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História

De Israel para o Brasil

História de: Chaim Siche Kuperman
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2005

Sinopse

Infância em Israel. Imigração para o Brasil. O cotidiano e a educação no orfanato, em Israel. O trabalho de mascate em Belo Horizonte. Produtos comercializados e perfil do consumidor. Migração para São Paulo e trabalho em loja de acessórios para carros. Migração para o Rio de Janeiro e trabalho em agência de automóveis. Migração para São Paulo e aquisição de loja de confecções. Início do trabalho na Papelaria Formosa. Formas de pagamento no trabalho de mascate. Lazer na juventude. Lembranças da escola. Trabalho em loja de tecidos em Belo Horizonte. A loja de confecções em São Paulo e o perfil do consumidor. Descrição da cidade de São Paulo, das ruas comerciais e seus costumes. O trabalho na Papelaria Formosa e a especificidade de seus produtos. Importância do bom atendimento. Filhos, sonhos e importância do registro de seu depoimento.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO Meu nome é Chaim Siche Kuperman; para o português é Jaime Kuperman. Nasci na cidade de Safed, na Palestina, hoje Israel, em 21 de março de 1915, e eu não conheci meu pai. Quando eu tinha um ano, ele faleceu. Minha mãe casou novamente, com meu padrasto, e eu como órfão fiquei na casa da minha avó. INFÂNCIA Fiquei na casa de minha avó durante cinco anos. Com a dificuldade de depois da guerra na Palestina ela tinha que se sujeitar a lavar roupas de tuberculosos que vinham pra aquela cidade, que era uma cidade de clima – que nem Campos do Jordão ou São José dos Campos aqui – e ela se sujeitou a lavar roupa e a fazer comida pra esses tuberculosos. Ela tinha medo que eu pudesse me contaminar e conseguiu me internar num orfanato, tinha uns 40 meninos. Com o tempo, minha avó conseguiu, também, se empregar como cozinheira pra poder tomar conta de mim. DIA A DIA NO ORFANATO O orfanato era portas abertas. No princípio era muito rígido, devido à religião. A gente tinha de levantar de madrugada para estudar a religião e rezar. Depois de alguns anos, um dos pioneiros dos kibutz, de Israel, assumiu a direção do orfanato. Esse diretor consta do dicionário hebraico, o nome dele, ele era inclusive escritor, e como homem de idade ele começou a dirigir o orfanato. Aí aprendemos a comer com garfo, aprendemos a escovar os dentes e aprendemos a ler livros. O tratamento era ótimo! Quem sustentava o orfanato era o pessoal que nascia em Safed e estava em Nova York, e nos Estados Unidos. Eles fizeram uma sociedade em auxílio ao orfanato de Safed. Vivia-se muito bem, tínhamos liberdade, foi formada uma orquestra, fazia-se correio, aprendemos a filatelia. Até hoje eu gosto muito de filatelia, tenho uma bonita coleção de selos de Israel. Era muito bom. Naquele tempo, eu vivia melhor do que eu vivia na casa dos meus pais no Brasil, que era tudo com dificuldade. Agora, lá no orfanato, não se estudava. Pra estudar a gente ia à escola pública da cidade. Aliás, em 1976 e em 1989, eu visitei a cidade, e por acaso encontrei um colega do orfanato, foi o único que eu encontrei, uma alegria! IMIGRAÇÃO PARA O BRASIL A minha mãe e o meu padrasto vieram pro Brasil em 1920, junto com familiares da minha mãe. O marido da minha tia, cunhado da minha mãe, morava em Belo Horizonte antes da Primeira Guerra Mundial. Eles vieram pro Brasil e eu fiquei lá em Safed, no orfanato. Com o tempo, minha mãe queria que eu viesse pro Brasil, e minha avó, do outro lado, não deixava, queria cuidar de mim. Até que em 1928, ela conseguiu – não sei por que meio – e me mandou passagem para eu vir pro Brasil. Saí em 18 ou 19 de abril de 1928, do porto de Jaffa. Viajamos até Marselha, na França. Em Marselha ficamos uma semana, depois fomos pra Cherburgo; em Cherburgo pegamos o navio Royal Line até o Brasil. Cheguei pelo Rio de Janeiro. Meu padrasto me esperou e me levou até Belo Horizonte. Chegando em Belo Horizonte, eu não sabia a língua. Meu padrasto tinha uma alfaiataria e o contramestre era filho de sírio, e ele falava árabe, e eu também falava árabe e um pouco de inglês. Ele me ensinou o português e eu acabei esquecendo o árabe, algumas palavras eu ainda me lembro. Com tempo, esqueci o hebraico, que eu sabia muito bem. Aliás, antes de ir pra Israel, em 1989, eu fiz um curso de hebraico na USP pra poder aprender e recordar tudo de novo. Voltando para Belo Horizonte, meu padrasto me matriculou no Colégio Batista. Depois de um certo tempo, ele fez uma loja, trabalhei com ele. Depois eu vim numa viagem pra São Paulo, em outra para o Rio de Janeiro. Era uma vida itinerante, procurando melhorar a vida, a situação econômica que era muito difícil! O VENDEDOR DE QUADROS DE JK Em 1933, 1934, eu comecei a trabalhar com quadros. Vim para São Paulo, comprava quadros religiosos e fui trabalhar em Belo Horizonte, para vender à prestação. Eu comprava sapatos na Rua Visconde de Parnaíba, me lembro agora, com sola de borracha de pneu, pra poder andar muito! Tinha que andar, vender. [Quem fornecia] era um alemão que tinha uma estamparia aqui na Penha, perto do Parque São Jorge. Eu comparava à vista e vendia a prazo. A estampa que saía mais era Nossa Senhora Aparecida, que saía mais. E também Cosme e Damião, Santa Ceia. Eu procurava catequizar os católicos. Chegava lá: "Ah, o senhor é católico, o senhor não tem nenhum quadro na sua casa. O senhor não precisa de dinheiro...". E não podia dizer 'vender', o mineiro era muito religioso, era trocar: "Eu troco com o senhor pra pagar um mil réis toda a semana." E assim foi indo. Entre meus clientes, eu tinha alguns famosos e famosíssimos! Um deles se chamava Juscelino Kubitschek, que comprou à prestação, era médico! Comprou à prestação! Não era aquela política. Eu me lembro que aqueles políticos de Belo Horizonte não eram ricos, não eram tão corruptos! Outro que era meu freguês era Israel Pinheiro, o primeiro prefeito de Brasília, ele ajudou a construir Brasília. TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO Não consegui grande coisa em Belo Horizonte, e vim pra São Paulo. Comecei a trabalhar numa casa de acessórios de automóveis pertencente ao meu tio, na Vila Mariana, chamava-se Auto Guanabara. De lá fomos pro Rio de Janeiro. No Rio de Janeiro, trabalhei numa agência de Chevrolet, uma agência de automóveis Chevrolet Chadler. O dono também era de Safed, então foi mais fácil conseguir o emprego. Depois do Rio eu vim pra São Paulo, onde montei, com umas pequenas economias, uma pequena loja na Vila Mariana. Em 1941, casei. Minha mulher é de Niterói, e tivemos o cuidado de não ter filhos aos primeiros anos, que a economia não dava. Em 1949 eu vendi a loja, e alguns dias depois consegui emprego na Papelaria Formosa, em que estou até agora. TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – VENDEDOR EM NOVA LIMA Também vendia sabonete. Na Mina de Morro Velho, em Nova Lima, todo o primeiro sábado do mês, eles faziam o pagamento. No dia seguinte, no domingo, muita gente de Belo Horizonte ia para Nova Lima pra vender, porque eles tinham dinheiro. E eu, pra poder ajudar na despesa, comprava sabonete, era uma coisa que todo o mundo usa, e enchia a mala. De manhã cedo pegava [o transporte] e se amontoava um em cima do outro, junto com as malas, e ia até Nova Lima. Ainda era estrada de terra. Era uma cidade que no morro tinha os chalés, os bangalôs dos ingleses. Embaixo tinha as casas. Você entrava numa, numa sala, tinha 14, 15 camas, ao lado de cada cama tinha um caixote de querosene fechado onde que era o guarda-roupa dos operários. Eu ia de cama em cama e vendia sabonete. Era para ajudar no meu sustento, porque eu estudava de noite. Eu precisava de mais dinheiro, porque eu gostava muito de livros, então tinha uma despesa extra, além de comer e dormir. Faz muitos anos que eu não vou a Nova Lima, mas era muito interessante ver como é que eles tiram o ouro lá das minas, como é que descem com os elevadores, não sei quantas centenas de metros. VIOLÊNCIA NO FUTEBOL Os times de Minas eram Palestra e Atlético. Quase todo estrangeiro era Palestra, porque era da colônia italiana. De um lado, [no estádio, tinha as gerais, as gerais eram ficar em pé, e do outro lado tinha as arquibancadas de madeira que era o pessoal que podia pagar mais. Eu estava na geral. De repente, o Palestra fez o gol. O Palestra fez o gol, e ouve-se um tiro, um rojão. Um mulatão: "Quem foi?" e tirou um revólver desse tamanho: "Quem foi, quem foi?". O cara que fez escapuliu, senão ele seria morto ali. Quer dizer, a violência vem de longe, não é só agora. LAZER Eu lia, não tinha nem rádio, ia ao cinema, gostava de circo, passeava no parque. Televisão não tinha, era o princípio de rádio, não era todo mundo que tinha, era só gente rica que tinha rádio. Tinha que ligar três botões, tinha de ter antena, era difícil. Então, era leitura. Tinha o clube, a gente ia lá pra jogar pingue-pongue. Eu era sócio da Associação dos Comerciários, e ia lá jogar xadrez, gostava muito do xadrez, e isso era o lazer diário. EDUCAÇÃO Estudei no Colégio Batista e, à noite, na Academia Mineira de Comércio. Consegui me formar em Contabilidade, mas nunca exerci a profissão. Do colégio lembro que os dirigentes eram americanos. Um deles era o doutor Jaime Zaley, era uma pessoa fantástica! Tinha internato também, era uma área enorme, parecia uma fazenda, ali na Rua Pouso Alegre. Atrás do colégio tinha muita árvore, a gente arrancava as frutas, jogava-se futebol, basquete, vôlei. Os americanos jogavam tênis, pra mim era novidade. Eu me dava muito bem com todos, eu não falava bem o português, mas o pessoal me entendia com a mímica. REVOLUÇÃO DE 1930 Peguei a Revolução de 1930 em Belo Horizonte, tinha o 12º Regimento, lá no Calafate, eles começavam a atirar contra a polícia, e muitos projéteis foram parar no meio da cidade. No fim, eles se entregaram, mas a revolução foi uma novidade pra mim. De repente, soldados andando com fuzis, metralhadoras e, no fim, a revolução ganhou. Getúlio Vargas ganhou e Minas estava apoiando Getúlio. Conheci muitos políticos e eu me lembro que o vice-presidente da República, Mello Viana, ele era mulato, e a mulher dele, ele morava na Rua Pernambuco, nos fundos tinha um porão em que moravam estudantes, ela alugava. Era vice-presidente da República e a mulher trabalhava pra poder viver, sobreviver! TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO [Primeiro, trabalhei com meu padrasto]. A loja era loja de casimiras. Ele comprava no Rio de Janeiro ou em São Paulo, pendurava com preços, e a gente tinha de atender os fregueses. Era na Avenida Afonso Pena, a principal avenida de Belo Horizonte. O aluguel era muito caro, e as despesas, os impostos. Naquele tempo era mais imposto, existia o imposto vendas mercantis, me lembro, mas ninguém pagava, era questão federal. MUDANÇA PARA SÃO PAULO Vim morar aqui em 1937. Eu tinha uma namorada e consegui vir pra ficar perto dela, que aliás era uma prima, e depois eu larguei esse noivado. Fiz uma pequena loja na Vila Mariana pra vender roupas. Larguei o noivado e em 1941 me casei com a mulher atual. Nessa loja, que era em frente à estação dos bondes, a clientela eram as famílias dos motorneiros e dos cobradores de bonde. Vendia camisas, gravatas, ternos, mantô de senhoras, taillers de senhoras, vestidos. Eu confeccionava sozinho os vestidos. Primeiro, eu comprava uma peça de tecido, então fazia 10, 12 vestidos, todos eram iguais. Resolvi comprar em cortes. Descia a Rua 25 de Março e em vez de comprar uma peça, eu comprava 30, 40, 50 cortes, um diferente do outro. Então, o negócio funcionou melhor. Consegui comprar uma casa, consegui ter um filho, foi indo. SÃO PAULO ANTIGA – RUA 25 DE MARÇO A 25 de Março vendia tecidos e armarinhos e era movimentada também. Começava na Ladeira General Carneiro. No fim da General Carneiro era o [antigo] Mercado Municipal, então dali até o viaduto, não tinha o viaduto ainda, em frente à Secretaria da Fazenda, eram galinhas, ovos, patos, porcos, que o pessoal trazia das fazendas pra vender. Agora está tudo mudado. Estavam construindo o mercado novo, depois demoliram aquilo lá, fizeram uma rua. A General Carneiro, suponhamos, era rua de lojas de ferragens e de louças, de presentes. SÃO PAULO ANTIGA – SANTA IFIGÊNIA E LIBERDADE Santa Ifigênia tem agora eletrônicos, antigamente era modas, porque perto tinha muitas ruas de prostituição e dancings. Então, Santa Ifigênia era lojas de peles, roupas pra senhoras e chapéus. Usava-se muito chapéu, mulher não saía sem chapéu! Outra rua que também tinha modas era a Liberdade. Por que Liberdade? Porque na Rua Rodrigo Silva tinha muitos bordéis, então tinha modas. SÃO PAULO ANTIGA – LARGO SÃO BENTO Largo São Bento era o mercado de empregadas. A maior parte de empregadas eram lituanas, polonesas, russas. Era aquela imigração de após a Primeira Guerra Mundial, que vieram fugindo do comunismo. Os maridos trabalhavam em fábricas, na Mooca, e as mulheres tinham de procurar emprego. Vinham as madames de São Paulo pra procurar e olhavam, combinavam. A gente via isso, não era prostituição, era coisa séria! SÃO PAULO ANTIGA – GUARDA CIVIL Outra coisa que tinha interessante aqui era a guarda civil. Tinha que ter, no mínimo, um metro e oitenta de altura. Uma grande parte também era de estrangeiros. Muitos andavam, na lapela, com as cores das línguas que eles falavam. Então, tinha guarda civil que falava quatro, cinco línguas. Inglês, francês, alemão, russo. Depois degringolou, mas era beleza, eram aqueles altos, fortes, bonitões, todos educados, atendiam bem. Além disso, tinha a guarda noturna. Cada casa, cada família pagava uma mensalidade pra essa guarda noturna. Também não tinha esses assaltos que tem hoje. SÃO PAULO ANTIGA – BARÃO DE ITAPETININGA A Barão era a rua de luxo, de modas, peles, restaurantes, bares. A primeira casa de luxo de vestidos era a Madame Geni, depois veio Madame Rosita, que mudou pra Avenida Paulista e degringolou. CENA ARTÍSTICA Na Praça João Mendes, tinha o Teatro Recreio, e lá eu consegui ver muitas peças de teatro com Manuel Durães. As estrelas daquele tempo eram Procópio, Jaime Costa, Mesquitinha, Odilon de Azevedo, Dulcina de Morais, Oscarito. O Oscarito usava muito o Teatro Cassino Antártica, na Rua Anhangabaú. Tinha um outro teatro, de luxo, que era o Santana. As companhias melhores, não sendo operetas, iam no Santana. Avenida São João era avenida de luxo, cinemas de luxo, não se podia entrar sem gravata. Me lembro que fui uma vez bem vestido, mas sem gravata, me barraram, não podia entrar. Cinema de luxo era o Paramount. Na Rua Consolação também havia dois cinemas, o Odeon, com sala azul e sala vermelha. A sala vermelha era mais luxuosa. Tudo atapetado, tudo bonito! Hoje não se vê mais cinema assim! Mesmo o Metro, me lembro a peça do E o Vento Levou, aquilo encheu semanas e semanas sem parar, aquilo lá, três horas, era uma novidade. Eu me lembro quando veio o cinema sonoro, cada sala tinha seu pequeno conjunto que tocava. Os filmes não eram falados, e a música tocava, a gente olhava. Quando veio o cinema sonoro, eles fizeram protestos, greves, que vão tirar o emprego. FUTEBOL Só uma estação de rádio tinha autorização de irradiar, não tinha televisão. Os jogos eram no Parque Antártica, que era Palestra, agora é Palmeiras. A rádio São Paulo, por intermédio de Aurélio Campos, e Murilo Antunes Alves, que ainda está vivo, eles conseguiram fazer um tipo de torre Eiffel atrás do Estádio do Palmeiras, bem alto. De lá, ninguém podia proibir! De lá [transmitia] o jogo, ficava com binóculo. Era um marco aquilo, interessante, imagina! CIRCOS Eu morava ali na Rua Carlos Petit, na Vila Mariana, perto da caixa d'água, e lá morava Afonso Schmit. Afonso Schmit era um escritor conhecido, poeta, ele andava sempre pensativo, e morava Alcebíades. Alcebíades era um palhaço, tinha um circo muito famoso, e os dois sempre andavam juntos. Um dia, eu me lembro, Afonso Schmit escreveu uma crônica belíssima sobre Alcebíades. Circos tinha o Arrelia, que ficou muito tempo na Praça da Liberdade, era o lugar fixo dele. Até que mandaram embora porque tinha que construir... E tinha Piolim, na Avenida General Olímpio da Silveira, também ficou alguns anos lá. Piolim era o mais famoso palhaço aqui de São Paulo. De São Paulo e do Brasil, praticamente. TEATROS Em 1950, eu fui pra Buenos Aires. E Buenos Aires tinha, mais ou menos, uns 30 teatros funcionando toda noite. São Paulo tinha dois, três. O que funcionava muito era o Teatro Colombo, no Largo da Concórdia. Era da colônia italiana, então vinham aquelas operetas. Foi demolido. Me lembro de operetas, de chanchadas de Oscarito com Violeta Ferraz, a gente morria de dar risada. A gente caía das cadeiras de dar risada. Todo o teatro, sempre lotado, lotado! RUA BOA VISTA Era interessante porque não era rua de bancos. Bancos eram na Rua XV de Novembro. A Boa Vista era de grandes armazéns de tecidos, de portugueses. Português era muito educado, atendia muito bem, e eu me lembro que em diversos estabelecimentos eles tinham suas próprias pensões para receber os clientes que vinham do interior! Do Mato Grosso, de Goiás, de Minas. Ficavam e eram bem tratados, dormiam e tomavam café de graça. Isso funcionou por muitos anos, depois desapareceu! Virou a rua dos bancos. PRAÇA DO CORREIO [Havia] uma grande banca de jornais, recebia jornais do mundo inteiro, inclusive da União Soviética. Comprei jornal da União Soviética em iídiche, até a época de Getúlio. Quando veio a ditadura de Getúlio, aí não podia mais entrar. Quem tinha um jornal daqueles podia ir preso. PREFEITURA ADHEMAR DE BARROS A zona de prostituição era a Rua Amador Bueno e Rua Ipiranga, não era Avenida Ipiranga, era Rua Ipiranga. Ali em volta tinha os dancings, a gente ia lá pra dançar com as moças. Na época do Adhemar, teve que mudar pra fazer a Avenida Ipiranga. Ele mudou a prostituição pro Bom Retiro, Rua Aimorés e Rua Itaboca. A maior parte dos judeus que moravam lá foram pedir pra arranjar outro lugar, mas parece que ele não queria. Era a época de Getúlio, ele colocou todos os interventores, e o Adhemar de Barros era um também. Ele foi contra os judeus, não queria nem receber; era, em princípio, anti-semita. Depois da Segunda Guerra Mundial, depois do Estado de Israel, veio o Begin, Begin é aquele que fez a paz com o Egito, veio o Begin pra São Paulo. O Adhemar de Barros mandou o carro oficial dele com motociclistas, com bandeirinhas, pra receber o Begin. TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO Tive a loja até 1949. Depois entrei na Papelaria Formosa. A especialidade são livros e guias fiscais. Quando eu entrei, já estava especializado. Em frente tinha a Recebedoria Federal e todo toda a cidade ia para pagar imposto, comprar selos. A papelaria era um ponto para vender essas guias e livros fiscais que eram necessários pra Receita Federal. Fui fazer cursos aleatórios de direito, direito comercial, tributos, impostos de consumo, imposto de renda, imposto de vendas e consignaçðes. Em 1971, quando modificaram o imposto de vendas e consignaçðes, me convocaram na Secretaria da Fazenda pra dar uma mãozinha, e eu fui lá trabalhar. Agora, há um caso, caso interessante, na Papelaria Formosa. De repente, todo o aluguel que a pessoa recebia tinha de pagar uma porcentagem pro Banco Nacional de Habitação e tinha uma data marcada para recolhimento. Ninguém tinha as guias, e nós que vendíamos as guias não tínhamos. Fui no representante do BNH, não tinha guias, fui no Banco do Brasil, não tinha guias. Telefonei para o Banco Nacional no Rio de Janeiro, a presidente era a Sandra Cavalcanti. Uma secretária dela me atendeu, e eu disse: "As guias, como é que...?" "Ah, estão na minha mesa!" "Tá na tua mesa, mas precisava estar na minha." "E como é que fazemos?" Falei: "Olha, você vai me fazer um favor: pega as guias, vai até o aeroporto, que era no centro da cidade, Santos Dumont, entrega pro capitão do avião da Vasp, e eu vou esperá-lo." Antes, não tinha avião a cada meia hora, era três, quatro vezes, a gente sabia o horário de chegada. Pedi o nome dela, pedi o endereço, agradeci muito, fui na Kopenhagen, mandei uma caixa de bombons. Não era corrupção, simplesmente era um agradecimento pela gentileza que ela me fez. No dia seguinte, batata: eu fui lá, o capitão do aeroporto me entregou a coisa. Peguei um carro, fui até a nossa gráfica, isso era terça-feira ou quarta-feira. Não tinha computação que nem agora, não era tão fácil de fazer, as gráficas ainda era linotipo. Peguei o tipógrafo, pedi pra ele trabalhar a noite inteira na gráfica. Ele ficou a noite inteira trabalhando, e eu telefonando pra ver se ele não estava dormindo. No dia seguinte começaram a blocar e a imprimir. Na quarta-feira, eu dei anúncio pra sair na quinta-feira, que na sexta-feira ia ter guias na Formosa, porque o prazo pra pagamento estava se aproximando do fim. Na sexta-feira, eu cheguei 7 horas e já tinha uma fila enorme! A fila subia a Avenida São João, entrava na Rua Conselheiro Crispiniano, passava o quartel general do segundo exército. O capitão viu o negócio, não sabia o que era, telefonou pra Secretaria de Segurança, mandaram uns oito, dez guardas, e ficaram tomando conta da fila. Eu pus mais uma caixa pra poder ajudar, e aquele que dava dez cruzeiros, ou dez reais, pro guarda podia furar a fila. Era um negócio vantajoso pros guardas, naquele tempo também. Eu sei que ficou o dia inteiro a fila. À tarde, veio o representante do Estado de S. Paulo me entrevistar, até tenho o recorte no jornal. O mais interessante é que o pessoal do Banco do Brasil chegou: "O que é que o senhor está fazendo?" Falei: "Estou vendendo guias." "Como o senhor está vendendo guias?" "Ora, estou vendendo guias!" E tinha de recolher no Banco do Brasil, não tinha esse negócio de recolher em qualquer banco. "Mas nós não..." Falei: "Olha, no sétimo andar vocês têm guias, vocês têm guichês abertos sem função. Ponham lá gente." Aí foram lá, depois eles voltaram e: "Está cheio de gente lá, o senhor podia nos fornecer as guias?" Falei: "Perfeitamente. Quantas guias?" "Dá 200 blocos". Dei 200 blocos, e eles foram vendendo. Pagaram, e assim funcionou. Na semana seguinte, outras gráficas fizeram. Isso foi praticamente um diploma da minha atividade. Hoje eu não tenho mais esse espírito de competitividade. Outro caso interessante foi que saiu no jornal sobre três livros, livro de exportação: Mercadoria Exportada Diretamente da Fábrica, Mercadoria Exportada por Intermédio de um Revendedor e Mercadoria Exportada por Intermédio de Armazéns Gerais. Eu peguei o Diário Oficial, vi 12 livros e não três. Eu leio todo dia três diários oficiais: Diário Oficial do Estado de São Paulo, Diário Oficial do Município e Diário Oficial da União. Eu tenho de ler, porque saem as principais portarias, decretos que se referem ao meu ramo. Bom, fui lá na Recebedoria Federal para o diretor me explicar. Ele me mandou [pra outro lugar], e o outro pra baixo e vai em cima, vai naquela sala. No fim, no plantão dos fiscais, eu esperei na fila, chegou a minha vez: "O senhor vai me desculpar mas eu não estou entendendo disso. O senhor faça o favor de ir na Rua Formosa, na Papelaria Formosa, procura o senhor Jaime, que ele vai lhe explicar isso aqui." "Muito obrigado". Fui embora, que é que eu vou fazer? PAPELARIA FORMOSA A Papelaria Formosa começou com um italiano, em 1926. Em 1927, ele se engajou na campanha de imprimir coisa pra Aliança Liberal, que era a candidatura de Getúlio Vargas. Depois ele ficou devendo dinheiro, vendeu pro pai do senhor Leon Feffer, hoje o dono da Companhia Suzano de Papel e mais um montão de empresas. Leon Feffer este mês vai fazer 92 anos e ainda está em ativa. A papelaria era do pai dele até 1955, quando ele faleceu. O pai era imigrante que veio pro Brasil da Rússia no princípio do século, e ele vendia material de escritório, no interior, ia pra Goiás, Mato Grosso e tal. Ele me contava que viajava junto com Maurício Klabin, o dono da fábrica, o patriarca dos Klabin. Ele e mais um sírio que tinha uma tecelagem na Lapa, a Tecelagem Iodete. Eles viajavam, alugavam um quarto, ficavam lá juntos e cada um ia trabalhar. FAMÍLIA FEFFER O Maurício Klabin trabalhava com calendários suíços e aceitava serviços gráficos: notas fiscais, papel de carta, envelopes. Ele vinha pra São Paulo, fazia, despachava. O seu Feffer trabalhava com material de escritório: clipes, fitas, todo esse negócio, e vendia. Não era lá grande coisa mas ele se sustentava. Isso foi no princípio do século. Inclusive, um fato pitoresco: ele me contava que em Cuiabá entrou em um bar, sentou, ele e mais um colega dele. Em frente ao balcão tinha um freguês e o balconista. Ao lado dele tinha dois caboclos sentados, e um falando pro outro: "Você aposta quanto?" "Eu aposto 100 mil réis." "De quê?" "Direita." "Não, eu aposto esquerda, direita, esquerda." Aí um tirou um revólver, pá! acertou no cara que estava lá, diz: "Você viu, era a direita, você perdeu" e foi embora. O nome dele era Simpson Feffer, a papelaria ficou pra família. Só que faz uns 30 anos que eles não aparecem lá na firma. PAPELARIA FORMOSA Eu cuido da loja, tem mais uma na Rua Silveira Martins, e tem a gráfica na Rua Sapucaia. Ocupávamos um espaço de 6.800 m2. A área tem uns 50.000 m2, ocupados por dez indústrias. Era da antiga Cosmopolita, uma fábrica de fogões e de aquecedores a gás. Não existe mais, agora pertence a uma companhia lá do Rio Grande do Sul. Eles alugaram, estamos lá com a gráfica. A loja é aqui na Rua Formosa. ATENDIMENTO AO CLIENTE Eu tinha o princípio de atender bem. Muita gente vinha sexta-feira pra poder assistir o jogo de Pelé. É! Incrível! Ele precisava fazer compras, e em vez de vir no meio da semana, vinha na sexta, fazia as compras e ficava aqui pra domingo assistir o jogo do Pelé ou ir pra Santos. Eram inúmeros fregueses, vinham com a família. Eu perguntava: "Onde que você está com sua esposa?" "Ah, estou naquele hotel..." Eu ia almoçar, depois do almoço eu ia na Kopenhagen e comprava uma caixa de bombons, mandava entregar pra senhora dele lá no hotel. Esse freguês nunca mais ia comprar em outro lugar! Até agora eu tenho muitos fregueses assim, filhos de fregueses. Eu convidava pra almoço, combinava com o freguês depois de fechar pra tomar um drinque, conversar sobre os assuntos gerais. Também ajudava na orientação aos clientes. Era uma orientação básica pra ele não ter problemas [na hora de preencher os recibos], não precisava amolar o pessoal das recebedorias. E isso continua até agora. O pessoal lá do balcão atende o freguês, explica direitinho. Eu colaborei muito com o governo. Eliminei muita dor de cabeça lá nos guichês da recebedoria até agora. Um dia eles me reconhecem, porque eu gosto muito do Brasil. O Brasil é um país fantástico, o melhor do mundo, não há preconceito, deixa todo o mundo trabalhar... LAZER Eu gosto de ler, eu gosto de escrever. Tenho um genro que nasceu na Grécia, e ele não sabe grego. Eu traduzi um livreto, distribui mais ou menos uns 3.000 livretos sobre a vida de judeus na Grécia. SONHOS Eu vivo muito bem com minha mulher, meus filhos são fantásticos, são os melhores filhos que eu tenho, não existe igual no mundo... Meu filho está chegando da China de um projeto de fazer uma barragem. Uma coisa fantástica! Ele estava me contando, ficou duas horas em casa, toda a família reunida, deu uma aula de geografia, de história, sobre o Oriente, China, Japão, Cingapura. Ele ficou encantado com Cingapura. A minha maior alegria é estar no Brasil, ver meus filhos, são brasileiros, trabalham, e lutam, e tudo isso. Com essa idade eu não tenho sonho, a não ser viver mais.

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