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História

De pai para filho

História de: Mauricir Lairton Moreira
Autor: Luísa Lara
Publicado em: 13/02/2019

Sinopse

Nesse depoimento, Mauricir Lairton Moreira conta sobre sua infância em Jales, interior de São Paulo, sobre sua relação com seus pais e sobre o basquete. Depois, narra sobre seu tempo de faculdade, seus estudos e relacionamentos na época. Em meio a isso, relata sobre como o trabalho voluntário esteve presente em todas as etapas de sua vida, desde a infância com o pai até os dias atuais. Por fim, fala um pouco sobre o filho e sobre o sonho de ter uma empresa de tratamento de piscinas.

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História completa

Eu nasci em Jales-SP, no dia 02 de outubro de 1971. Passei minha infância lá. Gostava muito de jogar basquete, que aprendi com meu pai, também treinador do nosso time. Ele sempre deixou muito claro que o negro tem uma dificuldade muito grande de se inserir no mercado de trabalho e tem que estudar muito para conquistar alguma coisa. E foi através do basquete que me ensinou a trabalhar em equipe e a nunca desistir. Meu primeiro jogo foi um desastre, não tinha noção de nada, mas insistimos e eu fui melhorando até chegar na seleção paulista. Competíamos em vários campeonatos, levantávamos de manhã para viajar, no ônibus que a prefeitura cedia. Não podia tomar banho antes para não perder a energia do corpo. Quando chegava no lugar, fazia todo o aquecimento, ia para o vestiário, passava as jogadas. Normalmente, o treinador não falava tanto, era mais o capitão da equipe.

 

Meu pai também me ensinou a importância do trabalho voluntário. Quando eu era pequeno, ele ia todo domingo de manhã em um lar transitório, cortava os alimentos, fazia sopa e depois a gente saía para entregar. Ele sempre falava “a gente tem que ajudar as pessoas, não pode deixar para lá, fingir que elas não existem”. Levei isso para a vida inteira. Já com minha mãe, aprendi a importância de estudar muito. Ela foi minha professora, era muito brava. Apesar de tirar notas boas, eu não saía da diretoria, brigava muito, soltava bombinha dentro do banheiro, bagunçava demais. Mais tarde, foi ela que me pediu para parar com o basquete e ir estudar, explicou que não tinha muito mais o que desenvolver no esporte, por causa da minha altura.

 

Foi assim que fui cursar Engenharia Química. Tinha a ideia de abrir uma empresa de limpeza de piscinas e o meu diferencial seria fornecer a ART, Anotação de Responsabilidade Técnica, algo que ninguém dá. Fiz cinco anos de UNIMEP, em Santa Bárbara D’Oeste, e depois fui para a Unicamp. Lá, tinha uma bolsa de iniciação científica, porque estudava escoamentos bifásicos, muito importantes na extração de petróleo, por exemplo. Nessa época, uma empresa me convidou para trabalhar e eu aceitei, já que estavam oferecendo muito mais do que uma bolsa de estudos. Fui trabalhar na área de tratamento de superfícies, que é justamente com o que trabalho até hoje.

 

A primeira vez que senti na pele que deveria me esforçar mais apenas pelo fato de ser negro foi quando comecei a visitar empresas. Em várias entrevistas de emprego que fiz, a pessoa sempre ficava impressionada comigo durante a conversa por telefone, mas, quando me via pessoalmente, era possível perceber que ela não ia te contratar só porque era negro. Um dia, eu estava na C&A, tinha acabado de sair da Unicamp com meu primeiro salário, mas estava sujo, porque ficava no laboratório. Resolvi fazer o cartão da loja e falei que era engenheiro químico para a atendente. Ela começou a rir e eu pedi para conversar com o gerente. Ele falou algumas coisas e mandou ela embora. Fiquei muito triste, porque foi ridícula a situação.

 

Na faculdade, continuei fazendo trabalho voluntário, mas sempre reclamava que ninguém mais fazia. Ficava irritado e pensava em não fazer mais nada, mas meu pai me falava “não importa as pessoas, importa você, você tem que fazer o seu e pronto”. E assim sempre fiz. Nessa época, eu era muito mulherengo, cada dia estava com alguém diferente. Inclusive, quando conheci minha esposa, a Ana. Ela é de Jales também, nós nos conhecemos lá. A gente se encontrava nas férias, mas sempre ficava no vai e vem, demorei muito tempo para assumir um compromisso. Nesse meio tempo, tive um filho, o Ian, com uma colega de faculdade, pensei se o exemplo que queria dar para ele era o de alguém que não assumia compromissos. Foi na época que virei evangélico também, já estava lendo mais a Bíblia e entrando mais em contato com a religião. Ela me fez respeitar mais o próximo, melhorei bastante nesse sentido. A Ana deu uma referência na minha vida. Ela me ajuda muito com relação ao meu filho também. Nós somos uma família diferente, mas somos uma família. Sempre vou visitar o Ian e converso com ele praticamente todos os dias.

 

Tive uma missão muito difícil com ele: estudar matemática. Era a única matéria que ele ia mal e culpava o professor por isso, aquele drama que toda criança faz. A gente passou a estudar todo dia pelo Whatsapp, foi uma experiência muito valiosa. O fato de dar o exemplo para o seu filho mostra para você mesmo que está indo no caminho correto.

 

Quando meu pai faleceu, entrei em depressão profunda. Ele fumava muito e foi ao médico com dor no estômago. Descobriu que estava com câncer, mas não quis se tratar. Comecei a pensar: “O que eu vou fazer agora?”. Foi aí que eu comecei a entrar mais em contato com o Atados. Eu já conhecia eles, porque era voluntário no Projeto Noites Solidárias (organização que prepara e distribui marmitas para pessoas em situação de rua) e escrevia para eles pedindo voluntários. Eu deixei de ser voluntário do Noites em um domingo. Na quarta-feira, chega um e-mail da Marina do Atados, falando que queria me conhecer. Aí eu comecei a ajudar lá. Quando as ONGs colocavam as vagas de voluntariado no site, eu procurava fotos legais para deixar mais atraente. Eu participava para não ficar em casa. Com a depressão, eu fiquei com um vazio muito grande, mas foi melhorando ao conhecer as pessoas do Atados.

 

Durante uma Volunfest (Festival do Voluntariado), conheci o Núcleo Assistencial Irmão Alfredo (NAIA) e tive a ideia, junto com o Bernardo do Atados, de fazer uma horta para eles. Fizemos um financiamento coletivo e conseguimos revitalizar a horta. Como nunca tinha dado aula para crianças, resolvi dar aulas na horta: calcular a capacidade produtiva anual. Deu certo e as pessoas gostaram.

 

Depois, passei a dar aulas de matemática e informática lá para os jovens, e também levava as crianças na horta, elas limpavam, eu dava oficinas de terrário, ensinava a plantar e colher. Sempre trazia a Matemática e a Informática de uma maneira muito prática. A maioria tinha dificuldade, então eu os dividia em grupos: alguns faziam projetos e outros não, os que não sabiam a tabuada. No começo não deu certo, eles me odiavam. Com o passar do tempo, a gente calculava proporções para as receitas na cozinha, ou, se eles queriam comprar um carro, quanto que deveriam poupar por mês etc. Assim, eles passaram a entender a matemática como uma maneira de usar para a vida. Um dia, estava na cozinha do NAIA e vi uma latinha de leite que sempre era jogada fora. Um amigo meu, o Amauri, com quem sempre faço trabalho voluntário junto, já tinha me dado uma pequena horta em um pote. Pensei, então, em fazer hortinhas nas latas, com os alunos durante a aula de matemática. Nós calculamos o perímetro e a área, o rótulo, a quantidade de terra que precisava, tudo. Foi assim que fui parar em uma entrevista para a Rede Globo, no segmento “Gente do Bem”. Recebi também ajuda da Gene, haitiana que trabalhava no Abraço Cultural (braço do Atados). Ela tinha muitos contatos e conseguiu uma apresentação junto a Editora Abril. Nesse dia, eles nos pediram 800 hortinhas na lata. Pensei que não poderia produzir tudo isso, mas chamamos alguns alunos para ajudar e conseguimos.

 

Meu sonho ainda é ter uma franquia de tratamento de piscinas. Em Jales, cresci no clube do Ipê, era onde treinava basquete com o meu pai. Lá, existia uma piscina e eu a via sendo limpa. Ficava me perguntando o porquê daquilo. Para mim, a piscina representa liberdade. Ela me propõe tudo o que eu desejo: paz; e sempre me dá um prazer muito grande observar uma. Fiquei honrado em poder contar minha história. Eu tenho muita vergonha e muita dificuldade de ficar olhando olho no olho. Ao mesmo tempo, pensei que o Ian vai ver isso e eu vou marcar a história dele. Ele vai poder falar para os amigos “esse é o meu pai, uma pessoa que tenta fazer a coisa certa, fica falando para eu fazer tudo direitinho, falando para eu ajudar as pessoas”.

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