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História

De futuro advogado para atleta remador

História de: André Gustavo Richer
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Nascido em Visconde do Rio Branco. Fez serviço militar. Foi estudar no Rio de Janeiro. Iniciou sua carreira no Flamengo. Remador no Clube Regatas do Flamengo.

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História completa

P/1 – Bom seu André, boa tarde.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – A gente gostaria de começar a sua entrevista o senhor dando o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – André Gustavo Richer, nasci no dia 26 de Janeiro de 1930, em Visconde do Rio Branco, Minas Gerais, onde meu pai residia, meu pai Jean Bernard Richer e minha mãe Severiana Lacerda Richer.  Nasci em Rio Branco e lá me fiz jovem e tão logo terminei o serviço militar eu fui estudar fora de Rio Branco, que era uma cidade relativamente pequena. Fui estudar em Leopoldina e depois fui para o Rio de Janeiro, estudar no Colégio Juruena e começou a minha vida de desportista no Clube de Regatas do Flamengo, como remador.

 

P/1 – Voltando um pouquinho, qual era a atividade de seus pais?

 

R – Meu pai era usineiro, Societè Sucrière de Rio Branco.

 

P/1 – E a sua mãe.

 

R – Minha mãe era dona de casa. Professora e ensinou os filhos, nós somos três homens e ela que nos ensinou as primeiras letras. 

 

P/2  - O senhor conhece a origem da família do senhor? De onde ela veio?

 

R – Meus avós por parte de pai vieram da província de Champagne, na França e a minha mãe, os antepassados dela, de origem portuguesa. E moravam todos, quer dizer, por parte de minha mãe, moravam todos em Rio Branco. Meu pai foi para Rio Branco, levado por meu avô para ficar na usina quando fizeram a usina lá, era um grupo de franceses e meu pai foi então residir em Rio Branco e conheceu a minha mãe e lá se casou. 

 

P/1 – E quais são as primeiras lembranças que o senhor tem da infância em Rio Branco?

 

R – Uma cidade bastante tranquila, uma cidade calma onde a rapaziada estudava até, de um modo geral, tinha escola normal, tinha curso ginásio também e na época eram cinco anos de ginásio. E os rapazes, de um modo geral, estudavam e moças também, estudavam no Colégio Rio Branco e esse colégio até a quinta série, depois que se formavam tiravam o curso ginasial e as moças, muitas delas iam para a Escola Normal, muito boa a Escola Normal inclusive, saíam da cidade para estudar nos cursos intermediários ou superior. Então até a idade de 14, 15 anos o pessoal ficou porque até 16 anos no máximo tinha de sair para estudar e tirar os cursos fora. Na época tinha curso Clássico e Científico, que eram pré-vestibular, antes de fazer o vestibular e eu fui para Leopoldina para fazer o curso Clássico. Fiz lá o curso Clássico e comecei a fazer esportes no Colégio Leopoldinense. Eu era atleta e fazia lá, arremessava dardo, disco e peso e na época, para a minha idade eu era bastante forte, então eu comecei a fazer os arremessos. E jogava futebol no Esporte Clube Ribeiro Junqueira. Era zagueiro central, naquela ocasião tinha zagueiro central e zagueiro de espera. E numa certa época foram lá alguns diretores do Botafogo, estiveram lá e foram assistir um jogo do Botafogo contra o Ribeiro Junqueira e eu joguei esse jogo e me convidaram para vir para o Rio de Janeiro. Se eu queria vir para o Rio de Janeiro para começar a jogar futebol. E o meu pai não gostou muito da ideia, mas mesmo assim, eu vim para o Rio e comecei a estudar no Colégio Juruena. E no Colégio Juruena tinha um professor Ernani que era o chefe da disciplina do Colégio Juruena e eu técnico de atletismo do Botafogo. Então eu comecei fazendo atletismo no Botafogo por causa desse técnico, o Ernani, professor Ernani, gente muito boa e estudando no Colégio Juruena e então fui fazer atletismo no Botafogo. E como eu morava na praia do Flamengo, com meu irmão que estava estudando no Rio de Janeiro, eu comecei a remar no Flamengo, isso em 1947. Daí a minha origem de eu começar a remar porque desde garoto eu era Flamengo, então eu comecei a remar no Flamengo, na antiga sede, praia do Flamengo, 66. Onde tinha o então pontão e etc. e etc.  Então eu comecei a minha vida no Flamengo e comecei a frequentar o Flamengo na parte social e depois na parte de todo dia treinar e lá eu conheci um bocado de homens fabuloso do Flamengo. Grandes campeões na época, desportistas, campeões, e comecei a minha vida esportiva, assim, como remador. E um ou dois anos depois eu comecei a ganhar umas provas e quando foi no cinquentenário do Vasco, que foi em 1948, 1949, não me lembro mais, parece que foi em 1949, o cinquentenário do Vasco parece que foi em 49. Eu naquele dia corri duas provas, corri uma prova de quatro e uma prova de dois e ganhei as duas provas. Então naquela ocasião nós recebíamos umas medalhas comuns, medalhas que devam para todos os esporte, mas no cinquentenário do Vasco eles entregaram umas medalhas de ouro, bonitas, grandes e eu tenho essas medalhas até hoje. Então o técnico do Flamengo que era o Ângelo,  técnico de remo, ele disse: “Bom, agora vocês podem ir para a Gávea e remar na Gávea.” Que começávamos todos lá embaixo, no mar, no pontão e lá era muito difícil remar porque tinha muita onda e tinha um tráfego dos bondes e tráfego automóveis. Então a gente atravessar com os barcos ali, as ioles, que era ioles, naquela ocasião lá embaixo, atravessar com as ioles era uma dificuldade. Se bem que era cinco horas da manhã, cinco e meia da manhã. Então mesmo assim quando nós voltávamos do treinamento já estava um tráfego bastante intenso. E até me lembro de uma ocasião que um bonde atropelou um “oito”, foi um rolo aquele dia porque nós naquela ocasião invadimos o bonde, quisemos pegar o motorneiro, o condutor, enfim, foi uma loucura aquele dia! Coisas da mocidade. Então ficou cada vez mais difícil atravessar a rua, não tinha sinal, não tinha nada de maneira que os melhores remadores naquela época, eles se sobressaiam e iam para a Gávea remar na Gávea porque na Lagoa os barcos eram barcos lisos chamados barcos Shell, então aqueles que despontavam como futuros campeões iam para a Lagoa. E assim foi a minha ida para a Lagoa em 19..., já no final de 48. Onde na Lagoa, remando na Lagoa, nós conhecemos os jogadores de futebol e naquela época, eu até me lembro quando fui para o Flamengo, em 1947, uma das primeiras pessoas que eu conheci foi o Farah, nosso querido Farah, era jogador de futebol do Flamengo e trabalhava lá na sede velha. Trabalhava na parte de contabilidade. E o nosso grande campeão, Quadros, que hoje em dia já completou 100 anos, o Quadros foi uma das primeiras pessoas que eu conheci no Flamengo, ele era diretor e naquela ocasião ele exigia que os atletas tivessem inclusive a carteira de atleta, senão não podia entrar no clube. Se não tivesse a carteirinha de atleta e com o pagamento em dia, tinha de pagar, o atleta pagava. Então nós tínhamos de pagar o nosso tíquete mensal e todos atletas pagavam e o Quadros era uma fera, né. Tomava conta daquilo lá, era uma pessoa ótima. E a minha vida começou assim e aí eu fui para a Gávea e na Gávea já mudou tudo. Ficou mais difícil porque aí eu já comecei estudando na faculdade de direito aqui no Catete e depois para ir para a Gávea remar nós tínhamos muita dificuldade, então algumas vezes nós tínhamos de dormir na Gávea. Como também várias vezes eu dormi na sede velha, na 66 porque tinha de treinar no dia seguinte às seis horas da manhã. Seis horas o barco já devia estar dentro da água, então nós dormíamos em cima de um ringue de boxe, não só eu, mas todos os outros. O dia que ia treinar muito cedo, o dia que nós chegávamos tarde e íamos para o Flamengo dormir para não perder o treino.  E já nessa ocasião o Farah estava morando na sede do 66 e o Farah, de noite, às vezes, estávamos fazendo farra, chegava na janela do quarto dele que era em cima, no segundo andar: “Vamos parar com esse barulho aí! Está muito barulho aí. Vamos dormir e tal!” Estávamos muitos remadores juntos, então foi uma vida muito boa, uma vida espetacular. 

 

P/1 – Antes do senhor vir para o Rio de Janeiro o senhor já era Flamengo? Como se tornou Flamengo?

 

R – Eu não sei! (risos) Na minha cidade, em Rio Branco um grande número, a maioria das pessoas torciam para o Flamengo. Eu acho que foi por isso que eu comecei a torcer para o Flamengo. De maneira que então a gente acompanhava pela rádio, naquela ocasião, os jogos e etc. Então nós tínhamos lá o nosso clube de futebol também que tínhamos lá em Rio Branco, ele tinha as cores parecidas com as cores do Flamengo. Não era exatamente igual, mas tinha o vermelho e o preto também. Então eu acho que foi por aí. Aí quando vim para o Rio, não tinha mais razão de ser outro clube, tinha de ser Flamengo.

 

P/1 – E antes de chegar ao Rio, como o senhor imaginava o Rio de Janeiro?

 

R – Não, eu conhecia já o Rio de Janeiro porque todos os meus parentes já moravam aqui, somente o meu pai morava lá. Todos os familiares deles, os irmãos, as irmãs, o pai dele, a minha avó, o meu avô, todos moravam no Rio, e os tios, todos moravam aqui. De maneira que então, somente nós vínhamos aqui nas férias, os irmãos, vínhamos aqui e passávamos as férias geralmente em Ipanema. Onde morava toda a minha família, então nós ficávamos em Ipanema, então eu conhecia bem o Rio de Janeiro desde garotão. 

 

P/2 – Você comentou que o pai do senhor não gostou muito da ideia de ver jogar, por que isso?

 

R – Não, ele não gostou da ideia de eu vir para o Rio, vamos dizer, para me profissionalizar ou semi-profissionalizar, para ter assim uma remuneração, enfim, um pagamento, para treinar, ele gostaria que eu fosse como foi, que eu fizesse o esporte que eu quisesse mas como amador e fosse fazer aquilo que eu queria. Então razão pela qual eu acabei não indo para o futebol porque o futebol era treinado à tarde e de um modo geral naquela época eu não podia treinar à tarde porque eu estava estudando. Além disso, eu comecei a trabalhar e estudar, trabalhar e estudar, eu só podia estudar à noite e trabalhar durante o dia e remar de madrugada. Não podia fazer outro esporte, razão pela qual eu acabei, inclusive, depois de 1952 ou 3 eu parei com o atletismo e fiquei só com o remo porque não podia fazer mais atletismo. Não tinha como treinar. Remo não, pelo fato de ser treinado de manhã cedo, quatro e meia, cinco, seis, até sete, oito horas, terminava e ia para a cidade trabalhar. Então isso podia. Agora, estudava à noite. De maneira que à essa altura, a vida foi desenrolando dentro desse panorama.

 

P/1 –  O senhor fez faculdade de quê?

 

R – Direito.  Fiz a Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. É Rua do Catete, até hoje tem o prédio lá. Hoje em dia o prédio parece está com uma ONG, mas está lá até hoje. Mas existe a faculdade até hoje que é e Faculdade do Rio de Janeiro, hoje.

 

P/1 – E depois qual foi... tem outra faculdade que o senhor fez?

 

R – Depois não, depois eu entrei para a Faculdade de Educação Física, porque eu fazia muito esporte e era bastante conhecido como desportista e entrei na faculdade de Educação Física e fiquei até o último ano. No último ano, quando estávamos para fazer as provas finais, eu não fiz porque estávamos nos Jogos Olímpicos. De maneira que em 1956 eu perdi todas as provas porque eu estava na Austrália, em Melbourne, depois que saímos da Austrália eu dei uma volta, fui até o Japão, do Japão fui para os Estados Unidos. Dos Estados Unidos nós atravessamos de um modo geral, desde São Francisco até Miami nós viemos de carro e então demorei muito para voltar ao Brasil. Só voltei ao Brasil em Janeiro de maneira que então eu tranquei a matrícula  para fazer posteriormente, ou quando pudesse, fazer as provas finais. Mas acabei não fazendo porque não tinha muita razão de ser porque estava mais lá por causa dos meus colegas, dos meus amigos porque eu já era advogado, já estava formado, já era procurador, de maneira que a essa altura estava fazendo mais porque gostava do esporte. Mas tem até hoje grandes amigos meus que se formaram naquela época e que eu ia formar com eles. O Chirol foi um deles, o Edmilson Chirol, o Hector Seixas foi outro, era meu colega de turma, estão aí vivos, e outros tantos mais. Esses dois se tornaram, vamos dizer, bastante conhecidos porque ficaram técnico e como auxiliar técnico depois e preparador físico da seleção, e o Hector Seixas foi do Flamengo muitos anos. De maneira que estão todos eles aí, nós estamos felizes pelos encontros e recordamos os bons tempos, né? 

 

P/1 – O senhor falou agora pouco que conviveu com os grandes nomes do Flamengo. Qual serão esses grandes nomes?

 

R – Lá na sede velha eu me lembro que nós tínhamos lá dois grandes campeões de levantamento de peso. Um é o Waldemar, que era da polícia Especial, que era peso-pesado, foi campeão brasileiro, sul-americano, era um dos homens mais fortes que eu conheci. Ele era aquele homem base naquela motocicleta da polícia especial, tanto que ele levava não sei quantos homens ali em cima uns oito, nove homens ali em cima daquela moto e ele era o base na moto, o Waldemar, fortíssimo!  E o outro foi o Diniz , Mário Diniz que era da caixa Econômica, foi o... deve ter sido peso-médio, ou coisa parecida, eu não me lembro mais da categoria dele, mas o Mário Diniz foi fortíssimo. Depois se formou em advocacia e coisa tal, grande rubro-negro, mas morreu bastante moço. E o Caiado de Castro, o Caiado era um lutador, luta livre, foi também espetacular, estudante de direito lá de Goiás, uma pessoa também muito boa e que se tornou um grande campeão. Outro foi o Jacques Bolderoni que era um grande campeão de boxe. E outros mais sócios do Flamengo que jogávamos pelota, o Orlando Barros que foi grande benemérito do Flamengo e foi meu vice-presidente, Orlando Barros foi muito conhecido. O Diniz, César Diniz Chaves, conhecido por “Tartaruga”, foi também presidente do Conselho Deliberativo. Também foi um grande nome do Flamengo. O Polaca, o Polaca acho que já morreu, Waldemar Polaca, era o homem que fazia aqueles reco-reco no dia 15 de Novembro, soltava, ele tinha um canhãozinho que ele soltava aquele canhão na praia. Era o Waldemar e era o... Waldemar Polaca e tinha também um outro. Enfim eram vários Willian, Waldemar, Sapo, o Sapo era o chefe do pessoal. E naquela ocasião nós tínhamos lá os Dragões Negros, tínhamos os Flamengo de Verdade, os grupos.

 

P/2 – Quem era dessas Dragões Negros?

 

R - Dragões Negros, tinha o Marcos Vinícius, tinha o Manuel Lobo, tinha o José Lins do Rêgo, O Orcini eu não sei se era, mas o Fábio era, tinha o Waldir de Mello Pinto mas o não sei se era também não. Wilton Santos eu não sei se era também não, mas todos eram ligados, era o grupo da Colombo. Todos iam para a Colombo e se reuniam na Colombo. Então esses eram os Dragões Negros. Foi um grupo famosíssimo, deu vários presidente para o clube, tenho a impressão que o Dario também era, mas deu mais de um presidente, os Dragões Negros. E tinha o Flamengo de Verdade, tinha a Guarda Rubro-Negra, que era composta dos atletas do clube naquela época. Então os atletas do clube, no carnaval, fazíamos a segurança dos bailes, eram os atletas que faziam, nos bailes sociais, nos pré-carnavalescos e os bailes de carnaval. De maneira que era uma outra vida, um outro padrão de vida, um outro tipo de vida. Vida muito mais de amigos, social, todos se conheciam, porque a concentração da parte social era na Praia do Flamengo, 66.  Não existia ainda o prédio Hilton Santos que era no Morro da Viúva, a Gávea, teoricamente, só tinha o campo de futebol e um barzinho pequeno e nada mais do que isso, não funcionava nada na Gávea a não ser essa parte, a parte administrativa funcionava lá no Flamengo, na praia, lá no 66.

 

P/1 – Quais eram os esportes que se praticavam além do remo lá na 66?

 

R – Na 66 tinha o remo, levantamento de peso, boxe, luta livre, tênis de mesa, tinha esgrima, e na frente onde tinha uma quadra, que jogava uma espécie de futebol de salão, mas o pessoal já brincava mais. Eram os esportes que tínhamos lá, tinha também a turma que jogava xadrez, xadrez, dama e a parte social.

 

P/1 – E os companheiros do remo? Quais eram os grandes nomes e os seus parceiros de competição?

 

R – Bom aqui na Praia do Flamengo, 66, nós tivemos lá os Michell irmãos Michell, irmãos muito bons, tivemos o Pé-de-Valsa, o Roberto Paulista, enfim são homens que remaram comigo naquela época. E a gente conhece muito mais pelo apelido do que de fato pelo nome, então a gente se lembra muito deles por esses apelidos de remo. E depois que eu sai, que fui para a Gávea, então na Gávea passou um mundo de remadores pela Gávea que era muito maior, tinha muito mais remadores, na Praia do Flamengo eram pouco remadores que remavam, não era muita gente não, eram poucos. Tinha só um técnico que o Ângelo Camarra que por sinal foi um grande campeão, também, de remo e uma pessoa que eu conhecia muito, ele conversava com o pessoal aqui na sede e depois íamos todos para a Gávea. E na Gávea começávamos a remar em barcos de dois, quatro, oito esquifes, double esquife, aí já com outros técnicos. Os iniciantes estavam aqui, na época a Gávea era para os remadores de mais categoria de fato.

 

P/1 – Falando do remo, quais são as principais diferenças do remo dos tempos do senhor, no início, para o remo atual? O que é que mudou?

 

R – Mudou basicamente tudo. Porque naquela ocasião, eu me lembro nós tínhamos um 4 - 100 que foi campeão no Rio de Janeiro muitos anos, era o Zé Carvalho, David, Ronaldo Arantes que morreu em Chicago, mataram ele em Chicago, e eu remava na proa. Chamava de “Sinfonia Carioca” porque o barco remava muito bem, era muito bem remado, muito bom, e andava muito, nós ganhávamos muito e nós tínhamos o apelido de “Sinfonia Carioca”. E tinha o 8 e nós dobrávamos no 8, o 8 com Keller que era técnico do Flamengo nessa época, foi um 8 muito famoso e ganhamos muito, muito, muito! Então o Vasco, como sempre, nosso grande adversário, Botafogo também na época grande adversário. E em 1950 nós tínhamos um 4 com timoneiro que foi dos melhores barcos que nós teve no Brasil. Que era o Paulo, que era gaúcho, era o Nô Menezes, o Jorge Jorjão e eu na proa. Esse 4 também ganhou o ano anterior, ganhamos tudo o que nós podíamos ganhar nós ganhamos com esse 4. Depois o 4 se desmanchou e cada um foi para o seu canto porque nós éramos mais velhos e tal. E nós remamos em grandes conjuntos e depois, por muitos anos, eu remei com o Zé Carvalho, pai dos dois irmãos Carvalho, que foi o melhor remador que eu remei, foi ele. Está vivo até hoje, está muito bem, graças à Deus, né, e muito técnico, cabeça  muito boa, muito forte, e isso o Zé Carvalho, eu remei com ele o 2- 100 e ganhamos quase dez anos seguidos, sem perder uma vez. Um dia perdemos por causa – não é desculpa – mas perdemos, a primeira derrota nossa foi por causa do vento. Tinha um vento muito forte na Lagoa, nós saímos em cancha 1, e o vento estava jogando para fora da raia, o Vasco da Gama que tinha um barco que saia na raia 8 e veio sendo jogado de ré, 8,7,6,5,4,3,2,1 e eu não podia sair da raia, se eu saísse da raia, eu perdia a prova e aí era desclassificado. Eu tive de vir no leme segurando o barco no leme, o leme andava comigo, então nós perdemos, os dois barcos entraram, ninguém sabia quem ganhou, de tão apertado que foi a prova. Então eu me lembro, foi o Nélson Guarda que era um grande remador também  do Vasco e o Aditi Schimidt outro grande remador também, eram dois gaúchos. E quando os barcos entraram, os quatro, os dois do Flamengo, os dois do barco do Vasco, caímos no fundo do barco de cansaço. E ninguém sabia quem havia ganho a prova e eram cinco juízes de chegada e por incrível que pareça, dois juízes deram Vasco da Gama e dois juízes deram empate e um juiz deu Flamengo. (risos) Então ganhou o Vasco por 2 X 1, porque dois deram empate. E ninguém sabia porque em fração de segundos dois barcos cruzam a meta. Naquela ocasião as metas de chegada não tinham filmagem, como tem hoje, ou foto-sharp, nada disso. Olhômetro, então os juízes ficavam na linha de chegada no olhômetro. Então esse barco foi muito famoso, nosso 2- 100, eu e José, e corremos o sul-americano, o pan-americano, enfim, barco muito bom. Mas a primeira derrota que tivemos foi nesse dia, praticamente não tinha sido derrota para nós porque, é como essa derrota que não foi derrota, do basquete nosso, sexta-feira. Joga e termina empatado o primeiro jogo, o segundo jogo, o terceiro jogo, aí ganha o Vasco, mas enfim, competição desse tipo, isso aí enaltece o desporto e os atletas e os clubes. E assim foi esse 2-100 com o Zé Carvalho, um 2-100 bastante famoso, era muito bom companheiro o Zé, enfim, remei muitos anos com ele. 

 

P/1 – Para quem não conhece, eu gostaria que o senhor explicasse a diferença entre baleeira, iole, esquife. O que é uma baleeira?

 

R – Baleeira é um barco mais ou menos largo, onde tem estabilidade total, você bota o barco dentro da água e o barco não vira, é um barco que tem... é bastante largo o barco. Então você pode se sentar no barco e remar uma, duas, ou três pessoas, pode estar dentro de uma baleeira que ela não vira, é um barco largo, barco bastante pesado. Vamos supor, é um tipo escaler da Marinha, só que o escaler é pequeno. Baleeira é assim, o escaler é um barco tremendamente grande porque remam os fuzileiros, remam os escaler dos navios. A baleeira é um barco assim, é um barco onde uma pessoa vai fazer um lazer, sai com a família e tal, para dar uma volta e tal. Barco largo, barco pesado, pode ir dois, três pessoas e pode remar, a pessoa que rema, rema geralmente com dois remos, um remo em cada mão, remo de cada lado da baleeira, um de bombordo e outro de boreste. Então você rema naquele barco com toda estabilidade, com toda a tranquilidade, é um barco que não oferece nenhum tipo de perigo, pode até pegar uma ondazinha relativamente forte que ele não vira. E as ioles são barcos mais pesados, barcos trincados, onde também o equilíbrio é fácil, mas não é como o barco Shell, chamado barco liso, um barco de casco liso. Esses não, um barco de casco liso, que são os barcos de alto rendimento, esses barcos são barcos olímpicos, barcos sul-americanos, pan-americanos, são barcos como o esquife, double-squife, 4-COM, 4-100, 2-COM, 2-100 e  esquife, esses barcos são barcos que você pode se equilibrar estando com o remo fora da água. O barco é muito sensível, então se você não souber remar direitinho, muito compassado, muito cadenciado o barco cai para um lado e cai para outro. Então o equilíbrio do barco está na altura do punho que você vai para a proa – com o remo na mão -, e volta remando. Você não pode ir uma hora com o remo embaixo e outra hora com o remo em cima, que o barco começa a desequilibrar. Então de fato é um barco muito difícil de remar, é barco que geralmente quem rema é os campeões e tem de ter muito treinamento. Um barco que vira a toa, toa, toa! O esquife é um barco, o mais difícil deles, não é? É uma casquinha de ovo, o esquife pesa, na minha época um esquife pesava 11 quilos, 10 quilos. Hoje em, dia um esquife pesa 5 quilos e meio, 6 quilos. Um 2-100 na minha época, com o Zé Carvalho, ele pesava, com os remos, ele pesava 35 quilos, o barco e os remos. Cada remador com um remo e hoje em dia um 2-100 pesa 15 quilos, 18 quilos. Metade do que pesava o nosso barco, mas em compensação, para a mim é muito mais. E hoje em dia os remadores remam um barco cinco ou seis horas por dia, rema, às vezes de manhã cedo e de tarde, os campeões. Na nossa época nós remávamos duas horas de manhã cedo, uma vez por ano a gente conseguia remar à tarde para aprimorar um pouco mais o barco, mas em geral eram duas horas de manhã, de seis às oito, das cinco às sete, ou até as seis, dependendo dos horários de trabalho dos membros da guarnição. Então terminava ali, tomava um café correndo e ia para o trabalho, ia para a faculdade, ou ia estudar ou ia trabalhar e era tudo diferente. Hoje em dia não, hoje em dia os rapazes já tem aquelas remociclo  aquela espécie de piscina onde tem um rema-rema, ali ele já aprende muita coisa e depois ele já vai para dentro d’água e já tem muito mais horas e já tendo muito mais preparação física fora d’água, com aparelhos que na nossa época não tinha. Na nossa época, nós treinávamos, ou subia a arquibancada do Flamengo ou corria em volta da Lagoa ou pulava corda, ou fazia alguma coisa com peso – que aqui se gostava muito de peso, fazia uma coisa com levantamento de peso, fazia rosca, fazia agachamento, fazia com os pé, enfim, ali dependia muito mais de cada um. Hoje em dia não, hoje em dia tem a técnica é totalmente diferente, os remadores são muito mais altos, são mais fortes, de fato treinam muito mais e pegam a técnica melhor do que na nossa época. Na nossa época, de fato a gente fazia muito mais tecnicamente do que fisicamente. Hoje em dia é um misto, tecnicamente  e fisicamente treinam muito os atletas.

 

P/1 – E a remada continua a mesma ou mudou?

 

R  - Mudou um pouco também a remada, antigamente a remada, tinha remada que se fazia mais com os braços esticados, mais de ombro  - nessa posição - e depois veio uma remada que quebrava um  pouco mais o braço, esticava e quebrava um pouco mais o braço, ou seja não pode fugir com o carrinho, o carrinho tem que  andar compassado com o braço e quando chega no final, na proa, quando chega está totalmente na proa com o joelho encolhido e o remo lá atrás e então aí você pegar água. Isso você quando terminar na ré, a perna está esticada, é uma espécie de sinfonia, não pode escorregar com o carrinho, não pode chegar o ombro primeiro, não pode chegar primeiro na proa o braço para depois chegar o carrinho tem de ser simultâneo, tem de haver sincronismo da pessoa com os movimentos e dos remadores uns com os outros. Isso é conseguido através de treinamento e através de técnicas modernas de treinamento inclusive, essa do remo seco, chamado. E tem também a parte do.... hoje em dia você tem o técnico do remo e depois tem os preparadores físicos, têm os médicos, faz o acompanhamento todo na parte de preparação física. Naquela época não tinha nada disso, não tinha preparador físico, o técnico geralmente não dava preparação física, porque o técnico é técnico de remo. Às vezes um ou outro técnico  ensinava alguma coisa de preparação física, mas de um modo geral não tinha preparação física. Fazia o esporte próprio. Então aqueles que eram mais instruídos, mais espertos, treinavam mais, saltavam corda e subia a arquibancada, como era o caso meu e do José. Nós fomos ganhando, começamos a ganhar e para a gente manter o nosso título de campeão, o nosso nome de campeão, nós treinávamos muito. E o dia dentro da água ficava fácil, né. Eu cansei de correr para provas com o Zé Carvalho e a história está aí, não deixa mentir e nós chegávamos na raia, encostávamos e não tinha adversário, descíamos da raia sozinho. Isso no 2-100.  No 4-100 também houve época em que nós descíamos a raia sozinhos. Porque os adversários não queriam chegar muito atrás, então os técnicos preferiam deixar o Flamengo ganhar aquela prova e distribuir os remadores em outras provas porque sabiam que aquela prova iam perder mesmo. Era o 2-100, o 4-100 e o 8, no 4-COM nós, às vezes também fazíamos isso. Mas enfim, eram poucos remadores que dobravam muito, então todo regata eu corria em algumas provas.  Eu corria duas provas, o David, o Ronaldo, enfim, todos os atletas do clube. E tivemos muitos bons atletas naquela época, de maneira que depois nós nos formamos, um casou, outro foi para aqui, outro para acolá, cada um para um canto e foi desmanchando. E chega num ponto, não é nem pela idade, mas é muito mais pelos afazeres pessoais que os remadores tem de deixar o remo porque não podem continuar naquela loucura de fazer, treinar três, quatro, cinco horas por dia, então tem que procurar sua vida, seu rumo certo e os barcos se desmancham. Porque custa para se fazer um barco, um barco bem treinado, muito coordenado, isso demora algum tempo a ser feito, é especificamente o conjunto. O conjunto é que faz o barco render mais.

 

P/2 – Como eram essas competições, como é que a cidade se movimentava para as competições de remo?

 

R –Bom, quando nós remávamos aqui na praia de Botafogo, era uma festa, tinha até banda de música ali perto do Guanabara, ali na enseada do Botafogo, hoje em dia onde ali é a Sears bem em frente, naquela enseada. A chegada era ali, e isso tinha o Pavilhão Mourisco, ficava cheio de gente o Botafogo era ali, tinha o Lions que era ali, o Clube Lions, o Clube de Regatas Guanabara que já era ali e o Vasco da Gama e o Flamengo que vinham. O Vasco vinha do Calabouço, o Flamengo vinha da praia do Flamengo. E nós corríamos todos ali na enseada do Botafogo, na enseada do Botafogo. Era festa! E tinha regata sim, uma ou duas regatas por mês. Hoje em dia as regatas estão mais espaçadas e naquela ocasião geralmente era assim: os remadores  geralmente corriam duas provas. Eram provas de 15, 14, 18 provas. Então... eram muitas provas, então começava o remo às nove horas e ia até o meio-dia, uma prova atrás da outra. E lá em Botafogo se corria as provas de 1.000 metros. Lá na Lagoa nós éramos 2.000 metros e também, em Botafogo tinha uma prova “Travessia” chamava-se “Travessia”, que era da Urca até o Calabouço, que era 5.000 metros. Essa prova nós também corríamos, corri umas duas ou três e também ganhei. Mas enfim o Flamengo corria, corria o Vasco, corria o Internacional, Boqueirão, o Lage, Piraquê, Vasco, Guanabara, enfim, tinha muitos clubes de regatas. Hoje em dia os clubes foram sendo reduzidos e tem muito poucos. Lá do estado do Rio vinha o Igaraí, vinha o Caraguatá que eram muito bons clubes também, tinha muito boas competições. Então era um dia de festa, de maneira que à tarde, geralmente tínhamos futebol, que as regatas eram sempre aos domingos, nunca a não ser aos domingos. E na Lagoa a coisa não mudou muito não, tivemos na Lagoa até regatas noturnas, tivemos na Lagoa as eliminatórias das regatas no sábado, finais no domingo, enfim, a coisa evoluiu muito.

 

P/1 – E futebol o senhor chegou a assistir, a ir à partidas de futebol do Flamengo?

 

R – Bom, na época em que eu fui presidente, nos anos que eu fui presidente, necessariamente você tem de ir  e torcer muito, senão você já viu? De maneira que mesmo assim, que nós éramos o corpo de  remadores, era muito comum na época, o falecido Arnaldo Costa, que era o Diretor de Remo, ele contratava um ônibus e o ônibus levava todos os remadores para assistir os jogos. E naquela ocasião, nós não tínhamos, até 1950 nós não tínhamos o Maracanã ainda. Então nós íamos para o campo do Bangu campo do Vasco, campo do Madureira e do Olaria e íamos praticamente para dar segurança aos jogadores de futebol, os atletas eram seguranças. Então ia, torcia, todo mundo uniformizado e tal. Quer dizer, e era uma loucura. E não foi em uma ou duas vezes que teve guerra em campo, o pessoal do Vasco e do Flamengo e assim por diante, então os atletas estavam sempre presentes. Era a garantia. Depois no Maracanã a coisa mudou um pouco, no Maracanã a coisa ficou mais difícil, nem  tinham nem contato mais, os atletas nem tinham mais contato com os jogadores porque nós, nas arquibancadas, nas tribunas, nos outros campos não, antigamente chegávamos juntos, ficávamos por ali, perto dos atletas e lá na Gávea também era assim. Nos jogos da Gávea os remadores, não só os remadores, os atletas de um modo geral, o pessoal do basquete era muito forte, sempre muito grande, muito alto, o Flamengo tinha gente muito boa no voleibol, todos andavam juntos. A gente dava sempre apoio ali ao time de futebol, nós todos íamos durante muitos anos. Mas era uma coisa muito diferente, o Maracanã mal ou bem, acredito que foi pelo lado melhor, mas o Maracanã desvirtuou tudo aquilo no início, aquelas idas nossas para Bangu, era uma farra ir para Bangu, demorava duas horas e meia para chegar em Bangu. (risos) E assim íamos em campos menores, pessoal todo ia para assistir e apoiar.

 

P/1 – Uns dez dias atrás eu estava falando com o Sr. Adelmar Burgos, que foi remador, ele...

 

R – Ele foi remador, ele foi remador, um pouco antes de mim.

 

P/1 – Sim, ele me contava que aos domingos ele e outros companheiros do corpo de remo convidavam alguns jogadores, como Bria e Biguá para dar uma volta pela Lagoa. Nos tempos do senhor também acontecia isso?

 

R – Não, já na minha época não porque na época talvez que ele tenha feito isso os barcos talvez fossem ioles ou fossem barcos maiores, no barco alterrigue ou barco Shell é muito difícil você, o cidadão não pode nem entrar no barco, se ele entrar no barco ele é capaz de afundar o barco porque ele não sabe pisar no barco e é verdade. Para pisar na quilha do barco e entrar e sentar no barco e remar muito menos, ele não pode remar ele não podia ir somente como passageiro.  Então fica mais difícil, com o iole, numa baleeira você pode fazer isso, agora nos barcos Shell não pode.  Se entrar, pisou no barco, caiu dentro d’água ou no mínimo vira ou quebra o  barco, aí fica difícil de maneira que não me lembro nunca... nós tínhamos muito contato com os jogadores  no clube, nos dias de treino e sábado e domingo eles também estavam lá no barzinho onde nós tomávamos café. Nós estávamos tomando café e os jogadores que dormiam lá na Gávea ou que chegavam para treinar ou estavam saindo ou chegando do treino, tinham contato conosco lá no bar. E o bar nosso era bem lá na frente que a Lagoa ia aonde até hoje em dia ia as piscinas, a Lagoa ia até lá em cima. Depois é que antigamente dizia: “Bola na Lagoa, bola na Lagoa!” Porque a bola de futebol caia na Lagoa, pertinho do campo de futebol. De maneira que então ali era o nosso bar e aquele bar, teoricamente era um bar para os atletas mesmo, não era nem bar dos sócios, era dos sócios mas só que quem ia lá durante a semana toda eram os atletas, atletas e jogadores de futebol. E íamos tomar o nosso café e etc. 

 

P/1 – E ali também se praticava, na sede da Gávea, o atletismo?

 

R – Praticava atletismo, tinha muito bons atletas na época, tinha um técnico muito bom também na ocasião, tínhamos bons atletas já, e a pista naquela ocasião era uma pista de terra, não tinha pista de tartã, era de terra mesmo.

 

P/1 – Quem eram os...

 

R – Ih, agora eu teria de ter uma memória muito grande para chegar a esses grande campeões da época, mas se eu fizer algum esforço eu sou capaz de lembrar  de algum, mas... Nós tínhamos muito pouco contato com eles, mas tínhamos muito bons campeões, inclusive o Walter Kupper era muito bom atleta, era arremessador, o Edgar que já morreu.

 

P/1 – Santos.

 

R – Edgar Santos, depois foi técnico. O Seu Bi, está aí até hoje, está mexendo com a capoeira, o Seu Bi é um grande companheiro. Tinha o José Telles da Conceição, também foi do Flamengo o José Telles. A Ida, tinha várias outras moças também, corredoras, arremessadoras, tinha muito bons técnicos, muito bons atletas que naquela ocasião... quem era mesmo o técnico do Flamengo? Era um senhor de óculos, como era o nome dele? Foi um técnico de muito renome, esqueci o nome dele... ele era técnico, foi muito bom técnico. Tínhamos bons companheiros sim, tivemos bons atletas no clube. E o Rosalvo, não sei se o Rosalvo da Costa Ramos chegou a ser atleta no Flamengo, que ele era das Forças Armadas, acho que ele chegou a ser do Flamengo, ele era do Vasco, depois foi para o Flamengo. O Edgar foi do Botafogo e depois foi do Flamengo. Quem foi o outro muito bom? Acho que foi do Vasco, o Nunes foi do Vasco, da Polícia Especial, saltador. O Alcides Dabrós foi do Vasco mas não chegou a ser do Flamengo, arremessador. O Waldemar, o Waldemar da Polícia Especial chegou a ser arremessador nosso, arremessava peso no Flamengo. Mas muito bons atletas, grandes campeões tivemos naquela época.

 

P/2 – No caso, se mudava muito de clube ou não?

 

R – Não, na ocasião não, não se mudava muito de clube, a camisa falava mais forte, mas depois começou, por interesse pessoal, vamos dizer, começou alguns atletas se mudando. Por exemplo, tinha vários atletas que eram da Polícia Especial que eram do Flamengo, inclusive o Queiroz quando era comandante da Polícia Especial, nós tivemos vários remadores do Flamengo, que foram grandes campeões e porque ele era Flamengo e então, enfim, daí encaminhava para o Flamengo ou então o chefe direto era Flamengo e então pegava os policiais e mandava para o Flamengo para treinar, iam alguns companheiros. O Roldão Macedo, o irmão do Roldão, João Grande era do Vasco, o Hélio Coutinho era do Vasco também, saltador do. Nós tivemos alguns campeões de remo, de fato muito bons, que eram Polícia Especial, fortíssimos. Então tinha esse problemas, às vezes, o comandante mudava, o chefe mudava: “Vai para o Flamengo!” E ia para agradar o chefe e coisa e tal, mas fora isso, os atletas começavam num clube e continuavam naquele clube, era muito difícil mudar, quase não mudavam de clube porque a camisa falava mais forte. Então hoje em dia está um pouco diferente, hoje em dia o amadorismo, já não tem mais a palavra amadorismo. Hoje em dia, nos próprios Jogos Olímpicos, não se vai se o cidadão é amador ou profissional, se diz que ele é atleta, ele é elegível ou não elegível para os Jogos. E a legibilidade ela é feita de acordo com uma comissão de partidos que existem no C.I.O., Comitê Olímpico Internacional, onde ali eles fixam a regra para o cidadão poder participar dos Jogos Olímpicos. Por exemplo: o tênis. O tênis não pode participar dos Jogos Olímpicos quem 90 dias antes não deixar a A.T.B.,  Associação dos Tenistas Profissionais, que eles entenderam, a comissão tripartite, que tem um representante do C.I.O., representante dos Comitês Nacionais Olímpicos e um representante da Federação Internacional de cada modalidade. Então as tais comissões tripartite é que fixam os critérios para poder participar. E no tênis chegaram à conclusão que o atleta que está com seguro da Associação dos tenistas Profissionais, tem um seguro fabuloso, e esse atleta estando segurado, ele vai em toda a bola, ele pode quebrar uma perna, quebrar o pescoço, quebrar a cabeça, enfim, que ele está segurado.  E o amador não tem, o antigo amador. Então o que é que fizeram? Disseram: “O atleta, todos podem competir, desde que não tenham seguro.” Por exemplo, futebol, chegou-se à conclusão que podia botar três atletas com idade acima de 23 anos. E os três acima de 23 anos ninguém pergunta se é amador ou profissional, jogador de futebol, acima de 23 anos, somente três. Por exemplo, esporte mais sofisticado, os atletas de atletismo chegam num ponto em que eles podem participar dessas tournées mundiais e ter prêmio em dinheiro e ninguém pergunta se ele é profissional ou amador. Mas ele, no dinheiro que ele ganha, até há um ou dois anos atrás, tinha de fazer um depósito num determinado banco, dado pela Federação Internacional, para quando ele deixar de praticar esporte ele ter um fundozinho para ele aqui no banco, quer dizer, uma coisa mais educativa, porque ele não podia gastar o dinheiro todo que ganhava. Então cada um vai tendo as suas regras de participação. Por exemplo, o remo não permite nada. O remo, o cidadão não pode ser nem fuzileiro naval, não pode ser marinheiro, não pode ser, não pode botar nada na roupa, não pode... enfim, ele não pode ser e nem parecer que é profissional do remo, porque eles entendem que por exemplo um marinheiro é um marinheiro profissional, ele mexe com remo, mexe com a água, o fuzileiro naval é um profissional, o carpinteiro naval é um profissional. Eles não podem participar dos Jogos Olímpicos. Então cada uma das modalidades tem as suas características, tem a sua legibilidade. Mas ninguém pergunta se é profissional ou se é amador, por exemplo, a NBA fez  um acordo com o CIO, o time americano de profissionais da NBA e puderam participar de uns anos para cá. E o masculino e agora o feminino também poderá participar. Por que? Porque o único país do mundo que tem um basquetebol profissional, são os jogadores do NBA, então foi possível fazer um acordo. Porque nos outros países não tem futebol organizado como basquete profissional, pode até alguém receber, ter algum contato, mas não é dirigido por uma entidade profissional. E a NBA é uma entidade profissional, no Brasil não, o basquetebol, o voleibol são dirigidos, as entidades dirigidas por esportistas amadores e as entidades são amadoras. Ele não recebem nada, então ninguém vai perguntar se um jogador de basquete tem um contrato porque aqui no Brasil não existe profissionalismo no Basquete, não é reconhecido. 

 

P/1 – Quando é que o senhor foi convocado para a seleção brasileira pela primeira vez?



R – De remo? 1951. 

 

P/1 – E como foi? O senhor lembra o dia, o momento?

 

R – Não, detalhes, não me lembro mais não, foram tantas vezes depois que eu participei de seleções brasileiras que eu não tenho mais ideia, apenas foram tantas que depois de uns certos anos, eu automaticamente eu era convocado porque eram convocados os barcos ganhadores, os atletas dos barcos ganhadores e então automaticamente, como eu fazia parte de barcos ganhadores eu era convocado com os meus companheiros daqueles barcos. E só teve um ano, 1950... não me lembro mais, 1950 e poucos, 1958, 1959, por aí, nós fomos correr um Sul-Americano na Argentina e que nós estávamos mais ou menos fracos aqui no Rio de Janeiro em termos de remo. Então eu fiz um barco misto, eu que liderei um barco misto, que eu era diretor de remo no Flamengo. Eu liderei um movimento e fiz um barco misto: Flamengo e Botafogo para tirar as eliminatórias para correr o Sul-Americano, que era na Argentina. Então esse barco nosso, barco misto ganhou e do Flamengo entrou o Buck, entrei eu, o Buck, o Carlito, Carlos, o Carlito, e entrou o Ronaldo Arantes. Nós quatro do Flamengo com quatro do Vasco, com quatro do Botafogo, era o  Guarda, o Mineiro, o Johnson e o Baianinho e fizemos um 8. E começamos a remar, remamos, remamos e remamos e o técnico do Botafogo, remamos no Parque do Botafogo, um parque chamado Estrela Solitária. E depois fomos para a Argentina correr e conseguimos ganhar da Argentina e foi a primeira vez que o Brasil ganhou um par de 8 fora do Brasil, num Campeonato Sul-Americano, nós ganhamos dentro de Buenos Aires, no Rio Tigre. Nesse dia, teve um dos rapazes que passou mal, teve de sair do barco e entrou um rapaz do Vasco, o Nelson (Guarda?) entrou no centro do barco e nós ganhamos o 8. Então foi assim, naquela ocasião foi uma coisa fabulosa, foi a primeira vez que o Brasil ganhou um 8 em cima dos Argentinos, na terra deles. Foi muito falado na ocasião e depois viemos de lá e depois fomos para o Pan-Americano em Chicago, enfim. Tivemos alguns barcos misto, mas antigamente era muito comum os barcos dos clubes fazer a eliminatória e o vencedor da eliminatória é que ia representando o país. A não ser nessa ocasião, duas ou três oportunidades ou quatro em que houve realmente um barco misto. E para as Olimpíadas de Melbourne fizemos um barco misto. Dois rapazes do Flamengo, eu e o Zé Carvalho e dois rapazes do Vasco, que era o Nelson Guarda e o Rui Couto. Nós pegamos o 2-SEM do Flamengo, era eu e o Zé, abrimos 2-SEM e pusemos o 2-COM do Vasco no meio, que eram fortíssimos os rapazes, eram altos, grandes e fortes, dois gaúchos. E esse barco, ganhamos dos catarinenses que eram campeões sul-americanos, ganhamos deles e adquirimos o direito de ir para os Jogos Olímpicos. E fomos nos Jogos Olímpicos nesse 4-COM. De maneira que poucas vezes aconteceu isso aí, de modo geral era mais comum que os clubes campeões dos barcos se apresentassem. E o remo foi assim e hoje em dia também é assim, poucas vezes se faz bascos mistos. A não ser quando tem um técnico escalado pela Confederação e o técnico então pega alguns remadores de clubes diferentes, reúne e faz treinamento porque o difícil é você fazer um treinamento aqui no Rio de Janeiro, com rapaz de Santa Catarina, Rio Grande do Sul, como é que você vai treinar? A não ser que eles venham para cá ou os daqui passam para lá. Quer dizer, fica difícil, mas quando se pega remadores do Vasco, Botafogo, do Flamengo, que são aqui do Rio, então fica mais fácil. Mas só que aí vem o clubismo, aí não deixa fazer porque o Botafogo não deixa, o Flamengo não deixa, o Vasco não deixa e então o Botafogo faz o barco dele, o Flamengo faz o barco dele, o Vasco faz o barco dele e  tira a eliminatória, e aquele que ganha a eliminatória é que vai.

 

P/1 – O Buck, o senhor falou que ele remou com o senhor. Quando é que ele veio para o Flamengo?

 

R – O Buck, quem botou o Buck como técnico do Flamengo, fui eu. Eu trouxe o Buck para o Flamengo, o Buck remava comigo, então eu trouxe para o Flamengo, era meu amigo pessoal, ele saiu do Vasco e veio para o Flamengo e no Flamengo começou a remar. Eu o trouxe e tirei, na época, eu tirei do Flamengo, não tirei, eu fiz um acordo com o Gastão Martins Figueiredo, que era presidente, da Federação, na época, de remo, ele era de Icaraí, ele levou para o Carapau que era o técnico do Flamengo, saiu do Botafogo e foi para o Flamengo, então ele tirou o Carapau, levou para Icaraí, para movimentar o remo de Icaraí e eu trouxe o Buck para o Flamengo, o Buck, quando veio para remar, ele veio comigo. Depois que ele deixou de remar, então eu convidei o Buck, para ser o técnico do Flamengo, que o Gastão quis levar o Buck, para técnico lá de Icaraí e eu disse: “Não, o Buck vai ficar aqui no Flamengo, remador, vai parar de remar. O Buck remava no Flamengo vários barcos, remou bem o Buck, muito bom remador. Ele remava num 2-COM com o Cabelo de Fogo, o Jorge Rudge Cabelo de Fogo, remava o 4-COM, remava o 8 e ele remava mais o 2-COM com o Cabelo. Muito bom barco. Então o Cabelo parou de remar, o Buck também parou, e o Buck casou e tal, já veio e enfim. Aí o Buck ia parar,  o Buck era Polícia Especial, a Polícia Especial foi pra Brasília, alguns foram para... alguns policiais foram para a polícia marítima, enfim, a Polícia Especial acabou. E o Buck era Polícia Especial e o Buck preferiu sair da polícia para não sair do Rio, não sei se na época ele estava noivo ou já estava casado, mas não importa muito o detalhe. Mas o fato é que o Buck foi então ser o nosso técnico e depois nunca mais saiu do Flamengo. Uma vida inteira no Flamengo como técnico. De maneira que então esse de vez em quando, eu brincava com o Buck: “Buck eu sou o culpado!” “Ah, ele me chamava de compadre.” Eu era o compadre dele e ele botou o nome do filho dele, mais velho, André, em minha homenagem. André Beirado Silva. E o Buck era meu compadre e meu amigo durante muitos anos, a vida inteira.

 

P/1 – Como ele era? Um pouquinho do Buck.

 

R – Era um homem muito voluntarioso, um homem que quando queria uma coisa, trabalhava aquele assunto durante o dia inteiro e tal, dia e noite e nem dormia. Era um homem assim. Ele procurava e ele tinha um objetivo, ele ia até às vias de conseqüências para esse objetivo. Era um homem abnegado. E chegou a ser um bom técnico e tecnicamente ele foi um remador bom. E ele era um homem muito forte, fisicamente muito forte e no início da carreira ele remava mais barcos 2-COM e mais na força, mas depois com o tempo ele ficou muito técnico. Um bom remador. E como tal ele se aprimorou, e principalmente no Flamengo, vendo o Keller que era, que ele remou com o Keller no Botafogo e depois remou no Flamengo também com o Keller e conosco. Que ele foi, ele evoluiu muito, então o tipo de remada que ele ensinava era o tipo mais moderno que ensinava na época. Que tinha essa época, tinha uma remada que chamava ortodoxa, era a remada que andava se utilizando, isso que eu falei o início do barco, os braços esticados, utilizando muito os ombros e o peito. E utilizava muito a perna e geralmente o carril fugia, dava uma pernada e o carril fugia e ele terminava com o braço esticado e quebrava no final. Depois com o correr dos tempos não, o barco era muito mais suave. Esse movimento, no início, no início era assim. O barco, o remo fazia quase que dois movimentos de entrada, fazia uh e uh! E na hora que ele atacava, fazia uh!, o barco e o remo entrava e depois que ele aplicava as pernas e os braços, dava o segundo tempo no remo. Depois com  o tempo não, com o tempo o barco entrava assim: você então fazia isso no barco, é muito mais rápido do que você entrar com o braço esticado. Você fazia assim e pegava já a água, o remo já e nós dizíamos na época que você não podia deixar o barco remar o remo, o remo é que tinha de remar o barco. Se você puser o remo dentro d’água e o barco andando, o barco acaba levando o seu remo, você tinha de impulsionar o barco quando entrava, se o barco estava a 40 quilômetros por hora, você tinha de entrar com o remo dentro d’água a quarenta quilômetros. Se você entrasse com o remo a 35 quilômetros por hora, você parava 5 quilômetros o barco. Você ficava naquela guerra, você para e anda, para e anda, para e anda. Ao passo que se o barco tiver um andamento, a proa do barco, tem a quilha e tem a proa, a proa do barco, ela vai fora d’água, ela vai assim, se ele faz isso, ele está cerrando. Então o que acontece? O barco não está caminhando bem, o barco bom ele caminha assim, mesmo quando os remadores tiram o barco da água, ele abaixa só um bocadinho a proa. E você rema de novo, agora se o barco fizer isso, ele está cerrando e essa remada ortodoxa, antiga, o barco andava assim. E os barcos hoje em dia andam assim. É como se tivesse um motor de popa, ele vai andando sereno. O barco bom anda, caminha assim. Então você tem que, na volta da remada, você tem de deslizar em cima do carrinho para o barco não sentir o seu peso. Você não pode se jogar na proa, fizesse assim o barco cai. Então você termina aqui e você... isso tem de ser muito compassado o barco não sentir, isso é técnica.

 

P/1 – É a tal da sinfonia?

 

R – É sinfonia. (risos)

 

P/1 – Agora, entre 52 e 56, o senhor assumiu, foi diretor do remo e presidente do remo também.

 

R – É. Vice-presidente dos Esportes Aquáticos, na época era esportes aquáticos juntos e eu fui o vice-presidente dos esportes aquáticos.

 

P/1 – Quais eram as preocupações naquela época?

 

R – Bom, é uma época muito mais difícil no sentido de que a gente estava muito mais preocupado sempre em conseguir um barco mais moderno, um carpinteiro naval para consertar os barcos que quebravam muito, consegui com o presidente do clube, consegui que o clube desse alguma  aos remadores alguma coisa no sentido de... por exemplo, dar um café da manhã, uma média e um pão com manteiga porque o sujeito era estudante não podia nem pagar isso, pagando como no bar? Então uma média e um pão com manteiga e os remadores já levavam para o clube, já levavam um sapato, que chamavam de chulipa, um sapato que você bota no remo e chamavam de chulipa. Então você levava o chulipa, era um sapato velho e você levava o seu calção e a sua camisa. Quer dizer, o dia, na hora do treino, às vezes tinha camisa para treinamento, que o clube dava, às vezes não tinha, você treinava com a sua camisa. Então, depois você ia para o banho, terminava o banho, lavava a sua camisa, deixava lá, na época tinha o Aniceto, que era o nosso roupeiro, velho Aniceto, o Aniceto então lavava para a gente ou então a gente lavava, deixava com ele, estendia aquela roupa lá fora no varal e tal, ficava lá fora secando e tal, e no dia seguinte estava a roupa toda sequinha, enxutinha e tal. Hoje em dia você tem “n” peças de roupa dadas pelos fornecedores, o clube dá o café da manhã, o clube dá a roupa lavada e enxugada todo o dia, aí dá tudo o clube. Agora mudou tudo.

 

P/1 – O senhor falou que era natação também, esportes aquáticos.

 

R – Esportes aquáticos, na época nós tínhamos, a natação no início, os nadadores remavam, nadavam lá Praia do Flamengo, 66, nadavam no mar.  No início era lá que nadavam. Depois o Flamengo não tinha piscina, o Flamengo veio ter piscina com o Fadel, em 1900 e... 

 

P/1 – 1965

 

R – Não foi antes disso, o Fade foi antes de 65, o Veiga Brito foi 68, 67, 66. O Fadel foi 65, 64, 63, não sei o Fadel não teve também... se foram só três anos ou se ele teve dois mandatos. Porque depois o mandato mudou de dois para três anos, modificou e tal. Mas foi com o Fadel que se fez a primeira piscina com sobre o radier, piscina que depois ela cedeu. Aí quando eu fui presidente nós demos um jeito de consertar aquela piscina, fizemos uma série de obras e tal. Dolores, um vice-presidente do Flamengo, muito rico, financiava e depois a gente ia pagando como podia. Se também não pudesse pagar não pagava. O Dr. Dolores foi muito bom, fez uma piscina nova e consertou essa que estava meia... O radie cedeu porque ali foi aterro, tudo o que é do Flamengo, do campo de futebol até a Lagoa foi aterro. E até os dois irmãos que pagavam na época 50 centavos por caminhão de aterro, era os dois irmãos – como é  que eram os nomes deles, gente? Pedro e Paulo Ramos Nogueira, pagava do bolso deles. Era cada caminhão que entrava na Gávea, pagava 50 centavos para aterrar a Gávea. Jogar a terra. Então todo o aterro que vinha, de qualquer lugar da zona sul, jogava lá e pagava, o caminhão, 50 centavos do bolso deles. Tem um deles que está vivo ainda, parece que mora em Petrópolis, não sei se é o Paulo ou o Pedro que está vivo. Também deve estar próximo aos 100 anos, por aí, viu? É mais ou menos da época do Quadros, não sei se os dois já morreram. Um eu tenho certeza que morreu, o outro eu não sei.

 

P/1 – E depois da vice-presidência do remo, qual foi o outro cargo que o senhor tem?

 

R – Eu, na época do Fadel eu era Secretário do Conselho Fiscal e fui membro do Conselho Assessor durante muitos anos, esse Conselho de Administração de hoje, antigamente se chamava Conselho Assessor. Depois mudou para Conselho de Administração. E quando eu passei para emérito, laureado benemérito, criaram no Flamengo um título laureado benemérito. O laureado beneméritos eram os laureados que tivessem, continuassem prestando serviço ao clube ou na área do esporte ou na área de administração, poderiam chegar à laureado benemérito. Eu fui o número um e depois o número dois foi um que tem estátua aqui na frente do Flamengo. Mário Aguti. Mário Aguti foi o segundo. Depois acho que se arrependeram, ou arrependeram ou era muito difícil você chegar depois a laureado benemérito porque você tem de fazer “n” anos de serviços, depois de laureado. Então fica difícil isso. Então o que é que fizeram? Acabaram com o laureado, o laureado benemérito e passaram, então, a ser, eu passei de laureado benemérito para benemérito, depois fui a grande benemérito. Mas o fato é o seguinte, eu o Mário Aguti fomos os primeiros que chegamos e eu fiquei muitos anos sozinho como laureado benemérito. Depois o Mário Aguti veio, Mário Aguti era mais velho. Então depois terminaram e hoje em dia é laureado, depois de laureado tem as demais categorias sociais, é benemérito, enemérito, enfim, tem outras categorias normais hoje em dia. Mas aí eu comecei a fazer parte do Conselho Assessor, depois eu fiz parte do Conselho Fiscal, depois fui eleito presidente do Conselho Deliberativo e na época em que fui candidato à presidência, eu deixei a presidência do Conselho, passei para o meu vice-presidente para ser candidato, fui candidato e me elegi. Então fiquei no Flamengo dois mandatos e depois então segui a vida normal. Nos demais Conselhos, depois em 1973, no início do ano, terminei o meu mandato e passei para o Hélio Maurício, modificamos os estatutos que só permitiam uma re-eleição e modificamos os estatutos para permitir quantas re-eleições quisesse o clube. Mas eu preferi, eu que fiz esse movimento para passar essa alteração estatutária, achei conveniente não ser candidato, para não dizerem que eu fiz aquilo para mim. Então convidei o Hélio Maurício, que era o meu vice-presidente, para ser  candidato à presidência do Flamengo. E ele foi candidato único. Porque eu também seria candidato único como eu fui da segunda vez. Fui candidato único. E como o Hélio Maurício foi candidato único, como eu também seria candidato único, mas o Hélio Maurício era candidato único e de lá para cá nunca mais teve candidato único.  Sempre agora tem outros candidatos. Não sei se o Kleber foi candidato único da última vez, não sei. É, não sei se o Kleber na última vez foi candidato único, não sei.  Mas naquela ocasião as eleições eram muito renhidas, era uma guerra, para ganhar por cem votos era uma loucura. Ainda me lembro, ganhei com 127 votos do nosso benemérito Moreira Leite, pessoa de muito renome no clube, muito valor, o Moreira jogou muito basquete, também os outros esportes. Mas de um modo geral ele ajudou muito o atletismo e o basquete. Ele era dono daquela Moreira Leite Esportes, então o que ele fazia para ajudar aos atletas não tinha, não estava no gibi, ajudou mesmo. Então eu acabei ganhando do Moreira a eleição, depois do Veiga. Fui eu dois mandatos e depois veio o Hélio Maurício e dois mandatos, depois veio o Márcio Braga. A vida continua.

 

P/1 – E esse sonho de ser presidente, em que momento isso ficou forte para o senhor?

 

R – É, foi uma história realmente engraçada, porque eu devia ter uns trinta dias de clube, eu estava na rampa do Flamengo lá na 66, o Ângelo era o nosso técnico, era um cidadão baixo, ele gostava muito de mim, me adorava, mas ele tinha um gênio de cão, ele era muito exigente, muito bravo. Então ele... eu cheguei para remar e eu cheguei atrasado e eu remava com uns rapazes que depois, brigou muito no Rio de Janeiro e depois acabou sendo morto e tal, Frederico, Frederico Briguer, morava no Catete. Um rapaz alto e forte, muito forte e remava com o Fred e o Fred era o homem da noite, ele ia para a noite. Então ele chegava no outro dia no clube muito cansado, mas ele era muito forte e eu remava com ele, então determinado dia eu não sei o que houve, se foi um baile, ou coisa parecida, mas enfim, eu perdi a hora, não fui dormir no clube, cheguei em casa muito tarde, sai de casa muito tarde e fui para o Flamengo, na rampa do Flamengo e estavam todos esperando por mim. Nessa ocasião eu estava remando um 2 e remava o 8 também. Então cheguei na rampa do Flamengo e o Ângelo chegou e disse: “Isso é hora de chegar? Você é um irresponsável e não sei o quê! E todo mundo esperando e não é possível uma coisa dessa! E outra vez que isso acontecer eu vou lhe mandar embora.” Eu digo: “Você vai me mandar embora hoje, mas eu ainda vou ser presidente do Flamengo e vou lhe mandar embora.” Então eu tenho testemunhas disso, (risos) estão vivos. Na época eu falei com ele: “Ô seu malcriado e tal!” Foi a primeira vez, que talvez não tenha sido uma pretensão, mas foi uma maneira de eu chegar e dar uma resposta para ele. “Pois eu vou chegar à presidente do Flamengo e vou te mandar embora daqui!” E o Farah sabe disso, o Farah sabe disso, engraçado o Farah foi meu amigo esses anos todos e eu conheci o Farah em 47, ele entrou para o Flamengo em 45 e completou agora há dois, três dias atrás, 55 anos de clube. Então o Farah foi um irmão muito querido, depois trabalhou muito comigo quando eu fui presidente, foi um funcionário espetacular, enfim, é meu amigo até hoje. E o Farah, de vez em quando nós damos boas risadas lembrando daqueles tempos antigos, de coisas do clube. Aqueles nossos, época dos bailes, das domingueiras, na época dos forrós ali embaixo, não era bem forró, na ocasião era...  até eu falei como é que chamava o nome na época, 15 de Novembro tinha o...

 

P/1 - Reco-reco?

 

R – É, reco-reco. 15 de Novembro, até hoje tem o reco-reco, ainda fazem, está mais acanhado, não é como antigamente, mas ainda fazem o reco-reco. 

 

P/1 – Como era o reco-reco?

 

R – O reco-reco, o clube abria, quer dizer, os sócios todos compareciam, mas não abria para o público, eram só sócios e tinha muito chopp à vontade e o pessoal, tinha batucada. O Jean de Almeida ia para lá também, com aquela charanga dele, do Jean e tinha um reco-reco, um bocado de gente tocando tamborim, o pessoal dançando, tomando chopp, todo mundo comendo salgadinho e tal. E quem fazia isso era o Sapo e o Polaca, eles é que eram o chefe disso, dois sócios, sócios antigos. Eles é que faziam tudo isso, soltavam, davam lá o tiro de canhão, soltavam a alvorada, a alvorada era às cinco horas da manhã. Os sócios, os sócios não os moradores da Praia Vermelha ficavam uma fera, porque ia lá para a rampa, dava um tiro e “BUUUUUM! Um canhãozinho pequeno, existe até hoje o canhãozinho do Flamengo, até hoje está aí o canhão, existe. Eles soltavam, davam uns tiros de canhão e depois tinha o toque de silêncio, então nós, de manhã cedo, os remadores entrávamos, fazia o remo de manhã cedo, entrávamos pela parte da frente, que antigamente tinha, não sei se você conheceu, tinha uma parte assim de uns, o Flamengo tinha 17 metros de frente por 125 de fundo e nesse 125 de fundos ocuparíamos mais ou menos o quê? Uns 50 metros mais ou menos que era um espaço vazio que era cimentado. Então ali, na frente do Flamengo, ali é que a gente fazia o reco-reco, embaixo da garagem de remo, embaixo da garagem de remo, em cima do salão de festa. E o reco-reco era ali embaixo. Era uma loucura! Chopp e tal, bebida, só chopp na época.

 

P/1 – E quando era a inauguração... quando é que acontece o Morro da Viúva? 

 

R -  Se não me engano o Morro da Viúva foi em termos de 1955, foi por aí, eu não sei bem a época não, em termos de espaço eu já perdi, mas deve ter sido por aí, 1950 e poucos, presidente Wilton Santos que era presidente, conseguiu um financiamento com o Lar Brasileiro, se não me engano, na época, e o Sul-América, tem um Sul-América que o Lar Brasileiro construiu o Sul-América, arranjou terreno e enfim, o presidente Eurico Gaspar Dutra arranjou o terreno, fez um decreto, arranjou o terreno, enfim, o Sul-América e o Lar Brasileiro, não sei qual deles, fez um acordo e aí foi feito aquele prédio que hoje em dia é chamado de Wilton Santos. Foi em termos de 1955, por aí. Eu me lembro que na época nós deixamos praticamente saiu todo mundo da Praia do Flamengo 66 e fomos para a Praia do Flamengo, 55. Praia do Flamengo, Morro da Viúva. Então começou, eu quando fui presidente, eu funcionava no terceiro andar,  toda a parte administrativa era lá, toda ela. Aonde existe, até hoje está desocupado, tem um salão de festas, existe, tem um salão de festas e tem mais um andar e naquele andar de cima é que era a parte administrativa. 

 

P/1 – Aí o reco-reco passou a ser lá?

 

R – Não, o reco-reco não foi... foi sempre lá, porque a Praia do Flamengo 66 funcionou até, 1970, sei lá, 1,2,3,4,5, 6, se não me engano, sei lá. Até no tempo do Márcio, então funcionou a Praia do Flamengo 66.

 

P/1 – Primeira gestão do Márcio? 77,79.

 

R – Foi feito aquele acordo para fazer os quartos andares, e ficar para nós, alguns apartamentos que ficaram para o Flamengo, foi o Márcio que fez esse acordo. O Hélio Maurício tinha conseguido, ele e o Fernando Pereira da Cunha, eles tinham conseguido e aí passaram o gabarito para vinte ou trinta andares, enfim, que antigamente o gabarito era de seis ou sete andares. Então não ia compensar fazer ali um prédio, então quando conseguiram aumentar o gabarito, então houve a licença, houve a negociação e fizeram ali um bloco atrás e um bloco na frente. Tem até hoje lá. Aí o Flamengo ficou com alguns apartamentos lá e depois venderam. Mas o fato é que isso foi até 1970 e alguma coisa. Será, será que foi 76? Não, foi mais, 79, 78 ainda tinha a sede velha. Tenho quase certeza disso, com o tempo a gente vai perdendo a ideia do tempo e do espaço, né? Mas aí até o reco-reco funcionava lá, a gente jogava pelota lá até 1970 e pouco, eu joguei pelota lá. Setenta e sei lá, 7,8,9, por aí. Por aí, nós jogávamos pelota. Pelota de mão numa quadra que tinha atrás do Flamengo, tinha uma quadra de pelota, ainda existem, alguns no Rio, chamam de pelota basca mas é pelota de mão. É a bola de tênis, que você descasca a bola de tênis, fica só aquela pelota, tem uma parede, com um batente, tem uma parte de cima que é de lata e embaixo de lata e tem a parte do meio que a bola tem de pegar ali e voltar. Então você bate, aquele que jogar a bola na lata, mala, malou, aí é ponto para o outro e assim vai. Quer dizer, esse pelota é muito jogado na Espanha e Portugal. Lá eles jogam muito com luva ou jogam muito com a raquete, nós jogávamos com a mão, que isso era mais jogado pelos remadores e os remadores tinham a mão toda calejada de maneira que tanto faz bater aquilo com a mão. É melhor bater sem a luva. Nós jogávamos pelota e lá na Espanha é pelota basca. Aqui ainda tem, o Monte Líbano tinha uma quadra e acabou, mas aqui no Boqueirão eu passei e ainda tem. No Internacional ainda tem uma quadra, em Icaraí ainda tem uma quadra e parece que no Vasco tem um quadra. 

 

P/2 – Eram mais os remadores que jogavam? 

 

R – É um exercício tremendo aquilo e para os sócios e lá na Gávea nós tivemos duas quadras muitos anos, depois é que terminaram as quadras, era daquele lado do...

 

P/1 – Outro dia eu falei com o senhor Owens Castenazi?

 

R - Owens Castenazi foi na época em que eu era presidente, ele era presidente do Conselho Fiscal.

 

P/1 – Ele me disse o seguinte: que o Flamengo foi hecta-campeão dos Jogos Infantis na década de 60, 70.

 

R – É, até princípio de 70.

 

P/1 – Quais eram os esportes que se destacavam, esportes amadores que se destacaram no Flamengo?

 

R – Bom, ali é um pouco diferente, porque tinha aquele desfile que era feito pelo Jornal dos Esportes, o Jornal dos Esportes é que fazia e tinha as pessoas que cuidavam daquilo e o Flamengo também tinha um sócio que também cuidava, especificamente dos Jogos da Primavera. E tinha a Rainha da Primavera. E dos esportes tinha atletismo, que era o forte da competição era o atletismo, em alguns anos puseram esgrima, remo nunca teve nos Jogos da Primavera, não me lembro se tinha vôlei e basquete, não me lembro. É possível que tivesse sim, pelo menos vôlei é possível que tivesse, mas remo não tinha, futebol também não tinha. O forte era o atletismo, que era forte.

 

P/1 – Ginástica também?

 

R – Ginástica, naquela ocasião o Flamengo quase não fazia, a ginástica do Flamengo era muito pouco ainda naquela época já tinha, mas fazia muito pouquinho, o Flamengo estava muito acanhado e depois de um certo tempo é que o Flamengo melhorou a ginástica. Eu até acho que a ginástica melhorou na minha época em que fui presidente, eu dei muita ênfase à ginástica, tinha, eu vinha já ligado à CBD antiga com o Havelange que eu fui diretor como Havelange desde 1950, se não me engano 58, 59, eu conheci este vice-presidente de Esportes Aquáticos da CBF, CBD antiga, e fui até 69 quando eu deixei, quando eu fui ser presidente do Flamengo. Então primeiro tinha sido diretor, presidente da Comissão de Regatas da CBD, depois fui para diretor de Esportes Aquáticos, depois vim para o Flamengo e depois voltei com o Heleno Nunes como diretor de futebol, isso é 1975, eu voltei quando o (Getúlio) já tinha deixado o Flamengo. Mas naquela ocasião a CBD tinha muitos esportes, dirigia 23 desportos e desses 23 esportes tinham muitos esportes que o Havelange era sensacional. O que ele fazia com esses esportes amadores era uma loucura! Ele gastava dinheiro, incentivava de fato e era o pessoal todos de clube, que ele levava para lá para ser dirigente com ele na CBD. Ele era ligado ao Fluminense e tal, mas ele era um tremendo desportista. Então o Havelange veio da natação e do water-polo, ele era dos Esportes Aquáticos.

 

P/1 – Seu André, vamos fazer uma paradinha? 

 

R – Vamos.

 

P/2 – Eu tenho uma curiosidade em relação à essas mudanças da sede do Flamengo, do Morro da Viúva e tal como é que os sócios viam essas mudanças? Havia reação dos tradicionalistas, como é que isso ficava?

 

R -  Na época em que se mudou para o Morro da Viúva, um salão de baile muito maior, muito melhor, os sócios do clube, vamos dizer, gostaram, mas estranharam porque estavam acostumados com a Praia do Flamengo, 66. Mas a Praia do Flamengo 66 continuou com os bailes de carnaval e depois foi arrendado lá para fazer uma série de bailes e tal, continuou. Então ficou mais o baile de gala do clube passou a ser na sede do Morro da Viúva e mais sofisticados, um prédio bonito, um prédio novo naquela ocasião e o outro continuou também com os sócios que estavam acostumados lá, iam lá. Mas não houve muita, não houve assim... não estranharam muito não porque na Gávea não tinha nada. Na Gávea era só a parte esportiva, como praticamente até pouco tempo. Uma coisa que se fez na Gávea, se não me engano no tempo do Márcio Braga, foi um baile de carnaval ali naquela quadra nossa, que até quem construiu aquela quadra foi na nossa presidência, eu que construí. A Brahma que nos deu aquela quadra debaixo da arquibancada. Fizemos ali um piso muito bom, fechamos do lado, enfim, fizemos ali uma quadra, já tinha a arquibancada, mas fizemos embaixo um ginásio e pusemos um ginásio na época. E quem fez aquilo foi a Brahma. Mas o fato foi o seguinte, ele queria ali e ele fez o primeiro baile de Gávea, grande, um baile de carnaval, foi ele que fez. Não sei até se fez um pré-carnavalesco, acredito que não, fez um baile de carnaval. Porque até então era na sede velha e depois passou para a sede nova e sede velha, geralmente a sede velha tinha o baile infantil e tinha na sede velha e na sede nova e então na sede velha, 66. Mas não teve muito problema, não. Teve logo no início, muitos sócios foram morar no prédio, a condição si ne qua non para morar naquele prédio, eram 156 apartamentos, a condição si ne qua non é que fossem sócios do clube, para morar no prédio. Então tinha um aluguel barato, mais ou menos barato, um aluguel comercial mais barato para os sócios do clube. Então foram escolhidos os sócios para morar ali e então tinha muitos sócios que começaram a gostar de fato de estar ali com os bailes e com os movimentos sociais do clube. Que era pouco movimento social. Na época em que eu fui presidente, que eu dei um pouco mais de ênfase à parte social, depois novamente caiu, a parte social nunca foi muito forte, não. Não é muito fácil não, mas na época da sede velha tivemos lá grandes bailes na sede velha. Bailes de carnaval famosos  e as domingueiras eram famosas também, iam a rapaziada toda da praia e tal. Era do Flamengo. Tijuca fazia na Tijuca e nós fazíamos aqui na sede do Flamengo, na 66. Eram as duas domingueiras dançantes que tinham na época. Isso nos idos de 50, é brincadeira?  49,50,51. E engraçado é que naquela ocasião lá na Tijuca, era coisa de militar, os alunos da Escola Militar, todos iam para a festa da Tijuca. E aqui na Praia do Flamengo não, aqui na Praia do Flamengo só ia o pessoal aqui da praia. Então era gozadíssimo, o pessoal tinha aquela rivalidade, o pessoal da Praça Saens Penha com o pessoal da Praia do Flamengo. Saía até briga. Uh! O pessoal daqui ia para lá, de lá vinha para cá para brigar, é mole? (risos) A vida era outra de fato, tinha aquele footing na Praia do Flamengo, ficava as mulheres de um lado, os homens de outro, passeando ali, footing, isso acabou tudo. A Vida... depois fizeram aquelas pistas maiores, fizeram o aterro e aquilo modificou muito.

 

P/2 – Como é que eram os footings?

 

R – Tinha o footing naquela calçada, tinha o footing, ficavam os rapazes e as moças passeando e os rapazes para lá e pra cá, tinha no cinema São Luís, tinha o footing na porta do cinema São Luiz, naquela praça, como é que é a Praça, lá no Largo do Machado. Ali era frequentado pela rapaziada, tinha um pessoal no Largo do Machado e o pessoal da Praia, depois fazia o footing e ia para lá depois. Tinha o cinema São Luís, tinha o Cinema Polytheama, depois ficava por ali e tal e a vida social da rapaziada era isso. Outros tempos.

 

P/1 – Se o senhor fazias remo, trabalhava, estudava, quando é que o senhor se divertia?

 

R – O atleta sempre dá jeito de se divertir. (risos)

 

P/1 – E qual era a diversão naquela época?

 

R – Cinema, teatro muito pouco, fazia o footing e as  domingueiras, sábado e domingo tinha as domingueiras dançantes e era isso que a gente fazia. Naquela ocasião não tinha muita coisa para fazer, não. Hoje em dia o que é que faz a rapaziada? O que faz? Praia também nós íamos, na Praia do Flamengo tinha a... depois que aterraram a praia modificou um pouco, era maior naquela ocasião, tinha praia mesmo próximo ali da murada. Tinha uma praia grande ali. Então tinha a praia e nós íamos à praia e de vez em quando nós íamos para Copacabana e Ipanema, mas era muito raro. Quer dizer, o pessoal que morava por lá, ia lá, pessoal que morava em Ipanema, quer dizer, eu morava em Ipanema, eu ia à praia de Ipanema, mas eu frequentava lá por causa do clube, minha turma toda era de lá, não era de Ipanema. E também eu morei numa ocasião perto do Largo do Machado, morei na Rua Dois de Dezembro com meu irmão. Então o que aconteceu? Os amigos que estudavam na faculdade, é próximo, e depois meu irmão foi para o Paraná, foi estudar no Paraná, eu então para não ficar sozinho, que era muito caro o quarto, já pensou morar num quarto caro como o diabo, eu voltei para Ipanema morar na casa dos meus parentes. É a vida, está tudo diferente. Eu me lembro quando a primeira vez eu comprei um carrinho para mim em 19... quando é que eu comprei esse carro, gente? Foi em 1949, eu comprei um Renault rabo quente, Renault rabo quente, é brincadeira, eu de Renault rabo quente. Chegava no Colégio ______, parava o meu carrinho na porta e as meninas choviam... (risos) Depois na faculdade, chegava de carro na faculdade, Renault rabo quente e depois eu melhorei, depois eu passei para um Citroen, comprei aquele Citroen que foi do Afrânio de Melo... aquela moto do (crime de Sacopan?), entendeu? Eles puseram aquele carro em leilão e eu comprei aquele carro, ninguém quis comprar aquele carro do (crime de Sacopan?), fui lá, comprei o carrinho, mandei arrumar o carro, tinha um francês amigo meu, Jacques,  o Jacques mexia no Citroen, só eles que mexiam. Então ele disse: “Compra que está joia o carro!” E aí eu comprei o Citroen e ele era preto e ele disse: “Faz uma coisa, vamos tirara essa pintura preta e vamos colocar uma pintura cinza. Vai ficar o máximo!” E aí pintamos o Citroen de cinza e foi uma loucura. O Citroen todinho de cinza, uma beleza de carro. Então, quer dizer, eu tinha uma situação de vida relativamente boa. E depois também, aí eu me formei e trabalhando e tal, me formei e fui ser procurador do Serviço Social, isso quando me formei em 53 e aí eu já estava com, outra situação, procurador. Naquela ocasião era ordem de penacho, ordem de penacho, vocês nem sabe o que é isso. (risos)

 

P/1 – O que é isso?

 

R – Ordem de penacho eram os funcionários públicos que mais ganhavam naquela época, chamavam de ordem de penacho, então ordem de penacho, tinham poucos funcionários públicos que tinham ordem de penacho, a não ser os procuradores de estado e alguns outros funcionários, poucos que tinha ordem de penacho e então o pessoal dizia que ordem de penacho deixava o paletó na cadeira, funcionário público, a hora que chegava o chefe o paletó estava na cadeira mas o sujeito não estava trabalhando, ordem de penacho. Tem uma música. Você lembra dessa música? Ih, essa música Ordem de Penacho foi famosa no carnaval, cantada por aquele General da Banda. Ele que cantava essa música da ordem de penacho. Tinha o paletó na cadeira, tinha essa música na época. Então eu comprei naquela ocasião, naquela época, 54, eu me formei em 53, em 54 em comprei uma Cadillac conversível, rabo de peixe, aquele carro ia daqui àquela porta lá, era um tremendo carro. Quem me vendeu esse carro foi o Braguinha, Braguinha me vendeu esse carro e aí eu comprei esse carro do Braguinha e um tremendo carro, preto, com capota branca e todo branco por dentro. O carro era um negócio, o carro. Saía em Ipanema e Copacabana com o meu carrinho e conversível! (risos) A vida estava para mim naquela época, 1950 e poucos, grande campeão de remo, conhecido, uma época boa! Época boa. A vida nunca mais volta essa época, 50 e pouco. Ih! A vida seguiu.

 

P/1 – Infelizmente a gente vai ter de encerrar.

 

R – Encerramos, é. E vamos jogar conversa fora.



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