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História

De menina da roça à costureira e professora

História de: Arlete de Costa Pereira
Autor: Arlete de Costa Pereira
Publicado em: 17/06/2008

História completa

Nascida menina na zona rural, no ano de 1966, em plena ditadura militar. Filha de agricultores pobres e muito tradicionais, em uma família composta por quatro filhas mulheres. Não nasceu nenhum homem, tão fundamental para ajudar no trabalho pesado da roça e ainda levar adiante o sobrenome da família. Esta menina de cabelos longos e vestido de chita não conhecia nada além de bois e galinhas. Nem sonhos. Mas não precisava de nada disso para ser feliz. Desde pequena, contentava-se em guiar o boi por entre os pés de fumo. Para encontrar a menina, era só procurar pelo boi, grande e visível, pois isto indicava o percurso daquela pequena trabalhadora. Aos sete anos, entrou para a escola. Andava quase três quilômetros para estudar e lá, pela primeira vez, soube o que era discriminação e preconceito. Logo recebeu o apelido de dentuça e coelha, e descobriu que era feia, muito feia, e muito mais pobre que as outras crianças. E assim, foi deixando de ser feliz. Isolada, quase sem amigos, conseguiu destacar-se nos estudos. Boa aluna, fazia tudo o que a professora mandava, sem reclamar, sem incomodar, sem questionar… Recebeu o prêmio de melhor aluna da sala: um joguinho de latinhas cor-de-rosa, com as inscrições de arroz, feijão, açúcar e café. E, deste modo, ela foi alfabetizada para o lar, para a domesticidade e repressão de qualquer sonho ou desejo. Era como se o destino daquela menina estivesse traçado nas letras daquelas latinhas, ou talvez, muito antes. Aos nove anos, veio para a cidade com a família, pois seu pai já não conseguia mais sustentar a todos com a produção do fumo. Ele conseguiu um emprego, vendeu suas terras no meio rural, e adquiriu um pequeno lote em um bairro da periferia de Criciúma, onde permaneceu por apenas um ano, voltando a morar no interior, agora em terras arrendadas. Também voltou a trabalhar na agricultura, apenas para a subsistência familiar, embora ainda continuasse com seu emprego de vigia noturno em uma cerâmica da cidade. Aos treze anos, a menina ganhou uma bolsa de estudos em um respeitável colégio da cidade. Estudou lá por dois anos e, por apresentar um bom desempenho, ganhou a bolsa de estudos para todo o segundo grau (atualmente, Ensino Médio). Porém, seu pai, vigia noturno e agricultor, não permitiu que continuasse os estudos. “Filha mulher não precisa estudar. Se tivesse um filho homem daria estudos para que ele se formasse doutor, mas mulher não”, dizia ele. Já era hora de aprender tudo o que uma mulher precisava saber para ser uma boa esposa, dona-de-casa e mãe. E foi assim que a menina- mulher aprendeu a cozinhar, costurar e até bordar - arte necessária na hora de fazer o enxoval. Ela só foi entender as razões de seu pai anos depois, quando foi estudar à noite em uma escola pública e precisou pagar cada lápis, caderno, livro, lanche ou passe de ônibus. Percebeu que aquela bolsa, que cobria apenas a mensalidade do colégio, não ajudava em nada seu pai. Os gastos, para além da mensalidade, eram muito altos. E, naquele momento, estar estudando também significava não estar ajudando a família na roça. Com o aumento da miséria, falta de dinheiro e de recursos, a vida no campo tornou-se insustentável. Então, surgiu a necessidade de trabalhar fora, empregada. Para aquela menina-mulher, sem maiores estudos ou conhecimentos acadêmicos, só havia um caminho, e felizmente, sabia costurar. Com isso, não foi difícil conseguir um emprego em uma das confecções da cidade. Lá trabalhavam mais de cinqüenta mulheres. Aquele era o único espaço aceito por seu pai, por ser um espaço só de mulheres, e não oferecer riscos. A jornada de trabalho era de dez horas, tinha carteira assinada e um pequeno salário, que para sua família significava muito. Por incrível que pareça, foi lá, no interior daquela fábrica, no meio do pó e das tintas dos brins, que aprendeu a sonhar. Durante quatro anos, trabalhando duro, costurando diversos tecidos e, ao mesmo tempo tecendo muitas idéias, conhecendo mulheres infelizes, marcadas por histórias tristes de exploração e humilhação, percebeu que a vida não poderia se resumir naquilo, e encontrou forças para lutar. Conheceu sindicatos, greves, movimentos sociais. Vivenciou e presenciou inúmeras situações de discriminação social e de classe. Decidiu voltar a estudar. Enfrentou o descontentamento dos pais e até das irmãs. Tornou-se a “ovelha negra” da família, mas conseguiu. Fez o magistério público no período noturno. Fez-se professora Com o magistério concluído e desejando imensamente deixar a fábrica e assumir sua nova profissão, encontrou novas barreiras. Naquele ano não aconteceram concursos públicos na Prefeitura ou Estado, e as escolas particulares davam preferência às professoras com experiência. Após muitos ‘nãos’, começou a procurar qualquer trabalho que fosse diferente da fábrica, pois não suportava a idéia de voltar para aquele espaço. Afinal, tinha o segundo grau completo e isso deveria ter algum valor. Triste engano Cada vez que preenchia uma ficha de emprego ou apresentava sua carteira profissional, as pessoas logo lhe negavam o cargo, e ainda orientavam-na para que fosse a uma das facções da cidade, pois era o que sabia fazer, tinha experiência… Sabia sim, mas não queria, e tinha o direito de lutar. Corajosa e muito persistente, conseguiu finalmente uma vaga para lecionar como professora em uma instituição filantrópica, em um município vizinho. De menina da roça a costureira e professora. Naquele momento, em que o povo brasileiro conquistava o direito de ir às urnas votar para Presidente da República, depois de 20 anos de ditadura, aquela menina conquistava o direito de exercer sua nova profissão: ser professora Havia se formado recentemente e, ingenuamente, acreditava estar ‘pronta’ e em condições de assumir uma turma de séries iniciais. Por ironia do destino, deparou-se diante de uma turma pré-escolar. Vinte e cinco crianças de cinco e seis anos. E aos poucos foi percebendo que quase tudo o que havia aprendido não servia para aquele grupo de crianças. O que fazer com todos aqueles conhecimentos que aprendera no magistério? A idéia de utilizar aquela linda maçã vermelhinha para ensinar frações? E as tabuadas que iriam partir de patinhos na lagoa? E todas aquelas técnicas de construção de textos, adição, subtração com reserva? Parecia que nada servia para aquele grupo, e isso foi gerando um vazio e uma sensação de impotência. Como poderia ser professora e não ensinar conteúdos? Teria valido a pena tantos esforços? Havia estudado, se formado, para quê? Para cuidar de crianças pequenas? Mas, para isso, já não estava pronta desde sempre? Não bastava ser mulher e gostar de crianças? Apesar de todas as dúvidas e medos, não costumava desistir. Estava diante de um novo desafio: encontrar um jeito de ensinar e aprender com aquelas crianças, criar um espaço de trocas, encontrar significados. Aos poucos, foi percebendo o quanto tinha a aprender com elas, como eram criativas. Não via isso antes porque só pensava em ensinar. Os dias foram se tornando mais prazerosos, e juntos - crianças e professora -, entre erros e acertos, construíram um forte vínculo afetivo, que fez daquele ano a razão de estar até hoje na educação infantil. Em 1989, iniciou no SESI como professora de P.D.I. , e dois anos depois, já formada em pedagogia pela FUCRI, assumiu o cargo de supervisora de P.D.I. Ainda através do SESI, foi para a cidade de Porto União, no interior do estado, para acompanhar um trabalho de supervisão pedagógica. Dois anos depois, transferiu-se para Florianópolis, onde trabalhou até o final de 1995, na mesma função. Depois, atuou como coordenadora pedagógica e diretora de creches particulares. De volta a Criciúma, atuou na orientação pedagógica de uma instituição filantrópica chamada AFASC - Associação Feminina de Assistência Social de Criciúma, onde foi desenvolvida essa pesquisa. Em 2004, essa menina da roça que ousou transgredir toda e qualquer ordem social a ela estabelecida e se constituiu professora, coordenou o Departamento de Educação Infantil da AFASC, e ainda formou-se no Mestrado. E foi além, passando “de menina da roça” a Consultora da UNESCO, professora da UFSC, professora da UDESC... É Não foi por acaso, que esta menina-mulher, defendeu uma dissertação de mestrado onde investigou gênero nas relações entre meninas e meninos. As marcas que traz em sua história mostram que é possível superar todos os obstáculos, desde que você tenha o desejo de ser feliz, coragem, muita ousadia e ame de paixão tudo o que faz. E este é o tamanho da responsabilidade que está nas mãos daquela menina da roça. Arlete de Costa Pereira
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