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História

De pai para filha

História de: Tsai Siu Mui
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/01/2022

Sinopse

Siu Mui fala sobre sua chegada ao Brasil, aos seis anos, sua adaptação ao novo país, sua entrada na USP para cursar Agronomia por influência de seu pai, que pesquisava ervas medicinais, e sua atuação profissional. 

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História completa

P1 - Oi, Siu Mui, tudo bem com você?

R - Tudo bem. Bom dia, né? Grazielle e Alisson, é um prazer estar aqui, hoje, com vocês, mostrar um pouco o que passou [em] toda a minha vida, minha trajetória, né, até chegar aqui, desde a China. Então, gostaria primeiro [de] parabenizar por esse projeto de vocês, é muito importante descobrir pessoas, né, que estão aqui no Brasil, que talvez vocês estão dando uma oportunidade, né, pra apresentar a experiência de vida aqui, que o Brasil é um país maravilhoso.

P1 - Nós geralmente começamos a entrevista com o básico: qual é o seu nome, local e data de nascimento? 

R - Meu nome é Tsai Siu Mui, eu nasci em Macau, né, atualmente China, em 8 de janeiro de 1949. Vim pro Brasil quando tinha seis anos, em 1955. Aqui fiquei, né, desde então e conheci muitos estados, estudando em diferentes escolas, dentro de São Paulo, né, iniciando em Mogi das Cruzes, São Paulo, capital; Araxá, Minas, Feira de Santana, na Bahia; retornando a Mogi das Cruzes. E, aos dezessete anos, após oito escolas diferentes, em cada ano, eu fui pra Piracicaba aqui, né, estou aqui pra fazer a faculdade, né, na Escola de Agricultura Luiz de Queiroz, estudar Engenharia Agronômica.

P1 - E como que é o nome dos seus pais e o que eles faziam?

R - Meu pai é de família daqui do sul da China, [o nome dele é]Tsai Chan Huan. Minha mãe, Lian  ______  é de Chongqing, em Sichuan, no centro da China. Como é que os dois se conheceram? Então, o meu pai foi fazer faculdade em Nanquim, ele foi fazer Engenharia Florestal. No tempo [em] que ele estava fazendo faculdade, em 1939, houve o ataque dos japoneses, no norte da China, e Nanquim foi uma cidade muito atacada. Todos na cidade de Nanquim se transferiram integralmente pra Chongqing, que é o centro da China. Nesse tempo, ele conheceu a minha mãe e se casaram, por isso que eu tenho essa história de ser filha de um chinês do sul e de uma chinesa do norte da China. E também, essa experiência, né, deles virem pro Brasil. Meu pai veio antes, em 1953, e nos três anos depois, mais à frente, né, em 1955. E, com isso, ele transformou a vida dele, pensando no futuro dos filhos, porque na época ele tinha todo o futuro determinado, se ele pudesse, mas no momento que ele viu que, além da guerra, né, do sofrimento… porque ele trabalhou na Cruz Vermelha, nesse tempo, ajudando os feridos. Como ele tinha nível universitário, ele podia ajudar os feridos, [então] participou dessa guerra, na Cruz Vermelha. Posteriormente, ele ficou na China ainda, no norte, trabalhou com o diretor de ervas, de chás, numa fábrica, numa indústria de chás. Trabalhando, que como sendo ele engenheiro florestal, ele conhecia esse aroma, né? Então, ele trabalhou na fábrica de chá. Depois a minha família desceu pra China, né, do norte para o sul, porque ele sendo do sul, de Macau, residente, ele viu que era mais seguro. Na época, Macau era independente, era de Portugal e tinha família também em Hong Kong, também independente da China. Então, nesse tempo, ele ficou na China, no norte e minha mãe veio com a família, as filhas, né, minhas duas irmãs e eu, porém a experiência que eles tiveram não foi boa nesse período de guerra, porque a primeira filha, minha irmã, morreu com um ano de idade, justamente na fuga, né, dessa fuga de Nanquim, morreu de insolação. E aí, a experiência que ele viu, pra poder amenizar a doença da minha irmã, ele aprendeu, nesse trânsito de descer pro sul, com os chineses, o poder das ervas medicinais chinesas. Com isso, a vida toda, ele transformou em livro, tudo que ele conhecia, traduzido em livros, que eu tenho comigo, né, o material que ele fez durante trinta anos. Descreveu todas as plantas medicinais, descrevendo, desenhando e trazendo conhecimento com a medicina chinesa e comparando à medicina brasileira, o uso das plantas medicinais com os nomes naturais aqui do Brasil, nativos até, de indígenas e também com o livro, que ele poderia fazer, que é uma missão que eu devo fazer, assim que me afastar e terminar a minha missão de professora universitária, e transformar o livro dele de uma forma útil, porque a medicina chinesa e a medicina brasileira analisadas de uma forma por um chinês que estudou a Engenharia e a parte de Agricultura, de produção.

P1 - Essa parte que o seu pai, das ervas e tal, isso te influenciou pra ecologia e tal?

R - O sonho dele era ter os filhos, né, trabalhando nessa linha de agricultura, de plantas, porque o que eu vi nele foi muito amor às plantas. Eu tenho certeza que, quando ele veio pra cá, me trouxe pra cá, ele estabeleceu uma amizade muito grande também com o professor Walter Accorsi, que é um grande especialista em plantas medicinais também, botânico. E eu tive aulas com o professor Walter Accorsi. Acho que, nesse momento, eu tive uma ideia do que poderiam ser as plantas, mas não tanto como ele acreditava, porque ele vivenciou isso e ele pediu pra eu estudar Agronomia, talvez no sentido de valorizar as plantas, tudo que ele sentiu na vida, que viu no Brasil essa biodiversidade tão grande. Eu sinto que, vindo pro Brasil, deu muito mais a tranquilidade que ele precisava, pelo sofrimento dos tempos passados, o afastamento da família toda, da família Tsai, que ficou na China, em Hong Kong, né, depois. Macau, no começo, mas depois mudou pra Hong Kong. Então, isso tudo ele valorizava muito as plantas, eu via todo o amor que ele tinha, talvez seja isso que me influenciou. Mas uma outra coisa que me influenciou muito foi a leitura. Quando eu estava na Bahia, isolada na fazenda, eu tinha livros e eu ia na biblioteca da escola, de Feira de Santana, e tinha livros de "Tarzan", da África; livro de Júlio Verne, que falava sobre “Vinte Léguas Submarinas”, “Viagem ao Centro da Terra”. E eu achava que isso seria o futuro, de estudar a ciência de uma forma, onde se está isolado e eu tinha os livros. Então, os livros também me influenciaram muito, a leitura é fantástica, de aventura, né, de pessoas buscando o desconhecido, desafiá-los. Então, foi tudo isso que juntou, né, comigo, com o meu pai, as experiências dele e [a] experiência de vida nas escolas.

P1 - E quando você chegou ao Brasil, qual foi a sua primeira experiência, assim, você consegue lembrar o que você achou?

R - Na verdade, eu vim de navio, nós viemos em um navio holandês, quarenta e cinco dias, passando todo o sul da Índia, né? Nós passamos pelo sul da África, chegando no Porto de Santos e foi aí que nós vimos o meu pai, depois de três anos, né? Minhas irmãs ficaram seis anos sem ver o pai, né, mas eu três anos. E aí, nós viemos pra Mogi das Cruzes. Em Mogi das Cruzes, nós estávamos no meio de muitos japoneses, eu me senti muito à vontade lá, né? E aprender o português foi incrível. Eu, com seis anos, aprendi em três meses, porque eu achava muito difícil o português. Quando eu estava na China, tentando aprender o português, eu falei: “O chinês é mais fácil”, porque eu achava difícil o português. Mas, do momento que eu cheguei, nós conseguimos conviver com as pessoas. Nós tivemos uma professora e na idade que a gente tinha, o aproveitamento foi muito rápido e português, no momento, nós... minha irmã também, inclusive, teve distinção na escola, no primeiro ano. Então, eu acho que imigração é um desafio que eu sinto que deu um espírito de curiosidade nas nossas crianças que imigram e sentir o desafio do novo é muito importante, porque a gente realmente não sentiu esse isolamento, não. Nós sentimos um desafio a vencer.

P1 - E como é que foi a sua primeira lembrança da escola, você tem alguma?

R - Pô, eu tive um ano em cada escola, em diferentes escolas dentro de Mogi, São Paulo, Araxá, Feira de Santana, nós temos vários estados, mas eu deixei muitos amigos, assim, né, colegas. A experiência inicial foi uma escola do Padre Bezerra, que depois ficou [como] Faculdade de Mogi Das Cruzes e eu fiz então o primeiro ano, né, nessa fase alfabetizada, né? E eu acho que foi muito tranquilo, porque nós não vivemos a guerra na China. Meus pais foram embora, né, foram pro sul, deixaram pra trás tudo, pensando nos filhos. Então, eu agradeço muito ao sacrifício, de certa forma, de largar o país, deixar a família da minha mãe, né, do meu pai e vencer num país novo. Mas o Brasil realmente abriu as portas, né? E eu nunca tive problema de sofrer falta de amizade, porque nós tivemos muitos amigos, a escola fez muito bem pras crianças que nós fomos, estudar na escola.

P1 - E como foi, pra você, se mudar várias vezes, foi fácil de se adaptar?

R - Olha, na época, a gente só tinha rádio, né - é muito importante falar isso -, então, a gente se dedicava muito ao estudo, e pelo rádio a gente via as informações. Então, nós vivíamos pra estudar, né? Vivíamos num ambiente muito saudável de família e eu acho que isso fez a gente, assim, sentir que tinha compromissos de vida, de formação, de estudar, de ter amigos, então eu não tive problema algum, a não ser grandes amizades na escola. E o que chama atenção é que, quando eu estava em Mogi, de quarenta e cinco alunos na classe, quarenta eram nisseis (segunda geração de japoneses). E dos cinco, dois chineses, dos quais três [eram] brasileiros. Então, você vê como era a diferença que é estudar em Mogi Das Cruzes na época e atualmente, numa escola pública, né? E esse espírito, eu estava me sentindo muito bem e todo mundo muito juntos, né?

P1 - E, assim, quando você terminou a escola, qual foi seu próximo passo?

R - Bom, eu tive que me decidir na época pelo científico, né? Tinha o normal e o científico. Quando cheguei da Bahia, no quarto ano do ginásio, que chamava, eu estava até com muito sotaque de baiano, eu era o centro das atenções. Então, vejam como é fácil aprender o dialeto, o 'acento' (sotaque) de cada região. Então, eu tive muitas amizades e, quando vim pra São Paulo, meu pai falou: “Você vai fazer Agronomia e você vai fazer em Piracicaba”. Aí, foi um pouco difícil pra mim, porque ia sair de casa, né, com dezessete anos, mas eu achei muito bom, porque ele me colocou no Dispensário dos Pobres, se chama o local das freiras. Ele tinha muita insegurança, meu pai a vida toda sentiu insegurança, mesmo no Brasil, do trauma, assim, de guerra. Então, ele me colocou num pensionato de freiras e aí ele deixou eu ficar. Mas com o tempo eu fui fazendo pensão, repúblicas maravilhosas com colegas de São Paulo e foi assim que eu fui desafiando, mas, ao mesmo tempo, já querendo fazer estágios, né, pra aprender porque eu, na verdade, queria Geologia. Apensamento de terra, Geologia, busca do desconhecido na Geologia é tudo, né, Arqueologia. Mas na Agronomia eu encontrei a disciplina de Geologia e fui pedir estágio, já no primeiro ano. E, na época, a nossa turma, que foi aprovada, éramos duzentos meninos e tinha dezessete meninas, de duzentos. Então, realmente, assim, pra Agronomia, poucas meninas estavam entrando, podiam entrar, porque era muita engenharia, as provas. Ao tempo que eu queria fazer estágio, né, eu pedi pra um professor e ele falou assim: “Você vai ter dificuldade, como menina, você vai ter que dificuldade pra ir pro campo. Eu tô precisando de uma secretária. Você sabe inglês?” Eu disse: “Sei”, “Então, traduza”. Traduzi um pedaço. “Sabe datilografia?” Eu falei: “Não”. Porque na época era datilografia, né? Falei: “Não”,“Mas eu preciso de uma pessoa pra me apoiar na redação. Então, eu não vou poder aceitar você, que ir pro campo é quase impossível”. Eu trabalhava com estágio, fazia o curso de Geologia, minha ____ no ____ (áudio falhou) me fez, me desafiou. Aí eu fui fazer um curso de datilografia por cinco meses, tirei o diploma na escola, na Presidente Kennedy e, com o diploma, eu fui pedir outro estágio. E aí foi uma oportunidade que eu obtive, com um professor que veio do Haiti, que era o professor André Neptune, que estava formando - junto com o professor Eneas Salati, o professor Ademar Cervellini, físicos - o Centro de Energia Nuclear na Agricultura, em 1966. Eu pedindo o estágio em 1968, já obtive um estágio sem bolsa, mas pra ajudar os alunos que estavam se dedicando ao mestrado. E foi aí que eu aprendi com o estágio, né, já no segundo ano, aceita no Cena, e daí em diante eu fiquei no Cena.

P1 - E como é que foi, depois que você terminou a faculdade? Você já começou a pensar no mestrado?

R - Então, quando eu já estava meio noiva, né, querendo ver o futuro, eu queria continuar na Ciência, na Academia e aí, com o Cena, foi nesse momento que tinha um curso de especialização, Introdução à Energia Nuclear, para alunos enquanto faculdade e nós tínhamos aulas à noite e nas férias. A bolsa foi concedida pela Comissão Nacional de Energia Nuclear. Isso foi um grande trunfo de todos, né, no Cena, porque foi apoiado pela Comissão Nacional de Energia Nuclear e pela Agência Internacional de Energia Atômica, porque eram Átomos para a Paz e da agricultura usando isótopos, tecnologia nuclear, para fins pacíficos. Isso foi muito importante, porque nós vimos quanto essa tecnologia poderia auxiliar na mensuração da produtividade das plantas, crescimento, como podia rastrear esses elementos, nutrientes, para a planta e isso facilitaria muito, né, o estudo. Eu fiquei muito empolgada com essa oportunidade, a Introdução à Energia Nuclear, enquanto graduação, ao mesmo tempo que eu desenvolvia a bolsa de estudos dentro do Cena, eu falei assim: “Eu quero continuar, por causa dessa possibilidade de continuar o Cena”. E, logo em seguida, o Cena conseguiu aprovar o mestrado nessa área. Então, foi assim a carreira de mestrado, especialização. Aí, com isso, eu pude ser contratada. Na época, não se pedia mais do que o mestrado, né, exigia isso da gente e eu acho que foi um programa que formou muitos técnicos, muitos cientistas, atualmente na universidade e no instituto de pesquisa.

P1 - E te perguntar: você chegou a visitar, voltar pra cidade natal dos seus pais e até sua cidade natal?

R - Olha, é interessante a sua pergunta, eu nunca imaginaria que ia voltar, porque, na verdade, eu vi que a minha família era muito grande, família Tsai. Minha avó, meu avô, tiveram onze filhos vivos e a décima tia casou-se com o proprietário da empresa que produz o molho de ostra, né, o grupo, “holding” Lee Kum Kee. Quando ela se casou, eles estavam começando, assim, a consolidar essa empresa. E aí, então, até foi um pouco o motivo do namoro deles, porque eu pedia muito que ele viesse me acompanhar e minha tia fala: “Olha, você foi o anjo da guarda que fez com que eu casasse com esse décimo tio”. E esse atualmente é um conglomerado de produtos alimentícios, são mais de cem produtos e os filhos, né, todos foram formados, estão agora à frente dessa empresa, né, que é alimentícia de todo tipo e também de fitoterapia chinesa. Então, com isso, com o progresso, com o estabelecimento dessa empresa dentro da China, quando a China encampou Hong Kong, ele conseguiu levar mais uma fábrica enorme, muito grande, né, produzindo o melhor shoyu premium, da China, né, e também outros produtos. E, com isso, ele queria festejar com a família, que ele é muito de família, a cada cinco anos do aniversário dele, ele chamava no Natal e toda a família no mundo todo, que se espalhou, né, pelo mundo, ele convidava todos, mais de quatrocentos convidados pro Natal e pra festejar a cada cinco anos a empresa, em visitas à empresa, família, encontro. Então, a cada cinco anos eu voltava pra Hong Kong, na empresa dele.

P1 - E como é que foi a experiência de voltar pela primeira vez, era como você lembrava?

R - No começo, na primeira excursão, me veio uma China antiga, área rural ainda, muito fechado, mas depois dos cinco anos, depois do décimo ano, nós vimos uma mudança enorme, muito grande, até demais eu achava, inclusive toda parte de lojas, né, internacionais, dentro da cidade. Mas eu achei uma coisa muito importante: a valorização da educação. Meu tio, dentro da empresa, construiu assim um conhecimento junto, mas através também de uma universidade e também fomentou a educação infantil na cidade de onde ele veio, da fábrica. Então, acho que essa parte de retorno que o chinês tem para a educação, voltando às origens, é muito devido aos que sucederam na luta, a oportunidade que foi dada. Eu vi isso em dez anos, na transformação da China, né, baseado em educação.

P1 - Siu Mui, como é que foi depois do mestrado, da parte da sua carreira acadêmica, o que você começou [a] fazer?

R - Olha, foi uma experiência incrível! Como eu tive oportunidade, durante a graduação, de fazer estágios pros professores da Esalq, que se prontificaram, se dedicaram a dar aula à noite, durante o ano letivo e nas férias e com o apoio da Comissão Nacional da Energia Nuclear, formando, especializando os alunos para energia nuclear, mas aplicações de forma pacífica. Então, nós tivemos conhecimento básico de bioquímica, também de termodinâmica, mas todos complementares, né, à Física, à Química e à Biologia, da Esalq. Com isso, isso despertou, nesses alunos, né, nós tivemos uma série de projetos de formação de recursos humanos do nível de graduação, no qual, inclusive, fui coordenadora, no futuro, né, desses projetos, porque a gente já como efetiva no Cena. Esse espírito de trabalhar fora de hora, de trabalhar em conjunto, integrando os alunos de diferentes áreas dentro da Agronomia, foi o que despertou a ciência, nesses alunos. E aí, com o tempo, o Cena viu que tinha condições de propor um mestrado, então o mestrado em Energia Nuclear, em 1972. E aí, quando nós conseguimos, então, continuar o mestrado e finalizar o mestrado, foi nesse período que nós fomos contratados e no contrato tinha uma comissão: todos que foram formados, o treinamento é exterior. Algo muito importante, dentro da Universidade de São Paulo, que foram esses visionários, professores de Física da Esalq, que fizeram um programa inovador. E, com isso, nós fomos treinados em vários países, sempre com o apoio da Agência Internacional de Energia Atômica, com o espírito de aplicar aquela energia nuclear na agricultura, de forma pacífica. Após a Segunda Guerra Mundial, o espírito era o uso da energia nuclear de uma forma pacífica. Isso foi com muito sucesso, todos os alunos fizeram o mestrado e continuamos no doutorado, nesse tempo já contratados, né? Mas, ao mesmo tempo, formando também novos alunos. Acho que o ponto forte do Cena foi essa forma de treinar alunos fora da caixa, da caixinha, de informação normal e dar desafios assim pra todos, né e com a oportunidade de ir pro exterior. Isso foi, continuamente ainda tem. Então, eu acho que o desafio foi por nós mesmos, nós crescemos nesse sentido, mas com programas que foram fomentados, né, pelos professores e trouxeram diretores que ficaram aqui no Cena, diretores internacionais, três diretores, né? E viveram aqui, né, conosco, a vida piracicabana, eles chamavam de área rural Piracicaba, pra nós, agora, com quatrocentos mil habitantes, né? Pra eles lá, eram nórdicos, era programa da Suécia, de Dinamarca, eles vinham pra cá, eu falei: “Aqui...”, eles iam pro mercado, eles viam aquelas plantas e até em São João, que nós temos aqui em tupi, o pessoal passa em cima do carvão, eu tenho fotos deles, eles ficavam surpresos, a pessoa passando, andando em cima do carvão em brasa. Isso, pra eles, falavam: “Nossa, essa área rural é muito diferente”. Tradições, né, piracicabanas, nós temos a Festa do Milho, que são também fomentadas por pesquisadores do centro. Então, a gente tem essa vida, ao mesmo tempo agrícola, mas também muito voltados pra uma tecnologia inovadora, né, novas aprendizagens. Eu penso que as oportunidades que a gente tem, a gente tem que buscar, isso a gente buscou, mas através desses professores que incentivaram a gente continuar a ciência, não só dentro da faculdade, mas também fazendo ciência como um todo.

P1 - E desde quando você é vice-diretora da Cena?

R - Na verdade, em 2014, já com o título de professora titular, eu senti o compromisso de retribuir tudo que eu tive de oportunidade, junto com a USP, pós-doutores, que vieram vários pós-doutores, de agradecer, através do nosso trabalho, uma retribuição mesmo, né, de tudo isso. Então, eu me candidatei a diretora do Cena e eu fui indicada, né? A indicação, na época, pelo reitor, né, então a chapa: eu, o professor José Albertino Bendassolli como vice-reitor, né? E, depois de 2014, nós tivemos a oportunidade de fazer a festividade de cinquenta anos do Cena, em 2016. Então, nós fizemos uma festa maravilhosa, resgatando os professores, diretores que foram, as pessoas que foram importantes, as empresas também, que trabalharam muito conosco no Cena, têm essa aptidão de trabalhar com o público-privado, né, que é o espírito que eu acho que a universidade tem que ter, né, pra frente. É muito importante trabalhar com as empresas brasileiras de agronegócio, né? Então, nós fizemos muito uma valorização desse momento, em 2016, com cinquenta anos, fizemos histórico. Isso foi importante, porque agora nós estamos fazendo cinquenta e cinco anos do Cena, né? E, nesse tempo, nós vimos a oportunidade de nós, da primeira geração do Cena, já sermos diretores aqui. E agora, o vice-diretor, nós estamos invertidos: eu sou a vice-diretora atualmente e ele, o vice-diretor, é o diretor. Então, nesse período de oito anos, nós fizemos vários projetos importantes, integrando a comunidade, a científica e também fora do Cena. Acredito que os projetos temáticos que a Fatesp fomentou: Cnpq, programa de pós-graduação, dois programas de pós-graduação conceito sete. Um é de ciências, né, na energia nuclear e também na parte química e o outro é em Ecologia Aplicada, esses dois programas são conceito sete, né? Esse Ecologia Aplicada é junto com a Esalq, interunidades. Esse sucesso todo é devido muito ao espírito de formação de recursos humanos, por isso que ainda tem essa aptidão e também o nosso parque de equipamentos é fantástico, pelos projetos que nós fizemos. Então, nós temos agora uma ideia que nós devemos divulgar mais, né, pra formação, inclusive com projetos internacionais, que nós temos o Conselho Britânico, de poder fomentar as meninas, né, dificuldade de apresentar os trabalhos, junto com a Fatec, por exemplo. Nós estamos propondo aos alunos de graduação e uma experiência de interação entre elas, mostrar o quanto elas têm o poder das meninas, das alunas da faculdade, de aproveitar como nós tivemos, né? E buscar o novo e, ao mesmo tempo, as oportunidades que são oferecidas. Eu nunca vi tanta, assim, facilidade, apesar de falarem que não, só depende de nós. Os projetos que nós tivemos, tem muitos projetos interessantes na área ambiental e agrícola. É importante você ter aquele compromisso com o que você foi formado e trazer pra você uma comunidade científica. Não se faz mais nada sozinho, né? Nessa área molecular, principalmente, desses treinamentos que eu fui fazer o pós-doutorado fora, eu vi como o profissionalismo é fundamental pra gente trabalhar integrado, né? E projetos agora, ultimamente, nós temos colaborações com universidades americanas, holandesas e inglesas, né? Italianas, inclusive nós temos dupla titulação com a Itália, né? Então, eu acho que o aluno que vem pra cá, da USP, eu sinto que eles têm o poder de trabalhar, né, desde que possa e tenha USP, todos têm essa chance, né? Então, eu acho que foi o que aconteceu comigo e pra todos que tinham começado desde a graduação.

P1 - E, voltando um pouquinho, você comentou que os seus pais, o seu pai é do norte, sua mãe é do sul, né?

R - Meu pai é do sul e minha mãe é do norte.

P1 - Isso, desculpa. Eles tinham alguma cultura diferente, assim?

R - Sim, exatamente, você falou bem certo. Você sabe que os dialetos na China do sul é o cantonês? E o do norte, né, no caso da minha mãe, né, de Chongqing, é diferente. Inclusive, um pouco diferente do mandarim. E a parte gastronômica da China, realmente diferenciada, é da terra da minha mãe. Então, a comida da área do sul, porque é frio lá, é a terra dos pandas, né? Então, é uma comida regional muito interessante, então aprendemos muito com isso. E, ao mesmo tempo, a experiência que eu não relatei aqui, que nós tivemos, na imigração do Brasil, oportunidade de conviver com o professor Chang-dai-chien, no período que eu estava fazendo ginásio, ao mesmo tempo que viemos pra Mogi, ele tinha um sítio de oito virtudes, que ele fala, o caqui é considerado virtude pros chineses. E pode aproveitar totalmente, desde a planta, né, a folha, a flor e o fruto. Então, o caqui era o símbolo do sítio dele e ele criou imensos quadros maravilhosos, nesse período que ele esteve em Mogi das Cruzes, o avanço da arte dele, que ficou mais abstrato. E acho que ele viu isso no ambiente verde que ele viu em Mogi, daquele ambiente de paz que ele sentiu, né? E também foi um foragido, inclusive na terra do meu avô, em Macau, ele refugiou-se lá, fugindo da China, na época da guerra. E de lá veio pro Brasil, né e aí ficou. E nós tínhamos uma comunidade, em Mogi das Cruzes, muito interessante, que eram realmente imigrantes que vieram, que buscaram eleger o Brasil como país, né, de refúgio e que fizeram uma convivência muito, muito boa, dentro do espírito da agricultura também, né? Assim, mantiveram a cultura deles e eu aprendi muito com eles, nesse tempo, que nós tivemos uma oportunidade de ficar morando junto com eles, vizinhos depois e conviver com a arte chinesa, que eu acho muito bonita e gostaria até de colocar um dos quadros dele um dia, porque a minha irmã tem um quadro, pintura à mão, do Professor Chang-dai-chien, do Guilherme Gorgulho, né, que fez um trabalho de biografia dele.

P1 - E essa comunidade em Mogi das Cruzes, é muito grande?

R - A comunidade chinesa não, né, mas teve esse período... mas isso dentro de Taiaçupeba, quilômetro dezoito fora da cidade, né? No momento, ele tinha uma casa, ele tinha realmente uma casa da cidade, mas na hora que eles viram, eles trouxeram inclusive os macacos da China, eles trouxeram, pra fazer a pintura deles, os gadões, né? Então, tem muitas pinturas que eles trouxeram da China, os animais mesmo, né? Pra conviver, então, eles levaram pra conviver dentro de um ambiente de sítio em Taiaçupeba. Eu acho que foi a lembrança que eles têm da China, natural, nativa, onde eles tinham, na terra de Chongqing, que é ali no centro da China, é onde tem [as] maiores mini florestas nativas, onde tem o panda, o urso panda, a natureza lá é muito valorizada e eles vieram pra cá pensando em conviver, lembrar um pouco dessa área natural, né, o ambiente natural que Mogi também proporcionou, porque Mogi das Cruzes, no fundo, no fundo, é a Mata Atlântica nossa, né?

P1 - E você já conhecia o Chang-dai-chien, porque no Brasil ele é pouco conhecido, né? Eu queria saber se, na cultura chinesa, ele é bastante conhecido.

R - Ele é muito conhecido e era um refugiado, né, da guerra, mas ele conviveu e ele tinha uma fama muito junto com os pintores, o Picasso era um grande amigo dele. Então, ele vendia as obras dele na Europa, em Paris, Nova Iorque e voltava pros confins da natureza, né? Mas ele ia pras grandes capitais mundiais pra fazer trabalho. Ele é muito reconhecido, inclusive. Tem uma fundação dele em Taiwan, o Museu da Arte.

P1 - E sobre a cultura chinesa, assim, tem alguma coisa que você aprendeu da sua família, de gerações em gerações e [que] você sempre leva consigo?

R - Na verdade, eu sou meio chinesa e meio brasileira, né? Eu vim aos seis anos e, aos dezessete, vim pra Piracicaba e convivi com o Brasil de outras formas, tanto com Araxá, né, no período antes de fazer a faculdade, Feira de Santana. Eu acho que a diversidade é linda do Brasil e essa valorização que eu dou, por causa da convivência que eu tive, de fazer eternos amigos, o espírito da amizade, do acolhimento do brasileiro, é demais. Então, a gente que vem de um ambiente estressado da China, eu acho que nós encontramos muita paz, apesar de tudo, porque já passamos muito pior, períodos muito piores. Eu acho que o Brasil tem essa dádiva, de não ter tido grandes guerras, como a China teve, porque a minha família, da minha mãe, ela teve dificuldade no período da guerra, quando faleceu mais de quarenta milhões de chineses, realmente de fome. E, nesse tempo, eu me lembro que as cartas que vinham, só tinha dois metros de pano pro ano inteiro, pra uma pessoa, que eram os meus tios, então eles pediam ajuda. Mas a dignidade que é a primeira coisa que eu aprendi com os meus pais: ser digno na dificuldade, na honestidade e na transparência, né? Então, a minha mãe era professora de Matemática e ela nos ensinou, quando veio pro Brasil, nós tínhamos aula com ela, como é diferente o jeito de ensinar, né? Invertido, tudo invertido, mas foi muito bom, porque ela acompanhou a nossa vida, a nossa formação, principalmente... não no Português, porque nós tivemos que aprender por nossa conta, mas o resto, na Matemática ela realmente participou. E o meu pai trabalhou durante trinta anos em anotações, né, e eu tenho todo esse material comigo, anotações das plantas medicinais, ele convivia com o desenho, convivia com as plantas e deixava a gente acompanhar junto com ele, o trabalho. Então, eu acho [que] o que ele nos ensinou é o respeito imenso à natureza, respeito muito à forma digna de ver, mesmo na dificuldade, o respeito às pessoas. A hierarquia oriental é muito forte, né, de respeito com as pessoas, aos mais velhos. Isso a gente sempre guarda, mantém.

P1 - E, hoje em dia, depois de morar tanto tempo no Brasil, você se considera brasileira, chinesa, os dois ao mesmo tempo?

R - Eu me considero cinquenta por cento: às vezes eu sou chinesa, em determinação, teimosa, sobrevivente, me sinto sobrevivente do sistema. Mas, ao mesmo tempo, quando eu penso que eu tenho liberdade, que é dada na universidade, eu podia ter feito algo mais como empresa. Na verdade, eu fiz um projeto com a Fatesp com minhocultura, aproveitamento de resíduo da indústria, que aqui ao redor de Piracicaba, a parte de resíduo da cana-de-açúcar da indústria canavieira e eu consegui fazer projeto, aprovado em quinze dias e consegui muito, assim, o retorno através de estudos de produção orgânica, né, com resíduos da indústria, de uma forma muito mais sustentável. E foi isso que, nos anos noventa, eu era considerada bicho-grilo da Esalq, porque eu levava essa linha de transformação dos produtos de uma forma de reciclagem, mas produzindo de uma forma benéfica e medindo a produção. Então, eu acho que foi o lado, assim, que tem liberdade, a palavra que eu digo que eu tenho, dentro da universidade. Caso contrário, eu não estaria na universidade. Eu sei disso, porque eu prezo muito o espírito de contestação, mas pra poder enxergar mais, desafiar os alunos, por exemplo. Eu gosto muito de deixá-los livres, mas ao mesmo tempo eu falo: “É liberdade com responsabilidade”.

P1 - E hoje, quais são as suas principais atividades?

R - Eu tenho tocado um pouco a parte administrativa, mas os recursos que me deram, por exemplo, na pandemia, de você ministrar aulas online e gravar, eu aprendi muito com isso. E eu tô vendo que nós podemos trabalhar em um sentido muito mais de comunicação dessa forma, temos que aprender mais. Mas o que nós tivemos de experiência eu acho que foi que nós conseguimos aprender mais com essa dificuldade de não ser presencial, né, dezoito meses.  E eu acho que os alunos também aprenderam e eles estão muito convivendo mais comigo e com muito mais interações, através do sistema online. Então, é possível você colocar uma ciência avançada, ao mesmo tempo que está ministrando. E eu acho que isso nós estamos tendo sucesso, devido ao período que eu tive fora do país, dentro e o tempo que ensina a como ser mais organizada.

P1 - E, caminhando agora pras perguntas finais, quais são as coisas mais importantes pra você, hoje?

R - Continuo pensando que trabalhar numa comunidade como a nossa, com a diferença da escala de pessoas, é muito importante conviver, desde o nosso servidor, né, que trabalha, o assistente, todos terem a sua oportunidade de crescerem e de se sentirem felizes. Eu acho que essa forma de trabalhar na universidade é muito boa, porque você pode fazer muita coisa a mais ou fazer aquilo que realmente gosta ou não. Mas a universidade ultimamente tem dado muito estímulo a premiações, reconhecimentos de alunos. Eu tenho tido uma alegria muito grande de ter tido os alunos que começaram bem devagar, bem devagar, mas que, dando um empurrãozinho, na hora eles têm um retorno. E o retorno é a alegria que eles têm, do sucesso. Nós tivemos agora várias premiações, né? Participo da Academia Brasileira de Ciências, eleição. Fui eleita também na Academia Mundial de Ciências (TWAS), junto com grandes nomes, fico muito honrada, mas tudo isso foi por mérito. Então, eu acho que tem que ter meritocracia na universidade, é muito importante levar essa formação pros alunos que, por mérito, por dedicação e por empenho, você chega lá. Então, todos eles têm essa oportunidade conosco, mas tem que merecer, tem que suceder por conta própria, sentir que eles têm o próprio retorno deles devido a eles, esse espírito tem que ser dado a eles. Então, a minha grande alegria é de ter vários ex-alunos, pós-doutores de sucesso, mas mantendo aquilo que eu chamo de transparência, dignidade, respeito, dentro do contexto, onde estiver. Então, isso, pra mim, a universidade pode promover.

P1 - E quais são os seus sonhos pro futuro?

R - Talvez fechar o livro do meu pai, né, fazer algo novo, integrar um pouco da China, de uma forma positiva, o que os chineses têm de tradição, né, buscar. E principalmente trabalhar nos projetos que eu tenho, a minha preocupação que estamos propondo é trabalhar no legado assim, da microbiota, legado solo pra manter as florestas, que nós temos projetos de desmatamento, comparando qual o valor da floresta em pé. E nós temos vários projetos que mostram que, realmente, se tiver floresta em pé, não só o solo é beneficiado, como a atmosfera, com os rios voadores, isso tudo Cena contribuiu muito para essas medidas isotópicas, medindo os fluxos, né, da água, de onde vinha a água da Amazônia que vinha pro sul, pro cerrado, pra cima e pra baixo. Então, esse lado a ciência contribuiu e manter a ciência nesse alto nível, trabalhando quais métodos, nós estamos usando o molecular também, as ferramentas possíveis de medir o que é possível ter na agricultura sustentável, mas é muito mais importante manter a floresta em pé que, com isso, a biodiversidade, nós estamos demonstrando, é muito fruto da planta. Então, minha aluna agora ganhou o prêmio, o prêmio Grande Área em Sustentabilidade Ambiental, do Centro de Agronomia, porque nós mostramos que a floresta em pé consegue sequestrar o metano, o metano que a gente tem essa preocupação, ao mesmo tempo o CO2, que já é comprovado. E agora o N2O, que é o óxido nitroso, que é outro gás do efeito estufa, se você tiver os animais dentro, circulando, aí nós temos também uma diversidade maior das plantas, porque eles também levam as sementes, não só animais, como pássaros e aí você mantém a diversidade da floresta, mantendo em vida, porque se você cercar o ambiente, como o professor Mauro Galetti fez, cercou a área em dez anos, a diferença é monocultura no meio da floresta, quase. Enquanto você deixa fora, os animais circulando, eles vão dejetar a floresta. Então, a vida maior nos fragmentos possíveis é muito maior quando tiver animais também. Então, tem todo esse lado vida e biodiversidade e a floresta vai servir pra agricultura. O que eu queria dizer é que ambos podem conviver, só que tem saber com inteligência, né, a forma de medir e controlar. Um dos grandes momentos nossos agora é estudar o desmatamento ilegal e nossa parte isotópica, molecular, também nanotecnologia, que tem no Cena, podemos contribuir pra medir se a madeira foi transferida de um ambiente natural e se era nativa, ou se era floresta plantada. Nós conseguimos fazer isso, graças à ciência disponível no Brasil e aqui no Cena. Então, essa é uma ciência que eu gostaria de continuar com os colegas nosso, trabalhando nesse espírito e colaborar, inclusive, com o Ibama e a polícia federal, o Cena tem que ser importante nesse trabalho, de rastrear os problemas da agricultura e do desmatamento ilegal, mineração e qualidade da água que tem no ambiente, quando tem a mineração ilegal também, tudo que é ilegal é mais problemático, inclusive. Então, a gente tem que monitorar isso, contribuindo pra ciência e pro governo.

P1 - E sobre essa parte de ervas medicinais, que seu pai estudou bastante, você ainda usa esse método, de medicina alternativa?

R - Não muito, porque eu tentei, mas tudo que é em excesso... me deu uma recomendação: homeopatia nessas doenças. Então, o uso proporcional, não pode ser exagerado porque, no caso, por exemplo: o herbicida 2,4-D é um estimulante, fica hormônio, mas colocado dez mil vezes, matava a planta. Então, dose, o efeito de dose e toda a ciência nossa da agricultura, ambiente, das plantas etc, é dose. Então, as plantas serão úteis, se forem bem dosadas e parceladas. E agricultura também, a gente pode usar retardadores de fertilizantes, pra liberar aos poucos, porque pode se perder. Então, evitar perdas, na verdade, é trabalhar com economia, né e com o sistema mais sustentável da proporção da agricultura futura, o que eu vejo na agricultura do futuro é isso: a Amazônia 4.0, tudo isso está sendo mais alertado, porque eu acredito muito que as fontes alternativas de energia poderão suplementar, e que tenham modelos híbridos, por exemplo: a parte de energia nuclear pra dessalinização da água do mar, vai ser muito interessante trabalhar e pode ser com a energia atômica da parte que pode ser associação. Eu acho que todos os sistemas híbridos atualmente, até carro híbrido pode ser, né? Então, a gente tem que buscar essa forma de conviver com o ambiente, de uma forma menos agressiva e, ao mesmo tempo, usar tudo que for possível, desde que seja o sistema limpo.

P1 - E, por fim, como foi contar a sua história pra gente?

R - Olha, é um resgate do meu passado e que a gente tem muito orgulho quando alguém pergunta, eu sinto que eu fiz o que eu pude, eu penso que é muito importante que uma pessoa faça muita coisa. A gente pode fomentar uma ciência nova, nós temos que aceitar os desafios e não deixar pra trás. Então, eu digo que é importante eu pensar que ainda tem mais, temos, pela frente, mais desafios e vamos pra frente, que eu acredito muito nesse país, justamente pela biodiversidade e temos que resgatar, dessa forma, de uma forma tranquila, valorizando o que nós temos, que isso que eu acho que tem que divulgar mais, em todo sentido que a nossa radiação de alimentos está comprovadamente inócuo, nós temos a parte de transgênico dependendo do modelo que é usado, tudo é isso é pra uma agricultura mais sustentável. Então, eu acho que tudo isso tem que estar colocado na mesa, né, pros alunos, divulgar pra mídia, isso a gente pode fazer sim, uma pessoa pode fazer, desde que seja convidada, como vocês estão me convidando e eu vou realmente agradecer muito a oportunidade de poder colocar esses pontos importantes, que eu considero importantes pra toda ciência nossa aqui, do Brasil.

 

 

 

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