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História

De operador de plataforma a engenheiro de meio ambiente

História de: Antonio Cesar Aragão Paiva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/02/2021

Sinopse

O ingresso na Petrobras. A trajetória dentro da empresa. Experiências como engenheiro de meio ambiente na Reduc. Memórias trabalhando na plataforma. O acidente na Baía de Guanabara e a resolução da crise. O que é ser petroleiro. A relação com os filhos.

Tags

História completa

Projeto Memória Petrobras

Realização Instituto Museu da Pessoa

Entrevista de Antonio Cesar Aragão Paiva

Entrevistado por Morgana Maselli

Rio de Janeiro, 06 de julho de 2009

Entrevista n° MPET_Reduc_TM002

Transcrito por Michelle de Oliveira Alencar

Revisado por Amanda Rigamonti

 

 

P/1 – Aragão, eu queria começar a entrevista pedindo pra você dizer o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

R – Bem, meu nome é Antonio Cesar Aragão Paiva. Eu nasci no dia 22 de maio de 1958, no Rio de Janeiro.

P/1 – No Rio de Janeiro. E conta pra gente quando foi e como é que foi o seu ingresso na Petrobras?

R – Eu entrei na Petrobras em 1982. Na realidade corria uma crise grande no país, uma das crises que o país teve, né? Naquela época não tinha emprego, eu fazia faculdade, eu tinha feito um curso técnico aí estava no meio da faculdade, fazia Engenharia Mecânica no Cefet [Centro Federal de Educação Tecnológica] e apareceu um concurso na Petrobras pra mecânico de plataforma. Aí eu me inscrevi nesse concurso, fiz a inscrição, fiz a prova, quando eu fui buscar o resultado eu não passei na prova. Aí eu fiquei meio baixo, né? Moral caiu, porque, né? Porque nessa época eu namorava uma menina, que é a minha mulher atual hoje, a Tânia. E eu e Tânia a gente tinha a expectativa de casar, ter uma família e tal e aquilo ali foi uma coisa que me travou porque com aquele emprego eu poderia constituir essa família, né? Então eu fiquei muito pra baixo. Aí eu fui pra casa. Aí umas duas semanas depois eu recebi um telegrama me convidando para fazer um outro concurso que era pra operador de plataforma. Aí eu fiz esse concurso, passei nesse concurso e ingressei na Petrobras, no curso de formação aqui na Reduc , embora o meu concurso tenha sido pra plataforma, eu fiz um curso de formação aqui na Reduc, tá, de operador de utilidades do (EP ?), na época não era EP, na época era Região de Produção do Sudeste, né? E aí comecei meu curso em agosto de 1982, esse curso demorou aí três meses, quando foi no dia 13 de dezembro de 1982 eu parti pra um estágio, já como funcionário da empresa, que eu fui admitido no dia 1º de dezembro de 1982, né, parti para um estágio na Replan [Refinaria de Paulínia]. Por que, né? Porque eu fui admitido para trabalhar na Plataforma de Cherne II e a plataforma não estava pronta ainda. Então eu passei lá pela Replan, passei quase um ano na Replan. Saí da Replan em dezembro de 1983 pra vir pro EP, pra embarcar na Plataforma de Cherne II.

P/1 – E quando foi que você chegou aqui na Reduc?

R – Aí passei lá em Cherne II, sete anos, né? Quando foi 1989 eu quis sair de lá. Aí me transferi, fiz uma troca com o operador daqui, aqui da Unidade 12-40, operador Lincoln, e aí me transferi, fiz uma troca com ele e me transferi pra cá. Cheguei aqui em dezembro de 1989, cheguei até no meio de uma greve [risos].

P/1 – E lá em 1989, quando você chegou aqui, qual era a sua função? Conta um pouco.

R – Operador de utilidades.

P/1 – Sim. Mas pra quem não conhece, um operador de utilidades faz o quê?

R – Na época, né, a carreira de operação era dividida em: operador de utilidades I, operador de utilidades II, operador de utilidades III, tá? Eu era operador de utilidades I, ok? Você tinha operador de processos, operador de utilidades e operador de transferência e estocagem.

P/1 – E, atualmente, o seu trabalho aqui na Reduc, qual é?

R – Bem, aí nesse tempo em plataforma eu acabei me formando, me formei em 1987, tá? Fiz um concurso pra nível superior em 1988, nesse eu não passei. Aí depois a empresa passou um tempo, de 1988 a 1998, sem concursos, não teve concursos de nível superior, né? Quando foi em 2000 eu fiz um curso de especialização pela Petrobras em meio ambiente, terminei esse curso em 2003. Em 2003 eu fiz um concurso para nível superior, para engenheiro de meio ambiente e passei e fui reclassificado. Então, desde 2004 eu sou engenheiro de meio ambiente.

P/1 – E qual é a função que tem o engenheiro de meio ambiente aqui dentro da refinaria? Quais são as suas atribuições?

R – Eu na realidade acompanho unidades de tratamento ambiental, ou seja, toda aquela parte de tratamento de águas, e tratamento de águas residuais, né, eu faço acompanhamento, ok? Eu acompanho eficiência, eu proponho novas tecnologias, né? Eu conceituo novos projetos nessa área, ok? Basicamente é esse o meu trabalho hoje. E eu acabei, né, como trabalho nessa área há muitos anos eu acabei ocupando um cargo no Estado de secretário executivo do Comitê Guandu, né? O Comitê Guandu é um comitê formado, é um comitê que tem a finalidade de fazer gestão dos recursos hídricos no estado, é o principal comitê de recursos hídricos do Estado, tá? Ele faz a gestão de toda a bacia hidrográfica do Rio Guandu. E esse comitê é composto por uma parcela de usuários de água, poder público e sociedade civil, né, é um comitê formado por três segmentos. E dentro desses três segmentos a Petrobras está representada, eu represento a Petrobras, né? E em função disso acabei sendo eleito pelos meus pares dentro do comitê secretário executivo do Comitê Guandu, que na linha hierárquica é o segundo cargo dentro do comitê. Você tem o presidente do comitê e tem o secretário executivo, né, eu ocupo essa função. Já estou indo para o terceiro ano, fiz dois anos, o primeiro mandato foi de dois anos, quando foi agora em fevereiro eu fui reeleito por mais dois anos, né, então meu segundo mandato e último mandato porque só é possível uma reeleição, ele termina em 2011.

P/1 – E como é que é essa relação do comitê lá com a Petrobras, as demandas e...


R – Eu aprendi muito, porque, né? Porque lá eu estou defendendo os interesses da Petrobras, mas você como engenheiro de meio ambiente, como militante na área ambiental, né, você tem que convergir os interesses da Petrobras com os interesses ambientes, que na realidade são os mesmos, né? Talvez não seja interpretado assim por outros, mas você tem que mostrar aos outros segmentos que os interesses da Petrobras são os interesses ambientais, né, o que a Petrobras propõe dentro do comitê lá é a preservação de todo o recurso hídrico disponível, ok?


P/1 – Aragão, você que teve um tempo lá fazendo o estágio na Replan, e depois veio trabalhar aqui na Reduc. O que você acha que diferencia aqui a Reduc das outras refinarias?


R – Olha só, as refinarias eu conheço todas as refinarias. Eu trabalhei na Replan um ano e pouco, né? O que diferencia basicamente é a cultura, tá? A cultura do interior de São Paulo, né, ela é um pouco diferente da cultura carioca, ok? Eu comecei a minha vida profissional na Replan, não é, e mesmo quando eu embarquei, ou seja, saí da Replan, né, e fui pra (REPEN ?) embarcar eu senti uma diferença, uma diferença sensível entre a cultura do interior de São Paulo e a cultura do estado do Rio de Janeiro em termos profissionais, tá ok? Eu não sei, me parece que a cultura do interior de São Paulo é um pouco mais rígida, talvez até o aspecto do carioca ser mais despojado, eu acho que isso interfere. 


P/1 – E o que você poderia comentar da presença da Petrobras aqui nessa região?


R – A Petrobras ela é catalisadora, né, ou seja, a Petrobras ela alavanca, né? Caxias, esse pólo industrial de Caxias, ele é alavancado pela Petrobras. A Petrobras exerce uma função diferenciada, a função distinta, né, dentro da cidade de Caxias, porque eu acho em qualquer lugar, não só aqui, né? Quando eu trabalhei em Paulínia a mesma coisa era lá em Paulínia, apesar de Paulínia ser uma cidade onde você tinha outras indústrias, mas a Petrobras exercia um papel catalisador, um papel importante, um papel fundamental, né, naquela região. Assim no EP, ok, a base da Petrobras do EP em Macaé. E Macaé hoje é a Petrobras, não é? Ou seja, em todos os lugares onde a Petrobras está ela exerce um papel de liderança, ok, num âmbito industrial, em qualquer área, né, porque a Petrobras se envolve não só na área industrial, mas na área ambiental, né? As pessoas que trabalham na Petrobras exercem uma força econômica grande na região, ok? Eu acho que...


P/1 – Você até comentou agora da área ambiental, né, quais são as ações da Reduc em relação à proteção ao meio ambiente?


R – Olha, a Reduc vem caminhando, né, vem caminhando mais recente, fortemente nessa área, né? Até a minha presença num comitê de bacia, né, é uma evidência que a Reduc vem caminhando forte. Por quê? Eu praticamente vivo lá dois dias por semana no comitê, ou seja, eu sou um funcionário pago pela Reduc, não é, disponibilizado para o comitê de bacia, né, aonde o trabalho nesse comitê de bacia ele é totalmente voluntário. Ou seja, não se aufere recursos do Estado pra você fazer trabalhos para esse comitê, né? Então eu sou uma evidência, né, do quanto a Reduc, do quanto a Petrobras está comprometida com a área ambiental, ok? Nós fazemos uma série de trabalhos, nós temos lá dois trabalhos, né, que são patrocinados pela Petrobras, um é o Replanta Guandu, um projeto onde você propõe o replantio de toda a margem do rio Guandu, né, desde lá de Rio Claro até Seropédica, ok? É uma meta ambiciosa de plantio de um milhão de árvores, tá? Nós plantamos numa primeira etapa 400 mil, onde a Petrobras é a principal parceira desse projeto, o projeto é a Petrobras, né, Vale do Rio Doce, CSA, aquela Companhia Siderúrgica do Atlântico, e a Petrobras é uma das três parceiras nesse projeto, ok? Então isso é uma evidência do quanto a Petrobras está trabalhando, né, em prol do meio ambiente.


P/1 – E existe uma relação nesse sentido da proteção do meio ambiente com a comunidade aqui no entorno?


R – Sim, com certeza, né? Há muito pouco atrás, eu participo lá no Comitê Guandu, e participava aqui do Comitê Baía de Guanabara, não é? E no Comitê Baía de Guanabara a sociedade civil de Caxias era muito presente. Então nós interagíamos muito com a sociedade civil de Caxias. E o que é essa sociedade civil, não é? É a Associação de Moradores, é a área acadêmica, a universidades, são os conselhos regionais, são as universidades, né? Então essa interação com área acadêmica te faz ficar conhecido, né, te faz, faz você perceber a presença de uma empresa, né, em conjunto com essa sociedade civil. Ou seja, nós estamos interagindo Petrobras como indústria com essa sociedade civil, tá? Então você vê essa aproximação, né, da indústria com a sociedade civil, ok? 


P/1 – E Aragão, você falou um pouco aí dessas coisas do meio ambiente, e em relação às ações sociais que a Reduc promove, você está inteirado de alguma delas?


R – Estou inteirado, eu vejo com, eu vejo que há muitos anos, né, a Reduc faz um esforço grande com o patrocínio de ações esportivas, eu vejo, né? Eu vejo também trazer pra dentro da refinaria aquela, a comunidade na forma dos seus adolescentes, ou seja, os seus adolescentes entrando na refinaria, participando, né? Nós tivemos aqui, há um tempo atrás,esse programa ele até acabou um tempo recente, o problema de iniciação ao trabalho, (ISPITS ?), né? Onde a criança, a criança, o adolescente entrava aqui, não é, ele aprendia, né, algumas formas de trabalho, se iniciava esse adolescente no trabalho, ou seja, você retirava da rua esse adolescente, às vezes até você dava um caminho de oportunidades pra esse adolescente, ok? Muitas vezes acontecia isso, tanto que hoje, né, eu encontro com várias garotas, vários garotos que participaram desse programa de iniciação ao trabalho, né, trabalhando em várias empresas contratadas, tá? Ou seja, isso com certeza formou esse adolescente, ajudou na formação desse adolescente, tá? Então foi um trabalho excelente, né? Esse trabalho, não sei a quantas anda esse trabalho hoje, mas esse trabalho foi um excelente trabalho. Nós temos nos nossos eventos, né, participação da comunidade em diversas formas culturais, né? A gente tem, as nossas comunidades do entorno participam dentro da Reduc dos nossos eventos, né, ou com grupos de teatro, ou com grupos de música. Por exemplo, você vê a aproximação da Reduc com a sua comunidade do entorno, né, nessas expressões culturais, ok?


P/1 – Legal. E você pode, Aragão, comentar um pouco sobre o crescimento que a Reduc tem tido nos últimos anos?


R – Olha, a Reduc no século XXI ela cresceu muito, houve muitos investimentos, né? Esses investimentos eles naturalmente foram por força até das questões ambientais. Ou seja, cada vez se busca uma maior qualidade dos seus produtos, não é? E quando se busca a qualidade dos seus produtos, né, está se buscando uma especificação mais rígida desses produtos, em consequência de quê? Das pressões ambientais nos usos desses produtos pela sociedade, ok? Em função disso a Reduc teve que se modernizar, não é? Então houve um investimento forte na modernização da refinaria em função, né, basicamente dessas pressões ambientais da sociedade sobre os produtos que a própria empresa produz, ok?


P/1 – E essa modernização interferiu de que forma no seu trabalho?


R – Ah, muito, né? Por quê? Cada vez que você constrói uma unidade nova na refinaria, não é? A minha área é: tratamento de águas e tratamento de afluentes, né? Tratamento de águas resíduas ou afluentes, né? Então cada vez que se incorpora uma unidade nova dentro da refinaria, é lógico, né, que essas unidades vão demandar por água, não é, e vão gerar águas residuais a partir do uso dessa água, né? Então nós dessa área de acompanhamento de águas e afluentes estamos sempre, né, sendo absorvidos. Pra você ter uma ideia, no meu caso nós tínhamos um engenheiro de acompanhamento de águas e afluentes antes de 2000, né? De 2003, 2004 pra cá nós temos já dois engenheiros, não é, só pra parte de águas, fora a parte de emissões atmosféricas, né, fora a parte de conservação de energia, ok? Então ampliou muito o corpo técnico da refinaria em função dessa modernização.


P/1 – Agora, Aragão, você até comentou quando eu lhe perguntei das ações sociais que esse projeto, o projeto iniciação ao trabalho tinha recém sido de repente extinto. Isso tem alguma relação com a crise financeira? O que que essa crise atual atingiu aqui a refinaria?


R – Olha, eu vou te ser sincero, né, essa crise atual ainda não, eu ainda não vi essa crise restringir alguma coisa aqui na refinaria, tá? Eu acho que, né, eu vou até fazer, vou até parafrasear lá o presidente Lula dizendo que essa crise em termos, né, de atuar negativamente nos projetos de ampliação da refinaria, nos projetos de modernização da refinaria, né, eu acho que ela atuou muito pouco negativamente, ou seja, acho que não fez nem marola, né? Nós continuamos com os nossos projetos, estão, né, carteira de projeto ela está bem atualizada, ok?


P/1 – E em relação ao Pré-Sal, tem alguma perspectiva de mudança aqui? As descobertas afetam a Reduc?


R – Olha eu acredito que não, né? Apenas talvez alguma mudança em termos de alguma unidade, talvez porque nós estávamos trabalhando com petróleo de médio pra pesado, né, talvez com o Pré-Sal você tenha um óleo mais leve, né, mais fácil de você trabalhar. Talvez haja alguma mudança em termos de adaptação de alguma unidade em função disso, tá?


P/1 – E agora com a implementação do Comperj [Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro] em Itaboraí?


R – O que é que tem?


P/1 – O que é que... Que perspectivas de mudanças podem haver aqui pra refinaria?


R – Não, eu acho que a refinaria com empreendimento (COC ?) que entrou em operação, entrou no ano passado, eu acho que a refinaria ficou bem, ela ficou bem balanceada, né, em termos dos seus produtos, né? Ela ficou, o COC deu uma rentabilidade muito grande à refinaria. Então eu acho que o Comperj em termos de mercado, até porque o país é um país que está em crescimento, e ele precisa dos produtos que a refinaria produz, não é? E o país hoje ele é deficitário em termos de alguns produtos, então não vejo o Comperj como uma ameaça em termos de mercado. Até porque o Comperj, ele tem o foco petroquímico, né? Os derivados produzidos pelo Comperj na realidade são subprodutos, né? Então não vejo o Comperj como ameaça.


P/1 – E o que você acha, Aragão, que foi a maior mudança que você acompanhou aqui dentro da Reduc desde a sua entrada?


R – Desde 1982? Na Reduc? Olha, a Reduc mudou muito, né, eu acho que a maior mudança que houve na Reduc foi a partir do acidente da Baía de Guanabara. O acidente da Baía de Guanabara, ele funcionou como um divisor de águas, não na Reduc, mas na empresa. Na realidade foi uma mudança, né, em termos de mudança cultural, não só na Reduc, mas na Petrobras, né? Nessa área de SMS [Segurança, Meio Ambiente e Saúde] eu vejo que foi o acidente da Baía de Guanabara, tá? A partir do acidente da Baía de Guanabara, né, nós mudamos o jogo, mudamos o jogo na realidade, ok?


P/1 – E nessa época do acidente, já que você mencionou, você tava trabalhando já aqui?


R – Eu estava na Reduc, isso.


P/1 – Como é que foi a sua participação nisso, assim, você ajudou lá?


R – Eu, né, eu estou como engenheiro de meio ambiente, eu estou como engenheiro de meio ambiente desde 2004, né, mas eu trabalhava sempre como técnico de operação na mesma área de tratamento de águas e na parte de tratamento de águas residuais ou afluentes. E nós tivemos uma participação forte, porque, né? O que que aconteceu nessa época? Nós tivemos “n” auditorias, tanto internas como externas, né? Nós fomos auditados em todos os nossos processos, a nossa forma de trabalho ela foi questionada em função daquele acidente, então nós tivemos que nos reformular, mudar a nossa forma de pensar, não é? Na realidade o que aconteceu a partir daquele acidente é que mudou, nós mudamos culturalmente num tempo muito pequeno, em coisa de seis meses, um ano, nós tivemos que mudar, ou seja, a sociedade nos obrigou a mudar num tempo exíguo, num tempo muito pequeno, né? Isso foi muito abrupto, algumas pessoas se perderam nesse processo, algumas pessoas não entenderam e se perderam, né, outras entenderam logo de imediato e conseguiram acompanhar essa evolução. Mas eu acho que foi o ponto mais importante, né, na Reduc foi o evento de 2000, tá, o acidente na Baía de Guanabara.


P/1 – E Aragão, desse tempo todo que você trabalha aqui na Reduc tem alguma história pra contar interessante ou engraçada do seu tempo de trabalho?


R – Eu aqui na Reduc que eu me lembro eu tenho várias histórias, né? Eu tenho várias histórias. Aqui na Reduc eu estou desde 1989, não é? Na realidade eu participo do dia a dia da refinaria, eu não me lembro agora, não me recordo uma história típica, né, eu me recordo mais de histórias de plataforma do que aqui da Reduc mesmo.


P/1 – Conta uma história de plataforma então pra gente.


R – História de plataforma é interessante, né? Eu embarquei em 1983, né, e lá em 1984-1985 nós estávamos, era o mês de julho, não é, nós estávamos dormindo e determinado momento a plataforma começou a balançar. Era uma plataforma fixa, né, então não tinha balanço nenhum, que era fixa no fundo mar. E numa certa altura da noite a plataforma começou a balançar. Aí o pessoal acordou assustado, o pessoal estava dormindo, alguns dormiam e outros trabalhavam, era horário de turno, né? E eu estava dormindo nesse momento, a plataforma balançou, balançou firme mesmo, parecia que ia. E aí nós descemos apavorados, né, e vimos, era um rebocador que as amarras do rebocador, existiam rebocadores que transportavam mantimentos pra plataforma, né, óleo combustível, óleo diesel e ele ficou preso nas amarras e ficou batendo na plataforma e a plataforma tinha 150 metros de altura, né, 200 metros de altura, né, então você batendo com o rebocador em cima a plataforma faz isso, né? E um colega nosso, né, o apelido dele era até Siri, ele desceu, né, com um facão, um facão de cozinha, ele desceu lá onde você amarrava aquele rebocador ________ da plataforma, e desceu com aquele facão e cortou as amarras do rebocador, o rebocador botou o motor pra sair pra puxar, né, e ele cortando com o facão, cortando com o facão, e o rebocador conseguiu sair, né? Eu me lembro disso porque foi uma atitude heróica, ele foi aplaudido naquele dia, né, e era uma pessoa simples lá, uma pessoa que não tinha nenhum cargo, que não exercia nenhuma função de liderança, né, naquela plataforma, mas ele teve a presença de espírito de pegar um facão de cozinha, descer lá no spider deck, que era o lugar onde você amarrava aqueles rebocadores,  com o facão de cozinha, facão de peixe, e cortar a amarra, conseguiu, né, conseguiu evitar um mal maior, conseguiu evitar um sinistro, né? Eu achei aquilo, aquilo foi uma coisa que ficou marcada pra mim, é uma atitude, né? E foram essas várias ações desse tipo que a gente fez acontecer as coisas tanto aqui quanto lá, né? Muita coisa aconteceu na Petrobras, né, tanto na Reduc quanto no EP em função da força de algumas pessoas, não é? Muita coisa a gente fez acontecer, muita coisa aconteceu nesses anos, né, mas muito pela força dos funcionários dessa empresa. A gente às vezes vê depois a foto bonita, vê a foto lá aparecendo, a produção de tanto e tal, mas houve um esforço às vezes sobre-humano de cada um, né, naquelas ações que não aparecem ali na foto, aparecem de quem se recorda daqueles momentos, daquela hora, mas não ficam registrados. 


P/1 – Legal. E Aragão, você é sindicalizado?


R – Eu não sou sindicalizado não, já fui, né, hoje já não sou mais.


P/1 – Em algum momento, quando você era sindicalizado, você exerceu algum cargo no sindicato?


R – Não não, nunca exerci cargo no sindicato não, né? Eu tenho, agora até m função de trabalhar nessa área ambiental, né, a gente tem interagido bastante em função dos projetos ambientais serem de interesse do sindicato também, né? E lógico que interesse do trabalhador, interesse do sindicato, tá? Mas eu já fui sindicalizado, hoje eu não sou. Quando eu passei, quando eu fui reclassificado eu saí.


P/1 – E como é que você vê a relação entre o sindicato e a Petrobras, o que mudou? 


R – Olha, eu acho o sindicato extremamente importante. Eu acho o sindicato extremamente importante, porque, né? Na relação, não é, nessa relação trabalhista, você tem que ter alguma entidade, né, com força de representação pra te representar junto a empresa. Eu acho que o sindicato é extremamente importa, tá? Eu apoio, eu vejo, apesar de não estar intimamente ligado, mas eu apoio bastante a atuação do sindicato dentro da empresa, tá?


P/1 – E Aragão, o que é pra você ser petroleiro?


R – Ser petroleiro? Olha só, ser petroleiro é, você, eu tenho uma história muito, porque eu tenho quatro filhos, né, e três dos meus filhos estão aqui, mais uma nora, né? Eu, quando, os meus filhos sempre se viram muito em mim, sempre se exemplaram muito em mim, né? Então quando eles, quando o mais do meio, né, ele fez 19 anos, tinha feito curso técnico ele falou assim: “Eu vou fazer concurso pra lá”, eu falei: “Vai! Tá bom”. Aí fez ele e a namorada, aí passou a namorada e ele não passou, tá? Aí no ano seguinte ele fez novamente e passou pra Transpetro, né? Aí um outro, dois anos anos depois o mais novo, o mais novo não, o terceiro, né, o Júnior, ele fez pro Rio Grande do Norte pro EP, né, aí passou, foi pra lá, depois foi transferido pra Reduc, hoje está aqui. Então eu acho muito que, eu acho que ser petroleiro, né, é essa coisa de você ter orgulho da empresa onde você trabalha, né? Eu tenho orgulho, eu acho, quando eu tô em qualquer evento, hoje eu participo de vários eventos externos, né, eu sempre coloco, sempre quando alguém fala alguma coisa, né, alguma coisa contra a empresa, eu sempre coloco pras pessoas o que é a realidade, né, o que... Eu sempre coloco a visão da Petrobras, né, sobre aquilo, sobre aquela coisa que alguém falou que “Não, a Petrobras não fez ou deveria ter feito”, né? Eu sempre coloco a visão da empresa como se a pessoa se colocasse como a Petrobras se coloca, ou seja, se colocasse no lugar da Petrobras, tá? Eu sempre, sabe, hoje eu tenho uma grande oportunidade de fazer isso, porque, né? Porque eu exerço um cargo público, né, estou sempre em contato com uma gama de pessoas enorme, uma gama de pessoas que são formadoras de opinião, né, então eu tenho oportunidade de colocar essa visão da Petrobras, e colocar, né, de forma que não pareça que eu estou fazendo a coisa de forma piegas, bem isenta, não é? Porque depois de você estar aqui há quase 30 anos, né? Eu estou aqui há 27, estou indo pra 28 anos, você já tem a nítida noção de como essa empresa trabalha, e de como essa empresa chegou aonde chegou. É porque as pessoas pensam que a empresa chegou aonde chegou com benesses de Estado ou de governo. Não, a empresa chegou aonde chegou, não é, pelo valor das pessoas que trabalham aqui, da muita coisa a gente fez. Eu me lembro, eu me lembro quando eu embarquei em Cherne II, a plataforma não estava pronta, né, eu era operador, mas eu apertei flange, né, de linha, subia em linha, apertava flange, pra quê? Pra plataforma partir, pra gente produzir petróleo porque na época a meta era você produzir 500 mil barris de petróleo por dia, e a gente pra partir aquela plataforma a gente teve que sacrificar, ficar lá 21 dias embarcado, entendeu? Isso o esforço de cada um, né, estava colocado ali. Ou seja, às vezes abdicando de um convívio familiar. Quantas vezes eu embarquei 21 dias, quantas vezes eu saí aqui da Reduc, né, às nove da noite, às nove e meia da noite por um problema qualquer, entendeu? E sempre assim, ou seja, sempre o trabalhador da Petrobras se deu muito pra empresa, entendeu, sempre se deu muito pra empresa. Não estou dizendo que a empresa não reconheceu, lógico que reconheceu, mas eu vejo que ser petroleiro é você se dar pra empresa como eu vejo nós trabalhadores, né, como nós nos damos para a empresa. Ou seja, né, nós abdicamos às vezes de muita coisa, eu já vim aqui no sábado me ligaram: “Ó, um problema aqui, um vazamento”, eu saía, pegava meu carro, vinha pra cá, entendeu, via o que que era, passava aqui quatro, cinco horas, depois ia pra casa. Isso tava lá no convívio com a minha família, e muitos e muitas pessoas hoje fazem isso, não só gerentes mas o pessoal técnico, o pessoal que não exerce nenhum cargo de gerência, eles fazem, atuam dessa forma, porque, né? Porque tem orgulho da empresa onde trabalham, né, então eu acho que isso é ser petroleiro, não é? É você se dar, é você se doar a essa empresa, não é, sem esperar que haja alguma recompensa, você se doar por amor à empresa, tá? Então eu vejo que ser petroleiro é isso.


P/1 – Aragão, a gente tá caminhando pro fim. Antes de eu fazer a última pergunta pra você tem alguma coisa que eu não lhe perguntei que você queira deixar registrado?


R – Não, eu só queria colocar que eu acho muito importante isso na minha vida tanto pessoal como profissional, foi importante a questão do exemplo, né? Hoje eu vejo os meus filhos aqui, eu tenho três filhos e uma nora, como falei pra você, e eu vejo que eles vieram pra cá em função do exemplo que eu dei pra eles, tá? Talvez se eu não desse o exemplo, né, talvez se eu não mostrasse que a empresa, a empresa é excelente, dentro do Brasil eu não vejo uma outra empresa igual à Petrobras, então eles vieram pra cá por isso, né? Então eu acho que esse, que a forma de eu educar pelo exemplo, eu coloquei eles numa situação muito confortável, até em termos profissionais. Hoje eles estão bem, todos estão galgando posições melhores em função desse exemplo.


P/1 – E, pra encerrar então, eu queria que você dissesse o que você achou de ter participado, de ter dado o seu depoimento aqui pro Memória Petrobras?


R -  Eu acho isso importante porque você, as pessoas que trabalham muitos anos num mesmo lugar, ou numa mesma empresa, né, elas tem que passar essa noção de como foi, né, como foi a trajetória nossa dentro da companhia, não é? A trajetória às vezes não foi fácil, existiram “n” problemas, né, mas a gente não tá passando aqui 20, 25, 30, 35 anos, até 40 anos, como tem muitos agora, né, E isso aí tem que ficar registrado pras pessoas novas que estão chegando, né? As pessoas chegam hoje, né, com outros valores, outra cultura, elas não conhecem o que se passou aqui dentro, né? As pessoas às vezes têm uma ideia errada, né, que a pessoa, que quem trabalhou aqui anteriormente talvez tenha tido uma vida profissional diferente, mas foi uma vida muito, com muito sacrifício, com muita doação à empresa, né? Eu vejo que talvez essa doação hoje ela não seja igual como era no passado, igual no meu tempo, né? No passado, eu ainda estou aqui, né, mas no meu tempo eu vejo que as pessoas hoje se doam pouco. Então eu vejo que esse depoimento é importante pra passar, né, e que nós, a gente só constrói uma grande empresa com esse nível de doação, com esse nível de comprometimento, ok?


P/1 – Obrigada, Aragão, pela sua entrevista.


R – Nada.

 

---FIM DA ENTREVISTA---

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