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História

De Minas para o mundo: fragmentos de uma epopeia feminina

Sinopse

Olga Cortes Rabelo Leão Simbalista nasceu na cidade de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, no dia 07 de março de 1947. Suas principais memórias da infância estão ligadas aos avós maternos, a casa em que nasceu e a fazenda de café de sua família. Quando adolescente, sua avó faleceu em um acidente rodoviário em que ela estava, o que a marcou muito. 

Decidiu estudar engenharia ainda criança, por volta dos 7 anos de idade, por causa de uma caixa que o avô prometeu lhe dar quando se formasse. 

Cursou o científico no Colégio Estadual de Minas Gerais. No vestibular, escolheu engenharia e belas artes. Conseguiu levar os dois cursos por um ano, quando optou pela engenharia. 

Casou-se e teve seu primeiro filho ainda na faculdade de engenharia. Já formada em 1970, no auge do milagre econômico brasileiro. Embora tenha passado em vários processos seletivos, por ser mulher só conseguiu ser efetivada como engenheira na então Instituto de Pesquisa Radioativa. Foi contratada como pesquisadora na área nuclear onde ganhou uma bolsa para fazer o Mestrado. 

Como chefe do laboratório de termo hidráulica teve seu primeiro contato com FURNAS aferindo os medidores de pressão dos laboratórios da empresa.

Quando o Brasil assinou o acordo de cooperação técnica no setor nuclear com a Alemanha, Olga foi indicada para fazer uma especialização na Alemanha. Durante 5 meses estudou 8 horas por dia o alemão. Em 1977, incentivada pelo marido, foi fazer o estágio no centro de pesquisa nuclear na Alemanha. 

Em 1981, acompanhando o marido, a família mudou-se para o Rio de Janeiro. Olga veio transferida para trabalhar na NUCLEBRAS. Em 1985 assumiu a Superintendência Geral de Planejamento da NUCLEBRAS. 

Em 1988, com a extinção da NUCLEBRAS, FURNAS assumiu a gestão das Usinas Nucleares Brasileiras e seus funcionários. Olga então passou a fazer parte do corpo técnico de FURNAS na Diretoria de Produção Termonuclear. 

Em 1989, passou a ocupar o cargo de Assessora de Presidente para orientar o Dr. Elizeu Resende, então presidente de FURNAS, na questão nuclear. 

Em 1992, acompanhou o Dr. Elizeu Resende, como assessora da presidência na Eletrobras.

Nessa época o principal desafio foi o projeto de lei para equacionar a inadimplência no setor elétrico brasileiro, que deu origem à lei 8631.

Em 1993 retornou à FURNAS na Diretoria Financeira. Durante o Governo FHC, com o modelo de privatização do setor elétrico e de Furnas, foi transferida para a recém-criada Eletronuclear (1997), junto com a área nuclear. Assumindo o cargo de Superintendente de Planejamento. Nessa ocasião passou a ser consultora da Agência Internacional de Energia Atômica para formulação de cenários de energia elétrica na América Latina e no Mundo.

Com a retomada da construção de Angra 3 em 2009, retorna a Eletrobras como assessora da presidência da holding. Permaneceu até 2011, quando recebeu o convite do Dr. Flavio Decat (Presidente de FURNAS) para ser a primeira mulher a assumir uma diretoria em FURNAS, a Diretoria de Novos Negócios e Participações. Foi responsável pelo fechamento do acordo com o principal parceiro de negócio da empresa nessa época, a State Grid chinesa. 

Em 2016, devido a problemas familiares, retira-se do cenário empresarial e passa a atuar em organizações independentes do setor elétrico como voluntária, exceto na Confederação Nacional do Comércio que atua como conselheira técnica.

Sempre preocupada com o papel da mulher na sociedade, Olga foi conselheira e Presidente do Banco da Mulher no Brasil, recebeu doze prêmios por sua atuação na promoção dos direitos da mulher e, em 2014, foi eleita Personalidade do Ano 2014 pela WEB da ONU.

Olga é casada, tem dois filhos e três netos.


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História completa

Um pequeno excerto sobre a história de Olga 

Fui para FURNAS, fiquei lá de maio a agosto, quando foi feita uma grande reformulação na empresa, [...] A Dilma deu carta branca para o Flávio Decat mudar tudo ali. A empresa estava numa situação horrorosa. Ele então me chamou para ser diretora de uma coisa que não existia no setor elétrico: Novos Negócios e Participações. 

[...] Então, foi criada essa diretoria para criar essas SPS, que já existiam, nas quais FURNAS sempre teria papel minoritário, 49% e o sócio 51%. 

Nessa ocasião, FURNAS detinha 22 SPS. Quando eu saí, em 96, FURNAS detinha 81 SPS, a maioria delas de projetos eólicos na região nordeste, Rio Grande do Norte, Ceará e Bahia. Foi uma experiência fantástica [...]



Trabalhei lá de 2009 a 2011, até quando a diretoria de FURNAS mudou e assumiu a presidência o presidente Flávio Decat de Moura, o qual eu fui caloura na Universidade Federal de Minas Gerais. Ele era um ano na minha frente, um irmão, e me chamou para ir trabalhar com ele na área de planejamento. Eu saí da Eletrobras com o financiamento de Angra 3 já praticamente todo equacionado.

Fui para FURNAS, fiquei lá de maio a agosto, quando foi feita uma grande reformulação na empresa, com carta branca da Dilma. A Dilma deu carta branca para o Flávio Decat mudar tudo ali. A empresa estava numa situação horrorosa. Ele então me chamou para ser diretora de uma coisa que não existia no setor elétrico: Novos Negócios e Participações. 

Para criar empresas, as chamadas sociedades de propósito específico, as espécies, a gente fazia parcerias com empresas, outras, do setor privado ou não. E agregar um ativo a FURNAS, na área de geração, e na área de transmissão, porque existia um decreto que não permitia FURNAS conseguir financiamentos do BNDES, para ela como líder. Então, foi criada essa diretoria para criar essas SPS, que já existiam, nas quais FURNAS sempre teria papel minoritário, 49% e o sócio 51%. 

Nessa ocasião, FURNAS detinha 22 SPS. Quando eu saí, em 96, FURNAS detinha 81 SPS, a maioria delas de projetos eólicos na região nordeste, Rio Grande do Norte, Ceará e Bahia. 

Foi uma experiência fantástica! E uma das coisas que me marcou muito nessa minha passagem pela diretoria de FURNAS foram as negociações, os contatos com empresas chinesas. Logo no primeiro mês, em setembro, outubro, nos chamaram para ir para lá para gente assinar um memorando de entendimento, para trabalharmos juntos. Eu fui conhecer a China achando que ia chegar num país cheio de gente de roupa cinza andando de bicicleta. Quando cheguei no aeroporto levei o maior susto, nunca tinha visto nada tão bonito! Andando em Pequim, vi os carros mais bonitos e os prédios mais maravilhosos que eu tinha visto na vida. Tanto que depois que eu voltei da China, dessa primeira viagem, eu fui mais três vezes para lá. 

Desenho de um círculo

Descrição gerada automaticamente com confiança média

Eu fui a primeira e única diretora mulher de FURNAS. De uma certa forma, era uma empresa de engenheiros, muito machista, causou um certo frisson. Mas olha, me receberam de braços abertos. 

Quando eu estudava engenharia, com a turma de 70, só tinha eu de mulher, e meus colegas me tratavam assim, como se eu fosse uma rainha. Sobretudo quando fiquei grávida, de barriga grande, que não cabia na carteira. Naquele momento, eu falava assim: “Eu vou me comportar muito bem nessa vida, para que na próxima encarnação, Deus me traga homem”, porque a vida para os homens era muito mais fácil. Pensei assim durante muito tempo, demorou para eu mudar essa chave. 

Em 1992, na época da Rio-92, a Associação Comercial do Rio de Janeiro criou o conselho de Meio Ambiente e eu fui convidada para participar. A gente fez um trabalho fantástico, esse conselho conseguiu viabilizar aquele Fórum das ONGs no aterro do Flamengo. Isso foi uma marca, porque esses encontros das Nações Unidas, eles sempre foram muito fechados, chapa branca, e ali, não, criou-se uma conferência paralela que deu muito mais audiência do que a conferência oficial. 

Nesse conselho de meio ambiente, eu conheci a Clara Steinberg, que era uma das primeiras engenheiras formadas no Rio de Janeiro, dona de uma empresa chamada Cervenco, o qual ela e o marido eram os donos, ele o presidente e ela a vice-presidente. Ela dizia o seguinte: “Quando a gente criou a empresa, quem ia ser presidente era eu, Jacó só pensava em diretório acadêmico, mas quando a gente foi levar para a Junta Comercial que uma mulher iria ser presidente, eles falaram que não, mulher não poderia ser presidente. Então o Jacó foi ser presidente”. 

A Clara era uma mulher que tinha uma visão social, uma coisa fora do comum. Ela foi a pessoa que criou o conceito do playground nos edifícios residenciais, eu acho que do mundo. Porque ela falava: “Gente, é um crime as crianças não terem rua para brincar e ficarem trancadas em apartamentos pequenos”. Então ela criou o conceito do playground

Outra coisa que ela foi uma das criadoras foi uma entidade chamada Banco da Mulher. O Banco da Mulher é uma ONG ligada a uma ONG internacional chamada World Bank, que por sua vez é ligada às Nações Unidas. É uma entidade para o fortalecimento da mulher. Naquele ano internacional da mulher, muitos anos atrás, essa entidade foi criada baseada num conceito de um economista, banqueiro, chamado Muhammad Yunus, de Bangladesh, mais conhecido como banqueiro dos pobres. Ele criou um conceito de emprestar, centavos de dólar, para mulheres pobres em Bangladesh, para elas produzirem coisas, artesanatos, e venderem sem pagar agiotas. Ele descobriu que uma mulher em Bangladesh, de manhã catava bambu, passava no agiota, pegava menos de 1 dólar, tecia cestos, vendia, voltava e pagava o agiota com juros de um dia. E desse processo sobrava uma pequena fração para o sustento de sua família. 

Ele era professor universitário, eu acho que ele era professor na Universidade da Califórnia. Quando Bangladesh ficou independente, ele voltou. Eu não sei se ele virou ministro, ou reitor de universidade, o que é certo é que nessas andanças dele, ele viu essa situação e arquitetou uma maneira de levar dinheiro às pessoas nessa situação vulnerável.  E ele criou um conceito, não só de levar o dinheiro, mas de ensinar as mulheres o valor do dinheiro, e a gestão de suas atividades. E isso tudo em um país islâmico, em que a mulher não podia conversar com o homem presencialmente. As reuniões eram feitas num campo com um lençol separando os homens das mulheres. 

Ele então criou o Grameen Bank, que criou subsidiárias, e no Brasil o Banco da Mulher nasceu na Associação Comercial, com exatamente esse objetivo, de financiar, ensinar o valor do dinheiro até para as mulheres saberem precificar seu produto, e ajudar na comercialização. Esse banco foi criado, cresceu e passou a ter seções regionais, de Manaus a Pelotas. E tinha, inclusive, uma no Rio de Janeiro. Nessa época, em 92, no ano da Rio-92, eu conheci a Clara, que era a presidente do conselho do Banco da Mulher e ela me chamou para ajudá-la na seção do Rio de Janeiro.

Eu estava craque em fazer lei porque eu tinha trabalhado na lei do Eliseu Resende. Então, fui lá para o Banco da Mulher e fiz o estatuto, o regimento interno, e nesse processo comecei a conviver com essas mulheres e descobri um admirável mundo novo, que me deu mais vontade de ser homem na próxima encarnação. Nesse Banco da Mulher, eu passei a ser conselheira, depois fui para a sede, como conselheira, diretora, vice-presidente, presidente, e assim fomos. 

Eu fui vice-presidente quando a presidente era a Juíza Denise Frossard, aquela que prendeu bancários do jogo do bicho aqui no Rio de Janeiro. Uma pessoa fantástica! Depois eu fui presidente e fiquei lá muito tempo, mas o governo do presidente Lula, a quem eu respeito, tenho admiração, criou uma figura financeira chamada “crédito consignado”, e esse crédito consignado, de uma certa forma, começou a engolir as atividades das nossas regionais do Banco da Mulher, e uma delas, a maior, de maior sucesso, entrou num processo de inadimplência. Ela tinha financiamentos do BNDES, para fazer esse crédito, a rolagem do caixa para esses financiamentos. Ela ficou inadimplente e o conselho superior da sede, teve que arcar com essa inadimplência. E nós diretores, presidentes e tal, tivemos que bancar esse rombo. Eu paguei uma parte grande, cada uma pagou igualmente, mas foi um dinheiro grande, não foi dinheiro pequeno, não, e a gente chegou à conclusão que trabalhar com dinheiro, em ONG, sem uma dedicação exclusiva, profissional, não daria certo.

Em 2005, nós começamos a fechar o banco. Nós temos uma patente, Instituto Nacional de Propriedade Industrial, e a nossa regional de Pelotas quis continuar sendo a sede. Acho que ainda continua fazendo esse trabalho.

De qualquer maneira, essa minha atividade no Banco da Mulher me deixou muito gratificada e muito orgulhosa de ser mulher. Nesse período, eu comecei a ler muito sobre mulheres na profissão. Li um livro fantástico chamado “The First Sex”, de uma antropóloga americana chamada Helen Fisher, e ela leva a nossa moral lá para cima! E é o primeiro sexo por quê? No momento da fecundação, o embrião, todo embrião é feminino; para ele ser masculino, o cromossomo tem que se deslocar e fertilizar um cromossomo Y, que é o que dá origem aos homens. 

Aprendi muita coisa. A mulher fala 8000 palavras por dia e o homem fala só 4000. Mulher sabe quando o interlocutor está mentindo só pela cara dele. Mulher na reunião presta atenção em todo mundo, o homem fica olhando para o teto. Vi coisas muito divertidas! Eu até escrevi uns artigos sobre isso, e quando fui para FURNAS, eu fui com essa bagagem. 

Mas não posso ser injusta, eu não tive nenhum problema pelo fato de ser mulher e tive a oportunidade de ser a primeira diretora da empresa. 

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