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História

De Minas ao Rio, da roça às águas

História de: Teresinha Santiago dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/08/2009

Sinopse

Em seu relato, Teresinha Santiago relembra momentos de sua infância no interior de Minas Gerais, onde auxiliava a família no plantio de amendoim, feijão, arroz e tinha que caminhar mais de 14 quilômetros para poder estudar. Relembra sua mudança para o Rio de Janeiro, onde conseguiu seu primeiro emprego e conheceu seu marido. Também nos conta emocionada sobre sua vontade de terminar os estudos, e como foi realizar esse sonho anos mais tarde.

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História completa

P/1 – Vou pedir pra você começar falando o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Posso falar? Teresinha Santiago dos Santos, nascimento 01 de maio de 1947.

 

P/1 – E local?

 

R – Lamim, Minas Gerais.

 

P/1 – E o nome dos seus pais?

 

R – José Deodédio da Cruz e Geralda Maria Madalena.

 

P/1 – Ok. Teresinha, eu queria pedir pra você iniciar falando um pouco, esse seu nome Teresinha, né, por quê que é? Você sabe dessa história porque que é Teresinha e não Teresa?

 

R – É. Eu posso explicar o seguinte, o meu avô era delegado de polícia, então de vez em quando ele trocava de Estado e todos os lugares, que ele era assim, bastante católico, então todos os lugares que tinham igreja ele procurava saber quem era a protetora, então Santa Teresinha. A minha filha tá esperando neném, então se for menina vai chamar Teresinha, então por causa disso. Normalmente todos os filhos, os netos, ele é quem botava o nome.

 

P/1 – E o seu avô era delegado? Fala um pouco sobre o seu avô?

 

R – Não, eu não posso falar muito porque eu tinha assim, uns sete anos, quando ele faleceu, entendeu? Então eu lembro um pouco dele, entendeu, muito pouco mesmo, então não tem como falar muita coisa dele.

 

P/1 – E a avó?

 

R – Também não, minha avó ainda morreu primeiro que ele, então, eu era muito pequenininha e não me lembro. Avó materna no caso, a paterna saiu lá do distrito onde morávamos e aí não tivemos muito contato com ela. Ela morava até em outra cidade, perto de Belo Horizonte. Foi morar ali, então não tínhamos muito contato, eu fiquei separada e não tive muita oportunidade de falar, de ter a minha avó, principalmente a paterna, não falei muito, não conheci.

 

P/1 – E essa infância em Lamim, como é que foi isso? Conta pra gente.

 

R – Bastante sofrida, eu fiz até a quinta série, né, primária no caso e estudava, tipo uns 14 quilômetros, nós tínhamos que andar pra... Era interior mesmo, pra ir pra escola, então, foi muito sacrifício, saía de casa muito cedo, chegava muito tarde, meu pai não era uma pessoa muito maleável, ele era uma pessoa muito rígida com os filhos e ele não queria que ninguém estudasse, tanto que quem estudou foram só os menores, tinha oito filhos, só os mais novos foram quem conseguiram estudar, porque através de uma prima dele que incentivou, que ela se formou professora, aquela hora todas as meninas eram professoras, era a profissão da época. Então, ela se formou e ela falou pra ele: “Deixa eles estudarem.” porque ele não queria, não deixou, todas as mais velhas ele não deixou estudar. Então, estudamos com o maior sacrifício, consegui fazer até a quinta série, mas aí logo depois, eu já tinha as minhas irmãs que já estavam aqui no Rio, e eu vim pra cá também, eu vim pra cá bem jovem, então...

 

P/1 – E você era a mais velha, do meio?

 

R – Não, a caçula.

 

P/1 – A caçula.

 

R – Depois de mim só tinha um irmão, entendeu?

 

P/1 – E o que vocês brincavam lá em Lamim?

 

R – Ih, brincava só coisa mesmo de interior, era andar a cavalo, era pescar, era tomar banho de rio, as brincadeiras eram essas. A oportunidade que nós tínhamos de brincar era só esse tipo de brincadeira, pendurava-se nas folhas de bananeira, porque era tipo uma gangorra, um balanço que tem agora, que naquela hora não tinha, então eram só as brincadeiras assim, mesmo, não tinha... Mais assim, bola de gude, a gente até brincava com os garotos, só esse tipo mesmo de brincadeira assim, porque não tinha acesso a muitos brinquedos, a gente não tinha e, naquela hora também não tinha muita coisa pra brincar. As brincadeiras eram essas bem mais sadias (risos) do que agora as brincadeiras, né, agora fica muito tempo no computador, as crianças engordam muito e eram tudo magrinhas, né, (risos), as crianças lá tem essa vantagem. Até os próprios adultos são pessoas que não são... Eu fui conhecer pessoas gordas aqui no Rio, porque lá no interior acho porque o pessoal anda muito, faz muito exercício, trabalha na lavoura, então não tem muita oportunidade de engordar são sempre bem magrinhas, né? Aqui eu fiquei horrorizada aquelas mulheres assim, todas gordas, meu Deus como é que pode? Era diferente pra mim.

 

P/1 – Teresinha tinha alguma brincadeira que seus pais proibiam que você lembre assim, de um episódio?

 

R – Não, não tinha assim, brincadeira que ele proibisse não. Nisso aí ele não brigava não, entendeu? Ele tinha assim, a gente gostava muito de andar a cavalo e tinha sempre aquele animal que tinha aquele privilégio por aquele animal, entendeu, dependendo da cor, o tipo, né, sempre tinha os animais, vaca de leite, os cavalos e tudo, então, ele brigava assim, quando a gente pegava aquele animal dele, que ele não gostava então, a gente dava um jeito de montar até assim pra ir pra próxima cidade, né, aí nós íamos, aí ele brigava, ele não gostava. Ele às vezes, até vendia aquele animal que era pra gente não andar naquele animal, entendeu?

 

P/1 – E vocês moravam em sítio lá? Numa fazenda?

 

R – Era tipo sítio, né, tipo um sítio. Como era interior mesmo, o vizinho mais próximo era um quilômetro, dois quilômetros.

 

P/1 – E como é que era a casa de vocês?

 

R – A casa era normal, de tijolo, de cimento, normal.

 

P/1 – Era uma casa grande? Pequena?

 

R – Era casa grande, casa grande, nós morávamos assim, tipo assim, uma ilha, tem a casa até hoje lá. Foi vendida, né, depois que meus pais faleceram então, nós vendemos, dividimos com os filhos, passava feito uma ilha porque tinha um rio de água cristalina mesmo. Então, aquilo ali, a gente brincava, tomava banho, pescava, foi uma infância assim, gostosa, apesar de trabalhar muito, muito sacrifício, mas foi uma infância gostosa, coisa que as crianças aqui não podem viver isso, né, não tem como.

 

P/1 – E vocês trabalhavam?

 

R – Trabalhávamos na roça, plantávamos milho, amendoim, feijão, aquilo tudo e tinham outras pessoas também, uns ajudavam os outros.

 

P/1 – Você começou a trabalhar com quantos anos?

 

R – Ah, seis, sete anos já tava trabalhando.

 

P/1 – Você lembra quando começou a trabalhar? No que você...?

 

R – Lembro, claro que lembro (risos).

 

P/1 – O quê que você...

 

R – Plantávamos amendoim, nós comíamos muito amendoim (risos), estávamos plantando e comendo e meu pai não gostava, era outra coisa que ele brigava. Então, às vezes, ele nem botava os filhos pra cuidar do amendoim, pra plantar, porque ele sabia que a gente comia o amendoim, entendeu? Em vez de jogar na terra (risos)... Mas tudo isso era gostoso, era uma coisa assim, difícil, mas era gostoso da gente fazer com certeza.

 

P/1 – E o seu pai trabalhava de quê?

 

R – Meu pai era marceneiro, ele fazia todo tipo de móveis, guarda-roupa, cadeira, mesas pra fora e fazia também pra gente. Fazia até caixão para as pessoas, quando morria a vizinha ele fazia, tinha assim, uma oficina em casa, ele fazia aquilo tudo. Ele trabalhava muito também, sabe, aí quer dizer, a gente tava sempre... Quando chegava da escola cansada, andava aquela distância toda, ele botava pra trabalhar e tal, mas a gente já gostava, já tava acostumado com aquilo.

 

P/1 – Sua mãe?

 

R – A minha mãe às vezes, ficava triste vendo que a gente trabalhava muito (risos).

 

P/1 – É.

 

R – Aí só a noite que eu ia ter tempo de fazer o trabalho de casa, da escola, porque às vezes, ele obrigava a gente a trabalhar, entendeu, ela, às vezes, ficava triste, por isso, às vezes, até brigavam por causa da gente, querendo defender os filhos: “Não bota, chegaram cansados da escola, andaram muito” “Não, mas vai trabalhar e tal e saíam”, aborrecia ela às vezes, mas tinha que aceitar, né? Era aquele negócio do casamento tinha que levar até o fim, não podia se desfazer igual hoje, que a pessoa casa e se desfaz, naquela época não, né, tanto que morreram juntos.

 

P/1 – E seus irmãos, fala um pouco pra gente dos seus irmãos, como é que era o seu relacionamento com eles?

 

R – Meus irmãos olha, agora só restam quatro, tá? No ano passado, eu perdi uma irmã com sessenta e poucos anos, ela tinha um problema de... Um aneurisma abdominal que estourou, não tinha como operar, nós fomos, levamos em diversos lugares pra ver, diversos médicos, muitos médicos até amigos e tudo, disse que não tinha jeito, ela faleceu, em julho agora fez um ano, 19 de julho. E eu tenho um irmão também casado, mora lá em Jacarepaguá mesmo, tem uma outra que mora do lado da minha casa que é mais velha, e tem uma que mora em Minas, ela tem filhos mais velhos do que eu, ela tem duas meninas mais velhas do que eu, tá? Inclusive ela me amamentou também, então, ela cuidou praticamente de mim, porque a minha mãe trabalhava muito, até junto com o meu pai e tudo. Ela só cuidava da gente, casou muito cedo e tinha as filhinhas dela também, então ficávamos juntos, né, fomos criados assim, juntos, então, eu a chamo de mãe. Até hoje, aos domingos, todo domingo “A minha filha vai me ligar, a minha filha vai me ligar”. Então, ela tem como filha e eu tenho como mãe, entendeu?

 

P/1 – Qual o nome dela?

 

R – Maria.

 

P/1 – Maria.

 

R – É.

 

P/1 – Mas voltando um pouco no tempo, lá na infância, sua a própria relação com a Maria, como é que era? Vocês quando crianças, vocês...

 

R – É, quando criança, é o que eu to te falando, ela quando assim, até completar a idade de ir pra escola e tudo ela cuidava, porque ela cuidava das filhas, que era a mais velha que eu, então cuidava dos filhos também e minha mãe me deixava com ela, pra ir trabalhar, porque a minha mãe trabalhava na lavoura, trabalhava, ajudava o meu pai até em serviço assim, da oficina, então, ela quem cuidava da gente. Ela sempre gostou muito de criança teve também nove filhos, entendeu? Então, ela cuidava. Hoje ela mora em Conselheiro Lafaiete, então às vezes em vou em Minas, esse ano eu já tive lá em Minas com ela, ela também já veio aqui no Rio, é a mais velha de todas. E tá segurando a barra, porque os outros já estão indo e ela ta ficando, entendeu? Tá ótima, tá bem, fez uma cirurgia mês passado, tirou a vesícula e já tá bem, então, isso aí me dá um apoio muito grande porque é uma mãe, né, eu ligo “Mãe”, eu tomo a benção, faço igual... Você (risos) fez agora mesmo? “A benção” e isso é muito bacana. Me dou muito bem com as minhas sobrinhas que são como se fossem também irmãs, a gente tem aquela assim, é diferente a maneira que eu gosto desses sobrinhos é como se fossem meus irmãos, não é como se fossem sobrinhos, entendeu? Porque eu tenho ela como mãe, então, é como se fosse as minhas irmãs também, a gente se dá muito, a gente se fala sempre, tá, muito gostoso.

 

P/1 – E ainda lembrando um pouco da sua infância, você lembra do que vocês comiam, que tipo de... Como é que era isso?

 

R – Era normal, porque nós tínhamos perto de casa abatedouro pra bater a carne bovina, porcos nós criávamos, então tinha sempre a carne de porco, pescar, nós pescávamos, o peixe a gente tinha na hora, tinha os rios pra pescar, então... Assim, frutas tudo colhíamos porque tinha muita fruta, todos os tipos de frutas, então, eram poucas coisas que nós comprávamos, batata nós íamos lá arrancávamos do pé e comíamos a batata, batata doce, aipim, tudo a gente tinha plantação de tudo.

 

P/1 – E tem alguma coisa que hoje você não vê, não se come mais, que você lembra que você comia bastante, gostava?

 

R – Não, não tem nada, não, não tem nada. Sempre assim, a fruta que eu gostava muito, nós colhíamos muito era melancia, até hoje eu adoro, amo, né? Têm umas coisas assim, que você comia tanto, que parece que enjoa, aí você não quer mais comer aquilo, entendeu, mas não tem assim, todas... Claro que aqui é diferente, não é aquele fresquinho, na hora que você colhia aquilo. O amendoim nós arrancávamos o amendoim, já comia ele até assim, e depois botávamos pra secar e tudo pra ter o amendoim, então, não é a mesma coisa, o daqui que você come e não é igual, mas...

 

P/1 – E vocês plantavam amendoim pra vender, pra comer?

 

R – Vendíamos e pro nosso uso também, fazíamos muito pé de moleque...

 

P/1 – E quem é que vendia?

 

R – Já tinha assim, as pessoas que já pegavam, tinha assim às vezes, troca, até hoje a gente estudando a Geografia a gente vê muito isso, tinha aquela troca, “Eu colhi muito amendoim, quer trocar?”.  Porque eu colhi pouco arroz, então, fazia aquela troca, os próprios moradores faziam aquela troca do produto que colheu mais quantidade, entendeu?

 

P/1 – Vocês plantavam o quê?

 

R – Plantávamos tudo, amendoim, feijão, arroz, todo tipo de feijão, esse feijão fradinho, o feijão preto normal, o mulatinho que eles chamam. Nós colhíamos tudo, só comprava mesmo sal, o sal, o uso assim pra lanterna, que no início nós tínhamos lanterna, depois que já estávamos maiorzinhos e tal, apareceu um tio que trabalhava numa firma que era tipo a Light, aí nós botamos e como tinha essa água toda, aí botamos uma usina em casa. Então, nós tínhamos a eletricidade, tínhamos o rádio, tinha uma coisa normal, da própria usina em casa, nós fizemos a usina em casa mesmo, então...

 

P/1 – Gostavam de ouvir rádio?

 

R – Ah, claro, o rádio era o principal, acordávamos de manhã ouvindo rádio (risos). Antes era a pilha e depois passou a ser, como tinha luz elétrica, aí já usando o rádio a luz.

 

P/1 – O quê que vocês gostavam de ouvir?

 

R – Ah, música sertaneja (risos), Tonico e Tinoco, bem isso, né? O mineiro gosta muito dessas coisas.

 

P/1 – Quando criança, você já ouvia?

 

R – Já, já ouvia, gostava e agora quando eu posso, também, que tem no rádio, eu gosto de escutar música sertaneja, eu gosto muito da música sertaneja.

 

P/1 – E tinha muitos tocadores lá, cantores lá em Minas?

 

R – Tinha, o pessoal fazia aquelas duplas, rapaz, era legal pra caramba, eu tive aula de violão, então nós saíamos todos pra fazer aquelas festinhas na casa do vizinho, tocando violão, outro acompanhando com acordeon. Então, a diversão da gente era isso, né?

 

P/1 – Com quantos anos você começou a aprender a tocar violão?

 

R – Eu tinha uns dez anos, quando eu entrei pra aula de violão, fiquei uns dois anos, depois parei. Agora aqui, eu tenho violão em casa, eu tenho teclado, eu tenho cavaquinho, eu tenho violão, tenho pandeiro, tenho teclado e não toco nada (risos), mas eu gosto, de vez em quando eu sento e aí...

 

P/1 – Mas como é que foi isso? Com dez anos você entrou pra aula de violão?

 

R - É, entrei pra aula de violão, nós tínhamos o professor, não só eu, como diversas outras crianças da escola, colegas, nós entramos, aí fiquei, gostei, mas não pude continuar.

 

P/1 – Então, isso já na escola, já? Então, quando você começou a estudar? Qual idade?

 

R – Que eu comecei a estudar? É, acho que foi com uns sete anos, comecei a estudar na escola, né?

 

P/1 – Você lembra da escola?

 

R – Lembro.

 

P/1 – Como é que era a escola?

 

R – O nome e tudo (risos).

 

P/1 – Fala pra gente então.

 

R – Eu tenho até uma foto lá em casa do colégio, os dois colégios que eu estudei. Você quer que eu fale o quê? Da escola?

 

P/1 – Fala um pouco da escola, desse primeiro momento na escola, se você lembra.

 

R – É, na escola foi ótimo, eu era a primeira aluna da turma, sabe, sempre fui muito miudinha, muito magrinha, muito assim, mas era a primeira aluna da escola, aí depois eu saí, fui pra outra, porque lá só tinha até a quarta série, aí fui pra fazer a quinta série, mas depois saí da quinta série e logo depois eu vim aqui pro Rio, já trabalhava e tudo, e já vim aqui pro Rio, e não tive mais a oportunidade de estudar, aí voltei a estudar têm uns cinco anos, que eu tô estudando direto.

 

P/1- E da escola ainda como é que eram professores, livros, como é que você tinha contato com os livros? Lembra de algum professor?

 

R – Lembro, até nome de professores e tudo.

 

P/1 – Então, conta aí um pouco.

 

R – Tem uma que eu gostava muito que o nome dela era Stella Matutina de Abreu Reis, ela era da segunda série, era uma professora maravilhosa, chorei muito depois quando eu tava aqui no Rio, quando eu soube que ela tinha falecido porque era muito legal e ela dava um apoio muito grande, porque ela sabia que meu pai não queria que nós estudássemos e tudo, e ela se prontificava sempre a falar com ele, pra deixar que era bom porque ela já na época, ela tinha só uma filha, ela era viúva e a filha foi pra Belo Horizonte, pra estudar, pra se formar também. Então, ela incentivava muito e falava com ele e falava pra ver se deixava a gente estudar, então eu fiquei muito triste quando ela faleceu, ela era uma professora maravilhosa, e foi muito bom. Depois saí dessa escola, fui pra outra, estudei e fiz até a quinta série, mas antes até de receber esse certificado eu vim pra... Agora tem um episódio muito coisa, o meu tio, eu tinha um tio que ele era assim, ele tinha uma condição financeira muito melhor que a nossa, foi assim, um problema de família que meu avô disse pros filhos que quem cuidasse dele porque depois ele não trabalhava, já velhinho, quem cuidasse dele, dos filhos que cuidasse dele, que ele dava o que ele tinha, que era casa, tinha alguma coisa, então meu pai não quis cuidar e a minha tia, a mulher, ele que era o meu tio, a esposa dele disse: “Não, pode deixar que eu cuido do meu sogro e tal”, então ele cuidou, então ele passou, ele fez os filhos assinarem pra dar o que ele tinha para esse filho. Então, quer dizer, ficou o meu tio com uma condição financeira ótima, ele tinha padaria, ele tinha hotel, ele tinha tudo. Então, eu já tava com, já tava fazendo já a quarta série, na quinta série já e nós não ganhávamos a merenda da escola, era escola pública, não ganhávamos a merenda na escola, porque ele era prefeito da cidade, era uma cidade maior do que (Selamin?), era (Rispera?), então ele não dava merenda, quer dizer, você é sobrinha do prefeito, falava não pode, chegava na hora às meninas ficavam na fila pra pegar merenda e aquilo me doía, eu ficava muito triste com aquilo, sabe? Então, teve um dia que, eu já sou assim, desde criança, eu já era assim, eu já queria resolver as coisas, os problemas, aí eu disse pro meu irmão: “Olha, eu vou lá na casa do tio José (Galiza?), o nome dele, eu vou na casa dele, porque eu não quero mais ficar sem a merenda”, depois da gente caminhar quase uns 14 quilômetros pra escola e você não ganhava a merenda era brabo, né? Aí eu cheguei lá, ele tava lá com a pensão, ele era prefeito da cidade, eu cheguei e disse para a minha tia: “Tia, eu quero falar com ele”. “Mas você não pode, ele ta ocupado”. “Mas eu quero falar com ele. Vai acabar essa reunião porque eu vou falar com ele, não pode ficar assim”. Aí eu cheguei perto dele, ele me abraçou: “O quê que foi filha?”, eu disse assim: “Olha, não querem dar a merenda pra gente, porque dizem que a gente é sobrinha do prefeito, eu quero que o senhor vai lá resolver o problema comigo agora”. Ele me deu a mão, largou a reunião toda que estava, saiu comigo e foi lá no colégio, chegou lá no colégio: “Olha, vocês não podem fazer isso, se eu tenho condições...”, ele morava mesmo no centro da cidade, nós não, nós morávamos no interior, “...Vocês vão dar a merenda pra ela, pra eles, não vai deixar eles sem merenda”, aí foi uma ordem do prefeito, então todo mundo baixou a cabeça, o diretor veio pediu mil desculpas. “Ela saiu daqui da escola e foi lá na escola falar comigo”, era assim um pouquinho distante assim. Aí ele nunca mais, ao contrário, quando chegava na minha vez “Quer mais, quer mais merenda?”, aí meu irmão chegou em casa: “Ela é maluca, ela foi lá buscar o tio Zé (Galiza?) tava em reunião, ela foi, tirou”. A minha mãe falou: “Deixa ela”, eu digo: “Não vou ficar sofrendo sem necessidade, não tenho necessidade de sofrer, de ficar com fome até chegar em casa quatro e meia da tarde pra almoçar?”. Aí resolvemos logo o problema, entendeu? Ele me agradeceu por isso: “Tudo bem filha, é assim mesmo, você tem que falar mesmo, senão não tô sabendo, não tô sabendo o quê que ta acontecendo”.

 

P/1 – Aí que legal.

 

R – Isso aí, eu me lembro bastante, porque foi... (risos).

 

P/1 – E o quê que vocês comiam na merenda?

 

R – Ah, era merenda normal, carne moída com arroz, feijão, é igual à merenda agora, né, na escola pública, até hoje, eu vou lá e janto na escola, de vez em quando.

 

P/1 – Você acha que é muito parecida à escola que você estudava na época, com o que tem hoje já?

 

R – É. Eu acho, muito parecido. A escola pública, eu acho muito parecida e já naquela... Têm pessoas que dizem assim: “Ah, que foi o governo fulano quem deu a merenda”, não, pô, naquela hora já tinha as merendas na escola, nunca faltou merenda na escola, entendeu, nunca faltou. Então às vezes, era assim, doce, elas faziam assim, arroz doce pra dar pra gente, igual tem hoje, canjica, então, pra mim era igual, não tem diferença.

 

P/1 – A disciplina como é que era?

 

R – A disciplina, tudo, eu acho. Agora depois de velha, eu voltei a estudar, quer dizer, tô me sentindo, né, tô toda feliz, porque (risos)...

 

P/1 – A escola era grande?

 

R – Era muito grande, todas as escolas que eu estudei eram muito grande, muitos alunos.

 

P/1 – É em Lamim?

 

R – É, e bem mais assim, a escola, não sei se porque é interior, é uma escola assim, mais bem cuidada do que hoje é aqui. Isso aí a gente vê bem a diferença, a escola lá era bem assim, bem cuidada, os banheiros todos limpinhos, parece que o pessoal, não sei... E era escola pública, tinha muitos alunos, mas era uma coisa assim, mais bem cuidada. Eu achava que o governo naquela época, não sei também se é porque é interior, cuidava melhor das escolas, né?

 

P/1 – Mas você me disse que começou a aprender a tocar violão na escola, né, tinha...

 

R – Não, não era escola, na escola não, eu aprendi... A escola normal, né, ________ período normal que você tem que aprender, violão era assim, particular, o professor nós íamos na casa dele, ele tinha uma sala só pra dar aula de violão, tinham muitos alunos, isso aí no sábado, no domingo, quando não estudava tinha que ir pra casa dele pra estudar (risos).

 

P/1 – Você que teve essa iniciativa de procurar? Ou os seus pais que...?

 

R – É. Das meninas foi eu que tive a iniciativa, inclusive só tinha outra menina que depois vendo fazer também foi. Porque eles achavam assim, que era mais coisa de menino, entendeu, eu disse: “Não é, não é coisa de menino, isso é uma coisa também que menina pode fazer”. Aí eu fui e depois ainda fui assim, outras meninas, mas quem acabou ficando mais tempo foi eu e essa minha coleguinha, porque “Ah, é bom? Então eu vou entrar também”, mas não tinha assim, eles achavam mais que era de menino mesmo.

 

P/1 – Mas fala um pouco então, o quê que mais você fazia já que você rompia um pouco essa coisa de mulher pode fazer, o que não pode fazer?

 

R – Ah, por exemplo, muitas meninas não andavam a cavalo, eu já andava a cavalo pra (risos) todo lado, eu andava muito a cavalo, ficava feliz da vida, só não ia pra escola a cavalo porque não tinha onde deixar o cavalo (risos). Sou louca por cavalo até hoje, todo lugar que eu vou eu monto, eu adoro, entendeu, então, fomos criados assim, eu gostava e gosto até hoje. Se eu pudesse eu tinha um cavalo, mas não tem espaço (risos).

 

P/1 – Esse trajeto da escola, de casa até a escola como é que era?

 

R – Ah, era a pé mesmo, porque não tínhamos por onde passar, porque se você fosse a cavalo no caso, se tivesse um lugar assim, um lugar pra deixar o cavalo, que nunca tinha porque os colégios normalmente eram no centro da cidade, então, naquela cidadezinha não tinha onde você deixar o animal, aí você tinha que ir a pé mesmo, aquele bando de crianças a pé.

 

P/1 – Você ia com quem? Quem te levava?

 

R – Não, a gente ia só mesmo as crianças mesmo, não ia pai, nem mãe nunca levar ninguém, porque nós mesmos íamos, nós mesmos fazíamos a matrícula, depois trazia o papel pra mamãe assinar em casa, porque não tinha a oportunidade da mãe ir lá, no colégio, sempre assim, não tinha como.

 

P/1 – Mas você não disse que eram 14 quilômetros que vocês andavam?

 

R – Quatorze, porque a gente saía quatro e meia da manhã pra chegar as sete na escola, era muita coisa. E muitas vezes, a gente andava assim, correndo, outra hora a gente ficava cansado, descansava um pouquinho, né? Tinha muita fruta no caminho, a gente parava, sabe, criança como é? Aquele bando de criança, nove, dez crianças, então nós parávamos pra pegar fruta pra comer, entendeu, fazia isso tudo (risos).

 

P/1 – E nenhum adulto, professor, não tinha?

 

R – Não, os professores moravam normalmente eram todos perto da escola, então não tinha nenhum professor assim, morando assim no interior não, era mesmo só as crianças.

 

P/1 – E das disciplinas, das matérias, o quê que você mais gostava?

 

R – Ah, História e Geografia.

 

P/1 – É?

 

 

R – Matemática eu nunca gostei, número não combina comigo não (risos). Tenho até hoje grande dificuldade pra pegar Física, Química e Matemática, agora o Português, a Geografia e a História eu amo, minha nota é sempre legal, Literatura também eu gosto, sempre gostei.

 

P/1 – Você tem mais alguma lembrança desse período da escola Teresinha?

 

R – Tenho uma lembrança muito triste até hoje, eu tenho pavor de cobra, porque nós íamos como eu já te falei, pelo caminho nós íamos chamando uns aos outros pra ir junto pra escola. Então, um belo dia, nós saímos de casa, quando chegamos perto da casa de um coleguinha, até João o nome dele, que nós chamamos, ele tava sendo velado, ele foi picado por uma cascavel e morreu, foi picado a noite, ele foi pegar os animais pra prender, os bezerros pra prender, porque tem aquela, não sei, vocês não devem entender isso, você tem que prender os bezerros antes, à tarde pra eles ficarem longe da mãe, separados da mãe pra no dia seguinte você tirar o leite, senão não tem o leite, se põe pra mamar a noite toda não tem o leite. Então, ele foi fazer isso, aí a Cascavel picou ele, aquele dia eu não tive condições de ir pra escola, chorava, chorava, chorava, o pai veio falar: “Tá sendo velado, foi picado pela Cascavel e morreu”. Eu tomei pavor, pavor, pavor, não tenho medo de leão, não tenho medo de tigre, mas cobra eu tenho pavor, eu vejo na televisão, eu levanto as pernas, eu tenho pavor por causa disso. A gente fica, né, criança, então aquilo não teve nem como socorrer, disse que não teve nem como, muito longe também pra ter socorro, né?

 

P/1 – E você tinha quantos anos mais ou menos?

 

R – Acho que eu tinha o quê? Uns nove anos, por aí, ele era mais ou menos da minha idade, ele tinha uns dez, então aquilo foi um trauma muito grande pra todas as crianças, nós não tivemos condições de ir pra escola aquele dia.

 

P/1 – E depois você falou que passou pra outra escola, fez a quinta série numa outra escola?

 

R – A quinta série foi numa outra escola.

 

P/1 – E essa escola era perto, como é que era?

 

R – Não, era longe, mais longe ainda que essa (risos).

 

P/1 – Você lembra o nome da escola?

 

R – Grupo Escolar Major Miranda, escola municipal.

 

P/1 – Você ficou quanto tempo lá?

 

R – Não sei, acho que eu fiquei lá um ano, um ano e pouco, não foi muito tempo não.

 

P/1 – Era diferente da outra escola, como é que era?

 

R – Não, era mais ou menos igual. Não era assim, não tinha grande diferença não.

 

P/1 – Aí depois você veio pro Rio de Janeiro?

 

R – Depois eu vim pro Rio de Janeiro.

 

P/1 – E como é que foi isso? Por que veio?

 

R – Veio porque, aí vem aquele problema de falar do pai (risos). Ele nunca foi assim, um pai muito legal, então os filhos eles brigavam muito, dizia que os culpados eram os filhos, então a minha irmã já estava aqui no Rio, ela já estava aqui, já casada, aí toda vez que ela ia passear ela trazia uma. Ela ficava comigo, chegava aqui arrumava emprego, ficava trabalhando e a mesma coisa aconteceu comigo. Ai vim também, e na época veio o meu irmão mais velho do que eu três anos, aí viemos, chegamos aqui, no princípio eu nem fui trabalhar, eu fiquei morando com ele, eu fazia porque ele trabalhava e morando com a irmã solteira e ele, essa minha irmã também faleceu muito nova. Aí eu fiquei morando com eles, quer dizer, fazia a comida, aí lavava roupa pra fora e àquela hora já estava com vontade de voltar a estudar, mas não conseguia, não tinha, também não tinha assim incentivo, né? Muitas poucas pessoas estudavam àquela hora, não tinha assim, muito incentivo pra gente estudar e aí fui ficando. Depois eu comecei a trabalhar, com 16 anos, já estava trabalhando dentro de um asilo, aí comecei a trabalhar e não tive mais oportunidade, porque ficava o dia todo e ainda saía dali e tinha outro emprego, aí nunca mais, eu até tentei, cheguei a ir pra escola tudo, mas chegava muito cansada, muito sono, aí tinha que ajudar a pagar aluguel e tinha que comprar alimentação e tinha que ajudar, porque morava com a minha irmã, ela não tinha muitas condições, eu tinha que ajudar. E aí eu fiquei sem estudar, não consegui. Foi bom que eu me aposentei cedo.

 

P/1 – Teresinha e o Rio de Janeiro, quando você chegou aqui achou muito diferente?

 

R – É muito diferente, ficava muito triste, chorava muito, as pessoas pra mim era diferente, aquilo tudo, mas depois que eu me adaptei foram maravilhosos, cariocas foram maravilhosos pra mim, foi muita amizade, eu tinha muita amizade, eu sempre fui uma pessoa muito comunicativa, então, sempre foi muita amizade mesmo e até hoje eu adoro carioca (risos).

 

P/1 – Quando você veio pra cá, você veio morar em que lugar, em qual bairro?

 

R – Olha, eu morei ali, a minha irmã morava na Rua Prudente de Morais, eu morei com ela algum tempo.

 

P/1 – Em que bairro?

 

R – Lá em Ipanema, na Rua Prudente de Morais, onde ela morava essa minha irmã que não era casada e tal, depois eu fui pra Jacarepaguá, e nunca mais saí de Jacarepaguá, eu morei em diversos lugares, mas dentro de Jacarepaguá mesmo, tá?

 

P/1 – E esse primeiro trabalho seu foi nesse asilo então?

 

R – Não... Aqui no Rio?

 

P/1 – Aqui no Rio já.

 

R – Ah, aqui no Rio sim, carteira assinada assim, foi, mas eu trabalhei em outro lugar assim, tipo assim, uma senhora que ela trabalhava com roupa de bebê, fazia assim, muito essas roupinhas de bebê pra uma boutique, então ela me chamou e eu fiquei tipo uns tempos ajudando ela fazer esse trabalho, trabalhei algum tempo, depois como surgiu essa vaga. Desde criança que eu já gosto muito de idosos, então já fui trabalhar lá fiquei trabalhando bastante tempo e depois de lá saí pra outros, pra outros, até me casar, depois de casada trabalhei ainda, uns dois anos na firma, numa outra firma e depois foi que eu parei de trabalhar.

 

P/1 – E você saía? Gostava de sair pra dançar, praia, não sei, como é que era isso? O que você fazia?

 

R – Ah, eu gostava de ir á praia quando eu tinha folga, mas eu nunca tinha, porque asilo trabalhava todos os dias, a gente tinha folga uma vez por semana, uma vez por semana você quer sair, quer comprar alguma coisa, quer pagar alguma coisa, então não tinha como sair, mas quando eu podia eu gostava de praia, gostava de passear como já te falei, conhecer os lugares, igual ao Pão de Açúcar, Cristo Redentor que o mineiro, pessoal de outros estados chegam aqui quer conhecer esses lugares, pontos turísticos do Rio de Janeiro, então quando eu tinha oportunidade conheci esses lugares todos assim, dependia muito de tempo, mas jovem sabe como é né? Enfrenta qualquer coisa (risos) pra conhecer. Mas eu sempre fui mais assim, nunca gostei assim, de festa, de ir pra baile, chegar de... Não, dez horas eu já tava em casa, nunca gostei de passar assim, depois de dez horas, só fui chegar assim mais tempo depois que comecei a namorar esse que é o meu marido. Eu já ia com a minha sogra, com o meu sogro, com a minha cunhada, aí eu já ficava até mais tarde nos lugares assim, baile, no clube, carnaval, entendeu, mas antes não, nunca gostei.

 

P/1 – E você tem alguma história dessa época, antes até de conhecer o seu marido que exemplifique um pouco essa coisa do mineiro, uma pessoa que veio de fora numa cidade grande no Rio de Janeiro? Você lembra de alguma história?

 

R – Não, não, não assim, era assim, só coisas assim, colegas que eu tinha muitos colegas e tudo, às vezes chamava a atenção assim: “É mineira mesmo, olha como é que você tá falando, ó, muda isso aí, fala assim, tem que falar dessa maneira”, entendeu, porque você demora muito, até hoje eu tenho sotaque você não deixa nunca, você é real, você é muito difícil, pra deixar, o sotaque. Então assim, às vezes me chamava à atenção e eu ficava triste: “Não me chama a atenção porque eu tô falando...”. “Não, porque você tá falando errado, você tá falando assim, isso é assim, dessa maneira.”, Mas são coisas assim, que eu ficava triste na hora que chamava a atenção, mas depois voltava ao normal, ficava tudo bem, até agradecia: “Obrigada, vocês me ensinaram, tá bom”.

 

P/1 – E quando que você conheceu, começou a namorar o seu atual marido?

 

R – É. Eu trabalhava, nós trabalhávamos numa firma e ele trabalhava na parte administrativa, até o pai dele era cooperado também, era um dos sócios e eu fui trabalhar, eu trabalhava na parte mesmo da produção, era um abatedouro, tá, mas o pessoal sentia assim, que eu era muito comunicativa e tal, brincava muito, aí um cara disse: “Olha, tô precisando de uma pessoa pra servir o cafezinho no escritório e fazer algumas coisas assim, na parte administrativa, ajudar alguém” que ás vezes ficavam pessoas com hora extra e tudo, trabalhando até mais tarde. Aí ele... Tinha umas vinte e poucas meninas, aí ele falou: “Teresinha vem cá.” Aí falei: “Pronto, vai me mandar embora”, que eu tinha ido em Minas, e tinha ficado três dias em Minas, porque eu fui madrinha de uma das minhas sobrinhas que casou, então falei: “Pronto, ele vai me mandar embora, não gostou de eu ter faltado”, eu já avisei que ia e tudo, ainda trouxe um queijo de Minas pra ele (risos), falei: “Pronto, ele vai me mandar embora” no mesmo dia que eu voltei, aí ele foi lá e me chamou, eu tava lá na produção, “Teresinha vem cá” ai eu disse “O que é?”, Eu: “Pronto, vou embora”. As meninas falaram assim: “É, acho que tu vai embora, porque...”. Aí eu cheguei, e ele disse assim: “Vem cá, vai pro banheiro, toma banho, troca de roupa, eu preciso falar com você”, eu disse: “Pronto”, não tem nem como (risos), aí eu ainda não tinha um ano, que eu tava trabalhando na firma, aí eu fui tomei banho e ele disse: “Vamos subir comigo, vamos lá na parte administrativa, você vai falar com o presidente da firma”. Eu: “O quê?” “Falar com o presidente da firma”. “Mas por quê?”, se era ele mesmo que resolvia o problema, quem dava as ordens pra embora que era nosso encarregado, né? Aí eu subi, quando eu cheguei meu marido trabalhava que meu marido trabalhava assim, no balcão principal assim, meu marido pode estudar um pouquinho, então... Aí eu cheguei, aí fomos lá na sala do presidente, aí ele falou: “Óh, você é uma jovem, você tem muitos rapazes trabalhando...”. Tinham quarenta e poucos rapazes que trabalhavam, ele disse: “Você pode até ter um namorado aqui dentro, ninguém vai proibir isso, mas você tem que tratar todo mundo igual, você vai servir o cafezinho da diretoria e vai trabalhar toda bonitinha, não é mais com essa roupa”, não sei o quê, “Tá bom.” Aí fui falar direto com o presidente, fui falar com o presidente, o presidente conversou, falou e tal, aí realmente eu fiquei trabalhando lá, trabalhei três anos nessa firma. Mas aí nós já começamos a namorar e tal, aí os colegas você já viu, né, começa a implicar, porque “Ih, é tua namorada”, na época...

 

P/1 – Você tava falando quando conheceu o seu marido, né?

 

R – Então, o quê que acontece? Nós começamos a namorar e tudo, mas ninguém podia saber no início, mas depois quando começaram a descobrir, porque ainda saíamos lá da firma juntos, a Kombi, tinha um carro, o transporte que nos levava até o Largo da Freguesia, no carro, então começaram a descobrir, os colegas: “Ih, tá namorando, tá namorando!”, aquele negócio todo, mas não foi, nem fui embora por isso, porque não acontecia nada lá dentro, a gente ficava tranquilo, tratava como tratava todos os outros colegas, né, não tinha problema nenhum, mas a firma começou a andar pra trás, já tava uma firma já com certo status, depois teve muita coisa lá dentro, na diretoria, aí foi à falência, então me mandaram embora porque foi por causa disso, todo mundo já sabia que a gente namorava e tudo, mas não teve problema nenhum assim, entre nós dois não teve problema nenhum, né? Ninguém me mandou embora por causa disso, eu sempre soube respeitar o setor de trabalho, né? Aí todo mundo, “Ai vai terminar e tudo”, porque o pai dele era cooperado também tudo, mas estamos até hoje, 32 anos de casados, fizemos agora no dia 17 de julho, 32 anos de casados Graças a Deus bem, temos dois filhos, a minha filha já é casada e estamos aí segurando porque a gente vai segurando, porque já vai ficando velho, tende (risos) às vezes, a implicância, mas ele não implica comigo por eu sair, hoje eu digo: “Eu vou sair, não sei a hora que eu volto”. “Não filha, vai tranqüila, leva o celular, deixa ligado qualquer coisa você me liga, qualquer coisa eu te ligo”. “Tá bom”, então...

 

P/1 – Isso quando começou a namorar foi em que ano, você lembra a idade que você tinha?

 

R – Olha, eu tinha 22 anos, e ele tinha 23, casei com 29 e ele com 30.

 

P/1 – E o namoro, como é que era? Ele foi na sua casa, como é que foi isso?

 

R – Não, foi namoro super, não igual namoro de hoje não, pelo amor de Deus, namoro de hoje (risos), me desculpa, vocês são jovens, foi namoro mesmo.

 

P/1 – E o quê que é namoro mesmo?

 

R – É aquele namoro assim, não é igual é agora, agora tem muita liberdade, tem muita intimidade, tanto que eu aceito isso dos meus filhos que você hoje é obrigada a aceitar, mas é totalmente diferente, né? Eu acho que tinha realmente amor, hoje eu acho que tem muito pouco assim, não tem mais aquele amor, eu acho que é mais assim, por sexo, sabe, não tem e era aquele amor mesmo, entendeu, e eu tive alguns problemas assim, família portuguesa, ele veio pra aqui criança e tudo, então no início teve assim, a mãe não aceitou muito, não tava querendo aceitar, mas...

 

P/1 – A mãe de quem?

 

R – A mãe dele.

 

P/1 – A mãe dele não queria por quê?

 

R – Não, assim dá impressão que queriam assim, que o namoro fosse assim, com pessoas também descendente, sabe, tem sempre, alguma coisinha, né, e eu fiquei morando muito tempo com irmãos, aquela coisa toda, e depois eu morei sozinha, eu e uma menina que eu conheci justamente nesse trabalho, nós moramos juntas nove anos. Não éramos sozinhas porque eu morava na casa de uma família maravilhosa que tinha a gente como filhas, mas no inicio, quando eu fui alugar o lugar onde morar, era... Eu não conhecia essa família, mas depois com o contato foi uma família maravilhosa, então praticamente era morar sozinha, não era, porque pra ele, eu não conhecia aquela família, né, então foi assim difícil, mas quando tem amor realmente consegue tudo.

 

P/2 – Como é que é o nome do seu marido Teresinha?

 

R – Francisco da Rocha Martins dos Santos.

 

P/1 – E nessa época morar sozinha, mulher morar sozinha, como que era?

 

R – Ah, tu sabe como era, todo mundo falava, falava que eu já tinha feito coisa errada, por isso que eu tava morando sozinha, pá, pá. Até pra vim de Minas pra cá, o pessoal já fala, né, ah, já fez alguma coisa o pai botou pra fora de casa, entendeu? E depois aqui também, sabe como é, a pessoa fala, porque mora sozinha e não sei o quê, e ele não entrava na minha casa, meu marido não entrava porque só começou a entrar assim, depois que esse senhor, que a gente tinha assim maior amizade, ele tinha a gente como se fosse filha: “Não, você vai namorar lá em casa, sentada no sofá da minha casa”, aí ele começou a entrar lá em casa, entendeu, foi assim, muito legal. Eu não esperava, eu não vou casar com ele não, sei lá, achava que não ia. Eu achava assim, que ele procurar depois outra menina pra casar, não ia querer por eu morar sozinha, por eu morar assim, sabe, mas estamos aí casados, graças a Deus, ótimo (risos).

 

P/1 – E como é que era o seu marido? A personalidade dele, tímido?

 

R – Não, meu marido não é tímido.

 

P/1 – Não?

 

R – Não. Não é tímido mesmo, ele é muito brincalhão, ele assim, não é de tanto, não gosta de muita conversa igual a mim, ele não tem assim, muita amizade, entendeu, pra ter assim, amizade, contato com a pessoa assim, pra brincar, ele tem que ter assim, muita intimidade, entendeu? Eu não, eu já sou diferente, eu logo assim, pra mim não tem aquele problema de dizer assim: “Ah, eu não vou pra tal lugar porque lá é muito estranho”, eu não tenho esse problema, eu digo a amizade se arruma na hora, não tem esse problema de ter estranho, ele fala: “Eu não, eu não vou chegar em tal lugar porque eu não conheço ninguém”, eu digo: “Mas eu não conheço também, mas eu chego lá e vou conhecer na mesma hora. Não tem problema nenhum”. Eu já sou mais assim, ele não, mas ele não é tímido, quando ele pega intimidade com a pessoa ele é, sabe, ele brinca, conta piada.

 

P/1 – E, Teresinha, e nessa época, você se envolveu alguma coisa em política ou não, quando era mais nova?

 

R – Olha, eu sempre gostei, sabe, já me decepcionei muito com política e, agora, eu não quero mais, inclusive eu vou votar nulo, não quero mais votar em ninguém, porque já me decepcionei muito.

 

P/1 – Mas quando você nessa idade, quando era mais nova você participava...?

 

R – É. Nessa idade eu já gostava, já participava assim de comício, eu ia lá, já tive assim, pessoa me chamando pra ser cabo eleitoral, ir pra rua.

 

P/1 – Quando já com vinte e poucos anos?

 

R – É. Eu já gostava, essa época que eu trabalhava no asilo, era um asilo de alemães, então eu não tinha assim, muito contato com pessoal aqui fora, entendeu, eu fiquei muito assim, mais o que passava lá na Alemanha do que aqui. A realidade é essa, você convive, né, até eu comecei a falar um pouco, porque você tinha aquele contato com os alemães e tudo e lá não entrava ninguém aqui do Brasil, só era mesmo a pessoa, só velhinhos mesmo da Alemanha, da Rússia, então aquele contato muito grande que eu tinha, eu saía de lá e ainda ia pra casa de outra velhinha que o filho pagava uma casa, um aluguel pra ela e ela... Eu ainda ia pra casa dela cuidar dela, entendeu, eu tinha muito contato com pessoal assim, estrangeiro, então, eu não podia me envolver muito aqui fora, né, às vezes eu nem sabia, porque jovem também você não se liga muito, aí eu votava assim, se eu tinha oportunidade de votar igual não tinham as urnas, né, eletrônicas que temos agora, então votava em Jesus Cristo, votava no feijão e no arroz, nessa época, então não podia envolver muito. Mas quando eu tive oportunidade, eu sempre gostei de me envolver. Muitas pessoas já me falaram: “Por que você não vai se candidatar a vereadora?” ________ não é o que eu quero, eu gosto assim, de participar, mas não eu ser aquele, eu me candidatar não, isso aí não, não combina comigo, mas eu gosto também de política (risos).

 

P/1 – E aí você casou com quantos anos e como é que foi esse casamento?

 

R – Casei com 29 e ele com 30 foi...

 

P/1 – Mas era onde?

 

R – Na Igreja na Praça Seca, Sagrado Coração, na Rua Barão, tá, casamos ali no dia 17 de Julho de 1976, tá, não quis festa, nunca gostei assim, de festa, nunca gostei de festa de aniversário, festa de casamento, nada. Então, o meu casamento eu disse pra ele: “Olha, só vou me casar contigo se não aceitar festa, que eu não quero festa, não quero bolo, não quero nada, quero só o casamento”, mas eu tinha tanta amizade que a Igreja ficou super lotada, então o pessoal lá da praça pensava que era uma pessoa muito importante que tava casando e era eu (risos), eu ria muito, as colegas todas: “Mas nada, nada, nem um bolinho? Nem um champagne?” Nada. Aí casei, aí ganhei uma estadia no hotel aqui em Copacabana, então fui pra Copacabana, passei a minha lua de mel e estamos até hoje graças a Deus.

 

P/1 – E os filhos?

 

R – Os filhos com dois anos e meio nasceu a minha filha, tá, Sandra e levei quase cinco anos pra ter o garoto, porque foi uma gravidez muito... Passei muito mal, muito enjôo, fiquei com depressão e não tinha assim, a mãe perto, não tinha ninguém, então fiquei assim, com muito receio de ficar grávida de novo, mas aí conversando com a ginecologista e tal, “Não, vai ter outro filho, porque eu sou filha única, não deixa a sua filha ser filha única não porque é muito ruim”, aí fiquei, me preparei pra ficar esperando e a gravidez foi bem melhor do que da menina, ela dizia: “Mas a gravidez não são iguais, você pode ficar esperando que você não vai ter problema”, e, realmente do menino foi bem melhor, tá, e ele já faz 25 anos agora dia 29.

 

P/1 – Teresinha e os seus outros interesses, interesse pela música, como é que ficou tudo isso, casamento?

 

R – Se eu pudesse eu tocava todos os instrumentos, eu adoro todos, tanto que eu já te falei, eu tenho violão em casa, cavaquinho, teclado, pandeiro, gaita, tudo em casa!

 

P/1 – Mas me conta aí, então, como é que é isso, esses anos que a gente tá conversando aqui, você veio aprendendo, comprando ou isso é uma coisa mais recente?

 

R – Eu comprei, eu comprei até assim, conforme eu te falei, tive na aula de teclado, mas olha é muito difícil pra aprender aquelas notas musicais (risos), eu conheço a música eu vou no teclado e toco de ouvido. Então tenho o meu teclado, o professor que tava dando aula pra mim, ele teve música que eu toquei de ouvido, porque eu conheço a música, e ele foi e passou pras notas musicais pra ele também tocar a música, porque ele não conhecia (risos). Então, eu conheço... Então, em casa quando eu to um pouco chateada, às vezes, da escola eu fico, não to conseguindo pegar uma matéria, aí eu chego em casa e tenho que ir pro teclado, às vezes são 11 horas da noite eu tô no teclado, eu adoro, eu amo, amo, gosto demais da música. Aí fico lá tocando... A minha filha não, a minha filha toca um pouquinho também, mas ela foi na faculdade que ela aprendeu um pouquinho as notas musicais, ela sabe alguma coisa, então ela já pega a partitura, né? Mas às vezes, ela fica assim: “Mãe, toca essa música pra mim tirar ela”, ela fica tirando (risos), porque ela não consegue tocar de ouvido assim, conhecer a música ir lá e tocar, e eu faço isso, “Mas como é que a senhora consegue?” eu digo: “Não sei, eu conheço a música, eu já sei mais ou menos as teclas que vai combinar com aquele, né, com a música” e ela fica assim, ela tira “Deixa ver como é que é” e vai passando pra depois ela tocar, porque ela não consegue tocar da maneira que eu toco, porque ela toca pela partitura então, ela bota aquilo em notas musicais e vai tocando, mas às vezes demora pra ela pegar, eu digo: “Ih, eu pego muito mais rápido”, demora pra ela pegar porque ela tem que ficar escutando e eu já com a rapidez que toco ela não consegue “Qual é a tecla mesmo?”, aí eu tenho que começar de novo, batendo naquela tecla, pra ela saber qual a nota que vai botar.

 

P/1 – Você incentivou os filhos a tocar?

 

R – Não, meu filho não gosta.

 

P/1 – Não?

 

R – Nem meu filho, nem meu marido, só a menina, ela que gosta, entendeu?

 

P/1 – E essa sua volta pra escola quando é que se deu isso?

 

R – Essa volta, eu sempre fui maluca pra estudar, mas não tinha oportunidade por causa deles, eles fizeram assim, tudo em escola particular, então era longe, segundo grau, minha filha até os 15 anos, eu tinha que levar pra escola, ia com ela pra escola. Na faculdade, eu cansei de ir com ela pra faculdade (risos), ficava esperando o tempo todo na faculdade, então ela... Aí quando agora ela casou, mas isso foi antes dela casar, né, que eu comecei, aí ela já tava namorando e tal, ia pra escola, ia pra faculdade, aí eu digo: “Ah, acho que agora eu vou voltar a estudar”, e eu tenho a minha comadre, madrinha do meu filho, ela é professora num colégio municipal também, então ela começou a falar assim: “Olha, não me conformo de ver você, duas coisas, não dirigir e não ter estudado. Não entra na minha cabeça que você uma pessoa assim, tão ativa, gosta de resolver os problemas dos outros e tudo, os teus, e você resolve, consegue resolver tudo”, porque lá na rua qualquer problema o pessoal me chama, se a luz não tá acendendo me chama, que é pra eu resolver o problema, se não tem, eles me chamam, às vezes, “Ah, tá acontecendo isso, você pode ajudar a resolver?” eu vou atrás e ajudo, entendeu, e ainda vou lá pra cidade dos velhinhos. Uns dois anos atrás, eu sou voluntária na cidade dos velhinhos e agora que eu deixei de ir um pouco por causa até da escola, mas eu ia pra lá, eu levava pro INSS as vovós, eu ajudava a levar, o motorista levava na Kombi levava elas, que também de ônibus não era possível, eu levava pra resolve problema no INSS, pra levar ao médico, então eu sempre fui muito assim, ligeira pra resolver as coisas, “Você vai pra escola.”, aí falou com o diretor, “Olha, vou trazer a minha comadre pra estudar aqui...” E não era assim, não tinha nem vaga porque é bem difícil conseguir vaga nessa escola pública e agora com essa oportunidade dos adultos, as pessoas idosas todas estudando, aí ela falou: “Não, pode mandar vir aí”. Eu fui e comecei a estudar, a menina falou... Fizeram um teste comigo, “Não, você pode ir pra quinta série”, eu falei: “Não, eu quero fazer a quarta de novo.”, eu não tenho pressa. Aí comecei na quarta série, fui pra quinta, sexta, sétima, oitava, no primeiro ano já fui pra essa escola, onde trabalha eles e agora já tô no segundo ano, já tô pensando na faculdade!

 

P/1 – Faz tempo, então já?

 

R – É. Já vai pra seis anos, que eu já tô estudando.

 

P/1 – E começou e a turma é de adultos, como é que é?

 

R – Não, tem jovem também, eles botam assim, já na outra escola quando tava terminando o Fundamental já tinha assim, muitos jovens, eu até questionei poxa, porque não bota só as pessoas... Não porque vocês dão incentivo pro jovem estudar, então a gente tá constantemente brigando com eles: “Para rapaz, estuda”, eu falo para todo mundo lá, que ele é todo assim, sabe, inteligente à beça, tem facilidade pra aprender porque o jovem tem facilidade pra aprender melhor do que as pessoas de mais idade, todo mundo sabe disso. Aí eu disse, eu ele fica assim, não se liga muito eu digo: “Não faça isso, depois de velho você vai estudar? Você não vai ter a força de vontade que nós temos, os que têm mais idade aqui, então...” Ele fala: “É mesmo Terê, é mesmo, eu vou começar, eu vou prestar atenção nisso”, eu digo: “Começa a estudar rapaz, não deixa pra depois não” (risos). Então, eles acham que as pessoas assim, estando junto com os mais jovens, eles vão se interessar mais, porque a gente se interessa de mais, não passa um trabalho sem a gente fazer, a gente corre atrás, a gente faz tudo pra fazer (aquilo), não falta à aula e eles não, já não se ligam não.

 

P/1 – E qual é a maior dificuldade desses anos de escola que você tenha percebido?

 

R – Assim, na matéria? Nas matérias, não, né?

 

P/1 – É.

 

R – As dificuldade são assim, meu marido trabalhava, que ele se aposentou tem dois anos, então eu tinha que sair pra escola, deixar comida pronta, deixo tudo pronto, tudo certinho pra ele chegar e ter a comida na hora e tudo. Então, isso aí era uma correria, a tarde era bem difícil pra mim, pra depois ir pra escola e tudo já chegava de lá cansada, dez e pouco, então já não tinha ânimo, às vezes tem algum trabalho pra fazer e tudo e agora, agora não, que ele não tá trabalhando mais, eu digo: “Ih, também já tá ficando assim, velhinho”, não vamos jantar não, faz uma sopinha, faz um lanche, então agora já tá menos, tá mais fácil pra mim porque eu já não tenho que me preocupar com a alimentação pra ele, entendeu, porque ele não se liga não, ele faz, se for preciso fazer ele faz tudo, mas eu é que não gosto, é de mim, eu gosto de sair e deixar tudo pronto, tudo certinho, entendeu?

 

P/1 – Teresinha e por que você gosta de estudar?

 

R – Ah, por quê? Porque eu tive tanta vontade de estudar quando era jovem e não tive oportunidade (choro), agora eu to estudando. Desculpa tá?

 

(Pausa)

 

P/1 – Teresinha voltando, falando um pouco ainda da escola, o que você tem descoberto, como é que isso? O que tem mudado na sua vida?

 

R – Ah, tem mudado porque eu estou aprendendo, poxa, tô muito melhor e tudo, as pessoas que eu conheci na escola e colegas, e os professores...

 

P/1 – E como é que é o clima de uma sala de aula de pessoas mais velhas, com jovens?

 

R – Ah, é muito gostoso, muito gostoso mesmo, a gente brinca, e eles têm um entrosamento muito grande com a gente, os jovens, eles não têm aquele negócio de dizer porque é velho tá ali na sala, não, tchu, tchu, não tem mesmo. No inicio, na escola quando fui pra quarta série no Ensino Fundamental, eles tinham assim, até chamavam de Dona, sabe, assim, aí a professora: “Não, aqui são todo mundo igual, não tem nada que chamar de Dona, aqui é fulano e beltrano”, então isso aí foi ótimo, porque eu tô acostumada também assim até, trabalho sempre com idosos, então lá, você tem que chamar todo mundo pelo nome, não tem nada se é Dona, é fulana, fulana, senhora fulano, não, é fulano, é Maria, é Antônia, é a Joaquina, é tudo pelo nome, pode ter 90 anos, que a gente chama. Então, isso aí eu gostei a beça, porque a garotada também, “Ah, então não tem que chamar de Dona não?” “Não, nada de tia, nada de Dona, tá no mesmo barco, aqui é todo mundo igual”, então isso aí foi muito gostoso e eu tô adorando, não tenho problema nenhum com os jovens.

 

P/1 – E, agora, uma coisa que comentou já, que eu sei que você é da Associação de Moradores, como é que você entrou na política, fazendo essa coisa de comunidade? Quando é que você se volta pra isso?

 

R – É. Nós temos como eu te falei problema da enchente, nós moramos em casa legalizada, a gente paga os nossos impostos e tudo, e a enchente, tem um rio nas proximidades que era um rio, hoje é uma vala negra,  que essa vala construíram em cima desse rio, e as construções e o lixo todo que você sabe que o pessoal joga tudo, Jacarepaguá, não tem mais rio, né? É tudo vala negra, não tem mais rio, Jacarepaguá, então você sem querer você começa a se entrosar com os candidatos e tudo, tentando até vê se consegue resolver alguma coisa, porque tem tido até morte. Uma senhora, ela nunca mais baixou a pressão, tiveram que levantar o sofá e ela em cima e acabou morrendo, tá, por causa de problema da enchente e ninguém se conforma com isso, são muitas famílias que sofrem com o mesmo problema. E aí, você começa a se envolver, então vamos botar uma ação na justiça, aí nos botamos uma ação na justiça e a advogada nos orientou que tinha que ser através de uma associação de moradores, aí eu fui procurar, que lá tem uma associação de moradores tudo é legalizado, direitinho, e ele se recusou, disse que não ia participar, aí a advogada disse: “Olha, você tem que fundar uma associação, e eu já escolhi, você é a presidente, você escolhe, você é o vice” e nós fundamos a associação de moradores, tá?

 

P/1 – Quando?

 

R – Já tem mais de dois anos, que nós fundamos e tô com os processos na justiça, eu to no meio ambiente, através da associação e na defensoria pública, estão os processos lá pra ver contra a prefeitura, porque a gente não pode reclamar de ninguém, porque se a prefeitura deixou fazer as construções, deixou chegar ao estado que está é a prefeitura, né? E agora, eu tô pra entrar com um terceiro pra ver se não pagamos mais os impostos, porque eu dei os impostos do IPTU e nós pagamos tudo e não temos nenhum retorno, porque continuamos com o sofrimento, cada vez que vem uma enchente a gente perde uma base em 2006, eu, cada morador perdeu uma base de cinco mil reais, foram televisões pro lixo, olha não tem conta. E assim, coisas de álbum de fotografia de casamento, álbuns de retratos de 15 anos dos filhos, tudo não teve como recuperar, pois o caminhão foi lá pegar os nossos sofás perdemos muita, mas muita coisa.

 

P/1 – E as pessoas se envolvem? Como é que é?

 

R – As pessoas, o que, do local?

 

P/1 – Que moram lá é.

 

R – Lá, na minha área ninguém pode se envolver porque cada um tem que cuidar de si porque a casa de todo mundo enche. A minha casa deu em 2006, que foi no dia 12 pro dia 13 de junho, junho ou julho? Junho deu 1,10m de água, a casa toda.

 

P/1 – Esse ano?

 

R – Não, 2006.

 

P/1 – Ah, 2006.

 

R – 2007, papai do céu me ajudou porque não teve enchente e nós continuamos sofrendo e os problemas continuam e eu louca, mas ninguém compra a casa, as casas lá estão na base assim, dos 250 mil, é o valor das casas do porte da minha, mas ninguém compra, ninguém quer comprar. Claro, se você vender por 50 mil reais todo mundo compra, mas ninguém compra por causa do problema. Eu boto uma faixa, né, eu mando fazer uma faixa e boto vende-se, motivo: enchente, por: destruição do rio Pavoninha, que é o nome do rio, e o descaso da prefeitura. E aí os candidatos quando chegam lá em casa ficam, aí me ligam pra brigar comigo e eu não tenho outra coisa a fazer, não tem como, a minha casa já encheu já umas sete vezes, aí a estrutura da casa, né? Eu tenho o laudo da defesa civil de que as casas já estão todas com problemas nessa área de rachadura, de tudo por causa desse problema e ninguém...

 

P/1 – E quando enche as pessoas vão pra onde?

 

R – Quem tem segundo andar vão pro segundo andar, e os vizinhos vão pra casa dos outros, porque não tem como você correr, porque a casa toda.

 

P/1 – A escola é perto?

 

R – A escola é pertinho da minha casa.

 

P/1 – E enche também a escola?

 

R – A escola não, porque tem uma, é assim, a rua é assim, uma subidinha, então a parte que tá destruída o rio, é mais perto da minha casa, a escola tem mais assim, a subidinha, então ainda não chegou. Mas se tudo indica que vai continuar, vai subir, vai até a escola por ali, porque tão fechando totalmente o rio todo, totalmente, entendeu?

 

P/1 – E as pessoas usam a escola até pra, nessa época que enche e fica lá, porque eu já vi casos em que as pessoas muitas vezes, não têm lugar e a escola abriga por esses momentos.

 

R – É, não, lá ainda não aconteceu isso não, porque é aquilo que eu te falei, tem muitos vizinhos que tem segundo andar,

 

P/1 – ...Entendi.

 

R – ... Então vão uns pra casa dos outros, e nessa em 2006, foi o problema foi que passou um ônibus, que faz o trajeto Barra-Colônia, ele não tinha passagem por uma rua e passou pela nossa rua, então o quê que acontece? A onda quando a força do ônibus, a onda, a rua tava com mais de um metro de altura de água, aí passou e jogou água pela janela das casas, o ônibus, aí juntou um pessoal tudo pra segurar o ônibus, tiraram o motorista lá de dentro, o motorista não queria e se ele fosse e o pessoal não passasse? Ele ia direto dentro do rio, porque não dava pra ele ver onde era o rio, entendeu, aí foi muito sofrimento, o pessoal ficou muito triste, sabe, o meu vizinho, pessoal que tava dentro do ônibus tinha senhoras grávidas e tudo, então foram pra casa dele que ele tem segundo andar, aí depois o ônibus, no dia seguinte, foram tirar o ônibus, pior que você não vê ninguém fazer nada, né, são mais ou menos umas cem famílias que sofrem com o problema.

 

P/1 – E Teresinha, a escola, você percebe que existe algum envolvimento com essas questões da comunidade, como é que é?

 

R – Não, assim, envolvimento assim, com...

 

P/1 – Mas você traz essas questões, até essa coisa pra sala de aula? Você costuma puxar esse assunto?

 

R – É. Eu comento sempre com os professores, sabe, porque é uma maneira até de você desabafar, né? Porque você escuta às vezes a pessoa falando: “Não, vota em fulano, porque fulano é legal!” e eu digo: “Não, eu não quero votar mais em ninguém”, tô muito triste, muito decepcionada, porque muitos prometeram milhões de coisas que vão fazer, que vão acontecer até agora nenhum resultado. O mês de junho, não, março desse ano, eu mandei email pro Cesar Maia pedindo a ele pra ver se conseguia resolver nossa situação antes dele sair, pra ver se podia fazer alguma coisa, aí a resposta: entra em obra dentro de três meses, tô esperando até hoje, então...

 

P/1 – Já se passaram os três meses?

 

R – A gente não tem assim, nenhuma esperança e eu queria vender por qualquer coisa e sair de lá, mas meu marido, eu digo pra ele: “Mas não é possível”, ele gosta muito daquilo lá, e não é, tudo da nossa vida já tá ali, minha casa tem jardim, tem uma... Sabe, já tá uma coisa bem arrumadinha, certinha, então ele fica com medo. Ele é assim, bastante comodista assim, ele se acostuma num lugar, ele não quer sair, entendeu, isso eu já faço com mais facilidade, porque se tiver que mudar eu mudo mesmo, isso aí, não tem problema nenhum, mas ele não, aí eu fico também, né? Outro dia, eu conversei até com o padre, falei: “Padre, o quê que eu faço da vida? Padre a minha casa enche” “Vocês se mudam de lá”, falei: “Padre, mas o meu marido não quer, só se eu me separar dele.” “Não, separar (risos) não.” O padre é contra, né, “Separar você não vai separar não” (risos), então tenho que ficar lá junto com ele, vou fazer o quê? Na hora que vier a enchente é correr pra casa dos vizinhos, deixar a casa encher e corro, vou pra casa dos vizinhos, fazer o quê? Não tenho outra solução, não posso separar, e ele não quer sair (risos).

 

P/1 – Teresinha coisa de computadores você mexe, como é que é? Você tá participando dessa coisa aí, entrou na onda dos computadores ou não?

 

R – Olha, esse fim de ano te prometo quando tiver uma próxima vez que vier aqui, eu já sei mexer em tudo, eu fiz o curso, tenho computador perto do meu teclado tá o computador, eu digo assim: “Hoje, eu vou sentar no computador e ver se aprendo alguma coisa”, fiz o curso, cadê? E não aprendi nada, não aprendi não, mas sabe o que é? Você não mexe, então você... E agora eu tô tendo trabalho pra fazer da escola, tudo e eu não sei mexer ainda, entendeu, eu ligo lá, tento entrar na internet e tal, mas quando começo a procurar e (risos) não consigo, não consigo. Não é uma coisa assim que eu tenha paixão, que eu gosto, entendeu, por que com o teclado eu vou e consigo fazer as coisas que eu quero? Mas lá eu não consigo, mas eu vou aprender, tá me fazendo muita falta, então esse ano, fim do ano eu vou, eu falei assim, quando eu entrar de férias, eu vou começar no computador e não saio mais, todos os dias, pelo menos uma hora eu vou ficar no computador. E meu marido também não gosta, mas as pessoas de mais idade pra mexer com a coisa assim, moderna, né, já é mais difícil, né?

 

P/1 – Lá na escola vocês têm acesso ou não?

 

R – Não, por enquanto não, não temos não.

 

P/1 – Ok.

 

R – Entendeu?

 

P/1 – Teresinha e a gente já ta finalizando eu queria que... Tem alguma coisa, Morgana talvez alguma pergunta?

 

P/2 – Não.

 

P/1 – Eu queria saber se tem alguma coisa que você queria dizer e eu não perguntei que você quisesse falar?

 

R – Não, não tem não, ______ às vezes de repente você esquece alguma coisa e você chega em casa e poxa, se tivesse perguntado isso eu queria ter falado (risos). Não, mas...

 

P/1 – Essa é a hora então.

 

R – Pois é, mas não tem.

 

P/1 – Não tem?

 

R – Não tô lembrando nada não.

 

P/1 – Eu queria saber então, pra terminar, queria que você desse a sua opinião de tá participando, de tá contando um pouco a sua história, o quê que você acha disso tudo?

 

R – Ah, eu tô gostando, eu gosto, eu me sinto super bem com isso, com certeza (risos).

 

P/1 – Acha importante?

 

R – Eu acho super importante.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Não sei, eu acho importante você falar a sua vida, falar um pouco de você, do teu passado, é bom recordar, viver aquilo entendeu, que às vezes, você não tem oportunidade de falar, por exemplo, os meus filhos eles assim, eles não dão assim, essa oportunidade, entendeu, de falar assim do passado, contar as coisas. Ás vezes, eu quero até falar as coisas assim com eles, mas eu prefiro às vezes, falar até com os vizinhos, com os colegas “Ih, mãe, essa época era muito ruim. Ih, vocês faziam assim, pra ir pra escola? Andavam isso tudo? Você tinha coragem de fazer isso? Ah, não quero saber disso não”, então você não tem às vezes como falar, entendeu, meu marido também, a criação dele foi totalmente diferente da minha, né, ele pode estudar, ele... Foi assim, totalmente criado aqui no Rio, e tudo, não teve assim, então ele também, ele não escuta muito, então isso pra mim tá sendo maravilhoso (risos), tô adorando.

 

P/1 – Então eu acho que é só.

 

R – E quero falar que eu gosto muito dos meus professores, da escola toda, tem muita atenção pras pessoas de idade, tem muita paciência, tá? Nós tínhamos que fazer um trabalho falando da escola e dizer se tinha alguma coisa pra reclamar dos professores, eu disse: “Pra mim são todos maravilhosos”, porque todos têm a maior paciência com a gente, entendeu? Eles sabem que a gente tem um pouco de dificuldade pra aprender e tudo, mas eles têm a maior paciência, sabe, ela mesmo, a Mônica mesmo já me (pediu?) se tiver alguma coisa, se quiser chegar mais cedo aqui na escola, eu dou uma aula pra você de Química, quem tá com dificuldade, aí a eu fico feliz com isso porque, entendeu, são muito maravilhosos mesmo, todos os passeios, eu participo, venho passear, outro dia, nós fomos passear no Pão de Açúcar, apesar que eu já conhecia, mas fomos no Pão de Açúcar com as professoras, foram muitos alunos, foi maravilhoso, também tirei muitas fotos e tudo, então isso tudo pra mim é, tô vibrando com isso tudo.

 

P/1 – E tem algum sonho ainda que não foi realizado que você gostaria?

 

R – Olha, o meu sonho quando eu era garota era estudar e ser geriatra, tinha loucura, como eu gosto, desde criança que eu gosto de pessoas idosas, eu tinha paixão, mas hoje não tem mais, pra ser assim, geriatra acho que já não é possível, né, não tem mesmo. Mas esse sonho, claro, claro que é um sonho que eu queria realizar seria isso, mas isso aí agora já tá fora, eu sei que é difícil pra mim, médico, pô, é muito difícil, não tem como. Tentar fazer lá assim, uns cursinhos outras coisas, mas...

 

P/1 – Mas você falou que quer fazer faculdade, quer fazer faculdade de quê?

 

R – Não sei, agora eu já penso em Pedagogia, penso em psicóloga, aquelas acho assim, mais fáceis, entendeu, mas assim, geriatra já não dá mais não, acho que já tá, é muito difícil. Como é que uma velhinha vai cuidar das outras? (risos). Já é difícil, né? Não é impossível, não é impossível, a gente sabe disso, não é impossível, mas já é mais complicado, acho que aí a gente já não tem assim, aquele cérebro pra pegar assim, uma (matéria como?) Medicina, né, muito difícil, né? Apesar que a minha futura nora ela diz pra mim assim: “Ah, é mais fácil você fazer as coisas, passar pra uma pessoa de mais idade do que com os jovens, eles querem dar mais oportunidade...”, claro. Tem que dar, porque eles têm tão pouco tempo, você se formar, trabalhar pouco tempo naquilo, muitos também vão se formar até pra guardar o diploma, não vai mais realizar. Apesar de que eu já li uma história que um senhor disse que queria ser advogado, queria ser advogado aos setenta e tantos anos, ele conseguiu se formar: “Agora não tem problema, eu guardo o meu canudo, mas que eu sou advogado” (risos). Vale, né?

 

P/1 – Claro.

 

R – Se tem vontade, se tem um desejo acho que pode, é bom fazer. Mas aí esse desejo, meu, acho que não vale mais não (risos), já tá fora.

 

P/1 – Acho que é só.

 

R – É? Que bom.

 

P/1 – Foi ótimo!

 

R – Foi bom, né?

 

P/1 – Gostou?

 

R – Gostei, claro que gostei (risos). Muito bom. Só de conhecer vocês já valeu a pena.

 

P/1 – Ah, que bom.

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