui. 

Eles se davam, [eram] da mesma cidade, então resolveram fazer um açougue porque até então eles só comiam galinha ou cabrito, não tinha carne. 

 

P - Ah, não tinha boi? 

 

R - Não tinha carne de boi, aí eles alugaram este açougue. 

 

P - Deste senhor? 

 

R - Eu não me lembro o nome dele, não, mas ele vendia carne tarefa.

 

P - Como era o nome da rua? 

 

R - Era Rua Visconde de Itaúna. 

 

P - Rua Visconde de Itaúna. 

 

R - 112. Eles alugaram o açougue e fizeram... Foram ao matadouro e fizeram um contrato para deixar matar porque a matança e diferente. 

 

P - Tem que matar no matadouro. 

 

R - No matadouro com uma faca, tem que degolar. E [tem] um ritual, quer dizer, eles não... Quando eu comecei a estudar Medicina, eles me levaram lá para ver uma vez. O boi entra num curral e não pode se mexer nem para frente, nem para trás, nem para o lado. O sujeito pega um... 

 

P - Cutelo. 

 

R - Não, não é cutelo não. E uma marreta... Feito um martelo. Dá aqui na cabeça dele. O boi cai, então eles o puxam. Quando eu vi já tinha eletricidade. 

 

P - Ai davam um choque, né? 

 

R - Não, não. Só o puxavam. Amarravam a perna e a eletricidade é que puxava... Aí enfiavam um punhal, sangrava o boi. 

 

P - Essa é a maneira kosher de... 

 

R - Não, não. Kosher, eles puxavam o boi... 

 

P - Mas já... 

 

M - Não, não. 

 

P - Ah, era por isso que eu não estava entendendo. 

 

R - Esse é goi

 

P - Ah, agora estou entendendo. Era por isso que eu não estava entendendo. 

 

R - Mas quando era o boi, porque eles escolhem o boi. Boi vivo. 

 

P - Para ver se tinha doença... 

 

R - É, um boi vivo.  Eles puxavam o boi, aí alguém amarrava a cabeça dele.

 

P - Puxa, que mão de obra. Puxava o boi vivo? 

 

R - Não. Meu pai, uma vez, levou eu não sei se foi uma chifrada; abriu, foi até o osso. Boi muito brabo, que se soltou e ele degolou. Degolava e deixava aquele sangue escorrer. Puxava o boi. 

 

R - Mas depois do boi morto ainda tinha que examinar? 

 

R - Ah sim, natural. Botava a mão por dentro para ver se não tinha aderência do pulmão. 

 

P - Examinava o boi morto. 

 

R - Se tivesse aderência... 

 

P - Era doença? 

 

R - Hein? É sinal que o pulmão já tinha tido alguma coisa. Então o veterinário dizia: “Quando o seu Marcos diz que o boi está bom eu nao preciso nem examinar.” Muitos bois que papai recusava para ele estavam bons. 

 

P - O que faz com a carne, [com a] parte do boi que não era kosher

 

R - Esse matadouros tinham açougues deles. Eles gostavam muito do nosso boi porque quando vendem a carne, eles vendem a carne por um preço tanto faz dianteiro, tanto faz... Filé mignon, tanto faz, o preço e um só. Mas no açougue o lucro é no traseiro. Como nosso usávamos o dianteiro, eles ficavam com muito mais traseiros. 

O açougue, quando pede, pede o boi todo, então ele ganha só uma parte. Quando nós pedimos a carne eles mandavam o dianteiro e ficavam com o traseiro. Levavam para os açougues deles e tinha muito mais lucro. 

 

P - Como… Nessas ruas aqui moravam os judeus? Principalmente judeus? 

 

R - Principalmente. Mas tinham famílias que não eram judias. 

 

P - E se notava… Por exemplo, num Shabat, as lojas fechavam antes? 

 

R - Bom, eu tinha impressão que, naquele tempo, eles não fechavam loja, não. E meu pai, muitas vezes, queriam que ele fizesse um negócio, então justamente... Porque hoje em dia tem muitas lojas de goi que fecham [aos] sábados, não por religião. Tem a semana inglesa, que só abre [ao] meio-dia, então tem gente também que até meio-dia não abre. Naquele tempo não tinha isto, então o meu pai.... 

 

P - O ambiente não era diferente nesta rua do que em outras? 

 

R - Não.

 

P - Então eram só as lojas, mesmo onde se encontravam produtos que os judeus gostavam? 

 

R - Bom, mais tarde, na Rua Santana, tinha aquelas casas que vendiam... Restaurantes. Não eram kosher, mas eram comidas iídiche - Schneider, famoso. E tinha já um Frigelle. Mas isso já muito tempo depois. 

 

P - O que o senhor chama de muito tempo depois? Da década de vinte, trinta? 

 

R - Trinta. 

 

P - Houve alguma outra época em que os bairros tinham um aspecto mais... 

 

R - Não, nunca. O pessoal vinha para aqui e mudava completamente. O meu pai que não mudou. Ele, quando esteve em Israel em 35, o pessoal assim disse: “Vinte anos de Brasil e não mudou nada.” 

 

P - Está igual? 

 

R - Na minha casa não se... Esse meu irmão caçula é maluco por futebol, então às vezes era sexta-feira… Ele tinha um rádio no quarto, mas não ligava o rádio porque meu pai podia desconfiar, escutar, chegar e pegar o rádio ligado. 

Tinha a hora iídiche [na] sexta-feira. Em casa não se ouvia hora iídiche [na] sexta-feira. 

 

P - A sua casa era uma casa bem tradicional, kosher

 

R - Kosher. E no princípio o pessoal que vinha [para o Brasil] vinha para a minha casa porque era a casa do shochet - [a] casa principal, como a casa do rabino, então tinha que dar hospedagem. E nos Pessach então o pessoal que vinha queria comer kosher. Primeiro Pessach no Brasil, então a minha que.... 

 

P - Que trabalheira... 

 

R - Trabalheira. 

 

P - Que trabalheira, hein? 

 

R - Não me lembro disso. Só contaram, porque isso eu não me lembro. E as festas eram festas de alegria mesmo. Porque [a gente se] reunia, o chopp rolava; tinha barris de chopp e... 

 

P - Vocês moravam em que, em uma casa? 

 

R - Uma casa. 

 

P - Um sobrado desses? 

 

R - Não. Bom, eu morei num sobrado desse; embaixo tinha uma farmácia, perto do açougue. Eu morei em cima, eu tinha nessa época três anos. 

Eu me lembro, [a] primeira lembrança que eu tenho de mim é que eu engoli um alfinete. Vai fazer agora 68 anos. Era dia dois de novembro. Dia dos mortos, feriado, tudo fechado, mas o farmacêutico morava com a mulher e eles não tinham filhos. E todo garoto em geral é esperto, todo garoto normal, então eles gostavam muito de mim. 

Eu me lembro ainda dos talheres porque eu comia muito lá, então minha mãe desceu… Porque eu digo, eu tinha três anos. Minha mãe estava dormindo assim, na cama, tirando um cochilo e eu sentado em cima dela assim. Ela estava de lado. Eu não sei porque eu estava com aquele alfinete. Eu ia fazer qualquer coisa e botei o alfinete aqui na boca para segurar, ela se mexeu e eu engoli. E ninguém viu. Ela acordou e: "Que foi?" Comecei a tossir e disse: "Engoli um alfinete." Ninguém mais quis acreditar, mas eu estava dizendo.

Ela desceu na farmácia e o sujeito mandou dar um purgante - naquela época, qualquer coisa era purgante. Nós tínhamos uma vizinha que morava do outro lado da rua. Tinha uma vila que morava muitos judeus ali, que todo dia ou a minha mãe ia lá ou ela vinha aqui. Ela veio e quando soube disse: "Não vai ficar assim, não.” Foi procurar um médico que naquele tempo atendia as crianças, Juuo Monteiro, e ela me levou. [Ele disse:] "Mas que 'bobagem que foram fazer. Isto não. Tem que prender esse intestino." Começou a dar ópio, mandou comer ovo duro. 

 

P - Mas por quê? 

 

R - Para prender o intestino porque o alfinete lá dentro... [Com] o intestino em ebulição, o alfinete podia espetar o intestino e dar um problema. Então eu comecei a comer coisas gostosas: ovo duro, farofa. 

 

P - E conseguiu tirar o alfinete? 

 

R - Não. Saiu sozinho três dias depois. Mas foi uma pesquisa, três dias no pinico e se não aparecesse [era] mentira. Mas no terceiro dia apareceu pretinho, pretinho. 

Até poucos anos eu o tinha espetado dentro de um retratinho meu quando criança. O buraco do alfinete está lá, mas o alfinete sumiu. Esta é a primeira recordação que eu tenho; antes dos três anos eu não me lembro de nada. Isso me lembro, sinal que me lembro porque ninguém viu, contei a verdade. 

 

P - O senhor começou a estudar? Como foi o seu estudo? 

 

R - Em 1924, formou-se o primeiro colégio israelita com o nome de Colégio Maguen David ali na rua - naquele tempo, era Rua São Cristóvão. Agora é Joaquim Palhares, na esquina com a Barão de Iguatemi. 

Era um prédio grande, tinha um quintal enorme. Eu me lembro como hoje a tabuleta que eles botaram: “Colégio Maguen David". Depois mudou. Eu comecei e naquele tempo não tinha jardim de infância, entrei logo no primeiro ano. Não sabia nada. 

 

P - Direto? O senhor antes não tinha tido nenhum tipo de estudo judaico? 

 

R - Não, nada. 

 

P - Nem com o seu pai em casa? 

 

R - Não, com quatro anos ainda não. 

 

P - O senhor disse 1924, então o senhor tinha seis anos. O senhor não disse que nasceu em 1917, então tinha seis? 

 

R - Então foi em 1922. 

 

P - Ah, tá! Aí o senhor estudou? 

 

R - Comecei a estudar e esse colégio·depois virou Colégio Hebreu Brasileiro. 

 

P - Ele é o Liessin hoje? 

 

R - Não sei. Não, porque esse colégio acabou. Está o impacto ali na rua Desembargador Isidro e não é o Liessin, não. Nós mudamos desse colégio, era na rua Joaquim Palhares e nos fomos para a rua Barao de Uba. 

 

P - O colégio? 

 

R - O colégio mudou-se porque ficou pequeno. 

 

P - Já tinha mais crianças, né? 

 

R - Mais crianças, mais crianças. Já esse meu irmão... 

 

P - Para que rua ele foi? 

 

R - Barão de Uba. Então fizeram primeiro exame de admissão com o primeiro ginásio também, a minha turma era a primeira. 

 

P - Quer dizer que o seu estudo foi feito aí? 

 

R - Aí. 

 

P - Era um colégio registrado no governo brasileiro? 

 

R - Era e o exame de admissão oficializado. Aí mudou para Colégio Hebreu Brasileiro. Minha turma foi a primeira do curso de ginásio. 

 

P - E o senhor fez o ginásio aí? 

 

R - Só até o segundo ano porque eu era muito levado. Todo dia vinha carta reclamando, aí o meu pai ficou desesperado e acabou me tirando do colégio. Eu fui o primeiro filho que foi sábado ao colégio porque meu irmão mais velho era aluno do Colégio de Belas Artes, de artes e oficio, que agora é na Praça XI, numa rua que tem ali. 

 

P - Ele estava aprendendo o quê? 

 

R - Ele queria aprender Mecânica, mas não ia sábado à aula, meu pai não deixava. Aí no fim do ano o diretor disse: “Se ele não pode vir sábado, então não precisa vir.” 

 

P - E como é que resolveu o assunto? 

 

R - Aí o botou para aprender ourives. 

 

P - E o senhor foi para que colégio? 

 

R - Eu fui para o Colégio Silvio Leite. Era na Rua Ibituruna. Agora tem um prédio lá que tem vários judeus morando. 

 

P - E lá tinha muitos judeus? Ou o senhor era... 

 

R - Tinha. 

 

P - E seu pai o deixou estudar nos sábados? 

 

R - É porque naquele tempo só tinha este colégio, depois é que formaram o Talmud Torá. Naquele tempo só tinha este e ele teve que me tirar. 

 

P - Teve que se adaptar, né? 

 

R - Então eu deixei de ir [aos] sábados à sinagoga. Eu costumava ir todos os sábados com papi à sinagoga. 

P - E o científico o senhor fez onde? 

 

R - Naquele tempo não tinha científico. Naquele tempo eram cinco anos de ginásio e o sujeito fazia vestibular. 

 

P - Então se fazia vestibular mais novinho. 

 

R - Novo.  

 

P - O senhor estudou Medicina onde? Na Universidade Federal? 

 

R - Na Nacional. 

 

P - Na Tiradentes? Na Praia Vermelha? Ah é, na Tiradentes era o de Engenharia.  

 

R - Não. Largo de São Francisco. 

 

P - Largo de São Francisco, eu me confundo. E na sua época... 

 

R - O ano... Em 1935, meu pai resolveu voltar para Israel. 

 

P - O senhor já estava na faculdade? 

 

R - Não, eu tinha entrado na faculdade. 

 

P - Ele sempre viajava outras vezes... 

 

R - As duas primeiras vezes, que ele voltou... Depois, quando ele... Em 18, ele voltou... No meio do caminho. Porque quando ele viajava de navio, ele só comia ovo duro e sardinha em lata. 

P - Nem pão? 

 

R - Pão, mas não comia comida. A primeira vez que ele fez refeição mesmo foi quando ele voltou em 36. Havia a guerra da Itália com a Abissínia; havia um boicote aos navios italianos e eles voltaram num navio italiano. Para você ver que o Mussolini não era antissemita antes dele fazer o acordo com Hitler. Na Itália, o judeu era livre. 

 

P - Mas o seu pai, quando foi em 35, ele foi sozinho? 

 

R - Não, com a família toda. 

 

P - O senhor foi também? 

 

R - Eu só que não, porque a minha irmã já era casada. 

 

P - Então ela ficou. 

 

R - Eu fiquei com a minha irmã aqui. Comecei a estudar..... 

 

P - E o seu outro irmão, que era ourives? 

 

R - Foi. O meu outro irmão menor também foi, fez o Bar Mitzvah la. 

 

P - E ele ficou lá só um ano? 

 

R - Ficou só um ano. 

 

P - Também não conseguiu se estabelecer?

 

R - Não conseguiu [se] estabelecer. 

 

P - Pela mesma...? 

 

R - E porque nessa época já havia cidades e coisas, mas ele só sabia fazer shechita e lá não é feito aqui. Aqui o sujeito chega e diz "sou shochet", lá não. Lá o shochet já tem o seu lugar. 

Tinha um anúncio no jornal de um shochet que tinha morrido. A viúva ficava com o diploma e vendia, então ele foi lá ver. Já havia 120 candidatos na frente dele; ele sentiu que não tinha nada que fazer lá, então voltou. Mas a prova que ele não queria voltar do…

 

P - Ele estava frustrado de voltar? Ele queria, como o senhor disse, que queria terminar a vida dele lá. 

 

 

R - Não. Porque quando ele saiu daqui, no papel ele saiu, atrás estava assim: “Se deseja voltar ao Brasil peça visto e retorno.” Quer dizer: "Quero voltar." O sujeito assinaria e voltaria com a maior facilidade, entendeu? Mas ele vendeu uma casa que tinha comprado; não pediu visto de retorno, então quando resolveu voltar foi a maior dificuldade aqui. 

 

P - Por quê? 

 

R - Porque naquela época o Getúlio já estava prendendo a entrada do judeu. 

 

P - Por quê? O senhor tem ideia... Pode? 

 

R - O Hitler já estava começando a mostrar... 

 

P - Mas já tinha influência no Brasil? Para os integralistas também? Plínio Salgado e companhia limitada? 

 

R - Plínio Salgado. 

 

P - E mesmo tendo dois filhos no Brasil, ele teve dificuldade de entrar? 

 

R - No Brasil ele não teve problema. Mas ele só voltou porque o meu irmão, que é brasileiro, estava lá e queria voltar... E naquele tempo não tinha Embaixada de Israel lá; tinha do Brasil em Israel. Era no Líbano, em Beirute. 

 

P - Então ele ficou lá um ano, não conseguiu e voltou. 

 

R - Não conseguiu e voltou, definitivamente. E quando ele voltou para ele e desfez a sociedade no açougue, já tinha desfeito a sociedade no brit porque no princípio ele já tinha feito a sociedade do brit com o Zinger. Mas como o Zinger começou a ter mais movimento, não interessava a ele ser sócio. Eles desfizeram a primeira sociedade e ficaram sócios só no açougue. E quando ele voltou ficou sendo empregado do Zinger e de um outro açougue [em] que o Zinger era só açougueiro, mas tinha o açougue, então também pagava para mandar carne para ele e começou a viver disso. 

O brit pouco ele fazia porque quando o outro saía do Brasil, Rio, o pessoal chamava ele muito pro Estado do Rio de Janeiro. Meu pai mesmo, no tempo em que fazia brit, ele foi a Pelotas, foi à Bahia, foi a Minas, ia a Belo Horizonte. 

 

P - Tem... Uma curiosidade só. De shochet, a palavra, o substantivo e shechita. De mohel, tem? 

 

R - Mila. 

 

P - Ah é, está certo. Brit Mila. Nunca liguei as duas coisas, mas é verdade. 

Tem alguma recordação, alguma coisa que o senhor gostaria de falar do seu pai? Do trabalho? Ou, por exemplo, o senhor poderia me falar quando começou a se interessar por este trabalho? 

 

R - Na verdade, eu não me interessei. Por acaso, quando o meu pai foi para Israel eu disse: “Eu não vou.” Eu estava começando a estudar Medicina e minha irmã disse: “Não, ele fica comigo", então ele me deixou. Ele era muito amigo do professor de Urologia da Faculdade. 

 

P - Brasileira? 

 

R - Ele era brasileiro, mas tinha operado o meu irmão com quatro anos de hérnia, esse meu irmão menor, e fizeram amizade. Tanto que quando você fizer uma circuncisão, eu quero ver. Porque ele não tem noção nenhuma [de] como se faz uma circuncisão. Tanto [que] quando nasceu o meu sobrinho, que é médico agora, e era o primeiro neto dele, do meu pai, ele convidou ele para assistir, mas ele estava muito ocupado e não assistiu. Aí meu pai foi lá e disse: "Olha, eu quero que você tome conta do Moisés." “Olha, quando ele começar a estudar manda ele me procurar.” Então fui e eu comecei, desde o primeiro ano, a trabalhar com ele na enfermaria. 

 

P - Urologia. 

 

R - E só olhando. Desde garoto eu queria ser médico, mas nem sabia o que era urologia. Para mim, médico e o médico que chega, examina, receita um remédio. 

 

P - Vê se está doente, se está com gripe... 

 

R - Eu tinha um gosto, então eu, já maiorzinho, copiava muitas fórmulas. Não é feito hoje, que se dá o nome do remédio, era formulado. Eu, então, copiava aqueles xaropes, aqueles nomes que eram para mais tarde eu receitar. Mas caia ali porque aí ele me nomeou interno, entendeu? 

 

P - Com um ano de escola? 

 

R - Não, com dois anos. 

 

P - Com dois anos. 

 

R - E então eu fiquei. Ele era muito amigo meu, então eu fiquei lá. 

 

P - Quantos anos eram de faculdade de Medicina? 

 

R - Eram seis anos.  

 

P - O senhor se formou bastante novo, então? 

 

R - Muito. 

 

P - O que, 21, 22? 

 

R - 22 anos. E fiquei sem querer urologista porque a gente vai aprendendo, a gente era obrigado a assistir as aulas dele, então... A primeira operação que ajudei eu estava no segundo ano ainda. Desde o princípio, olhava o que que o ajudante faz. A primeira coisa que eu ia fazer não era operar, era ajudar. Eu ficava prestando atenção no ajudante. E lá o serviço começava às sete horas, [às] sete horas a gente estava entrando. Eu saía, dez para as sete estava lá. 

Um dia cheguei, ele chegou às sete horas: "Mande o doente para a sala.” Não tinha ninguém ainda, até a sala de operação ainda estava fechada. Tinha chegado naquela hora para abrir a sala. Fazia-se muita raque, anestesia, injeção na espinha. E a gente tinha que pingar umas gotinhas que tirava no líquido da espinha. Naquele tempo era raque, tirava-se o líquido da espinha e tinha que pingar umas gotinhas dentro da seringa. Esse era o serviço do interno. Eu fiquei perto dele e ele disse: “Menino!” - sentiu que não tinha ninguém perto dele - “vá lavar as suas mãos para ajudar·na operação.” Eu fui lavar as mãos, aí chegou o assistente. Todo vermelho e envergonhado porque... 

 

P - Atrasado? 

 

R - Quando ele chegou, senti que o meu lugar não era ali, então enxuguei as mãos [e] fui pra perto… Fazer o meu serviço. 

 

P - O senhor já tinha serviço ali? 

 

R - O serviço do interno era pingar as gatinhas dentro da seringa. Tinha que pingar certinho dentro da seringa para não derramar por fora. 

 

P - Ah, já entendi. 

 

R - Aí ele sentiu e disse assim: “Menino, mandei você lavar as mãos.” 

 

P - Sentiu que o senhor estava se retraindo. 

 

R - Aí eu fui e o outro ficou todo vermelho. Depois eu ajudei fazer a operação. 

 

P - E como o senhor chegou na mila

 

R - Na mila? Bom, meu pai ja nao estava fazendo, né? Quando eles foram para Israel em 35, eles foram com uma pessoa que era de Belo Horizonte. E lá o meu pai já estava querendo voltar e outro soube que ele ia ganhar mais um neto em Belo Horizonte. Eles tinham feito amizade de navio, e então disse assim: " Eu gostaria que você fizesse o mila do meu neto.'. O meu pai pensou: "Isso é bobagem, porque lá não vou fazer mesmo.” 

 

P - Por que não? 

 

R - Porque o outro tinha tomado conta da cidade. Isso eu estou contando, quer dizer... Minha mulher acha que isso é fofoca - isso nao e fofoca, é verdade. Ele era uma pessoa muito... Como ele era o único, então ele... 

 

P - Muito cheio de si. Eu conheço. 

 

R - Fazia brit antes dos oito dias, só vim a descobrir quando ele foi para Israel definitivamente. Ele tinha um brit na quinta feira, mas ia viajar na quarta feira. Disse: "O que tem? Mais um dia, menos um dia." Mas na casa tinha uma pessoa religiosa que disse: "Esse negócio... " Porque depois dos oito dias pode ser feito... 

 

P - Mas antes não. 

 

R - Mas antes nao pode e eles já sabiam... Eu estava no mercado, então eu... Não... Viajou e... Eu fui e fiz o brit e o cara me contou a estória, quer dizer ele não ia inventar. 

Outra coisa, eu confesso que eu viajava sábado. Porque quando ele foi, uma semana depois teve três brit no sábado - um em Santa Teresa, um em Copacabana e um na Zona Norte. Como é que eu vou fazer? 

 

P - Tinha que viajar, né? Pois é, o senhor ainda não me contou... 

 

R - Calma, calma. Eu vou chegar lá. O meu pai, quando tinha um brit sábado, se tivesse dois ele só iria fazer o primeiro. 

 

P - A não ser que fosse um do lado do outro. 

 

R - Certo. Ele ia sexta-feira para a casa da pessoa, dormia lá, fazia o brit de manhã, à noite fazia o curativo·do neném e pronto. O outro não, o outro viajava. Então meu pai disse: "Eu não vou fazer este brit.

 

P - Desse neném? 

 

R - Desse neném. Então aconteceu que em Belo Horizonte, num domingo, eles marcaram lá, fizeram uma grande festa. O sujeito era rico, marcaram a festa e o convidaram para fazer o brit. Só que naquele domingo tinha três brit para fazer aqui. Meu pai já estava aqui e disse assim: “Se eu vou pra lá, alguém pode se lembrar do Marcos e chamá-lo para fazer... Vou perder três brit.” Aí deu bolo no pessoal. Pessoal telefonando, ninguém atendendo telefone aqui. 

[Na] segunda-feira ele deu uma desculpa e aí marcaram para outro domingo. No outro domingo aconteceu novamente a mesma coisa. Que destino? Realmente duas vezes o sujeito ficou desesperado. Marca festa, convida gente, o sujeito não vai e começou a xingar. Então alguém disse assim, se lembraram. “Ah, não, tem o Marcos. O Marcos já está no Brasil.” Aí meu pai fez aquele brit. 

 

P - Foi para Belo Horizonte. Era destino ele fazer o brit do neto do amigo. 

 

R - Bom, quando ele não estava mais fazendo, de vez em quando, quando o outro ia para fora, alguém se lembrava: “Tem o Marcos." Ele já estava velho, ele podia fazer, mas eu não queria o sacrifício dele porque ele já estava um pouco doente, mas ainda estava matando bois. Quer dizer, ele ia cedo, acordava às quatro da manhã para ir para o matadouro e eu não queria que ele fizesse, porque era responsabilidade. Eu nem sabia como é que fazia. Teriam chamado o sujeito... Dizia... Não foram chamar o Zinger, mas o Zinger foi para fora. Eu dizia: "Espera, pode fazer depois, espera ele voltar. Até que um sefaradi fez um escândalo na porta de casa e isso era de religião. “Aí quem é que manda, o pai ou o filho?” Eu disse: ”O pai manda no filho, mas o médico manda no doente e ele é um doente. Ele é o meu doente, então ele não pode ir.” Mas eu senti que ia começar outros dramas iguais a esse. O sujeito fez um escândalo, nós morávamos numa vila. 

 

P - Sempre nessa zona? 

 

R - Nessa zona, na Praça XI mesmo. Fez aquele escândalo e disse assim: “Papai, o primeiro que aparecer o senhor não vai fazer porque eu quero ir para ver.” E aí eu vi que não tinha dificuldade nenhuma. 

 

P - O senhor já era médico formado ou estava na faculdade. 

 

R - Já estava formado. Já tinha visto circuncisão em adulto, o que é completamente diferente. O primeiro que apareceu eu disse: “O meu pai não vai, mas eu vou.” Ele disse: “Quero o seu pai.” Eu disse: “Meu pai não vai.” 

 

P - E aí? 

 

R - Esse não fez escândalo não, se conformou, mas o segundo aceitou. Eu me lembro até a rua: Rua Pedro Américo. 

 

P - No Catete? 

 

R - No Catete. Meu pai foi comigo pra ver e viu que eu fiz direitinho. 

 

P - E aí? 

 

R - E aí me soltou. Ele me soltou, mas no princípio era bobagem porque ninguém ia me chamar. Mas aí o cabeça da colônia sefaradi brigou com Zinger, aí foram à minha casa - eu ainda era solteiro - foram à minha casa para o meu pai voltar. Meu pai disse: ”Não, tem o meu filho que está fazendo.” 

Eles não tinham saída porque tinham brigado; me aceitaram e eu comecei a fazer. O sujeito começou a fazer propaganda e eu entrei no mercado. 

 

P - Mas o senhor, em algum momento, a partir do momento que se desenvolveu o seu interesse, passou a conversar mais com o seu pai sobre o assunto? A se interessar mais? O senhor disse até certo momento que não tinha interesse no assunto. 

 

R - Não, não tinha interesse. Mas quando ele mostrou... Depois ele me deu algumas aulas. 

 

P - Ah, era isso que eu queria saber. 

 

R - Ele me ensinou todos os dinim. Tem uma porção de coisas, de regras. Ele me ensinou muita coisa. Porque a circuncisão é fácil, mas tem casos difíceis. Ele pegou muitos casos difíceis em que ele, não sendo médico... Ele não era médico, mas naquela época, se ele tivesse estudado Medicina, ele seria um grande médico. 

 

P - Ele tinha afeição. 

 

R - E porque lá em casa qualquer corte, mesmo coisa mais grave, ele tratava sozinho. Esse chifre que ele pegou do boi, ele mesmo se cuidou e ficou bom. Ele tinha jeito para isso. 

 

P - Para Medicina? 

 

R - E para Medicina. 

 

P - Tinha Medicina dentro dele. 

 

R - E então muita coisa ele me ensinou. Muitas vezes o pênis da criança é muito pequenininho, então ele me ensinou que tem que se fazer uma massagenzinha porque às vezes ele cresce. Certas coisas que ele me ensinou que são de valia. 

 

P - O senhor ficou sendo médico e mohel. 

 

R - Mas depois comecei… Com o aumento do movimento, eu comecei a fazer gente que nao era da religião, gente goi. Comecei a pegar casos assim, de crianças; uma criança de dois anos que estava quarenta e oito horas sem urinar. 

 

R - Fimose, né? 

 

P - Fimose, mas sem urinar completamente. O pai chegou no consultório desesperado porque com dois anos a gente tem que fazer uma anestesia. Então porque ele já se alimentou, agora, só a noite. O pai dele: "Mas eu não aguento mais, ele está desesperado." “Bom, o senhor, querendo segurá-lo eu faço aqui.” 

 

P - Frio! Coitada da criança. 

 

R - Você sabe que ele estava sofrendo tanto que quando eu cortei - porque isso é um corte - a bexiga dele estava tão cheia que ele urinou o consultoria todo. E o alívio dele foi tão grande que ele ficou no colo do pai sem chorar. 

 

P - Feliz da vida. 

 

R - Vinte e oito anos depois eu fiz o brit do filho desse cara. 

 

P - O que é o mundo. 

Com o passar do tempo, o senhor ficou somente com a parte de mila

 

R - Não, porque eu passei a ver estes casos e parafimose. Se você quiser ver uma fotografia eu mostro, de pediatras que empurram para trás aquela pele, depois que aquilo incha, compreende? O sujeito não sabe o que é isto, então fica desesperado. Comecei a ver tanta coisa: câncer de pênis, o sujeito tendo que fazer amputação total. Então já comecei a olhar por um outro lado. Era uma coisa que tinha que fazer sistematicamente - religiosa ou não, todo mundo devia fazer isso. Eu já levei para o lado científico. 



P - Moysés, o outro rapaz já tinha anotado aqui também, eu fiquei com curiosidade. O seu pai também realizou alguns casamentos no Rio? 

 

R - Os primeiros casamentos no Rio foram realizados pelo meu pai. Até Jacob Schneider, quem casou foi o meu pai. O grande sionista que... 

 

P -· Eu conheço. 

 

R - Porque não é obrigado a ser rabino para fazer casamento. Nem tinha rabino, papai sabia e meu pai só não era rabino porque não tinha smicha, quer dizer, ele não tinha diploma de rabino. Mas, naquele tempo, todo mundo o que que estudava? Ia no cheder, estudavam aquilo e sabiam tudo: as leis. O sujeito sabia. Então ele era a pessoa mais importante daquela comunidade. 

 

P - Com mais conhecimento? 

 

R - Então ele era a pessoa que fazia casamentos. 

 

P - O senhor não lembra por que que a família foi…? O senhor disse que seu pai foi para Safed. Ele nasceu em Safed. 

 

R - Ele nasceu em Safed. 

 

P - E o pai dele que foi para Safed com três anos, já pequenininho, por que... Por que não foram para a Palestina? 

 

R - Não sei. Bom, por que... 

 

P - E essa tradição de ser shochet e mohel começou com o seu pai? 

 

R - Não, com o meu avô, mas meu avô pelo lado materno. 

 

P - Ah, do outro lado. 

 

R - E do outro lado. Porque o pai do meu pai era Melamed. 

 

P - Quer dizer... Mohel era esse Isaac Friedman? Ele que começou, aí passou para o genro? 

 

R - Pro genro. Naquele tempo, casava e o genro não trabalhava e casava cedo, então tinha… Como é que chama? Aqueles anos de kest. 

 

P - De ser mantido. 

 

R - Sim, já ensinava uma profissão para poder ganhar. 

 

P - E se eu entendi bem, o seu filho continuou a tradição. O seu filho é médico também. 

 

R - É médico. 

 

P - Quantos filhos o senhor tem? 

 

R - Tenho três. Esse homem e duas moças. 

 

P - E ele é médico. Dr. Benami Cohen. 

 

R - Ele e médico e angiologista. Mas ele acompanha desde garoto, então ele aprendeu. Ele ficava no consultório, ouvia as conversas, então ele aprendeu muito comigo. E na verdade eu pensei que ele não queria, mas a necessidade obriga. 

 

P - Obriga a muita coisa. 

Tem algum fato mais que a gente não tenha dito, que o senhor fosse lembrar do seu pai, que o senhor gostaria de lembrar... Porque eu acho que seu pai foi uma figura importante na comunidade. 

 

R - Foi. Ele tocava shofar. 

 

P - Em que sinagoga vocês iam? 

 

R - Ele era do Beit-Yaakov. 

 

P - Ah, dessa pequena sinagoga. 

 

R - Dessa pequena, que quando era Rosh Hashaná, ele iam, alugavam. Naquele tempo... O Ginástico Português, esse Ginástico Português que tem na Rua Graca Aranha. Antigamente era na Rua Buenos Aires. Tinha uma casa enorme, bonita, então eles alugavam aquela casa e lá que eles rezavam porque aí já era muita gente. 

 

P - Era em que rua? 

 

R - Era rua… Rua Buenos Aires. 

 

P - Ah, na rua Buenos Aires. 

 

R - Era um clube, clube Ginástico Português. 

 

P - E essa sinagoga não existe mais? 

 

R - Lá não era sinagoga. 

 

P - Não, essa Beit-Yaakov. 

 

R - Ah, o Beit-Yaakov era na Rua Presidente Vargas. Aquilo tudo foi abaixo. 

 

P - Por causa do Metrô. 

 

R - Então o pessoal de lá e que começou a fazer o templo. O grande templo e o pessoal de lá do Beit-Yaakov. 

 

P - Mas o... A Tenente Possolo deve ser o quê? 1923, mais ou menos. 

 

 

R - Não. Depois, mais tarde. 

 

P - Eu pensava que era mais cedo. 

 

R - Não. 

 

P - E aí depois que essa pequena Beit-Yaacov foi destruída, o seu pai foi para qual sinagoga? 

 

R - Aí construíram na Rua Santana, Beit Israel - que também com o metrô, já foi demolida. A primeira sinagoga construída como sinagoga. 

 

P - Ah, porque o Beit-Yaakov era um prédio adaptado? 

 

R - Era um sobrado, tinha um botequim embaixo, e em cima tinha escada e tinha a sinagoga. E as outras sinagogas todas eram salões, assim... Eles alugavam salão, entendeu? Em cima de cinemas - tinha o cinema Rio Branco, tinha o cinema Centenário. 

 

P - E aí alugavam a parte de cima. 

 

R - Alugavam o sobrado e faziam a sinagoga ali. Mas na rua Santana tinha um terreno que eu jogava muito futebol lá, porque eu morava numa vila em frente. Era a Rua Santana, ali perto já da Central, perto da linha do trem. E era um terreno vazio que eu joguei muita bola lá. Depois eles compraram aquele terreno e construíram a sinagoga. Foi a primeira sinagoga, que foi Beit Israel. Foi a primeira sinagoga construída como sinagoga, porque o templo ainda não sei se já estava… Mas ficou muitos anos parado. Levou muito tempo para acabar. E essa não. [Em] um instantinho eles fizeram a sinagoga e aí o papai começou a rezar lá. 

 

P - E a livraria também...? 

 

R - Foi do meu tio. Livraria S.Cohen. Na Praça XI, começou na Praça XI. 

  

P - Eu me lembro ainda dela, mas no Campo de Santana. Como se chama aquela rua... 

 

R - Visconde de Itaúna. 

 

P - Ah, Visconde de Itaúna. 

 

R - Quase perto da sinagoga, da onde era a sinagoga. Era a segunda ou terceira loja. Depois, quando começou a demolir, meu tio botou a mão na cabeça e disse: "Acabou o negócio". Então alugou na Praça da República. 

 

P - Foi aí que eu conheci. 

 

R - E aí então começou a fazer dinheiro porque tinha dois colégios ali. Ganhou muito dinheiro. No princípio, ele ficou apavorado. 

 

P - Está certo. Bom, eu acho que é só! 



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