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História

De mapa astral em mapa astral

História de: Lydia Vainer
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/12/2014

Sinopse

Lydia é uma conhecida astróloga que contou sua história ao Museu da Pessoa. Em seu depoimento, ela conta a origem de sua família materna e paterna, ambos de origem judaica. Fala sobre como a mãe sofreu no campo de concentração na época da Segunda Guerra Mundial e como família veio parar no Brasil. Recorda a infância e as brincadeiras com os amigos da vizinhança. Fala sobre um problema de saúde com o qual nasceu, que a obrigava desde muito nova a morar em cidades de praia para tomar sol todos os dias. Recorda seu interesse pela astrologia na adolescência e como se interessou por cursar Psicologia. Relembra como o marido a convenceu a morarem um ano na Índia, onde tiveram o primeiro filho. Lydia fala sobre a sua trajetória profissional como astróloga e comenta das dificuldades de se fazer mapa astral.

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História completa

Meu nome é Lydia Vainer. Eu nasci em São Paulo, capital, no dia 30 de outubro de 1955. Meu pai é Moisés Vainer, ele nasceu 22 de maio de 1922, na Bessarábia, Romênia. E minha mãe nasceu dia 4 de junho de 1926 em Belgrado, Iugoslávia. Minha mãe chegou no Brasil depois da guerra. Ela passou por campo de concentração, quarentena, bombardeios. Ela atravessou as montanhas da Itália fugida de um convento onde ela foi abrigada com a família dela, quando eles conseguiram sair do campo. Ela foi pra Suíça, depois ela foi pra Itália. Eles vieram pro Brasil, eu sei que ela não queria vir de jeito nenhum pro Brasil. A minha mãe chegou aqui, ela era uma pessoa bastante inteligente, no segundo dia ela começou a trabalhar numa empresa estrangeira porque ela falava francês e ela aprendeu a falar o português perfeitamente. O meu pai, também imigrante, o pai dele veio para o Brasil achando que tinha ouro nas ruas, chegou aqui e viu que não tinha. Ele chegou com uns nove anos, minha mãe chegou já com 21 anos. Acho que a colônia judaica se ocupa disso, então um apresenta pro outro.  Minha mãe era uma pessoa muito dura, muito difícil, muito rígida. Meu pai teve muitos trabalhos, empregos, cada hora inventava uma coisa, uma hora criava coelho, outra hora criava um parque aquático, outra hora outro investimento. Eu tenho dois irmãos. A minha família quando chegou no Brasil todo mundo ou foi morar na Rua Augusta, em prédios ou na Oscar Freire.

Minha infância foi muito boa, eu sempre gostei de me divertir e de aprontar, sempre. Eu morava perto do Clube Paulistano, eu fiz jardim lá. Eu já chegava na escola arrepiando. E a infância, eu brincava muito na rua com os meninos. Tinha um vizinho, que era o seu Donga, ele era muito engenhoso, então ele chamava os meninos da rua para ensinar a fazer gaiola, carrinho de rolimã e eu ficava assistindo da janela. A minha casa era um sobrado. Eu dormia num quarto atrás do quarto do meu irmão, então pra ir pro banheiro ou pra casa inteira eu tinha que passar pelo quarto do meu irmão, que era um trauma pra ele. E pra mim também. Eu tinha uma doença, que era uma doença que eu nasci com ela, que era falta de cálcio nos ossos e nos tecidos moles, então eu tinha umas quatro, cinco crises, como se fosse uma caxumba por ano, eu ficava na cama com febre, tudo. Então por esse problema de raquitismo, falta de cálcio nos ossos eu tive que morar na praia um tempo, quando eu era pequena eu fui morar com a minha avó. Isso bem pequenininha. Depois meus pais tiveram que ter um lugar na praia, apartamento na praia, e a gente começou a morar no Guarujá, tive que morar lá um tempo por causa dessa minha doença. E usei muito tempo botas e aparelhos, e aparelhos pra dormir, parecia que eu vivia na inquisição, toda cheia de ferros assim. Então o papai teve que construir um negócio pra morar por causa desse problema nos ossos que eu tinha. Tinha que tomar sol toda hora, o dia inteiro tomando sol. Tomar remédios, vitamina D, ficava andando, fazia ginástica na praia, na areia, pros pés. Porque era tudo muito mole, meu corpo. Então tinha que ficar fazendo um monte de ginástica, tomando sol. Enfim, era isso.

Eu com 13, 14 anos comecei a me inteirar dessa coisa de signos. E nunca mais larguei.  A minha família era muito racional, tanto que pessoas que são ateus são absolutamente racionais, não acreditam em nada. Ninguém acreditava em nada. Também tinha uma outra questão, que eu comecei a pensar. Eu tinha muita doença, era uma coisa atrás da outra, era nos olhos, era nas costas, era nas pernas, era nessas glândulas que inchavam, até hoje, elas sempre incharam. Eu falei assim: “Mas por que eu e não meus irmãos? Eu vou ter que descobrir isso”. Eu fui estudar astrologia. Eu ia no centro de ônibus, numa escola que tinha lá, que era de maçons e eu comecei a aprender a fazer cálculos. Eu lembro assim, mas isso era nítido, comecei a fazer meu mapa na mão, eu punha um planeta na casa da Saúde, dois planetas na casa da Saúde, três planetas na casa da Saúde, quatro planetas na casa da Saúde. Eu falei: “Nossa, todos os planetas na casa da Saúde”. E meio que entendi. Eu também não me debati mais com a questão. Mas eles não eram doentes e eu era. Então a doença sempre fez parte da minha vida, mas eu aprendi a me cuidar também, eu sei me tratar. Eu entrei na Faap, Artes Plásticas, mas não dava para fazer Psicologia e Artes Plásticas. A minha mãe quase me amarrou assim e falou: “Não, você vai fazer Psicologia porque você gosta, porque você tem talento. Artes Plásticas você vai ser mais uma, não, não, não”, larguei Artes Plásticas. Mas eu sempre estou fazendo coisas de pintura, de papel machê, de música. Eu tenho um grupo que toca, toco num grupo afro também no carnaval. Eu cantava em todas as línguas assim, ia até em programa. Eu escutava música e começava a cantar. Hoje, pergunta se eu sei, nenhuma língua, mas era tipo fenômeno. Isso que eu acho que é da cultura, pelo fato da gente ter várias línguas dentro de casa, tinha vários discos de várias línguas, eu escutava e cantava.

Meu pai era empreendedor, jogador, louco, aventureiro. Ele chegou de canoa numa praia, comprou um monte de terreno, tudo meio sem documento até hoje. Ele era uma pessoa que tinha umas ideias na frente. Ele tentou fazer um parque aquático e me pôs de sócia. E como as pessoas adoravam ele, entravam na dele. Meus pais eram muito civilizados, muito pouco brasileiros. Assim, o brasileiro é muito escravocrata, então o brasileiro trata mal os empregados, isso é uma característica abominável na minha família. As pessoas vêm trabalhar com a gente, todo mundo fica 30, 40 anos, até hoje eu ligo pros empregados pra saber como está, como não está. Isso brasileiro não faz.

Eu sempre fui pra esse lado místico. Eu lembro uma vez eu estava lendo o Zen Budismo, tinha 15 anos, e meu irmão começou a me xingar de alienada, disso, aquilo, era uma tormenta essas pessoas que ficavam me alucinando. Eu comecei ver que existiam uns livros e tinha uma livraria no centro da cidade, que é essa que eu encomendava os livros franceses. Eu nem sei como eu conhecia ler esses livros, quando eu penso, que loucura. Eu acho, como que eu descobri essa escola na Xavier de Toledo. Ela era feita por maçons, Associação Brasileira de Astrologia, na Xavier de Toledo. Eu fui lá, me inscrevi e só deu tempo pra aprender os cálculos, que logo eu conheci o meu ex-marido. Ele queria fazer uma viagem, a gente foi pra Índia, passei um ano na Índia, fiquei grávida, tive filho lá e começou, foi muito cedo, com 20 anos eu tinha um filho já. Com 21 anos eu tinha três filhos, porque depois vieram as gêmeas. Eu me casei, acho que eu tinha 20 anos.

Nós ficamos num Ashram, numa comunidade. Chegou lá na Índia eu e meu ex-marido, a gente nem se olhava, deu problema já no aeroporto, eu fiquei lá, entrei em contato com umas mulheres num lugar que chamava Art House, ficava lá bordando com elas. Fiquei muito sozinha na Índia.  Naquele inferno. O que aconteceu lá? Eu saí do Brasil com um atestado de esterilidade total. Já que eu iaviajar minha mãe falou: “Bom, já que você vai viajar vamos no médico”. Fui num médico, fui no outro, fiz uns exames de contraste no ovário. Bom, moral da história, saí com problema, meu ex-marido falou: “Ah, você não vai poder ter filhos, eu me separei porque minha mulher fez um aborto e você não quer ter filho”. Chegou na Índia, não vinha a menstruação. Bom, alguma coisa está acontecendo. E eu sonhava que estava grávida, mas eu ia nos médicos lá, um punha pêndulo, outro não sei o quê: “Não, não está, não está”. Eu escrevi pra minha mãe e ela falou assim: “Olha, quando a gente muda de continente a menstrução não vem”. Moral da história, eu falava: “Não, não é possível”. Todo mundo apertava, fazia Do-in, fazia ayurvédica pra descer esse raio da menstruação. Nada. Um dia eu estava tão magra, que eu detestei aquela comida indiana porque eles punham muito cominho na comida. Eu cheguei e falei: “Olha”, eu me olhei no espelho depois de uns quatro meses e falei: “O que é isso? Ou eu estou com um tumor ou eu estou grávida”. Peguei um carro de boi e fui pro hospital, cheguei no hospital, estava fechado o hospital. Voltei pra essa comunidade que eu morava. Depois de mais um dia eu falei: “Vou pro hospital”. Cheguei no hospital já estava com cinco meses de gravidez. Chamaram minha amiga lá, eu fui com uma amiga, a mulher falava italiano, a gente não se entendia, não falava inglês, era uma confusão. Eles perguntaram para ela: “Vê se tua amiga quer que tire”, porque eles tiram e dão um radinho na época. Eu falei: “Não, não vou tirar, não”. Voltei pra casa e falei: “Olha Henrique, eu estou com cinco meses de gravidez”. Ele falou: “Ah, é?”, eu falei: “É”. Eu falei: “Meu Deus do céu”, 20 anos, nesse lugar que eu estou. Eu vou ficar por aqui mesmo, se é pra ficar aqui, então vou ficar por aqui. No fim tive um filho lá na Índia, o Radji. Tive filho lá, ele nasceu no dia 1º de setembro. Aquele monte de indiana fazendo fila, batendo na janela eu tendo que trancar a janela, ficar no escuro lá, pra ver um neném branco de olho azul. Depois eu voltei no hospital, é engraçado, eu abri a gaveta do meu quarto, estava ainda o cordão umbilical. Eles tiraram lá dele, jogaram na gaveta. Uma semana depois eu fui buscar alguma coisa e estava o cordão umbilical. E eu lembro que eu paguei, sei lá, 400 dólares tudo, tal. Começou a gente tentar voltar pro Brasil. Ele nasceu dia 1º de setembro, mas eu já tinha sonhado em junho que eu ia voltar dia 29 de outubro. Quando eu cheguei no Brasil a minha mãe viu o neném e falou assim: “Bom, tem algum problema, esse neném deve ser mongol”. Chamou todos os amigos dela, psicólogos pra ver o neném, porque ele estava assim, né? Mas também foi uma viagem bem cansativa. Logo engravidei das gêmeas. Eu não tinha acabado a faculdade, acabei a faculdade, depois eu fui morar num sítio logo, porque com esses três filhos eu falei: “Bom, vamos morar fora”, num sítio. Foi também quando meu ex-marido fez a transição dele da engenharia pra tapeçaria, então tinha que morar num lugar grande. Ele montou uma fábrica de tapeçaria que ele ensinava as pessoas da região a tecer. E aí foi indo. Eu fiquei um tempão nesse sítio, em Itapecerica. Os nomes das minhas filhas: Lara e Lia. E o meu filho Radji.

Eu adorei o curso de Psicologia. Eu já fazia mapa na época, então eu ficava fazendo mapa dos alunos. Eu já associava conceitos da Psicologia com os planetas. Eu já estava no mundo da Astrologia, totalmente. O meu primeiro mapa, que foi essa coisa que eu fui pondo os planetas na casa da Saúde. Eu me lembro até hoje. Porque a gente tinha que fazer um cálculo. Tem um negócio que é um livro que chama Efemérides, que é a posição dos planetas. Você pega o planeta de um dia com o outro, faz um cálculo pra achar o planeta onde está naquele dia, naquela hora que você nasceu e no lugar em que você nasceu. Fazia o cálculo, eu ia fazendo um, casa seis, que é Saúde; o outro, Sol, casa seis. Mercúrio casa seis; Netuno casa seis. Lua casa 12, que também é Saúde. Eu deixei a Psicologia, que eu não aguentava atender toda semana uma pessoa e comecei a Astrologia. No começo era difícil, não sabia muito. A minha primeira cliente foi uma professora minha na faculdade que foi a última matéria que eu fiz, que ela está até hoje na PUC, é a Bete, ela ainda faz mapa comigo. E antes eu desenhava à mão, eu desconfio que eu era melhor astróloga quando eu desenhava à mão. Fazia o mapa, ficava pintando os signos, pegava régua, desenhava, tudo lindo. Hoje sai no computador; antes eu imprimia, hoje não imprimo mais. Foram as mudanças de vida. 90% é difícil. Não é que é difícil, tem horas que eu não sei, que a pessoa pressiona, me dá sono na cara da pessoa, eu durmo na cara da pessoa, porque é muito pesado. Eu pego uma carga. Hoje eu falo: “Você está muito carregado, eu vou passar um negócio aqui porque eu não estou aguentando”, antes eu não falava. Mas me dá muito sono, daí eu saio, como, tomo um guaraná, um café, faço o diabo a quatro pra sustentar. Ah, tem muita coisa. Tem situações, tem muita história. Eu dou aula, eu já dei milhares de turmas aqui, em Florianópolis, eu moro lá também. O pessoal vai ficando, tem seis anos de aula, mas tem que ter o dom, isso você não ensina. Mas eu ensino muito bem, meus alunos são os melhores porque eles sabem fazer mapa, sabem pensar, tem que ter um pensamento específico. Tem mapa do país, mapa do Brasil que eu faço. Então no mapa do Brasil, uma vez eu fui num programa da Ana Maria Braga, eu peguei e falei assim: “É, o Brasil, a corrupção vai ter nome, CIC e RG”, foi o ano do mensalão. Bom, vocês podem me imaginar do que eles me chamaram depois. “Ah, e vai começar no meio de comunicação”. Porque estava no mapa do Brasil, mas tem que também ter uma coragem, tem que ser meio kamikaze, porque é uma profissão que é binária, ou você acerta e está no céu, ou você erra e vai pro inferno, não tem meio termo, não tem. Então não é igual a Psicologia, a Sociologia, que as pessoas falam: “Ah, psicólogo difícil”, eu não acho que é difícil, é só ir escutando e interagindo. Astrologia eu venho e falo o que eu acho, o que eu penso, sento naquele mapa que eu nunca vi na minha frente e tem que começar a papagaiar, papagaiar e a pessoa perguntando: “Eu vou ser mandada embora? Está a maior crise lá na rádio, eu vou ser mandada embora?”, eu falo: “Não, você não vai ser mandada embora”, mas eu não tenho certeza, eu não sei se está lá no mapa, ou se tem os indícios que eu vejo. É complicado porque não é assim, você vê, mas as pessoas querem essa resposta. “Vou ser mandada embora? Porque eu tenho que me preparar” “Não, não vai”. Às vezes eu recebo uns e-mails: “Putz, eu fiquei doente, aconteceu isso”, às vezes eu recebo uns e-mails agradecendo. Tem de tudo. Eu devo ter errado muito, mas as pessoas não chegam e falam: “Ó, você errou”, mas se errou some ela e a família inteira. Então é complicado, é complexo, é cruel.

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