Busca avançada



Criar

História

De pai para filho

História de: Messias dos Reis de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/11/2014

Sinopse

Messias ganhou 700 pés de café para cuidar quando ainda era adolescente. Nascido em Nova Resende/MG, continuou a atividade que o pai e o avô exerciam, confirmando a cultura dos seus antepassados.

Tags

História completa

Meu nome é Messias do Reis de Oliveira. Sou nascido em Nova Resende, 29 de novembro de 1975. Sou filho de João André de Oliveira e de Jesuína Conceição de Oliveira. Eles nasceram em Nova Resende também. Meus pais, toda vida, nasceram na roça e foram trabalhadores rurais. Sempre a atividade aqui na roça foi o café. O meu pai começou a trabalhar na roça ajudando o meu avô. O nosso ritmo aqui é isso, ele começou ajudando o avô dele carrear, depois eles mexiam com engenho, moía cana, era a atividade naquela época. Depois começou na agricultura do café. Era do meu avô a propriedade. Depois ele foi trabalhando, meu avô deu um pedacinho pra ele trabalhar por conta dele, nisso ele foi conquistando mais, comprou mais um pedaço e formou café. Aí foi passando, meu avô passou pro meu pai, meu pai trabalhou, conquistou mais um pedaço, comprou do vizinho. Não de escritura, mas meu pai já repartiu, passou um pedaço pra cada filho. Nós somos 11 irmãos. Trabalham tudo na área rural. Nenhum ficou doutor.

O amanhecer - Desde quando nós levantávamos cedo, às vezes ajudar o meu pai a tirar um leite, que tirava um leite pro consumo da família, ele levantava cedo, passava um café e repartia com os filhos. Era preparado, assim, tinha um fogão a lenha, era todo o processo. Demorava uma meia hora pra fazer um café. Antigamente socava no pilão, abanava, tirava as cascas, aí moía, torrava numa panela, moía no moinho e aí fazia um coadorzinho assim de um pano de algodão, uma coisa, punha pra coar pra fazer o café. Minha mãe e minhas irmãs cozinhavam, lavavam as roupas, tudo, arrumavam a casa. E nós comíamos antigamente era arroz, feijão, verdura. A carne que mais consumia era uma carne de frango ou de suíno. Na roça nós sempre cultivamos mandioca, planta uma bananeira.

Professora Jorgina - Quando eu entrei na escola eu tinha sete anos. Aos 12 anos eu saí pra trabalhar no sítio. Andava longe pra ir à escola, andava cinco quilômetros pra ir à escola. Estudava três classes numa sala só antigamente. Eu tive a professora minha da quarta série, a última. Ela gostava de brincar de bola conosco, sabe? Ela era a goleira. Porque nunca assim pra trás as professoras brincavam, mas ela brincava de bola. Ela é Jorgina, mora em Nova Resende hoje.

O futebol - De primeiro, nós éramos quatro irmãos que eram meio de escadinha, modo de falar, o que nós mais brincávamos era jogar bola. Fazia uma embaixadinha na beirada, num cantinho do sítio e fincava três paus lá e era ali que era a diversão. Desde que eu comecei a ver televisão, eu torço pro Cruzeiro. A cor minha preferida é azul e o Cruzeiro o time é azul aí eu comecei, apanhei gosto pra torcer. Eu pensava em ser jogador, mas como era ruim demais, não deu. Até cheguei a fazer um curso, mas não passei, aí fiquei no sítio mesmo. Meu pai me deu pra eu plantar 700 pés de café e aí eu fui trabalhar com o meu pai.

Atividade rural - Desde pequenininho eu ajudava o meu pai na roça. Desde os sete anos eu lembro de ajudar. Meu pai de primeiro mexia no cultivo do café, não tinha roçadeira, era tudo manual, aí às vezes eu puxava um cavalo pro meu pai “sorocar” um café. Catava café de mão, que o restinho que sobrava no chão que caía nós íamos catar. Eu tinha 12 anos quando ele me deu uma área da propriedade já plantado o café. Ele fez com todos os filhos isso. Ele dava um pedacinho, aí naquele pedacinho nós fomos trabalhando, fomos segurando e fomos conquistando mais. Nós não recebíamos dinheiro, nós trabalhávamos pro meu pai, era o sustento da família. E na área que ele tinha dado pra nós, nós fomos juntando. Foi uma economia que nós fomos fazendo. Foi em 87 que ele me deu, esse café. Quando foi em 90 aí eu plantei mais 2000 com o dinheiro desse na propriedade dele mesmo. Depois nós arrendamos mais um pedaço de terra, fomos trabalhando eu e os meus irmãos. Em 94, eu colhi na época 30 sacas de café. Eu vendi, eu comprei uma moto pra eu andar, eu tinha 18 anos na época, 19.

A diversão - Sempre ia pra cidade, ia todo mundo a pé, tinha vezes que ia a cavalo. Sempre tinha festa, ações, assim. Nós nunca fomos de ingerir bebida alcoólica, essas coisas, droga. De primeiro também esse negócio de droga nem tinha, era tudo tranquilo. Era festa de barraca, cantor, sempre tinha aniversário da cidade, sempre teve festa. Tinha época de Semana Santa, quaresma, era por aí. Rodeio, sempre teve rodeio. Era a diversão que nós tínhamos.

Namoro e casamento - Ela já era vizinha minha mesmo, toda a vida. Nós, bem dizer, fomos criados juntos, depois nós começamos a namorar. Quando eu comecei a namorar ela eu tinha 24 anos. Trocamos uns olhares, começou. Passados cinco anos, aí nós decidimos casar. Meus pais fizeram uma festa, mataram uma criação, um boi, um churrasco, uma janta, sabe? Chamou os amigos e comemorou. Na época eu fui morar na casa do meu cunhado que tinha mudado pra cidade. Eu morei lá três anos. Minha esposa ficou grávida, nós pegamos e decidimos fazer uma casa. Nós fizemos uma casa aqui e moramos até hoje.

Paternidade - Nós estávamos fazendo a colheita do café, ela falou que estava com vontade de comer pão com salame e tomar Fanta. Nós pegamos, fomos na cidade, ela falou que não tava sentindo muito bem, foi no doutor, o doutor suspeitou, fez ultrassom, aí tava grávida. Foi uma alegria, né? Grazieli. A vida mudou muito. Primeiro, assim, eu era mais agitado, sabe, queria fazer as coisas. Era assim: queria pegar e fazer e acabar rápido e era correndo, aí acalmou o velho.

Cultura do café - Trabalhar com café, nós trabalhamos o ano inteiro, que o café só produz uma vez no ano. Chega nessa época de agosto, setembro até novembro ele dá flor, quando entra o período meio de maio nós começamos a colheita, mas durante o ano nós temos que adubar, tem que carpir, fazer desbrota, então trabalha o ano inteiro ali. Na época da colheita tem que às vezes trabalhar até a noite inteira secando porque você não pode deixar, porque senão o café zanga, não dá uma qualidade boa. Às vezes é bem difícil. É manual, mas você não coloca a mão no pé de café mais, que é com maquininha que você apanha. Depois você traz pro terreiro, aí você mexe. Tem hoje aqui em Resende mesmo fizeram uns rodos de mexer pra você mexer o café no terreiro de moto. Depois tem os tratores, depois que vai pra dentro do barracão, aí põe ele no secador, o secador é tudo eletrônico. Ele seca, depois você passa ele pra máquina pra limpar, mas é tudo sobre condutor, tipo um robozinho que leva, sabe? Depois beneficia, vem, joga no bag também. Depois você vai com o trator, pega, coloca no caminhão. Essas coisas ficaram bem mais fácil pra fazer. Aí nós mandamos pra cooperativa, o café já vai beneficiado. Lá eles classificam, veem se deu boa qualidade ou não deu. Quando dá uma qualidade boa, vale bem mais, nós lucramos mais.

Cooperativismo - Antigamente, enquanto eu não era cooperado, nós mandávamos tudo no nome do meu pai, sabe? Eles falaram pro meu pai que tinha que ir colocando os filhos de cooperados pra ir fazendo nome, se uma hora quiser mexer em banco, fazer cartão de produtor. Aí ele foi pondo. Na época eu não tinha terra, aí ele passou um contrato pra mim, eu entrei, depois que eu comprei as minhas terras. Que a cooperativa, hoje você ter um café estocado lá é a mesma coisa de você guardar um dinheiro em casa, porque se você precisa de um dinheiro hoje você liga lá, você vende o café, dentro de três, quatro horas o dinheiro tá na tua conta. Então isso dá uma confiança muito grande. E nós compramos os insumos, as coisas pra cuidar do café, nós compramos tudo lá. Nós vamos comprando, não vamos pagando, não. Vai comprando, comprando; na hora que nós colhemos o café, que nós levamos “pra mode” fazer o acerto.

Mudanças - Antigamente nós não tínhamos carro pra andar, não tínhamos moto, hoje nós temos moto. As casas que morava de primeiro, na casa do meu pai mesmo, era uma casa assim simples, bem simples. Nós não tínhamos piso no chão, não tinha terreiro de cimento igual é hoje pra fazer a secagem do café. Hoje ninguém coloca café na terra mais. Nós não tínhamos trator, então mudou demais mesmo. O jeito de plantar mudou. Antigamente plantava o café, não colocava adubo, igual hoje tem muitos produtos pra colocar. Antigamente você plantava um pé de café, ia na média de cinco, seis anos pra você tirar a primeira colheita. Hoje com três anos você tira. Tem umas que você planta as mudinhas maiores que com dois anos você já faz a primeira colheita. Aumentou a produtividade. Antigamente na minha área mesmo que eu tinha, eu colhia na média de 17 até 20 sacos por hectare. Hoje eu to atingindo a média de 45 sacos por hectare.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+