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História

De geração em geração, produção rural impulsionada com o acesso ao crédito

História de: Luiz Carlos Amaral
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/02/2009

Sinopse

Luiz Carlos Amaral nasceu em Santa Vitória do Palmar (RS). Graduou-se em veterinária na Universidade Federal de Pelotas. Trabalhou em Santa Catarina, na Acaresc, e depois foi para a Emater, em Bagé. Trabalha no suporte a famílias do setor rural, com capacitações, conselhos e em parceria com o Banco do Brasil, apoiando o acesso ao crédito para que possam administrar melhor os negócios.

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História completa

P/1 – Bom dia, Luiz Carlos.

 

R – Bom dia. 

 

P/1 – Eu queria, pra começar, que você dissesse, por favor, o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Bom, meu nome é Luiz Carlos Amaral. Eu sou natural de Santa Vitória do Palmar [Rio Grande do Sul]. E nasci em 11 de junho de 1951.

 

P/1 – O nome dos seus pais, por favor. 

 

R – É José Amaral e (Aladia?) Rodrigues Amaral. 

 

P/1 – O que faziam os seus pais?

 

R – O meu pai, ele era militar, brigadeiro, né? Já falecido. E a minha mãe é do lar.

 

P/1 – Certo. Você conheceu os seus avós?

 

R – Conheci os avós maternos: João Paul Filho e Inácia.

 

P/1 – E os paternos?

 

R – Os paternos não, já eram falecidos. 

 

P/1 – Sabe o nome deles?

 

P/1 – É Pedro Amaral e Isabel Brum Amaral. 

 

P/1 – Você sabe a origem dos seus avós, de onde eles vieram, como é que eles chegaram lá em Palmar?

 

R – Olha, isso aí são coisas que neste período a história não é muito fácil. Mas o que eu soube contado por meu pai, meus tios, o avô paterno, Pedro Amaral, era o seguinte: Santa Vitória é uma região de agropecuaristas, né, e muito distante dos grandes centros do Rio Grande do Sul. Santa Vitória fica mais próxima a Rio Grande, ao porto de Rio Grande, ao redor de 220 quilômetros. Então nesse período os fazendeiros levavam o gado pro abate dos frigoríficos, levavam “tropeando”, como se chamava, né? Então o gado chegava a viajar 12, 15 dias até chegar ao destino. E um fazendeiro grande, né, ele levou um gado dele pra Rio Grande e nesse caminho, vamos dizer assim, como a tropa tinha que parar e pernoitar, existiam pequenos produtores que tinham tipo de um comércio, o gado ficava ali pra água, né, e dava comida pra esse pessoal que tava levando a tropa. E a história que eu sei do meu avô que num povoamento antes de chegar a Rio Grande, que é chamado a Quinta, né, esse senhor, o Amaral, o fazendeiro, ele aportou no local onde tinha um, era um negro velho com bastante filhos e que chegou e disse pra ele assim: “”Bah”, mas olha, eu gostei desse negrinho aí que tá com quatro, cinco anos. Quem sabe tú não dá pra eu pra criar, que eu tenho um filho da mesma idade pra se criar junto”. E como eram gente pobre, né, já embalaram o (meu?), o Pedro e levaram. Então é a história que eu conheço do meu avô. Então Pedro Amaral por quê? Porque naquele período aqui na região da Campanha do Rio Grande do Sul, os empregados eram chamados Fulano da Estância de Tal, então o meu avô era o Pedro dos Amaral, então ficou Amaral, a origem da família vem por aí. E ele se criou muito bem quisto na fazenda, e ele aprende a tocar gaita e é citado até em livros que era um bom gaiteiro. É o que eu sei do Pedro Amaral. E o lado materno, também contado por um tio, né, eu queria saber como é que foi o casamento da Inácia com o João, né? E me contava o tio o seguinte: que em outra região de Santa Vitória tinha uma família dos Dias, né, e que eram fazendeiros abastados também, tinham muita gleba de campo. E tinha determinada região da Estância que ficava muito isolada e eles precisavam botar um “posteiro”, o que que é um “posteiro”? É aquele peão que fica afastado das lida, mas fica cuidando, vamos dizer assim, as cercanias do campo. E certo dia, foi o capataz lá do seu Dias chegou e disse: “Olha, nós precisamos botar gente em determinado lugar porque estão roubando muito”, disse: “Pra lá ninguém quer ir” e aí disse que pensaram: “Não, mas tem o Firoca”, que era um negro também velho já, né, “O Firoca já não tá dando muito pras lidas, quem sabe nós botamos lá”. “Ah, mas ele não vai querer ir”. Ele disse: “Não, vai ali na vila que o fulano tem uma negrinha bonita e dá um jeito de casar, dá essa guria pro Firoca que ele vai ir”. Disse que o Firoca foi muito faceiro, então esse seria o meu bisavô, aliás, o avô, o tataravô. Daí nasceu a Leopolda, vamos dizer assim, que foi o Firoca e Leopolda deram origem a Inácia que é a minha avó. São histórias de boca, né, que é o mais, o mais distante que eu consegui saber. 

 

P/1 – São boas histórias, não tenha dúvida. Vem cá, você tem irmãos?

 

R – Eu sou filho único. 

 

P/1 – Ah certo. Filho único é meio complicado ou descomplicado?

 

R – Pois é, mas sabe que geralmente dizem que é complicado, mas eu me criei lá em Santa Vitória, num bairro, na região de pessoas fantásticas que eu me considero filho de todos lá. Então me criei com gente, com amigos que eram como irmãos. A gente sempre tem um pouco de carência, vamos dizer assim, e isso me fez fazer amigos. Eu acho que pra mim não foi complicação. 

 

P/1 – Como é que era essa cidade da sua infância, Santa Vitória?

 

R – Santa Vitória do Palmar, ela é um extremo, é o extremo sul do Brasil, né? Por exemplo, Chuí que é o extremo sul do Brasil é uma vila que pertencia a Santa Vitória do Palmar, há pouco tempo emancipado agora. E nessa região aqui, o Brasil, praticamente, no extremo sul era o porto de Rio Grande e depois nós tínhamos o Uruguai, e como em determinados períodos existiam muita guerra, rusgas, deveria ter um espaço de terra que não fosse de ninguém, então eram os chamados campos neutrais. 

 

P/1 – Neutrais?

 

R – É, campos neutrais. Então ia de Rio Grande até o extremo do Uruguai. E os portugueses depois foram anexando, e nessa extremidade surgiu a cidade de Santa Vitória do Palmar. Então ela é muito distante. Hoje, felizmente, a linha rodoviária muito boa, mas antigamente eram regiões de banhados onde o pessoal pra sair pra Rio Grande, Pelotas, às vezes tinha que ir pela praia, né, litorâneo ali. E Santa Vitória se criou. A economia dela hoje é a pecuária, o arroz, né, de grande importância e uma cidade pequena ao redor de 40 mil habitantes. 

 

P/1 – Mas a cidade da sua infância, como é que ela era, a cidadezinha?

 

R – Bom, Santa Vitória era isso, né? Eu me criei, estudei ali em Santa Vitória. O que tinha de gostoso, vamos dizer assim, chegava a época de verão a gente ia pra praia, se veraneava, tem dois balneários, até um famoso, Hermenegildo, você deve ter visto falar da maré vermelha, né, no Balneário de Hermenegildo, da Barra do Chuí, né? A minha mãe trabalhava como, trabalhava de cozinheira de famílias mais abastadas, então eu desde de novo veraneando lá. Depois veio o estudo, claro, eu fiz o primeiro e segundo grau em Santa Vitória e resolvi tirar veterinária, fui estudar em Pelotas depois, né? Então essa pergunta, a cidade da minha infância é muito gostosa, a cidade de interior aqui do Rio Grande do Sul, um convívio muito grande com o Uruguai, né? Jogar futebol, baile, estas eram as coisas da juventude. 

 

P/1 – Certo. E como que era a sua casa? Você pode descrever a sua casa?

 

R – Bom, a casa é como é até hoje, nós moramos na zona urbana, centro de Santa Vitória. É uma casa que tem uma área de pátio bastante grande, são 80 metros de fundo, né, então me criei com arvoredos, parrerais, fruta, né? O meu pai gostava muito de fazer horta e galinha, né? E a casa em si, uma casa modesta, vamos dizer, onde o meu quarto, o quarto dos meus pais, sala, corredor, cozinha, né? E antigamente a água era uma cacimba, um poço onde se tirava a água, hoje já é água canalizada, vamos dizer assim, na evolução. Mas é muito gostosa. A minha mãe ela é muito de modificar as coisas, ela acha: “Bom, essa peça tem que passar, trocar”, então a casa hoje tá um pouco mudada, mas é sempre. Depois eu me casei, né, netos dela, vamos dizer assim, tem mais cômodos, tem mais quartos é isso aí. 

 

P/1 – Você tá numa, quer dizer, nasceu e foi criado numa região que é um bioma muito especial que é Pampa, né?

 

R – Perfeito. 

 

P/1 – Embora com características diferenciadas, ali muita água perto do mar. Se eu te pedisse uma descrição do Pampa o que você diria? Como é que você conseguiria definir esse bioma?

 

R – Bom, eu creio que o bioma Pampa, ele tem uma natureza, uma extensão muito grande de qualidade de campo, qualidade isso pra exploração do gado, diversas espécies de gramíneas, de leguminosas que são a qualidade da comida do Pampa. Então vindo pra, olhando pra essa questão de exploração é uma zona muito rica e nobre, com boa distribuição de água, com uma flora e fauna extrema de nossos banhados, nossas encostas de serras que nós temos aqui, tudo isso eu vejo inserido no bioma Pampa. Ele é um pouco desprovido até de árvores, apenas matas ciliares que circundam os rios, vamos dizer assim, né? No bioma Pampa se nós colocarmos assim em direção a Jaguarão, Santa Vitória, nós temos duas lagoas bem volumosas, bem piscosas vamos dizer assim. E o bioma Pampa de Santa Vitória do Palmar é essa caracterização desse campo de boa qualidade, e aqueles mais próximos ao mar também uma vegetação litorânea, né, e é uma planície, Santa Vitória é uma planície, está a seis metros acima do nível do mar, né? E basicamente pra quem não conhece, parece um pouco desertificado, não tem muito arvoredo, mas é uma região muito saudável. E inserido aí uma população, né, que se caracteriza por origem de portugueses, espanhóis e o índio, né? Algum afluxo de negro também, na época da escravidão, as fazendas, né, tinham esse tipo de mão-de-obra. E é o que caracterizou o inicialmente essa nossa Pampa. 

 

P/1 – Vamos falar da sua escola. A sua primeira escola, como é que chamava?

 

R – Primeira escola: Escola Tiradentes, era uma escola particular, né, me traz muita boa recordação da professora Iná Ricardo, era uma professora que marcou época em Santa Vitória, a sua escola pela dedicação como pessoa. E a minha primeira professora mesmo é uma professora que trabalhava com a professora Iná, professora Titã. Então eu tenho assim as recordações maravilhosas dela. 

 

P/1 – Por exemplo?

 

R – Era uma escola, vamos dizer assim, que a dedicação pelos alunos a preocupação não era simplesmente o aprendizado de você se educar, ler. Eles tinham uma relação assim de acompanhar a vida familiar da gente, né? Era uma época de muito respeito, tinha que andar certinho porque o professor chamava os pais para qualquer coisa: “Não tá estudando, tá fazendo bagunça”, mas isso denotava um carinho muito grande, né? E isso me guarda muito dessas primeiras. Depois eu fui pro ginásio, como dizia lá, né, o ginásio de Santa Vitória onde tirei o segundo grau, o científico, né? Eu fui a primeira turma do científico em Santa Vitória do Palmar, saímos em 1970, né? E isso aí possibilitou, vamos dizer assim, que muitas pessoas de condições pobre, ou até mesmo de classe média pequena. Se estudava até o ginásio e depois não tinha o que fazer, tinha uma escola pra professores. Então com a ida do científico, a nossa primeira já formou médicos, engenheiros, odontólogos, veterinários, da minha turma nós formamos dois veterinários. E isso trouxe pra Santa Vitória, 1970. E a faculdade eu me formei, em 1974, na Universidade Federal de Pelotas. 

 

P/1 – Certo. Eu queria voltar um pouquinho pra trás ainda sobre essa tua primeira infância, juventude, adolescência. Como é que vocês se divertiam, o que tinha de bom pra fazer em Santa Vitória com o seu grupo de amigos?

 

R – Bom, então você tinha, de acordo com o seu bairro, você tinha aqueles grupos de amigos, basicamente: futebol, quem tinha aptidão pro futebol mandava. Ali todos os fins de semana, torneio, a gente saía da escola, ia treinar, como se diz. Tanto futebol de campo como futebol de salão, essa era a maior diversão. Eu vejo o pessoal que tinha, vamos dizer assim, ligado a campo também aquelas lides do campo era muito: andar a cavalo, festa, época de castração de terneiro, sempre gerava assunto pra uma festa. E quando a gente vai se tornando mais adolescente, a época do namoro, vamos dizer assim, era aqueles clubes sociais onde tinha baile toda, no mínimo a cada 15 dias, época de férias era toda semana, né? E aí você ia formando os grupos, né? Essa era diversão, alguém, vamos dizer assim, tinha, já começava as aptidões: um músico começava a gostar de aprender a tocar, né? Mas basicamente eu diria que a festa do dia-a-dia da gente era esporte, tanto pra as meninas, o vôlei, né, basquete, essa coisa, não era muito comum, mas a vôlei pra menina e futebol pro rapaz.

 

P/1 – Santa Vitória tem assim festas tradicionais da cidade?

 

R – Tinha a festa do arroz, é muito tradicional. E depois aqueles, vamos dizer, festas nacionais que chega a época do natal, todo mundo. Há uma religiosidade que inclusive é uma corruptela, assim as pessoas: “Ah, tá chegando as festas dos finados, né?” No período de finados quando o pessoal do interior ia pra cidade, né, claro reverenciar os seus mortos, mas era o momento de se encontrar e tal, também era um movimento. E na região da campanha toda é o evento muito grande as exposições, né, de animais que é tradicional em Santa Vitória, eu não poderia, não tenho a data, mas provavelmente desde 1940 já existiam as exposições de animais que ficava uma semana de festas, quando todos os tipos de animais que se produziam na região, né, o cavalo, o gado, a ovelha, a galinha, né? Também isso é um evento das nossas cidades, lá em Santa Vitória era tradicional isso. 

 

P/1 – E o garoto Luiz Carlos sempre se metendo nesses?

 

R – Na volta ali, né?

 

P/1 – De onde é que veio essa sua vocação pra veterinária, quando você descobriu isso?

 

R – Interessante. Quando a gente, no científico, no terceiro ano que ia concluir, você deveria se dirigir pra área de ciências exatas, pra matemática ou pra biologia e eu fiquei indeciso. Eu não era bom de matemática, mas eu digo: “Não, eu vou pra área da matemática” e fiquei três, quatro dias e o professor passou uns problemas lá pra resolver eu digo: “Mas, eu não, essa matemática aqui não é minha área, pensando em engenheiro e tal, sem definição”. E fui, pensei e disse: “Mas quem sabe eu não vou fazer odontologia”. E o diretor do ginásio era o doutor Jamil Pereira que era odontólogo e eu cheguei e disse: “Olha, doutor Jamil, eu tô numa encruzilhada aqui, achei que ia pra ciências exatas e acho que tem que passar pra biologia, não tô me achando. E tô pensando em ser dentista, o que o senhor me diz?” “Olha, dentista tem bastante, mas tú vem de uma família pobre, sabe como é, tu vai ter que te formar e o empreendimento é enorme pra tú fazer o teu consultório, tem outras profissões aí que estão surgindo, por exemplo, veterinária, profissão do futuro, quem sabe tú não vai pra veterinária”. E eu naquela indecisão: “Então eu vou pra veterinária”. E hoje agradeço ele porque essa profissão eu amo, eu acho que se vier na terra umas 50 vezes eu vou batalhar pra ser veterinário, né? Mas surgiu assim no acaso. 

 

P/1 – Tá certo. E aí a decisão de sair da cidade porque pra estudar em Pelotas?

 

R – É porque não tem faculdade, não tinha faculdade em Santa Vitória, né?

 

P/1 – E como é que esse garoto que foi criado, nascido ali, mudou de cidade? Como é que foi essa mudança?

 

R – É, nós fizemos vestibular, quatro amigos ali da região, né, então pra veterinária fui eu e outro colega, tinha outro que tava fazendo medicina. Então o pai, o meu pai, vamos dizer assim, “Não, vocês vão cansado, vamos alugar uma casa, né?” E aquelas chatôs de estudantes, como se diz, né? Então nós sempre morávamos numa república de quatro ou cinco, e isso dá um aprendizado enorme. Eu até lá eu não passava um café, então não sabia fazer nenhuma comida, não tinha especialidade, tudo é a mãe, né, que dava certinho. Aí quando chegou, nós fomos, formamos este chatô, éramos entre cinco, né? Eu digo: “Bom, agora cada um vai ter que fazer uma coisa.” Não tinha dinheiro pra poder pagar empregada, simplesmente a empregada vinha uma vez por semana pra desentulhar tudo que tava sujo, né? A nossa roupa tudo nós lavávamos e disse “Bom, cada um cozinha um dia”, eu digo “Mas eu não sei cozinhar” “Então não tem problema, então tu lava o prato”. Então a limpeza tudo era comigo, né, e eu digo: “Pô”, aí o Zé Ribeiro hoje, que é um médico de Santa Vitória, eu digo: “Tio Zé, eu vou ter que aprender a cozinhar contigo porque esse negócio de lavar prato, todo mundo vai deitar e eu fico aqui”. e foi uma coisa gostosa, né, que no chatô a gente tinha esse convívio, principalmente pra quem é filho único, né? Então você vai ter aquela convivência, a gente discute os problemas e tal, então foi, passou a época da faculdade muito gostosa com isso aí. 

 

P/1 – E como era a cidade de Pelotas nesse teu tempo de estudos?

 

R – Bom, eu saí de Santa Vitória teria mais ou menos, na época, em torno de 25 mil pra chegar em Pelotas que já deveria ter 80, 90 mil habitantes, né, aquilo foi deslumbrante. E é uma cidade muito boa de morar, né? Também foi um aprendizado, passou e marcou a parte da minha juventude, né, fase gostosa de ter vivido ali em Pelotas.

 

P/1 – E a faculdade?

 

R – A faculdade foi boa, foi boa, como eu digo, felizmente eu me encontrei, né? O aprendizado tudo novo, cada ano que ia passando eu sentindo que realmente era uma boa profissão, um interesse, né, de cunho humano porque você como veterinário, mas você é aquele que trata dos animais e cura os bichinhos, mas a veterinária tem uma amplitude de saúde pública, né? E ela foi muito gostosa, passei, né, eu me saí bem na faculdade, né?

 

P/1 – E quando você começou a trabalhar, o seu primeiro emprego qual foi?

 

R – Então 1974 eu me formei, em dezembro, né? Eu voltei pra Santa Vitória e ali o emprego era trabalhar numa cooperativa, ou tinha outros colegas, o Bercílio e o Marcos Rota, né, tinha uma clínica de pequenos e grandes animais e eu fiquei um período com ele ali, com eles, né, ajudando mas aí eu senti que tipo: “Não sei, santo da casa não vai fazer milagre, né?” E tinha um santavitorense que trabalhava no Ministério, um agrônomo, no Ministério em Florianópolis, em Santa Catarina, e no período de verão ele chegou lá e estava estagiando na clínica eu e o Ronaldo, que era um colega, e disse: “Não, mas vocês não vão ficar aqui, vamos pra Santa Catarina que eu levo vocês lá, nós arrumamos emprego”. E nós, já quando terminou as férias, nos levou. Chegamos lá fizemos um, fomos no Ministério da Agricultura, na Secretaria e procuramos. Dentro de uma semana, nós fomos na Acaresc [Associação de Crédito e Assistência Rural do Estado de Santa Catarina] que era o Serviço de Extensão ali de Santa Catarina e chegamos e disse: “Olha, vocês estão com sorte porque nós contratamos veterinários e teve um que não apareceu então tá uma vaga em aberto”. Aí disse: “Bom, dos dois eu vou ter que escolher”, então fez uma entrevista entre eu e o meu colega, né, e creio que nós saímos parelhos os dois, mas durante a faculdade eu fui monitor de parasitologia, então fizeram umas perguntas, né, se eu tinha algum conhecimento em parasitologia, eu digo: “Bom, aqui tá no meu chão, né?” É de suinocultura, o que poderia fazer tal. E nessa, eu creio que por isso eles escolheram e ficaram comigo, né? E o outro colega, depois ele em seguida arrumou emprego e continua lá no Ministério. Mas aí eu entrei, então, começando, fui extensionista inicialmente lá na Acaresc em Santa Catarina. Aí, daquela planície de Santa Vitória eu fui trabalhar no oeste de Santa Catarina, região montanhosa, eu tomava café e ficava mal, lá tudo era diferente: a partir disso, café da manhã não tem, né, até hoje continua assim. 

 

P/1 – Por quê?

 

R – Não sei, eu ficava enjoado, entrava no carro aquele sobe e desce e tal, pra mim era um terror, né? E ficou essa marca, até hoje dificilmente eu tomo, um suco apenas e tal. 

 

P/1 – Que cidade você foi ficar baseado?

 

R – Eu, porque Acaresc dava um estágio muito interessante: primeiro pra que o extensionista conhecesse os nichos regionais, né, então eu iniciei em Campos Novos, e estagiei a maioria do tempo em Concórdia no Oeste. Depois eu deveria iniciar trabalhando com suinocultura e quando cheguei em Florianópolis pra ser indicado “Olha, nós vamos precisar de um veterinário pra gado de leite, então você vai ter que voltar a fazer estágio”. Aí eu fui pra, estive em Blumenau, né, em Lages, naquela região toda. E eu, se ficasse suinocultura, eu ficaria trabalhando no oeste, bem longe de casa, e com essa troca foi mais gostoso porque eu fiz o estágio e vim trabalhar em Criciúma, bem no sul de Santa Catarina, né, que ficava próximo. E desse período aí continuo leiteiro até hoje, né?

 

P/1 – E sempre vivendo sozinho nesse período todo?

 

R – Nesse período lá em Santa Catarina eu já era casado, mas eu fiquei dois anos, né, e a minha esposa ficou em Santa Vitória, né? Depois quando eu vim pro sul, que aí lá em Santa Catarina tava muito bom o trabalho, mas eu queria tá mais próximo e fiz o concurso na Ascar [Associação Sulina de Crédito e Assistência Rural], que hoje é Emater [Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural], unificada no Brasil todo, né? Mas da Acaresc, eu vim pra Ascar, estagiei em Pelotas e me mandaram pra Bagé. Então aí que a família mesmo a gente conviveu. 

 

P/1 – Conta um pouquinho mais sobre esse seu período lá no Oeste de Santa Catarina, qual que eram as demandas mais imediatas? O que você tinha que atender com mais ênfase lá nessa região?

 

R – Bom, em 1975, né, Santa Catarina, ali aquele sul tinha ali uma enchente muito grande de 1974, onde famílias foram levadas pela água, e deixou o pessoal, vamos dizer assim, animais, foi uma enchente muito violenta. Então nesse período de 1975, o crédito rural era muito aplicado para a reconstrução, o pessoal precisava, queria adquirir animais, fazer estruturas todas, né? E eu iniciei nesse período do toca e toca de crédito, eu era o veterinário que atendia praticamente dez escritórios, porque o escritório, a base era o agrônomo, uma extensionista, um técnico agrícola, né, e veterinários eram poucos na Acaresc, nós éramos, a profissão de médico veterinário, nesse período estava iniciando na extensão rural. E isso me fazia viajar, né, e sempre nessa parte de assistência, de orientação. Embora no sul eu trabalhava com gado de leite, e também com suinocultura, né? Nós fazíamos projeto de crédito, eu andava correndo, então era bem intensa a atividade.

 

P/1 – Um detalhe técnico, como é que a gente poderia definir o extensionista? O que é um extensionista?

 

R – Um extensionista. Bom, eu sempre gosto de citar é um conceito antigo de extensão, né? O que que faz a extensão rural, né? Ela busca levar orientações em que faça com que tenha o bem estar do produtor rural e sua família, e objetivando economicidade ao seu sistema de produção. Então você trabalha com a família, né? É a organização, a extensão chega numa determinada propriedade, além de você ver a parte econômica, como é que tá a tecnologia empregada pra esse produtor, como é que ele tá fazendo as observações de economicidade, se ele tem noção, se deve de economizar em determinada, né? E também a gente entra na sua família, né, os filhos que ele tem. Isso o extensionista eu digo assim: é como um sacerdócio, você, o que é mais gostoso, você não entra muitas vezes como técnico, você tem que entrar como um amigo nessa família, né, nessa comunidade, né? E tem que ter a credibilidade de dizer que você tá ali à disposição pra trabalhar esse pessoal. Essa é a extensão.

 

P/1 – Quer dizer, tem um componente de confiança nessa relação, né?

 

R – Exatamente, perfeitamente. 

 

P/1 – Importante, sem isso não vai.

 

R – Não tem. E é muito gostoso eu digo sempre, é uma troca, você vai ali pra ensinar determinada tecnologia e no convívio, no dia-a-dia da vida você tá aprendendo também com esses produtores, né, com essas famílias.

 

P/1 – E levando essa experiência adiante também, né?

 

R – Perfeitamente. 

 

P/1 – E essa tua mudança pro gado de leite, quer dizer, ela acontece em Santa Catarina e te faz vir pro Rio Grande do Sul de volta? Como é que foi essa trajetória?

 

R – Então quando eu cheguei na Ascar, fiz o concurso e passei. “Você tem alguma experiência?”, digo: “Tenho experiência de gado leiteiro em Santa Catarina”, já foi um bom ano de capri porque a Ascar, ela tinha contratado um veterinário em questão de dois anos que nós chegamos lá, né, e eles acharam o trabalho até do colega Diogo Guerra, foi muito interessante, vamos dizer assim, a atuação do agrônomo e do veterinário e eles nesse ano então fizeram a contratação de mais dez técnicos. Então nós chegamos na extensão do Rio Grande do Sul com o veterinário, eu fui um dos primeiros, então a extensão tava definindo que tipo de serviço que o veterinário poderia fazer. Existia o medo, por exemplo, “Ah, o veterinário vai ficar fazendo clínica, cirurgia, não é pra isso, é pra um fomento maior” e esse aprendizado a gente teve que, foi junto com a organização, né? E hoje a Emater emprega, tem uma amplitude maior, tem zootecnistas, além do agrônomo e a extensionista que era a base assim, chegou o veterinário, tem o zootecnista, o engenheiro florestal, né, hoje é mais amplo a atividade da Emater.

 

P/1 – Aí já se constrói um atendimento mais integrado, mais...

 

R – Exatamente. 

 

P/1 – Entendi. 

 

R – E além dessa parte da família, que a extensão também ela é um elo de determinado município de trabalhar com a prefeitura que é quem contrata a Emater, né, e aqueles órgãos afins, similares, Bagé, por exemplo, nós temos uma estação experimental da Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária], da pesquisa, né? Mas em outros municípios não têm. Então o extensionista é todo aquele segmento que estiverem afim em prol do produtor rural. A Emater fica como um elo de parceria, é a cooperativa, é o sindicato, né, são as escolas rurais. A gente entra sempre pra cumprir aquele objetivo: o bem estar e a economicidade do produtor rural. 

 

P/1 – Funciona como uma espécie de animadora dessa relação.

 

R – Perfeitamente, perfeitamente. 

 

P/1 – Pra, só pra gente definir umas coisas aqui: Ascar quer dizer o que? É um órgão estadual, né?

 

R – É Associação Sulina de Crédito e Assistência Rural. Com o governo Collor ele unificou o serviço de extensão, né, na Embrater [Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural] que era, que coordenava todos os serviços de extensão rural nos estados, né, que foram surgindo então trocou de nome, era Acaresc em Santa Catarina, a Acarpa [Associação de Crédito e Assistência do Paraná] no Paraná, Ascar no Rio Grande do Sul, hoje são as Emateres: Emater Rio Grande do Sul, parece que Santa Catarina eu não sei se hoje existe Emater ou é apenas estadual, mas houve uma unificação, né, pra esse procedimento.

 

P/1 – E a sigla Emater significa?

 

R – É, são Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural. 

 

P/1 – Perfeito. E aqui no Rio Grande do Sul a gente tem uma relação Ascar Emater, é esse o formato da...

 

R – É, a Ascar, vamos dizer assim, ela foi englobada pela Emater, mas ainda ela tem, é por questões não sei se de patrimônio, né, a Ascar ainda existe, né? 

 

P/1 – Certo, certo. Agora, porque tem a idéia de se Ascar, Emater parece uma sigla quase que comum, né? E quando você começou, quando você voltou pra cá, você voltou pra Santa Vitória ou foi pra outra localidade do Estado?

 

R – Eu voltei do estágio probatório, eu estive em Arroz do Meio e, depois, Pelotas, né? Cumprido isso eu fui indicado, aí fui indicado aqui pra Bagé, aí eu já vim com a família.

 

P/1 – Isso foi quando?

 

R – 1976, 13 de junho de 1976. 

 

P/1 – O que você encontrou quando você chegou aqui?

 

R – Olha, eu já sabia, vamos dizer assim, Bagé é uma cidade por excelência de agropecuária, de qualidade, de rebanhos, né? E até tenho uma coisa pitoresca que seria interessante: quando eu fui me despedir lá na Acaresc, o meu supervisor, o Asthor Gruma, ele chegou e disse: “Mas, Amaral, tu tá tão bem aqui, o pessoal tá te querendo, tu vai voltar pro Rio Grande do Sul, lá a concorrência de veterinário é muito pior, tu já pensou se te mandam pra Bagé, lá tem mais de cem veterinários, tem a Embrapa, tem o Nilo Romero do Voisin. eu digo: “Olha, se for, vamos ter que ir”. Não é que me mandam pra Bagé, eu conheci o doutor Nilo que é uma pessoa, Nilo Romero do Voisin que é uma pessoa que eu tenho uma admiração enorme como profissional, um bom convívio com a Embrapa e as coisas é assim, né? Então eu encontrei isso, encontrei uma Bagé que era colonial também, você tinha, né, a imigração de alemães pra cá, e onde tinha um gado leiteiro, tem um gado leiteiro de excelência pra região e me valeu essa experiência que eu tinha lá em Santa Catarina pra iniciar, ficar 32 anos aqui, né?

 

P/1 – Certo. Mas nessa sua época não era o gado de corte que era o preponderante aqui?

 

R – Não, e ainda continua, mas a Emater tinha na sua equipe profissionais pra gado de corte, pro setor de hortigranjeiros, como tem hoje, né, pra a cultura de sorvo e milho, né? E também a equipe de gado de leite que foi constituída inicialmente por dois agrônomos e eu como veterinário. 

 

P/1 – Perfeito [pausa]. Então, Luiz Carlos, chegando a Bagé quais foram as grandes dificuldades que você encontrou? Ou qual foi a maior dificuldade que você encontrou aqui, se é que houve alguma?

 

R – Olha, já é uma região da Campanha, sinceramente eu não defino assim uma dificuldade, é colegas maravilhosos, a Emater já tinha um bom nome, né? Então eu fui apresentado e sempre requisitado o serviço da Emater e flui juntamente, eu praticamente não tenho, assim, uma coisa que me ocorra e que houve uma dificuldade.

 

P/1 – Teu principal desafio, tua principal, enfim, teu trabalho mais importante aqui naquele momento?

 

R – Naquele momento, por exemplo, continuava a aplicação de muito crédito, né? E o que que tinha aqui no setor leiteiro que eu vim dirigir, nós tínhamos uma cooperativa que tinha ao redor de 40 produtores que essa zona colonial estava na produção de leite, né? Então quando houve esse crédito a Camal, Cooperativa Agrícola Mista Aceguá Ltda., que era quem recebia o leite.

 

P/1 – Seguá?

 

R – É, Cooperativa Agrícola, Camal, Cooperativa Agrícola Mista Aceguá Ltda. 

 

P/1 – Aceguá?

 

R – É, porque a Colônia Nova ficava no distrito de Aceguá que hoje é o município de Aceguá, né? Então a Camal, ela estava fazendo o fomento muito grande de aumentar a produção de leite, e quando veio esse crédito subsidiado o pessoal achou interessante. E pra você ter uma idéia, quando nós começamos a aplicar os créditos que estavam em 1975, eu cheguei em 1976, tava em plena etapa de fazer esse investimento em crédito. A Camal, ela durante uns três anos, ela duplicou a sua capacidade de recebimento de leite, era de dois milhões de litro por ano, passou pra quatro, de quatro pra seis, né, e até que ficou num patamar muitos anos ao redor de 15 milhões de litros. O que que aconteceu nisso aí? Entraram mais produtores pro setor, e esse crédito possibilitou o incremento de novas tecnologias, né, que faziam uma maior rentabilidade pra esse produtor. Nós introduzimos juntamente com a pesquisa, né, o uso da silagem, que é a alimentação pro gado, nós íamos no Uruguai e importamos ao redor de quatro mil ventres de boa qualidade, e eu como técnico estava inserido aí. Ia no Uruguai, juntamente com os produtores, pra escolher gado, né? E essa estrutura, vamos dizer assim, o pessoal tava iniciando muito no gado de leite, então era muita inovação, era muita tecnologia e a Embrapa e a Emater entrou muito ativo nesse setor. Esse foi meu início em Bagé. 

 

P/1 – Certo. Foi um início luminoso, né, pelo jeito porque pegou o barco...

 

R – O barco andando...

 

P/1 - ... não, e saindo, né, zarpando.

 

R – Exatamente.

 

P/1 – Perfeito. Defina pra gente como é que é o trabalho da Emater, o que ela significa a presença dela nessa vida aí da produção rural, agropecuária. Como é que é o papel? Que papel ela desempenha em tudo isso?

 

R – Bom, pra que haja a Emater no município, né, você, a prefeitura convenia, né, ela coloca os técnicos a disposição pra todos os setores que o município tenha, né? Então, geralmente, as prefeituras juntamente com as suas secretarias de agropecuária elas têm um parceiro na Emater. E aqui na região, como eu digo, esse setor de leite, né, nós entramos com toda essa tecnologia. Depois, já nos anos 1980, começou a migrar pra cá também assentamentos, né, que hoje do MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra], vamos dizer assim. se nós pegarmos Bagé, Hulha Negra, Candiota e Aceguá esse três municípios se emanciparam de Bagé, então é o Bagé antigo. Aqui aportaram aproximadamente quase quatro mil famílias de assentados, então esse pessoal eles chegam de outras regiões pra fazer, reiniciar a sua vida e a Emater está sempre integrada: é o crédito, é o projeto, é assistência, né? E também com aqueles setores mais tradicionais da pecuária de corte, aqui na região de Bagé, Palmas, produtores da pecuária familiar que nós chamamos são de anos naquele estabelecimento e que a atividade da Emater está presente nas comunidades, tanto nas inovações como na manutenção.  E é muito interessante hoje, você, o setor primário ele tem que ser muito estudado, ele tem que ser muito, os investimentos, né, tem que ser cautelosos pra que realmente o produtor possa tirar aquilo que a gente propõe: que ele tenha o bem estar, que ele possa ter uma renda satisfatória. E é função nossa, junto com a pesquisa, né, tá sempre com dados, com situações de manipular de realmente orientar esse produtor, isso é que faz com que a extensão, né, ela seja, hoje nós estejamos quase que em 100% dos municípios do Rio Grande do Sul. 

 

P/1 – E a iniciativa do contato com o produtor é sempre da Emater, ou ela tem algum mecanismo de atração desses produtores pra que esses projetos se construam?

 

R – O produtor procura muito a Emater, parte deles às vezes porque um vizinho que falou, porque ele ouviu no rádio. Mas nós também, dessas análises de estudo de situações de determinadas regiões do interior, né, você, o nosso, por exemplo, temos uma atividade que nós chamamos: “Leitura da Paisagem”, o que a “Leitura da Paisagem”? É ver o município com as suas regiões e as suas características da área da exploração do ambiente rural. Então nessa leitura da paisagem você diz que a localidade X se caracteriza por essa topografia, por esse tipo de gente, por esse tipo de exploração, as suas necessidades maiores são essas, as suas virtudes são estas, né? E com este estudo você vai chegando a começar a ter uma atividade em determinadas regiões, então aí o poder público vai até a localidade e começa a atuar, entender aquela situação, né, e procurar melhorias que seja. Principalmente o crédito, muitas vezes, é uma coisa que o produtor vê, ouve na rádio, vê na televisão, né, mas onde que ele vai se orientar? Às vezes vai na agência bancária, muitas vezes ele vem direto na Emater, ou no seu sindicato, e aí começa essa ser pró-ativo, assim como a começar esse tipo de assistência, né? E ela não tem tempo de terminar, eu dizia agora pra sua colega a fotógrafa quando nós estávamos ali, eu digo: “Olha”, levei ela no estabelecimento pra nós fazermos umas tomadas externas, eu digo: “Esse produtor é jovem, que eu já tô na segunda geração de atuação, eu iniciei o trabalho com o pai dele”. Esse tempo eu tava dando um curso de nutrição numa determinada localidade, chegou o rapazinho pequeno eu digo: “Tu deve ser da família tal” e ele disse: “É, pois é” eu digo: “Pois é, eu já tô na terceira geração da tua família”. Eu dei um curso em Mirassol pra avó dele, né, então isso fica gostoso e essa vai, a extensão chega num estabelecimento e ela pode se perpetuar, ou de repente, né, o produtor já conseguiu fazer uma coisa, você para, né?

 

P/1 – E a relação da Emater com o Fundap [Fundação do Desenvolvimento Administrativo], com o Pronaf [Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar]? Perdão.

 

R – Com o Pronaf, a Emater que aplica o Pronaf, né, nas regiões, é o dinheiro do governo, né, em que a parte técnica de aplicação é feita. A Emater é o órgão de extensão rural oficial, né? Porque tem cooperativas que fazem a extensão rural, né, e a Emater principalmente. 

 

P/1 – E como é o processo de identificação desses projetos, identificação do melhor projeto pra melhor localidade, pro melhor perfil do produtor, como isso se dá?

 

R – Bom,  o Pronaf em si, ele tem que primeiro, tem que cadastrar, ver se esse produtor ele está inserido que ele tenha condições de acessar o Pronaf. Que são créditos subsidiados, né, então realmente pega aquelas propriedades em que tenham realmente necessidades, que o governo possa dar, aplicar esse dinheiro subsidiado: o tamanho da propriedade, a renda do produtor. Então isso tem uma consulta inicial, né, que é feita pelo sindicatos, aqui na região principalmente sindicatos de trabalhadores rurais, o produtor vai lá e o sindicato nos traz a característica: “Olha, esse produtor tá apto a acessar o Pronaf, né?” Ele vem com um documento que é a carta de aptidão, aí ele senta e o produtor, ele vai dizer qual é a atividade que ele faz e o que ele está pretendendo de acessar esse crédito pra melhor o quê. E aí entra o início, vamos dizer assim, de você estudar, aconselhar o produtor porque de repente ele chega e diz: “Olha, eu gostaria de comprar tantos animais”, “Tá, muito bem, mas você tem comida pra esses animais? Será que não é necessário fazer uma pastagem? Como é que tá a disposição de água? Você não quer aproveitar esse dinheiro pra fazer um açude, né? Ou melhorar a instalação de ordenha?”. E aí o projeto, ele vai se formatando de acordo com essa necessidade, né?

 

P/1 – Tá certa. E essa relação acaba sendo uma, enfim, uma atividade constante de acompanhamento...

 

R – Constante de acompanhamento de aplicação desse crédito, da orientação de dificuldade que o produtor tenha, esteja, né? A gente se utiliza também a pesquisa muitas vezes nos dá determinado “Olha, determinada alimentação pro gado, esse pasto foi estudado aqui, ele pode ser aplicado em determinada região, né?” Então interage em todas entidades ligadas ao setor pra dar orientação a esse produtor.

 

P/1 – No tocante a pesquisa, principalmente, quer dizer, é uma rosca sem fim, né? Porque essa...

 

R – Sim, perfeitamente, você sempre está, por isso eu digo que a extensão muitas vezes não para numa determinada localidade que você chega num estabelecimento e encontra ele num patamar X, aí quando você conseguiu fazer aquela aplicação ele está precisando do X mais um, de desenvolver outras coisas em termos de evoluir, né, ou mesmo fazer mudanças, então ela está constante. E a extensão, vamos dizer assim, quando se depara com situações que sejam dúvidas, “Tá, aonde nós vamos?”. Nós vamos na pesquisa: “Olha, tá acontecendo isso, esta situação vamos analisar, né?”. Há uma interação da pesquisa, da extensão, da cooperativa que é quem recebe o produto, mas fica um elo de...

 

P/1 – Certo. E como é que você avalia essa trajetória, quer dizer, que resultados você consegue enxergar hoje, já na distância do tempo, praticamente 30 anos aqui na área?

 

R – Bom, vamos colocar assim em termos de números, né? 1975 a cooperativa com 40 produtores, 2 milhões de litros, né, 2007, a última safra, né, aproximadamente mil produtores de leite na região, em torno de 30 a 35 milhões de litros produzidos no ano, né? Então essa pequena estabelecimento hoje já não é só a Camal, é (Consulado?), é outras indústrias também aportando aqui, esses números é de todos que recebem leite, né, da região. Então você vê que aumentou, né, o número de produtores, é produtor que tá lá no campo, não tá vindo engrossamento lá da cidade, ele tem que ter o seu bem estar lá, né? É uma produção significativa, vamos dizer assim, que ela tem uma representatividade em torno de 3 ou 4% do que o Estado produz, né? Pra ver a região evoluiu, né, claro que é uma situação de análise de todas as explorações de produto primário, num contexto amplo de Brasil e de mundo até, né, o produto primário deveria ter melhor remuneração, melhor condições o pessoal estar no campo, estar se mantendo. Então essa evolução, e eu falo do setor leiteiro, mas os colegas que trabalham na área de arroz, na área de hortigranjeiros, na área de pecuária de corte ou ovinocultura se vê uma evolução muito grande. Se vê outra evolução é o modus vivendi desse produtor do meio rural, ele tem uma condição bem melhor da sua moradia, quase que todos os estabelecimentos da região com energia elétrica, uma rede de escoamento de estradas bem recomendáveis, terá algumas regiões que tem problemas, mas nós fizemos essa análise de 30 anos atrás está muito boa essa situação, né?

 

P/1 – E o perfil desse produtor são pequenos proprietários, são proprietários médios, tem crescido? Como é que você avalia isso?

 

R – Esses que nós atendemos, a Emater dá uma prioridade é que seja pequenas propriedades, pequeno produtor rural, essa, eles são os prioritários, não impede que o médio ou um grande produtor ele tenha necessidade de acessar um crédito, a Emater vai fazer esse crédito a este tipo de produtor. Mas o nosso trabalho, a meta organização da Emater é elevada a esse pequeno produtor, a pecuária familiar, né, que são os nossos basicamente, os nossos assistidos em todos os municípios. Eu vejo até não pode se ser otimista e dizer: “Olha, o campo na região está muito bom, o produto primário ele precisaria passar por uma análise em que auferisse melhor rendimento dos produtores, essa comoção mundial que está aí, você sabe, né?”. Realmente, ou de repente um setor está quase que trabalhando só pra, empatando com os custos, isso existe, mas é uma estrutura macro, né, e aí a dificuldade muitas vezes de você equilibrar, ficar com o homem no campo, né, tem que ter essa condição.

 

P/1 – Tá certo. E como é que se deu esse trabalho com os assentamentos, e o que evoluiu, que evolução você identifica nesse processo? Quer dizer, como é que os assentamentos hoje estão trabalhando os seus projetos e que apoio eles têm recebidos?

 

R – Bom, os assentamentos eles, parte deles são assistidos da Emater, outros têm outros órgãos que prestam assistência. Eu definiria que o assentamento ele tá ainda, ele passa por um processo de adequação, né, de como colocar esse homem no campo, como dar condições pra que ele tenha um processo que possa iniciar um processo de produção, porque muitos assentamentos ainda estão naquela fase apenas de subsistência, né? E você sabe que uma família tem que sonhar e evoluir e tal. E eu creio que ainda passa por essas situações, devem ter estudos mais aprofundados para que se coloque esse homem no campo e se dê a real condição, e que se avalie também a aptidão desse produtor, muitas vezes ele vem de regiões totalmente diferenciadas, né, em que ele não se encontra, mas é uma questão que vão chegando então tem que adaptar. Eu diria que há muito a se fazer, há muito a repensar em, na parte de assentamento.

 

P/1 – Mas existe, a Emater tem um programa específico pra assentamentos ou é um atendimento semelhante ao que presta aos pequenos produtores em geral?

 

R – Os assentamentos geralmente eles têm uma organização dos assentados, né, é um movimento dos produtores sem terra que geralmente ficam coordenando. Eles procuram as verbas e tal e essas entidades que ficam atendendo ao produtor geralmente as programações são feitas com essa assessoria dos produtores, né, e que ficam em análise de como fazer com que um determinado assentamento realmente possa evoluir a contento. E essa evolução que eu creio que ela deva de ser mais aprofundada em estudo, seja pela pesquisa, pela extensão, ou pelos próprios membros do assentamento, né, pra que essa adequação realmente ela não, ela seja num prazo curto fazer com que esse produtor consiga deslanchar a sua produção.

 

P/1 – Certo, compreendo, um foco maior na produção e menos na ideologia, digamos assim.

 

R – É, tem que adequar a situação. 

 

P/1 – Tá certo. Nesse processo de evolução tecnológica, há na região um arranque na tecnologia de silagem, pelo que a gente tem percebido, né? Como é que isso se deu e o que isso significa pra cá?

 

R – Bom, quando em 1974, que começou o projeto do Brasil de chamar PDPL: Projeto de Desenvolvimento da Pecuária Leiteira, era ministro Alysson Paulinelli, mineiro, gostava muito de leite, então ele disse que o Brasil deveria ter uma auto-suficiência, não importar leite. E ali foi uma arrancada do setor do leite, né? Então nesse processo, em 1975, na região nós começamos a pegar esses recursos do PDPL, né, e dentre as inovações de tecnologia a silagem foi de grande fundamento, porque na região aqui qual é a nossa sazonalidade? Nós temos um período de primavera exuberante em alimentação, depois, ultimamente o verão ele tem sido seco que há uma escassez de pastagens, vamos dizer, e os invernos eram muito mais rigorosos em que realmente ficava, o gado ficava com pouca disponibilidade de comida, teria que se comprar concentrados que é muito mais caro. Então o que que é a silagem? É você ter uma cultura em determinada estação, armazenar ela pra usar naquela que tiver menos disponibilidade. Então foi clássico aqui a cultura do milho e o sorvo, aproveitar a lavoura como um todo, né, armazenar ela em silagem. A silagem nada mais é do que conservação daquele alimento que ele tá exuberante em um determinado momento, e que no período de escassez você vai usar. Então nós temos aqui que hoje silagem de milho e sorvo, e também as pastagens tradicionais aqui: trevo, comichão, azevém, né, que vegetam muito bem agora na primavera, são colhidas e armazenadas como silagem, como silagem ou como _______. A _________ desidrata mais esse alimento, né, e mantém ele seco, vamos dizer assim, com maior volume de matéria seca que se diz, né, pra ser aplicado também nos período de escassez.

 

P/1 – Isso muda inclusive toda a relação de produção.

 

R – Toda a relação, essa é a análise fundamental pro sucesso de um estabelecimento. Você não pode ter um rebanho que tá comendo muito bem agora e noutro período ter comida só pra se manter. Esse animal não vai produzir, né? Então a tecnologia que se emprega é que durante o ano todo tenha comida. Isso é o trabalho da extensão: avaliar economicamente qual é a adequação do alimento que vai se ter, qual é o animal que realmente ele vá transmitir, vamos dizer assim, com esse alimento ele vai produzir mais leite, ele vai produzir mais carne. Isso é fundamental, a alimentação é uma engrenagem fundamental pra toda a exploração dos setores, seja carne ou leite. 

 

P/1 – Tem um sentido também, junto ao produtor, um sentido bem pedagógico, né, assim de educar o produtor a tratar melhor o seu negócio.

 

R – Aplicar tecnologia como ela deve ser adequadamente, né? Ela tem meandros, qual é o momento de colher esse alimento, qual é o ponto da silagem, como é que ele deve ser armazenado, né, tudo isso faz parte de um trabalho de acompanhamento, principalmente daqueles produtores que estão iniciando, depois, ele se torna um profissional, dão até aula pra gente, que eles estão no dia a dia, né?

 

P/1 – Tá certo. Eu só queria que você repetisse esses três tipos de pastagem pra que a gente tenha isso, você disse o colonial...

 

R – Aqui na região nossa tem é: cornichão.

 

P/1 – Cornichão. 

 

R – É trevos...

 

P/1 – Trevos.

 

R - ... trevo branco, trevo vermelho e azevém. 

 

P/1 – Azevém?

 

R – Azevém.

 

P/1 – Tá bom. Luiz Carlos...

 

R – Talvez o termo técnico, né, o cornichão o nome científico é Lotus corniculatus, né, e o azevém é o Lolium, Lolium Monflor, que às vezes a outra região não conhece, né?

 

P/1 – Tá certo. Bom, em todo esse processo, porque é um negócio, quer dizer, digamos, uma característica meio holística, né? Quer dizer, você está trabalhando tanto a pesquisa, quanto a tecnologia, quanto a aplicação, quanto, enfim, o projeto, o financiamento. Como é que entra o Banco do Brasil nessa história? Que parte que o Banco tem nesse latifúndio, digamos assim. 

 

R – Bom, o Banco do Brasil, ele foi nessa engrenagem uma mola importantíssima, né, basicamente neste período que eu estou citando de 1975 esses créditos, vamos dizer assim, de ordem, da esfera federal, eles vinham via Banco do Brasil. Então as agências aqui na região tinham equipes enormes, vamos dizer assim, tinha desde do gerente da carteira agrícola, né, que juntamente com a extensão, com a cooperativa fazia a triagem desses produtores, né? Tinha o fiscal que é o que acompanhava, vamos dizer, nós emitíamos o projeto, né, dizia: “Olha, fulano está aplicando”, mas o fiscal do Banco ia lá, via realmente tá em condições, ou se não: “Olha, não foi feito isso”. Quer dizer, o Banco colocava aquele dinheiro que é do governo, vamos dizer assim, que é público ele era muito fiscalizado e muito orientado pra que tivesse, realmente cumprisse aquele intuito. Então o Banco do Brasil, ele foi prócere, ele foi importantíssimo nisso, né? A agência aqui tinha atividades enormes, não só no setor leiteiro como ela tem hoje também em todos os segmentos da área primária, vamos dizer assim, a atuação do Banco do Brasil. E mudaram-se gerentes e técnicos, mas sempre a extensão, vamos dizer assim, teve uma parceria muito boa com o Banco do Brasil. Se nós pegarmos hoje, vamos dizer assim, o DRS [Desenvolvimento Regional Sustentável] que será aplicado no município de Aceguá, o gerente, os funcionários do Banco estão no campo juntamente conosco, juntamente com o conselho de Desenvolvimento Rural de cada município, o Banco fez a proposta do que deveria se trabalhar, como trabalhar e está em evolução. E todos esses projetos que vieram de 1974, 1975, vamos dizer assim, o Banco do Brasil sempre esteve junto da aplicação de todos esses movimentos de evolução que a região teve. 

 

P/1 – Certo. Mas, Luiz Carlos, tem aí um problema quase que cultural porque o produtor não quer muita relação com o Banco, né? Que assim o Banco: “Vou ficar devendo pro Banco, vou ficar empenhado com o Banco”, quer dizer, não tem uma certa resistência nessa relação não?

 

R – Não, há uma, essa análise eu não sei se você poderia dizer que é diretamente com o Banco, né? É uma conjuntura de adequação do crédito, né? Por exemplo, você por que que se quer crédito subsidiados, né? Porque geralmente o custo desse dinheiro que o governo aplica ele seja o mesmo que se correlacione com o fator daquela atividade do produtor, né? E isso aí muitas vezes faz com que o produtor tenha que pensar duas ou três vezes se ele vai pegar um dinheiro aí, vamos exemplificar a 20, 30% ao ano, é muito diferente você pegar 2.2 como é hoje o mais alimento, né? Por quê? Porque o produto dele, ele tem um alto custo, então simplesmente pegar dinheiro, né, é uma coisa que tem que ter uma análise e aí entra a extensão, aí entra o Banco do Brasil, todos os bancos, mas principalmente um banco, vamos dizer assim, que é da esfera do governo federal é que esse produtor pra você tá dando dinheiro pra ele aquilo não seja uma bomba, um estopim que vai em vez dele melhorar aquilo que ele está se propondo, vá ficar pior. Então essa análise ela é muito, é necessária de se corrigida e de sempre fazer, né? Hoje, por exemplo, o DRS quando vai se aplicar algum crédito que ele tenha, vamos dizer assim, uma equidade que o produtor diz: “Olha, o meu produto: produção de leite, realmente se eu aplicar esse dinheiro com esses juros que tenho condição de fazer uma melhoria”, se isso não for analisado, se esse dinheiro não for bem aplicado, realmente ele vai ter um revés, né? Esse medo que o produtor tem, né? E também hoje eu vejo a agência preocupada com esta situação, realmente esse produtor ele tá com os pés no chão? É isso que ele precisa? Esse é o estudo todo que deve de se fazer e que entram todas essas entidades: a cooperativa, a extensão, a pesquisa, né, o agente bancário é aquele em que o governo faz com que possa se aplicar pra que haja melhoria, por isso que realmente o Banco do Brasil teve uma presença importantíssima nesses momentos todos. E em alguns setores que as coisas não são bem aplicadas realmente fica, até o Banco fica receoso diz: “Não, “péra” aí”. Se tem uma inadimplência muito grande, alguma coisa tá ____________.

 

P/1 – Tá certo. Mas a idéia é fazer com que essa, digamos, esses financiamentos acabem gerando novos negócios porque podem propiciar novos financiamentos adiante, quer dizer, é um círculo virtuoso que se cria, né?

 

R – Perfeitamente, e o que o Brasil quer? O Brasil quer uma safra grande em termos de produto, realmente nós devemos ser esse país realmente no mundo hoje como referencial de produzir alimentos, né, um volume, uma gama de diversificação de alimentos que nós temos que seja no Brasil Meridional, sabe? Aonde tem esse produto, mas o que é fundamental, né? Que essa base ali no primário o produtor ele tem que tá bem, é o que a extensão se propõe: bem estar e economicidade, o crédito tá envolvido isso aí, um crédito mal aplicado não vai trazer o bem estar e a economicidade, são engrenagens em que a gente tem que trabalhar em conjunto, né, e realmente propiciar aquele produtor que realmente quer produzir, que está bem no seu ambiente que se dê condições. A análise do crédito adequado é fundamental.

 

P/1 – Perfeito. E como é que o produtor da região aqui vê o Banco do Brasil? Qual é a impressão que se tem do banco, qual é a...

 

R – Olha, no setor leiteiro existem diversos bancos que atuam, mas o Banco do Brasil, eu creio, que ele é o que tem maior atuação, né? Nesse setor de gado de leite nós vimos, vamos dizer assim, uma grande atuação do Banco do Brasil. Ele tem já de tempos um volume, a agência aqui, né, ela tem volume de crédito rural muito grande, né?

 

P/1 – Tem um sentido aí de fixação do homem no campo, e também em paralelo uma, seu reerguimento da sua auto-estima, a idéia de que ele pode viver bem sem precisar vir pra cidade, quer dizer, isso tem uma, isso também está muito próximo de todo esse trabalho integrado que vocês conseguem...

 

R – Perfeito, é aí quando você fala do produtor rural, do homem rural você já engloba determinadas localidades, né? Então de repente determinada região tem o produtor, a sua casinha, não tem luz elétrica, na época do inverno uma dificuldade de estradas, tudo isso é um contexto, né, que passa pelo município e dá essas condições a este tipo de produção, e aí você inclui o crédito, aí você incluiu a necessidade de melhorias: vem o banco, vem o crédito orientado, né? E eu creio que aí passa a evolução de determinada região, se você me perguntasse: “Bagé está bem assim?”, eu creio que hoje quem está no meio rural tem uma dificuldade, os produtos primários eles hoje estão sendo, vamos dizer assim, é caro pra produzir alimento, né? O produtor que está bem equilibrado, lá ele tá satisfeito com o que está fazendo, né? Mas também nós vimos na região um afluxo de muitos produtores pra área urbano, e isso no Brasil todo, né? Isso há uma relação de se analisar que talvez alguma coisa não esteja muito bem, né? Se você vem a 1950, nós tínhamos aproximadamente 55% do homem no campo, né, hoje no Brasil deve de andar ao redor de 17, 18% houve alguma coisa de mudança, né? Então a preocupação regional é que tem que ficar alguém produzindo, mas tem que de ficar alguém com a sua satisfação pessoal de tá produzindo, né, alimento mas a sua família no bem estar.

 

P/1 – Certo. Tem a ver com, será que tem a ver com as grandes propriedades, o agronegócio em escala muito acentuada e que vai, eventualmente, sufocando o pequeno produtor. Será que isso tem a ver?

 

R – Essas modificações sim, elas existem sim. O agronegócio hoje, determinado tipos de atividades, né, elas só se comportam com volumes muito grande, e realmente fica alijada aquela pequena propriedade. Então esse é o estudo da extensão e da pesquisa de o que fazer, fazer bem nessa pequena propriedade. Então se você vê aqui na região de Bagé, o primeiro produto de exploração: o arroz. O arroz não está na pequena propriedade, ela tá na grande propriedade, altos maquinários, altas tecnologias, né? O setor de carne, a produção de carne numa gleba, o módulo nosso aqui é 28 hectares, fica difícil você em 28 hectares ter um volume de vender carne pra ter uma receita uma, duas, três vezes no ano, então por que leite ali? Leite é uma coisa de exploração diária, né, e você melhorando o seu estabelecimento faz com que esse produto seja mais adequado pra pequena propriedade. Então o produto muitas vezes determina, né, a que tipo de estabelecimento. E aqui na nossa região da Campanha, pra pequena propriedade, tem-se procurado diversificar, a fruticultura, né, a exploração de grãos de seco como o sorvo, a cevada, né? Mas precisa maquinário, tal. Ainda o leite tem sido a atividade de mais adequação pra pequena propriedade.

 

P/1 – Isso que tá sendo o carro-chefe aqui na...

 

R – Na região, tranquilamente.

 

P/1 – E essa produção escoa pra onde, vai pra onde? Prioritariamente onde ela se destina?

 

R – Na região aqui, hoje tem basicamente duas firmas grandes que recebem o produto: uma em Pelotas, né, que ela é parceira com a antiga cooperativa daqui que recebia o leite, a Camal, e outra a Elegê, né, que é uma que tem uma das maiores produção do estado todo, também tem uma grande parcela. E algumas firmas pequenas, né, setores de laticínios, plantas pequenas e receber 500 litros/dia, 800, né? E praticamente na região nós não temos quase a informalidade, né, aquele leiteiro de carroça, ainda existe sempre, né? Mas hoje a prefeitura de Bagé tem um trabalho muito importante que fez com que uma associação desses leiteiros, né, em torno de 60 produtores aderisse pra vender o leite de inspeção federal, né?

 

P/1 – Perfeito [pausa] (Troca de fita). Luiz Carlos, com toda essa trajetória, esse trabalho aí de, que é um trabalho muito de relacionamento também, né, com as pessoas, com os produtores e tudo o mais. Hoje você sai pro campo o que você encontra? Quem são essas pessoas que você encontra? Como é que essa relação se cristalizou? O que, como você olha esse processo todo agora?

 

R – Essa, o que eu encontro? Essa relação de 30 anos, né, como eu sempre digo isso: o extensionista você chega como o professor, porque ele tá trazendo alguma coisa, né, e na convivência, na batalha a gente sai como aluno, porque você também aprende, né? E eu tenho essa felicidade desses 30 anos, como eu já lhe disse, tá trabalhando em duas ou três gerações, então sempre tem coisa nova para o aprendizado tanto pra mim como pro produtor, né? Podemos exemplificar hoje aqui no município de Aceguá, né, houve a comunidade da Colônia Nova e de outras ali se organizaram e fizeram um assentamento dos filhos, né, que é a Capil, Cooperativa Agrícola Pioneira Ltda, né? Eles conseguiram verba, a comunidade, e assentaram 80 famílias ali, isso são às vezes algorizada que era trabalho nosso de juventude rural que hoje eles estão produzindo e a gente tá trabalhando com a juventude de lá que já são os filhos deles, né? E uma satisfação que é gente que se possibilitou de ficar no campo e a Capil deixou a sua produção de leite no ano 2000, né, são 80 produtores num horizonte, entregam praticamente, são 600 produtores que entregam pra essa mesma usina, né, e eles são 80. Hoje eles representam 30% da produção dessa usina, então você viu que é um melhoramento de vida, de qualidade, são produtores, né, e a gente tá presente, ajudou a formatar a Cooperativa, né, e continua na atividade do dia a dia. Eu digo assim: é um trabalho prazeroso, não tenha dúvida disso.

 

P/1 – Qual que você considera assim o fato mais marcante dessa tua trajetória? Dessa tua carreira?

 

R – Olha, teve um fato que foi, ele foi assim, deu “Ibope” nacional, né? Nós da área do leite, uma das tecnologias que são muito importante é o uso da inseminação artificial, né? Então nós não conseguimos em determinada região implantar o serviço de extensão, a cooperativa tinha o inseminador, né, mas eram muitas propriedades e então ele não dava conta do recado. Aí o que nós fizemos? Começamos a fazer curso pros produtores de leite, mas o pai de família, o produtor, ele tinha atividade de gerenciamento, muitas vezes ele diversifica para fazer parcerias de lavouras em outras propriedades. E eu cheguei um dia com uma colega da área de bem estar e me deu um estalo: “Por que nós não fizemos o curso de extensão rural pras mulheres? São elas que ficam no dia a dia, né?” São elas, né?”. Então aquilo amadurecemos a idéia quase que num ano, né, a parte da religião achava, algumas foram perguntaram pro padre lá: “Será que aquilo não era serviço de mulher, né?” Ficou até que saiu o curso, e foi uma das gratas surpresas que essas senhoras, né, que são inseminadoras, elas evoluíram o rebanho do estabelecimento porque ela que tá no dia a dia, né? E isso teve uma repercussão muito grande, saiu no Campo e Lavoura, no Globo Rural na época, vieram aqui, entrevistaram elas...

 

P/1 – Quando foi isso?

 

R – Isso foi 1982 se não me engano, e foi na, em termos de extensão, foi uma coisa inédita aquilo. Então todo mundo, aí a gente recebia de São Paulo às vezes: “Vem cá, mas elas estão trabalhando mesmo, tá funcionando?”, “Tá sim”. Então foi um achado que eu acho que pra mim me marcou junto com os colegas que fizeram esse curso.

 

P/1 – Esse é um problema que não existe mais hoje?

 

R – Não não, tem, hoje a senhora às vezes os filhos, as moças vão fazer, mas aquilo foi pioneiro ali. Eu tenho, se vocês quiserem, passar o quadro ali delas tá na minha sala lá.

 

P/1 – Tá certo. Me diga uma coisa, eu vou te fazer uma pergunta bem óbvia, mas eu não estou atrás de uma resposta óbvia, eu tô atrás de uma reflexão. Que importância tem a presença do Banco no desenvolvimento, do Banco do Brasil no desenvolvimento dessas atividades produtivas, sobretudo na vida do pequeno produtor? O que que significa o Banco do Brasil nesse processo?

 

R – Olha, a importância que eu vejo aqui na agência, no setor regional, né, é que o Banco cumpre a sua finalidade quando você observa o volume abrangente que tem de produtores que vão no Banco do Brasil, né, ele não é uma coisa aparente, ou é alguns produtores, não, é um volume muito grande, é muito intenso que procura, vamos dizer assim, aplicar o crédito como o Banco do Brasil. Eu acho que isso qualifica ele, né, seja a equipe da unidade, né, mas com o passar dos anos sempre ele está muito bem, é conceituado e respeitado na situação. Você pode ver aquela situação, como você estava fazendo antes, né? “Não, eu não quero saber de banco e tal”, mas são coisas que acontecem que precisam às vezes de uma análise mais aprofundada e não é feita, e as coisas não dão certo. Uma, procure o bojo e o contexto maior, a maioria procura o Banco, né, e ele tem atuação na região.

 

P/1 – Tá certo. O senhor é casado?

 

R – Eu sou viúvo, eu sou viúvo há cinco anos, né, e tenho quatro filhos, quatro netos, né?

 

P/1 – Quem são os seus filhos, vamos na escadinha.

 

R – O filho mais velho é o Ângelo Luiz, o Carlos Amilcar, Draiton José e a Bárbara, né? E os netos é a Irene, a Ângela, o Fernando e a Natália. 

 

P/1 – Certo. Os filhos têm atividades semelhantes a sua ou não?

 

R – Não, teve o Amilcar, ele chegou a entrar na faculdade de veterinária, né, mas a gurizada muito músico, tal, o pai veterinário tal, fez os dois anos e não se achou, então agora ele foi pra Porto Alegre e precisando trabalhar, hoje fez o curso de culinária e é maître e tá muito bem. Quer dizer, não era isso. Daí os outros também não entraram pra o meu lado da profissão.

 

P/1 – Como chamava a sua esposa?

 

R – Idaete Cabreira Amaral.

 

P/1 – O que que você reputa hoje o maior aprendizado em toda essa sua trajetória profissional? Qual foi a grande lição que você carrega na sua alma, assim, no seu coração, na sua mente?

 

R – Bom, eu creio que daria pra resumir, né, eu achei a extensão rural e a extensão, vamos dizer assim, o serviço como a Emater, ela nos orienta como funcionários, né, e nos demonstrou, vamos dizer, além de você ser veterinário, você ser um técnico, você tem que trabalhar com a família, com a comunidade e isso é um aprendizado de vida, né? Eu hoje eu não sei se o Amaral é mais conselheiro ou veterinário. Claro que você profissionalmente, né, você procura ter uma especialização e você tem que ter a capacidade de poder transmitir aqueles ensinos que a veterinária nos faculta, né? Mas na extensão rural me deu mais, me deu esse convívio do trabalho com a comunidade em si, seja com o produtor rural, com as atividades afins, com o poder executivo, legislativo e a equipe da Emater, né, nós somos, a Emater, vamos dizer assim, ela nos cobra, nos questiona, mas nos orienta e nos dirige pra que a Emater seja, realmente, uma entidade que possa ter credibilidade. Isso você pode ver, felizmente tem, né, e eu me inseri como veterinário nisso aí. Eu acho que esse é o aprendizado que me...

 

P/1 – Tá certo.

 

P/2 – E Luiz, fazendo um balanço da sua carreira, quais que você acha assim que foram as maiores dificuldades que você teve que enfrentar?

 

R – Bom, a dificuldade eu acho que ela, hoje, se nós pegarmos o país, o Brasil, o produto primário, não é, precisaria passar por uma questão de adequação em que o produtor ao produzir alimento ele tivesse, vamos dizer assim, um patamar de rentabilidade maior. E você como extensionista, você é um elo, né, na cadeia que você vai introduzir determinadas tecnologias, então você tem que ter uma responsabilidade muito grande de tá ofertando um produto que aquilo não seja uma coisa que vá destruir uma família, que vai fazer com que ele quebre, né? Então essas dificuldades se tornam, se transformam em desafio, né, de você poder fazer esse trabalho. Eu creio que isso é um paradigma, né, quando você: “Mas, olha...”, porque chegou, chegou na agência, tem dinheiro, né, muita gente vem a correr. ““Pera” aí, vamos devagar, vamos aplicar essa situação”. Eu acho que essa dificuldade existe, mas a gente tem que fazer ela, adequar para o melhor, mas não deixa de ser uma dificuldade. 

 

P/1 – Certo. E o futuro, Luiz Carlos, o que tá aí na linha do horizonte, o que tá apontando todo esse processo? Pra onde aponta isso?

 

R – Em termos de produção do Brasil, né? Pois é, vamos dizer assim, você vê, eu conheço, a minha colocação é leite que é a atividade sempre, né? Bom, o que que nós temos no Rio Grande do Sul, né? O Rio Grande do Sul, um país, um estado, vamos dizer assim, em que a produção leiteira tem uma importância muito grande porque ela atinge essas pequenas propriedades de todo o estado do Rio Grande do Sul. Se nós fizermos uma trajetória dos últimos 20 anos, a produção de leite no estado ela aumenta 2% no ano, diminuiu 1% no outro, né, ia num patamar assim. O que que aconteceu de 1970... 2006 pra cá, né? Houve um incremento que houvesse maior produção de leite no Rio Grande do Sul, né, com perspectiva de exportações e tal. O que nós temos em 2007? Nós tínhamos um recebimento 6 milhões e meio de litros/dia, passamos pra 9 milhões, você vê que aquele 2% de aumento pequeno ficou, né, 6 milhões e meio pra 9 milhões. E as perspectivas são de produzir 10 milhões de litros, 10, 12 milhões de litros/dia. Então o setor está aquecido, mas ele não tem segurança de como é que nós vamos escoar essa produção e isso tá num impasse nesse setor. Hoje nós estamos vivendo um momento terrível, no inverno, o produtor, determinados produtores chegaram a receber 70 centavos pelo litro de leite, agora em novembro vão receber 35. Então no mercado, né, ele tem prospecções futuras de o Brasil ser exportador, a indústria ter condições de pagar melhor, tá motivando o produtor a fazer investimentos, né, e quando de repente ele tem uma queda no preço. Então o futuro ele é animador a que realmente se cumpra essas condições de que as indústrias gaúchas possam exportar leite em pó, derivados, né, pra que ele possa refletir no produtor. Só que o momento está aí, né, tem estratégias estabelecidas e elas não se concretizam, vamos dizer assim, com aquilo que se busca, né? A gente tá rezando pra que a gente possa se acertar esse setor, e tudo depende de questões de moeda internacional, né? E as dificuldades às vezes, geralmente vêm respingadas no primário, o que tá produzindo, né?

 

P/1 – Perfeito. Quer dizer, tem algum programa de fazer com que essa produção primária ali lá na base do produtor tenha, já saia de lá com algum tipo de beneficiamento? Quer dizer, produções de queijo, manteiga, ainda que em escala menor isso existe ou é factível, não?

 

R – Na região não é muito comum, nós temos regiões aí do Estado que utilizam mais o que nós chamamos de indústrias caseiras: que é o doce, é o queijo, artesanalmente existe isso aí, mas em pequena escala que não tem significação. A produção, né, é pra nível de indústria realmente. Até por questões de volume, propriedades que são distantes, né, você vai fazer um queijo tem que sair e vender na cidade, e se torna mais fácil quando você entrega pra uma indústria, né? O artesanal tem, é procurado, mas é uma escala bastante pequena. Quando nós falávamos em leite aqui é pra leite em indústria, né?

 

P/1 – Perfeito. Tá bom. Tem alguma coisa que você gostaria de ter dito e a gente não te estimulou a dizer?

 

R – Não, dizer apenas que eu me sinto muito honrado em poder tá colocando essas situações. A extensão rural está presente na região, o Banco do Brasil nos seus 200 anos está cumprindo com o seu papel, né? E foram me (triaram?) bastante nesse depoimento que eu acho que tá completo, né? Era isso.

 

P/1 – Tá certo. Luiz Carlos, o que lhe parece essa idéia do Banco entre as suas comemorações dos 200 anos contar uma história, mas não a história apenas a história oficial do Banco, mas a história das pessoas que se relacionam de alguma forma com o Banco nos diferentes biomas brasileiros, como é que te parece essa idéia?

 

R – Não, eu acho está de parabéns o Banco porque a festa é dele em fazer 200 anos, e ele trazer participativo quem esteve com ele nos 200 anos, né, já é uma, é um marketing inteligente, né, foi bem aplicado. Creio que tranquilamente vocês devem de ir andando por este Brasil todo, histórias extremamente diversificadas, né, e gente diferente, locais diferentes, mas uma coisa única, o Banco do Brasil presente. Eu acho que a idéia dele foi fantástica nesse tema.

 

P/1 – Tá certo. E o que você achou de ter dado este depoimento pra nós? Como é que você se sentiu?

 

R – Eu espero que tenha conseguido, vamos dizer assim, colocar esse dia a dia meu e que vocês realmente estejam satisfeitos no que ouviram, né?

 

P/1 – Muito bom tê-lo ouvido. Muito obrigado.

 

R – Muito obrigado a vocês.

 

P/2 – Obrigado.

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