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História

De padre a diretor na Fundação Bradesco: dedicação, disciplina e amor ao trabalho.

História de: Almir Pessoa César
Autor: Ana Paula
Publicado em: 07/06/2021

Sinopse

Vida pessoal de Almir, vida profissional. Sua carreira na Igreja e na Fundação Bradesco.

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História completa

Projeto: Fundação Bradesco Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Almir Pessoa César Entrevistado por: Judith Ferreira e Maria Menir Osasco, 09 de dezembro de 2005 Código: FB HV 009 Transcrito por: Écio Gonçalves da Rocha Revisado por: Thayane Laranja dos Anjos P/1 – senhor Almir, vamos começar, por gentileza, pedindo ao senhor que nos diga o seu nome completo, local e data de nascimento. R – O meu nome é Almir Pessoa César. Nasci no dia 9 de maio de 1934 em Mogi das Cruzes, São Paulo. P/1 – Qual o nome dos pais do senhor, senhor Almir? R – O meu pai é Lourival Pessoa César e minha mãe Maria Bispo Pessoa. P/1 – Onde eles nasceram? R – Papai nasceu em Olinda, em Pernambuco, e mamãe em São José dos Campos. P/1 – O senhor lembra da atividade deles? R – Papai era ferroviário e mamãe, prendas domésticas. P/1 – Ele era ferroviário... R – Ele começou como telegrafista da Estrada de Ferro Central do Brasil, depois chegou a ser agente de estação. A última função que ele exerceu foi até em Poá, que era agente da Estação de Poá. P/1 – Aqui em São Paulo? R – Aqui em São Paulo, no subúrbio, entre Mogi e São Paulo. P/1 – E o senhor lembra dos seus avós paternos e maternos? R – Não me lembro dos meus avós paternos, só conheci minha avó materna que era a Vó Chiquinha, que a gente chamava. Ela morreu com 88 anos e era de São José dos Campos também, da família Carvalho. O que eu sei dela é que ficou viúva com 33 anos, muito nova, tendo o marido morrido com 49 anos. Morreu muito cedo. Eu não sei te dizer porque essa parte. Do lado materno, de Vó Chiquinha pra trás eu não conheço nada, e nem dos meus pais. Papai também nunca dizia quase nada da família dele. Papai veio com 24 anos pro Rio de Janeiro. Lá ele fez curso pra telegrafista da Central do Brasil que na época, me parece, dizia ele, era uma função muito bem remunerada. E depois foi transferido pra São Paulo e veio parar em Mogi das Cruzes, onde conheceu a mamãe que morava aqui. P/1 – Morava em Mogi? R – Morava em Mogi. P/1 – E o senhor tem irmãos? R – Tenho. Tenho um irmão, Ayrton Pessoa César, que é médico, e a minha irmã, que é professora aposentada, Aparecida Pessoa Ribeiro. P/1 – Eles moram em São Paulo? R – A minha irmã mora em Mogi das Cruzes e meu irmão mora aqui em Bariri, no Alphaville. P/1 – Na sua infância, como era a casa onde morava, senhor Almir, o senhor lembra? R – Olha, eu tenho vaga lembrança da minha infância passada em Guararema, que a gente era de uma família muito simples, pobre também. Tenho poucas lembranças. Me lembro do nascimento do meu irmão que foi uma festa. Eu tinha já seis anos e papai pegou a mão de minha irmã e do meu irmão e falou: “Vocês têm um novo irmãozinho." Nós fomos pra lá devido eu ter sofrido uma cirurgia e o médico de Mogi das Cruzes disse que a melhor para recuperação, a cidade, era Guararema, que na época não era tão poluída, não tinha fábricas, não tinha nada. E depois, quando nasceu o meu irmão, em 1940, aí nós voltamos pra Mogi das Cruzes. Em Mogi das Cruzes eu também tenho poucas lembranças, pouquíssimas lembranças. Eu me lembro que estudei no Instituto Dona Placidina que era... aliás, primeiro comecei numa escola pública, que era Grupo Escolar que chamavam. E depois eu, como era coroinha na Matriz, então dizia que tinha que ser transferido pra uma casa de ensino religioso que era esse Instituto Dona Placidina que era dirigido por religiosas, Irmãs Vicentinas. Só estudava e voltava pra casa. Não era internato. Aí eu fiz todas as minhas primeiras letras, o primário todinho. P/2 – E em casa, como era o dia a dia da casa do senhor? O senhor lembra o cotidiano assim? R – Ah, eu tinha escola, voltava da escola. Papai trabalhava e ele fazia pernoites em turnos de 24 horas. Ele ficava fora e no outro dia ele dormia o dia inteiro pra trabalhar no dia seguinte. Eu sei que sempre foi uma vida assim, aquela rotina de casa, de uma vida doméstica, mas uma vida de muito respeito, de muito amor inclusive. P/1 – E quais eram as brincadeiras preferidas de vocês? R – Essas brincadeiras de rua. A gente brincava lá. Mogi das Cruzes era uma cidade provinciana na época, antes de eu ir pro seminário em 1946. Então a gente brincava nas horas de brincadeira de pega-pega, esconde-esconde, bem típico. Eu me lembro que no quintal de nossa casa o papai tinha plantado alguns milhos. Eu pegava, fingia ser um caminhãozinho com um pedaço de madeira, percorrendo os milharais, como se fosse um caminhoneiro. E no lado eu me lembro que tinha um forno, o meu tio que fez, bem caseiro. E mamãe recolhia as lenhas, que o fogão era de lenha, e ela punha ali. A gente que recolhia as lenhas que ela comprava no carvoeiro. Então quando estava na época da guerra, em 1940, eu fingia que eram caças americanos bombardeando os aviões nazistas. Tinha um medo. A gente falava de Gestapo, de nazismo. A gente tinha aquela imagem que só via em jornais do cinema ou em emissoras de rádio, através de teletipos que chamavam na época. P/1 – Vocês recebiam essas informações como, da guerra, do que estava acontecendo? R – É, a gente ficava, os próprios pais, a família da gente, porque toda a nossa família morava em Mogi. Então a gente ia, se visitava. Não tinha trânsito, não tinha nada. Eu me lembro que eles gostavam de se reunir, como toda família de interior, fazer essas reuniões semanais. Eu não me lembro quantas vezes por semana, sei lá. Sei que era uma família pequena, então a gente vivia muito se reunindo. Brincava com os primos e primas que tinha lá na época. E era isso daí. A gente, no dia a dia, ia pra escola. Depois que eu passei pra essa escola religiosa das irmãs, eu tinha que, às duas da tarde, estar lá pra, como se diz, treinar a ajudar a celebração da missa, dos cultos. P/2 – Isso fazia parte do dia a dia do senhor? R – Do dia a dia depois que eu entrei. Então a gente lanchava lá, voltava às quatro horas. Depois eu lembro que a gente tirava o sapato e ia jogar futebol no largo ao lado de casa, perto de casa, Largo Bom Jesus. Era um espaço enorme, hoje é o jardim, o parque, que eu me lembro. E a gente jogava bola ali com a molecada toda da rua. P/1 – Alguma lembrança mais marcante desse período? R – Olha, eu me lembro da relação entre os vizinhos. Todo mundo se conhecia. Então me marcava muito, por exemplo, quando eu ficava sentado na soleira da porta e passava o rapaz que ia levar marmita, que uma nossa vizinha fazia comida não sei pra quem, talvez alguém que não fazia, como se diz, comia de marmita. E passava aquele cheiro gostoso. E também o fato da gente ser muito, estar muito junto. A família toda junta, se ajudava. E o esforço. A gente era pobre mas se amava muito. P/1 – Eram unidos. R – Éramos muito unidos. P/1 – Moravam mais pessoas então, na família? R – Lá em casa não. A gente morava... P/1 – Não, mas na cidade moravam mais pessoas? R – Na cidade moravam mais pessoas. P/1 – Irmãos dos pais. R – Irmãs de mamãe principalmente. Depois a família foi se separando, foi pra São Paulo, fomos crescendo. Uns até foram pra Sorocaba. E depois eu saí da cidade, saímos todos. E lá, minha irmã ainda permanece em Mogi das Cruzes, tem a família toda dela lá. P/1 – Desde essa época? R – Desde essa época. Mas meu irmão não, meu irmão já se separou quando foi estudar medicina também. Eu também, quando saí fui pro seminário lá em Pirapora. Então daí a minha vida se tornou um pouco mais separada da família. P/1 – Ainda um pouquinho nesse tempo, como era a cidade? R – Olha, a cidade era muito tranquila. Como eu falei, era bem provinciana a cidade, então, passava carroças. Eu me lembro que passava o senhor Jorge que tinha uma padaria e vendia um pão de _____, que era o pão de banha, e a gente ia comprar aquele pão quentinho que saia. Assim, era um cavalo puxando uma carrocinha, atrás uma espécie de baú que tinha, e a gente escutava o cavalo batendo o casco no paralelepípedo da rua. P/1 – Era a hora da pão quentinho. R – Do pão quentinho. P/1 – E a adolescência do senhor, como foi? R – A minha adolescência eu passei já no seminário. Eu fui pra Pirapora com 11 anos de idade, em maio eu fiz 12 e passei todo o tempo da minha adolescência, três anos em Pirapora e quatro em São Roque. Aí praticamente a minha vida, embora a gente se frequentasse, tínhamos férias, tinha tudo, mas a vida do dia a dia da família já se afastou. Mamãe não queria que eu ficasse. Ela quando ia me visitar falava: “Vamos voltar pra casa, que você tem mais conforto lá em casa, tudo." Eu falava que não, que eu gostava de lá. Eu não sei porque eu gostava mas eu gostava. P/1 – Como era o dia a dia lá? R – No seminário? P/1 – É. R – Ah, no seminário era estudar, ter aula e jogar bola, só isso, brincar. E isso era realmente. E a formação era muito rígida, os padres, em Pirapora principalmente, tinham uma formação meio germânica. Eram belgas e eram de _____________ e eles tinham uma rigidez muito grande. Mesmo a gente, hoje em dia, acredito que não haja mais esse tipo de formação, que hoje está totalmente diferente. P/1 – Voltando um pouquinho. Quando foi pro seminário o senhor já havia iniciado os seus estudos. Como e quando o senhor iniciou os seus estudos? R – Eu comecei no grupo escolar. Eu não me lembro. P/1 – Em Mogi? R – Em Mogi. Não sei se era estadual ou municipal. Eu acredito que seja estadual. E não esqueço o nome de minha primeira professora que era Dona Dolores. P/1 – Ah, é? Marcou essa professora? R – Marcou. Era muito amiga da família, inclusive me alfabetizou, alfabetizou minha irmã. O meu irmão acho que já foi outra professora que eu não me lembro, que já não estava lá. E fiz os quatro anos em Mogi, no Instituto Dona Placidina. Outra professora que me marcou foi a irmã Suzana que era professora que também continuava os estudos de primário no Ensino Fundamental. P/2 – Quantos anos o senhor estudou antes de ir pro seminário? R – Mais ou menos, eu acho, uns quatro anos, três anos. Eu não me lembro, mas eu acho que quatro anos. Eu sei que eu saí já pra fazer, na época havia uma transição da quarta série primária para o primeiro ginasial que chamava-se curso de, não sei se era adaptação, o quê que era. Eu sei que fiz um curso, Admissão ao Ginásio. P/1 – Admissão, né? Tinha um de admissão. R – Isso mesmo. P/1 – E a sua primeira escola, o senhor lembra dela? Como era ela? R – A primeira escola, a única lembrança... aliás, ontem até eu comentava com a minha esposa, a única lembrança que eu tenho dela é quando, no primeiro dia, a gente fez fila no pátio e chamava Turma A, Turma B, Turma C, sei lá. Então ia chamando e as professoras encaminhavam pras salas de aula. Sinceramente, a única lembrança que eu tenho, viva, dessa primeira escola. P/1 – Certo. E daí, depois desses quatro anos... R – Não, aí eu acho que eu fiz um ou dois anos no Estado, depois eu passei pra essa escola que era particular, que era das religiosas. P/1 – E o dia a dia dessa escola também era normal? R – Era a mesma coisa, era normal, como também tínhamos as aulas, depois terminávamos na parte da hora do almoço. E eu, como era coroinha, tinha que voltar pra treinar essa parte de culto. P/1 – O senhor gostava de ser coroinha? R – Pra gente era tudo novidade, então estudava. A escola era muito boa, muito limpa. Era bem asseada. A gente gostava da escola, eu gostava da escola. Eu nunca tive mágoa ou alguma coisa que me marcou tristemente a minha formação nas primeiras letras. P/1 – Era bom o seu desempenho na escola? R – Era razoável, né? Não era... P/1 – ________________________ R – Era razoável, não era muito bom não. ______________ passando os anos, algumas matérias eu era bom, outras não era. P/1 – Em quais o senhor era bom e em quais não era? R – Na parte das humanas eu era melhor, que depois até me formei até em Ciências Sociais Humanas na Escola de Sociologia Política. E, como sempre, pra variar, eram as matemáticas que não era lá muito... Mas passava, dava pra passar. P/1 – E aí o senhor foi pro seminário. Como aconteceu essa ida pro seminário? O senhor escolheu? R – Eu, sei lá, tenho a impressão... Até que meus pais não eram muito religiosos, mas a gente assistia ao culto, à missa. E eu achava bonito lá aqueles meninos ajudando o padre e falei que queria ser um deles, gostaria de ser. E foi indo, ajudando lá no meio. Eu acredito que houve uma influência até do vigário, não me lembro. Eu sei que era o Padre Lino dos Santos Brito. P/1 – O senhor trabalhou muito tempo com ele e ficou... R – Fiquei. Provavelmente ele deva ter falado assim: “Vamos, você vai estudar no seminário, você vai ter possibilidades de estudos". Porque Mogi, na época, inclusive, era muito carente de ensino superior. Não tinha. Tanto é que o meu irmão não se formou em Mogi, ele se formou na USP [Universidade de São Paulo]. Quando ele foi pra faculdade de medicina, em Mogi não tinha faculdade, não tinha nenhuma faculdade. E quando ele passou, que eram 80 vagas, foi uma, como se diz, uma festa. Então pra mim, o seminário, eu não sei também. P/1 – Era uma possibilidade de estudo. R – De estudo também. Mas também eu nem pensava nisso porque era criança ainda. E meus pais também não porque papai e mamãe nem queriam que eu fosse. Não pelo fato de ser, o fato de estar, de ter um filho ausente da família. P/2 – Era noutra cidade? R – Era em Pirapora. Naquela época, pra se chegar a Pirapora levava umas quatro horas de viagem. Tinha que sair de madrugada. P/1 – O senhor era semi-interno, um aluno semi-interno? R – Não. No seminário era interno totalmente. P/1 – Interno total. R – Interno totalmente. Agora... P/1 – Ia pra lá e ficava direto. R – Ficava o ano todo, só voltava nas férias. P/1 – O senhor ficou vários anos então. R – Eu fiquei vários anos lá. P/2 – E depois o senhor desistiu do seminário? R – Não, eu continuei a estudar. Eu cheguei até a fazer Filosofia e Teologia aqui em São Paulo. Me formei em Teologia também, sou formado em Teologia. E exerci o ministério também. Em 1971 eu fiz uma solicitação a Roma, ao Vaticano, e desisti. P/1 – Então o senhor chegou a ser padre, a ministrar? R – Cheguei, cheguei a exercer durante nove anos. E saí em 1971 e daí que eu trabalhei... P/1 – O senhor estudou, mas assim, não quis mais ser padre. R – Foi uma opção só. Sinceramente, eu não tive nada contra, nem tenho nada contra a Igreja, pelo contrário, me sinto religioso embora __________. Mas eu acho que eu tinha cumprido uma missão. E foi numa época que houve uma grande revolução na Igreja que foi o Concílio Vaticano II e eu achei que eu devia cumprir minha missão até o final, inclusive fiz uma despedida oficial. E daí fui procurar emprego. Eu tinha me formado só em Filosofia, tinha licenciatura, então, o cargo único era o magistério. Eu fui procurar o magistério, mas era difícil. Isso foi em 1971. Em 1972, surgiu essa oportunidade pra vir trabalhar na Fundação Bradesco. P/1 – Mas em 1971, o senhor... R – Aí que eu trabalhei, em 1971. Que eu tinha uns amigos que trabalhavam na (Iresi?), isso eu não contei pra você, trabalhavam na (Iresi?) e na Cetec [Centro Educacional e Técnico]. Na (Iresi?), foi a professora de Metodologia e Pesquisa, que eu fazia faculdade de Ciências Sociais, e ela me convidou pra trabalhar junto com o grupo, falou: “Você vem trabalhar com a gente aqui”. Aí eu pesquisei, quando eu fui chamado pra Cetec que era uma amiga, uma conhecida da gente, saí do (Iresi?)I e fui lá pro Cetec. Aí não tive mais contato nenhum. Eu sei que a professora também acho que foi transferida. Eu acho que a empresa que ela montou também se desfez, não sei bem. Eu não sei o destino dessas duas empresas. P/1 – E o senhor era pesquisador? R – Era pesquisador, pesquisava. Inclusive, eu me lembro de ter ido até aqui no ABC, entrar na fábrica pra pesquisar. E era terrível. Inclusive na Bal Química, que eu estive lá, eles não quiseram nem me receber. P/1 – Que tipo de pesquisa o senhor fazia? R – Era sobre o uso do cloro. Eu não me lembro bem, eu sei que era uso do cloro. Levava o questionário e pesquisava. Sei que era muito... Eu não tenho lembrança mais até porque depois eu me esqueci totalmente. Na (Iresi?). No Cetec, eu me lembrava que pegava as fichas, tinha um arquivo enorme. Então eu tinha que separar as empresas que ainda constavam do cadastro da empresa pra eu fazer a seleção de pessoal, chamar pra ser entrevistado, mas eu nunca entrevistei. Eu apresentava as fichas pro departamento competente e o departamento é que chamava o pessoal pra ser entrevistado. Foi que em 1972, em janeiro, eu tinha um quase parente. Ele trabalhava aqui no Bradesco, Moacir Cavalheiro Costa o nome dele. Já estou adiantando, eu acho? P/1 – Não, pode continuar. R – E a esposa dele, que chamava-se Lourdes, falou: “Olha, Almir, a Fundação Bradesco está fazendo uma seleção pra professores, você não tem interesse?”. E era o que eu desejava, ser professor. P/2 – O senhor já tinha essa opção de carreira ______. R – Já tinha a minha, era ser professor. P/2 – Mas ainda não tinha exercido? R – Não tinha exercido. Eu cheguei até quase a entrar pra fazer um teste no Estado, mas eu achava que era muita procura. Eu falei assim: “Acho que vai ser difícil.” Mesmo quando eu vim em janeiro aqui, havia muita gente pra tentar entrar na Fundação Bradesco, que a fundação estava se ampliando. Tanto é que eu não fui chamado em janeiro, fui chamado em maio. P/1 – E nessa época o senhor já tinha terminado a faculdade que estava fazendo? R – Já, já tinha terminado. Eu já era formado e depois que eu fui fazer... P/1 – O senhor já era formado, desculpe... R – Eu era formado em Filosofia e em Sociologia, Ciências Sociais. P/1 – E o senhor lembra da formatura do senhor? R – Olha, a formatura da Filosofia nós não tivemos porque foi... P/2 – ______________ R – Não, não, não foi no seminário. Foi posteriormente que houve um decreto do governo que reconhecia os estudos filosóficos do ensino religioso. Pra quem fez faculdade, pra quem fez Filosofia, era reconhecido. Então nós fizemos uma adaptação, aliás, foi lá em Mogi das Cruzes, e com toda a parte de papelada, documentação toda certa. E aí que foi reconhecido. Então eu só fiz adaptação em algumas matérias pedagógicas e complementares. P/2 – Formatura mesmo teve em Ciências Sociais? R – Teve em Ciências Sociais, foi até no Colégio Rio Branco. P/2 – Teve festa? R – Não, foi uma festa assim com pouca gente. Nós éramos 80 alunos, se não me engano, metade não quis aceitar. Foi numa época meio brava, de rebeldia. P/2 – Em que época que é isso? R – Foi 1971, acho, ou 1972. Foi 1971. Foi antes de eu entrar aqui. P/2 – Era uma turma de quantos? R – Eram 80 mas menos de 40 aceitaram fazer a formatura. Formatura muito simples, recebemos o diploma... P/2 – Por que o restante não aceitou? Por conta das pessoas? R – Eu não sei, porque achavam talvez, não sei dizer, por ser ultrapassado, caretice, eu não sei. P/2 – Era uma época difícil. R – Era uma época difícil também. P/2 – Um pouco das suas dificuldades. Como estava esse tempo? R – Eu me lembro que a gente ia pra escola com muito receio de estar sendo infiltrados por elementos do Doi-Codi [Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna]. P/2 – Ciências Sociais. R – Ciências Sociais. Então a gente estava muito, eu me lembro que o nosso Centro Acadêmico da Escola de Sociologia Política foi invadido. Levaram só documentos, não levaram nada do que tinha de dinheiro. O cofre foi violado. Então a gente tinha muito medo. E eu me lembro até que o Fernando Henrique Cardoso uma vez fez uma palestra e eu não entrei porque eles disseram que só entrava até o horário que começou a palestra, depois não deixava mais entrar ninguém. Então eu cheguei atrasado e não consegui. P/2 – Não ouviu a palestra dele? R – Não ouvi a palestra. P/1 – Foi quando ele voltou do exílio isso? R – Isso antes. Foi antes, depois ele foi pro exílio. P/1 – Foi antes dele ir pro exílio. R – É. P/1 – Ah, sim. P/2 – Era um período bastante conturbado, né? R – Conturbado, eu tinha medo. Eu não me envolvia, mas eu tinha medo. Sabia que elementos da turma estavam com um envolvimento mais, como se diz, mais engajado, e eu ficava com receio. Então participava de uma ou outra reunião mas nunca, assim, me envolvi completamente. Mas sentia medo. Inclusive a gente soube de colegas que tinham sido presos, que foram presos porque faziam essas células que eles se reuniam. Então tudo aquilo que ________ fazia reunião era sempre feito com medo, a gente sempre tinha medo. P/1 – Foi numa época de perigos. E o senhor mantém contato com outros ex-alunos ainda, da turma do senhor? O senhor tinha uma turma? R – Olha, eu tenho recebido... o ano passado eu recebi, mas esse ano não, que eles... até o nome dela é Ana Maria, ela foi nossa colega do Centro Acadêmico. Ela falou que estavam querendo fazer um encontro. Eu aguardei, mas depois não tive mais resposta, entendeu? Então não. P/1 – Não tem muito contato. R – Não tive muito contato, com esse pessoal não tive mais contato, tanto da Sociologia quanto da Filosofia. P/1 – Então, voltando um pouquinho o que o senhor estava contando pra gente, com quantos anos começou a trabalhar? R – Olha, foi com 18 anos praticamente. Agora... P/1 – No seminário trabalhava? R – No seminário trabalhava, não tinha assim uma remuneração. 25 anos, né? P/1 – Mas já era um trabalho. R – Era um trabalho. Já exercia trabalho, tinha uma remuneração pro labore só. P/1 – Desde que idade no seminário o senhor já... R – Ah, não, no seminário não. No seminário nem tinha como trabalhar. P/1 – Nem tinha. Só quando se formou, é isso. R – Só quando me formei. P/1 – Com que idade? R – Com 25. P/2 – E aí... R – Aí eu comecei a trabalhar. Mas daí comecei a ter contato com pessoas que trabalhavam em outro e eu estava vendo, né, a possibilidade. Eu trabalhei algum tempo. Me desculpe, eu estou falando meio confuso. P/1 – Fique à vontade. P/2 – ___________________ R – Eu estive em Santa Cecília, fui pra uma paróquia, entendeu? Trabalhei dois anos na Santa Cecília, assumi a paróquia e depois assumi o Campo Belo, lá no Aeroporto. Lá eu trabalhei nove anos. P/1 – E aos 18 anos, o senhor... R – Não, não, não tive, desculpe, foi 25. P/1 – Então o senhor teve um período diferente, né? R – Tive, tive um período... P/1 – De início de carreira e de vida profissional, né? R – Corretamente. Foi bem diferenciado porque com remuneração mesmo, assim uma remuneração com carteira assinada, foi na Fundação. Mesmo os outros, que eu ganhava nas duas empresas, não tinha nada assinado. Não assinava nada. Não tinha carteira assinada, não tinha nada. P/1 – E o senhor chegou na Fundação, então, em função dessa pessoa. R – Não, ela indicou pra que eu viesse fazer. Aí eu me inscrevi. Eu fiz a inscrição e prestei. Nós ficamos o dia todo na fundação. P/1 – Isso em 1970? R – Em 1972, janeiro de 1972. E tinha dinâmica de grupo, eu me lembro muito bem. Depois tinha algumas provas escritas, de questões da área de humanas e depois uma dinâmica de grupo e depois uma entrevista, eu não sei se era com uma coordenadora ou orientadora, não me lembro bem. E ela pediu pra eu aguardar. Aí, nessa época eu ainda estava na Cetec que era 1971 até maio de 1972. P/1 – O senhor já tinha passado por esses dois trabalhos, né? R – Isto. Eu já estava só na seleção de pessoal. Foi aí que em maio me chamaram. Aí eu disse: “Bye, bye, tchau” pra Cetec e fui pra Fundação porque houve uma desistência de uma professora que tinha se engravidado, aliás, ia ter neném e ela não podia mais nem ia mais continuar. Ela falou que estava abandonando o magistério. E eu, como tinha sido o segundo ou terceiro da lista que eles tinham deixado pra chamar, acho que era segundo, então fui chamado, porque o primeiro já tinha sido chamado. Então me chamaram. P/1 – Aí como professor, né? R – Como professor. Aí eu comecei a ensinar Ciências Sociais, Educação Moral e Cívica, na época, e Geografia Humana, que às vezes eu substituía uma ou outra professora que faltava. P/1 – Como foi o seu primeiro dia de trabalho na Fundação, o senhor lembra? R – Eu não tenho uma lembrança específica, mas acho que foi com muito receio porque, pra enfrentar _______. Eu enfrentava multidões, mas não enfrentava uma sala de aula restrita. Eu tinha só estágio, mas não ser professor, estar dando aula assim, tudo. Eu não tenho lembrança, assim, muito. P/2 – O senhor tinha escutado antes falar alguma coisa da Fundação Bradesco ou o senhor não sabia nada a respeito? R – Não, eu não sabia nada da Fundação. O único conhecimento que eu tinha era do Bradesco e aqui da Cidade de Deus através do jornal. E eu fiquei sabendo da Fundação por causa dessa pessoa conhecida. P/2 – O senhor não tinha uma ideia. R – Não, não tinha ideia. E eu me lembro que quando eu entrei já havia um curso de processamento de dados que na época, se não me engano, chamava-se Programação de Sistemas e era a IBM [International Business Machines Corporation] que fornecia o professor pra lecionar a matéria técnica para os alunos. P/1 – Aqui na Fundação? R – Aqui na Fundação. E não havia ainda os cursos técnicos. Em 1973, foi daí que houve um leque. Aí se instituíram o curso de Administração de Empresas e Turismo com três anos, a nível colegial. P/1 – Técnico? R – Técnico. Aí que, especificamente, eu passei pro segundo grau. P/1 – Porque quando o senhor começou estava no primeiro grau? R – Estava no primeiro grau e dava aula pra esse curso de processamento de dados que era a nível colegial. Tanto é que em 1973 eles se formaram, teve uma formatura deles, primeiro colegial. Mas eu dava poucas aulas também, dava mais pra sétima e oitava série. Aí, em 1973, a diretora, que era a Dona Cleide, nos chamou e disse: “Olha, a partir deste ano vai haver a escola de primeiro e segundo graus e você, então, as suas qualidades levam mais pra jovens do que pra crianças. Então você passa a fazer parte do corpo docente da escola de segundo grau." P/1 – E qual foi a impressão? Como o senhor não conhecia a Fundação, qual foi a primeira impressão que o senhor teve da Fundação Bradesco quando iniciou? R – Olha, eu achava uma instituição grandiosa, não no aspecto de grande porque eu só conhecia _________, mas no aspecto de formação. A gente tinha muitas reuniões. A gente se reunia, os professores, enfatizando o aspecto técnico, de formação, mas humana também. Então isso me ocasionou, porque calhava com a minha formação. E era uma disciplina muito rígida também, era exigente e firme. Todos os professores eram competentíssimos. Então, pra mim, passou aquela imagem de uma seriedade muito grande e eu me lembro que me empenhava muito. As aulas que eu preparava tinha muito empenho de preparar pra não fazer feio também, né? P/1 – E nesse período, como o senhor era professor já de alunos mais velhos, tinha uma declaração de princípios? R – Havia. P/1 – Havia? Os alunos _________havia esse procedimento? R – Não, havia uma certa resistência. Essa declaração de princípios coincidia também com um tipo de contrato, eu não sei se... P/1 – De compromisso, né? R – É, de compromisso, inclusive trabalhar pra empresa. Até os alunos, porque achavam que isso seria uma... Mas eles se submetiam porque era um ensino gratuito, bom, conhecido pela região, famoso. Então eles aceitavam. E, imagine, naquela época o pessoal brigava pra não trabalhar, hoje brigam pelo emprego. P/1 – É incrível isso. R – E a procura era muito grande. Pra entrar no colegial, no segundo grau, fazia-se um vestibulinho e era pra região. E eu me lembro que a gente preparava todas as matérias, que eram todas as matérias fundamentais, português, matemática, geografia, inglês e mais alguma coisa. E havia um dia específico, em geral era sábado, que era feito esses exames. Então a procura era muito grande. Nossa, havia muita procura, aqui de Osasco principalmente, muitos alunos, muitos estudantes. E depois de um certo tempo era promulgado o resultado. Nossa, aí também era um Deus nos acuda. Mas já fazia-se fila aqui ao redor da fundação pra pegar o prospecto, o cadastramento pra ser feito, pra fazer o exame. P/2 – Pra fazer o vestibulinho. R – Pra fazer o vestibulinho. P/1 – E como era o dia a dia de trabalho? De um professor normal? R – Olha, eu entrava tarde porque o meu horário começava às duas horas. Eu entrava, isso quando eu passei a ser... no início, em 1972, eram só alguns dias, então segunda, quarta e sexta-feira, e sábado a gente tinha a reunião de coordenação. Os professores se reuniam pra preparar as aulas e debater os problemas que havia nas aulas ou na escola. E depois, quando eu assumi o cargo de Assistente Geral que eles chamavam, aí eu passei a vir praticamente todos os dias. Chegava às duas horas e saia às 11 horas ______. P/1 – Aí o senhor já não era mais professor? R – Não. Eu exerci primeiro, como Assistente Geral eu assistia, dava aula e prestava esse serviço assistencial. P/1 – O senhor fazia as duas coisas. R – Eu, inclusive, depois era responsável, posteriormente, da Associação de Pais e Mestres, o Círculo de Pais e Mestres. Aí eu tinha contato com eles e eles me ajudavam muito. Por exemplo, naquela época tinha uniforme, era um blusão, e cada curso tinha um blusão diferente. Eu me lembro que o curso de Administração era mais ou menos cor de vinho, o curso de Turismo era branco e o curso de Administração era amarelo. P/1 – Voltando um pouquinho, o senhor disse que tinha um curso e houve um período em que ampliou-se isso ____ R – Em 1973 ampliou-se, aumentaram mais dois cursos que foi de Administração e Turismo. Em 1979, se formaram cursos de Eletrônica, Redator Auxiliar e Supletivo. P/1 – O senhor era Assistente Geral e professor também? R – Era Assistente Geral. É, eu era professor. Mas em 1981 que eu assumi a Direção de Ensino, aí eu deixei de ser professor e fiquei só com a parte administrativa da escola. P/1- Em 1981? R – Em 1981, fiquei até 1991. P/1 – Aí o senhor era da escola, não da Fundação, é isso? R – Não, a escola fazia parte da Fundação. P/1 – ____________ P/2 – A distinção que eu estou fazendo é o seguinte. Parece que tem assim, a Fundação que cuida do todo e tem a parte que é da escola de Osasco, ou não? R – Não. P/1 – A escola faz parte da Fundação? R – A escola faz parte da Fundação. P/2 – Eu sei que a escola faz parte da Fundação. Eu estou falando assim... P/1 – Era uma coisa só. P/2 – Parece que tem uma parte administrativa só da Fundação e uma parte só da escola de Osasco. R – Não, havia realmente, por exemplo, a parte administrativa da Fundação, que cuidava da Fundação, porque a Fundação também tinha outras, tinha a Pecplan, tinha outras escolas. Mas a escola chamava-se Escola de Segundo Grau da Fundação Bradesco. P/1 – E o senhor era diretor? R – Eu era diretor da escola de segundo grau, eu não era da Fundação. P/2 – Essa a minha pergunta. R – Ah, certo. P/2 – Agora chegamos lá. R – Não era da Fundação. P/1 – E nessa época a fundação tinha a Pecplan? R – Tinha a Pecplan, a Pecuária Planejada que inclusive tinha, se não me engano, em Campinas, na Fazenda Sete Quedas, a parte prática. Depois foi para Uberlândia também. P/1 – Tinha outras empresas também, né? R – Tinha, tinha outras empresas. Aí já foge ao meu... P/1 – O senhor tinha a escola? R – Só a escola de segundo grau. P/1 – A Secretaria de Ensino da escola. E colegas, o senhor lembra de colegas de trabalho, alguém especial dessa época? R – Os que trabalharam comigo conjuntamente na... Porque nós tínhamos, por exemplo, cada curso tinha um coordenador e o coordenador se responsabilizava por cada curso. E todos esses coordenadores, a gente era muito amigo. Então eu tenho lembranças, né? Lair Morais que era do Turismo; o professor Reinaldo que faleceu, que era do curso de Redator Auxiliar. E esse professor era muito ativo, ele tinha sido professor na USP [Universidade de São Paulo] e ele saiu por desengano da USP. Ele era assistente da cadeira de Português e teve muita briga lá e ele procurou a Fundação. Eu que o entrevistei, inclusive, pra ser professor na Fundação. E ele, como tinha muito conhecimento, logo pegou coordenador. Foi professor e coordenador do curso. Então ele, como se diz, se responsabilizava pelos professores, pelo andamento do curso, para que o curso cumprisse as normas didático-pedagógicas. Então tinha cada coordenador. Eu me lembro dele, do Lair Morais, do curso de Turismo, de Administração; o Professor Arruda, do curso de Eletrônica, que era um Engenheiro Eletrônico que trabalhava também no Dante Pazzanese na área de eletrônica lá do hospital. Depois, o curso de Redator era o Reinaldo, tem o... No supletivo era o Professor Júlio Pena Alves, que era o curso supletivo. P/1 – E o curso supletivo foi criado? R – Foi, ele foi incorporado ao segundo grau. P/1 – Ele foi incorporado ao segundo grau. R – É, ele chamava-se, me lembro, Modalidade Suplência de Segundo Grau, que era só de segundo grau. E era destinado praticamente aos funcionários da empresa que não tinham feito o seu curso normal a nível de segundo grau. P/1 – Em sua trajetória, quais foram os maiores desafios que o senhor encontrou nessa trajetória inicial da Fundação? R – Olha, primeiro pra levar à frente porque era realmente muito diversificado os cursos, então era, por exemplo, a gente manter uma certa unidade. A gente se reunia muito, semanalmente, fazia questão de reunir os coordenadores pra saber como é que estava. E depois os desafios de certas resistências, de não aceitar certo tipo de, por exemplo, que tinha que usar o uniforme, cabelo curto. P/1 – Havia resistência porque eram mais os jovens? O senhor lidava com os jovens, né? R – Com os jovens, certo. P/1 – Eles resistiam a cabelo, barba, essas coisas. P/2 – E quando o senhor assumiu essa parte da direção o senhor continuou assim, voltado pro segundo grau? R – Voltado eminentemente pro segundo grau porque a direção de primeiro grau era outra pessoa. Era _____ P/1 – ______________ R – Isto. O senhor Carlos foi diretor do primeiro grau, acho, depois que ele passou lá pra cima, ele passou pra parte mais administrativa da Fundação. P/2 – Aí mudou quando o senhor passou pra diretor, suas atividades? R – Ah, sim, mudou, porque daí eu já não tinha, por exemplo, a mesma preocupação com a sala de aula. Eu tinha a preocupação com as salas de aula de toda a Fundação. A minha preocupação era mais administrativa, às vezes as solicitações que eram feitas da empresa, porque a gente tinha uma certa ligação. Mas acima de mim, por exemplo, haviam superintendentes. O senhor Carlos, se não me engano, foi um dos superintendentes. O Antônio Peres também foi. O Carinheiro foi diretor da Fundação antes da Dona Denise assumir. Eram três coordenadores, o Luis Carlos Baldini, que provavelmente também vocês vão fazer contato. Ele foi diretor do segundo grau também e depois foi superintendente da Fundação. Ele saiu por motivo de saúde também, ele deixou, se aposentou por motivo de saúde. Então esse Baldini, por exemplo, a gente tinha muito boas relações. O senhor Carlos quase que a gente não tinha contato porque ele era mais lá pra cima também. Então eu tinha muito contato com a diretora de primeiro grau, pessoal de primeiro grau. Mas cada um não se imiscuía no problema do outro, era separado. P/2 – Desculpe. Essa parte assim: vinham as ordens da Fundação, vocês seguiam. O senhor tinha uma certa liberdade pra colocar suas idéias, como funcionava? R – É, tinha uma certa liberdade, vamos dizer assim. Você, como era apenas o diretor da parte de segundo grau, então a gente tinha umas normas que eram a parte específica de disciplina que era praticamente determinada, a gente não abria mão. Então a gente tinha. Agora, quanto à questão das aulas em si, isso era critério de liberdade de cada professor desde que não ultrapassasse as regras e cumprisse as regras didático-pedagógicas. P/2 – Nessa época tinha esses cursos voltados pra comunidade? O senhor tinha alguma coisa a ver, não tinha? R – Olha, especificamente assim pra comunidade não tinha. A gente, eu não me lembro de ter alguma coisa voltado, por exemplo, pra cidade, era mais... P/2 – Era mais pros funcionários do Bradesco? R – Mais funcionários do Bradesco. P/1 – Que já eram um grande grupo, né? R – Já era um grupo muito grande. P/1 – Já era um número muito grande. R – Muito grande. Eu sei que a gente tinha uma preocupação muito grande. Por exemplo, havia reuniões dos diretores. O senhor _____ gostava muito de reunir os diretores sempre, às vezes até mais do que uma vez por ano. A gente, às vezes, vinha se reunir aqui com ele, aqui em cima na sala dele. Ele tinha um xodó muito grande pelas escolas da Fundação, ele gostava de ir lá na Fundação Bradesco. Pra ele era a menina dos olhos. E tudo, a Fundação sempre mereceu da parte dele um olhar muito carinhoso até. P/2 – O senhor conviveu com ele? R – Eu não cheguei a conviver, mas a gente sabia na época que ele estava aqui. Eu não convivi diariamente. P/1 – Ele acompanhava tudo? R – Ele acompanhava. P/1 – O senhor se lembra dele assim ________? R – Lembro, me lembro. Ele era muito atencioso. Com os alunos ele... O segundo grau era mais de noite, então ele quase não via. Mas quando eu ficava à tarde, a minha esposa que teve muitas vezes visita dele lá na escola, lá na Fundação. P/1 – A esposa do senhor era professora? R – Era professora de primeiro grau, ela era de primeira série. Eu a conheci aqui na Fundação. P/1 – A gente vai chegar nessa parte. E nesse período, durante essa trajetória também, mudou bastante as suas funções, senhor Almir. E o que mais mudou na Fundação Bradesco durante essa trajetória, que o senhor tenha observado? Na Fundação, o que mais mudou nesse período todo? Ela foi mudando constantemente? R – Olha, como eu me aposentei em 1991 e foi nesse período de 1991 pra frente, pra cá, que houve essa alteração, que, se não me engano, se modificou tudo. Só se tem o colegial e o aluno parece-me que faz uma escolha a nível, se faz Eletrônica, se faz Processamento de Dados. Na minha época era mais eminentemente técnico. Então, com certeza, que nem todo mundo era aproveitado na empresa porque não tinha vaga pra todo mundo, mas nós tivemos alunos que inclusive se projetaram. Eu tenho um aluno que inclusive até uma vez eu pedi pra ele fazer ____, nos Estados Unidos. Ele fez parte de uma empresa na linha de informática, ele era do processamento de dados, e com livro escrito, inclusive. Eu não me lembro o nome dele porque faz tanto tempo. P/1 – Era aluno da escola? R – Foi aluno da escola. P/1 – Tinha um diplomata, me parece. R – Houve um engano. O diplomata é o Professor Carlos Alberto, ele era professor. Ele foi professor, era professor de inglês aqui. P/1 – E trabalhava com o senhor? R – Trabalhava comigo. Ele dava aula de inglês pra todos os cursos. Porque às vezes um professor dava aula, por exemplo, de inglês pro curso de Processamento, pro curso de Administração e outro professor dava aula de inglês pra outro curso, eram vários professores. Esse também era um desafio, você ter uma unificação de conteúdo pra dar. Bom... P/1 – Em cursos diferentes? R – Em cursos diferentes, se adaptava. Por exemplo, o inglês dado no curso de Processamento era diferente, né? P/1 – Do inglês do Turismo. R – Do Turismo, por exemplo, claro. E ele sempre falava pra mim que o sonho dele era ser diplomata. E ele era de Araxá, acho que era de Araxá, Minas Gerais. E ele saiu, foi fazer, prestou concurso lá no Itamaraty. Ele me contava, quando ele voltou uma vez, de ter feito o curso. Ele ainda não sabia o resultado. Ele falou que quando foi pra Brasília, que esteve em Brasília pra se preparar, se hospedou no hotel junto com um advogado. Então o advogado ensinava pra ele a parte jurídica e ele ensinava inglês. Me parece que ele teve um bom desempenho. Eu sei que ele foi aprovado. Se não me engano está na Arábia Saudita, é diplomata na Arábia Saudita. Porque nós encontramos com a mãe de um aluno, por sinal que foi aluno da minha esposa na primeira série, e ela falou que ele, o filho dela, também está fazendo curso pra diplomata e ele é professor dele. Uma coincidência, né? P/1 – Coincidência. O senhor tem algum, tem outros alunos de destaque, alunos mesmo da Fundação que tenham marcado pela transformação de vida deles? ______ R – Olha, eu não tive mais contato, sabe? Sinceramente, eu não saberia lhe informar. P/1- Não manteve mais contato com eles? R – Não tive mais contato. Sei de alunos, por exemplo, que eu me lembro de um aluno que era do curso de Administração de Empresas e ele trabalhava no Instituto de Oceanografia aqui na USP. Ele até veio procurar a gente pra ver se _____ candidato lá porque me parece que era um curso muito, tinha pouca gente, eu não sei bem. E outros alunos que me falavam que _____, mas eu não sei te informar. Sinceramente, eu não tenho uma lembrança. Só os alunos que a gente teve contato sempre estavam, que progrediram na vida e que se realizaram. Então sempre falam muito bem da Fundação. É professor ______. Eu me lembro que no casamento de um sobrinho lá nosso, que também estudou na fundação, a gente encontrava vários ex-alunos. Valeu o tempo que a gente esteve na Fundação porque a gente, às vezes, reclamava da disciplina, mas isso foi muito importante pra vida da gente, o fato de ter uma disciplina mental, ter regras de vida assim que a gente deduzia. E o jovem todo era rebelde, adolescente, mas eu nunca tive coisas gravíssimas que acontecessem assim na época na fundação. P/1 – senhor Almir, nesse período todo estavam expandindo as unidades escolares de outros estados também, mas o senhor especificamente era da escola daqui. O senhor não participava dessa expansão ou tinha alguma coisa? R – Não, eu só participava das reuniões que havia dos diretores. Então eu sabia dessa informação porque tinha o superintendente e tinha alguns orientadores e coordenadores que faziam esse serviço. P/1 – Que cuidavam disso? R – Que cuidavam disso. Tanto é que eu nunca estive numa escola, uma unidade fora aqui da Fundação. P/1 – O senhor não chegou a conhecer ____________? R – Eu não cheguei a conhecer. Conheci as diretoras e os diretores. Até eu me lembro, num dos congressos que a gente teve aqui na Fazenda Sete Quedas, o diretor de Irecê, na Bahia, que tem uma escola lá, até convidou: “Ah, vai lá, Almir. Inclusive, eu te ofereço o nosso apartamento lá em Salvador, na Bahia”. Eu só fui em Salvador, na Bahia, quando solteiro, nunca voltei mais lá. Mas então esse é o contato que eu tive. Quer dizer, a gente trocava idéias. Cada diretor apresentava o trabalho que fazia, a gente trocava idéias. P/1 – Tinha conhecimento _______ participava? R – Tinha conhecimento. Porque as realidades eram diferentes, né? Em geral, eu sabia, por exemplo, a diretora de Jaboatão, em Pernambuco, tinha uma escola que, se não me engano, está localizada numa região muito pobre e até de zona, mas a escola era muito respeitada porque o aluno recebia, era uma procura muito grande porque o aluno recebia desde o sapato até o pente para pentear o cabelo, de graça. Além do curso, das aulas. P/1 – Tinha toda uma preocupação. P/2 – Mas essas reuniões deviam enriquecer porque acredito que cada um trouxesse a sua realidade e vocês trocavam _____. R – Ah, com certeza. Muitas coisas _____ eram poucas porque cada realidade era uma realidade diferente. Por exemplo, aqui praticamente a gente tinha alunos, muitos filhos de funcionário. A grande maioria dos alunos, havia exceções mas a grande, era filho de funcionários do Bradesco. Então praticamente as vagas eram especificamente. Abria-se, mas as vagas para quem não era do Bradesco eram poucas, mas tinha, pra não se fechar pra comunidade. Então tinha esses poucos alunos que também... e depois eles trabalhavam no Bradesco. Muitos não eram do Bradesco e ficavam ficando no Bradesco, terminavam sendo. (Pausa) P/1 – senhor Almir, o que o senhor acha que a Fundação Bradesco representa pra os funcionários no passado, agora, com toda essa formação educacional que ela ofereceu pra funcionários, filhos de funcionários? R – Eu acho que pra eles foi uma etapa de vida importante porque deram a base. Pelo que a gente sente e sabe dos resultados, todos elogiam o trabalho, a parte técnica e a formação humana. Então, ao lado da cultura e do ensinamento que eles adquiriram, tem o aspecto humano também porque as atividades que eram realizadas também faziam a união dos alunos. Então a gente, por exemplo, sabia os alunos que faziam a Semana de Turismo, de Administração, de Eletrônica. Inclusive, a Eletrônica fazia exposição lá no laboratório de artefatos que eles mesmo produziam. Havia exposição. P/1 – Todos os cursos tinham uma semana? R – Tinham. Todos os cursos tinham uma semana. P/1 – Uma Semana de Turismo, uma Semana de Eletrônica. R – E o Turismo ainda tinha um pouco mais porque tinha, por exemplo, a parte do folclore que eles faziam até ao ar livre. Numa foto que eu tenho ali, até _____ a semana que eles faziam. Então, por exemplo, eles convidavam especialistas pra virem falar sobre, por exemplo, jornalismo, no Redator Auxiliar. P/1 – Tinham palestras? R – Tinham palestras, inclusive veio uma jornalista da... Eu não sei de que jornal, ela veio fazer... Nós tínhamos um amigo que trabalhava no Bradesco e era formado em Jornalismo pela Morumbi, se não me engano, e ele trouxe a professora dele pra fazer uma palestra pros alunos, pro curso de Redator Auxiliar. Eu me lembro que, pro curso de Administração de Empresas, uma vez na semana veio o (Lacife?), o Lacife esteve aqui. Eu me lembro que a Associação de Pais e Mestres uma vez convidou o Padre José Vasconcelos, não sei se vocês chegaram a conhecer, era um famoso orador da época que veio fazer palestra pros pais. Então havia atividades. E isso tudo servia pra realmente fazer uma unidade dos alunos, se preocupar com o processo seu de crescimento cultural, intelectual. P/1 – O Círculo de Pais e Mestres funcionava? R – Funcionava sim, depois houve uma diminuição de atuação. P/1 – Eles participavam? R – Eles participavam. P/2 – Mas como era? O senhor podia explicar pra gente como era esse Círculo de Pais e Mestres, onde ele funcionava? R – Olha, ele se reunia uma vez por mês. Tinha ata, tinha tudo, tinha diretoria, tudo. E eles trabalhavam no que podiam fazer, ajudar os alunos nessas atividades também _________. Muitos eram pais de alunos e sabiam dos problemas que ocorriam. Mas era assim, atuando só a nível da escolaridade deles. P/2 – Como se fosse uma APM [Associação de Pais e Mestres] R – Isso, como se fosse uma APM, correto. Não tinha uma atividade externa, não fazia, porque já havia outras atividades. P/1 – E eles traziam assim ideias pra escola, contribuíam de alguma forma? R – É, às vezes a gente se reunia com os professores, eles lançavam os problemas que às vezes estavam ocorrendo com os filhos deles e às vezes com os alunos, que os filhos transmitiam. Mas depois foi diminuindo. Eu até me lembro que na época, eu não sei se foi extinto, o que é que foi. Não houve mais uma atuação deles. P/1 – Como havia. R – Como havia na época. P/1 – Um outro ponto. O senhor falou em união dos alunos e eu lembrei da ação de graças. Naquela época ainda tinha aquela festa de Ação de Graças? Os alunos do segundo grau participavam? R – Não, a participação dos alunos do segundo grau era muito pequena porque eles trabalhavam. A grande maioria deles iam pra escola de noite já, vindo do serviço. E tinha treino, tinha um treinamento, tinha ensaios que fazia. Eles não podiam fazer ensaio, então eles faziam o mínimo. Às vezes eram treinados pra ajudar na organização daquelas atividades todas, mas uma participação de segundo grau não havia especificamente uma parte deles. Era mais o primeiro grau. Era uma atividade que envolvia toda a escola. P/1 – Os cursos de segundo grau eram sempre noturnos? R – Sempre noturnos. Depois, quando eles se unificaram e formaram só o colegial, me parece que era de tarde. P/1 – Ao longo desses anos de trabalho algum caso pitoresco, engraçado, que mais tenha marcado, que o senhor lembra? R – Olha, assim, pitoresco não tenho não. Eu não me lembro especificamente. P/1 – E vamos pra família. Então o senhor é casado? R – Sou casado. P/1 – O senhor estava me contando que conheceu a esposa do senhor aqui. Como foi essa história? R – Eu a conheci. Eu entrei em 1972 e ela entrou em 1974. P/1 – Qual é o nome dela? R - Maria Bernadete (Zelinarte?) Pessoa César. E nós tínhamos a secretária do primeiro grau que ficava em frente à sala em que ela dava aula. E eu trabalhava numa sala. Naquela época eu era ainda Vice-Diretor, eu não era Diretor de Ensino, 1977. Eu fui nomeado Diretor em 1981. P/2 – Ela entrou em 1974? R - Ela entrou em 1974 pra lecionar, alfabetização de primeira série. Então essa secretária falou: “Você tem...”. Eu trabalhava na minha sala e em frente a minha sala tinha um bebedouro. Então essa secretária falou: “Vamos lá. Você não está com sede? Vamos lá”. Eu a via e sempre passava. Eu sempre passava e a via . Ela olhava pra mim e eu olhava pra ela. Eu sabia que ela tinha namorado, mas depois, uma época, ela... P/1 – Ah, ela tinha namorado? R – Ela tinha namorado, mas depois ela rompeu o namoro. Aí eu sabia que ela tinha rompido com o namorado. Foi nessa época então que a Dona Iná, que era a secretária, falou: “Vamos, vai lá beber água, você está com muita sede, muito calor.” E ela foi lá e fez um contato com ela direto. Aí que eu falei assim: “Que horas você sai?” Ela falou: “Eu saio às cinco horas”. Aí eu falei: “Então eu vou levar você pra sua casa.” P/1 – E como que o senhor ficou sabendo que ela rompeu o namoro? R – A Dona Iná. P/1 – Ah, eu já desconfiava. P/2 – A Dona Iná era o cupido, né? R – Era o cupido. P/1 – Ela resolveu, né? R – Mas a iniciativa partiu dela, sabe? Porque eu morava em Moema e ela morava aqui em São Francisco. E ela que telefonou pra mim. Eu não tinha telefone na época. Ela telefonou pra vizinha perguntando se eu não queria sair com ela. Eu falei... Então a iniciativa partiu dela. P/1 – E aí vocês começaram a namorar? R – Aí começamos a namorar. Isso foi em outubro, em dezembro nós casamos. P/1 – Foi rápido. R – A gente se conhecia desde 1974, só por ver, né? Eu sabia das qualidades dela, ela provavelmente sabia das minhas qualidades. P/1 – E como foi o casamento? R – Ah, foi muito bom, foi muito. Olha, eu acho que... P/1 – Foi em São Paulo? R – Foi, foi em São Paulo. Primeiro nós casamos no civil. O casamento civil foi na casa do meu irmão, lá na Vila Mariana, ele morava na Vila Mariana na época. Depois o religioso foi na Igreja da Aclimação. Eu tinha autorização pra casar. Eu não saí de mãos abanando de lá, eu quis fazer todas as coisas direitinho. Então eu estava livre e desimpedido. P/1 – Quando o senhor tem esse procedimento todo, normal, aí o senhor tem autorização pra se casar quando sai do seminário, é isso? R – É, vem de Roma. Eu recebi de Roma. Eu tenho o documento. Está tudo em latim, um latim difícil de se entender. Até eu não entendo muita coisa, mas entendo o principal. P/1 – São documentos oficiais, né? R – São documentos oficiais, correto. E aí nós casamos na Igreja também. E de lá nós estamos. Infelizmente não tivemos filhos, não porque não quisemos. Não temos filhos. Mas nós soubemos, vamos dizer, adequar nossa vida a essa realidade. Pensamos, não só na ideia de adoção mas a gente achou por bem, por vários argumentos razoáveis, a gente ficar como estamos. Sou muito feliz, graças a Deus. Pretendo, até o final da vida, felicidade _______. Feliz por encontrá-la na Fundação. De uma certa forma então a Fundação me dá essa alegria de ter primeiro participado como funcionário deles. Saí porque houve mudanças e também estava na época da minha aposentadoria. E aguardei que ela saísse também. Então ao mesmo tempo, por ser funcionário e por ter encontrado o amor da minha vida. P/2 – E pro senhor o que significou ter sido funcionário da Fundação? R – Olha, ela me ensinou realmente primeiro a disciplina. Tanto é que quando eu me aposentei eu tenho uma disciplina de vida. Eu já tinha pela minha formação religiosa, vamos dizer assim, na época, eu não sei como que está hoje. Então me ensinou também a parte cultural, me deu cultura também. Eu aproveitei, pude transmitir muita coisa. Então ela me ensinou a respeitar os outros também, o que é o ser humanos pros outros sob o aspecto de vida. E também pelo fato de ter possibilitado a mim hoje em dia ter um nível de vida, não digo milionário, mas nós tivemos possibilidade de fazer o nosso pé de meia. P/1 – O senhor considera que foi uma transformação de vida pro senhor? Ela possibilitou uma transformação pra uma vida de melhor qualidade, a Fundação? R – Foi, foi. Eu não tenho nada a me queixar da Fundação como tal. A Fundação me deu... É lógico que em todo agrupamento humano e em toda relação humana não existe perfeição porque cada um é um ser com todas as suas qualidades e com todos os seus defeitos. A gente teve divergências, tivemos de opiniões, de encontros, de modo de ser, mas pelo contrário, isso enriqueceu mais ainda. A gente aprendeu a ser tolerante também. Eu tive uma riqueza a mais que a riqueza que eu já tinha, em termos sócio-culturais, aliado a uma entidade que me deu a chance de eu também manifestar o meu conhecimento e ensinar um pouco as pessoas que contataram comigo. Todas as pessoas com as quais eu encontro e trabalhou comigo ou foi funcionário, ou foi meu aluno, eles só tem a agradecer, só agradece. P/2 – Foi isso que eu ia lhe perguntar. De um modo geral o senhor acha que, pra todos os que trabalham na Fundação Bradesco, todos sentem mais ou menos assim como o senhor? R – Eu não saberia dizer. Nos locais onde eu convivi todos dizem isso. Agora, se tem os que não sentem isso, já não é do meu conhecimento. P/2 – Eu estou falando assim no global. R – No global, vamos dizer assim, é positivo, o saldo é positivo. E o negativo quase não se fala, né, mesmo porque, talvez, sei lá, por questão de ética ou questão de discrição, não me falam. P/1 – Como o senhor vê o papel da Fundação nessa formação de geração pra geração? Porque há funcionários que foram alunos e aí os filhos ficaram alunos, tem uma formação. O papel da Fundação, o senhor considera importante _____________? R – É, eu acho importante. Eu acredito que, inclusive como parte de uma entidade financeira que é sustentada, embora tenha o seu fundo principal _______, me parece que passou do Bradesco um percentual muito grande, até mais da metade do que o banco. Então eu acho que se todas as entidades financeiras propiciassem esse tipo de formação escolar aos alunos, às crianças e aos jovens, eu acho que a gente teria muito menos problemas porque esse lado, eu acho que esse lado é o aspecto educativo, de crescimento humano. Porque o lado financeiro eu acredito que progrida o banco. É uma outra realidade. Eu acho que a Fundação ajudou cada um a ter o seu conhecimento. É lógico porque é o ensino médio, foi o ensino médio, não o ensino total da vida. Eu acredito que a Fundação Bradesco não seja o todo da vida de cada um. P/1 – É uma base, né? R – Deu uma base sólida pra poder cursar ou trilhar outros caminhos. Eu não tenho conhecimento, pode ser que haja. Eu não tenho conhecimento de alunos da Fundação, do meu tempo, que tenha se enveredado, por exemplo, pra linha de drogas, eu não tenho. Pode ser que tenha. Pode ser porque na minha mão, por 19 anos, passaram muitos jovens. P/1 – Foram 19 anos? R – Foram 19 anos, foi de 1972 a 1991. P/1 – senhor Almir, o senhor acompanhou a implantação do curso de Informática? R – É. P/1 – Ele era pioneiro. Foi no seu período? R – Olha, não porque quando eu entrei, em 1972, o curso já tinha sido implantado em 1970. Então, quando eu falei no começo, nem era professores específicos, era a IBM que fornecia a parte técnica e até material, se não me engano. Depois começou a progredir. Depois teve até um setor que havia, por exemplo, computadores específicos para os alunos. Nós tivemos uma sala de aula só com computador, tinha acho que mais de 15 computadores só pra alunos. Mas era especificamente pra matéria e naquela época ainda a implantação da informática estava no início aqui no Brasil. O Bradesco já tinha aqueles grandes computadores. Eu me lembro da linguagem Cobol, aquelas grandes linguagens. Tenho uma vaga lembrança disso. Inclusive, eu me lembro que o curso de Eletrônica, nós tínhamos o orientador técnico, ele era aluno também e ele propiciava a gente o uso do computador, que eu nem sabia mexer. Pra mim o computador era uma realidade, parece, fora do meu alcance, que a gente não foi formado nisso, formado em datilografia. E ele me deu os conhecimentos básicos de como mexer, digitar no computador, tudo. Eu não tenho muito conhecimento, mas eu pelo menos sei mexer na Internet. P/1 – Já faz tempo que começou, né? R – Faz muito tempo. P/1 – E quais as suas lembranças a respeito do senhor Amador? Tem lembranças dele? R – Olha, muito boas, são muito boas. Eu sempre tenho a imagem do senhor Amador Iatsu. Em termos de escola era aquele pai, entendeu? Não para os alunos pequenos, ele não tinha contato. Como era à noite, ele não vinha à noite na Fundação. Se ele veio, veio sem eu saber. Até acredito que ele tenha vindo. E tem até um fato interessante. Essa Dona Iná, que foi nossa cupido, quando ingressou na Fundação era responsável pela entrada do portão. Aquela foto que eu tenho, era a entrada ali. E ela, então, pra ingressar tinha que ter uma identificação, como se faz hoje em dia, só que naquela época ela pedia identificação. E ela não conhecia o senhor Amador. Isso é um fato que me contaram, eu não presenciei. O senhor Amador foi lá a pé, sem ninguém, sozinho. Foi entrar, ela não deixou entrar. Ela não deixou entrar. Ela disse que não sabia quem era, portanto não deixava entrar. Aí falaram pra ela assim: “Nossa, aquele é o senhor Amador Iatsu". Ela ficou envergonhada. Aí diz que o senhor Amador falou: “Não, pelo menos eu sei que ela é uma funcionária excelente, né?” P/1 – Não vai deixar outro entrar também. P/2 – _________ escola. R – E a escola era pequena, na época. Só tinha a escola, na época, eu nem estava, isso foi antes de eu entrar em 1972. Eu me lembro que aos sábados a gente, esse lado humano por exemplo, a gente se reunia, isso quando fazia coordenação aos sábados. E quando depois passou pra noite a reunião dos professores, a gente saía e ia lanchar, ia em restaurantes, ia beliscar alguma coisa. Algumas vezes nós íamos em casa do próprio professor tomar uma cervejinha. No sábado ou sexta-feira à noite, a gente fazia esses encontros informais, e era gostoso. P/1 – Eram unidos. R – Éramos unidos. P/2 – O senhor mantém ainda alguma amizade com esses colegas? R – Não tenho, desses colegas eu não tenho. Cada um... inclusive nem sei onde eles estão. De um eu me lembro, do Lair Morales (?), que ele também já saiu do banco. Inclusive saíram até da... O Arruda, por exemplo, ele era de Administração de Empresas, eu sei que ele trabalhava aqui, não sei também se trabalha. O Lair, que eu me lembro, foi o último que eu tive contato foi o Lair Morales. E, daquela época, do início da minha entrada na fundação, foi em 1972, praticamente eu não tenho nenhum contato. P/1 – Qual o seu sentimento, senhor Almir, de saber que o seu trabalho beneficiou tantas crianças, tantos adolescentes, principalmente? R – Olha, eu acho que eu tenho o sentimento de um dever, uma missão que me foi colocada na minha vida, seja por Deus, seja por quem for, sei lá. Essa missão, a alegria de ter cumprido, em toda a minha vida ter cumprido da melhor maneira possível. Falha eu tenho, talvez defeitos. Talvez não, defeitos todo mundo tem. Falhas provavelmente eu tive porque a gente não sabe tudo. Para o mundo nosso ali da Fundação eu acredito que eu sempre procurei ser fiel ao que eu me propus e ao que me era proposto pra trabalho, como trabalho. Então eu me considero muito feliz e não me arrependo de nada que eu fiz e faço votos até que a Fundação tenha continuado esse trabalho de outra forma, talvez mais moderna até, não sei. Mas saí com muita alegria e me sinto também feliz por ter trabalhado aqui. P/1 – O senhor gostaria de falar algo sobre fundadores ou alguns administradores da Fundação Bradesco? R – Olha, dos fundadores eu tive contato com o João Cariello, que ele era, apesar de estar acima de mim, inclusive ele foi diretor do banco, tudo, ele sempre, quando me chamava pra gente ter contato, conversar, sempre foi muito atencioso, muito, e acreditava no trabalho da gente e sempre me deu apoio. Lógico, ___________ porque ele tinha um outro lado. Porque eu ficava só com a parte de escola, educação. Ele tinha outro lado do banco porque era diretor de banco. Então ele sabia das coisas: “Essas coisas não podem dar certo, você vai com calma”. Depois entrou a neta do Amador (?). Em 1991 ela começou a assumir e aí não tinha mais contato com eles. P/1 – O senhor conhece outros projetos da Fundação? R – Não. O último que eu soube foi de uma escola que eles, parece, que terminaram. Faltava em alguns estados do Brasil instituir uma escola da Fundação. Eu não sei se foi no Acre, onde que foi. Eu sei que foi fundado, mas outros projetos... O que a gente vê, eu recebia uma revista do Bradesco. E sempre nessa Revista Bradesco era falado alguma, escrito alguma coisa da Fundação, as escolas que eram fundadas, os cursos que eram montados, o que num curso X era feito. Mas assim, mas não de participar. P/1 – E, na sua opinião, senhor Almir, qual a importância da Fundação Bradesco na história da educação brasileira? R – Olha, ela faz parte também de todos os outros projetos. Por exemplo, eu trabalhei num projeto do Cefam, depois que eu saí daqui era o Centro de Aperfeiçoamento de Formação do Magistério. Eu trabalhei quatro anos lá. Era tão fundamental também pra formação do magistério quanto _______, só que não tinha todo o apoio e o suporte, o que a Fundação Bradesco dá. Então eu acho que é importantíssimo. A gente não sabe o que está ocorrendo depois de tanta gente que passou pela fundação, mas eu acredito que alguma planta cresceu e frutificou. Eu não tenho assim, especificamente, o que aconteceu, o quê que foi, mas provavelmente deva ter. P/1 – E esse Projeto Memória 50 Anos da Fundação Bradesco, qual a importância, na sua opinião? R – Primeiro eu acho que é importantíssimo porque sempre que você manter viva a tradição e saber que isso é um apoio pras gerações futuras, e eu acho que o Museu da Pessoa resgata esse, vamos dizer assim, o fato da tradição ser viva, continuar viva, pros outros também saberem que as coisas que ocorrem hoje teve uma semente no passado. E isso é um resgate importante pra toda a vida. Aliás, eu acho que quando se perde o passado a gente perde um pouco da identidade da gente. Por isso que é importante esses programas de identificação, o que aconteceu no passado, pra ver o que muitas vezes acontece no futuro também, ou pra se prevenir pra que não aconteça. P/1 – E o que o senhor achou de participar dessa entrevista para o projeto de história oral da Fundação Bradesco? R – É, olha, eu fiquei meio assim preocupado, sou sincero com você. Mas eu acho que foi uma coisa assim tão informal, foi gostoso e foi bom. Talvez eu não tenha correspondido aos objetivos que vocês tenham, mas eu espero que a minha parcela, que eu seja um grãozinho de areia nessa enorme construção desse edifício grande que o Museu da Pessoa pretende fazer. Inclusive, eu acredito que pra tornar mais conhecida a Fundação, porque é um trabalho que a gente realmente tem que reconhecer como válido pra formação do Brasil, da identidade do Brasil. Como todas elas, eu acho que é importante. Eu acho que se é mais ou menos importante não vou dizer. É importante como todos os outros que contribuem pra formação das pessoas, do cidadão brasileiro. A gente vê como a crise é terrível. Hoje é importante saber que tem isso, que a Fundação colabora pra que haja melhoria de vida do cidadão e da cidadania brasileira. P/1 – Então em nome da Fundação Bradesco e do Museu da Pessoa a gente quer agradecer muito a sua entrevista que foi muito valiosa, uma história muito importante. Alguma colocação final, fique à vontade. R – Eu quero agradecer pra que assim a gente fique também e tenha uma importância, que a gente, e da lembrança de vocês, de ter chamado a gente e de poder contribuir com essa grandiosidade que vocês estão fazendo, essa tarefa, eu diria, hercúlea e grande porque com o tempo vai continuar, né? Então que vocês tenham sucesso, que vocês tenham também, e que vocês, junto com a Fundação, mostrem realmente esse trabalho que a gente fez, que os outros fizeram também, e que a gente teve uma parcela pequena mas teve também. Eu que agradeço. P/1 – Te agradecemos muito. --- Fim da entrevista ---
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